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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

“EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

Por: Rostand Medeiros

Biografia resgata a história de um simpático norte-americano, veterano da II Guerra Mundial e a sua relação com a terra potiguar.


A trajetória de Emil Petr é uma das tantas histórias que, de tão ricas, fascinantes e extraordinárias, precisam ser contadas em livro, divididas com todos aqueles que não têm o privilégio de conhecê-lo ou de ouvir falar deste homem.

Descendente de Tchecoslovacos, católico, nasceu em uma pequena cidade do Meio Oeste dos Estados Unidos e foi testemunha da crise econômica de 1929. Durante a II Guerra Mundial saiu de seu rincão para ser navegador de um bombardeiro B-24 da Força Aérea Norte-americana. Antes de chegar a sua base no sul da Itália, esteve no Nordeste do Brasil, tendo um primeiro contato com a terra que um dia seria seu lar. Na Europa participou de inúmeras e perigosas ações de combate. Em setembro de 1944 seu avião foi derrubado, mas ele sobreviveu e tornou-se prisioneiro dos nazistas.

Após os episódios envolvendo a guerra retornou ao seu país natal, onde se tornou empresário do ramo da construção civil. Mas depois de todas as experiências como prisioneiro, desejou dar uma radical guinada na sua vida e se tornou voluntário da Igreja Católica junto a comunidades campesinas na América Latina. Isso acabou trazendo Emil Petr para o Rio Grande do Norte em 1963.

Aqui trabalhou junto a Dom Eugênio Sales no chamado Movimento de Natal. Logo conheceu a caicoense Célia Vale Xavier, com quem se casou e conheceu o sertão potiguar e sua gente.

Nestes quase cinquenta anos de convivência de Emil Petr com o Rio Grande do Norte, ele se integrou plenamente a nossa sociedade e onde vive até hoje, aos 94 anos.

Todos esses acontecimentos, com riqueza de detalhes são divididos conosco, em mais de 300 páginas e 250 fotos, pelo pesquisador Rostand Medeiros, que iniciou este trabalho em setembro de 2009, entrevistando longamente Emil, familiares, reunindo relatos e material para a enorme pesquisa que desencadearam na escrita de “Eu não sou herói – A história de Emil Petr”.

Os prefácios são da socióloga Safira Bezerra Amman e do publicitário João Daniel Vale de Araujo.

Maiores detalhes sobre este livro acesse 
http://tokdehistoria.wordpress.com/

Rostand Medeiros:

Autor das biografias “João Rufino, um visionário de fé” (2011) sobre o criador do grupo industrial Santa Clara e “Fernando Leitão de Moraes – Da serra dos canaviais à cidade do sol” (2012). Coautor do livro “A saga do voo de Ferrarim e Del Prete” (2009), trabalho apoiado pela Embaixada da Itália no Brasil, Força Aérea Brasileira e Universidade Potiguar. Fascinado pela história da Segunda Guerra Mundial, Rostand realizou uma ampla pesquisa e reuniu extenso material para trazer a nós este “Eu não sou herói”, um importante registro de uma interessante figura histórica.

Jovens Escribas / Bons Costumes

Este é mais um lançamento do “Bons Costumes”, selo da “Jovens Escribas” para livros produzidos por encomenda. A família Vale e o autor, Rostand Medeiros, confiaram a nobre tarefa de materializar o trabalho que já vinham realizando há vários anos. Trata-se do segundo lançamento com a marca “Bons Costumes” só neste mês de outubro. O primeiro será “Otto Guerra – Traços e reflexos de uma vida” de Zélia Maria Guerra Seabra, no próximo dia 25.

Lançamento de “Eu não sou herói – A história de Emil Petr” (Rostand Medeiros):


Local: Iate Clube de Natal
Data: 31 de outubro de 2012 (quarta-feira)
Hora: A partir das 19h 
Informamos que a partir do dia 31 de outubro o livro estará a disposição do público nas livrarias......, pelo valor de R$ 50,00.

Contatos do autor:
Rostand Medeiros – rostandmedeiros@gmail.com
(84) 9904-3153 / 9140-6202

Enviado pelo autor deste livro
http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

Quintais - (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

QUINTAIS

Já tive quintais, já senti o prazer de abrir a porta dos fundos e encontrar mato e bicho bem ali pertinho. Hoje não, pois os autênticos quintais, aqueles de fogo de chão e varais de revoadas, só restam nas cidadezinhas interioranas e dolorosamente tenho de me contentar com a área dos fundos, murada, cimentada, sem uma planta sequer.

Por aqui - na cidade que nem adormece tranquila e sossegada e nem deixa ninguém sonhar com o berço interiorano de nascimento -, é preciso tornar o quintal uma parte da própria casa, com a máxima proteção, de muro alto e sem nada que possa lembrar as áreas descampadas que faziam extensão da porta dos fundos. Porta que muitas vezes ficava aberta para facilitar o encantamento com a lua lá em cima.


Aqui é tudo diferente, tudo frio, feio, desumano, cimento e cinza e demais. Pelo muro não se avista o vizinho, não há passagem para lugar algum, não há cancela que se abra adiante e leve às veredas dos espinhos e dos passarinhos. Há, talvez, uma planta de plástico, um cercado de ferro, um piso tão duro que a semente jogada esturrica por cima. E nada mais do que a saudade e a tristeza no olhar.

