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domingo, 4 de dezembro de 2011

FOTO MOSTRA A PRESIDENTA DILMA EM UM INTERROGATÓRIO EM 1970

Por: Rostand Medeiros 
Photo

 
Uma foto da presidenta Dilma Rousseff em preto e branco durante um interrogatório na sede da Auditoria Militar no Rio de Janeiro foi publicada na edição da revista Época que começou a circular neste fim de semana. A imagem da presidente com 22 anos, sendo interrogada por oficiais faz parte do livro “A vida quer é coragem”,
do jornalista Ricardo Amaral, que chega às livrarias nesta primeira quinzena de dezembro, segundo a revista. Na foto, Dilma aparece de cabelos curtos, camiseta clara e calça jeans. A imagem teve repercussão nas redes sociais neste sábado. Segundo o livro, base da reportagem publicada pela revista, no dia do interrogatório, Dilma já passara por 22 dias de tortura. O livro de Amaral relata a trajetória de Dilma desde a juventude, em Belo Horizonte (MG), quando ingressou em organizações de luta armada contra o regime militar, até a eleição como presidente. O jornalista mineiro Ricardo Amaral foi assessor da presidenta Dilma na Casa Civil e durante a campanha eleitoral de 2010.
Nota do administrador do blog – Ao postar este material, a nossa intenção em nenhum momento possui qualquer sentido político em relação a Presidenta. Mas apresentar uma situação um tanto estranha e que pessoalmente nunca tinha visto; o fato dos militares presentes a uma seção oficial, em um ambiente extremamente controlado, sendo eles graduados oficiais, fardados, no auge da Ditadura Militar, que estavam cumprindo suas obrigações quanto servidores da nação, estarem descaradamente escondendo a cara. Do que eles queriam se esconder?
Será que estes homens fardados tinham vergonha do que faziam? Ou eram adivinhos em relação ao futuro do país?
Cumpri o serviço militar em 1986 como um simples soldado, como qualquer cidadão brasileiro faria. Mas nunca tive vergonha da farda que vesti.

Extraído do blog: "Tok de História", do historiógrafo
Rostand Medeiros 

Lampião sua morte passada a limpo

Lampião sua morte passada a limpo
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Algumas considerações sobre os Heróis da Resistência - 20 de Junho de 2010

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Em 13 de junho de 1927, num dia de segunda-feira, a cidade de Mossoró foi invadida por um grupo de cangaceiros chefiados pelo famoso Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião.
Mossoró, no entanto, havia se preparado para esse confronto, resultando no saldo funesto de um cangaceiro morto, outro que foi preso e posteriormente “justiçado” pela polícia, além de outros cangaceiros feridos, ao que consta, mas sem comprovação de baixas. Do lado dos defensores da cidade, nenhum ferimento: Vitória total. 
Os personagens que participaram ativamente do combate foram homenageados como Heróis da Resistência e tiveram seus nomes perpetuados em placa de bronze e nos livros de História, numa ação louvável, pois todos aqueles arriscaram a própria vida em luta com experientes malfeitores. Mas na lista dos “Heróis da Resistência de Mossoró” existem nomes, e nomes bem conhecidos na cidade, que o ato heróico praticados por eles são, digamos assim, questionáveis, como veremos a seguir. 
 
Vamos começar pelo Cel. Gurgel. Vejamos o que diz o Dr. Raul Fernandes, filho do prefeito Rodolfo Fernandes e autor do livro “A Marcha de Lampião – assalto a Mossoró”. 
“Antônio Gurgel do Amaral, destacada figura nos meios públicos e sociais do Estado, encontrava-se em Mossoró. Em virtude dos boatos alarmantes da penetração de cangaceiros no solo potiguar, viajou de automóvel à Fazenda “Brejo”, herdade da família, próxima ao lugarejo Pedra de Abelha, atual Felipe Guerra, a fim de apanhar a esposa. 
O chofer, Francisco Agripino, apelidado de Gatinho, não conhecendo a estrada, sai justamente na localidade Santana, onde Lampião e seu bando se encontravam acantonados. O carro foi parado pelo cangaceiro Coqueiro e o Cel. Gurgel foi preso até que os familiares pagassem a quantia de quinze contos de réis por seu resgate. 
Quando o Cel. Gurgel foi levado à presença de Lampião, encontrou dois outros irmãos que já se encontravam prisioneiros, José e Fausto, pelos quais Lampião exigia a quantia de cinco contos de réis pelo primeiro e um conto de réis pelo segundo. Para se ver livre do bando, o Cel. Gurgel escreveu um bilhete solicitando a Jaime Guedes, gerente do Banco do Brasil e seu genro, no qual expunha a situação em que ele e os irmãos se encontravam e solicitando que enviasse a quantia de vinte e um conto de réis. O mensageiro seria o próprio Fausto, que depois de prevenido por Lampião de nada dizer pelo caminho, partiu para Mossoró, em companhia de Gatinho. 
No dia 13 de junho, às 9h da manhã, o bando chegou às imediações de Mossoró onde, por determinação de Lampião, o Cel. Gurgel escreveu um bilhete ao Cel. Rodolfo Fernandes, exigindo a quantia de quinhentos contos de réis para poupar a cidade de saques e incêndios.
O Cel. Gurgel convenceu Lampião que a quantia que ele pedia era muito alta. Lampião baixou para quatrocentos contos de réis. Por volta das 16:30h, tendo deixado o Cel. Gurgel e os outros reféns numa casa no Alto da Conceição vigiado por alguns cangaceiros, Lampião iniciou o ataque a Mossoró. 
Relatado o fato com base no “Diário do Cel. Gurgel” e no livro “a Marcha de Lampião”, de Raul Fernandes, perguntamos: Como podemos considerá-lo “Herói da Resistência” se ele estava preso pelo bando de Lampião fora do cenário da luta? Principalmente se o próprio o Cel. Gurgel, em seu Diário, afirma que foi libertado pelo bando no dia 25 de junho, doze dias depois de seqüestrado, nos confins do Ceará? E sobre Gatinho, o motorista, que errando o caminho que deveria seguir para chegar à localidade Pedra de Abelha possibilitou a prisão do Cel. Gurgel, sendo ele próprio liberado apenas para conduzir o mensageiro Fausto na busca do dinheiro com que pagaria o resgate? Como podemos identificar “heroísmo” nesse ato? 
Tanto o Cel. Gurgel como o motorista Francisco Agripino, o “Gatinho”, entraram para a História como Heróis da Resistência. Se houve algum heroísmo na atitude desses personagens, como podemos titular aqueles que verdadeiramente arriscaram suas vidas, de arma na mão, para proteger a cidade? 
Na próxima semana continuaremos com essas reflexões sobre os “Heróis da Resistência”.
Geraldo Maia do Nascimento
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“O cangaceiro Jararaca” - 13 de Junho de 2010

