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terça-feira, 28 de maio de 2013

A música do cangaço

Por: Renato Phaelante(*)

A partir do final dos anos 40, o tema cangaço, tão divulgado pela Imprensa brasileira e também, particularmente, por violeiros, cantadores e folhetos de cordel, ganha vulto nas artes plásticas, no teatro, na literatura, no cinema e, finalmente, na música, através do disco.


Sendo, dentre os cangaceiros, o mais famoso, Lampião é, também, o mais focalizado. Além de sua fama, um outro motivo responsável por um maior enfoque de sua figura é que a sua ação se desenrola num período em que os meios de comunicação passam por um fantástico processo de desenvolvimento e ainda pela extensão de sua situação no ciclo histórico-social. É tão forte a participação de Lampião como homem do cangaço que, mesmo após sua morte, em 1938, quando esse tipo de banditismo é, praticamente, extinto, o prestígio do cangaceiro aumenta - talvez pela própria história que deixa registrada - e o fenômeno passa também a ser estudado por historiadores e elementos sociais.

No que se refere à discografia brasileira, já desde 1929 se registra a presença de um grupo pernambucano que faz sucesso no Rio de Janeiro apresentando-se com chapéus de abas largas, dobradas na frente, roupas  características dos cangaceiros, além de alpercatas similares, e se intitulam como Turunas da Mauriceia.

No ano seguinte, em 1930, quando as façanhas de Lampião se espalham e chegam ao conhecimento dos brasileiros de Norte a Sul do País, o maestro, regente e compositor J. Thomaz compõe um samba intitulado "Vou Pegá Lampião", parece que para o teatro de revista carioca, que é gravado por Castro Barbosa em disco RCA Victor, em 3 de Julho de 1931. A letra do samba é mais que um desafio, uma ameaça a Lampião, feita numa época em que ele e seu bando aterrorizam as gentes do sertão.

"Adeus Amélia
Vou decidir minha sorte
Eu vou pro Norte Vou pegá Lampião. 
Cinquenta contos
Não fazem mal a ninguém
Vamos ver se esse malandro
Desta vez vem ou não vem
Não quero nada
Nem revólver nem canhão
Vou pegá-lo à cabeçada,
Pontapé e bofetão.
Não sou criança
Ele vai virar estopa
Vou acabar com essa lambança
Lampião pra mim é sopa"

Essa, a letra de uma audácia bem humorada, de J. Thomaz, e que parece haver sido o primeiro registro em disco sobre o tema "Lampião", reproduzido em CD, recentemente, em 1994, na série Revivendo, de Leon Barg.

O cangaceiro Volta Seca

Em 1957, a gravadora Toda América, resgata em LP 10 polegadas, oito músicas sobre o cangaço, na voz do ex-cangaceiro Volta Seca e, em 1984, o jornalista e pesquisador Aluísio Falcão reúne 12 composições sobre o cangaço, algumas delas oriundas do cinema, além de um pequeno depoimento da cangaceira Sila sobre o combate  do bando, num LP que se intitula "A Música do Cangaço".

Escritora Marilourdes Ferraz

Em 1988, a pesquisadora Marilourdes Ferraz lança, com o apoio do Governo do Estado de Pernambuco e da Prefeitura de Floresta, o LP "O Canto do Acauã, reunindo na voz do intérprete Edson Rodrigues as músicas cantadas, tanto por cangaceiros quanto por soldados das volantes na época de Lampião.

Em 1989, no ano seguinte, o Instituto Nacional do Folclore, na série em disco A Arte da Cantoria, dedica o de nº 4 ao tema cangaço, nas interpretações dos cantadores-repentistas Miguel Bezerra, Ivanildo Vila Nova, Severino Ferreira, Sinésio Pereira e Antonio Aleluia. Um trabalho importante, não apenas pelo resgate dessa memória oral, como também, pelo texto-pesquisa do encarte que acompanha o disco.

Esse quatro LPs parecem ser o que de mais significativo existe na discografia brasileira sobre cangaço. Vários músicos e compositores, no entanto, debruçam-se sobre o tema e com a colaboração dos pesquisadores Fernando Spencer e José Batista Alves, conseguimos, em apenas um ano, levantar quase 100 composições dos mais diversos ritmos e intérpretes, esperando que essa relação possa vir a ser útil àqueles que buscam sempre novos conhecimentos sobre este tema.

(*) pesquisador Fonográfico da Fundaj.