Os quintais, esses terrenos de terra nua nos fundos das casas, possuem uma utilidade ao mesmo tempo sentimental e histórico-geográfica. Sentimental porque muito do preservado ali remonta a um tempo mais distante, do afazer cotidiano da família; histórico-geográfico porque sua manutenção diz muito das transformações ocorridas ao redor, além de ser ambiente geralmente interligado ao mundo lá fora.

 Nos quintais são jogadas casualmente as sementes que vão brotando ao léu; são plantadas pequenas hortas ou árvores frutíferas; locais por onde cisca a galinha, passeia o galo velho; ali está colocado o velho pilão de bater café, herança da escravidão; onde o tanque de cimento espera a roupa pra ser lavada e os varais se estendem de canto a outro. Ali há também uma cobertura pra não deixar molhar o fogo de lenha.

Nos quintais existem mangueiras, goiabeiras, mamoeiros, e trepadas nelas as gaiolas dos passarinhos que o menino insiste em criar. Num canto, cuidadosamente cercada por pedaços de ripas está a farmácia do sertanejo, a botica matuta contendo a hortelã, os mastruço, a erva cidreira, o boldo, e todo tipo de plantinha que, na infusão ou no maceramento, faz mais efeito do que a medicação do doutor.

Lá por detrás, quase na embocadura do mataria, o garoto faz um cercadinho, limpa ao redor, coloca algumas pontas de vaca e diz que é fazendeiro, um rico sertanejo em meio ao seu imenso rebanho. Brinca o tempo todo ali, mas com muito cuidado, pois quintal também lugar de passeio e até moradia de serpente venenosa, de aranha de queimação e de piolho de cobra. Por isso mesmo o pai vive gritando pra ter cuidado com tudo ao redor.

Como que pregado ao chão, vez que sempre ali debaixo do sol e da chuva, todo quintal que se preze possui um tronco de madeira deitado no chão ou mesmo um banquinho esperando que alguém chegue para o seu instante de nada fazer. Então por ali chega o dono da casa de cigarro de palha no canto da boca e começa a olhar pelos cantos, a dona da casa de pano enrolado na cabeça e uma vasilha para pinicar quiabo, a velha solitária para conversar sozinha.

Nos quintais escurecidos, aqueles cujos arvoredos formam muralhas que escondem mistérios e outras realidades, pessoas se encontram, namorados saciam suas sedes, pequenos ilícitos são praticados costumeiramente. A galinha gorda some do galinheiro, levam uma ponta de vaca da fazenda do menino, pé ante pé afanam a planta medicinal.


E logo cedinho, ainda de madrugada, sobem na goiabeira para fazer a festança no que é dos outros. Se fosse só isso, mas some mamão e também sapoti. Mas não adianta, o traquina do molecote da rua debaixo parece que não tem outra coisa para comer na manhã. E balançando a cabeça como a dizer que não tem jeito mesmo, vai a dona de casa de cesto na mão colher a fruta que restou, um punhado de folhas para fazer um chá, os ovos da galinhada.

E é nesse momento que percebe o sumiço da galinha gorda. E um grito raivoso invade a manhã, pula as cercas, alcança os outros quintais. E assim vai a vida pela porta dos fundos, pelos maravilhosos quintais.
  
(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos eguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Bulamarqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE. 

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

ATRAVESSANDO O RASO DA CATARINA NOS RASTROS DOS CANGACEIROS

Por: João de Sousa Lima

Dia 17 de outubro de 2012 eu, Felipe Marques e Marcos Passos (dois Macaenses quase nordestinos) saímos de Paulo Afonso, Bahia, para cruzarmos o Raso da Catarina nas trilhas dos Cangaceiros.

No momento o Raso da Catarina atravessa mais de dois anos de seca e as dificuldades dos criadores de fundo de pasto aumentam a cada dia, a seca desfolhou completamente a vegetação que dependendo de apenas poucos pingos de chuva volta a enverdecer.

Cruzamos os povoados Juá, Serrota, Brejo do Burgo e chegamos ao Salgado do Melão onde entrevistamos dona Joana Ribeiro, irmã mais nova da cangaceira Dadá. Dona Joana hoje com 96 anos de idade ainda é lúcida e lembra das passagens dos cangaceiros e das violências sofridas por parte das volantes policiais.

Do Salgado do Melão seguimos pra cidade de Macururé e de lá até o povoado São José, em Chorrochó, para visitarmos o soldado da volante de Zé Soares, o senhor Teófilo Pires do Nascimento. Teófilo foi o matador do cangaceiro Pedro "Calais". Ainda no povoado São José fomos entrevistar Zé de Helena, um dos possíveis filhos de Lampião.

Com o cair da tarde retornamos e já escuro atolamos o carro na areia só conseguindo sair com a ajuda dos nativos. A aventura estava completa, chegamos a Paulo Afonso exaustos porém com uma grande aventura na bagagem e muitas histórias pra contar.


Felipe Marques, senhor Filomeno (com um jumento carregado de mandacaru pra alimentar seus animais que penam com a seca) e Marcos Passos, próximo a Baixa do Ribeiro (onde nasceu a cangaceira Dadá), centro do Raso da Catarina.


Filomeno parou por alguns minutos para conversarmos e depois seguiu sua sina, sertão à dentro, luta constante, batalha sem fim.


Marcos Passos, Joana Ribeiro (irmã de Dadá), Abel e João, no povoado Salgado do Melão.


Baixa do Ribeiro, lugar onde nasceu a cangaceira Dadá e passagem  dos cangaceiros.


Marcos e Felipe começando a empurrar o carro que ficou presa nas terras do Raso da Catarina.