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Entre o bando de facínoras que atacou Mossoró no dia 13 de junho de 1927 estava o cangaceiro “Jararaca”, que foi baleado, preso e justiçado. Pagou com a própria vida os crimes praticados na sua caminhada sangrenta. Em seu túmulo, no cemitério de Mossoró, ardem velas em intenção de sua alma, que pela crendice popular “obra milagres”. 
José Leite de Santana nasceu no dia 5 de maio de 1901 em Pajeú das Flores, no Estado de Pernambuco. Era um tipo forte, de estatura mediana, moreno- escuro e de comportamento violento. E foi por causa do seu comportamento que teve que fugir de sua cidade, indo para Maceió, Alagoas, onde em 1921 “prestou praça” no exército, sendo transferido para o Rio de Janeiro, onde foi ordenança do Coronel Antônio Francisco de Carvalho na Junta de Alistamento Militar, chegando a combater, em São Paulo, a revolução do General Militar Isidoro Lopes. 
Em 1925, como nos informa o historiador Luís Câmara Cascudo, José Leite estava no sertão pernambucano, e com a alcunha de “Jararaca” já se encontrava “chefiando bandos de cangaceiros, assaltando fazendas e comboeiros, incendiando, matando, depredando”. Juntou-se ao bando de Lampião em princípios de 1927, levando oito companheiros. Destacou-se no grupo por ser exímio atirador e grande lutador de faca. Em junho do mesmo ano participou do ataque a cidade de Mossoró, onde foi baleado, preso e executado. 
Quanto ao episódio da morte de Jararaca, há várias versões. Me baseio no depoimento que Pedro Sílvio de Morais, um dos integrantes da escolta que “justiçou” o cangaceiro, fez ao historiador Raimundo Soares de Brito.
Dizia o depoente: “ - Pelas onze e meia horas da noite, de uma noite de luar muito clara, e sempre fria, do mês de junho, uma escolta composta de oficiais, sargentos e praças, conduziu em automóvel o bandido, dizendo que ele ia para Natal. 
No momento da saída e ao dar entrada no carro, Jararaca disse que tinha deixado as alpargatas na prisão e pediu ao comandante para mandar buscá-las, pois não queria chegar na capital com os pés descalços. O Tenente-comandante estão disse que em Natal lhe daria um par de sapatos de verniz. Quando os automóveis pararam no portão do cemitério por motivo de “pane no motor” de um deles, Jararaca perguntou: 
- Mas, isto aqui é o caminho de Natal?
Como resistisse descer do automóvel, um soldado, empurrando-o, deu-lhe uma pancada com a coronha do fuzil.” 
O restante da história é contada por Leonardo Mota (“No tempo do Cangaço” , 36) que diz: 
“No Cemitério, rodeado de soldados, mostraram-lhe uma cova aberta lá num canto, quase fora do “sagrado” e lhe perguntaram se ele sabia para que era aquilo. Foi quando Jararaca falou, frocado e destemido: “- Saber de certeza não sei não, mas porém estou calculando. Não é para mim? Agora, isso só se faz porque me vejo nestas circunstâncias, com as mãos inquirida e desarmado! Um gosto eu não deixo para vocês: é se gabarem de que eu pedi que não me matassem. Matem! Matem, que matam mas é um home! Fiquem sabendo que vocês vão matar o homem mais valente que já pisou neste...” 
Segundo o autor, Jararaca não teve tempo de dizer o que queria. Um soldado, por trás dele, deu-lhe um tiro de revolver na cabeça. Ele caiu e foi empurrado com os pés para dentro da cova. 
Em resumo, essa é uma das muitas versões existentes sobre a morte de Jararaca. Para o historiador Raimundo Soares de Brito, foi “Um gesto reprovável que serviu apenas para empanar o brilho e enegrecer a página gloriosa que os mossoroenses escreveram na repressão ao grupo de invasores”.
Geraldo Maia do Nascimento
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O Ouro Negro de Mossoró - 23 de Setembro de 2009

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Este ano a Petrobras comemora 30 anos de exploração de petróleo na bacias terrestres do Rio Grande do Norte. Mossoró também tem muito a comemorar, pois foi aqui que essa história começou.
               
Na noite do dia 17 de setembro de 1979, uma segunda-feira, os funcionários do hotel Thermas, que acabara de ser construído em Mossoró, abriram as torneiras para que a água de um poço profundo perfurado no local enchesse o conjunto de 10 piscinas térmicas. A intenção era que na manhã da terça-feira, todos os reservatórios amanhecessem cheios. Essa era a última medida necessária à inauguração das instalações do hotel. Esse evento, previsto inicialmente para o final de agosto daquele ano, foi adiado porque a água que encheu as piscinas pela primeira vez estava misturada com óleo. Pouco, suficiente apenas para impedir o banho e a inauguração. 
Para resolver o problema foram solicitados os serviços da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e da Companhia de Desenvolvimento de Recursos Minerais do Rio Grande do Norte (CDM). Após as devidas correções, a expectativa era de que nada mais atrapalharia o início das atividades do hotel. Seria uma grande festa. Seria. Mas na manhã do dia 18 de setembro de 1979, o óleo voltou a jorrar em meio à água. Às 5h30, quando os funcionários do hotel começavam a trabalhar, surpreenderam-se em verificar que o problema do óleo não estava resolvido. E que desta vez tinha vindo com mais força.
               