Fonte:

Diário Oficial
Estado de Pernambuco
Ano IX
Julho de 1995

Material cedido pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço:
Kydelmir Dantas

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Coluna Recordação = “Pombal: Bairros, Ruas e Fatos”

Por: Inácio Tavares
Publicado em 22/05/2013

Costumo caminhar em Pombal por simples prazer de rever ruas e logradouros que me trazem boas lembranças. Muitas coisas que presenciei e vivi na minha terra estão gravadas no meu consciente.

Fatos do passado afloram na minha memória a ponto de fazer-me reviver os bons momentos da minha juventude.

Era somente alegria num mundo de fantasias onde a palavra de ordem era ser feliz. Fui feliz, pois, diverti-me a beça, amei, fui amado, alimentei esperanças e desenhei projetos de vida futura.

Os meus primeiros passos, em busca do saber foram dados nesta terra fascinante sobretudo abençoada por Deus. Hoje, ao caminhar pelas ruas revejo velhas edificações que mexem e remexem com o meu já sambado coração.

Por exemplo, o velho Grupo Escolar João da Mata ainda hoje me fascina, não só pela sua arquitetura padrão, referencia para todos os edifícios públicos construídos naquela época, mas, porque foi neste estabelecimento de ensino que me ensinaram as primeiras letras do alfabeto, primeiro passo para minha alfabetização.

O velho João da Mata serviu para abrigar o saudoso Ginásio Diocesano de Pombal. Quem não se lembra do nosso grande patrono Cônego Vicente de Freitas? Acredito que poucos sabem quem foi este ilustre cidadão.

Nem mesmo o poder público municipal lhe prestou uma justa homenagem, a altura dos relevantes serviços que este magnífico homem de Deus prestou à terra de nós todos.

Pois é, foi o nosso estimado, de saudosa memória, Cônego Vicente de Freitas, o fundador do Ginásio Diocesano de Pombal. Em 1958, formou a primeira turma de estudantes do primeiro grau.

Está aí pra dar o seu testemunho, o meu estimado amigo, professor e educador, Arlindo Ugulino, um dos ícones do corpo docente da nossa terra. Com certeza o nobre Mestre conheceu de perto a dedicação do Padre Vicente, à causa da educação em nosso município.

Como disse inicialmente, costumo andar de forma despreocupada pelas ruas da minha terra com o olhar no presente e o pensamento no passado. Ao caminhar pela Teodósio de Oliveira Ledo ocorrem-me algumas lembranças que gostaria de não tê-las.

Este senhor, reverenciado no hino oficial na terrinha como construtor do nosso município foi responsável pela matança de milhares de Índios Tapuias de forma covarde e impiedosa. O que me dói é que, apesar dos pesares o seu nome está estampado em algumas esquinas desta importante rua da nossa cidade.

A propósito é oportuno lembrar que o município de Pombal é dotado de pessoas importantes, capazes de causar inveja aos grandes municípios do estado ou da região, prontos para serem homenageados pelos serviços prestados ou pela projeção que deu a nossa terra mundo afora.

Citemos: Celso Furtado, Ruy Carneiro, Janduhy Carneiro, Avelino Elias de Queiroga, Wilson Seixas, Chiquinho Formiga, Atêncio Wanderley, Deputado Francisco Pereira, Cônego Vicente de Freitas, filho por adoção e tantos outros.

Com esse plantel de filhos ilustres, já é tempo de se fazer um remanejamento dos homenageados com nomes das ruas centrais da cidade, afastando para o subúrbio essa figura nefasta, incômoda, para dar lugar a quem efetivamente deu visibilidade a esta cidade, não menos ilustre, do sertão paraibano.

A outra lembrança é de caráter sentimental e porque não dizer, estritamente telúrica. Pois é, lembro-me que a rua, com o nome do tal cidadão matador de índios, outrora era a saudosa Rua da Cruz.

Era um arruamento disforme que iniciava nas proximidades da casa do meu saudoso tio Cândido Filemon, como era conhecido, e se estendia até a rua da Rodagem, hoje Domingos Medeiros.

Na primeira casa morava o senhor Escolástico Clemente, a segunda era de Bocage a terceira de Chico de Sinhá Sadalina e prosseguia até as casas de Duca e de Jarda.

A Rua da Cruz era conhecida pelas frequentes desarmonias entre os seus moradores. Quem não se lembra da língua solta de Rosa de Ernesto? A fama da Rua da Cruz era tanta que quando alguém, não residente no ambiente, cometia qualquer descortesia era logo taxado de morado da rua da cruz.

