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sábado, 26 de maio de 2012

Dona Sila


Confira a transcrição da entrevista concedida pela saudosa ex cangaceira Sila à revista TPM edição nº 1, Maio de 2001.

Sila

Tpm. Como a senhora fazia para ficar bonita no meio do mato?

Só punha ouro, chapéu bonito, bornal todo enfeitado, roupa cheia de bordado. Eu tomava banho com perfume! Ainda hoje sou vaidosa. Só que hoje, se tomo um banho, me troco e não ponho perfume. Para mim, perfume me lembra de mato, e é como se eu não tivesse tomado banho. Às vezes, o cheiro de perfume ficava tão forte e tão ruim entre a gente, que teve muita história de a polícia achar cangaceiro por causa do fedor. Era muito quente, muita roupa, então suava...

Tpm. A senhora engravidou no meio do mato, né?

Umas três vezes.

Tpm. Onde a senhora deu à luz seu filho?

Pari no mato mesmo, lá por perto, onde tinha água. Estava com Maria, os homens saíram todos de perto. Comecei a sentir as dores, aí ela armou uma coberta no chão e eu deitei. Fiz muita força a tarde toda e, à noite, o menino nasceu. Foi ela que fez meu parto. Daí, os homens vieram correndo para ver como ele era. Nossa, eu sentia tanta dor, parecia que iam abrir minhas cadeiras, ave-maria... Aí, enfiei vários panos dentro da calça para estancar o sangue e seguimos viagem.

Tpm. O que aconteceu quando levaram a senhora?

Naquela noite que eles chegaram, meus primos arranjaram uma sanfona para tocar e vieram vários cangaceiros. Eu nem olhava na cara de Zé Sereno, só rezava: "Meu Deus, fazei com que esse homem não queira que eu saia" [quando os cangaceiros raptavam uma mulher, o termo usado era "sair", ou "tirar a moça"]. Quando foi de manhã cedinho, a cangaceira Neném veio e disse que eu me preparasse para sair. Era sempre assim, eles mandavam uma mulher dar o aviso, desse jeito "encorajava" a outra. Saí com o vestido fino de baile que eu estava.

Tpm. Qual era o seu papel no bando?

Eu costurava as minhas roupas, bornais... Não tinha obrigação de nada. Fazia o que queria, comia o que queria. Não tinha esse negócio de obrigação como dona-de-casa; eu era dona-do-mato.

Tpm. E, nos tiroteios, a senhora atirava?

Não, nunca precisei. Quase levei tiro na cabeça, isso sim, de estar deitada aqui e levantar um pedaço de terra assim do meu lado. A única mulher que atirou mesmo foi a Dadá [mulher de Corisco, passou a participar dos combates no lugar do marido, que teve parte dos braços amputados]. As outras não atiravam porque a nossa parte era só dar força aos maridos. Não sei, parece que eles confiavam muito na gente e a gente confiava muito neles.

Tpm. Como foi o tiroteio que matou Lampião? Onde vocês estavam?

O nosso bando encontrou com o de Lampião, que já estava lá em Angico [nome da fazenda em Sergipe onde Lampião morreu]. Passamos muita sede até chegar lá, estávamos todos cansados. Quando foi de noite, Lampião tirou uma melancia e ofereceu para mim. Fomos eu e Maria chupar a melancia sentadas numa pedra, no alto de uma ribanceira. Ficamos lá, ela me convidou para fumar e ficamos falando as coisas de sempre, que aquilo não era vida. Foi a última conversa que ela teve. Enquanto a gente conversava, vi uma luz que acendia e apagava, até perguntei a ela se era uma lanterna. Ela disse que devia ser vaga-lume. Se eu tivesse descido e falado com Zé Sereno, não teria acontecido o que aconteceu, porque ele contaria a Lampião e todo mundo teria se equipado.

Tpm. A senhora deixou o cangaço depois da morte de Lampião?

Não, nós ainda ficamos um tempo no mato. Deixei só em 1938. Nos entregamos na Bahia, quando Zé Sereno recebeu uma carta do governo dizendo que o Getúlio Vargas ia dar ordem de anistia. Sem prisão nem nada, a gente ia ser livre. Chegamos em Salvador e aí nos separaram. Ficou eu, Dulce e uma outra que nunca mais vi, a Dinda, todas presas. Dulce dizia: "Mana, o que é que nós vamos fazer?" Aí, nós choramos, as três. Num lugar estranho, meu Deus. Cadê eles? Ninguém sabia... No outro dia cedinho, Zé chegou para nos pegar e nos levaram para um quartel. Todo dia tinha uma chamada e a gente ia lá se apresentar. Ficamos lá até quando o Getúlio mandou a anistia.

Tpm. Quando a senhora chegou em São Paulo, as pessoas sabiam quem era? 

No trabalho, eu não contava não. Mas sempre acabavam descobrindo. A pior coisa que tinha era quando as crianças diziam: "Mãe, fulano disse que não quer brincar comigo, que sou filho de bandido". É duro, né? Eu dizia: "Vocês não são filhos de bandido, meus filhos, vocês são filhos de gente. Seu pai é Zé Sereno e eu sou sua mãe, somos gente que nem eles. Um dia vocês vão entender".

Tpm. Dá para comparar a violência de hoje, em São Paulo, com a que tinha no cangaço?

Já fui assaltada várias vezes. Aqui em São Paulo a gente não vive mais de tanto medo. Sai de casa e tem que ficar olhando para os lados, segurando a bolsa com força. Nunca apontaram uma arma para mim, mas já puxaram e levaram minha bolsa. Uma vez, saí correndo atrás de um trombadinha, catei ele pelo braço e fiz ele devolver a carteira. É diferente do cangaço... No mato, era a polícia que corria atrás, só tínhamos que ficar fugindo e fugindo. Roubava só fazendeiro que não dava o dinheiro por bem. Não tinha esse negócio de ladrão entrar na casa da gente sem ser convidado...

Tpm. A senhora tem saudade do Nordeste?

Ah... Se alguém me der uma passagem de volta, vou embora daqui...

