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sexta-feira, 13 de julho de 2012

O inimigo nº 02 de Lampião - Coronel "Zé" Lucena

Por: Luiz  Nogueira Barros (*)
 José Lucena de Albuquerque Maranhão -De grande perseguidor de cangaceiros à politico

Vou ao cemitério visitar o túmulo de minha mãe. Estou em Maceió e sou adulto. Na saída pergunto para um funcionário: 

– Aquele é o túmulo do coronel Lucena?

Ele me diz que não sabe, que trabalha ali faz pouco tempo. Fico a me lembrar de que o coronel foi prefeito de Maceió *(1953-1955). E de que o seu túmulo foi uma homenagem da Prefeitura, ao tempo do prefeito Sandoval Caju.


E mais: que morrera humilde e sem riquezas. E logo um frio percorre o meu corpo. E os ventos - tais os da infância - me transportam aos anos quarenta. Estou em Santana do Ipanema. 

A cidade se confunde com as minhas lembranças. O velho Quartel da Polícia Militar enche o meu olhar. Nele funcionava o "Comando de Caça a Lampião", que tinha como comandante o coronel Lucena. Tipo forte, cabelos ondulados, boca pequena, nariz fino, corado e sempre alegre, ele encarnava o mito da coragem. Fora disso, era o homem venerado e de quem jamais se colocou em dúvida a honestidade de princípios.


E de súbito, vejo-me na formatura do curso primário tendo o coronel como nosso padrinho, fato sobre o qual até bem pouco eu ainda tinha uma fotografia. Depois o coronel está abraçado com "Seu" Carola, dono da maior farmácia da cidade, brincando o carnaval acompanhado por uma multidão de foliões, entrando em todas as casas da cidade e recebido como um rei. 

Um rei para o qual as famílias preparavam comidas e bebidas. Mas os dois foliões não bebiam. Os seus acompanhantes, pessoas simples do povo, é que se fartavam. O que valia era a alegria de receber o coronel e o seu inseparável amigo de carnaval. Percorrendo ruas e ruas o coronel a todos prestigiava tornando os carnavais tranquilos.

Mas o coronel Lucena não era o único mito da cidade. Ele dividia o privilégio com o padre Bulhões. Um era o poder material e outro o poder espiritual. Coronel Lucena, no Monumento – parte alta da cidade. E padre Bulhões, no Camoxinga – parte baixa da cidade.

Assim, eles estendiam um arco de proteção sobre toda cidade. Um dia o tenente Porfírio, homem valente, tornara-se suspeito de que se preparava para formar um bando de cangaceiros. Já houvera morto uma esposa, segundo suspeitas. A desculpa fora simples: encontro casual com grupos de cangaceiros, tiroteio e etc. Saíra-se bem com a justiça. Mas haveria de matar outra esposa de nome Durvalina, refugiando-se no Camoxinga. Todos sabiam que cangaceiros não agiam nas terras de Senhora Santana. E o coronel Lucena mandou-lhe ordem para comparecer ao quartel, através de seus dois soldados de confiança, Artur e Zé Pereira. Mas tenente Porfírio debochou: 

 – Digam ao coronel que a distância é a mesma. Ele que venha aqui.

Acabrunhados, os soldados comunicaram o fato ao coronel. E ouviram: 

– Muito bem: voltem e tragam Porfírio de qualquer jeito!

Quando os dois se aproximaram da casa de Porfírio ele já saltou de revólver em punho, na varanda. Mas tombou (numa fração de segundos) mortalmente ferido, sem ter tido tempo para algum tiro certeiro. Colocado numa rede foi levado para o quartel e depois sepultado com uma sava de tiros a que tinha direito. Abriu-se inquérito policial para apuração da ocorrência. Motivo: desacato a autoridade.

Desperto-me. Estou outra vez em Maceió. Olho para a presumível sepultura. Não consigo ir vê-la de perto. E deixo o cemitério remoendo lembranças e ainda sentindo os ventos da infância.

( * ) Luiz  Nogueira Barros  

Nascido em Pão de Açúcar a 02 de novembro de 1935. Em 1941 sua família mudou-se para Santana do Ipanema, onde permaneceu até 1950. Daí que entre próximo que será publicado, com ensaios, e contos, 30 contos retratam histórias de Santana do Ipanema. Médico, formado pela Faculdade de Medicina da UFAL, em 1963. Atualmente aposentado pelo Ministério da Saúde. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, função de Segundo Secretário, em seguida Secretário Perpétuo em 2001. Segundo vice-presidente, diretoria de transição, após a morte do presidente, prof. Ib Gatto Falcão, da Academia Alagoas de Letras.  nogueirabarros@uol.com.br

Publicado originalmente no Jornal Gazeta de Alagoas, em 18/4/1993
Dispnivel online em  sistema3001.com.br/?p=353

As "fotos e informação complementar" foram inseridas a matéria, no sentido de enriquecê-la..