Mas, a desarmonia entre as pessoas da comunidade não era a regra geral, pois havia pessoas de fino trato a residirem no lugar, tais como Quincô, Tinane, Zé Bezerra, Biró de Lica, Jovino, o botador d água, o povo de Delmira, Júlio Gazo, o canoeiro, Bocage, Nicodemos, Vicente de Virtuosa, Benedito e tantos outros que o tempo deletou da minha memória.

Ao atravessar a rua da rodagem deparamos com o Cachimbo Eterno. Nesta exótica localidade, morava uma mulher que muito me chamava atenção. Tratava-se da senhora Cornélia.

Era repentista e emboladora de coco. Apenas com um ganzá à mão direita, cantava modinhas e improvisava tiradas de coco de roda, principalmente quando tomava um pouquinho de zinabre.

Mais adiante, a poucos passos, localiza-se a rua principal do Bairro Nova Vida, onde havia um morador especial. Era o senhor Terto Calado, cuja residência ficava nas proximidades do açude.

Era pai de muitos filhos, entre os quais o temido domador de cobras, o Dantinha. Nenhum menino da minha época queria desavença com esse rapaz.

Era um jovem travesso e brigão. Tinha mania de sair mato à dentro a procura de cobras venenosas para por o braço para que elas picassem. Quando isso acontecia quem morria era a cobra.

Vi algumas exibições de Dantinha com o intuito de mostrar as pessoas que era curado do veneno de cobras, sem distinção de espécies. Ele se dizia protegido de Deus por isso não havia porque temer mordidas de cobras ou qualquer outro animal peçonhento.

Contava-se naquela época, que certa vez o seu pai o perseguiu com um cinturão para aplicar-lhe uma pisa em razão de mais uma das suas travesuras.

De repente ele puxou do bolso uma cobra venenosa e correu em perseguição ao pai que saiu em desabada em direção a casa. Assim sendo, não houve outra saída para pai perseguido, a não ser trancar-se num dos quartos da casa e pedir socorro aos outros filhos.

Dantinha, às gargalhadas no terreiro da casa, zombava do pai e gritava: velho medroso... venha ver a bichinha..... é uma cascavel fêmea que não ofende a ninguém.....faz três dias que está morando no meu bolso. De repente a Mãe aparece e resolve a questão. Coisas de mãe..... Mesmo assim, o povo do bairro, admirava o Dantinha por usa habilidade em lidar com cobras peçonhentas. Sem dúvida era um misto de admiração e medo.

A Rua da Cruz foi engolida pela especulação imobiliária e seu povo, em grande parte, foi tangido para favela do Cacete Armado. Era um povo pobre, entretanto feliz. Era lá onde se fabricava panelas, tigelas, quartinhas, potes, entre outros utensílios de barro da melhor qualidade.

Ademais, alguns membros da comunidade fabricavam tijolos e telhas, em olarias próximas às suas moradias. Essa atividade contribuiu para a expansão e ocupação do perímetro urbano da cidade, nos anos cinquenta.

Do ponto de vista cultural, foi a Rua da Cruz que sediou por muito tempo uma das principais manifestações folclóricas da cidade: a Festa de Reisados. Os líderes dessa manifestação viveram até pouco tempo, como Bem-bem, Jubinha, Nicodemos, entre outros.

O rito do reisado foi sequenciado por Chiquinho, Cícero e Dinho, sendo estes três filhos de Bem-bem. Com a morte de Chiquinho e Cicero o terceiro filho, o Dinho, deu prosseguimento a esta manifestação, porem sem o arrojo e a alegria do seu Pai, bem como os dois irmãos.

Retomando as minhas reflexões, é importante lembrar que o velho logradouro conhecido como Cachimbo Eterno foi também absorvido pela especulação imobiliária.

Não resta nada do que foi. A moradora mais importante, como já disse, foi a senhora Cornélia que tinha o dom do repente e nos fins de semana costumava alegrar os povos da vizinhança com suas tiradas de improviso.

Infelizmente, nada se conhece sobre os repentes da poetisa do subúrbio, porque os que viveram a sua época são raros e os que ainda estão vivos são poucos os que sabem sobre aquela senhora. É lamentável. O seu sobrinho Zé Corró, o lavador de carros, nada sabe sobre a tia.

O bairro do alto do Cruzeiro, é outro ajuntamento humano que outrora fora ocupado por pessoas pobres, porem decentes e que também sofreu por conta da invasão imobiliária.

Muitas casas desapareceram e os espaços foram ocupados por moradias típicas de classe média bem sucedida, uma vez que não se faz sentido falar em classe média alta em Pombal. Ainda restam alguns casebres onde residem os remanescentes da família Daniel.