Adília e Sila no Tempo do cangaço

Além dos pés de xique-xique e mandacaru, a caatinga é a terra onde brotou um dos mais peculiares movimentos da história do Brasil: o cangaço. No início do século XX, o povo morria de medo dos cangaceiros, que invadiam pequenas vilas espalhadas pela região atrás de comida, bebida, armas e jóias

Naqueles verdadeiros arrastões, homens comandados por Lampião aterrorizavam as mulheres e, não raro, carregavam-nas com o bando - essas, embora bem tratadas, já viram companheiras marcadas com ferro em brasa, como se faz com as vacas na fazenda.

Durante os quase dez anos em que houve presença feminina no cangaço, elas foram unicamente parceiras sexuais. Muitas foram levadas de casa ainda virgens - algumas com 12 anos de idade! - e, já no bando, cada uma passava a 'pertencer' a um cangaceiro (Sila 'era de' Zé Sereno, líder de um bando leal a Lampião, com quem teve três filhos). Não cuidavam de nenhuma das tarefas que na época cabiam às mulheres executar. Eram os homens que cozinhavam e até costuravam. Uma ou outra, como a famosa Dadá, tinha o dom para as agulhas e os botões. Companheira do cangaceiro Corisco, lançou moda, sendo a grande responsável pelo colorido e a extravagância das roupas, chapéus e bornais com os quais todos se cobriam e que, tempos mais tarde, veio até a inspirar coleções de marcas como Forum.

O NAMORO NO CANGAÇO



O cangaceiro Zé Sereno, marido de Sila, pouco antes de morrer, em 1981 - nessa época era inspetor de alunos em uma escola municipal em São Paulo.

Tpm. E com seu marido? A senhora não o namorava?

Ah, eu nem olhava pra cara dele, né? Um homem não via nem uma calcinha da sua mulher, não falava palavra feia perto da gente. Eu não sabia o que era namoro... Vou te dizer: eu nunca beijei, não sabia... Nossa vida era só andar, andar, andar, e pronto.

Tpm. Como foi a sua primeira noite com ele? 

Sabe como é... À noite foi aquela bagunça, cada um se encostou num canto. Zé tirou a alpercata dele e mandou eu calçar. Quando eu calcei, ele disse: "agora nunca mais você vai me deixar". De fato, nunca deixei mesmo. Acho que era uma simpatia porque eles acreditavam muito em reza, em oração, em tudo eles acreditavam.

Tpm. Então ele não foi nada carinhoso com a senhora...

Que carinho nada! Não tinha carinho nenhum! [Contrariada.] Ele nunca me beijou.

Tpm. A senhora já foi traída pelo seu marido?

Aaaaave-maria... Eu não sei como ainda tenho cabelo, viu?

Estilo CANGAÇO

Mesmo sem nenhuma ideia do que viria a ser o mundo fashion de hoje, as cangaceiras tinham estilo e lançaram tendência - a coleção outono/inverno 2001 da marca Forum, por exemplo, é inspirada nas vestimentas do cangaço. Elas adoravam cores fortes, todas misturadas. Laranja com azul, verde com vermelho, amarelo com azul, enfim, quanto mais chamativo melhor. Tudo isso bordado ou costurado nos bornais, chapéus e cantis.

Os desenhos podiam ser de formas geométricas ou flores. As roupas eram simples. Confeccionadas em gabardine ou mescla - tecidos grossos que resistiam aos espinhos do mato -, os vestidos eram retos, feitos em azul ou cinza.


Caía bem uma ou outra costura com linhas brilhosas nos bolsos e lapelas. Bem diferente daquele cáqui e marrom que imaginamos. Aliás, Dadá, que era quem inventava os bordados mais bacanas, chegou a contar que o marrom só era vestido pela polícia.

Sila ao lado de Zé sereno e seu bando
 
FIM!

Transcrição da entrevista concedida pela saudosa ex cangaceira Sila à revista TPM edição nº 1, Maio de 2001.

Matéria completa: 


Clique aqui: 

http://revistatpm.uol.com.br/01/vermelhas/sila.htm

Traição e morte dentro do cangaço

Por: Archimedes Marques

Consta da história que o sanguinário e impiedoso cangaceiro Zé Baiano, chefe de um dos grupos de Lampião, atuava principalmente na região de Frei Paulo e adjacências, no nosso querido Estado de Sergipe, inclusive era um rico bandido que tinha a audácia de também ser um forte agiota, emprestando dinheiro a juros exorbitantes para fazendeiros e comerciantes daquelas cercanias.

O cangaceiro Zé Baiano

O famoso bandoleiro ferrador Zé Baiano, apesar da sua feiúra em todos os sentidos, tinha o privilégio de ter como companheira a mais linda e atraente das cangaceiras – Lídia. Contaram os remanescentes do cangaço, mais de perto os então cangaceiros sobreviventes e alguns ex-coiteiros e protetores de Lampião, que a linda Lídia era daquelas mulheres de “fechar quarteirão”, de deixar todos os cabras-machos “babando” de desejo, principalmente quando se apresentava saindo dos rios ou lagoas em vestido molhado e colado ao seu estrutural corpo. Diziam ser um verdadeiro deslumbre de se ver a cangaceira Lídia no seu andar provocante, mas infelizmente não há uma fotografia dela sequer para assim comprovar tal beleza.

Por isso era admirada e desejada por todos os cangaceiros, mas ninguém se atrevia a dar uma “cantada” na moça, até porque, apesar de todos ali serem bandidos perigosos, havia muito respeito dentro do acampamento. Essa era uma das regras impostas e prova inconteste da liderança e comando de Lampião, ou seja, exigia o chefe, acima de tudo, que todos se respeitassem mutuamente e que só houvesse sexo entre os casais devidamente conquistados e efetivados. Além disso tudo, o próprio Zé Baiano, pela sua crueldade, era dos mais respeitados dentro do bando e mais ainda fora do acampamento, onde quer que chegasse. O seu nome fazia arrepiar e tremer de medo qualquer um, talvez até mais do que o próprio Lampião que era bem mais complacente.