João e Teófilo Pires do Nascimento, o soldado de Volante que matou o cangaceiro Calais.


Felipe, Teófilo e Marcos, um encontro emocionante.


No povoado São José uma casa construída pelo pedreiro José, o depois cangaceiro Zé baiano, Zé de Helena, filho de lampião com uma das moças da família dos "Engrácias", João e o filho de Zé de Helena que também chama-se João.


Macururé, no alto sertão baiano essa é uma das cidades onde as histórias do cangaço deixaram marcas profundas.


No centro de Macururé Marcos Passos e João saboreiam um churrasquinho de carneiro.


No Brejo do Burgo uma parada para agradecer os nativos que nos surpreenderam pela disponibilidade onde homens e crianças nos ajudaram a desenterrar o carro de um imenso areal.

Uma aventura que nos fez compreender a dimensão dos caminhos trilhados pelos cangaceiros, tudo acontecido nesse enigmático deserto baiano, o Raso da Catarina.

Enviado pelo escritor e pesquisador do cangaço:
João de Sousa Lima











quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Matéria publicada no jornal Tribuna do Norte: A cartografia poética de Gonzagão

Bené Fonteles, autor do livro que inspirou o filme Gonzaga, De Pai Para Filho,é uma das atrações do Festival Literário da Pipa
Bené Fonteles, autor do livro que inspirou o filme Gonzaga, De Pai Para Filho,é uma das atrações do Festival Literário da Pipa

Câmara Cascudo escreveu na contracapa de um disco de Luiz Gonzaga: "O sertão é ele". Ninguém duvida. O músico, jornalista e escritor paraense Bené Fonteles reforça a importância do ícone nordestino com o livro "O Rei e o Baião", tido como uma obra definitiva para se entender e conhecer mais o legado do músico que pôs a música nordestina no mapa cultural do Brasil no século XX. Bené virá ao Estado para lançar o livro e participar da mesa "Luiz Gonzaga: Uma Poética Musical", dia 24 de novembro, durante o 4º Festival Literário da Pipa (o evento começa dia 22). Ele dividirá a prosa com Marcos Lopes, criador do Forró da Lua, e o pesquisador pernambucano Paulo Wanderley. A assinatura de Cascudo e outros tantos dados foram relacionados no livro - que para ele, faz parte de um processo que ele conduz desde os anos 70, quando conheceu Gonzagão. Seu livro também inspira o filme "Gonzagão: de pai para filho", que estreia próxima semana. Ao VIVER, ele falou longamente sobre seu ídolo e objeto de estudo.

O que você abordará na mesa "Uma poética musical", sobre Luiz Gonzaga, na Flipipa, em novembro?

Desde a importância da lírica nordestina do cordel, aos cultos parceiros de Luiz Gonzaga, como Humberto Teixeira e Zé Dantas, que contribuíram para a construção de uma cartografia poética que abrangia o Nordeste em seus mais ricos costumes e sabedorias, paisagens e ambiências, religiosidade e crendices, situação econômica e política como, talvez, não houve igual na musica popular brasileira. As dezenas de parceiros de Gonzaga deram às suas melodias e recriações musicais um roteiro ou mapa cultural e espiritual do Nordeste que ainda está sendo estudado pelos acadêmicos da área de antropologia e sociologia cultural. Na verdade, em 1947, Gonzaga e Teixeira criam um movimento cultural com uma música manifesto que é "Baião" e trazem do Nordeste para o Sul a música nordestina então desconhecida e uma cultura desprezada que passou a ditar não só uma "dança da moda" mais uma forma de ver e sentir o mundo brasileiro e universal para todo país. Foi num movimento extraordinário, uma "operação inversa" como dizia Sivuca, quando era o Sul que ditava a moda e os ritmos, e ainda dita. A força do arquétipo ou ícone que Gonzaga criou juntando a figura do cangaceiro com o vaqueiro e criando um mixagem cultural única e original, foi o que ficou de forma emblemática. Só Carmem Miranda havia conseguido tal feito com sua baiana estilizada, além do seu talento, carisma e originalidade iguais ao Rei.

Como foi o processo de produção de "O Rei do Baião"? Como surgiu e quanto durou?

A vontade do livro vinha de muitos anos de pesquisa, mas se tornou muito oportuna com a criação do museu Cais do Sertão Luiz Gonzaga, em Recife, e o interesse do Ministério da Cultura em fazê-lo e incentivar através do Fundo Nacional de Cultura a feitura do livro em 2010, sem falar na proximidade do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga este ano. Depois de tudo que tinha de discos, livros, filmes, cordéis que fui resenhando, a pesquisa e o tratamento do material iconográfico que levantei em viagens pelo Nordeste, foi importante convidar os ensaístas como Antônio Risério, Elba Braga, Hermano Viana, Sulamita Vieira e Gilmar de Carvalho, alguns com livros de teses de doutourado já publicadas sobre a obra de Gonzaga, sem falar na provocação a vários artistas para criarem obras sobre o Rei e seu universo imagético. Para editar tudo isso não levei nem dois anos, mas a pesquisa venho fazendo desde os anos 70, quando escrevi em 1971 o espetáculo "Luiz Lua, Obrigado!" para o Teatro Universitário da UFC, em Fortaleza, e quando em 1972 comecei minha amizade com Gonzaga, e ele mesmo foi me municiando de material sobre sua obra.

O que te surpreendeu durante as pesquisas para o livro? Houve algo que você ainda não sabia?

