Por Rangel Alves
da Costa*
Erroneamente,
ao se falar em Lampião logo vem a lume aspectos dizendo respeito ao maior dos
cangaceiros que já existiu nas terras nordestinas, o exímio comandante e
estrategista conduzindo o seu bando, as façanhas guerreiras, o quase invencível
combatente, o insurgente contra as injustiças sociais reinantes no seu tempo.
E erroneamente porque ao se pensar assim o fenômeno Lampião, logo estará
abrindo um fosso entre o cangaceiro e o homem. E é nessa divisa, na
visualização entre o Virgulino e o Lampião, que deve partir todo o entendimento
sobre quem verdadeiramente foi esse homem, o que o guiava na sua luta, quais os
seus verdadeiros objetivos em manter uma vida tão perigosa ao lado de tantos
que lhe deviam respeito e adoração.
Entender Virgulino, e também Lampião, exige um enveredar na busca do
conhecimento do homem mais do que qualquer outra coisa. Ora, quem um dia, por
força das circunstâncias ou não, decidiu levar uma vida errante foi o cidadão
Virgulino Ferreira da Silva, o rapazote das bandas pernambucanas de Vila Bela.
Por outro lado, quem já estando na estrada um dia se fez líder, o maior entre
todos os cangaceiros, foi Lampião. Virgulino repousava por baixo da pele
lanhada de espinho e de sol, na inquietude de seu espírito, nas reminiscências
próprias, íntimas e familiares, que nunca deixou de ter. Já o Lampião se fazia
do olho adiante, debaixo do pé, no passo que dava. Este não vivia em função do
homem Virgulino, mas como necessidade de se manter e se fazer ainda mais
Lampião.
Juriti, Sabonete e Lampião - Sabonete era irmão do cangaceiro Borboleta
Aquele outro, o Virgulino, era o de nome e sobrenome, trazia na mente as
recordações, as dores e os sofrimentos, mas também as alegrias do passado. Era
o sujeito moreno, de média estatura, cabelos um tanto escorridos e desgastados,
chegado a magro, com uma deficiência no olhar já adquirida na idade adulta.
Neste repousava o coração, os sentimentos, o vigor físico, a disposição para a
luta.
E ainda neste a infância, o percurso feito de meninote a rapaz, o trabalho na
terra, a lide diária na família pobre em relação aos poderosos de então, os
sonhos de todo rapazote, as raivas, o ódio criado quando da perseguição dos
seus; a dor pela morte do parente, o sofrimento pela raiz familiar esfacelada,
a difícil decisão tomada, a decisão em si e suas consequências, o adeus. E
quando ele deu adeus e passou cancela adiante ainda era o Virgulino, o homem
dentro da pessoa que era, para em seguida ser apenas de alcunha e renome.
Contudo, antes da tão conhecida transformação, quando de liderado passou a ser
líder maior, há ainda um espaço no homem fazendo uma ligação entre o que era e
o que passou a ser. Não é de hora pra outra que uma pessoa se reconhece
plenamente capaz de fazer aquilo que escolheu, nunca basta um querer para que
tudo aconteça segundo o desejado. Neste momento ainda surgem as dúvidas e os
temores.
No meio do mundo, já muito além da cancela de casa, ainda que sempre
acompanhado de irmãos que enveredaram pelo mesmo caminho, Virgulino ainda não
tinha deixado de ser mais a si mesmo do que a outro, aquele que viria
crepitosamente mais tarde. Já sabendo bem o que queria, e que não era
propriamente a continuidade de uma vingança pessoal contra os inimigos da
terra, ainda assim buscava o reconhecimento com base na sua coragem, astúcia e
firme personalidade.
Neste momento, neste percurso que ainda fazia para o reconhecimento, o homem
procurava compartilhar seus sentimentos de indignação e ódio contra as
injustiças sociais, contra os poderosos que tantas perseguições faziam, contra
todos aqueles que semeavam os desmandos e abusividades pelo sertão. Estando
vivendo uma nova realidade e com tais objetivos, logicamente que a luta que
começaria já nascia plenamente justificada.
