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quinta-feira, 28 de março de 2013

O Cangaço no Cinema Brasileiro.



Cangaço foi um fenômeno ocorrido no nordeste brasileiro de meados do século XIX ao início  do século XX.  O  cangaço  tem  suas  origens  em  questões  sociais  e   fundiárias  do Nordeste  brasileiro,  caracterizando se  por  ações  violentas  de  grupos  ou  indivíduos isolados:  assaltavam  fazendas,  sequestravam  coronéis  (grandes  fazendeiros)  e saqueavam comboios e armazéns. Não tinham moradia fixa: viviam perambulando pelo sertão, praticando tais crimes, fugindo e se escondendo. Os  cangaceiros  conheciam  a caatinga e  o  território nordestino muito  bem,  e    por  isso era  tão  difícil  serem  capturados  pelas  autoridades.  Estavam  sempre  preparados  para enfrentar todo o tipo de situação. Conheciam as plantas medicinais, as fontes de água, locais com alimento, rotas de fuga e lugares de difícil acesso. Consta que o primeiro cangaceiro teria sido o "Cabeleira" (José Gomes), líder nascido em Glória do Goitá - cidade da zona da mata pernambucana - em 1751, que aterrorizou a região, inclusive, Recife. Mas foi somente no final do século XIX que o cangaço ganhou força e prestígio, principalmente com "Antônio Silvino”, "Lampião" e "Corisco O  cangaceiro  mais  famoso  foi  Virgulino  Ferreira  da  Silva,  o  Lampião, denominado  Senhor do Sertão" e também "O Rei do Cangaço". Atuou durante as décadas de 20 e 30 em praticamente todos os estados do Nordeste brasileiro. O Nordeste sempre teve uma forte presença na cultura brasileira em todos os ramos da arte, e no cinema não poderia ser diferente. Se os americanos possuem seus westerns imortalizados pela figura do cowboy, o Nordeste do Brasil possui os cangaceiros, tema que há muito tempo faz parte do cenário cinematográfico brasileiro, tendo se tornado um gênero bastante singular no cinema nacional, conhecido como a "versão tropical do western americano".O cangaço foi retratado no cinema brasileiro em várias épocas e de diversas formas. Desde a década de 20 a temática fascina cineastas e espectadores. Até o momento, há cerca de 50 filmes sobre o assunto, entre curtas, médias e longas-metragens, documentários e ficções.

OS PRIMÓRDIOS-

1925 - Filho sem Mãe - Tancredo SEABRA. (Filme Desaparecido)- 
1926 - Sangue de Irmão - Jota Soares. (Filme Desaparecido)- 
1927 - Lampião: o Banditismo no Nordeste - Autor Desconhecido. (Filme Desaparecido)- 
1930 - Lampião, a Fera do Nordeste - Guilherme Gáudio. (Filme Desaparecido)-
1936 - Lampião, o Rei do Cangaço - Benjamin Abrahão Lampião, o Rei do Cangaço é, certamente, o filme mais importante desse período e um dos mais significativos para o   gênero, sendo um documento chave para a compreensão   antropológica do cangaço e um registro histórico no cinema   brasileiro.

 “NORDESTERN”-

1950 - Lampião, o Rei do Cangaço - Fouad Anderaos. (Filme Desaparecido)-
1953 - O Cangaceiro - Lima Barreto.- 
1960 - A Morte Comanda o Cangaço - Carlos Coimbra.- 
1962 - Três Cabras de Lampião - Aurélio Teixeira.- 
1962 - Nordeste Sangrento - Wilson Silva.- 
1962 - Lampião, o Rei do Cangaço - Carlos Coimbra.- 
1963 - O Cabeleira - Milton Amaral. (Filme Desaparecido)- 
1965 - Entre o Amor e o Cangaço - Aurélio Teixeira. (Filme Desaparecido)- 
1966 - Riacho do Sangue - Fernando de Barros.- 
1967 - Cangaceiros de Lampião - Carlos Coimbra.- 
1968 - Maria Bonita, Rainha do Cangaço - Miguel Borges. (Filme Desaparecido)
1969 - O Cangaceiro Sanguinário - Osvaldo de Oliveira. (Boca do Lixo)- 
1969 - O Cangaceiro sem Deus - Osvaldo de Oliveira. (Boca do Lixo)- 
1969 - Meu Nome é Lampião - Mozael Silveira.- 
1969 - Corisco, o Diabo Loiro - Carlos Coimbra.- 
1969 - Quelé do Pajeú - Anselmo Duarte. (Filme Desaparecido)- 
1970 - A Vingança dos Doze - Marcos Faria.- 
1971 - Faustão - Eduardo Coutinho.- 
1971 - O Último Cangaceiro - Carlos Mergulhão. (Filme Desaparecido)- 
1972 - Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro - William Cobbett.- 
1974 - O Leão do Norte - Carlos Del Pino. (Filme Desaparecido)- 
1978 - Os Cangaceiros do Vale da Morte - Apollo Monteiro. (Filme Desaparecido)- 
1980 - O Cangaceiro do Diabo - Tião Valadares.

COMÉDIAS- 

1955 - O Primo do Cangaceiro - Mário Brasini.- 
1961 - Os Três Cangaceiros - Victor Lima.- 
1963 - O Lamparina - Glauco Mirko Laurelli.- 
1969 - Deu a Louca no Cangaço - Nelson Teixeira Mendes/Fauzi Mansur. (Filme Desaparecido)-
1977 - Pedro Bó, o Caçador de Cangaceiros - Mozael Silveira.- 
1983 - O Cangaceiro Trapalhão - Daniel Filho.

PORNOCHANCHADAS

 1974 - As Cangaceiras Eróticas - Roberto Mauro. (Pornochanchada)- 
1976 - A Ilha das Cangaceiras Virgens - Roberto Mauro. (Pornochanchada)- 
1976 - Kung-fu contra as Bonecas - Adriano Stuart. (Pornochanchada)- 

 DOCUMENTÁRIOS-

1959 - Lampião (o Rei do Cangaço) - Al Ghiu.-
1964 - Memória do Cangaço - Paulo Gil Soares.- 
1975 - O Último Dia de Lampião - Maurice Capovilla. (Docudrama)- 
1976 - A Mulher no Cangaço - Hermano Penna. (Docudrama)- 
1977 - No Raso da Catarina - Hermano Penna. (Docudrama) (FilmeDesaparecido)- 
1982 - A Musa do Cangaço - José Umberto Dias. (Curta)

CINEMA NOVO O CANGAÇO DE GLAUBER ROCHA

1964 - Deus e o Diabo na Terra do Sol - Glauber Rocha.- 
1969 - O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro - Glauber Rocha.