Foi uma agitação total da equipe. Aquela mancha escura que boiava nas piscinas, iria causar novo adiamento da inauguração do hotel. A agenda do governador teria que ser mudada mais uma vez, além de convites e preparo de nova mídia. E assim, o Hotel Thermas teve de aguardar um pouco, dar passagem ao início de uma história que a partir daquele marco se estende pelo território do Rio Grande do Norte há 30 anos. Avisada pelos técnicos da CPRM e CDM, a Petrobras, que há três anos explorava a porção marítima da Bacia Potiguar, resolveu verificar a ocorrência. Já havia feito experiências do tipo antes, todas frustrantes. Havia ainda um relatório de geólogos americanos que dizia ser impossível a existência de petróleo em terra, no Rio Grande do Norte. Mas a pressão popular e a crise do petróleo que havia na época ajudaram nessa decisão de tentar de novo.
               
E foi assim que em dezembro daquele ano, a população de Mossoró viu o problema com as piscinas do Thermas resolvido, através da perfuração de um outro poço, exclusivo para água. E também pôde conferir a entrada do Rio Grande do Norte para o grupo dos estados produtores terrestres de petróleo no Brasil. Poucos dias antes do ano chegar ao fim, os jornais locais noticiavam: “Ontem á noite o primeiro carregamento do “ouro negro”, proveniente do poço perfurado no Hotel Thermas, seguiu para Fortaleza, mais precisamente para a Fábrica de Asfalto da capital cearense”. 27 mil litros. Esse foi o primeiro volume de óleo produzido na porção terrestre da Bacia Potiguar. Até hoje o Mossoró 14 mantém-se produzindo óleo. Naquele início de produção terrestre da Petrobras em solo potiguar, a estrutura era a mais simples possível. O petróleo era armazenado nas próprias carretas que o transportavam para Fortaleza e não havia base própria na cidade de Mossoró. Essa só veio algum tempo depois, e foi montada em uma residência que havia na Rua Duodécimo Rosado. Assim começou a história do ouro negro de Mossoró.
               
Hoje, em torno de 20% da população ativa de Mossoró, na faixa etária de 15 a 64 anos, está de alguma maneira ligada a Petrobras. São em torno de 900 empregados próprios e mais de 5.000 terceirizados que compõem a sua força de trabalho. Os Royalties recebidos pela Prefeitura sobre a produção local fizeram a cidade crescer, juntamente com os impostos pagos pelas empresas do ramo que aqui atuam. E tudo isso faz com que Mossoró se associe a Petrobras nas comemorações dos 30 anos de exploração da bacia terrestre do Rio Grande do Norte.
 
Geraldo Maia do Nascimento
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Notícias da Capela de Santa Luzia - 05 de Julho de 2009

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Em 06 de outubro de 1778 acontecia o primeiro casamento na então capela de Santa Luzia do Mossoró. Os nubentes foram Noberto Gregório da Rocha Marques Filho e Francisca Nunes de Jesus, sendo o celebrante o carmelita Frei Antônio da Conceição, tendo como testemunhas o português Coronel Regente Francisco Ferreira Souto e Antônio Afonso da Silva, o primeiro sendo morador de Mossoró e o outro do Panema.

 
A história da construção da capela de Santa Luzia se inicia em 5 de agosto de 1772, quando a Provisão das Dignidades do Cabido de Olinda concede a Antônio de Souza Machado, Sargento-Mor da ribeira do Mossoró e sua mulher Rosa Fernandes, autorização para construir uma capela na fazenda Santa Luzia, de sua propriedade, em cumprimento de promessa feita por sua intercessão. E a capela foi construída com os cruzados do Sargento-Mor e o auxílio dos devotos circunvizinhos, sendo o primeiro ato litúrgico celebrado em 25 de janeiro de 1773, quando foi batizada uma criança do sexo feminino, cerimônia essa oficiado pelo padre José dos Santos da Costa. A criança que havia nascido no dia 15 do mesmo mês, recebeu na pia batismal o nome de Maria, e era filha de Miguel soares de Lucena e de Páscoa Maria da Encarnação, primeira neta paterna do Alferes Manuel Nogueira de Lucena. 
Da fazenda Santa Luzia de Mossoró surgiu o povoado e do povoado a cidade, tudo se passando ao redor da Capela. Em 13 de julho de 1801 dona Rosa Fernandes, viúva do Sargento-Mor Antônio de Souza Machado, faz doação do patrimônio da Capela de Santa Luzia. 
Em 30 de dezembro de 1830 é inaugurada a primeira reforma da Capela, reforma essa para a qual se mandou buscar no Assu o mestre pedreiro Manuel Fernandes que veio com um escravo e um mestre de obras. A imagem de Santa Luzia de Mossoró, pequena e de madeira, foi mandada buscar em Portugal. 
Em 27 de outubro de 1842, pela resolução número 87, a Capela de Santa Luzia era elevada à categoria de Matriz, desdobrada assim da freguesia do Apodi a que esteve ligada durante setenta anos. 
Mas a primitiva Capela já não era suficiente para atender as necessidades da população e é assim que em 24 de março de 1858 foi iniciada a reconstrução da Igreja, no mesmo local da anterior, tendo o vigário Antônio Joaquim Rodrigues aproveitado algumas paredes de pedra e cal da primeira construção. Foi uma longa reforma que durou dez anos, sendo utilizados auxílios dos paroquianos e verbas da província. Mesmo assim, as torres não foram concluídas nessa reforma. 
Em 1910 era vigário da Catedral o Padre Pedro Paulino Duarte da Silva. Esse Padre promoveu na época, uma meritória campanha em prol da conclusão das torres da Igreja. Para isso concitou os fiéis às romarias durante as tardes de Domingo, quando seriam transportados tijolos, pedras, areia e cal para o adro da Matriz, de forma a não pararem os serviços por deficiência de material. O povo atendeu ao chamado do Vigário e as torres foram concluídas. 
Em 28 de julho de 1934 foi criada a Diocese de Mossoró, com solene missa celebrada na Matriz de Santa Luzia pelo padre Luís da Mota, vigário da paróquia, quando o mesmo dá conhecimento aos fiéis, através da Bula PRO ECCLESIARUM OMMIUN, do Santo Padre Pio XI, criando a Diocese e elevando a Matriz de Mossoró à categoria de Catedral Diocesana. A Matriz se enfeitara toda para esse ato. Dentre os presentes, estavam todas as autoridades municipais, vários sacerdotes e religiosos da região. 
Esta é, pois, a história da Catedral de Santa Luzia do Mossoró, “a Santa da eterna claridade visual.”
Geraldo Maia do Nascimento
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Vi tanta beleza (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa

Vi tanta beleza

Não vou dizer mais nada
sobre o luar do sertão
sobre a paisagem divinal
sobre a família na imensidão
porque descobri muito mais
nos escondidos do rincão
vi a moça morena linda
de vestido florido de algodão
recostada na sua janela
esperando príncipe no alazão
vi o menino correndo mundo
festejando alegria no coração
conversando com passarinho
chamando bicho de irmão
vi uma mãe lavando roupa
fazendo bolha de sabão
cantava uma cantiga antiga
verso de espantar aflição
vi viola em noite enamorada
numa rima de fuga da solidão
vi o belo cantar do silêncio
música de anjo e sermão
orquestra de folhagem e vento
na vida imensa composição
verso matuto chamado sertão.

Rangel Alves da Costa
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
http://blograngel-sertao.blogspot.com

CAUSOS DE ONTEM AGORA (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa

CAUSOS DE ONTEM AGORA

O menino já estava de dá nó em vento raivoso, mas sobre ele diziam que havia crescido assim desarnado demais, afogueado de não parar quieto num canto, tudo por causa de uma cobra que achou de lhe aprontar certa vez.
Criança de berço e cama, acostumadinho a só dormir no bem bom depois que mamava no peito da mãe e após um bico lhe ser colocado à boca, certa vez uma cobra colocou seu rabo achocalhado na sua boquinha e ficou ali deitada na cama, bem ao lado, fazendo às vezes de chupeta.
Quando a mãe entrou no quarto e viu a cena em sua frente só teve tempo de dar um grito e cair desmaiada. Desfalecida, a cobra já ia descendo para mordê-la quando uma velha vizinha, ao ouvir o grito descomunal, entrou no quarto correndo e, conseguindo uma misteriosa força, se afastou para um canto, levantou a barra da saia, deu uns três nós no tecido e a peçonhenta ficou sem poder sair do lugar.
Verdade. Sinhá Totonha era conhecida por saber fazer essas coisas, deixar cobra e outros animais veneníferos sem ação nenhuma depois que dava nós na barra da saia e dizia alguma coisa numa expressão que somente ela sabia o significado. E não adiantava a cobra se enraivecer, se retorcer toda, querer morder o próprio rabo, engolir o próprio veneno, não. Estava presa pelas forças dos mistérios, não conseguia atacar de jeito nenhum.
Depois que a Sinhá dava os nós e dizia suas misteriosas palavras, não havia jeito mesmo. A cobra ficava no mesmo lugar, sem poder se afastar um centímetro, presa, amarrada, à disposição de um porrete ou de uma varada firme. Contudo, não deixava que ninguém destroçasse a bicha na sua frente. Ela mesma pegava o animal pelo rabo e ia deixar lá por dentro da mata. Voltava e dizia que a cobra já estava morta. E morria mesmo, pois a danada ia secando rapidamente e não demorava muito pra ficar somente o esqueleto.
Por causa de esqueleto de cobra é que o filho de um caçador quase perde uma perna inteira. Por milagre não pisou na espinha de um cascavel e traria pra si um problema gravíssimo pra resolver. Bicho serpente é tão medonho, danado demais, que até depois de morto ainda causa perigo, pois os mais velhos diziam que o veneno ainda ficava impregnado nos seus restos e bastava um pequeno furo no pé pra tudo rapidamente inflamar.
Mas se acontecesse alguma coisa com o menino era culpa do pai, principalmente porque o homem era conhecido por ser apessoado com todos os segredos e perigos da mata, todas as estratégias pra não perder uma caçada sequer, correndo até um boato que nem caçava mais pra ter o bicho que quisesse abater ou até mesmo vivo.
Porque era mestre dos matos não podia ter arriscado a vida do filho assim. Talvez quisesse apenas iniciá-lo nos mistérios das caçadas, mas ele ainda era muito novinho e não entrava por debaixo das moitas com a botina de couro adequada nem com outra rouparia própria para caçadas. Ainda assim o pai mandou-o ali debaixo de certa moita buscar dois preás que estavam lá parados, sem poder sair do lugar, só esperando ser colocados no aió.
Igualmente Sinhá Totonha, o caçador também sabia rezar pra prender suas caças, ainda que ele não arredasse o pé de casa. Puxava de dentro do embornal um pequeno amuleto, um pedaço de couro costurado nos quatro cantos e tendo por dentro um pequenino chifre, virava pro lado onde achava que tinha caça boa e em seguida, após uma reza forte ligeira, pegava no chão um punhado de areia e jogava pelo ar. Diziam que o pó atalhava o animal, que ficava impedido de dar um passo sequer. Depois era seguir até lá que a caça estava imóvel esperando o predador.
Mas não era fácil para o homem conseguir tal proeza, pois os mais velhos sabiam que ele havia firmado um pacto com a caipora. Esse ser fantástico ajudava a prender o bicho, mas toda vez que ele fosse até lá fazer a recolha tinha que deixar um pedaço de fumo. Se não deixasse nada feito, tudo se danava ao contrário. E até o pior podia acontecer...
O pior podia acontecer como aconteceu um dia. O caçador esqueceu o pedaço de fumo e acabou tomando uma surra tão grande de cansanção que teve de ser transportado em esteira. Com caipora é assim, ela ajuda pra ser reconhecida. Se não é assim, se o caçador não deixa o rolete de tabaco no devido lugar, melhor é desistir de entrar na mata.
Surra de caipora ninguém esquece mais nunca.