Pude confirmar a imensa generosidade de Gonzaga com as pessoas ao seu redor, incluindo desconhecidos. Deu mais de 400 sanfonas e ajudou Deus e o mundo. Ouvi muitos "causos" verdadeiros e emocionantes. Descobri imagens que ainda permaneciam inéditas ou pouco conhecidas e revelamos um Gonzaga com mais força poética e influência cultural do que imaginávamos. O livro usa o belo pretexto e sua imagem icônica para revelar um Nordeste ainda não todo conhecido e sempre muito fascinante.

Como era a sua relação com a música de Luiz Gonzaga e com o próprio?


Desde menino meu pai cearense me aplicava a música do Rei. Morei no Ceará da minha infância a juventude e não tinha como não ouvir, principalmente nas festas juninas. Quando conheci Gonzaga, em 1972, era para levar a ele o texto do espetáculo que escrevera e recortes de jornais alusivos a este. Fiz a primeira entrevista da minha vida, e foi com ele; criou-se uma imediata empatia que durou até o fim da sua vida. Fiz o projeto do Museu do Baião em Exu no começo dos anos 80, em 83 ele gravou no meu disco "Benditos" um aboio que é uma benção. Devo a ele tanta coisa que o livro e a exposição que montei "O imaginário do rei - Visões sobre o Universo de Luiz Gonzaga" em Recife, Salvador, Fortaleza, João Pessoa e agora vindo a Brasília, ainda é muito pouco. Sou coordenador do Ano Luiz Gonzaga e ainda podemos fazer muito além do centenário para que sua obra e o Nordeste sejam reconhecidos com todas as suas potencialidades.


Está prestes a ser lançado o filme "Gonzaga - De pai para filho", de Breno Silveira, sobre a relação de Luiz com Gonzaguinha. Qual sua expectativa em relação ao filme?


A melhor possível. Breno é muito bom diretor e Chambinho, que fez um dos Gonzagas, me disse que Breno deu o livro "O Rei e o Baião" para todo mundo do elenco como fonte de inspiração. Isto me deixou feliz, pois fiz o livro para inspirar outras realizações e agradar a quem ama Gonzaga e aprofundar a quem pesquisa sobre sua obra.

O quanto a identidade cultural nordestina deve a Gonzagão nos últimos 50 anos? Em que isto se nota?

Em tudo e mais alguma coisa. Ele influenciou de cabo a rabo, não só pelos compositores que se seguiram, mas pelos costumes nordestinos que sua musica propagou pelo país. Quando ele apareceu, nordestino era chamado pejorativamente de "baiano", "paraíba", "ceará". Ele deu outra dimensão cultural a este povo exilado no Sul pelas agruras das "vidas secas", elevou as potencialidades culturais máximas da cultura de um povo. Ele foi o cantor do exílio. Estes exilados propagaram sua musica no Sul ao se identificarem com toda a cartografia que ele assimilou, traçada por seus geniais parceiros. Não houve ninguém que fez tanto pela identidade cultural de uma região.

Como a obra de Gonzagão ultrapassou o Nordeste e influenciou a música brasileira em geral?

Pela via da indústria fonográfica, que ascendia, e a febre do rádio que consumia o país e mudava paradigmas como faz a televisão há décadas e agora a Internet. Gonzaga soube criar uma imagem icônica com uma sensibilidade e esperteza únicas, que deu cara relevante ao Nordeste e reforçou a identidade cultural brasileira como nunca. Gonzaga, uma "entidade universal brasileira", como preferia Mário de Andrade. Câmara Cascudo escreveu a pedido de Gonzaga um texto para a contra capa de um de seus discos, e disse: "O sertão é Ele". Precisa mais?

O que você acha do atual estado do forró?

O que está no mercado é um estado de forró em estado grave. Coisa de UTI estética. Plastificou-se, perdeu a raiz ancestral e a poética musical dos mestres. Deixou de ter a formação clássica instrumental criada por Gonzaga, para agradar um gosto duvidoso musical e temático. Mas tem tanto guardião de seus mistérios e potências, que continuam a cultuar o estado original e recria-lo como o fazem o gênio absoluto de Dominguinhos, a nova geração com Targino Gondim e muitos outros que dão gosto e sabedoria  a herança de Seu Luiz que continua viva e ainda vai dar muito fruto e festa. Aliás, não gosto muito desta palavra forró, o que ele fazia e eles fazem, é música da melhor qualidade, não é um estilo, nem uma escola, é 'Música Universal Brasileira' que pode ser sentida e dançada em Nova York e Quixadá, com o mesmo jeito e sabor.

Outras homenagens ao centenário de Gonzagão chamaram sua atenção?


Antônio Nóbrega fez um belo espetáculo unindo musica e dança que já percorre o Brasil; Chico Cesar esta fazendo um belo show com o Quinteto de Cordas da Paraíba que também viaja; Elba Ramalho está preparando um espetáculo baseado no livro "O Rei e o Baião"; Alceu Valença gravou um CD só com repertório de Gonzaga; lançou-se uma caixa com tres CDs "100 anos de Gonzagão" com 50 gravações inéditas de vários interpretes recriando suas canções; relançou-se o tão esperado livro "Vida de Viajante - A saga de Luiz Gonzaga", de Dominique Dreyfus, a melhor biografia do Rei; muitos de seus discos estão sendo relançados pela gravadora a preços populares; dia 30 de outubro a Revista Bravo! em São Paulo entregará seu grande premio com homenagem especial a Gonzagão; dia 5 de novembro, Dia Nacional da Cultura, a Presidência da Republica e o Ministério da Cultura entrega a Ordem do Mérito Cultural em homenagem principal a Gonzaga. A Funarte criou este ano o Prêmio Centenário Luiz Gonzaga que inclusive fui um dos ganhadores. E muitas coisas ainda estão a acontecer que nem sabemos, embrenhadas pelo sertão nordestino, feitas com amor e admiração pelo seu verdadeiro Rei.

