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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

CANGAÇO ÂNGELO ROQUE – A REGENERAÇÃO DE UM CANGACEIRO

Por Rostand Medeiros
Manchete da reportagem da década de 1950, sobre a regeneração de Ângelo Roque
Manchete da reportagem da década de 1950, sobre a regeneração de Ângelo Roque
Autor – Rostand Medeiros
No Brasil a palavra “regeneração”, definitivamente é algo que o nosso povo não sabe trabalhar muito bem em suas mentes e seus corações, quando aplicada aqueles que erraram junto a sociedade, contra os que praticaram crimes diversos, contra os que sofreram as duras penas da lei e estiveram um período em alguma unidade prisional.
Dificilmente vemos o antigo presidiário como alguém que se regenerou. Olhamos para ele mais com medo do que com esperança de que ali está uma pessoa recuperada. Isso não é difícil diante verdadeiras masmorras medievais que existem nos nossos presídios.
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Por isso é que na história carcerária brasileira chama tanto atenção o fato dos homens que foram cangaceiros, pelo menos os que se entregaram e passaram um tempo presos, terem tido um índice de reincidência criminal baixíssimo.
Na verdade digo “terem tido um índice de reincidência criminal baixíssimo”, pois ouvi isso de outros pesquisadores do tema cangaço. Mas confesso que nunca li e não tenho dados que comprovem especificamente quantos antigos cangaceiros padeceram na prisão e quantos voltaram ao crime após a liberdade.
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Entretanto é vasto, inclusive amplamente divulgado na imprensa brasileira das décadas de 1950 e 1960, que vários homens que andaram nas caatingas debaixo do peso do chapéu de couro e do “pau de fogo”, ao deixarem a prisão se tornaram os ditos “cidadãos de bem”, totalmente regenerados. Muitos se tornaram pacatos funcionários públicos, pequenos comerciantes, caixeiros viajantes e outros exerceram simples e honestas atividades. Um dos casos mais emblemáticos na minha opinião é a recuperação do chefe cangaceiro Ângelo Roque.
Vida Bandida
Em uma entrevista a um periódico carioca, repleta de fotografias, temos a história de Ângelo Roque da Costa, o conhecido cangaceiro Anjo Roque, o conhecido Labareda. Teria nascido em 1910, no lugar Jatobá, depois pertencente ao município pernambucano de Tacaratu (e por isso conhecido como Jatobá de Tacaratu), era filho de família humilde, mas respeitada em seu lugar.
Lampião, o primeiro a esquerda, e seus cangaceiros
Lampião, o primeiro a esquerda, e seus cangaceiros
Na reportagem afirmou que entrou na vida do cangaço após matar um soldado de polícia que desvirginou a sua irmã de 14 anos de idade. Roque contou que o conquistador se chamava Horácio Cavalcanti, que havia casado quatro vezes e quatro vezes abandonou as esposas. Consta que sua família buscou a justiça de sua região, mas um juiz e outras autoridades pouco deram importância ao sentimento de raiva de seus familiares.
Logo houve um encontro dos dois homens em um trem, a faca vibrou e ambos ficaram feridos. Mas logo o jovem Roque, então com 16 ou 17 anos, matou o soldado com um tiro de rifle e caiu “em desgraça” perante a justiça.
Para sobreviver em uma situação como esta, naquele sertão atrasado, só entrando para o cangaço. Foi em uma propriedade denominada Jurema que Roque entrou no bando de Lampião, que lhe deu apoio e ambos se tornaram grandes amigos.
Um Cangaceiro
Na reportagem Ângelo Roque detalhou que esperou 13 dias por Lampião na propriedade Jurema. Logo Roque ficou alcunhado no bando como Labareda. Comentou que Lampião sempre foi um homem de pouca conversa, mas era extremamente hábil na luta das caatingas. Labareda informou que passou dois anos andando junto a Lampião no seu bando, onde teve um grande aprendizado na arte da guerrilha nordestina. Devido a sua capacidade de comando e de combate, logo Labareda passou a comandar um subgrupo de cangaceiros.
No seu processo de regeneração, o antigo cangaceiro aprendeu a ler e escrever
No seu processo de regeneração, o antigo cangaceiro aprendeu a ler e escrever
Para Roque era normal Lampião ter cerca de 60 homens em seu bando. Já o famigerado cangaceiro Corisco andava com um grupo que tinha em torno de 20 a 25 combatentes e Labareda seguia com uma média de 15 cangaceiros. Nesta vida Ângelo Roque da Costa permaneceu 16 anos em luta, onde afirmou a reportagem ter combatido “200 vezes contra a polícia”.
Lembrou aos repórteres que seu primeiro combate, sem especificar datas, foi em Sergipe, onde cerca de 40 cangaceiros brigaram diretamente com vários policiais, sem perdas para os “cabras” de Lampião, mas com a morte de vários homens da lei.
Ângelo durante a entrevista
Ângelo durante a entrevista
Para o cangaceiro Labareda os dias de cangaço eram “Dias miseráveis!”, onde os cangaceiros tinham um ódio extremo aos policiais e, assim que tinham alguma oportunidade, não perdiam a oportunidade de desfechar terríveis ações violentas contra os membros da “Força”.
Em seus relatos Labareda afirmou categoricamente que era “Um bandido”, que aquela vida lhe trazia muitas amarguras. Tanto que para conceder a entrevista ele perguntou primeiramente ao Professor Estácio de Lima se aquela exposição na imprensa seria positivo para ele. O Professor Estácio concordou.
Ângelo Roque e o Professor Estácio de Lima
Ângelo Roque e o Professor Estácio de Lima
Na época da entrevista Ângelo Roque era um pacato funcionário do Concelho Penitenciário da Bahia, morando em Salvador, onde trabalhava como auxiliar de confiança do Professor Estácio.
Na Prisão
Após a morte de Lampião em 28 de julho de 1938, o cangaceiro Labareda andou ainda quase dois anos pelas caatingas de armas na mão, tendo se entregado as autoridades no início de abril de 1940, em Paripiranga, Bahia. Logo ele e mais outros companheiros foram recambiados para Salvador.
Fim de Lampião e seu bando
Fim de Lampião e seu bando
Na capital baiana, nos primeiros contatos com a imprensa na Secretaria de Segurança, os cangaceiros já se encontravam de cabelos cortados e usando paletó e gravata, mas Labareda fazia questão de ser tratado pela patente de “capitão”. Na ocasião houve um encontro muito animado com o cangaceiro Juriti, que já se encontrava detido. Comentaram que do terraço da repartição chamou atenção dos agora ex-cangaceiros a chegada ao porto de Salvador do paquete “L’Argentine”.
Saracura, companheiro de cangaço e de prisão de Ângelo Roque
Saracura, companheiro de cangaço e de prisão de Ângelo Roque
Após a sua entrega justiça, Ângelo Roque da Costa foi julgado e condenado a 95 anos de prisão, depois reduzidas a 30 anos e comutadas a apenas 10 anos de cárcere. Mesmo com condenações tão elevadas no início do seu período de detenção, ele manteve a calma e se tornou um prisioneiro de comportamento exemplar.
O antigo cangaceiro Labareda entre as cabeças de Corisco e Lampião
O antigo cangaceiro Labareda entre as cabeças de Corisco e Lampião
Primeiramente foi enviado para o “Campo Experimental de Ondina”, em Salvador, onde passou a cumprir seu tempo de prisão junto com os companheiros de luta.
Lembrou que na época do início do cumprimento de sua pena, lhe chamou atenção o interesse e a curiosidade provocada em várias pessoas pelos ex-cangaceiros. Recordou que em uma ocasião receberam a visita de Renato Monteiro, documentarista da “Tupy Films”, que realizou um pequeno filme (provavelmente pago pelo Governo Federal), mostrando a regeneração dos anteriormente temidos “Guerreiros das Caatingas”. Foram realizadas filmagens daqueles homens em uma lavoura, tendo sido capturado as imagens do antigo Labareda, de Saracura, Juriti, Jitirana, Velocidade e cinco outros ex-cangaceiros.
Inclusive pelo bom trabalho realizado nesta lavoura, em 1944, durante o período da Segunda Guerra Mundial, ele e outros 20 condenados pela justiça receberam um prêmio da LBA-Legião Brasileira de Assistência. Este programa era denominado “Hortas para a vitória!” e havia sido implantado para incrementar e ampliar o que hoje denominamos de agricultura familiar, tudo em prol do esforço de guerra brasileiro.
Ângelo Roque e a cabeça de Lampião
Ângelo Roque e a cabeça de Lampião
Como comentei anteriormente, não sei estatisticamente quantos dos cangaceiros que se entregaram as autoridades reincidiram no crime. Mas não deixa de chamar atenção pelas fotos aqui publicadas, como as autoridades faziam questão de propagar a regeneração dos antigos cangaceiros a imprensa brasileira.
Não sei se é utopia da minha parte, sei que os tempos e os problemas são outros, mas bom seria se alguém da área de direito penal, ou de alguma área relativa aos estudos penitenciários, se dispusesse a pesquisar mais a fundo estes casos específicos dos ex-cangaceiros.
Talvez o resultado de um trabalho assim, poderia trazer lições do passado que possam ajudar os “homens das leis” dos nossos conturbados e violentos dias, a terem uma nova abordagem para a recuperação dos nossos apenados.
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ASCRIM/PRESIDENCIA – CONFIRMAÇÃO E RETRANSMISSÃO AO CONVITE DE LANÇAMENTO DO LIVRO “FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE PÚBLICA” -OF. Nº 038/2018.

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MOSSORÓ-RN, 08 de AGOSTO de 2018.

 O(A)VALORIZA E RESPEITA, PELO ALTO NÍVEL DE QUEM TEM O PRESTÍGIO DE SER ASSIM CONSIDERADO(A).’ 

      ENCAMINHAMOS PARA O DR. CANINDÉ MAIA, AS CONFIRMAÇÕES DE PRESENÇA, PARA O EVENTO EPIGRAFADO, QUE NOS FORAM ENVIADAS PELOS ACADÊMICOS E POTENCIAIS CANDIDATOS ACADÊMICOS DA ASCRIM E INTERESSADOS, 
   O REFERIDO EVENTO ACONTECERÁ NO PRÓXIMO DIA 09.08.2018(QUINTA-FEIRA), ÀS 19H00MIN, NO AUDITÓRIO DA OAB, LOCALIZADO NA RUA DUODÉCIMO ROSADO, 1125, NOVA BETANIA, 17, CENTRO, NESTA URBE.

      CONCLAMANDO AOS ACADÊMICOS E POTENCIAIS CANDIDATOS A ACADÊMICOS DA ASCRIM, COMPARECEREM AO EVENTO SUPRAMENCIONADO, COMUNICO, DEVEM CUMPRIR O RIGOR OBRIGATÓRIO ESTATUTÁRIO DE USO DO UNIFORME OFICIAL CONSOANTE NORMA ESTATUTÁRIA, ATRIBUTO SIGNATÁRIO DO DECORO INTELECTUAL E ORGULHO DA MORAL QUE ASSIM OS IDENTIFICA, ENTRE OS PARES, EM ATIVIDADES CULTURAIS DESSA GRANDEZA.
SAUDAÇÕES ASCRIMIANAS,

FRANCISCO JOSÉ DA SILVA NETO
-PRESIDENTE DA ASCRIM-

P.S.: 1. CONSIDERANDO A ESSÊNCIA DA HUMANIDADE INTELECTUAL, INSERIDA NESSE CONTEXTO E NA REPRESENTATIVIDADE DE TODOS SEGMENTOS SOCIAIS ABAIXO RELACIONADOS, ENCAMINHA-SE ESTA CÓPIA ORIGINAL, EM CARÁTER PESSOAL DIRETO AOS  INSIGNES DIGNITÁRIOS:
  
EXCELENTÍSSIMO(A)S PRESIDENTES, DIRIGENTES E AUTORIDADES DE ENTIDADES GOVERNAMENTAIS, JURÍDICAS, MAÇONICAS E MILITARES.
REVERENDÍSSIMO(A)S PRESIDENTES, DIRIGENTES E AUTORIDADES DE ENTIDADES RELIGIOSAS.
MAGNÍFICOS REITORES E AUTORIDADES DE UNIVERSIDADES.
EXCELENTÍSSIMO(A)S PRESIDENTES DE ENTIDADES E INSTITUIÇÕES PÚBLICAS E PRIVADAS.
EXCELENTÍSSIMO(A)S PRESIDENTES DE ENTIDADES CULTURAIS E INSTITUIÇÕES CONGENERES.
ILUSTRÍSSIMO(A)S DIRIGENTES DE INSTITUIÇÕES FILANTRÓPICAS, EDUCACIONAIS E DE CIDADANIA.
ILUSTRÍSSIMO(A)S JORNALISTAS E COMUNICADORES.
POTENCIAIS CANDIDATO(A)S A ACADÊMICO(A)S DA ASCRIM

Enviado por 
asescritm@hotmail.com

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MEMORIAL ALCINO ALVES COSTA, PATRIMÔNIO DO SERTÃO


Com imenso prazer que recebi um comunicado do Professor Reinaldo - o mesmo que foi cerimonialista quando da passagem do Cariri Cangaço por Pedro Alexandre - informando do seu interesse em trazer duas turmas do 9º ano para uma visitação ao Memorial Alcino Alves Costa, no sertão sergipano de Poço Redondo. Tal atitude é uma demonstração de cordialidade entre os dois municípios vizinhos, de interesse pela história poço-redondense e sertaneja, bem como de alargamento do universo da pesquisa e do conhecimento. 


Poço Redondo e Serra Negra sempre mantiveram laços fraternos de amizade. A Família Carvalho das terras baianas sempre teve Poço Redondo como seu segundo lar. João Maria de Carvalho, Piduca Alexandre, João de Ioiô, Heraldo de Carvalho, Evaldo de Carvalho, e agora Zé Maria de Carvalho e seu irmão Orlando da Serra Negra, dentre outros, sempre mantiveram proximidade com Poço Redondo. São dois municípios irmãos separados apenas por um limite geográfico, pois no restante sempre o entrelaçamento da história, da cultura, das tradições e das amizades. 


Para uma exemplificação, a segunda mais importante avenida de Poço Redondo leva o nome de João Maria de Carvalho. E a chegada da comitiva baiana, ou dessa juventude estudantil, a terras sergipanas, será uma forma de manter esse cordial relacionamento e cultivar nas novas mentes os laços afetivos entre sertanejos. Que sejam, pois, bem-vindos. E toda a população de Redondo está convidada a receber e abraçar, no próximo sábado dia 11, esse grupo de visitantes não só ao Memorial, como a cidade de Poço Redondo e talvez até Curralinho, num percurso histórico-geográfico enriquecedor. Avante!

Rangel Alves da Costa, pesquisador e escritor
Conselheiro do Cariri Cangaço
Poço Redondo, Sergipe

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OSÉAS LOPES

Por Edivaldo Morais

A vigésima edição do MEGA BREGA em Macau (04/Agosto), apresentou, dentre outras atrações, o cantor mossoroense CARLOS ANDRÉ, ou OSÉAS LOPES. 

Edivaldo Morais e Carlos André

Após o almoço do sábado, tivemos a oportunidade de conversar um pouco com o filho de Seu Messias. Ao lado de João Batista e Hermelinda, formou o Trio Mossoró, com trajetória da terra de Santa Luzia aos palcos do Rio de Janeiro e Brasil afora. 


Em sua apresentação a noite, Oséas fez em breve relato do início da carreira até tornar-se produtor musical de dezenas de artistas da música brasileira, inclusive dos saudosos Luiz Gonzaga e Reginaldo Rossi, a quem prestou homenagens. 



Oséas, ou Carlos André, que completará 80 anos de idade dia 28 de outubro próximo, apesar da idade, ainda com fôlego para animar brilhante show, para o maior público de todos os tempos em 20 anos de Mega Brega, o maior evento do gênero no Estado, quiçá no Nordeste. 


(Dedico esta postagem a Emery Costa e 


Lúcia Rocha, amigos de longas datas de Oséas).
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“LAMPIÃO ERA UM INFELIZ, UM CÃO”

Virgolino Ferreira da Silva o Lampião
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2016_07_11_archive.html 

Uma delas, aos 87 anos, nascida em Jeremoabo, até hoje teme represálias dos bandidos. Nascida em Jeremoabo, em uma família influente, considera Lampião “um infeliz que só fazia o mal”, pede para não ser identificada. Vale lembrar que Jeremoabo era a terra do coronel João Sá, um dos principais coiteiros de Virgulino.

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Em suas lembranças, histórias de crimes pavorosos, o julgamento do cangaceiro Labareda e o dia em que sua tia foi retida por dois bandoleiros.


O outro depoimento é de Elisangela Maria de Ribeira do Amparo. Ela conta como os pais de seu avô reagiram ao saber que Lampião estava próximo. A reação inusitada mostra como as pessoas sofriam no sertão só de ouvir falar o nome do cangaceiro.

E.O, 87 ANOS, DE JEREMOABO

“Eu era menina. A cidade vivia apavorada, todo mundo estava assombrado. Lampião e seu bando passaram pela Fazenda Almêcega e exigiu muito dinheiro do proprietário, Manoel Salina, ameaçando-o arrancar a língua dele se não recebesse o que queria. Manoel pagou e mandou avisar Jeremoabo que o cangaceiro estava próximo.

Tempos depois, Lampião voltou e pediu mais dinheiro. Seu Manoel não tinha toda a quantia e foi ameaçado de morte com a família. Resolveu vir para Jeremoabo (a fazenda Almêcega ficava a 18 km da cidade e tinha um grande contingente de volantes) depois que Ângelo Roque, o Labareda, cangaceiro nascido aqui na região, avisou que era melhor todo mundo sair porque seu chefe ia matar a todos.

Passou um tempo e Manoel, em dificuldades financeiras, reuniu cinco filhos, três sobrinhos e quatro vizinhos para colher a mandioca de suas terras rapidamente. Alguém avisou Lampião. Esse bandido foi na fazenda e matou cinco pessoas, diante de seu Manoel.

Um dos filhos, que estava no telhado, ao ver a família ser assassinada fugiu pelo mato e foi até Jeremoabo pedir ajuda. Duas filhas do fazendeiro também escaparam.

Lampião ainda mata três vizinhos de Manoel. Terminada a chacina, manda atear fogo em tudo o que ali existia. Pega Salina e corta suas orelhas, castra-o, arranca-lhe unhas, lhe fura os olhos e segue com ele para a casa de seu outro filho, o vaqueiro Ulisses, em uma fazenda próxima. Lá, mata o rapaz e Manoel, que tem o coração arrancado e deixado ao lado do corpo.

Lampião era um bandido miserável, que desassossegou todo mundo, esbagaçou com tudo. Passou pela Bahia em 1928 e ficou dez anos “infernando”. Se alguém tivesse que viajar, rezava pedindo para São João para voltar a salvo.

Um infeliz desse no sertão só fazia o mal. Na minha opinião, um bandido miserável que destruiu muita coisa, destruiu famílias, propriedades, gado lindo.

Meu avô contava que o coronel Pedro não seguiu os caprichos de Lampião e ele tocou fogo no curral  com o gado dentro. Gostei quando a família não deixou botar um busto desse bandido na cidade.

O cangaceiro Balão

Quando eu era menina, ficávamos com o coração na mão quando minha tia saía para trabalhar fora do município. Um dia, ela encontrou dois bandidos, um era filho de Várzea da Ema, o Balão, o outro era o Moita Brava.

O cangaceiro Moita Brava

Meu avô vinha com ela. Os cangaceiros pararam os dois, apontando fuzis. Fiscalizaram tudo, repararam no cabelo dela e disseram que quem tinha mulher devia mostrar logo e não tentar esconder. Os dois ficaram apavorados. Só depois de um tempo foram liberados.

Tempos depois Labareda se entregou e fomos ver o júri dele. Só crime horroroso, muita miséria, ninguém aguentou ficar ouvindo aquilo.

Lampião era um infeliz, um cão. Ele e a tropa dele”

Mulher marcada a ferro no rosto por cangaceiro

ELISANGELA MARIA, 38, DE RIBEIRA DO AMPARO

“Meu avô era um cabra valente, mas certa noite em meio a tantas conversas e prosas miúdas no terreiro da casa, sob uma esteira de tábua velha, eu tão pequenina e curiosa ouvi dele: “Minha filha, me escondi da tirania desse homem (Lampião).

Na realidade meu “pai avô” viveu até os 93 anos. Ele é meu amor eterno, o maior sertanejo que conheci. Matou minha fome no cabo da enxada e me contava suas histórias.

Ele nasceu no povoado de Várzea Salgada, em Ribeira do Amparo (BA). Eu, Elisangela, venho de dois lados. Os Canuto, por parte de minha mãe avó, estavam presentes em Canudos. Os da parte de meu pai avô foram os que se esconderam de Lampião. Sou valente de um lado e do outro, frouxa.

Meu pai avô contou diversas vezes que seus país, nesse caso meus bisavós, cavaram uma espécie de bunker (abrigo) e cobriram com palhas de licuri seca, após ouvirem relatos de terceiros que Lampião se aproximava daquela redondeza.

Meus bisavós e os filhos pequenos, um total de nove, ficaram escondidos por quinze dias comendo batata assada e melancias, arrancadas das plantações próximas ao esconderijo. A água era adquirida nas copas do gravatá, uma bromélia silvestre que dá no sertão – eu até já bebi dela nas catas dos cambuís (fruta nativa dos tabuleiros baianos, utilizada no tratamento de herpes, brotoeja, cólicas e diarreias) que dá nesse lugar.