Rangel Alves da Costa
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

sábado, 3 de dezembro de 2011

Crimes sexuais: da antiga capação para a moderna castração química

Por: Archimedes Marques


Todo crime sexual é acompanhado de ato depravado, sórdido, repugnante, horrendo e produz seqüelas irreparáveis para as vítimas e seus familiares. Tais crimes sempre foram combatidos pela sociedade desde os tempos mais remotos.
De uma maneira geral, em quase todas as nações, os crimes de ordem sexual eram punidos nos parâmetros da Lei de Talião, ou seja, o autor sofria castigo igual, parecido ou relacionado ao dano por ele causado.
A máxima OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE fora vivenciada por muito tempo em quase todas as Leis das diversas Nações, em destarte, na Idade média através da Inquisição comandada pela própria Igreja católica.
A Lei de Talião era interpretada não só como um direito, mas até como uma exigência social de vingança em favor da honra pessoal, familiar ou tribal.
O Brasil colônia de Portugal, assim como tal, também seguia tais parâmetros punitivos para os seus diversos tipos de criminosos.
As Ordenações do Reino que compunham as Leis Manuelinas, Afonsinas e Filipinas, formavam a base do sistema penal português, que por sua vez também vigoravam no Brasil. Entre as penas estavam a morte, a mutilação através do corte de membros,  o degredo, o tormento, a prisão perpetua e o açoite.
Até mesmo depois da sua Independência de Portugal, o Brasil continuou adotando penas não menos violentas e cruéis, seguindo de certa forma, os antigos ensinamentos de Talião na sua organização penal.
O homem que praticasse determinados atos sexuais considerados imorais ou criminosos poderia ser condenado à castração, então conhecida por capação que podia ser concretizada de várias maneiras, contanto que com o castigo o agressor não tivesse mais possibilidade de voltar a delinqüir devido a perda total do seu apetite sexual.
Buscando um caso prático para melhor ilustrar o presente texto só encontrei a suposta e inusitada Sentença Judicial datada de 15 de outubro de 1833 ocorrida na antiga Villa de Porto da Folha, hoje município, situado às margens do rio São Francisco aqui no nosso querido Estado de Sergipe.
A referida Sentença que é relacionada a uma tentativa de estupro possui a linguagem arcaica da época e dizem que o dito documento está guardado no Instituto Histórico do vizinho Estado de Alagoas. Tal sentença fora divulgada em alguns jornais virtuais e sites jurídicos do Brasil, a exemplo das páginas Ad referendum, Usina de letras, Recanto das letras, o Norte de Minas Gerais, Jus navigandi, Teologikas, Livros e afins, Estudos de direito, Fórum Jurídico, Jurisciência, Consultor Jurídico, Almanaque Brasil, Pérolas do Judiciário... Por isso a transcrevo acreditando ter sido fato real e documento verídico:
“SENTENÇA DO JUIZ MUNICIPAL EM EXERCÍCIO, AO TERMO DE PORTO DA FOLHA – 1883.
SÚMULA: Comete pecado mortal o indivíduo que confessa em público suas patifarias e seus boxes e faz gogas de suas víctimas desejando a mulher do próximo, para com ella fazer suas chumbregâncias.
O adjunto Promotor Público representou contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Senhora Sant´Anna, quando a mulher de Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em moita de matto, sahiu dela de sopetão e fez proposta a dita mulher, por quem roía brocha, para coisa que não se pode traser a lume e como ella, recusasse, o dito cabra atrofou-se a ella, deitou-se no chão deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimônio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreyo Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o cujo flagrante e pediu a condenação delle como incurso nas penas de tentativa de matrimônio proibido e a pulso de sucesso porque dita mulher taja pêijada e com o sucedido deu luz de menino macho que nasceu morto.
As testemunhas, duas são vista porque chegaram no flagrante e bisparam a pervesidade do cabra Manoel Duda e as demais testemunhas de avaluemos. Dizem as leis que duas testemunhas que assistem a qualquer naufrágio do sucesso faz prova, e o juiz não precisa de testemunhas de avaluemos e assim:
Considero que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento, por quem roía brocha, para coxambrar com ella coisas que só o marido della competia coxambrar porque eram casados pelo regime da Santa Madre Igreja Cathólica Romana.
Considero que o cabra Manoel Duda deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas coxambranças viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver.
Considero que a paciente estava pêijada e em consequência do sucedido, deu a luz de um menino macho que nasceu morto.
Considero que a morte do menino trouxe prejuízo a herança que podia ter quando o pae delle ou mãe falecesse.
Considero que o cabra Manoel Duda é um suplicado deboxado, que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer coxambranças com a Quitéria e a Clarinha, que são moças donzellas e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia.
Considero que o cabra Manoel Duda está preso em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar do próximo que elle desejou.
Considero que sua Majestade Imperial e o mundo inteiro, precisa ficar livre do cabra Manoel Duda, para secula, seculorum amem, arreiem dos deboxes praticados e as sem vergonhesas por elle praticados e apara as fêmeas e machos não sejam mais por elle incomodados.