Um temível cangaceiro acostumado a ferrar mulheres com ferro em brasa com as iniciais JB nos seus rostos, virilhas ou nádegas somente pelo simples fato delas usarem cabelos curtos, maquiagens ou roupas decotadas. Enfim, um psicopata impiedoso, ignorante em todos os sentidos que matava, estuprava, roubava e torturava as suas vítimas sem dó ou piedade.

A astúcia de Zé Baiano. Ferrada no rosto de Maria Marques.

Ocorre, porém, que o desejo da carne terminou sobrepondo todos os perigos possíveis e assim a linda cangaceira Lídia terminou por ceder ou mesmo procurou os encantos do cangaceiro conhecido por Bem-te-vi e com ele passou a cometer adultério em eloquentes e quentes encontros sexuais dentro do mato quando da ausência de Zé Baiano no acampamento. No entanto, o cangaceiro Besouro que também já estava de olho em Lídia há algum tempo e até desconfiado que ela traia Zé Baiano com oBem-te-vi, certo dia seguiu os dois quando eles entraram disfarçadamente mato adentro, pegando-os em flagrante na hora do ardente sexo. Daí fez uma proposta para a Lídia que se ela também mantivesse relações sexuais com ele, o segredo ficaria somente entre os três, caso contrário ele contaria tudo a Zé Baiano. Indignada, a corajosa Lídia retrucou agressivamente com palavras de baixo calão o cangaceiro Besouro e sua indecente chantagem.

Então, naquela mesma noite, quando todos estavam reunidos em volta a uma fogueira, contando e recontando as diversas histórias deTrancoso, histórias de assombração, histórias de botijas e histórias diversas das guerras do cangaço, o bandido flagranteador Besouroprovocou a Lídia que apesar de tudo não arrefeceu mostrando força, coragem e determinação mesmo sabendo que tal gesto poderia valer a sua própria vida.

Presentes estavam os maiorais do cangaço que “lavaram as suas mãos” sem interferirem na decisão, a exemplo do supremo chefe Lampião e de outros da sua inteira confiança como Corisco, Luís Pedro, Moreno, Virginio e Labareda, além do próprio traído, cangaceiro Zé Baiano. Corajosa, afoita, determinada, atrevida no atrevimento suicida das mulheres decididas da época e até mesmo inconsequente para o momento, Lídia repeliu o seu companheiro surpreso e enlouquecido de raiva e ódio, Zé Baiano, exclamando em alto e bom som: Estive com ele, sim!… Que tem isso?… O que é meu eu dou a quem quero!…

Enlouquecido em místico de vergonha, raiva, ódio e desespero ao mesmo tempo, Zé Baiano arrastou Lídia até uma árvore ali perto e após amarrá-la, matou-a impiedosamente a cacetadas e depois chorou copiosamente a perda do seu grande amor, enterrando o seu tão desfigurado corpo do que antes tinha sido uma linda mulher. Para ele a sua honra fora lavada com o sangue da traidora. A partir de então Zé Baiano que já era malvado ficou ainda pior, principalmente contra as mulheres.

Já o cangaceiro delator, Besouro, foi morto ali mesmo por ordem de Lampião no momento em que Lídia disse que ele assim tinha denunciado o fato em contrapartida dela não ter aceitado também transar com ele. Por sua vez, o cangaceiro Bem-te-vi logo no início da conversa, de um pulo, tratou de fugir na escuridão, mato adentro em desabalada carreira para nunca mais se ter notícias dele.

Era um tempo atroz em que não se aceitavam traições femininas em hipótese alguma e quem assim se atrevesse a contrariar as regras pagava com a sua própria vida.

Autor: Archimedes Marques (delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela Universidade Federal de Sergipe).
* Fonte ( cariri ligado)

RENATO DIDIER AQUINO
Colaborador

DOCE DE COCO COM COCO (Crônica)

                                                    Por: Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

DOCE DE COCO COM COCO

Nem imagine que há redundância, pois é isto mesmo que está escrito acima: doce de coco com coco. Não é com goiaba, com mamão nem com carambola, é com coco mesmo. É doce, doce de coco e com coco ainda por cima.

Não queria ter de explicar isso não, pois meu assunto aqui é outro, mas vou ter de tecer algumas considerações. Não é absurdo o que disse exatamente porque tem doce de coco que não é feito puramente com coco, mas essencialmente com leite de vaca e tendo o leito de coco e sua carne ralada apenas para dar o sabor. E sabor de coco, e daí geralmente se falar em doce de coco.

Mas existe o original doce de coco e que leva apenas coco, sem a necessidade de acrescentar grande quantidade de leite de vaca. Além do coco ralado, o doce é feito com grande quantidade de leite do próprio coco, sem mistura. Coloca-se a quantidade que quiser do fruto triturado, mas o leite tem de ser muito, vez que vai evaporando até chegar ao ponto.

Assim, o doce de coco original é feito apenas com o leite de coco e o fruto ralado, além logicamente do açúcar, da pitada de sal e do cravo para cortar o sabor enjoativo. Podem-se acrescentar cascas raladas de limão e outros poucos ingredientes. Mas também, acaso pretenda ter um doce com bolas macias, acrescentam-se ovos à receita. Ainda assim nada impede de ser visto como doce de coco com coco e ovos. Uma delicia.

Como diz o próprio nome, todo doce deve ser doce. Mas é na colocação da quantidade de açúcar que reside o maior mistério na feitura. Não só do açúcar com na pitada de sal, que muita gente confunde com meia xícara ou mais. Açúcar demais adoça tanto que torna o doce enjoativo, sem sabor definido. A boa cozinheira sabe que a medida certa de açúcar é também a medida do sabor do doce.

Além disso, é preciso saber o momento certo se quiser tampar a panela, o tipo de colher de pau que deve ser usado, o lado escolhido para mexer, bem como o momento adequado para fazer isso. Se for só doce de coco com coco não haverá maior problema, pois ele vai pegando consistência com a fervura e a mexida servirá exatamente para não formar bolas. Contudo, se for doce de coco com coco e ovos, aí deixará que vá cozinhando sozinho até as bolas se formarem soltas na panela.