Eles ficaram neste esconderijo até que o meu velho bisavô foi averiguar e ouviu de um conhecido que Lampião já havia passado. Deixaram a toca e tocaram a vida, normalmente.

Minha bisa faleceu quando eu tinha um ano de vida, isso foi em 1979. Dizem que ela ainda me colocou no colo. O meu bisavô foi primeiro, antes de eu nascer. Meu pai avô morreu em 2015, dois meses depois dele apreciar meu enlace matrimonial.

Cantei para ele no seu leito de morte e ele sorriu para mim como sempre. Nasceu na roça e faleceu na roça, no hospital da região, pois ele tinha receio da cidade grande.

Tudo o que sou devo a eles e ao sertão baiano que me fez mais humana. Se tiver um pedaço de charque, compartilha-se com todos; um vaqueiro não descansa antes de juntar sua boiada; se tiver um caju, um maturi, você não joga galho para tirar o fruto maduro em respeito ao maturi que ainda brota. Coisas simples, mas que me servem até o dia de hoje.
Obrigado foi o que disse a meu pai avô e vos digo também, como ele me ensinou.

Obrigado por se lembrar do sertão meu, seu, de Euclides e de quem chegar.

O sertão é assim, vai além de céu estrelado e das caçadas em noites de lua cheia. O sertão vai comigo até onde eu for nesse mundo de meu Deus”.

Paulo Oliveira

Jornalista, 55 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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PADRE JOSÉ KEHRLE TENTOU EVITAR O MASSACRE DE OUTUBRO DE 1922 EM BELMONTE-PE


Por Valdir José Nogueira - pesquisador/escritor

Homem extraordinário, culto e carismático, proveniente de família Judia, nascido na Alemanha em 19/05/1891, José Kehrle ordenou-se em 14/03/1914 como religioso no Mosteiro de São Bento, Olinda, Brasil. O mesmo veio para estas terras a fim de fazer estudos para seu doutorado em doenças tropicais, pois ele era médico, resolvendo aqui optar pela vida religiosa. Quando vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Penha, em Vila Bela, conheceu Virgulino Ferreira o Lampião ainda no começo de sua vida como cangaceiro, sendo inclusive seu conselheiro e confessor. Padre José Kehrle Assumiu a Paróquia de São José, do Belmonte no dia 21 de fevereiro de 1922.


Durante o seu paroquiato aconteceu o “massacre de outubro de 1922”. Como ordenava a tradição, a festa de outubro, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, era realizada anualmente na cidade de Belmonte. As comemorações se iniciavam com a tradicional alvorada, os sinos da Matriz repicavam, fogos explodiam no ar, banda de música e pífanos alegravam as ruas...Aquela animada noite de 19 de outubro de 1922 teve como patrono o coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz. Este senhor, ao deixar a Matriz de São José juntamente com o padre José Kehrle, seguiu para a Casa Paroquial. Lá o reverendo então o interpelou sobre a sua situação com Ioiô Maroto. Respondeu o mesmo que a malquerença entre ambos havia terminado, pois que um irmão de Ioiô entrara com ele em negociações, tendo emprestado ao mesmo a quantia de três contos de réis e cedido o vapor para serviços de Maroto, e que também havia dispensado o seu pessoal que, por prevenção trazia armado. Nesse momento uma chuva começou a cair, o reverendo insistentemente, mais de uma vez, pediu para o coronel pernoitar na Casa Paroquial. Recusando, então, o convite do padre, às onze horas o coronel deixava aquela casa e retornava ao seu lar. Lá chegando, deu de cara com seu vaqueiro, Manoel Pilé, que espantado relatou que ficara sabendo que Ioiô Maroto estava juntando um considerável número de gente em armas na sua fazenda Cristovão. Não dando crédito às desconfianças de seu vaqueiro, Gonzaga tranquilizou-o dizendo que não havia mais questão entre ele e seu compadre Ioiô. O certo é que pelas nove horas dessa mesma noite, Ioiô Maroto havia saído de sua fazenda com os seus companheiros e cangaceiros, parentes e moradores, em número superior a 45 homens, com rumo certo para a cidade de Belmonte, onde realizaria a empreitada na forma pretendida: matar o coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz.

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