Extraído do blog do Neto
http://afnneto.blogspot.com.br/

O túmulo do cangaceiro Jararaca


O túmulo de José Leite de Santana - o cangaceiro Jararaca que é localizado em Mossoró, no Cemitério São Sebastião, nos últimos dias apareceu uma mancha  na placa de acrílico a qual se lia uma mensagem. 

Mas isso foi causado por alguns fieis, sem nenhuma maldade, colocaram velas sobre-a, fazendo com que a parafina derretida escorresse e penetrasse entre o túmulo e a placa. Não foi vandalismo, apenas quem colocou a vela talvez não imaginou que isto poderia acontecer. 

Lembrei-me de retirar a placa para fazer uma limpeza, mas temi, com medo de ser acusado de vandalismo, já que eu não sou funcionário do cemitério.  

Falando aos escritores Kydelmir Dantas e Antonio Vilela de Sousa aconselharam-me que eu falasse com um dos funcionários do cemitério, que com certeza seria facilitada a limpeza na placa de acrílico.

Ainda nesta semana irei tentar convencer um dos funcionários para que a limpeza ao túmulo do cangaceiro seja feita.

José Leite de Santana - o cangaceiro Jararaca - foi o segundo facínora a perder sua amada vida aqui em Mossoró, no dia 13 de Junho de 1927. Este foi baleado, preso e dias depois foi covardemente assassinado pelos policiais da época. José Leite de Santana era pernambucano da cidade de Buíque.

Aqui em Mossoró três cangaceiros repousam no mesmo cemitério, sendo eles: Colchete, morto no momento da invasão de Lampião a Mossoró. Jararaca e o cangaceiro Asa Branca, mas este último faleceu de morte natural, no ano de 1981. O seu túmulo aparece na foto por traz do túmulo do cangaceiro Jararaca. 

http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

Convite do lançamento do meu novo livro

O autor do livro:  "Eu não sou herói-A história de Emil Petr". Rostand Medeiros

 Amigos e amigas,

Com satisfação e alegria envio


o convite do lançamento nosso novo trabalho


"Eu não sou herói-A história de Emil Petr".

O evento ocorrerá no dia 31 de outubro de 2012 (quarta-feira), ás 19:00, no Iate Clube de Natal. 

A edição deste nosso livro ficou a cargo da Editora Jovens Escribas, tendo a frente o editor e autor Carlos Fialho.

Convido todos vocês que batalham pela história a visitarem o nosso blog TOK DE HISTÓRIA e conhecerem mais deste nosso livro.

Um abraço a todos e gratos pela atenção.

Rostand Medeiros

http://tokdehistoria.wordpress.com



Foi Silvino... O Rei do cangaço antes de Lampião

Por: Paulo Goethe
O cangaceiro Antonio Silvino

No dia 16 de janeiro de 1907, o Diário registrou que os cangaceiros estavam preocupando as autoridades. Aterrorizando os sertões estava o bando de Antonio Silvino. Forças policiais da Paraíba e do Rio Grande do Norte foram mobilizadas para perseguir o grupo.  O capitão Carlos Formel informou, através de carta, que estava no encalço dos cangaceiros. Durante todo o mês, o jornal divulgou notícias sobre a atuação das volantes. Ao longo das décadas seguintes, o combate ao cangaço seria um tema comum no cardápio de assuntos oferecidos ao leitor.


No primeiro registro do ano, o Diário sinalizava que um dos companheiros de Antonio Silvino havia sido preso no interior de Pernambuco. “Perseguido pela força volante, apresentou-se, há poucos dias, ao delegado de Bom Jardim, o celebre cangaceiro Barra Nova. Durante o tempo em que fez parte do grupo desse facínora, tornou-se celebre pelas suas perversidades. Em São Vicente, na ocasião de um ataque do grupo, foi Barra Nova quem atirou no sargento José Pedro, subdelegado local. Actualmente ele está recolhido á cadeia de Bom Jardim, devendo ser em breve transportado para a casa de detenção”.



Antes de Lampião, ele era o cangaceiro mais famoso e seu apelido mais conhecido foi “Rifle de Ouro”. Nascido no dia 2 de dezembro de 1875, em Afogados da Ingazeira, Manoel Batista de Morais entrou para a história como Antonio Silvino. Durante 16 anos, driblou a polícia, praticou saques e assassinou inimigos, mas era tratado pelos poetas populares como um “herói” por respeitar as famílias.
Ainda jovem, integrou o bando liderado por seu tio, Silvino Aires Cavalcanti de Albuquerque. Com a prisão deste em Custódia, assume o comando e muda o nome e sobrenome, homenageando o parente.
Antônio Silvino entrou para o cangaço aos 21 anos de idade, com o irmão, Zeferino, depois da morte do pai, Batistão do Pajeú, em plena feira de Afogados da Ingazeira, em dia 3 de janeiro de 1897. Procurado pela polícia, Batistão ousou entrar na cidade no dia mais movimentado da semana e foi alvejado por um tiro de bacamarte disparado por Desidério Ramos, desafeto e contratado pelo coronel Luís Antônio Chaves Campos, chefe político local.