Falei demais sobre doce de coco com leite ou com coco e já ia esquecendo daquilo que me impulsionou a escrever. E sentei no meu velho birô exatamente para tecer algumas considerações sobre pessoas maravilhosas, humanas demais, cativantes, mas que muitas vezes exageram no proceder sublime demais e acabam se tornando enjoativas, antipáticas, desagradáveis. Assim como um doce de coco com açúcar demais.

E lá venho novamente com o tal do doce de coco. Mas não poderia ser diferente, pois existem pessoas que realmente são assim. Conheço muitas que parecem flores na primavera, gentis, acolhedoras, simples e singelas, mas no afã de servir, de se aproximar, de tomar pé de tudo para ajudar, se tornam extremamente evitáveis. É difícil tal constatação, mas de repente fica impelido a fugir daquela doçura de pessoa. Mas pelo exagero na doçura.

Nem mesmo os enamorados suportam parceiros assim. Tanto o homem como a mulher gosta da doçura do beijo, da meiguice no olhar, da brandura espiritual, da ternura íntima, do ser agradável que o outro demonstra ser. Mas se os gestos são propositalmente exagerados, as atitudes tomam uma feição fictícia, o relacionamento se torna um jardim rodeado de abelhas, então logo a relação se tornará insuportável, fria e insegura.

Como afirmado acima, todo doce requer uma pitada de sal, e exatamente para não ficar enjoativo demais, com exagerada doçura. A planta não vive sem sol, a solidão necessita de uma janela aberta para entristecer ainda mais, a noite precisa de uma lua, a vida precisa da morte para que alguém tenha vivido, e todo relacionamento precisa de pitadas de discordância, de nãos e senões, de descontentamentos e até de desacertos. Sem tais aspectos não há que se falar em união, em relação, em amor. Ora, inevitável a doçura e o ardor, a perda para querer conquistar muito mais.

Por fim, só uma coisa mais e não diz respeito a doce de coco. É apenas um segredo, que não deixa de ser uma lição. Por maior vontade que tenha de experimentar o manjar dos deuses, por mais gula que tenha, vá sempre com cuidado. Experimente sempre aos poucos e verá que delícia é o doce de...


Poeta e cronista
rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Acaso e eternidade (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa*

Acaso e eternidade


Não era pra ser nada
nenhuma semente plantada
apenas o passo na estrada
e de repente o encontro
o olhar de alegre espanto
surpresa e maior encanto
destino trazendo acalanto

o que não era nada
apenas um cruzar caminhos
tem-se a flor entre espinhos
na solidão os redemoinhos
para tudo ser esperança
primeiro amor de criança
o desejo que se alcança
no peito a valsa e a dança

criança sou meu amor
a tristeza ficou distante
não quero mais tanta dor
te encontrar foi bastante
mais que acaso um favor
doce destino de amante
e ao teu lado agora vou
pela estrada e adiante.



Poeta e cronista
rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

O pesar de ser cangaceiro

Aline Karla

A partir de Maria Bonita, há registros de quase duzentas mulheres que passaram pelo cangaço. Mesmo vivendo um cotidiano fora dos padrões da época, uma vez que as mulheres do cangaço não eram responsáveis pelas atividades domésticas, por exemplo, elas ainda estavam presas a uma dinâmica centrada num universo preconceituoso e dominado pelo homem. A própria justificativa da presença feminina no movimento era um exemplo disso: ela eram as companheiras dos cangaceiros.

Para poder ingressar no bando, as mulheres tinham que ser casadas (ou roubadas) com algum cangaceiro. Não houve registro histórico de nenhuma que tivesse entrado no movimento por simpatia à causa, desejo de vingança ou qualquer outro motivo que não um casamento. Todas foram levadas por um companheiro fixo - cada um era responsável por sua esposa.

Para o pesquisador João de Souza Lima, a principal função das mulheres no cangaço era a de cuidar dos companheiros. No entanto elas também podem ser interpretadas como um  ornamento deles – afinal, andavam com roupas enfeitadas, cobertas com perfumes e jóias em ouro: “A mulher era um enfeite, um símbolo sexual. E cada cangaceiro queria ter a mulher mais bonita, mais enfeitada”, explica o estudioso.

Uma vez enxergadas como pertences de seus companheiros, a vida e a morte destas mulheres também ficava sob o domínio dos maridos. A infidelidade delas, por exemplo, era punida com a morte.

Caso da cangaceira Lídia, considerada uma das mulheres mais belas do cangaço. Ela ingressou no bando aos 18 anos, casada com o cangaceiro Zé Baiano. Ao ser descoberta que traía o marido com  o companheiro de bando Bem Te Vi, Lídia foi torturada e morta a pauladas. Outra vítima da violência foi a cangaceira Lili, casada com o cangaceiro Moita Brava. Ele não perdoou o flerte entre a esposa e o colega de bando Pó Corante, e assassinou Lili com seis tiros à queima roupa, no meio do acampamento.

Nos casos acima, apenas as mulheres foram julgadas e punidas com a morte. Porém a postura era bem diferente quando a traição acontecia de maneira inversa. Como ocorreu com a cangaceira Antônia, que abandonou o grupo após descobrir que o marido, o cangaceiro Gato, havia trocado-a por outra. Antônia ainda reclamou e reivindicou, mas o que prevaleceu foi a vontade do cangaceiro.

A ex-cangaceira Aristéia Soares, (já falecida) também foi devolvida para a família a pedido do companheiro. Ela passou oito meses casada com o cangaceiro Catingueira, morto num confronto entre o bando e as volantes do governo. Gravemente ferido, Catingueira orientou os companheiros que encaminhassem Aristéia, que estava com a gravidez avançada, de volta à casa dos pais. E assim foi feito. Mais uma vez, a vontade do companheiro determinou o destino da mulher.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

PASSARINHO: UM EX-CANGACEIRO DE LAMPIÃO


"Atentos a importância de se recuperar informações que enriqueçam a história de nosso município ou de santa-cruzenses que se destacaram no cenário histórico de tempos de outrora, estamos postando esse artigo redigido pelo pesquisador Eudes Donato. Agradecemos ao querido amigo triunfense André Vasconcelos, que vez ou outra nos envia achados como este".