Ah, sim, a velha Rua dos Roque? Esta jamais a esquecerei. Nesta Rua residiram alguns descendentes de João Ignácio D’Arão. Os filhos e netos de tia Flor(Florinda Cardoso de Alencar, filha de João Ignácio), casada com Alexandre Liberato de Alencar(Alexandre barriga mole), com certeza foram os fundadores dessa Rua.

Nela residiram os Felinto, com destaque para Felinto Velho, pai de Marcelina Junqueira, ainda os netos de tia Flor, bem como seu Roque casado com tia Joaquina, assim como os seus descendentes. Eis porque a denominação de Rua dos Roque.

A minha caminhada por essa Rua remete-me a lembranças inesquecíveis. Rigorosamente as serenatas que fazíamos havia de passar pela Rua dos Roque.

Vozes e violões rompiam o silencio da noite com valsas e canções para acordar a mulher amada. Em seguida íamos para pedra da estação a fim de dar um descanso ao violão, bem como às vozes da madrugada.

Bebíamos alguma coisa, depois seguíamos pra Rua do Rosário a fim de acordar alguém que nos esperava ansiosamente. O passo seguinte era a Rua do Sol onde cantávamos algumas musicas, às vezes a pedido, para depois tomarmos a direção da rua Estreita, com uma breve parada numa ruela transversal, em seguida cada um buscava suas casas.

Estas são as boas lembranças quando das minhas caminhadas despretensiosas pelas ruas da minha terra.

Sim, isso mesmo o bairro dos Pereiros também faz parte da minha história com ente caminhante pelas ruas da cidade. O lugar continua intacto, não sei até quando, pois a instalação do Campus da UFCG nas proximidades com certeza valorizou a posse do solo, o que pode atrair a especulação imobiliária.

Até então a especulação imobiliária não havia chegado ao sul da cidade, por razões de ordem social e até mesmo moral, pois ali bem perto localizava-se a antiga zona do baixo meretrício da cidade, que já não existe mais. Mesmo assim, ficou aquela repugnância social que impossibilitou o crescimento da cidade, para aquela direção, a exemplo dos demais bairros.
A rigor, o bairro que mais me chama atenção é sem dúvida é o de Nova Vida. Mesmo perdendo parte de sua área, pelas mesmas razões dos demais, apresenta fortes sinais de vitalidade econômica e social.

Parece até, que está a transmitir um recado ao poder público municipal, dizendo em alta voz? o futuro econômico e urbanístico desta cidade está nesta direção, qual seja o sentido da BR- 427.

Pois, um pouco mais adiante, está a esplendorosa planície, localizada entre os sítios mundo novo e capim verde, que poderá abrigar num futuro próximo novos espaços urbanos/comerciais ao lado de um distrito industrial, capaz redirecionar a economia do município a um longo e perpetuo ciclo de prosperidade econômica.

Sonhar não custa nada, por isso vou continuar sonhando a vida inteira.

Acredito no ressurgir de uma Pombal próspera e esplendorosa, tomada pelo otimismo da prosperidade, onde seus filhos possam ter uma oportunidade de emprego, aqui mesmo, sem precisar sair por aí, mundo afora, em busca de algo que não perdeu.
João Pessoa, 22 de Maio de 2013
Ignácio Tavares

Inacio é Economista. Colunista da Liberdade FM onde escreve sobre vários temas. CONTATOS: itavaresaraujo@yahoo.com.br

FONTE: http://www.liberdade96fm.com.br/colunistas/inaciotavares


Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço José Romero Araújo Cardoso

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Feira de Cabeças

Por: Aurélio Buarque de Holanda(*)
A Carlos Domingos
As cabeças dos cangaceiros na escadaria da Igreja de Piranhas (AL). A cabeça de Lampião é a do centro, no primeiro degrau. Logo acima, a de Maria Bonita.

De latas de querosene mãos negras de um soldado retiram cabeças  humanas. O espetáculo é de arrepiar. Mas a multidão, inquieta, sôfrega, num delírio paredes-meias com a inconsciência, procura apenas alimento à curiosidade. O indivíduo se anula. Um desejo único, um único pensamento, impulsa o bando autômato. Não há lugar para a reflexão. Naquele meio deve de haver almas sensíveis, espíritos profundamente religiosos, que a ânsia de contemplar a cena macabra leva, entretanto, a esquecer que essas cabeças de gente repousam, deformadas e fétidas, nos degraus da calçada de uma igreja.

Cinco e meia da tarde. Baixa um crepúsculo temporão sobre Santana do Ipanema, e a lua crescente, acompanhada da primeira estrela, surge, como espectador das torrinhas, para testemunhar o episódio: a ruidosa agitação de massas que se comprimem, se espremem, quase se trituram, ofegando, suando, praguejando, para obter localidade cômica, próximo do palco.

Desenrola-se o drama. O trágico de confunde com o grotesco. Quase nos espanta que não haja palmas. Em todo caso, a satisfação da assistência traduz-se por alguns risos mal abafados e comentários algo picantes, em face do grotesco. O trágico, porém não arranca lágrimas. Os lenços são levados ao nariz: nenhum aos olhos. A multidão agita-se, freme, sofre, goza, delira. E as cabeças vão saindo, fétidas, deformadas, das latas de querosene - as urnas funerárias -, onde o álcool e o sal as conservam, e conservam mal. Saem suspensas pelos cabelos, que, de enormes, nem sempre permitem, ao primeiro relance, distinguir bem os sexos. Lampião, Maria Bonita, Enedina, Luiz Pedro, Quinta-Feira, Cajarana, Diferente, Caixa-de-Fósforo, Elétrico Mergulhão...

Adendo

O escritor Alcino Alves Costa no seu livro: "Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistério de Angico" cita os mortos na chacina de Angico, sendo: Lampião, Quinta-Feira, Maria Bonita, Luiz Pedro, Mergulhão, Alecrim, Enedina, Moeda, Elétrico, Colchete e Macela. Segundo vários escritores afirmam que a lista dos mortos na madrugada de 28 de Julho de 1938, na Grota de Angico, no Estado de Sergipe, a mais correta é a do escritor Alcino Alves Costa.

- As cabeças!

- Quero ver as cabeças!

Há uma desnorteante espontaneidade nessas manifestações.

- As cabeças. Não falam de outra coisa. Nada mais interessa. As cabeças.

- Quem é Lampião?

Virgulino ocupa um degrau, ao lado de Maria Bonita. Sempre juntos, os dois.

- Aquela é que é Maria Bonita? Não vejo beleza...

O soldado exibe as cabeças, todas, apresenta-as ao público insaciável, por vezes uma em cada mão. Incrível expressão de indiferença nessa fisionomia parada. Os heróis de tantas sinistras façanhas agora desempenham, sem protesto, o papel de S. João Batista...

Sujeitos mais afastados reclamam:

- Suspende mais! Não estou vendo, não!

- Tire esse chapéu, meu senhor! - grita irritada uma mulher.

O homem atende.

- Agora, sim.

A pálpebra direita de Lampião é levantada, e o olho cego aparece, como elemento de prova.

Velhos conhecidos do cangaceiro fitam-lhe na cabeça olhos arregalados, num esforço de comprovação de quem quer ver para crer.

- É ele mesmo. Só acredito porque estou vendo.

Houve-se de vez em quando:

- Mataram Lampião... Parece mentira!

Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, o "interventor do sertão", o chefe supremo dos fora-da-lei, o cabra invencível, de corpo fechado, conhecedor de orações fortes, vitorioso em tantos recontros, - Virgulino Ferreira, o Capitão Lampião, não pode morrer.

E irrompe de várias bocas:

- Parece Mentira!

No entanto é Lampião que se acha ali, ao lado de Maria Bonita, junto de companheiros seus, unidos todos, numa solidariedade que ultrapassou as fronteiras da vida. É Lampião, microcéfalo, barba rala, e semblante quase doce, que parece haver se transformado para uma reconciliação póstuma com as populações que vivo flagelara.

Fragmentos de ramos, caídos pelas estradas, durante a viagem, a caminhão, entre Piranhas e Santana do Ipanema, enfeitam melancolicamente os cabelos de alguns desses atores mudos. Modestas coroas mortuárias oferecidas pela natureza àqueles cuja existência decorreu quase toda em contato com os vegetais - escondendo-se nas moitas, varando caatingas, repousando à sombra dos juazeiros, matando a sede nos frutos rubros dos mandacarus.

Fotógrafos - profissionais e amadores - batem chapas, apressados, do povo, e dos pedaços humanos expostos na feira horrenda. Feira que , por sinal, começou ao terminar a outra, onde havia a carne-de-sol, o requeijão de três mil-reis o quilo, com o leite revendo, a boa manteiga de quatro mil reis, as pinhas doces, abrindo-se de maduras, a dois mil-reis o cento, e as alpercatas sertanejas, de vários tipos e vários preços.

Ao olho frio das codaques interessa menos a multidão viva do que os restos mortais em exposição. E, entre estes, os do casal Lampião e Maria Bonita são os mais insistentemente forçados. Sobretudo o primeiro.