Silvino e o irmão juraram vingar a morte do pai, assaltando e matando todos os que colaboraram com o mandante do crime. “Para o sertanejo não havia Justiça. Se um parente era morto, de imediato lhe sobrevinha o ‘direito’ de pôr termo à vida do assassino. Por vezes, essa vingança implicava em cruzar um punhal à cintura, portar rifle e munição, usar um chapéu de couro de aba batida. A cada crime não punido pelas instituições policiais e judiciárias, em regra, lançava-se a semente de um futuro bandoleiro profissional”, narra Sérgio Augusto de Souza Dantas emAntonio Silvino: o cangaceiro, o homem, o mito, uma das mais completas biografias sobre o “Rifle de Ouro”.


Mesmo tendo participado de um ataque à usina Filonila, em 1899, no qual resultou na morte de uma menina de 13 anos, filha do coronel Antônio dos Santos Dias, a fama de Antonio Silvino apenas cresceu como “bandido cavalheiro”. Em 1903, o Jornal Pequeno, do Recife, publica a sua foto. No ano seguinte, Francisco das Chagas Batista lança o cordel A canção de Antônio Silvino, que teve grande vendagem.


A invencibilidade de Silvino terminou no dia 28 de novembro de 1914, quando ocorreu o seu último tiroteio com a polícia. Atingido no pulmão direito, conseguiu se refugiar na casa de um amigo e disse que ia se entregar. Da cadeia de Taquaritinga seguiu, dentro de uma rede, até a estação ferroviária de Caruaru, onde um trem especial da Great Western o levou para o Recife. Uma multidão o aguardava na Casa de Detenção, atual Casa da Cultura.
Antonio Silvino tornou-se o detento número 1.122, condenado a 239 anos e oito meses de prisão. Em 4 de fevereiro de 1937, depois de vinte e três anos, dois meses e 18 dias de reclusão, foi indultado pelo presidente Getúlio Vargas.
Na foto acima, ele é o de chapéu e bengala. O ex-rei do cangaço morreu em 30 de julho de 1944, em Campina Grande, na casa de uma prima.

Paulo Goethe, 44 anos, no Diário de Pernambuco de 1990 a 1997 e desde 2001.

http://lampiaoaceso.blogspot.com

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sérgia Ribeiro da Silva - a cangaceira Dadá

Foto do acervo do Dr. Ivanildo Alves da Silveira

Sérgia Ribeiro da Silva - Dadá, uma das maiores cangaceiras do bando de Lampião. Era casada com o cangaceiro Corisco, um dos maiores astros da Empresa de Cangaceiros Lampiônica & Cia, do afamado Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. 


Após a morte de Lampião na Grota de Angico, no Estado de Sergipe, na madrugada de 28 de Julho de 1938, Corisco não estava presente no momento do massacre feito pelos policiais do governo. Mesmo sabendo que o movimento social iria findar, vez que de um jeito ou de outro seria capturado, Corisco continuou nas caatingas até o ano de 1940, quando no dia 25 de maio, ele e sua amada Dadá foram cercados e vencidos pela volante do tenente Zé Rufino. 

Tenente Zé Rufino

Com o exagero de tiros lançado pela volante, Corisco ficou gravemente ferido, e não conseguiu sobreviver, falecendo posteriormente,  mas Dadá foi poupada, apenas perdeu uma das pernas. Somente após 54 anos  ela veio a falecer morte natural no ano de 1994.

Afirmam os escritores que Dadá era conhecida no bando de cangaceiros "Suçuarana", apelido que foi dado pela sua coragem no momento de combates. Como Corisco havia perdido os movimentos dos braços, devido alguns balaços em combates contra uma volante, e não tendo condições de atirar nos seus perseguidores, Dadá era quem resolvia tudo atirando no momento de ataques.

blogdomendesemendes.blogspot.com

As batalhas de Lampião: Maranduba


A terceira grande batalha enfrentada por Lampião e seu bando ocorreu em janeiro de 1932, no sertão sergipano, na fazenda Maranduba. Os militares estavam em número três vezes maior e subestimavam os cangaceiros. Lampião demonstrou superioridade tática sobre os militares, principalmente por conhecer muito bem o terreno onde se travou o embate.

Alguns historiadores tentam "minimizar" a vitória obtida por Lampião depois de uma feroz batalha, admitindo, apenas, de que, no final das contas, houve “perdas humanas tanto entre os cangaceiros como entre as forças volantes, porém com maior prejuízo para estas...” Para que se tenha uma idéia do que representou esta batalha para ambos os lados e para a história das lutas sociais do Nordeste, dois pontos devem ser ressaltados:

O primeiro ponto importante refere-se à participação, nesta batalha, dos aguerridos e temíveis Nazarenos. Os nazarenos, uma força policial dedicada em tempo integral na busca e, se possível, destruição de Lampião e seu bando, já eram lendários nos sertões nordestinos, por suas ações militares. Nesta batalha participaram sob o comando do Tenente Manoel Neto.


O segundo ponto a ser destacado é que, apesar da longa, dolorosa e sangrenta campanha contra Lampião e da experiência militar adquirida, mais uma vez os chefes militares deram provas de que sua inteligência sempre ficou abaixo dos arroubos da valentia. A raiva, a fúria e a arrogância foram confrontadas com o sangue-frio, a paciência e a inteligência de Lampião. Rodrigues de Carvalho chegou a afirmar, analisando estas e outras batalhas que Lampião tinha praticado “façanhas de deixar muito curso do Estado Maior com água na boca”.

No caso específico de Maranduba, o historiador Rodrigues de Carvalho não hesita em afirmar que, apesar da superioridade em homens e armas, por parte das forças militares, Lampião demonstrou uma superioridade tática sobre seus adversários. Escreve ele: “E a verdade deve ser dita: quem primeiro abandonou o campo de luta foi a força”. E, mais adiante: “O fato é que durante a extensão da tremenda refrega, que foi por toda a tarde, pode dizer-se sem medo de cometer injustiça, o domínio da situação pertenceu ao ardiloso facínora. Estava todo o tempo, como se diz vulgarmente, serrando de cima”.

O fato ficou conhecido como "Fogo de Maranduba" e um registro da época diz que "no local em que aconteceu o fogo de Maranduba, durante vários anos, das árvores e dos matos rasteiros não ficaram folhas. Tudo era preto, como se tivesse passado um grande fogo. As árvores ficaram completamente descascadas de cima abaixo, de balas". 

(Fonte: blog Cariri Cangaço)
CONFIRA:

As batalhas de Lampião: Serra Grande
As Batalhas de Lampião: Serrote Preto

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A outra face do cangaço


Autor: Antonio Vilela de Sousa


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Ivanildo Alves da Silveira
Natal-Rn

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Serra Talhada é destino obrigatório para quem quer conhecer história do cangaço


De todas as cidades do sertão pernambucano, a de história mais interessante - quase com certeza - é a de Serra Talhada. A notabilidade do município deve-se exclusivamente a um movimento - e a uma figura: o cangaço e Lampião. 

O cangaceiro Lampião

Foi naquele pedaço de terra que Virgolino Ferreira da Silva, personagem mais ambíguo da história nordestina, nasceu, viveu e fez história. Para o bem ou para o mal, Lampião foi conhecido. O maior cangaceiro da história foi herói, vilão - ou nenhum dos dois. Certo é que a ele não se fica indiferente.


"Lampião foi herói, mas também foi bandido. É preciso entender ele com essas duas visões. É um dos homens mais importantes da região nordestina", diz Edilson Leite, guia turístico.


É exatamente este o mote do museu do cangaço, de onde Edilson é guia, de Serra Talhada: "Lampião, nem herói, nem vilão". De acordo com ele, são cerca de 20 visitantes diários ali. "Vem muita gente aqui, na última semana, recebemos um casal de italianos e dois russos", afirma Leite, que acredita que deve expandir ainda mais a visibilidade do cangaço nos próximos anos, com a realização da Copa da Mundo e das Olimpíadas no Brasil.


O passeio turístico pela cidade inclui, além do museu, onde estão artigos raros da história do movimento, também uma ida ao sítio onde Virgolino nasceu. Hoje, a casa é - também um museu - mantido pelo grupo Cabras de Lampião. Serra Talhada também é conhecida por ser a capital brasileira do xaxado.

Postado por Ailton Fernandes

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OS MISTÉRIOS DO ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: QUARTA E ÚLTIMA TEORIA, PRIMEIRA PARTE

Por: Honório de Medeiros(*)
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Quarta teoria: o ataque a Mossoró resultou de um plano político (primeira parte)

QUESTÕES SEM RESPOSTA

Essa teoria vem sendo construída lentamente, ao sabor do tempo, pelos estudiosos do assunto, perplexos ante a imensa quantidade de fatos inexplicados alusivos ao ataque a Mossoró, aguardando quem se habilite a relacioná-los e, a eles, dar unidade, ou seja, coerência e completude.

Antes, entretanto, é necessário que sejam elencadas algumas indagações, até hoje não respondidas, acerca do episódio, para construir-se o contexto adequado à entrada na questão, melindrosa e complexa por sua própria natureza, tendo em vista os personagens que dela fazem parte direta ou indiretamente.

São elas:

Primeiro: estamos na última quinzena de abril de 1927. Argemiro Liberato, de Pombal, Paraíba, escreve a seu compadre Coronel Rodolpho Fernandes, e lhe põe a par da pretensão de chefes de bandidos daquela região de atacar Mossoró. Que chefes de bandidos seriam esses?

Como Massilon era chefe de bandidos, haja vista o ataque a Brejo do Cruz, no mesmo estado, e ligado aos detentores do poder na Região que incluía Pombal, teria ele essa pretensão[1]? Haveria relação entre essa pretensão de atacar Mossoró e o interesse de coronéis paraibanos, associados a norte-rio-grandenses, em relação a Apodi, Mossoró e o Rio Grande do Norte? Saberia a oposição ao Coronel Rodolpho Fernandes, que era ligada à oposição ao Coronel Francisco Pinto (líder político e Prefeito do Apodi), esta, por sua vez, ligada aos coronéis paraibanos, da existência dessa pretensão?

Coronel Chico Pinto

Segunda: por qual razão, Massilon não matou o Coronel Chico Pinto quando atacou Apodi, se aparentemente era esse o intuito? Bronzeado[2] não soube explicar.

Bronzeado

O objetivo de Massilon, acertado com seus verdadeiros chefes e desconhecido de seus parceiros, teria sido apenas desmoralizar o Coronel Chico Pinto, preparando-se o caminho para se criar, na imprensa e população, a noção, a consciência da presença corriqueira do cangaço e cangaceiros no Rio Grande do Norte[3], banalizando possíveis homicídios por eles realizados, algo até então inexistente no estado, como preparativo para alguma ação específica a ser realizada durante o ataque a Mossoró?