Marcos de Lima (Passarinho) nasceu em Santa Cruz, antes distrito de Triunfo-PE, em 22 de setembro de 1903. Começou cedo no cangaço com idade de 16 anos em 1919, ainda no comando do cangaceiro Sinhô Pereira (Lampião ainda não havia formado o seu bando).

Posteriormente, Sinhô Pereira confia entregar o comando a Lampião e vai embora para Goiás onde seus familiares tinham propriedades, isso mais ou menos por volta de 1921. Logo em seguida, são formados novos grupos de cangaceiros para dar sustentação ao grupo de Lampião.

Passarinho entra num desses grupos comandado por Cícero Costa, ou Ciço Costa (um Paraibano) que agia na região de Conceição de Piancó PB. Eles e Ciço Costa participaram do bando de Lampião em várias ocasiões. Esse seu chefe imediato era um grande conhecedor de farmácia natural, o médico do bando.

Muitas pessoas acham que Passarinho conviveu diretamente com Lampião. Não, ele teve vários encontros com o rei do cangaço, inclusive participando de alguns ataques como na propriedade de José Trajano, localizada no município de Conceição PB, com o seu chefe tomando-lhe rifle e 
dinheiro em 06 de Julho de 1921.

Existiram dois Passarinhos no cangaço, por isso que algumas publicações citam: Passarinho l e Passarinho 2, (era costume quando algum morria ou era preso, se colocar o nome de outro que estava chegando e com semelhança ao mesmo, batizar de fulano l e fulano 2, e este Passarinho é claro e evidente foi o nº l.

Nessa vida tirana, Passarinho viveu 3 anos e 7 meses no cangaço, até quando foi preso em 24 de dezembro de 1923. Foi recolhido a cadeia de *Princesa e sendo condenado pelo júri local a 29 anos e 9 meses de prisão.

Fora preso e condenado por haver assassinado naquele ano, mais precisamente no dia 17 de dezembro do corrente ano, num local chamado Caracol do município de Conceição do Piancó PB, Raimundo Nogueira a quem roubara-lhe sua roupa e algum dinheiro. Seis dias após o acontecido, o irmão de Raimundo surpreende Passarinho nas adjacências da povoação de Patos, município de Princesa.

Passarinho estava justamente com as roupas do seu irmão Raimundo, este saca de uma arma e atinge Passarinho. O seu companheiro Juriti, num vacilo de Raimundo, por trás dá-lhe uma pancada na cabeça e termina o ato dando-lhe várias facadas. Passarinho, ferido, entra na povoação gritando: - Acabam de matar um homem e me feriram também, (pra ver se enganava os soldados). Banhado de sangue dos ferimentos, recebe voz de prisão, não por obediência a lei, pois era valente, mas pelos disparos recebido.

Recebendo ameaças de morte é transferido para João Pessoa onde cumpriu 7 anos e 9 meses de prisão. Vem pra Campina Grande, depois Pocinhos (é quando conhece sua futura esposa dona Petronilha, mais conhecida por dona Pitu.

Casa-se em Campina Grande e vem morar em Areial, pois dona Pitu tinha familiares residindo aqui. Não teve filhos, mas criou um filho adotivo (Arinaldo) do qual ganhou três netos (uma mulher e dois homens).


Em Areial, viveu por mais de sessenta anos. Faleceu no dia 15 de agosto de l998, aos 95 anos, e seus restos mortais estão no cemitério local. Sua esposa dona Petronilha Maria de Araújo, nasceu no dia 23 de setembro de 1917 e faleceu em 19 de Agosto de 2004 em Areial, aos 86 anos e onze meses, e seu sepultamento também foi no cemitério local.

São vários livros e jornais que citam o nome ou fizeram manchete com o nome de Passarinho.

Trecho extraído do livro: “Passarinho: um ex-cangaceiro de Lampião em Areial” (ainda em acabamento de autoria do pesquisador, Eudes Donato)

FONTE: 

“ICONOGRAFIA DO CANGAÇO” TRAZ REVELAÇÕES SOBRE LAMPIÃO

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São 180 fotos e mais um DVD que ajudam a entender como Lampião se tornou um mito popular nacional

A saga de Virgolino Ferreira da Silva, o conhecido Lampião (1898-1938), é talvez uma das mais importantes e conhecidas da história brasileira. Envolto em lendas e verdades, o Rei do Cangaço povoa até hoje o imaginário nacional. Mas a trajetória desse fenômeno social remonta ao século 18, quando bandos de cangaceiros passaram a se formar no Nordeste.

Segundo o escritor e jornalista Moacir Assunção, “o fato de nos lembrarmos mais de Lampião quando falamos em cangaço é porque ele e homens como Corisco, Zé Baiano, Zé Sereno e Luiz Pedro, viveram em uma época na qual já existiam veículos de comunicação de massa, como as revistas, o cinema em sua plenitude e os jornais, além de livros, já distribuídos no interior nordestino, e da rica gesta da literatura de cordel”, escreve no livro.

Além disso, podemos dizer que Lampião se beneficiou da invenção que se tornou a expressão da modernidade no começo do século 20: a fotografia. Parte desse acervo iconográfico foi organizada por Ricardo Albuquerque e está no livro Iconografia do Cangaço, que será lançado nesta terça-feira, 08, em São Paulo.

A relação de Ricardo com essas imagens não se deu por acaso. Foi seu avô, Adhemar Albuquerque, que ensinou o libanês Benjamin Abrahão (1890-1938) a fotografar e filmar na década de 1930: “Meu avô nunca foi profissional, mas gostava de fazer cinema e documentários. Gostaria ele mesmo de ter filmado e fotografado Lampião, mas trabalhava como caixa num banco e seu chefe não o liberou”, conta em entrevista por telefone. “O jeito então foi munir Benjamin Abrahão de equipamentos e encomendar o material.”

O encontro dos dois se deu em 1934, por conta da morte do Padre Cícero, de quem Abrahão tinha se tornado secretário. Adhemar Albuquerque viajou até Juazeiro para filmar o funeral e foi ali que se conheceram. A primeira tentativa foi um fracasso: “Os filmes ficaram todos velados e Abrahão os colocou na sua mochila junto com a comida. Até formiga tinha”, conta Ricardo. O jeito foi convencer Adhemar que valia a pena mais uma tentativa. E assim foi feito. Desta vez, o precursor do cinema se certificou de que não haveria erros.

O mascate libanês, cuja trajetória foi documentada no filme Baile Perfumado, se torna então quase por acaso e por interesse financeiro, o documentarista do bando do Lampião. Antes disso, porém, foi necessária uma carta do próprio Lampião autorizando a empreitada.

Quem foi Lampião

Por: Alfredo Bonessi

Quem foi Lampião

Alto, magro, moreno escuro, quase pardo, esguio, meio corcunda, ágil, saudável, resistente a fadigas, manco do pé direito por causa de bala - segundo quem lhe conheceu - por causa de calos no pé segundo declarações dele mesmo, em estado espiritual, a um programa de televisão, com belida no olho direito, um leucoma, assim era o corpo de Virgulino Ferreira, vulgo Lampião.
                

De personalidade alegre, disposto, temperamento inconstante, sujeito a crises de fúria e descontrole, místico, religioso, rezador, intuição apurada, perspicaz, agudeza de raciocínio, inteligente, líder nato, exímio atirador de armas curtas e longas, fazendeiro, domador de animais de montaria, vaqueiro campeão, amante de bebidas finas, cigarros, charutos e mulheres, excelente trabalhador em couro e tecidos, narcisista, jogador de baralho sem sorte, impiedoso, cruel, vingativo, justiceiro - falso moralista, abusou sexualmente de algumas mulheres, embora, hoje, não sabemos se eram esposas ou filhas de inimigos. – mesmo assim são fatos lamentáveis e inaceitáveis para qualquer época de uma geração.
               
Desconfiado, prudente, calculista, infiel mas respeitador das opiniões da companheira, maleável até certo ponto, principalmente em algumas decisões a ponto de alterar as ordens dadas por interferências dela, respeitado, temido, considerado, perigoso, astuto, inquisidor, julgador, musico, dançarino, corajoso, amigo, leal, acreditava nas pessoas, perfeccionista , gostava de tudo o que era bom, rico, comerciante, artífice, laborioso, habilidoso e estrategista.
               
Lampião foi um homem notável para o seu século. Não existiu até o presente momento ninguém mais do que ele, igual a ele, em mesmas circunstâncias, fazer o que ele fez em um ambiente hostil, carente de meios e desprovido de tudo, por tanto tempo assim – mais de vinte anos - acossado por centenas de volantes policiais.


A impressão que se tem pela fotografia acima, é que em 1928 – na visita a Pombal, possuía um relógio de pulso no braço esquerdo.

Não sabemos até hoje como conseguiu gravar o seu nome e o de sua mulher no interior das alianças que ambos portavam e que simbolizavam a paixão que um nutria pelo outro. Gostava de tudo que brilhava, que reluzia. Quem o avistasse pela primeira vez ficava impressionado com aquele homem impecavelmente trajado de azul, ou brim caqui, apetrechos ricamente ornamentados de variadas cores e matizes, armas luzidias nas mãos prontas para o uso, tez da cor de cuia, olhar firme, voz rouca, sons profundos que calavam fundo na mente de quem o ouvia – de repente a pessoa, em seu intimo, sentia um arrepio, um frio, um medo, um temor – sentia a impressão que estava correndo um grande perigo, e aguardava, apavorada, a qualquer momento o bote daquela fera perigosa, de punhal em riste, e com a ponta do aço duro cutucar a veia jugular na tabua do pescoço, sangrando a vítima em questão de segundos.


O pavor que os nordestinos sentiram quando estiveram frente a frente com Lampião, sentiram também os homens que outrora conviveram com pessoas diferentes e superdotadas, como por exemplo, quem esteve nas presenças de Alexandre, O Grande, Julio César, Nero e Napoleão Bonaparte. – personagens da História, grandes personalidades em suas diferentes épocas, alguns líderes excepcionais, guerreiros, vencedores, que sucumbiram pela vontade do destino, dono absoluto da vida das pessoas importantes. Quem os visse, a princípio, sentiam-se admiradas diante de tanta beleza, depois de contemplá-los por alguns instantes sentiam um respeito profundo pelo que viram, depois eram possuídas por um temor inexplicável que lhe arrebatavam a alma e que lhes causavam calafrios, palidez nas face, suor frio e tremores nas pernas.
                
Não se pode desejar que lampião nasça em outro lugar, em outro país, em classes mais abastadas. Lampião nasceu e se criou no lugar exato em que todo o homem valente deseja nascer e ser criado - uma terra de homens corajosos, valorosos, que não tem medo de nada e de ninguém. Homens acostumados a vida dura, difícil, onde só o destemido, o persistente, o audacioso, os corajosos sobrevivem, tiram raças e prosperam em cima do solo duro, pedregoso, domando o gado hostil - animais bravios - em meios a serpentes venenosas, como a cascavel e rodeado de mata espinhenta por todos os lados.
                
Quem visita o lugar onde Lampião nasceu sente a alma envolta por um romantismo inexplicável, o ar circundante é adocicado pelo aroma das flores silvestres. Ainda pode se escutar o gorgeio livre da passarada ao amanhecer e ao entardecer; pode-se sentir o cheiro natural que brota da terra estrumada; pode-se ouvir o guizo da cobra oculta; pode-se escutar ao longe o mugido do gado na invernada; pode-se imaginar o fogo aceso, panelas ferventes, chiando nas trempes, o prato de bolinhos feitos pela Dona Jacosa, sua avó, o café fumegando na caneca, e as suas mãos ágeis enfeitando o couro dos arreios, o seu semblante concentrado mas feliz pela alegria que sentia de viver e de trabalhar, o prazer de tudo e por tudo, o gosto pelo que é bom.
               