O espetáculo é inédito: cumpre eternizá-lo, em flagrantes expressivos. Um dos repórteres posa espetacularmente para o retratista, segurando pelas l=melenas desgrenhadas  os restos de Lampião. Original. Um furo para "A Noite Ilustrada".

Lembro-me então do comentário que ouço desde as primeiras horas deste sábado festivo: - "Agora todo o mundo quer ver Lampião, quer tirar retrato dele, quer pegar na cabeça...Agora..."

Há, com efeito, indivíduos que desejam tocar, que quase cheiram a cabeça, como ansiosos de confirmação, por outros sentidos, da realidade oferecida pela vista.

Desce a noite, imperceptível. A afluência é cada vez maior. Pessoas do interior do município e de vários municípios próximos, de Alagoas e Pernambuco, esperavam desde sexta-feira esses momentos de vibração. Os dois hoteis da cidade, literalmente entupidos  Cheias as residências particulares - do juiz de direito, do prefeito, do promotor, de amigos dessas autoridades. Para muitos, o meio da rua.

Entre a massa rumorosa e densa não consigo descobrir uma só fisionomia que se contraia de horror, boca donde saía uma expressão, ainda que vaga, de espanto. Nada. Mocinhas franzinas, romanescas, acostumadas talvez a ensopar lenços com as desgraças dos romances cor-de-rosas, assistem à cena com uma calma de cirurgião calejado no ofício. Crianças erguidas nos braços maternos espicham o pescoço  buscando romper a onda de cabeças vivas e deliciar os olhos castos na contemplação das cabeças mortas. E as mães apontam:

- É ali, meu filho. Está vendo?

Alguns trocam impressões;

- Eu pensava que ficasse nervoso. Mas é tolice. Não tem que ver uma porção de máscaras.

- É isso mesmo.

Os últimos foguetes estrugem nos ares. Há discursos. Falam militares, inclusive o chefe da tropa vitoriosa em Angico. Evoca-se a dura vida das caatingas, em rápidas e rudes pinceladas. O deserto. As noites ermas, escuras, que os soldados às vezes iluminam e povoam com as histórias de amor por eles sonhadas - apenas sonhadas... Os passos cautelosos, mal seguros sobre os garranchos, para evitar denunciadores estalidos, quando há perigo iminente. Marchas batidas sob o sol de estio, em meio da caatinga enfezada e resseca, e da outra vegetação, mais escassa, que não raro brota da pedra e forma ilhotas verdes no pardo reinante: o mandacaru, a coroa-de-frade, a macambira, a palma, o rabo-de-bugio, facheiro, com o seu estranho feitio de candelabro. A contínua expectativa de ataque tirando o sono, aguçando os sentidos.

O sino toca a ave-maria. Dilui-se-lhe a voz no sussurro espesso da multidão curiosa, nos acentos fortes do orador, que, terminando, refere a vitória contra Lampião, irrecusavelmente comprovada pelas cabeças ali expostas.

Os braços da cruz da igrejinha recortam-se, negros, na claridade tíbia do luar; e na aragem que difunde as últimas vibrações morrediças do sino vem um cheiro mais ativo da decomposição dos restos humanos.

Todos vivem agora, como desde o começo do dia, para o prazer do espetáculo. As cabeças!

A noite fecha-se. Em horas assim, seriam menos ferozes os pensamentos de Lampião. O seu olhar se voltaria enternecido para Maria Bonita. 

Que será feito dos corpos dissociados dessas cabeças? O rosto de Maria Bonita, esbranquiçado a trechos por lhe haver caído a epiderme, está sinistro.

Onde andará o corpo da amada de Lampião? A cara arrepiadora, que mal entrevejo à luz pobre do crescente, não me responde nada.

E Lampião? Sereno, grave, trágico. O olho cego, velado pela pálpebra, fita-me. (1938).

(*) Autor do mais importante dicionário da língua portuguesa publicado no Brasil neste século. Texto do livro esgotado "O chapéu de meu pai, editora Brasília, 1974.

Fonte:

Diário Oficial
Estado de Pernambuco
Ano IX
Julho de 1995

Material cedido pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço:
Kydelmir Dantas

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Aquela Sanfona Branca...

Contribuição: Compadre Lemos

Lá vou eu, com mais uma...