Créditos do achado e inserção das fotos para:

Ivanildo  Alves  da  Silveira

Colecionador do cangaço
Membro da SBEC e do Cariri-Cangaço
Natal/RN


lampiaoaceso.blogspot.com 

O Chôro do Gado

Por: Napoleão Tavares Neves
Jadílson Bin Laden ao lado do Mestre Napoleão Tavares Neves

O gado descia mansamente da planura araripana para as verdes pradarias do sertão, enfastiado do capim agreste da Chapada do Araripe e sedento do verde capim mimoso com que as primeiras chuvas do inverno revestiam as chapadas das fazendas dos sertões do Cariri. Os trovões já reboavam no horizonte chamando o gado para o sertão. E o gado obedece! Era aproximadamente 200 reses. A melodia dos aboios dos vaqueiros era reforçada pelo tintilar dos chocalhos das vacas paridas e amojadas. Tudo muito alegre e sonoro! Na guia do gado ia meu pai, no coice ia eu, adolescente e de cada lado dois vaqueiros evitavam que algumas reses mais ariscas se desgarrassem.

Ao atingirmos o Lambedouro do Mulungú, lugar onde o gado sempre matava a sua carência de sal, lambendo a terra salgada daquele rincão, uma cena para mim inusitada: um touro mestiço do pescoço grosso parou, deu um forte esturro como se fora um grito de guerra, levantou as patas dianteiras e ao baixá-las, retorcia com os chifres as moitas do mato verde e cavava o chão jogando a terra para traz! Instintivamente, todo o rebanho o imitava. Paramos todos! Os vaqueiros deixaram de aboiar! O vaqueiro Zé Feliz, muito místico, levou o chapéu de couro ao peito e parou também.

Esta dolente cena durou alguns segundos ou minutos.

Em seguida, o touro mestiço parou e tomando a frente do gado, começou a caminhar, seguido por todo o rebanho, mostrando que sua liderança era inconteste. Curioso, fui ver a causa de tudo aquilo e boquiaberto, vi que ao pé da moita de mato retorcida pelos chifres do touro estava a ossada de uma rês recentemente morta, ainda com pedaços de couro pregado nos ossos cuja limpeza os urubus de plantão ainda não haviam concluído.

Meus pelos estavam eriçados pela emoção daquela bucólica cena que igual jamais vira antes. A natureza tem os seus mistérios e suas lições! Jamais vira eu os humanos chorarem tão convulsivamente os seus mortos! Eu tinha 13 anos e nunca esqueci até hoje cena tão tocante.

Napoleão Tavares Neves

Barbalha-Ceará

Conselheiro Cariri Cangaço
cariricangaco.blogspot.com

O Homem


“Era brabo, era malvado,
o Virgulino Lampião,
mas era por que negar,
nas fibras do coração
o mais perfeito retrato das
caatingas do sertão”.


cariricangaco.blogspot.com

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 14 (ENTRE O FASCÍNIO E O TEMOR)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 14 (ENTRE O FASCÍNIO E O TEMOR) 

Na época do cangaço, principalmente no período do reinado de Virgulino Lampião e seu bando, a vida cangaceira causava verdadeiro deslumbramento em muitos dos meninos e meninas, rapazotes e mocinhas, que viviam nas áridas e deslumbrantes terras nordestinas.

Talvez por desconhecimento da vida perigosa e quase desumana que a cangaceirada levava; encantados com as tantas histórias de valentia e destemor que ouviam dos mais velhos; deslumbrados com a estética cangaceira e seus adornos brilhentos, as riquezas reluzindo nos dedos e no entorno dos chapéus enfeitados; e inegavelmente com a sensação aventureira que tudo aquilo causava, verdade é que o cangaço era uma verdadeira paixão para muitos.

Nem imaginavam a realidade por trás dessa inocente ilusão. Nem de longe sabiam das dores e sofrimentos no cotidiano cangaceiro. O chão batido por onde pisavam era muito diferente do terreno espinhento, cheio de rastros de sangue, entremeado de labirintos, armadilhas, tocaias e emboscadas. O inimigo logo ali, à espreita, de arma em punho, pronto pra atirar. A face da morte adiante, o pio do passarinho que outra coisa não era senão um sinal de ataque.


E lá vai o cangaceiro se esquivando, se abaixando, se protegendo, contra-atacando, indo pra cima disparando fogo, vomitando a morte, destruindo o que encontrasse pela frente. E depois desandando na vereda do mundo, seguindo no passo do bando, contando no olho o que restou. E seguindo adiante, indo beber da lama avistada, indo morder o pé de preá com farinha seca, indo repousar na cama de pedra, indo sonhar sendo atacado. Levanta assustado, suado, aflito, pega a arma e só encontra a lua bonita se derramando por cima.

Ainda bem que havia essa lua bonita, uma manhã radiante de todo dia, uma paisagem encantadora para admirar quando a volante não estava por perto. Eis o momento de viver na desvalia da vida; eis o momento da reflexão diante da realidade assustadora. Mas não tem nem muito tempo pra mais nada, pois o grito de Lampião é ouvido, a ordem já é repassada, tudo será novamente, e do mesmo jeito, mais adiante e em todo lugar.

Mas que graça teria essa vida pra molecada tanto sonhar em seguir seus passos? Verdadeiramente não havia prazer algum. Os que haviam se tornado cangaceiros aos poucos foram compreendendo que o único significado de estarem ali era somente o da sobrevivência. O que talvez tenha começado como atração, desejo, curiosidade ou mesmo absoluta vontade, aos poucos ia se transformado apenas num duro fardo a ser carregado.

Por mais que a cangaceirada brincasse, dançasse, fizesse prevalecer suas vaidades, gostasse de sair da normalidade aflitiva daquela vida, verdade é que ninguém sentia prazer em ter aquele cotidiano de correrias, de enfrentamentos, de constante exposição aos perigos. Certamente que ninguém pode afirmar da felicidade encontrada dormindo nas tocas, nas grutas, nos descampados, nos esconderijos, ao lado de espinhos, bichos e dos inimigos rondando por todo lado.

Logicamente que nem todos, mas quem estava de fora, quem vivia ao largo desse mundo, fazia do imaginário uma forma de pregar o aventureirismo atraente, a vivência recheada de momentos fascinantes, como se tudo aquilo fosse uma grande e épica novela com seus heróicos personagens, cavaleiros andantes em busca do seu Graal.


Desse modo, ser cangaceiro era bom porque vivendo nos descampados e portais da natureza, conhecendo outras realidades sertanejas, virando a curva do estranhamente admirável. Além disso, era respeitado aonde chegava, trajava roupas bonitas e enfeitadas, reluzia ao sol com seus adornos. E principalmente porque ao lado e comandado pelo Capitão Virgulino. Ao ouvir tal nome, uma sensação estranha tomava o corpo, um mundo novo surgia na mente e o passo logo queria abrir cancela.

Essa noção de cangaço como maravilhamento, fenômeno empatizante e de identificação com as causas populares se disseminou pelos quatro cantos da região nordestina. Quase todo mundo tinha medo, grande parte da população fugia ao saber da aproximação do bando, mas ainda assim guardava extrema veneração e respeito. Tanto era assim que preferia mil vezes de repente encontrar um cangaceiro do que ser abordado por um policial da volante. As razões são mais que óbvias.

Talvez fugissem apenas por precaução, não dando chance ao azar como se dizia. E também porque assombrados com as conversas e mais conversas mentirosamente espalhadas de que o bando chegaria para matar todo mundo, não deixar uma cabeça em pé, apunhalar covardemente da criancinha ao mais velho. Neste sentido, procurando desqualificar o cangaço através da falsa imputação de crimes contra a população, é que desde aqueles tempos foi sendo criada uma imagem totalmente distorcida, irreal.

Assim, quando o povo se embrenhava nas matas ao ouvir da aproximação do bando tudo tomava uma feição de delírio coletivo, porém sem razão de ser. Um corria porque outro corria, um fechava a porta porque o outro assim fazia. Era como se grande parte da povoação fosse dormir ainda debaixo do sol porque alguém havia gritado que já era noite e fantasmas viriam amedrontar quem estivesse acordado.

E quando o bando despontava e seguia em direção à casa de quem o esperava, geralmente um coronel nordestino ou pessoa influente do lugar, os olhos começavam a sair das tocas, os passos se achegando, cada um comprovando que ali havia apenas pessoas cansadas, muitas vezes esfomeadas, que precisavam muito mais de matar a fome e a sede do que se preocupar em jogar criancinha para o alto e esperar a descida na ponta afiada do punhal.

E novamente o encantamento com o jeito de ser daqueles homens e mulheres das caatingas, suas roupas, seus adornos, suas armas, seus lenços e chapéus, suas propensões às farrices, xaxados e brincadeiras. Desses encontros, ou apenas no ouvir dizer, como magia repassada de boca em boca, é que a meninada se via despertada por uma vontade estonteante de seguir adiante junto com o bando.

Daí encontrar-se um motivo para que pais de família fugissem com os seus para as matas assim que os cangaceiros se aproximavam. Diferentemente dos filhos que se sentiam mais que atraídos pela vida aventureira dos cangaceiros, os pais tudo faziam para afastar daquelas mentes em formação esses perigosos desejos. Seria permitir um caminho sem volta, jogar ao acaso do mundo alguém com doze ou treze anos e que ainda não conhecia nada dos segredos da vida.


Mesmo assim, por mais que fizessem de tudo para evitar essa aproximação, muitas vezes as precauções se tornaram infrutíferas. Não foram poucos os rapazinhos e as mocinhas, muitos jovens mesmo, ainda meninos e meninas, que de repente já estavam fazendo parte do bando de Lampião. Muitos fugiram de suas casas, alguns por influência de outros jovens e conterrâneos cangaceiros, e ainda outros que fizeram do amor o passo para enveredar no cangaço.

Namoradores como eram, conquistadores de marca maior, contando com a fama existente e com as promessas de vida num verdadeiro reino encantado, muitos cangaceiros fizeram mocinhas caírem nas suas lábias matreiras e se tornar companheiras de sina. Quando os pais acordavam e procuravam as filhas achavam os cantos mais limpos, com um tanto de roupa levada. Por cima da cama um bilhetinho ilegível querendo dizer que havia encontrado sua razão de viver nos braços cangaceiros do bem amado.

E nenhum pai se metia a besta de entrar pelas matas e ir atrás de sua menina. Pranteava o choro da saudade enquanto sua pequena flor se fazia mulher com véu de folhagens secas e grinalda de espinhos.    

Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
http://blograngel-sertao.blogspot.com.br/2012/07/as-cronicas-do-cangaco-14-entre-o.html



quinta-feira, 12 de julho de 2012

VÍDEOS SOBRE LAMPIÃO - O REI DO CANGAÇO

Lampião - O trem da História

07 - "Delmiro Gouveia" - O trem da História (Parte 1)
08. "Delmiro Gouveia" - O Trem da História (parte 2)
Paulo Afonso de Infinita Beleza (1080p)
01. "Navio Itapagé" - O Trem da História


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"HABEAS PINHO": POEMA QUE MARCOU A VIDA DO POETA RONALDO CUNHA LIMA

     Em 1955 um grupo de boêmios de Campina Grande fazia serenata numa madrugada do mês de junho, quando chegou a polícia e apreendeu… o violão!…

Ronaldo Cunha Lima no Senado, em 1994 (Foto: Arquivo/Jornal da Paraíba)

O Poeta, como ficou sendo chamado carinhosamente em toda Paraíba, Ronaldo Cunha Lima sabia e narrava sempre, com sua mente prodigiosa e de forma descontraída, incontáveis “causos” do nosso folclore político e interiorano. Cunha Lima lançou em concorridas noites de autógrafos, cerca de 15 livros de poesias,muitos versando sobre amor.
Amigos que conviveram de perto com Ronaldo relataram que o poema “Habeas Pinho” foi um marco na vida do poeta. Os versos bem construídos integram o pontapé inicial da carreira jurídica de Ronaldo Cunha Lima.
Documentos revelam que em 1955 um grupo de boêmios de Campina Grande fazia serenata numa madrugada do mês de junho, quando chegou a polícia e apreendeu… o violão!
Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo Cunha Lima, na época recentemente saído da Faculdade e que também apreciava uma boa seresta.
Ele peticionou em Juízo, para que fosse liberado o violão.
Aquele pedido ficou conhecido como "Habeas Pinho" e enfeita as paredes de escritórios de muitos advogados e bares de praia, no Nordeste Brasileiro.
Eis a famosa petição:

HABEAS PINHO

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca.

O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola.
É simplesmente, Doutor, um violão!


Um violão, Doutor, que, na verdade,
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade.
Ao crime ele nunca se mistura.
Inexiste, entre os dois, afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida,
Que cantam as mágoas e que povoam a vida,
Sufocando, assim, suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório,
Porém, seu destino o perpetua:
Ele nasceu para cantar, em plena rua,
E não para ser arquivo de Cartório.

Mande soltá-lo, pelo Amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.


Libere o violão, Dr. Juiz,

Em nome da Justiça e do Direito!
É crime, porventura, o infeliz,
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado,
Derramando na rua as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza, já, do seu acolhimento.
É somente liberdade, o que pedimos
E, nestes temos, vem pedir deferimento!

Assinado: Ronaldo Cunha Lima, advogado.


O juiz  por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha Lima: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no Cartório, um violão.


Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo que há de belo no universo.


Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte á rua, em vida transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.


Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de luz, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.


Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço:
Kydelmir Dantas 

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 13 (TRISTEZAS E LÁGRIMAS DE LAMPIÃO)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 13 (TRISTEZAS E LÁGRIMAS DE LAMPIÃO)

Lampião era assim, não receava ou se envergonhava em mostrar entristecimento na frente de todo mundo, porém só chorava tendo a lua como única testemunha. Em determinadas ocasiões, quando a tristeza aflorava e o Capitão se afastava rumo à escuridão nos descampados, sua Maria, a tão Bonita, já sabia o que o seu amado iria fazer. Chorar.

Maria conhecia muito bem esse lado chorominguento do seu companheiro de luta e de coração. Muitas vezes nem precisava vê-lo com os olhos marejados, deixando desabar um pinguinho de água pelo canto do olho ou levar o lenço aos olhos. Conhecia o seu choro pelo seu olhar distante, entristecido, pelo coração aperreado, pelo distanciamento que se impunha da realidade. Mas de repente tudo era confirmado quando ele silenciosamente se afastava para derramar o seu pranto. Chorar. 

E chorar porque - também possuidor de sentimentos e coração - não prendia por muito tempo as enxurradas que teimavam em transbordar dos seus olhos que enxergavam a vida de um jeito totalmente diferente de outras pessoas. Conhecendo o profundo significado de tudo que se avistava adiante, de vez em quando visualizava angústias e sofrimentos tão profundos que se remoia por dentro para suportar. E suportar até a noite chegar para chorar.


Por isso mesmo se engana que cabra valente, sertanejo arretado, cangaceiro de proa, não entristece e não chora. Igualmente ao matuto que solenemente faz correr um fio d’água pelos cantos dos olhos diante do berro esfomeado do gado, da meninada faminta, da falta de um de um tudo por causa da seca, o cangaceiro, ainda que seja o maior deles, deixava se derramar diante de tanto desvão cotidiano.

Não tem cabimento se imaginar a vida cangaceira como alheia à realidade, expulsando sentimentos, vivendo somente para matar e não morrer. Do mesmo modo é inconcebível que se pense que os dias e as noites na mata ou no refúgio do coito se passavam sem instantes de meditação, de oração, de compartilhamentos e diálogos que faziam a alma transbordar.

Verdade é que se costumou pensar no cangaço como um bando de desumanos e malfeitores, cujo único intuito na caminhada era sair pelas estradas assustando quem encontrasse, matando inocentes, degolando infelizes, ferrando mocinhas. E tudo isso feito como desforra por não poderem enfrentar seus perseguidores como desejavam. Seria uma espécie de descontar naquele que não tinha nada a ver com a guerra sertaneja.

E sendo Lampião seu chefe, o absoluto comandante e idealizador das ações, dos ataques e contra-ataques, então seria o mais desalmado de todos, um ser nascido para espalhar a maldade e a morte pelos rincões sertanejos. Na contramão da verdade, chegam mesmo a concluir que em gente nascida assim e com destino de crueldade como sina seria impensável um sorriso, uma palavra afetuosa, um gesto de cordialidade. 

E o que é pior, pois ainda erroneamente imaginam que sendo um desalmado, um bruto, uma bestialidade, deixa de ter os sentimentos básicos do ser humano para só pensar em maldade, em matar, em trucidar quem encontrar pela frente. Ledo engano, pois cangaceiro também vitimado pelas angústias, aflições, temores, agonias e todos os tipos possíveis de expiações.

Certamente que Lampião não enveredou pelos caminhos cangaceiros simplesmente porque achava bonito ou porque, na sua jovialidade, tencionava ter uma vida errante pelos perigosos e amedrontadores labirintos nordestinos. Do mesmo modo, não se imagine que numa manhã abriu a porta de casa, pegou seu saco de viagem, e saiu mundo afora sem ter motivação alguma para tal. Nada disso prevalece diante da certeza do quanto o seu coração estava magoado quando decidiu abraçar o cangaço.


Coração magoado, cheio de dor, de revolta contra as injustiças continuamente perpetradas contra sua família. Pessoas simples, humildes, trabalhadores, raiz de muitos irmãos que de repente se viu esfacelada pela perseguição dos poderosos. Quando o sangue começou a jorrar vitimando os seus, então o sujeito pacato se fez homem valente para enfrentar não só aqueles algozes, mas também as injustiças que se alastravam pelos rincões nordestinos.

Na dor, na revolta, aprendeu a ter sentimentos. Primeiro sentir e se revoltar com as injustiças praticadas contra o seu berço, o seu leito familiar; depois perceber que as fragilidades sociais e econômicas de alguns só se igualam na balança dos poderosos na medida do enfrentamento, da violência se preciso fosse; e por último sentir – e eis o que mais lhe dilacerava e atormentava – que a honra do homem e a sua busca pela justiça somente poderia ser construída através do derramamento de sangue. E ele vivia nesse lamaçal sangrenta mas não queria assim.

E não queria assim porque não entrou no cangaço para ser matador, bandido, reles pistoleiro. Do ódio trazido daqueles acontecimentos familiares, pensava apenas em combater as atrocidades, mas não sair por aí vitimando qualquer um. E quando se tornou chefe de bando e logo reconhecido como o maior dos cangaceiros, ainda assim não havia modificado seu pensamento sobre o que ser e o que fazer na vida cangaceira.

E eis que neste aspecto ressurge a ideia sanguinária do cangaço, mas esquecendo, contudo, que sob o comando de Lampião o cangaço já havia deixado de ser caracterizado como grupo de assalto, bando de malfeitores, para se transformar num bando de perseguidos. Toda a construção negativa do cangaço era fruto do passado meramente sangrento do banditismo, cujos líderes tinham concepções chegadas à violência pela violência.

Quando Lampião – talvez até mesmo pelas distorções vivenciadas na facção que fazia parte – optou por marchar sozinho, e tendo logicamente alguns seguidores, e também pelo esfacelamento dos outros grupos existentes, teve que trazer no embornal todo um cabedal negativo que caracterizava o cangaço até então. Por culpa dos outros, o seu grupo, ainda que como líder agisse de forma totalmente diferente, começou a ser perseguido com uma voracidade jamais vista.

As perseguições empreendidas pelas forças de segurança, através das chamadas polícias volantes, deixaram Lampião sem opções. Ora, se o Capitão objetivava acima de tudo uma luta ferrenha para combater os abusos praticados contra os pobres sertanejos, enfrentando os algozes latifundiários e poderosos coronéis nordestinos, teve que mudar de foco para responder, com a mesma força e com a mesma violência, os ataques dos seus perseguidores.

Nesse desvio de rota, caminhando por veredas que não desejava, o que se viu foi um rio de sangue correndo debaixo das catingueiras, espichando por cima de mandacarus e xiquexiques. Nessa caminhada de fuga e ataque, tendo que responder à bala o disparo proferido, ou tendo que atacar primeiro para não ser surpreendido depois, alastrou-se a violência de tal modo que todo o sertão se amedrontava.


Não só pela necessidade de usar da máxima violência contra a também e superior violência recebida, mas também pelo fato de que ao cangaço eram imputadas ações sangrentas que jamais haviam praticado, pois tudo numa trama infernal da maioria dos comandantes das volantes, tudo isso fazia com que Lampião se tornasse cada vez mais num indivíduo propenso ao sofrimento, à dor, à tristeza.

Talvez as pedras, os espinhos e mandacarus tenham ouvido suas confissões quase que silenciosas. Mas somente a lua testemunhou o quanto essa aflição escorria pelo canto dos olhos. Talvez o Capitão ou o rei dos cangaceiros tentasse fingir, mas a verdade é que Lampião chorava.        

(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
http://blograngel-sertao.blogspot.com.br/2012/07/as-cronicas-do-cangaco-13-tristezas-e.html

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Herdeira


Esta é a mais nova herdeira do casal Neto Silva e Eliza Martins, ambos natalenses.



 Neto Silva é administrador do "blog do Neto".





Clique no link para conferir:


http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid=16967150649385967835&aid=1279463057

http://afnneto.blogspot.com.br

Pediu o filho de Corisco

*Cortesia e comentários de Ivanildo Silveira

Uma das grandes polêmicas no estudo do cangaço, se tratou da "briga", para que fossem enterradas as cabeças dos cangaceiros, " Corisco ", " Lampião " e outros que se encontravam expostas ao público no museu, em Salvador, tendo como guardião, o professor Estácio de Lima.


O Dr. Silvio Bulhões ( vide foto, logo abaixo), filho de Corisco, foi um dos que lutaram nessa frente, tendo ido a jornais, e a imprensa de um modo geral, além de ter mantido diálogo com o governo e estudiosos, a fim de que a cabeça de seu famoso pai, tivesse um enterro digno.

Abaixo, trecho de uma reportagem da revista " O Cruzeiro " de 02 de janeiro de 1969, que tratava do assunto em tela.. Vejamos.


O Dr. Silvio Bulhões (vide foto, logo abaixo), filho de Corisco, foi um dos que lutaram nessa frente, tendo ido a jornais, e a imprensa de um modo geral, além de ter mantido diálogo com o governo e estudiosos, a fim de que a cabeça de seu famoso pai, tivesse um enterro digno.

Abaixo, trecho de uma reportagem da revista " O Cruzeiro " de 02 de janeiro de 1969, que tratava do assunto em tela.. Vejamos.



Adendo


O leitor sabe que Corisco foi um dos maiores cangaceiros do grupo do rei Lampião. Ele foi assassinado no dia 25 de maio de 1940, tendo sido o último cangaceiro do nordeste brasileiro. Dadá faleceu em 1994 de morte natural. O economista Sílvio Bulhões é filho de Corisco e Dadá. 

Abraço a todos
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC e Cariri-Cangaço
Natal/RN
lampiaoaceso.blogspot.com

Concurso Cultural Caminhos do Cangaço

Concurso Cultural Caminhos do Cangaço
http://portal2.ifrn.edu.br/natalcidadealta/noticias/concurso-cultural-caminhos-do-cangaco

Inscrições seguem até dia 31 de agosto

O Concurso Cultural Caminhos do Cangaço premiará as três melhores redações sobre o rei do cangaço Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião. O concurso é voltado para estudantes do ensino fundamental e médio de escolas públicas e privadas. O premiação geral do concurso será no valor de 2 mil reais.

As inscrições podem ser realizadas gratuitamente no site do IFRN Cidade Alta até o dia 31 de agosto. O participante deverá entregar a sua redação na coordenação da instituição aonde estuda. A premiação acontecerá no dia 28 de setembro, às 16h, no auditório do campus.

INSCREVA-SE AQUI!

Mais informações entrar em contato pelo e-mail oventofala@gmail.com ou (84) 9653-6360.

REGRAS GERAIS

1- Somente podem participar estudantes matriculados em qualquer instituição de ensino, seja ela particular ou pública.

2- A redação deve ser baseada na Revista LAMPIÃO adquirida junto aos agentes culturais ou diretamente nas escolas juntamente com a ficha de inscrição.

3 - A ficha de inscrição deve ser preenchida corretamente com os dados do aluno e da instituição de ensino. Os três melhores trabalhos de cada instituição de ensino concorrem aos prêmios no valor de R$2.000,00, sendo R$1.000 para o 1º lugar, R$600 para o 2º lugar e R$400 para o 3º lugar.

4 - Os critérios de avaliação são: originalidade, “causos inusitados” e conteúdo histórico. A comissão julgadora será escolhida pela Casa do Cordel, sob sua responsabilidade avaliar os melhores trabalhos. Esse pode ser o começo da sua carreira literária. Participe! 

Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço:
Kydelmir Dantas

NOVO LIVRO SOBRE O CORONEL DELMIRO GOUVEIA

Autor: Gilmar Teixeira
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Não deixe de adquirir o seu, leitor!. É um excelente trabalho sobre o coronel Delmiro Gouveia


Edição do autor:
152 págs.
Contato para aquisição
Valor: R$ 30,00 + R$ 5,00 (Frete simples)
Total R$ 35,00 

O MEU TIRADENTES

Por: Clerisvaldo B. Dantas - Crônica Nº 817

“A não ser, porém, as histórias e estórias, o que mais me interessava de Seu Araújo era vê-lo fazendo coronhas de espingardas repletas de xilogravuras. Perdia minutos e minutos, os livros debaixo do braço, olhando aqueles desenhos e aquelas caras que iam ficando em cada coronha. E, somente quando ele próprio me advertia com sua severidade, é que o deixava e seguia para a escola”.

Oscar, último de pé à esquerda - cabeça de "Pontaria"

Estamos dentro dos vinte e dois anos da 2º edição de “Fruta de Palma (crônicas sertanejas)” do meu escritor santanense predileto, Oscar Silva. Revendo as saborosas crônicas de Oscar (20), vejo a apresentação de L. Lavenere (Gazeta de Alagoas), o prefácio de Tadeu Rocha (Delmiro, o pioneiro de Paulo Afonso), e citações de pessoas como Câmara Cascudo, Rubem Braga e outros. Tive a honra de constar nas páginas das homenagens e reler o livro mais uma das inúmeras vezes (coisa rara de acontecer). E “Fruta de Palma” puxa pelo seu romance “Água do Panema” (não confundir com o nosso, “Ribeira do Panema”). (Foto acima, volante do sargento Aniceto).

Escritor Oscar Silva

Sargento da elite do 2º Batalhão de Polícia, para combater cangaceiros, Oscar colabora em muito com os nossos livros inéditos “Lampião em Alagoas” e “O boi, a bota e a batina; história completa de Santana do Ipanema”. Eu nem era nascido e o homem já era sargento de Zé Lucena. Morava com a avó defronte a casa de meu pai, à Rua Antônio Tavares. Vim conhecer o meu herói que, fugindo às garras da fome, tornou-se sargento, correspondente de jornal, testemunha da cabeça de Virgolino e de outros cangaceiros e expedicionário do sepultamento do corpo do bandido: “Eu vi os pedaços de Lampião”, já perto do fim. Oscar venceu na vida tornando-se sargento e depois Coletor Federal, encerrando seus dias na cidade de Toledo. O título desta crônica pertence a ele, bem como o trecho frisado que fala sobre Seu Araújo, um ferreiro santanense querido do povo e que nas horas da necessidade também fazia o papel de dentista. Da página 53 à página 56, o escritor descreve o ferreiro, dentista e contador de estórias, acusando sua morte com esse belíssimo final literário:
“O “33” formou todo alinhado e marchou para o cemitério. Os fuzis “Mauser 1895” encandeavam como espelhos com o sol do sertão. O Brigada Ribeiro puxou da espada e comandou:
─ Para funeral, preparar!... Carregar!... Apontar!... Fogo!
Os homens do Tiro de Guerra pegaram o caixão de Seu Araújo, coberto com o Pavilhão Nacional, e jogaram-no dentro da cova. Teotônia e Afonsina soluçavam em pranto. Algumas pessoas espremiam os olhos. E eu dizia comigo mesmo:
─ Lá morreu meu “Tiradentes!”
O homem era alferes da Guarda Nacional.

http://clerisvaldobchagas.blogspot.com.br/2012/07/o-meu-tiradentes.html

De onde vem este Mito Heróico ?

Por: Manoel Severo

Não obstante o fenômeno do cangaço tenha abrangido sete dos nove estados do nordeste, foi o interior pernambucano que deu origem aos mais destacados personagens desta epopéia brasileira; Sebastião Pereira e Virgulino Ferreira. Na verdade ambos nasceram na chamada microrregião do Vale do Pajeú, mas precisamente na cidade de Vila Bela, que a partir de 1942, passou a se chamar Serra Talhada por proposta do interventor de Pernambuco na época, Agamenon Magalhães, filho ilustre do lugar. O Vale do Pajeú é composto por dezessete municípios, tem clima semi-árido na grande maioria de seu território, com exceção da região do chamado “brejo de altitute” onde se localiza a bela Triunfo. Seria ali no Vale do Pajeú, com seus municípios e vilarejos, entre os quais: Afogados da Ingazeiras, São José do Egito, Solidão, Santa Cruz da Baixa Verde, Flores, onde se desenrolariam os primeiros atos da sinfonia cangaceira de Lampião.

Lampião por telaetinta.com.br

Não obstante o fenômeno do cangaço tenha abrangido sete dos nove estados do nordeste, foi o interior pernambucano que deu origem aos mais destacados personagens desta epopéia brasileira; Sebastião Pereira e Virgulino Ferreira. Na verdade ambos nasceram na chamada microrregião do Vale do Pajeú, mas precisamente na cidade de Vila Bela, que a partir de 1942, passou a se chamar Serra Talhada por proposta do interventor de Pernambuco na época, Agamenon Magalhães, filho ilustre do lugar. O Vale do Pajeú é composto por dezessete municípios, tem clima semi-árido na grande maioria de seu território, com exceção da região do chamado “brejo de altitute” onde se localiza a bela Triunfo. Seria ali no Vale do Pajeú, com seus municípios e vilarejos, entre os quais: Afogados da Ingazeiras, São José do Egito, Solidão, Santa Cruz da Baixa Verde, Flores, onde se desenrolariam os primeiros atos da sinfonia cangaceira de Lampião.
Os maiores destaques do Vale do Pajeú, sem dúvidas eram os municípios de Triunfo e Vila Bela. Triunfo, uma bela cidade serrana onde se localiza o ponto mais alto do estado de Pernambuco (1.004 metros), região brejeira, possuia uma economia baseada na agromanufatura de rapadura e no minifúndio, dessa forma possuia uma vida um tanto mais urbanizada e de comércio mais organizado e desenvolvido que Vila Bela, sua elite política e intelectual composta de comerciantes, médicos e juristas se distinguiam da de Vila Bela formada basicamente pelos coronéis do gado; a aristocracia rural; que com o desenvolvimento da pecuária bovina e caprina juntamente com a agricultura eram a base da economia vilabelense. Ali estariam o berço dos irmãos Ferreira, Antônio, Livino e Virgulino, ligados ao clã dos Pereira, que ao lado dos Carvalho, disputavam o poder político local.

 Caravana Cariri Cangaço em Serra Telhada: Severo, Jack de Witt, Anildomá, Bosco André e Zé Cícero

Muito se tem estudado sobre o real caráter do cangaço: suas origens, implicações, correlações, enfim. Historiadores, sociólogos, antropólogos, médicos, acadêmicos como um todo; escritores, curiosos, enfim têm se dedicado ao longo dos últimos anos ao estimulante e desafiador estudo sobre o que realmente representou tão emblemático fenômeno nordestino. É natural que as causas principais de tão comentado fenômeno estejam ligadas às condições sociais a que os sertanejos nordestinos do início de século estavam submetidos. As desigualdades sociais inerentes a uma política desastrosa de ocupação da terra; nascida com certeza, desde a colonização e as famosas sesmarias; que privilegia os grandes latifúndios; as constantes épocas de estiagem e pobreza, a ausência de um poder central forte e atuante diante das mais elementares demandas da pobre gente do sertão, concentrando de forma exacerbada o poder dos famosos coronéis de barranco, sujeitos à expropriação e à exploração, às injustiças, à violência, enfim; entretanto, esse seria apenas o pano de fundo de um fenômeno que não se encerra nos pontos acima citados.
Seriam os cangaceiros vingadores dos oprimidos? Seriam os cangaceiros elementos que estavam a serviço da justiça social e de uma melhor distribuição de terra? Seria o cangaço um movimento armado que nasceu para combater o poder dos coronéis, ou seriam apenas indivíduos de natureza condenável que diante de circunstancias desfavoráveis passaram a fazer parte do mundo do crime?

Bando de Lampião enquanto fotografado pela epopéia de Abrahão Benjamim

Podemos nos deter sobre vários correntes de estudo. Uma delas tem como referência o trabalho do renomado historiador britânico; nascido no Egito; Eric Hobsbawm, em seus livros Primitive Rebels, de 1959, e Bandits de 1969. Principalmente neste último, com a tese do Banditismo Social, que é enfocado como uma forma de resistência camponesa, sendo um fenômeno universal, uma vez que segundo Hobsbawm, os camponeses teriam todos eles um modo de vida muito parecido, pela forma como se davam suas relações de trabalho e sociais, deste modo se traçariam as similaridades com os sertanejos do nordeste brasileiro; notamente de formação populacional eminentemente rural. Ainda recorrendo a Hobsbawm definiríamos a delinqüência rural em três tipos de bandidos: o nobre, tipo Robin Hood; os guerrilheiros primitivos; e o vingador. Temos ainda o antropólogo e estudioso holandês Anton Blok que em um artigo de 1972 critica em alguns pontos o modelo do banditismo social de Hobsbawm, quando enfatiza que as populações rurais na verdade foram muitas vezes vítimas dos bandidos, que atendiam na verdade aos interesses das elites dominantes, em detrimento dos mais humildes, elites essas sem as quais não se sustentariam.
Em tese o cangaço poderia até ser compreendido como um movimento criado para combater a dominação dos coronéis; o que vamos observar, no entanto, é que acabaria sendo estabelecida uma relação simbiótica entre as partes; teoricamente de interesses contrários; cangaceiros e coronéis tornaram-se parte de um mesmo corpo, corpo doente e nocivo, um dependendo do outro, e que muito mal acabou causando principalmente aos mais humildes deste lado do Brasil. É interessante pontuar que os cangaceiros não defendiam apenas e unicamente os interesses da elite dominadora, eles próprios tinham seus interesses e motivos; nobres ou não; e lutavam por eles. Já os coronéis absortos em sua sede permanente de poder, precisavam estar sempre atentos ás suas próprias disputas contra famílias e clãs concorrentes, aqui abrimos um parêntese para ilustrar o caso mais emblemático que era a disputa dos clãs Pereira e Carvalho, no Vale do Pajeú. Devido à fraqueza do Estado na época e à dificuldade que este tinha em chegar a regiões mais remotas do país, como o sertão nordestino, os conflitos, nessa região, eram resolvidos de acordo com a lei do mais forte, daí a aliança com os grupos cangaceiros ser vital para a manutenção de poder.
Dentro de meu humilde esforço de curioso sobre o tema; para contextualizar social e antropologicamente o fenômeno do cangaço, acho interessante observar algumas considerações desenvolvidas por outros estudiosos e pesquisadores com relação ao fenômeno, mas me permito deter-me para encerrar esse pequeno artigo, a Carlos Alberto Dória, quando provoca: “o cangaço perpetuou-se na cultura nacional como elemento de nossa mitologia heróica. E Lampião, símbolo de primeira grandeza neste quadro, continua a ser uma individualidade polêmica...”

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço
http://cariricangaco.blogspot.com