Toda essa vida boa, doce, tranqüila, prazeirosa, o destino ingrato retirou dos caminhos de Lampião, menos a fé em Deus e o amor puro que nutria pelos seus familiares. Mesmo nas horas mais difíceis de sua vida atribulada a paixão pela Virgem Santíssima nunca se arrefeceu de seus pensamentos ardorosos, forjados por uma fé inquebrantável – sentia um amor infinito e incompreensível pela Santa, a ponto de sempre rezar em sua homenagem, ao deitar, ao levantar, ao meio dia e as seis horas da tarde.


Lampião queria viver bem e feliz. Queria ser o melhor em tudo e por tudo, de acordo com o que Deus lhe dera. Por ser portador de qualidades inerentes a poucos seres humanos, foi invejado, odiado, perseguido, traído e levado a morte, embora tenha feito de tudo para que isso não acontecesse, pois era um amigo leal e de confiança, era muito bom para quem fosse bom para com ele – Lampião era um homem de palavra e não se apossava das coisas alheias por ser ladrão vulgar, salteador de beira de estrada, fazia o saque por necessidade de manter o bando de cangaceiros e por esse fato pedia sempre dinheiro as pessoas mais abastadas, por carta, bilhetes ou mensageiros, ou simplesmente tomava delas.
                
Lampião a frente de seus homens mantinha uma rede de informantes pagos a peso de ouro. Aliciava policiais e pessoas influentes, e quando não conseguia demover o perseguidor por bons modos, difamava-os, inventava historias cômicas sobre eles, dava-lhes apelidos depreciativos, contava piadas que fazia brotar risos na turma acampada aos redores das fogueiras, sobre esse e aquele oficial. Era temerário, mas não poderia ter negligenciado a capacidade combativa de Bezerra - o oficial que o matou- segundo Lampião, dito por ele mesmo, não tinha medo de boi brabo, quanto mais de bezerra... o descuido, esse erro de avaliação foi-lhe fatal e custou-lhe a cabeça naquela manhã de 28 de julho de 38.


Criou para si e para seu bando sinais, códigos e gírias que significavam algo entre eles, que conheciam a chave para decodificação, como por exemplo o L formado pelo indicador e o polegar da mão direita que devia ser mostrado quando se aproximavam das sentinelas do grupo. A três pancadas nos troncos das arvores - mas não eram pancadas comuns, elas tinham intensidade, ritmo e freqüência, que só os do bando sabiam executa-las.
                 
A manutenção dos esconderijos, os depósitos escondidos nos interiores dos troncos das arvores, de dinheiro, munição e armamento; a ocultação do cadáver do seus comandados, o sumiço dos rastros, a camuflagem, a dissimulação, a finda, o drible, a manobra audaciosa, o descarte dos dejetos dos acampamentos, a busca pela água e pelos alimentos, - o lampejo na mente iluminada pela escolha da decisão mais acertada, na hora certa e diante de grande perigo - fizeram o bando sobreviver por longos anos, diante de volumoso número de perseguidores, graças ao tirocínio de seu comandante, de sua visão combativa, de seu planejamento bélico, do seu sentido de direção, de seus objetivos previamente ajustados e na maioria das vezes bem sucedidos, e por esse fato granjeava a admiração e o respeito dos seus seguidores, a ponto de sempre confiarem nele e o considerarem invencível. Seu bando nunca andava a ermo, sem um roteiro estabelecido, se um objetivo, sem uma missão a cumprir. Seus deslocamentos sempre tiveram início, meio e fim.
                
Lampião morreu no tempo certo e na hora certa. Morreu no apogeu da vida e da saúde. Morreu em combate. Após o mortífero impacto da bala que lhe pos por terra, enquanto pode, enquanto tinha uma pouco de energia, tentou ficar de pé, não conseguiu, se contorceu até que o tiro final esgotou todas as possibilidades de vida. Um espírito muito forte retornava a sua morada divina.


Lampião pode ter sido o que seja, mas um dia voltará para cumprir a sua missão terrena em uma nova chance dada pelo criador. Esperamos que tenha mais sorte desta vez. Analisando a vida de grandes malfeitores podemos dizer que Lampião não teve as mesmas chances e as oportunidades de fazer o bem que tiveram Reis, Rainhas, Religiosos e Políticos da Nova Era. – pelo contrário – foram até muito pior do que ele. As centenas de pessoas que caíram pelo aço de seu punhal ou pelas balas de suas armas nem de longe se comparam aos milhões de mortes causadas pela inquisição religiosa e nos porões das masmorras ideológicas. Talvez seja por isso que Lampião mereça uma nova chance nesse mundo de pecado.

Alfredo Bonessi. (Foto: Manoel Severo)
                   
Estudante Pesquisador – Membro da GECC - Grupo de estudos do cangaço do Ceará e SBEC - Sociedade Brasileira de estudos do cangaço

http://lampiaoaceso.blogspot.com

CANTO DAS ALMAS (Crônica)

 Por: Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

CANTO DAS ALMAS 
                                                         
Na noite fechada, no breu da escuridão, ouviu-se um murmúrio, um canto dolente que foi se espalhando pelos quatro lados de chão e pedra, de fogo e capim, que formavam a senzala. Logo a seguir ecoou o coro das vozes negras em cantoria para relembrar os sofrimentos e aflições de um dia.

“Chame o feitor, traga o capataz, onde está o capitão-do-mato? Quero aquele negro fugidio sangrando no mourão, gemendo no tronco; quero ver suas costas na carne viva para servir de exemplo aos que tentarem se misturar à escuridão e fugir pelos canaviais”.

Quando cai a noite de pouca lua ou a se a nuvem reina lá em cima, lá pra baixo do mercado do escravo, no mesmo porão onde os negros, ou bichos-homens, ou animais que falam, ficavam jogados até serem chamados no açoite para ver quem dava mais pela negra peça, hoje se ouve uma cantiga chorosa que dói nos ouvidos e no coração de quem a ouvir.

“Esse bicho aqui é bom, é sudanês, é banto, é da guiné, é da costa africana. Olhe os dentes brancos e sadios que carrega, tem a força de um touro e é de família escrava conhecida pelo sofrimento calado. Está assim meio triste pela viagem, pelo banto, e está assim com o corpo parecendo ferido pelos ferros que o aprisionava ao navio negreiro. Mas é negro retinto, escravo valioso. Vale muito. E se quiser levar uma negrada então o preço fica ainda melhor”.

Por dentro do mato, por entre a fileira das canas, por cima e por baixo das pedras que ainda continuam por lá, nos mourões fronteiriços, por cima da terra ainda manchada de sangue e suor, por toda vereda onde o pé negro marchou na sua lide diária, debaixo do açoite sedento, ainda hoje se ouve a música fúnebre das almas escravas que começavam a morrer ali.

“O negro safado correu no meio da noite e se embrenhou mata adentro, mas não deve ir longe não. Ele já é manco de um pé de uma ferroada recebida porque mereceu. Em nome da honra do engenho quero aquele negro rebelde de volta aqui. Chame mais três, chame quatro, cerquem por todo lugar, procurem por dentro de todas as moitas que encontrar. Assim que botar a mão naquele maldito arranque primeiro os dedos, depois corte um dedo de cada mão e deixe em carne viva por debaixo do pé direito. Depois traga ele descalço e amarrado ao cavalo, e parando de vez em quando pra dar cor no lombo preto”.

Lá pela ladeira do riacho, pertinho das pedras molhadas e amoladas que nem navalha, diante da fumaça eterna no fogão de lenha, embaixo das camas de varas, por cima do chão de capim servindo de leito, em frente e ao redor dos cacarecos que eram os pratos e os talheres, ainda se sente a presença da boca se abrindo para entoar a cantiga dos mortos, a toada de despedida, a canção do nunca mais existir.

“Pegue o arreio, pegue o chicote, pegue a ripa de prego, pegue o pau amolado, pegue a laçadeira, pegue a arma, pegue o grilhão, pegue a corrente, pegue o laço de sete nós. Abra o caminho pro tronco, abra a estrada pro mourão, abra a vereda pro cubículo das cinzas. Traga ele aqui, e traga também quem olhar piedoso. Preciso mostrar a esse revoltoso pra que serve o tronco e o açoite, a brasa e a ferroada, o gemido e a dor”.

Nos esconderijos do mundo, nos quilombos nos escondidos das serras, nas moradias debaixo do tempo, na vida ao deus-dará, na sorte quase entregue à morte, em todos os lugares onde os negros rebeldes e fugitivos que buscavam abrigo ainda ecoam o canto sem rima, sem brilho, sem estrofe, sem verso. Apenas um gorjeio misterioso e agonizante igual ao pio lamuriento do urutau ou mãe-da-lua.

“Essa negra não pode perder tempo dando peito a menino. Fure o peito, bote pedra na boca do chorão. Coloque a tampa de ferro na sua cara, bote pimenta no peito, se não der jeito pode arrancar os dois. Jogue o menino no mato, manda a mãe cortar cana, pegue a vara da cana e amole no lombo dela. Essa negra devia ter aprendido que aqui ninguém tem o direito de ser mãe nem pai, apenas de trabalhar, trabalhar, trabalhar...”.

E o som aumenta, o canto ecoa num refrão de gemido. Tocam os atabaques, os zabumbas, as caixas. Não, isso não é toque. É lombo de negro, é lombo de negro apanhando. Mas o som aumenta, ainda ouço esse canto açoite. E é canção de negro sofrendo, é sinfonia de negro morrendo.

Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Beijo (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa* 

Beijo


Porque no teu lábio
beijei o mar
beijei a vida
beijei o amar
içei minha vela
a navegar
ter ainda sede
nesse singrar
beijar de novo
apaixonar
o quanto é longe
onde quero chegar
no cais do corpo
um porto seguro
desembarcar
sedento de amor
querendo beijar
me espere morena
o vento já sopra
não posso ficar
no passo das águas
destino amar.


Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE


Convite

O escritor Archimedes Marques, tem o prazer de convidar Vossa Senhoria e família, para o Coquetel de lançamento de seu livro “Lampião Contra O Mata Sete”.
Local: Sociedade Semear 
Rua Vila Cristina, 148
Aracaju - Se
Horário: 19h
Data: 02 / 06 / 2012
SINOPSE
LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE

A história nua e crua narrada com a veracidade que ela merece.

Archimedes Marque (*)
Participante do maior movimento pertinente que há no Brasil, o CARIRI CANGAÇO, evento que reúne anualmente as maiores autoridades nacionais e internacionais sobre o tema e que é realizado na cidade do Crato e região do Cariri cearense adjacente, o autor Archimedes Marques em nome da VERDADEIRA HISTÓRIA QUE FOI VILIPENDIADA com o livro “Lampião, o Mata Sete” resolveu escrever a sua contestação: LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE.

Trata-se do primeiro livro oposição dentro do assunto cangaço. LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE, procura refutar tudo que está errado no seu livro opositor, pois essa obra é eivada de vícios do início ao fim. Todas as alegações contidas no livro “Lampião, o Mata Sete” referentes às honras sexuais de 



Lampião e Maria Bonita são levianas e sem provas algumas por menor que sejam e até mesmo desprovidas sequer de indícios de veracidades, como se a história fosse feita de insinuações vindas do nada, provindas de uma mente criativa sem apresentar fatos alguns que pelo menos deixem dúvidas quanto ao alegado.

Da citada obra contestada, de todas as aleivosias existentes ainda há muita coisa errada, tais como troca de datas, de nomes de pessoas, de fatos, de passagens, além das constantes tentativas de levar o leitor a erro. Enfim o livro “Lampião, o Mata Sete” é de PÉSSIMO GOSTO EM TODOS OS SENTIDOS, jamais é um livro histórico. Trata-se sim, de um livro FICTÍCIO além de muito mal informativo, muito mal pesquisado.


Até os dizeres do escritor Oleone Coelho Fontes que fez a introdução do livro refutado, e que por sinal escreveu o excelente livro "Lampião na Bahia", em muitas vezes se esbarram em situações totalmente adversas ao pensamento contido no livro “Lampião, o Mata Sete”, em comprovação que de tudo nessa obra há somente aleivosias improváveis.

(*) Archimedes Marques (Delegado de Policia Civil no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br