Considero que o Cabra Manoel Duda é um sujeito sem vergonha que não nega suas coxambranças e ainda faz isnoga das incomendas de sua víctima e por isso deve ser botado em regime por esse juízo.
Posto que:
Condeno o cabra Manoel Duda pelo malifício que fez a mulher de Xico Bento e por tentativa de mais malifícios iguais, a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete.
A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação, depois de trinta dias o Carcereiro solte o cujo cabra para que vá em paz.
O nosso Prior aconselha:
Homine debochado debochatus mulherorum inovadabus est sentetia qibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pote.
Cumpra-se a apregue-se editaes nos lugares públicos. Apelo ex-officio desta sentença para juiz de Direito deste Comarca.
Porto da Folha, 15 de outubro de 1833.
Assinado: Manuel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal suplente em exercício.”
A capação feita a macete consistia em colocar os testículos do cidadão condenado em local rígido esmagando-os com um forte golpe certeiro, usando para tanto um grosso pau roliço tipo bastão ou cassetete, ou mesmo, uma marreta fabricada com madeira de lei.
Com o tempo a pena de Talião e outras cruéis desapareceram nas legislações modernas na quase totalidade dos Países, sob a influência de novas doutrinas e novas tendências humanas relacionadas com o Direito Penal, entretanto, muitas pessoas ainda defendem a volta de métodos parecidos, como fórmula eficaz para arrefecer o recrudescimento da violência urbana.
Apesar do nosso ordenamento jurídico ter abolido de vez as penas cruéis, a discussão sobre a aplicação de uma pena peculiar para aqueles que cometem crimes de ordem sexual, destarte para aqueles praticados contra crianças através da chamada pedofilia, volta a tona agora de maneira mais presente, vez que  tramita no Congresso nacional o Projeto de Lei nº 552/07 de autoria do Senador Gerson Camata para propor modificação no Código Penal com a pena de castração através da utilização dos recursos químicos, ou seja, a castração química para tais criminosos.
A denominada castração química consiste na aplicação de injeções hormonais inibidoras do apetite sexual, aplicadas nos testículos, conduzindo o condenado à impotência sexual em caráter definitivo e de maneira irreversível.
A proposta inspira-se em ordenamentos jurídicos estrangeiros onde a sanção é aplicada, a exemplo dos estados do Texas, Califórnia, Flórida, Louisiana e Montana nos Estados Unidos da America, em certos países da Europa e até aqui na América do Sul, na vizinha Argentina, entretanto, no Brasil, tal proposta esbarra em sérios óbices constitucionais, vez que é tema relativo ao direito fundamental à integridade física, assim como às garantias contra penas cruéis, desumanas, degradantes e perpétuas estatuídas para todos.
Para muitos legisladores, advogados e juristas a proposta é repudiada e considerada totalmente inconstitucional. Para alguns não passa de um Projeto eleitoreiro populista que visa agradar e enganar o povo, mas que vai de encontro a Constituição Federal e, por isso, mesmo que seja aprovado no Congresso nacional será desfeito pelo Supremo Tribunal Federal. Para outros a própria Carta Magna pode também ser alterada para adaptação de tal pena. Para tantos outros tal penalidade é um retrocesso à Lei de Talião, uma volta à época medieval, um atraso na humanidade, incabível no nosso ordenamento jurídico.
A discussão também gira em torno de se estudar se a castração química é uma pena cruel ou se é somente um tratamento médico, sem maiores gravidades físicas para os autores irrecuperáveis e reincidentes dos crimes sexuais, destarte para os pedófilos, que com a medida perderão apenas o libido, com grande possibilidade de não mais voltarem a delinqüir pois sem a vontade sexual não há o porque da realização do ato.
A vivencia policial e a prática profissional ao longo dos tempos nos contemplam pelo lado psicológico adquirido em casos investigados, a asseverar sem medo de errar, que geralmente os maníacos sexuais parecem não ter sentimentos de culpa e, quando chegam a confessar os crimes inerentes, discorrem como se os seus atos insanos fossem normais, negam suas carências, suas dificuldades, demonstram ser completamente desconectados com sentimentos próprios e muito menos com os sentimentos alheios, com os sentimentos das vítimas e seus familiares, por isso, quase sempre reincidem nos seus crimes quando colocados em liberdade.
É fato contundente e abominável para toda a sociedade que, no nosso pais, um quarto das vítimas de crimes sexuais são crianças com menos de dez anos de idade, porém esse debate não pode ficar apenas adstrito ao Congresso Nacional, deve se expandir para todas as camadas sociais. Advogados, juristas, doutrinadores, médicos, psicólogos, sexólogos, psiquiatras, professores, jornalistas, escritores, cronistas, religiosos e especialistas diversos devem ser ouvidos para formarem suas opiniões não só na pauta constitucional ou jurídica, quanto nas questões sociais, morais e éticas no seio da nossa sociedade.
A experiência internacional através dos países que já adotam esta moderna pena tem muito a nos ensinar, as medidas de lá que restauram frutíferas devem ser aqui adaptadas a nossa realidade e, por fim, restando possível a aplicação de tal penalidade, o mais importante: A realização de um plebiscito para o povo decidir se é a favor ou contra a castração química.
Autor: Archimedes Marques (Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS) – archimedesmarques@infonet.com.br  - archimedes-marques@bol.com.br  - archimedesmelo@bol.com.br
Enviado pelo autor: Dr. Archimedes Marques