Contam que, um dia, Luiz Gonzaga chegou, de avião, ao Rio de Janeiro. Numa mão, uma sacola com roupas e na outra, a inseparável sanfona. Ele não andava sem ela! No hall do aeroporto, algumas pessoas o cercaram, pedindo autógrafos. Ele já era famoso, naquele época. Depois de atender todo mundo, como sempre fazia, notou que um adolescente alto e magro, cabelos compridos, ficara timidamente a uma certa distância, olhando insistentemente para ele. Lua se aproximou e perguntou, com seu jeitão espontâneo:

- Ôxente! E ocê, mô fi? O que que tu qué?

- Seu Luiz - disse o jovem - eu queria carregar sua sanfona, até o carro. Posso?

- E tu vai me cobrar quanto? - perguntou Luiz, estranhando o pedido do rapaz.

- Nada, Seu Luiz. Só pelo prazer de carregar ela mesmo. O senhor deixa?

- Ôxente... a gente vê cada uma!... Então tá. Qué carregá... carrega! Mais ói, faz besteira não, que eu tô de olho em tu, viste?

E o jovem, alegremente levou a famosa Sanfona Branca de Luiz do hall do aeroporto até o táxi, que o esperava.

- Obrigado, mô fi. Essa danada dessa sanfona é bem pesada mêrmo, né não?

- De nada, Seu Luiz. Foi uma honra!

- Iscuta... como é o seu nome? Perguntou Luiz, curioso.

- Benito! - disse o rapaz.

- Benito de que? Tu nuns tem sobrenome não, peste?

- Benito de Paula, Sêo Luiz. Benito de Paula!...

Benito di Paula

Anos depois, "estourava" no Brasil inteiro uma canção do Benito de Paula, provavelmente inspirada naquele dia tão feliz, da sua adolescência. E Benito encantou nosso povo, cantando:

" Aquela sanfona branca,
aquele chapéu de couro,
é quem meu povo proclama,
Luiz Gonzaga é de Ouro ".

Contribuição: Compadre Lemos

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Extra - Os 3 últimos desejos de ALEXANDRE, O GRANDE


Quando à beira da morte, Alexandre convocou os seus generais e relatou seus 3 últimos desejos:


1 -) Que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos da época;

2 -) Que fosse espalhado no caminho até seu túmulo os seus tesouros conquistados (prata, ouro, pedras preciosas...); e

3 -) Que suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.

Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a Alexandre quais as razões. Alexandre explicou:

1 -) Quero que os mais iminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles NÃO têm poder de cura perante a morte;

2 -) Quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem;

3 -) Quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos.




PROGRAMAÇÃO CARIRI CANGAÇO PARAYBA


Sousa e Nazarezinho

Sousa – PB
15 de junho de 2013 - Sábado
Local: Centro Cultural Banco do Nordeste
14:00h – Cerimônia de Abertura


14:20h - Mesa Redonda

Tema: Homem, terra, religiosidade, sertão e cangaço:
A construção histórica da figura do cangaceiro.
Coordenador da Mesa: César Nóbrega – Sousa/PB
Debatedores:
Lemuel Rodrigues – Mossoró/RN
Múcio Procópio – Natal/RN
Honório de Medeiros – Natal/RN


16:00h - Exibição do documentário:
“A violência oficializada no tempo do cangaço”
(Produção da Laser Filmes)
Debatedores: Aderbal Nogueira – Fortaleza/CE
Juliana Ischiara – Quixadá/CE
  

19:00h – Mesa Redonda
Tema: O cangaço na Parahyba
Coordenador da Mesa: Manoel Severo – Fortaleza/CE
Debatedores: Ângelo Osmiro – Fortaleza/CE
Bismark Martins – Campina Grande/PB
Wescley Rodrigues – Cajazeiras/PB

  
Nazarezinho - PB
16 de junho de 2013 - Domingo.
07:30h – Visita Técnica
A casa do Jacu e a casa de seu Abdias Pereira
08:30h – Cerimônia de Abertura 
Local: Centro Social

09:00h – Exibição do documentário:
“Na cabeça do povo” 
Produção: Helena Maria Pereira


09:30h – Mesa de Debate

Tema: O cangaço como caracterizador da cultura sertaneja e a importância da cultura material como elemento formador da 
identidade de um povo.
-A memória do cangaceiro Chico Pereira

Debatedores: João de Sousa Lima – Paulo Afonso/BA
Paulo Gastão – Mossoró/RN

Exposição do Cangaço

...E em setembro: 
Cariri Cangaço 2013
Crato, Juazeiro, Barbalha, Missão Velha 
Barro, Aurora e Porteiras

http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br
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E o tal do Calibre 28? Ele existe, porém...