CINEMA RETOMADA (releituras)

1994 – A Cidade de 4 Torres – Alberto Sales. Curta que faz referencia a derrota de Lampião em Mossoró, a 13 de junho de 1927.
1996 - Corisco e Dadá - Rosemberg Cariry.
1997 - Baile Perfumado - Paulo Caldas/Lírio Ferreira.
1997 - O Cangaceiro - Aníbal Massaíni Neto O filme foi gravado no  Vargem Grande do Sul,  povoado de Pão de Açúcar,  interior do estado de  município de Poção no  São Paulo.  a paisagem da  cidade se parecia muito  com a nordestina FICHA TÉCNICA Título Original: O Cangaceiro - Diretor: Lima Barreto Gênero: Aventura - Elenco: Alberto Ruschel, Marisa Prado, Milton  Tempo de Duração: 110min. Ribeiro, Vanja Orico, Ricardo Campos, Galileu  Ano de Lançamento (Brasil): 1997Garcia, João Batista Giotto Direção: Anibal Massaini Neto Produção: Aníbal Massaini Netto Argumento: Lima Barreto Roteiro: Lima Barreto, Raquel de Queiroz  Roteiro: Antônio Carlos Fontoura(diálogos) Adaptação: Galileu Garcia, Anthony Foutz e Carlos Fotografia: Chick Fowle CoimbraTrilha Sonora: Gabriel Migliori Produção: Anibal Massaini Neto Duração: 105 min. Produtor Associado: Alexandre Adamiu Ano: 1953 Direção de Produção: Ary Fernandes País: Brasil Co-produção: Cinearte Produções Cinematográficas e Gênero: Drama Ramona Constellacion e Film Company Cor: Preto e Branco Vicente Salvia Distribuidora: Columbia Pictures Sonografia: Juarez Dagoberto da CostaEstúdio: Companhia Cinematográfica Vera Cruz Fotografia: Cláudio Portiolli Direção Artística: Carybé Maquiagem: Victor Merinow Montagem: Luiz Elias

BIBLIOGRAFIA: 
·         
 CAETANO, Maria do Rosário. Cangaço: o Nordestern do cinema brasileiro. Brasília: Avatar Soluções Gráficas, 2005.
GOMES, Paulo Emílio Sales. Cinema: Trajetória e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
         MIRANDA, Luiz Felipe e RAMOS, Fernão - Enciclopédia do Cinema
·         OLIVEIRA, Adriano Messias de. O cangaço no Brasileiro. São Paulo: Senac, 2004.cinema brasileiro dos anos 90: um certo olhar sobre nossa identidade cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2001 (História, Dissertação de mestrado).
         QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Os cangaceiros. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
        SOUZA, Marcelo Dídimo. O Cangaço no Cinema Brasileiro. São Paulo: UNICAMP, 2007 (Instituto de Artes, Tese de doutorado em Multimeios). :VIANA, Nildo  Jornal Opção, 19 jul. 2006. Disponível em: 28/06/2010. 

Enviado pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço:
 Kydelmir Dantas
http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

OS CRIMES de LAMPIÃO


Por: (Ranulfo Prata)

Teria sido Lampião, realmente, um homem violento, cruel, frio, capaz de cometer os mais horrendos homicídios? Sim. A descrição de alguns dos seus crimes feita por Ranulfo Prata, não deixa dúvida alguma de que, antes de ser o Robin Hood descrito por alguns de seus historiadores, o cangaceiro-chefe, foi acima de tudo desapiedado para com suas vítimas.

"Vila Queimadas é uma humílima estação da estrada de ferro que liga a capital baiana a Juazeiro, aquela mesma que nos tempos da campanha de Canudos fez-se conhecida por ser ponto de desembarque das tropas expedicionárias.

Euclydes da Cunha assim a ela se refere:

"O casario pobre, desajeitadamente arrumado pelos lados da praça irregular, fundamente arada pelos enxurros, um claro no matagal bravio que o rodeia e, principalmente, a monotonia das chapadas que se desatam em volta, salteadamente pontilhadas de morros desnudos, dão-lhe um ar tristonho, completando-lhe o aspecto de vilarejo morto, em franco descambar para tapera em ruínas"

Ainda hoje é assim.

Como todos os povoados da região parece sempre em "franco descambar para tapera em ruínas", mas não morre nunca, perdura num estado miserável de cachexia, animado de eterno sopro de vida.
Lampião uma manhã fez-lhe uma surpresa de bater-lhe as portas. Tomou de assalto o quartel e nele prendeu todo o destacamento, composto de sete soldados e um sargento. Deixando-o sob a guarda dos cabras, que assim transformaram os pobres policiais, de carcereiros que eram, em encarcerados, foi a uma pensão e pediu que lhe servissem lauto almoço, fazendo questão de que todos os hóspedes, viajantes e pessoas outras, sentassem também à mesa para comer em sua companhia.

Houve quase um banquete. O dono da casa apressou-se em servir o hóspede, matando galinhas, e preparando pratos especiais, atulhando a mesa de iguarias e bebidas várias.

O senhor dos sertões abancou-se à cabeceira e a refeição correu sem novidade, o anfitrião a sorrir amável para todos, principalmente aos viajantes que riam um tanto forçados, deglutindo mal, com espasmos no esôfago.

Ao findar, pagou largamente e encaminhou-se para o quartel onde os seus prisioneiros, lívidos e com o coração a bater forte, aguardavam a sentença, que não demorou muito.

Paga um deles e leva-o para o oitão da cadeia. Ordena que se ajoelhe. O homem dobra as pernas que mal sustém o corpo e finca os joelhos no chão. Tem um olhar intraduzível de pavor. E friamente, serenamente, o matador bárbaro saca do punhal de 78 centímetros de lâmina e crava, num golpe certeiro e veloz, na região preferida – a fossa supra-clavicular. A arma, agudíssima, vara facilemnte o mole dos tecidos, como um palito à manteiga.

A experiência ensinou-lhe ser ali ótima região, sem obstáculos ósseos que lhe resvalem o punhal. Ao introduzi-lo oblíqua à direita ou esquerda, conforme o lado ferido, transfiando, assim, o mediasno. O homem, sangrado como uma rez, dá um salto, lança nos ares um urro medonho e cai de borco, já cadáver.

Ele volta à prisão, retira o segundo condenado e repete a cena com a mesma indiferença e frieza. O mesmo golpe certeiro, o mesmo salto, o mesmo urro medonho que põe nos nervos mais equilibrados um tremor de angústia mal definida.

Arrasta para fora o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto e o sétimo. Quando chega a vez do sargento Evaristo muitas pessoas do lugar intercedem, pedem, imploram em favor do desgraçado. Que, o poupe, ao menos, que o poupe, animam-se a dizer alguns. Já correu muito sangue, deixe a vida ao pobre sargento que tem família numerosa e é homem bom, e querido. Lampião fita-o, nota-lhe os beiços alvacentos a tremerem, a brancura das feições transtornadas, as pernas mal firmes, e diz numa zombaria macabra:

Não sei pruque nunca vi homem corado na minha frente!

E consente-lhe a esmola da vida, num gesto desdenhoso de vencedor terrível.

Manda enfilerar os cadáveres.

Quando eu sai que enterre, ordena.

E virando as costas vai bebericar numa venda próxima.

Além desta mortandade ultraja o juiz e exige da população miserável mais de uma dezena de contos.

Trabalhavam alguns homens na estrada de rodagem, no sítio Carro Quebrado, entre Chorrochó e Barro Vermelho, sob a direção do capataz José Grande, quando foram surpreendidos pelos bandoleiros. Lampião desce da sua montada e caminha para eles de cara fechada, sobrecenho carregado e diz aos trabalhadores estarrecidos:

- Já avisei a todos Qui não quero este negóço de estrada, Qui só serve p’ra passar macaco atrás de mim, vocês não ligaro o que eu apreveni e por isto vão morrê.

Estabeleceu-se enorme confusão, durante a qual muitos fogem em louca corrida pelo mato.

Nove deles, porém, são pegados, subjugados e juntamente com o capataz, que não conseguiu escapulir, foram sangrados.

E a malta, minutos depois, abalava num galope, deixando nove corpos ensangüentados a esteirar a estrada deserta.

Aproxima-se a caterva de Capim Grosso. Os espiões informam, porém, que a vila se acha guarnecida. Lampião torce caminho, receoso e cheio de cautelas. Ladeia a população e toca para adiante na sua caminhada perene.

Mas tem "boa" estrela, o acaso entrega-lhe nas mãos uma presa valiosa.

Aprisiona nas vizinhanças da vila o seu escrivão, parente do coronel João Borges, de Uauá. Como usa também dos processos civilizados de americanos, exige cinco contos da família da vítima em troca de sua liberdade. Vai o emissário à povoação e estipula o negócio.

A mulher não possui tão grande quantia. O seu marido é um simples escrivão de roça, mal ganha para passar com a família numerosa.

Entra em desespero. Quer salvar a vida do esposo seja a que preço for. Corre, numa aflição de meter dó, à casa dos parentes, dos conhecidos, de toda a gente que possa socorrer com uma esmola. Pede pelo amor de Deus que lhe dêem, que lhe emprestem qualquer coisa. É uma vida a ser poupada com ele, a vida preciosa de seu marido.

Diante daquela angústia imensa, toda a vila se comove e faz-se uma coleta. Povoação paupérrima, para somar cinco contos foi preciso que quase todos concorressem com um auxílio. E a quantia, afinal, após penoso angariar, se completa. A mulher pega do volume de cédulas, aperta-o entre os dedos trêmulos, e com o coração repousado numa grande alegria, entrega ao emissário.

- Pelo amor de N. Senhora, diga ao capitão que o solte logo, implora, numa ânsia, desejosa de libertar-se sem demora daquele pesadelo.

O povoado fica à espera do refém.

Lampião recebe o dinheiro, conta-o lentamente, molhando os dedos na língua, desaperta da cintura "o papo de ema" que está túmido de notas graúdas, desdobra-o e acondiciona, meticulosamente, mais aquele pacote.

Depois, lerdo, caminha para a vítima e lhe diz:

- Pro mim você tá livre, mas os meus meninos precisa ajustá conta com você.

Era a quebra infame da palavra que garantira a vida do prisioneiro. Da sua palavra, cujo cumprimento ele alardeava nos sertões, dizendo, arrogante, como num juramento:

Palavra de bandido!

E afasta-se, indiferente.

Corisco apossa-se do preso, apunhala-o e mutila o cadáver, abrindo-o em bandas, como aos bodes nas feiras sertanejas.
* * *
Manuel Salina e sua numerosa família, composta de cinco filhos e duas filhas, moravam no sítio "Almacega", de sua propriedade, distante de Geremoabo quatro léguas.

Vive tranquilo, feliz, do plantio rudimentar da mandioca e de cereais, nos bons invernos, e de limitada criação de gado, cabras e carneiros.

Certo dia, dia fatídico que lhe havia de trazer aniquilamento total, fornece a uma volante que lhe passa na porta, ligeiros informes sobre a direção tomada pela horda que ali transitara dias antes. E foi só.

Graças ao seu serviço de espionagem soube Lampião da denúncia, crime para ele sem apelação nem recursos, e para o qual só há uma sentença: - a morte. Não esquece, não perdoa. Cedo ou tarde, vinga-se. Mandou recados ao velho Salina, dizendo que lhe havia de pagar.

O sitiante sabendo com quem tratava, tendo certeza de que a promessa se realizaria, mudou-se para Geremoabo, onde estaria bem guardado pelo fuzis que protegiam o quartel-general da campanha. Abalou com toda a família, deixando ao abandono completo casa, roça e criações.

E os dias correram.

Antonio Salina gastava as horas perambulando tristemente pelas ruas da "vila secular", debruçando-se nos balcões das bodegas ou estirado na rede, em sestas longas, numa ociosidade de afligir seus nervos de homem acostumado aos trabalhos roceiros, braçais, de labuta constante, de sol a sol.

A inatividade o adoentava.

E não era só a inércia. Em casa, a farinha, base de alimentação, estava a faltar, os últimos sacos se esvaziavam como se fossem despejados. A família era grande e de gente sadia que comia bem. Que fazer? Comprá-la, pelo preço da seca que estava nas feiras, não era possível, não tinha dinheiro para tanto. O remédio para a aflição em que se achava era ir ao sítio colher umas mandiocas e fazer uma farinhada. Mas, e a ameaça terrível que lhe pesava sobre a cabeça branca e já cansada?

Consultou amigos.

Não vá, foi o conselho unânime.
Mas é só por um dia e uma noite.
Explicava:

- Vou com os meninos de madrugada, e quando o sol clarear já estaremos de mandioca arrancada. Pelo meio-dia a raspação está no fim e o forno já quente. Ao esfriar do sol as primeiras fornadas estão saindo, e antes do galo amiudar estaremos, de novo, dentro de Geremoabo. Será serviço ligeiro, de quem tem pressa.

E assim foi. O velho com toda a família partiu para Alma cega, para a farinhada trágica. E na tarde de 13 de maio de 30, quando o serviço ia mais animado, todos entregues as suas ocupações, Lampião risca o cavalo, repentinamente, no terreiro varrido. A malta invade, num atropelo ruidoso, a casa de farinhar. É um momento angustioso para os presentes. A primeira menção é de fuga, mas se acham tão rapidamente envolvidos por todos os lados que o desejo logo se esvai, ficando todos como paralisados nos lugares em que se encontram, as mulheres chorando, os homens de olhos e braços caídos como se fossem manequins.

Pai e filhos são logo presos.

Lampião com ares solenes, relembra ao velho a perfídia de o Ter denunciado à tropa e diz que agora irão pagar novos e velhos.

Lança mão de um dos rapazes, sertanejo hercúleo, de mais de 20 anos, e cuidadosamente o amarra a corda e relhos, ao pai, braço com braço, perna com perna, só de um lado, tronando-os estranhamente xifopagos. Saca da cinta a pistola "parabellum" e dispara à queima roupa, na nuca do moço, cuja massa muscular toda se agita em extremeções violentas e emborca para a frente, arrastando na queda o pai. É um cadáver que faz cair um vivo.

Lampião curva-se sobre o bolo formado pelos dois corpos, e os separa a golpe de punhal, cortando as amarras. Ergue o velho pela gola, num violento impulso e o põe de pé, de novo. Pega no segundo filho e o ata do mesmo modo ao pai, braço com braço, perna com perna. Outro tiro de "parabellum" na nuca e outro baque de corpos embolados. Repete mais uma vez a cena com o terceiro filho, sem omitir um detalhe, com os mesmos cuidados lentos. Escapa o quarto, o mais moço, porque um dos bandidos ordenara-lhe subir no teto da casa e quebrar todas as telhas para maior castigo dos culpados. Apanhando-se no telhado, o rapaz pula do alto e desaparece na caatinga, indo parar em Geremoabo.

As mulheres são poupadas. Mas não o são os companheiros de farinhada de Salina, abatidos, um a um, como animais de corte: Boa Batata, Cirillo Batata, José Grande e Antonio Batata.

Finda esta parte voltam-se então para o velho, que até ali estivera a espectar o morticínio. Cortam-lhe as duas orelhas, furam-lhe um olho, quebram-lhe os dentes e castram-no.

Obrigam esta figura miserável de homem a subir num animal encangalhado e partem. Lampião exige que ele vá lhe mostrar a morada de um outro filho, distante três léguas. O rijo sertanejo, que não se abate de todo, apesar das lesões graves, lá se vai pela estrada como um símbolo vivo e doloroso e sangrento de toda aquela gente que vive abandonada, naquele deserto de espinhos, de Deus e dos homens. Segue aos cambaleios, com a cabeça branca toda vermelha de coágulos, o olho vazado a porejar lágrimas de sangue, a boca cheia de espuma escarlate.

Adiante, muito adiante, já noite avançada, chegam à casa do filho, vaqueiro do capitão Angelo, de Geremoabo.

- Eu vou batê na porta mas quem responde é você, seu véio safado, diz Lampião, apeando-se.

Bate com os nós dos dedos na porta humilde. Alguém fala de dentro. O velho responde, cá de fora. Reconhecendo a voz, o filho ergue-se ao abrir a porta recebe a queima-roupa, um tiro no peito.

Faz-se silêncio de novo. O suplício de Manoel Salina continua, num lento arrastar, para o seu calvário, que não chega. Caminham...caminham... Só na fazenda Bandeira, distante léguas, é que lhe fazem a misericórdia de acabar de matá-lo, abrindo-lhe o peito e retirando-lhe o coração, na visão rubra de cujo órgão o facínora dá por satisfeito a sua vingança.

O cadáver ficou estendido no alpendre da fazenda, e só teve sepultura dias depois, quando um volante ali passou.

No dia da chacina, em Geremoabo, base de operações, quartel-general, distante quatro léguas do local do crime, havia nada menos de 60 soldados sob o comando de três oficiais. O filho do velho Salina, de nome Fabiano, como vimos, milagrosamente escapou do massacre, vara, de um fôlego, as quatro léguas, detendo-se dentro das ruas da vila, onde a força goza de ócios amáveis. O jovem sertanejo chega a ofegar, e pálido de morte, desvairado de espanto, com as roupas em tiras, pernas a sangrar, cabelos ao vento, conta o sucedido, engasgado de medo e de emoção.

Pede um socorro urgente que lhe salve o pai. Já é noite.

Os três comandantes fitam-se, e o quadro horrível da mortandade passa-lhe, num relance, ante os olhos, numa visão apavorante de sangue e corpos apunhalados. Consultam-se em conselho demorado de pusilanimes e poltrões. E só no dia seguinte, às 9 horas da manhã, um deles depois de ter dormido até às 8, feito vagarosamente a "toilette", barbeado, escovado, e bebido com lentidão aristocrática o seu café com leite e torradas, é que partiu no encalço dos bandoleiros que, durante a noite, no terreiro da fazenda Bandeira, com o cadáver de Manuel Salina ao lado, levaram a sambar, embriagados, ao toque de harmônica e pandeiro."

( Texto transcrito da obra LAMPIÃO/Ranulfo Prata/Editora Traço)

http://www.luizalberto.com.br/l03.html

terça-feira, 26 de março de 2013

AMADOS(AS)... VALE A PENA SABER! MUITO TRISTE!


Passou por todo este sofrimento, por que nós não o amamos?

A causa mortis de Jesus explicada pela medicina

Antes da Cruz - Da quinta-feira à noite até sexta-feira pela manhã. 

1 - Jesus foi preso na noite de uma quinta feira. Os guardas o esbofetearam chutaram e cuspiram em seu rosto. Ele passou a madrugada sem dormir e sem comer. Ao ser julgado na manhã do dia seguinte, já estava, portanto, muito debilitado. 

2 Açoites - Ainda de manhã, foi submetido a cerca de 120 açoites, tortura que antecedia a maioria das execuções romanas da cruz. Despido, Jesus foi amarrado a um tronco vertical, de costas para os soldados. O chicote usado nesse tipo de tortura era o flagrum, que contém nas pontas ossos de articulações ou esferas de chumbo para intensificar a dor. 

3 O tronco - Como acontecia com os condenados á crucificação, Jesus carregou o tronco, que pesava de 22 a 27 quilos. O caminho era de terra e cheio de buracos. o esforço, associados à agressão do açoitamento, pode ter causado um derrame na pleura, a membrana que reveste os pulmões. Quando isso ocorre, é enorme a dificuldade para respirar. 

A Crucificação - sexta-feira, 12h

1 Mãos - Os pregos utilizados na crucificação eram de ferro, com cerca de 12 centímetros de comprimento. Eles perfuravam o nervo mediano do antebraço, provocando uma sensação intensa de queimadura. A dor é tanta que pode causar vertigens. Sem assistência, em poucos minutos, a maioria dos pacientes com perfuração no nervo mediano entra em estado de choque. 

1 Pés - Numa crucificação, os pés costumavam ser pregados da seguinte forma: dobravam-se os joelhos da vitima de modo que as solas ficassem estendidas, rentes a madeira- os pregos atingiam os nervos plantares dos pés. O efeito é o mesmo que o sentido nas mãos: dor lancinante e intermitente. A flexão dos joelhos causa, em cerca de dez minutos, câimbras e adormecimento nas pernas. 

A Morte - sexta feira, 15h

Há duas prováveis causas da morte de Jesus: asfixia e choque hipovolêmico.

Asfixia - Os braços erguidos imobilizam o peito, dificultando o mecanismo respiratório, especialmente a expiração.

Choque hipovolêmico  - A violência provocada tanto pelo açoitamento quanto pela imobilidade na cruz, leva a uma queda do volume sanguíneo circulante o que causa a falência de múltiplos órgãos.

Fonte:

William Edward, patologista da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, Frederick Zugibe, médico legista da Universidade Columbia, também dos Estados Unidos, e Cícero Vaz, fisiatra.
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segunda-feira, 25 de março de 2013

O Dia em que o cangaço chorou


Por: Inácio Loiola

28 de julho de 1938. Madrugada fria de uma quinta-feira do inverno nordestino que entraria para a história. Há exatamente 74 anos, os cangaceiros Colchete, Marcela, Quinta-Feira, Luiz Pedro, Mergulhão, Elétrico, Alecrim, Moeda, Enedina, Maria Bonita, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tombam ao barulho ensurdecedor das espingardas escopetas no solo árido da Grota de Angicos, no município de Poço Redondo (SE).

A morte de Lampião e seu bando, embora tenha ocorrido no Estado sergipano, fora planejada e articulada em Alagoas, no governo de Osman Loureiro, que não dava trégua aos cangaceiros. O governador alagoano colocou como ponto de honra a captura desses homens que procuravam fazer justiça com as próprias mãos e aterrorizavam a população do Sertão.

Depois de anos de perseguição, o cerco a Lampião aumentava até que as volantes sob o comando do tenente João Bezerra, aspirante Francisco Ferreira e sargento Aniceto Rodrigues conseguiram o êxito de descobrir o coito (local), onde os cangaceiros se refugiavam para descanso. Quem deu a dica do lugar que ficava às margens do Rio São Francisco, em território sergipano, fora os coiteiros, irmãos Pedro e Durval de Candido, que residiam em Piranhas, na vila Entremontes. Fizeram isso sob a pressão dos policiais.

Alcino Alves Costa e Inacio Loiola

O planejamento de chegar até à Grota de Angicos e surpreender os cangaceiros ocorrera na noite anterior ainda em Alagoas. Detalhado o plano, o passo seguinte fora atravessar o São Francisco de canoa no embalo da correnteza e embrenhar-se na Caatinga. Maria Bonita, ao levantar, fora uma das primeiras a ser atingida pelos tiros. Ela, Lampião e mais nove morreram no local, do total de 36. Os demais se evadiram. Do lado das volantes, morreu o soldado Adrião.

Cessado o fogo, os soldados cometeram a atrocidade de cortar as cabeças dos cangaceiros e levá-las a Piranhas. O município serviu de palco para a exposição das cabeças dos cangaceiros que ainda percorreu algumas cidades sertanejas até serem levadas para o Instituto de Medicina Legal Nina Rodrigues, em Salvador.

A morte do cangaceiro Corisco, que pertencia ao bando de Lampião e liderava um grupo, em Miguel Calmom, na Bahia, em 25 de maio de 1940, em combate com a volante do tenente Zé Rufino marca o fim do cangaço no Nordeste, mas o cangaço entra para a história do Brasil, com Lampião, o mais famoso cangaceiro, que era oriundo de Vila Bela, hoje cidade de Serra Talhada (PE).

Inácio Loiola
Pesquisador do Cangaço
Ex-Prefeito de Piranhas, Deputado Estadual

http://cariricangaco.blogspot.com

TRIO MOSSORÓ

Por: Lúcia Rocha

Esse é o Trio Mossoró, que fez muito sucesso na região Sudeste e em todo o Nordeste de 1962 a 1972, baseados no Rio de Janeiro, para onde migraram no início da década de 60, em busca do sucesso. 


Em 1965, gravaram pioneiramente CARCARÁ, de autoria de João do Vale, e venceram o Prêmio Euterpe, o maior da música popular brasileira. Anos depois, essa música lançaria Maria Bethânia como cantora. Pois bem, estamos eu e o professor 


Almir Nogueira da Costa , em processo de finalização da biografia de Oseas Carlos André , líder do Trio Mossoró e irmão de João Mossoró e Hermelinda, que formaram o trio, ainda hoje executado em emissoras de rádio. 

Se você conhece alguém que possa colaborar com esta obra ou você mesmo, estamos no aguardo, especialmente em relação a material fotográfico, depoimentos, recortes de jornais da época, enfim. Desde já, somos gratos. 

Nas fotos, o Trio Mossoró posando para divulgação no Rio de Janeiro, em meados da década de 1960 e no reencontro em Mossoró, em 2009. Se você compartilhar, já está colaborando com o livro. Obrigada.


Fonte:
Facebook - página da autora
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CENTENÁRIO DE DIX-HUIT ROSADO

Por: Lúcia Rocha

No dia 21 de maio de 1912, há cem anos, nascia em Mossoró, Rio Grande do Norte, Jerônimo Dix-huit Rosado Maia, filho do paraibano de Pombal, Jerônimo Ribeiro Rosado, casado em segundas núpcias com a conterrânea, Isaura Rosado Maia, irmã da primeira esposa, Maria Amélia Henriques Maia, de quem enviuvara.  Jerônimo era filho de um português de Coimbra, Jerônimo Ribeiro Rosado, que residia há muito tempo em Pombal. Formado em Farmácia, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, o Jerônimo Rosado, ou seu Rosado, como era tratado em Mossoró, migrou para esta cidade, em 1890, à convite de um médico, com quem se associara para abrir a Farmácia Rosado. Seu Rosado registrou seus filhos e filhas com nomes esquisitos, o que já rendeu a participação de alguns de seus descendentes no Domingão do Faustão. Seu biógrafo, Luís da Câmara Cascudo conta no livro lançado em 1967,Jerônimo Rosado – Uma Ação Brasileira na Província que, seguindo a tradição portuguesa de registrar o primeiro filho com o nome do pai, o primogênito chamava-se Jerônimo Rosado Filho, o Rosadinho. O segundo filho, Laurentino, herdou o nome do avô materno, viveu apenas onze meses, porém com o nascimento do terceiro filho, Tércio Rosado Maia, seu Rosado iniciaria a numeração dos filhos. “Daí em diante, com surpresa admirada e permanente, a série obedece a assinalação numérica, única no Brasil no plano da onomástica”, registra Cascudo.     
       

Portanto, nosso homenageado, Dix-huit, em francês significa dezoito, era o décimo oitavo filho de seu Rosado, mas havia outros filhos registrados em latim. Conheci, por exemplo, Oitava, Treizième, Dix-huit, Dix-neuf, Vingt e Vingt-un. O primeiro filho, Rosadinho, médico, faleceu jovem, aos trinta anos de idade, deixando três filhos, um deles, Lahyre Rosado, formado em Farmácia, primeiro neto e criado por seu Rosado. Doutor Lahyre, conheci bem, pai da amiga e colega na faculdade de jornalismo, Ilná Rosado. Seu Rosado era bastante envolvido com o desenvolvimento de Mossoró, lutou especialmente pela água e transporte ferroviário, chegou a intendente do município e faleceu em 1930, deixando o caçula, Vingt-un, com apenas nove anos de idade.  Câmara Cascudo conta que as primeiras pessoas do sexo feminino a trabalhar no comércio da cidade foram as filhas de seu Rosado, atendendo no balcão da farmácia, como Sétima e Onzième. Os homens cuidavam especialmente de uma pedreira que ele havia adquirido numa localidade próximo a Mossoró, em São Sebastião, hoje município de Governador Dix-sept Rosado, em homenagem ao décimo sétimo filho, que assumiu o cargo de governador do Rio Grande do Norte, em 1951. Conta Cascudo, que a extração de gesso inspirou os filhos de seu Rosado, ao ponto em que “...Dix-huit, ainda menino procurou o pai para informá-lo que não mais pretendia estudar. Ao que seu Rosado indagou: “E você, o que vai ser?”. “Tirador de gesso”, respondeu, convencidíssimo da vocação. O pai mandou fazer um macacão, vestimenta azul, folgada e confortável, com o dístico nas costas, Tirador de Gesso, anunciando que na próxima semana o jovem operário estaria de picareta e pá às margens do riacho do Tapuio, escavando gipsita. Dix-huit desistiu. Seria médico eminente, duas vezes deputado federal, senador da república”, registra Cascudo na biografia de seu Rosado.
         
Dix-huit ficou órfão do pai aos dezoito anos de idade, estudara em Recife, formando-se na Faculdade de Medicina da Bahia, turma de 1935, aos 23 anos de idade. Ainda sobre Dix-huit, dona Marieta Lima, artista plástica da cidade, que em janeiro de 2012 comemorou cem anos de idade, contou no programa Mossoró de Todos os Tempos que teve um breve romance com Dix-huit, quando meninotes. Ambos tinham menos de quinze anos de idade e que ele, Dix-huit, ainda andava de calças curtas, morava na Rua 30 de Setembro, e se encontravam às escondidas, na Praça da Redenção.

 A POLÍTICA

Tenente-Coronel e Chefe de Saúde da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, Dix-huit foi o primeiro dos herdeiros de seu Rosado a ingressar na política, em 1945, como deputado estadual, período em que Dix-sept foi eleito prefeito de Mossoró. Dix-huit ainda exerceu dois mandatos de deputado federal, em 1950 e 1954. Eleito senador em 1958, exerceu o mandato de 1959 a 1966, oportunidade em que visitou alguns países de regime comunista, em missão oficial, incluindo a China, de Mao Tse Tung. Ainda na década de sessenta, Dix-huit foi nomeado pelo Presidente Costa e Silva para ocupar a presidência do INDA – Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário - período em que implantou em sua terra natal a ESAM – Escola Superior de Agronomia de Mossoró – com o curso de Engenharia Agronômica, hoje UFERSA – Universidade Federal Rural do Semi Árido - que oferece diversos cursos, além de Agronomia, Medicina Veterinária, Direito, Engenharia Civil, Engenharia de Pesca e tantos outros. Eleito prefeito de Mossoró em três mandatos – 1972, 1982 e 1992 – Dix-huit Rosado deixou a marca de ter sido o melhor prefeito de todos os tempos.

Neste vídeo, Dix-huit Rosado, então presidente do INDA, recebe em Mossoró, o Presidente do Brasil, Marechal Costa e Silva, que inaugura poço artesiano, a Faculdade de Ciências Econômicas e a ESAM, em 1967.



Como empresário do ramo de comunicação e entretenimento, entregou a Mossoró em 1955, a Emissora de Rádio Tapuyo e o Cine Teatro Cid, um prédio imponente no centro da cidade, hoje Teatro Lauro Monte Filho, pertencente ao governo do estado.
       
Sobrevivente de um acidente aéreo em 1947, no qual faleceu o piloto, Dix-huit teve a sorte que faltou ao irmão, então governador Dix-sept Rosado, morto em acidente aéreo quando se deslocava ao Rio de Janeiro, então capital federal, em 1951, aos quarenta anos de idade, com apenas seis meses de mandato. Dix-sept é pai do ex-deputado estadual, Carlos Augusto, marido da atual governadora do Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini Rosado.

Revista produzida para a comemoração

Na noite de 12 de maio de 2012, um sábado, a Prefeitura Municipal de Mossoró brindou a cidade com um grande evento em comemoração ao centenário de Dix-huit Rosado, no Memorial da Resistência, que contou com a presença de toda a família do homenageado, que veio do Rio de Janeiro, como os filhos Mário e Naide Rosado, além de convidados do estado. Na ocasião, foi distribuída a revista 100 Anos de Dix-huit Rosado, editada pelos jornalistas César Santos, Edilson Damasceno, Julierme Torres, José de Paiva Rebouças; diagramação de Augusto Paiva e revisão de Stella Sâmia, tendo como curador da homenagem, o ex-chefe de gabinete de Dix-huit Rosado, Sebastião Almeida.

Dix-huit Rosado pertencia a uma geração de políticos que chegava junto ao povo, no homem comum, ou seja, era acessível, não andava com assessores e secretários, apenas com o motorista. Ele mesmo visitava obras, acompanhando reformas, por exemplo. Por diversas vezes presenciei-o chegando na Cobal, hoje Conab, para acompanhar a sua construção. Eu, garota, pedalando bicicleta, parava para ver aquele homem de estatura gigantesca, sempre vestindo uma espécie de conjunto, a calça e camisa da mesma cor. Vaidoso, ao descer do carro, retirava do bolso um pequeno pente, que passava nos raros cabelos, guardava-o e caminhava em direção à obra, cumprimentando a todos que passavam pelo local, trocando ideias e batendo papo com quem dele se aproximasse. Há alguns anos ouvi depoimento de uma moradora da Rua Frei Miguelinho, dona Maura Medeiros. Ela disse que o então prefeito Dix-sept Rosado, não só acompanhava de perto a obra de calçamento a paralelepípedo naquela via, no final da década de quarenta, como sentava-se no meio fio e tomava café junto aos funcionários da obra. 

Nos finais de semana, Dix-huit dispensava o motorista e o carro oficial, dirigia ele mesmo sua camioneta, tipo S 10, ao lado de Tia Nayde, para a fazenda ou mesmo dar umas voltinhas na cidade, visitar amigos. Mas era outro tempo. Talvez Dix-huit pertencia a uma classe de prefeito que diariamente batia o ponto em seu local de trabalho, na prefeitura, para onde havia sido eleito.

Para conhecer um pouco de Dix-huit e de sua esposa, que a cidade chamava na intimidade de Tia Nayde, reproduzo entrevista que fiz com o casal, ao final do segundo mandato dele, quando a saudosa Tia Nayde profetizou que retornariam a cidade para um terceiro mandato. Vejamos:

Dix-huit e Nayde

Entrevista ao jornal O MOSSOROENSE, em 1988.
Tia Nayde, uma amiga de Mossoró

Por Lúcia Rocha

Nayde de Medeiros Rosado é uma pessoa de gestos e traços finos, que transmite aos que a rodeia uma paz e  conduz para um mundo onde não há espaço para a maldade, o pessimismo e o ódio. Companheira durante mais de cinquenta anos de Dix-huit Rosado, prefeito de Mossoró, Nayde é aquela que ele escolheu em meio a um ato religioso, quando a viu pela primeira vez, em Natal. Pertencente a nata da sociedade natalense, filha de Manoel Clementino de Medeiros e Olindina Duarte de Medeiros, Nayde Rosado teve uma educação religiosa no Colégio Imaculada Conceição, tradicional na capital potiguar. Seu pai fora educado na Suíça, à exemplo dos seus irmãos. Esportista, Nayde Rosado praticou tênis até se casar. Depois aderiu ao Cooper, para manter o corpo em forma. Considerada uma das moças mais bonitas de Natal, foi por diversas vezes convidada a participar de concursos de beleza, não aceitando atendendo pedido da mãe, que desejava um futuro longe das passarelas para a filha.

PARA A CIDADE ELA É UMA TIA, PARA DIX-HUIT,  UMA PRINCESA
             
Nayde Rosado conheceu Dix-huit durante uma procissão de Santos Reis, em Natal. Estava acompanhada da mãe e, Dix-huit atento a sua beleza, em meio a multidão, dirigiu-se a ela e, num ligeiro bate-papo, pediu-lhe o endereço: “Fiquei encantada com Dix-huit, logo que o vi. Sua beleza me chamou a atenção. Senti uma grande emoção porque fez-me elogios, dizendo ser eu muito bonita”, conta Nayde Rosado, que quando passou a sair com Dix-huit percebia o assédio das mulheres que lhe dirigiam olhares a todo instante. Mesmo assim, não sentiu-se enciumada. Dix-huit confirma que realmente conheceram-se durante o ato religioso: “Desde então, ligamos nosso destino para alcançarmos depois de 51 anos o status conjugal no qual vivemos tranquilamente, quase que num ambiente isolado, afastados dos filhos e da família. Nossa convivência é a mais amena. Temos pouca reclamação a fazer um do outro”, enfatiza. Dizendo tratá-la com o carinho de quem paga uma dívida permanente, pela dedicação que ela lhe atribui, Dix-huit afirma ter sido Nayde, uma mãe carinhosa, que amamentou todos os filhos durante seis meses, como a medicina recomenda: “Comprova-se com facilidade o resultado desse procedimento, com a aparência de todos os filhos. Os homens são atletas e as mulheres, no meu julgamento, são lindas. O pai tem o direito de assim proceder”, palavras de um pai coruja. Numa referência ao mandato de prefeito, Dix-huit lembra que está alcançando o fim do mandato com suas mãos: “Preparamos para voltarmos ao lar que largamos temporariamente para servir a Mossoró. Eu, com minha obsessão e Nayde, com a sua paixão. Podem até pensar que não vou sair com saudade da cidade. A brava urbe vive intrinsecamente ligada ao meu coração. Vou ter saudade de tudo e de todos. Nada reclamarei de ninguém, até mesmo aqueles que me feriram profundamente. As feridas cicatrizaram. Resta apenas um reliquat que desaparecerá com o tempo”, promete Dix-huit.
             
CASAMENTO E EDUCAÇÃO DOS FILHOS
      
Até conhecer Dix-huit, Nayde não sabia da existência da família Rosado. “Namoramos pouco mais de um mês e nos casamos”, explica Nayde. O casamento foi num sábado de Carnaval, numa cerimônia simples. Nessa época, médico recém-formado, Dix-huit clinicava em Assu, onde o casal morou alguns dias, transferindo-se em seguida para Mossoró, depois alguns anos em Natal, onde nasceram todos os seis filhos: Liana Maria, Mário, Margarida, Maria Cristina, Nayde Maria e Carlos Antonio. Eleito Deputado Federal, Dix-huit transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro, então capital federal e cidade que adotou por muitos anos e onde nasceram os netos e bisnetos. Na educação dos filhos teve preocupação em atividades, praticando esportes, línguas e balé. Liana Maria foi educada nos Estados Unidos. Longe do convívio com a família, Nayde Rosado fala quase que diariamente com os filhos e netos. “Hoje me sinto tão realizada, que a maturidade trouxe o conhecimento acerca de tudo e de todos”, comenta. Bastante amiga de todos os membros da família Rosado, Nayde reconhece que a cunhada Treizième Rosado, a quem considera matriarca da família, é sua maior amiga. “Treizième é gente muito fina, que admiro bastante”, disse.

Nayde com a cunhada e amiga Treziéme

MOSSORÓ TODA VIDA

Seu filho, Mário Rosado, economista, diz que a mãe pensa que mora no Rio de Janeiro. “Mas ela é devota de Dix-huit. Temos o maior carinho por eles. Estendemos o carinho e a dedicação deles a Mossoró, por isso nos privamos durante anos, da companhia deles. Gostaria que servisse de exemplo a outras mulheres”, entrega Mário, que confessa que se existisse santa na terra, sua mãe seria uma. “Ela é essa candura de pessoa que você está vendo. Nunca a ouvi falar com ódio, vingança ou algo parecido”, conta. Mário também explica que, à exemplo dos seus irmãos, é entusiasmado por Mossoró. “Nossos filhos têm tido oportunidade de ir a Mossoró e sempre temos dificuldade em voltar para o Rio ou São Paulo. Eles querem ficar em Mossoró, pois são encantados com a cidade”, afirma. Numa referencia a Mossoró, Mário, que também é poeta, autor do livroPoemas do Amor Constante, esclarece que a força do desempenho da cidade é reconhecida hoje no Brasil inteiro e é exemplo para o Nordeste. “Dix-huit é o nosso ídolo. Mostra-nos que o homem vale mais pelas obras que faz. Ele desprezou a roupa fina para viver na cidade que tanto ama. Somos muito entusiasmados por Mossoró”, repete Mário, que fala também em nome dos irmãos. Sobre Dix-huit, Nayde Rosado conta que não tem palavras que possam traduzir a admiração que sente por ele: “Nunca desejou mal a ninguém, é uma pessoa que ama sua terra e que nunca deixou de demonstrar isso. Gostamos muito do slogan Mossoró Toda Vida. Ele bem traduziu o afeto que temos pela cidade”, resume. Mas Nayde Rosado, que não gosta de ser rotulada de primeira-dama, dispensa esse tratamento por achar que não possui nenhum significado: “Não tenho vaidade de coisa nenhuma, não vivo à sombra disso”, descarta. Nayde é muito querida, principalmente pelas pessoas mais humildes, a quem tem tido a oportunidade de conhecer e servir, independente de partidarismo. “Quando faço uma bondade, um gesto, que mereça um elogio de alguém, faço com a melhor das intenções. Gosto de servir e de estar em contato com o povo, seja pobre ou rico”, esclarece. Dizendo ter em Mossoró amigos verdadeiros, apesar de ter passado maior parte da vida no Rio de Janeiro, Nayde diz: “Todos me tratam com carinho, todos são amigos. Vou levando as melhores recordações”, registra. Com certeza são os mais humildes que demonstram mais amizade e afeto. Nunca pedem nada, mas Tia Nayde oferece e procura servi-los. “Uma coisa que me choca é que muitas vezes não gravo a fisionomia das pessoas. Não sou boa fisionomista e tenho tido problemas, porque acho que muitas vezes possa parecer antipática, quando na realidade, deixo de falar com as pessoas por não gravá-las na mente. Algumas vezes é o nome que foge na hora de cumprimentá-los”, enfatiza.

Rosalba Ciarlini Rosado, Nayde, Dix-huit e o amigo, Sebastião Mendonça

A música do casal diz: “Em você tudo é encantamento/Em você tudo é deslumbramento/Você traduz sonhos de luz/anjo divino/Qual uma dádiva do céu no meu destino/Em você eu encontrei, querida/A realização de toda minha vida/É você minha expressão da verdade/A minha apoteose de felicidade”. A música bem traduz a felicidade que reina ao casal Dix-huit-Nayde Rosado. A felicidade muito comum em um casal que se ama, acima de tudo. No ano passado, o casal reuniu o clã para a comemoração das Bodas de Ouro, no Rio de Janeiro. “Foi tudo muito bonito, não sei como segurei tanta emoção”, recorda Nayde. Perguntada por qual momento sente-se mais feliz em Mossoró, ela diz que tanto em Mossoró, como em qualquer lugar é quando o prefeito retorna a casa. Nayde gosta de passear pelo comércio de Mossoró. “Aprecio as butiques e admiro a facilidade que as mulheres daqui têm em andar na moda. A mesma moda que vemos no Rio, ser lançada aqui, simultaneamente. Nunca trago novidades, porque encontro aqui em Mossoró”, comemora. Adriano da Silva Pinto tem nove anos de idade e é um dos inúmeros amigos de Nayde, ele confessa que tia Nayde é uma pessoa boa. “É como se fosse minha irmã”, disse. Adriano acompanha a tia, segundo ele, para jantar fora, batizados e quase todo final de semana vai lhe visitar. O sobrinho Laíre Rosado Filho, diz que tia Nayde é uma pessoa que conquistou Mossoró com sua bondade e simpatia. “À exemplo de tio Dix-huit, ela deixou de pertencer a sua família para se dedicar a Mossoró”, comenta. Sobre o retorno ao convívio com a família no Rio de Janeiro, que está próximo, Nayde Rosado afirma que sai com a certeza da volta. “Essa minha demonstração é maior, não pelo sentimento, mas já manifestei a Dix-huit que devemos manter uma residência aqui, para voltarmos sempre. E até pensando na possibilidade de vê-lo novamente na prefeitura, como diz o provérbio, o bom filho à casa retorna”, profetiza.
                                     
Nota: em 1992, quatro anos após essa entrevista, Dix-huit Rosado candidata-se a prefeito de Mossoró, aos 80 anos de idade e, eleito, cumpre o terceiro mandato até 22 de outubro de 1996, falecendo aos 84 anos, deixando como titular, a sobrinha, vice-prefeita Sandra Rosado, filha de Vingt Rosado e primeira mulher, descendente de seu Rosado, a ocupar a cadeira de prefeito do município. Sandra Rosado atualmente cumpre segundo mandato de deputada federal.
         
Autora: 

Jornalista Lúcia Rocha

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tributo à Mossoró - Ontem e hoje



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