A MORTE DE LAMPIÃO

Por: Antonio Amaury C. Araujo
O sertão já havia perdido a esperança de que aquele fato um dia viesse a acontecer... Lampião é o Satanás, não morre nunca! Diziam uns. É um enfeitiçado, não tem bala que o acerte! Diziam outros...
Mas, um dia aconteceu. E foi o fim do cangaço.
Vejamos as belas páginas escritas por Antonio Amaury C. Araujo:
"Angico!
Esse é o momento culminante na história do cangaço. Todos aqueles que de uma forma ou de outra, participaram dos fatos que levaram ao combate viveram o momento que marcou o princípio do fim de uma forma de vida que subsistiu nos sertões nordestinos. Por mais de cem anos.
Por mais de um século?
Talvez, essa seja a pergunta cheia de surpresa do nosso leitor. Mais de um século sim, se levarmos em conta, as lutas do grupo familiar formado pelo Cabeleira, seu pai e outros que o acompanhavam. A morte de Lampião, em Angico, foi o dobre de finados do mundo dos cangaceiros. A agonia do cangaço começou nesse dia.
Nossos biografados, Sila e Zé Sereno, estiveram presentes e conseguiram sobreviver para contarem como foi a luta naquele amanhecer sangrento. Não só esse casal, outros que estavam também no coito de Angico, conseguiram escapar ao sinistro chamado da morte configurado materialmente nos disparos feitos por fuzis e metralhadoras. Criança e Dulce,
Juriti e Maria além dos vários cabras que saíram dali com rapidez de veado baleado, são testemunhas incontestes do que ocorreu naquele distante amanhecer do dia 28 de julho de 1938.
E não são só os cangaceiros que têm o que contar. Os soldados da volante do tenente João Bezerra (promovido a capitão nesse mesmo dia) também são uma imprescindível fonte de informações. Escrevemos um livro, "Assim morreu Lampião" que foi levado ao prelo em sua terceira edição pela Traço Editora e no qual damos todos os informes sobre tudo o que ocorreu naquele pedaço do sertão nordestino.
Aqui vamos narrar somente o que nos contaram Sila e Zé Sereno. Sobre o que sentiram, o que pensaram, o que fizeram, como agiram e o que sofreram. Isso tanto nos dias que precederam o combate como no dia em que se feriu o mesmo.
O palco onde se desenvolveu o sangrento reencontro está localizado a uns dois mil metros da margem do rio São Francisco, em terras da fazenda Angico. Esta fazenda, naqueles tempos de bandos de cangaceiros e de forças volantes, fazia parte do Município Ribeirinho de Porto da Folha. Sereno estava numa ascensão vertiginosa em sua carreira de cangaceiro e estava chefiando um grupo numeroso e aguerrido. Seu nome ganhava evidência dia a dia, quer nos meios cangaceiros quer dentre as forças volantes contra as quais lutava.
Vamos transcrever aqui o que contou-nos Zé Sereno nas dezenas e dezenas de vezes em que conversamos com o mesmo. Nas visitas que lhe fazíamos em suas diversas moradias na cidade de São Paulo, bem como nas prolongadas internações no Hospital Municipal de São Paulo.
Sua companheira Sila, igualmente, em várias oportunidades narrou-nos como foi o tiroteio de Angico e de como conseguiu escapar da morte. Tem a lamentar com sentidas lágrimas a perda, nesse combate, de seu irmão Gumercindo que no cangaço ganhara o vulgo de Mergulhão.
Sereno contou-nos que recebera um recado de Lampião, trazido por um coiteiro de confiança, cujo nome era Eráclito, morador de uma das fazendas do coronel Antonio Caixeiro. O recado dizia onde deveriam encontrar-se e quando. Pouco depois de receber o recado, o grupo de Sereno seguiu para o local do encontro e chegaram na casa de dona Cândida a tardinha. Quando chegaram na fazenda, o pessoal de Lampião já se encontrava lá, um pouco distante da casa e descansando sob umas quixabeiras, que foi para onde Sereno e seus cabras se dirigiram incontinente.
Cumprimentaram-se rapidamente e depois todos seguiram para a grota do riacho onde armaram as tordas. Sereno perguntou a Lampião:
- Capitão, quem trouxe o senhor aqui?
O chefe mor dos cangaceiros respondeu:
- Pedro de Cândida. Por quê?
- Num tenho confiança im Pedro de Cândida.
Ao autor destas linhas, Zé Sereno confessou que não gostava daquele lugar e que tinha desconfiança do coiteiro. O filho de dona Cândida, que era popularmente conhecido como Pedro de Cândida, morava do outro lado do rio, exatamente em frente às terras da fazenda Angico. Dormiram essa noite com toda tranquilidade. Mal o dia 27 de julho amanheceu, e Zé Sereno já estava falando com Lampião que deviam deixar aquele lugar. Lampião recebera, a coisa de uns três dias, um sobrinho, José, filho de sua irmã Virtuosa e pediu a Sila que costurasse um uniforme de cangaceiro para o mesmo. O rapaz, nesse tempo, contava com 17 anos de idade. Foi incumbido o coiteiro de trazer uma máquina de costura. Sua mãe tinha uma dessas de mão (que eram comuns naquela época) e ele trouxe para o coito e Sila começou a fazer a roupa. Esse fato, aliás, veio novamente à tona ao conversarmos com Sila e chegamos a conclusão de que cai então por terra a tese de alguns de que Lampião queria abandonar o cangaço.
Se em verdade, esta era a idéia do chefe dos cangaceiros ele não iria permitir que o seu sobrinho fosse investido como cangaceiro. Com roupas, armas e tudo o mais que transforma um sertanejo qualquer em um guerreiro das caatingas. Quando foi à tarde, o coiteiro Pedro de Cândida trouxe as compras em um jegue e disse:
- Capitão, as compra tão aqui. Vamu acertá as conta Qui eu quero saí.
Fizeram as contas e depois, quando Pedro ia saindo, ele passou por Sereno e perguntou:
- Quantos são?
Sereno respondeu:
- Num interessa. Por que qué sabê?
As incumendas podi di num dá. – respondeu Pedro de Cândida desculpando-se.
- Num interessa di sabê. – disse Sereno que não confiava e nem gostava desse coiteiro.
Depois que Pedro foi embora, o cangaceiro foi vistoriar as compras. Pegou uma garrafa de conhaque e viu, quase imperceptível um furinho no estanho que selava a rolha da garrafa. O furo deixado por uma agulha hipodérmica.
Zé Sereno levou a garrafa a Lampião e disse:
- "Seo" Capitão, o sinhô é cego de uma vista mais cum a outra inxerga até dimais. Olha prá Qui. Mostrou o furo por onde tinham injetado o veneno.
- É mesmo, disse Lampião, i o resto das incomenda?
- Tá tudo invenenado, menos a cachaça qui Pedro sabia qui ia tê di prová, respondeu Zé Sereno e continuou:
- É bom nóis sai daqui si não nóis vamu se cuberto di bala.
- Amanhã cedo nóis sai, disse Lampião.
- Sai é, nóis vai sair é cum bala, retrucou Sereno.
Ficou ali pelo acampamento, preocupado.
Maria Bonita teve uma discussão com Lampião e como ficou nervosa convidou Sila para irem sentar-se sobre umas pedras. Conversaram bastante tempo. A escuridão da noite as envolvia e somente se avistava os pontos vermelhos dos cigarros que as duas fumavam. Quando Maria queixou-se de Lampião, dizendo que o cego não morria e que ela, Maria, não tinha receio da força alagoana, a companheira de conversa respondeu:
- Eu não tenho medo da força de Sergipe, tenho até parentes lá, esses eu não temo.
Em dado momento, Sila viu luzes piscando à distância, acendendo e apagando e falou:
- Olha Maria, num é luz di palha? (lanterna)
Maria Bonita preocupada com seus pensamentos, respondeu que não era nada de mais, só vagalumes no mato. Já seriam mais de 21:00 h quando foram para as barracas dormir. Sila não falou nada para Zé Sereno que estava dormindo. Durante a noite, Sereno acordou com o barulho de um jumento que havia se assustado com os soldados que avançavam. Sonolento ficou prestando atenção para ouvir se os cachorros davam o alarme. Nenhum cachorro latiu. Tudo continuou em silêncio. Como não escutou mais nada, o cangaceiro tornou a recostar-se e dormiu, novamente. Lá pelas cinco horas, Zé Sereno acordou e foi rezar o Santo Ofício com o Rei do Cangaço, depois retornou e acordou seus cabras dizendo:
- Acorda e vamu tomá banho no poço.
Havia um "caldeirão" de água numa lage de pedra. Sereno desceu até onde estava Luís Pedro e disse-lhe:
- Cumpadre, se equipe.
- Qui é isso, tá assombrado?, respondeu o outro.
- Assombrado? Você vai vê daqui a pouco.
Luís Pedro começou a equipar-se e Sereno caminhou até onde Lampião estava calçando a alpercata do pé esquerdo e foi quando ouviram-se os primeiros tiros. Ao passar por Lampião, Sereno disse-lhe:
- Num disse qui nóis brigava hoje?
- Vamo brigá, respondeu e alto para os outros cabras: Oh, mininos, descem aí uns di voceis pro riacho.
Quando Zé Sereno percebeu já tinha tirado três pentes de bala de fuzil. Viu quando o tenente João Bezerra avançava em direção às barracas de seu grupo. Atirou. Ao ser baleado, o tenente caiu. O cangaceiro gritou:
- Perdeu a fama macaco fio da puta.
Olhou para trás e viu Lampião caído por terra, morto. No fuzil ainda tinha duas balas, uma na agulha e outra no pente. O dia estava clareando, mas ali na grota a fumaça dos tiros misturando-se com a neblina do dia mal permitia que visse alguns passos adiante.
Na cabeça Sereno trazia um chapéu de massa, semelhante aos usados pela polícia. Foi sua sorte. Sem poder subir pelos barrancos laterais ele foi adiantando-se pelo leito seco do riacho e, de repente, encontrou-se com os soldados do aspirante Ferreira que vinham em sentido contrário. Como se sabe, os trajes da polícia, quando em diligências pela caatinga, e o dos cangaceiros eram quase iguais, variavam, às vezes, só nos chapéus ou quepes. Sem outra saída usou de um estratagema, levantou o braço esquerdo e com a mão espalmada, gritou várias vezes:
- É cumpanheiro, é cumpanheiro, num atiri qui é cumpanheiro.
Na mão direita levava o fuzil, foi avançando pelo meio da fumaça, da neblina e das sombras e passou pelos soldados. Viu um varedo de bode, no meio do xique-xique e da macambira, que descia pela ribanceira. Antes de descer pelo mesmo virou-se de súbito e deu os dois tiros de fuzil em direção aos soldados. Rapidamente sacou do parabellum e deu toda a carga nos policiais surpresos e correndo e saltando desceu pelo trilho. Foi assim que Zé Sereno conseguiu escapar do cerco e da morte certa.
Com sua companheira Sila aconteceu o seguinte. Ela ainda estava na barraca quando dos primeiros tiros, pegou os bornais e saiu. Ouviu o barulho das metralhadoras que mais pareciam latas cheias de pedra sendo sacudidas violentamente. Seu irmão Mergulhão estava atirando ali perto. Quando ele foi baleado mortalmente, ela pegou o fuzil dele e escondeu-se atrás de um pedra. Escutou os soldados que a chamavam:
- Vem prá cá, vem aqui.
Nisso, Criança e Dulce passaram por ali e o cangaceiro chamou-a:
- Cumadri Sila, Cumadre Sila.
Ela saiu de onde estava e seguiu o casal. Tinham andado somente alguns metros quando viram Candieiro atirando. Ao chegarem perto, ele foi atingido no braço direito, o fuzil caiu e Sila apanhou-o do chão e levou-o também. A mulher de Cajazeiras, Enedina, juntou-se ao grupo que fugia. Ia caminhando atrás de Sila quando uma bala atingiu-a no alto do frontal, o osso levantou-se e a massa encefálica foi atirada nas costas de Sila, ficando grudada em sua roupa. Depois que estavam distantes do lugar do tiroteio e o silêncio dizia que o mesmo terminara. Sila disse para Criança:
- Olha, eu acho que só escapou nóis. O resto deve ter morrido tudo.
Mais tarde, ouviram os disparos de um parabellum.
Criança falou:
- Isso é bem cumpadre Sereno. Vamo até lá.
Realmente, Sereno disparara a carga do parabellum com a finalidade de avisar aos companheiros o ponto onde estava. Chegaram onde estava Sereno e, aos poucos, outros sobreviventes foram se agrupando. Alguns vinham feridos, como Candieiro e Balão que tiveram que ser tratados. Falavam dos que tinham visto cair mortos e contavam uns aos outros de como haviam escapado às garras da morte. Estavam todos aparvalhados, desorientados, com medo e sem saberem que atitude tomar agora que perderam o chefe. Zé Sereno foi quem primeiro se refez. Começou a tomar as providências e assumiu o comando."
(Texto transcrito da obra Sila e Zé Sereno/Antonio Amaury C. Araujo/Traço Editora).
Extraído deste site: