Autor Euclides da Cunha
Opulentada de esplêndidas minas, aquela paragem é malsinada pela própria opulência. Procuram-na há duzentos anos irrequietos aventureiros, excitados pelo anelo de espantosas riquezas, e estes, esquadrinhando afanosamente os flancos das serranias e as nascentes dos rios, fizeram mais do que amaninhar a terra com a ruinaria das catas e o indumento áspero das grupiaras; legaram à prole irradia e, de contágio, aos rudes vaqueiros que os precederam, a mesma vida desenvolta e inútil livremente expandida na região fecunda, onde por muitos anos foram moeda corrente o ouro em pó e o diamante em bruto. De sorte que sem precisarem despertar pela cultura as energias de um solo em que não se fixam, e atravessam na faina desnorteada de faiscadores, conservaram na ociosidade turbulenta a índole aventureira dos avós, antigos fazedores de desertos. E como, a pouco e pouco se foram exaurindo os cascalhos e afundando os veeiros, o banditismo franco se impôs-se-lhes como derivativo à vida desmandada.
O jagunço, saqueador de cidades, sucedeu ao garimpeiro, saqueador da terra. O mandão político substituiu o capangueiro decaído.
Imaginem que dentro do arcabouço titânico do vaqueiro estale, de súbito, a vibratibilidade incomparável do bandeirante. Teremos o jagunço.
Todo o vale do rio das Éguas e, para o norte, o do rio Preto formam a pátria original dos homens mais bravos e mais inúteis de nossa terra. Um lugar se destaca sob um aspecto especial: o do Bom Jesus da Lapa. É a Meca dos sertanejos. A sua conformação original, ostentando-se na serra de grimpas altaneiras, que ressoam como sinos; abrindo-se na gruta caprichosa, cujo interior recorda a nave de uma igreja, escassamente aclarada; tendo pendidos dos tetos grandes candelabros de estalactites; prolongando-se em corredores cheios de velhos ossuários diluvianos; e a lenda emocionante do monge que ali viveu em companhia de uma onça – tornaram-no objetivo predileto de romarias piedosas, convergentes dos mais longínquos lugares, de Sergipe, Piauí e Goiás.
Ora, entre as dádivas que em considerável cópia jazem no chão e às paredes do estranho templo, o visitante observa de par com as imagens e as relíquias, um traço sombrio de religiosidade singular. Facas e espingardas. O clavinoteiro ali entra, contrito, descoberto. Traz à mão o chapéu de couro, e a arma à bandoleira. Cai genuflexo, fronte abatida sobre o chão úmido de calcário transudante. E reza. Sonda longo tempo, batendo no peito, as velhas culpas. Ao cabo, cumpre devotamente a promessa que fizera para que lhe fosse favorável o último conflito que travara; entrega ao Bom Jesus o trabuco famoso, em cuja coronha alguns talhos de canivete lembram o número de mortes cometidas. Sai desapertado de remorsos, feliz pelo tributo pago. Amatula-se de novo à quadrilha. Reata a vida temerosa.
Há no entanto uma ordem notável nos jagunços. Batendo-se lealmente pelo mandão que os chefia, resumem as desordens às minúsculas batalhas em que entram, militarmente, arregimentados. O saque das povoações que conquistam, tem-no como direito de guerra, e neste ponto, absolve-os a história inteira. Fora disto, porém, são raros os casos de roubos que consideram desaire e indigno labéu. O mais frágil positivo pode atravessar, inerme, procurando o litoral, aquelas matas e campos, com os picuás atestados de diamantes e pepitas. Não lhe faltará um só no termo da viagem. O forasteiro alheio às lutas partidárias, atravessa-os igualmente imune.
Não raro um mascate, seguindo por ali, com os seus cargueiros rengueando ao peso das caixas preciosas, estaca, tremendo, ao ver aparecer de frente um grupo de jagunços acampados na volta do caminho... Mas perde em momentos o medo. O clavinoteiro-chefe aproxima-se. Saúda-o com boa sombra; dirige-lhe a palavra, risonho, e mete-lhe à bulha o terror, galhofeiro. Depois lhe exige um tributo: um cigarro. Acende-o numa pancada única do isqueiro; e deixa-o passar, levando, intactas, a vida e a fortuna. São numerosos, casos desse teor, revelando notável nobreza entre aqueles valentes desgarrados.
O cangaceiro da Paraíba e Pernambuco é um produto idêntico, com diverso nome. Distingue-o o jagunço talvez a nulíssima variante da arma predileta: a parnaíba, de lâmina rígida e longa suplanta a arma tradicional do clavinote de boca de sino.
Brasil Social : Revista quinzenal ilustrada (RJ) - 1925
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