E justificada principalmente porque a opção pela vida cangaceira logo afastaria
de si qualquer semelhança com criminosos comuns, com assassinos cruéis,
bandidos de beira de estrada, com jaguncismos e pistolagens. Ora, basta ver que
nem antes nem depois de se transformar em Lampião, Virgulino jamais aceitou
matar por dinheiro, praticar crime de mando como um bandido qualquer. Talvez aí
esteja uma essencial diferença entre o cangaço e o banditismo.
Seguindo percurso e destino, e já cortando estradas distantes, muito além das
redondezas de origem, o homem já se firmava verdadeiramente como tal. Já estava
no caminho que havia escolhido, tinha ciência das consequencias da nova vida
abraçada, estava resoluto em seguir adiante e deixar de ser subordinado, apenas
um entre tantos homens de bando cangaceiro, para se tornar num líder.
E quais seriam, então, as principais características que Virgulino deveria
demonstrar para se tornar Lampião, em verdadeiro líder? Ora, nessa vida de
guerras e guerrilhas sertanejas, quando o momento invoca rapidamente uma única
forma de agir, sem tempo para pensar ou ponderar sobre o pior ou o melhor,
logicamente que a experiência diante de cada situação surgida é o grande
diferencial de um líder que quer sair vencedor.
Daí que as experiências adquiridas por Virgulino nos seus momentos de
subordinado, quando sentiu as fragilidades e as forças nas ações levadas a
efeito, não ficaram apenas a serviço do bando ao qual servia. Enquanto uns
apenas agiam e depois relegavam o aprendizado, ele guardava cada experiência
vivenciada como algo a ser sempre aprimorado.
Assim, quando decidiu tomar as rédeas do seu destino e formar o seu próprio
bando, apenas procurou aprimorar os conhecimentos adquiridos sobre estratégias
de defesa e de ataque, sobre os sinais da presença do inimigo, a rede de
relações pessoais que deveria manter com a sertanejada, a influência que
deveria conseguir e manter perante autoridades e poderosos.
Neste momento já era Lampião, já era aquele que fazia mosquetão alumiar e
inimigo desabar, já era o líder cangaceiro, já era o chefe a quem todos deviam
respeito e obediência. Até chegar a esse estágio passou por constante
aprimoramento, por lições que não eram aprendidas senão no calor da luta, pelo
desenvolvimento de manobras capazes de reverter as situações mais favoráveis. E
tudo no mesmo instante em que se embrenhava pelas veredas de sangue, sentia a
bala zunindo adiante e derredor, via o amigo ferido, sentia o outro já sem vida
por cima das pedras bicudas.
Conhecendo tais aspectos e direcionando seus comandados para vencer armadilhas
e emboscadas, impondo estratégias de não deixar rastros nem sombras do
paradeiro, foi seguindo adiante, circundando, retornando ao mesmo lugar para
fazer bem feito. E nesse ir e voltar, na extensa rede de relacionamentos que
mantinha, criou dentro de si uma espécie de mapa mental. E a partir dele
visualizava todo o sertão, cada lugar inimigo, cada caminho de fogo, cada
abrigo mais seguro, cada coito e refúgio de pernoite.
E mesmo se tornando completamente Lampião, extraía de dentro do homem Virgulino
que nunca deixou de existir tudo aquilo que precisava para não se desumanizar,
para não perder a temência a Deus e a fervorosa religiosidade, para não se
afastar dos sentimentalismos próprios de quem que precisava refletir sobre si
mesmo, sobre sua vida e tudo aquilo que acontecia ao redor.
Nesse momento, saindo um pouco de Lampião e se voltando ao Virgulino,
demonstrava o amor que sentia por sua Maria, fazia as amizades, cantava no
coito alguns prazeres que certamente possuía naquela vida difícil. Era o
cangaceiro humano, o Capitão amigo de sua tropa, o homem que conversava e não
escondia o seu desejo de um dia deixar aquela vida e poder armar uma rede num
alpendre sertanejo. Viver, simplesmente poder viver.
Assim, quando na madrugada de 28 de julho de 38 foi cercado e chacinado na
Gruta do Angico pela volante alagoana comandada pelo Tenente João Bezerra,
tombou e morreu apenas o homem Virgulino. Lampião continuou vivendo nos braços
da história na mente do povo sertanejo. E assim se eternizará.
Poeta e
cronista
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