A revista Aventuras na História na edição de Maio teve enorme procura por parte dos cangaceirólogos. Mas seu conteúdo causou descontento aos estudiosos. O autor cometeu alguns erros cronológicos e outros menos relevantes como os de grafia.

No intuito de barrar a disseminação destas informações (revista tem aceitação acadêmica, já um mero blog não tem) João de Sousa Lima elegeu e publicou em seu blog um artigo apontando vários tópicos.


Ivanildo Alves Silveira, João de Sousa Lima e Rubinho Lima

Um em especial nos chamou a atenção, o que citava o calibre "28" que segundo o autor era utilizado pelas cangaceiras. Certamente muitos confrades nunca sequer ouviram falar deste. Na dúvida dei uma pesquisada e descobri sua existência através do site Belga Little Gun Clique Aqui

Antes de publicar nosso parecer consultei o estimado amigo e especialista em armas de fogo Fábio Carvalho Costa que nos diz o seguinte:

Caro Compadre Kiko, sobre a reportagem da revista Aventuras na História que causou esta celeuma toda, creio que deve ter sido um mero erro de revisão, pois o autor cita 32 e 28, certamente queria dizer 32 e 38.

Quanto a ter existido um calibre 28, sim certamente existiu. Pois em termos de calibres para armas curtas, já existiram praticamente todos os diâmetros imagináveis: dos inacreditáveis 2,7 mm de uma minúscula pistola de bolso de colete, até os enormes cartuchos de revólveres e pistolas, com calibres que alcançavam quase meia polegada (12,7mm).

Aliás, o primeiro revólver de sucesso comercial (e mecânico)  o Colt Paterson de 1836, tinha uma versão inicial de 5 tiros e... Calibre 0,28 (por volta de 7,12 mm), seguido depois por versões em calibres  0.31 e 0.34. Porém este Colt de 1836 era uma arma de percussão, ou seja, um revolver  que primitivamente (como a maioria da mesma época) era carregado com balas e espoletas em separado (como se fosse uma garrucha de socar), só que usava um tambor de 05 tiros! Uma alavanca, geralmente situada embaixo do cano, era encarregada de ajustar a carga/bucha/projétil dentro das câmaras.

Raro exemplar de revólver americano de percussão, Patente James Warner de 1851. 
(Fonte http://www.littlegun.info/arme%20americaine/a%20a%20images%20armes%20americaine%20gb.htm)

Assim foram os revólveres até a chegada do cartucho de metal (o cartucho de Lefaucheaux um dos primeiros)! Este tipo de arma - revólver de percussão- teve pouquíssimo uso aqui no Brasil (importamos mais armas da Europa, onde se adotou cedo o cartucho de metal). Era mais comum nos EUA, onde foram muito usados na guerra civil norte-americana (1861 a 1865), e depois marcharam na cintura dos pioneiros e cowboys para fazer a conquista do oeste selvagem. Mesmo com a popularização do cartucho de metal (que ficou mais comum nos Estados Unidos com a importação de milhares de revólveres Europeus tipo Lefaucheaux pra uso do Sul Confederado), sendo alguns dos mais famosos e clássicos revólveres americanos calibrados para cartuchos metálicos,  lançados na década de 1870 (como o Colt Peacemaker, SW nº 3, Remington 1875, etc.).

Os exemplares originais de percussão, ainda foram usados por alguns anos, sendo muitos deles convertidos para os cartuchos modernos de metal, através de “kits” econômicos. Pessoalmente não creio que estas armas, tampouco modelos em cal. 28 devem ter sido usados por cangaceiros (Aliás, quem usaria uma arma de “socar“ em 1920? Tendo pistolas semiautomáticas Parabelllum e FN, e fuzis Mauser nas mãos).

Quanto a armas que usaram cartuchos metálicos ao redor do diâmetro .28 (medida neste caso expressa à inglesa em  centésimos de polegadas, equivalendo à europeia ao redor de 7,12 mm, assim destas duas maneiras geralmente se expressam os nomes e medidas de cartuchos), houveram uma meia dúzia de modelos nos fins do sec. XIX e inicio do XX (alguns pouco conhecidos do grande público). Muitas destas eram munições experimentais como as .28 BSA, e a .28 Browning, que não chegaram a linha de produção.

Estas munições 7mm/.28 via de regra, não obtiveram sucesso comercial sendo esquecidas, eclipsadas por outras mais efetivas, geralmente de maior calibre (embora muitos fuzis tivessem esta medida de calibre, sendo usados alguns até hoje como as .280 Remington, .284 Winchester etc., mas isto já é outra história).

Abraços.
Fábio
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