Terceira: por qual razão o Coronel Rodolpho Fernandes estava em franco dissídio com o Governador José Augusto e seu chefe de polícia Manoel Benício de Melo[4], ao ponto de alertá-lo acerca de sua crescente impopularidade, tendo, inclusive, lhe ameaçado por duas vezes com um rompimento político, e quais as consequências desse litígio na política mossoroense e oestana?

 Governador José Augusto Bezerra de Medeiros

Por qual razão foi sustado, na última hora, o embarque de policiais natalenses escalados para defenderem Mossoró[5]?

Quarta: quem era a oposição ao Coronel Rodolpho Fernandes que, na última quinzena de abril de 1927, em reunião por ele convocada, enquanto Prefeito, para expor o problema da futura invasão da cidade, desfruta do seu receio[6], ridiculariza suas advertências à população, critica suas providências tomadas, chama-o de velho medroso, semeia boatos e intrigas políticas na cidade, principalmente ameaças de que o Governo do Estado cogitava desarmar os civis que lhe eram afeiçoados?

Quinta: de quem teriam sido as “murmurações tendenciosas” que se seguiram ao discurso do médico José Fernandes Gurjão, orador que sucedeu Rodolpho Fernandes no dia 12 de junho, em reunião ao meio-dia, no salão da Prefeitura de Mossoró, mencionadas por Raul Fernandes[7], filho do Prefeito?

Sexta: por qual razão a edição de 15 de maio de 1927, quase um mês antes do ataque, do jornal “O Mossoroense[8]” insinua, sem rodeios, que a invasão a Mossoró, a ocorrer em dias vindouros, integra empreitada de grande vulto?

Sétima: saberia Lampião que sua incursão ao Rio Grande do Norte, Estado onde nunca estivera, a percorrer região plana, descampada, larga e extensa[9], sem elevações importantes desde Luis Gomes até Mossoró, tirante a Serra do Martins, feita com barulho, saques, depredações, tiros, mortes, contrariando toda sua experiência anterior, contaria com a omissão do Governo estadual?

Oitava: por qual razão o valor do “pedido” de Lampião ao Coronel Rodolpho Fernandes, quatrocentos mil réis[10], foi irreal, de tão exorbitante, induzindo a crença de que teria sido mera “cortina de fumaça”?

Nona: por qual razão Lampião não atacou a agência do Banco do Brasil em Mossoró, onde eram feitos os depósitos em dinheiro grosso de toda a região, e que no dia da invasão contava com mais de novecentos contos de réis em depósitos?

Décima: por qual razão Lampião não atacou o rico comércio da cidade, localizado em área razoavelmente distante da residência do Coronel Rodolpho Fernandes[11], conhecido por Massilon desde seus tempos de almocreve?

Décima-Primeira: por qual razão a residência do Coronel Rodolpho Fernandes foi o ponto preferencialmente visado pelos cangaceiros[12]?

Residência do Coronel Rodolpho Fernandes, durante a invasão, vendo-se, ao fundo, a Igreja de São Vicente

Décima-Segunda: por qual razão Massilon ficou responsável por atacar a residência do Coronel Rodolpho Fernandes pelos fundos (garagem), onde supostamente estava o ponto mais frágil da defesa do palacete, enquanto o grupo de Jararaca distraía, pela frente, os defensores, e Lampião, no cemitério, com o grosso do bando, apenas dava cobertura, ao invés de atacar o centro da cidade, onde se localizava o comércio? 

--- X ---

PARA ENTENDER O QUÊ SE EXPÕE AQUI, É CONVENIENTE LER OS TEXTOS ANTERIORES POSTADOS EM
www.honoriodemedeiros.blogspot.com PROCURECangaço, DENTRE OS Marcadores, E LEIA TUDO QUANTO FOI ESCRITO ACERCA DO TEMA.

[1] O episódio do ataque de Massilon a Brejo do Cruz, na Paraíba, foi explicado em textos anteriores desta série.

[2] “LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; NONATO, Raimundo; sexta edição; Coleção Mossoroense; 2005; Mossoró. No famoso relatório da agência do Banco do Brasil em Mossoró referente ao primeiro semestre de 1927, da lavra de Jaime Guedes, então seu gerente, encontramos um trecho que traduz sua perplexidade com esse fato: “O assalto visava a morte e aplicação de surras em determinadas pessoas que o chefe do grupo, não se sabe por que, não levou a efeito” (“LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; NONATO, Raimundo sexta edição; Coleção Mossoroense; 2005; Mossoró).

[3] Em tática de guerrilha esse tipo de ação se denomina “manobra diversionista”.

[4] Mirabeau Melo, chefe do telégrafo em Mossoró e irmão de Manoel Benício de Melo, atuava como informante local e porta-voz do governo, e era um medíocre intrigante, nos diz Paulo Fernandes, filho do Coronel Rodolpho Fernandes, em carta a Nertan Macedo, neste livro parcialmente reproduzida. Acerca de Manoel Benício de Melo nos informa o escritor Marcos Pinto: “Amigo HONÓRIO. Bom dia. Garimpando novidades no vetusto jornal "O MOSSOROENSE", edição de 18.03.1914, encontrei os laços da grande amizade entre FELIPE GUERRA (Felipe Guerra era casado com uma irmã de Tylon Gurgel) e BENÍCIO FILHO, sendo certo que o FELIPE foi padrinho de casamento do Benício que ocorreu em 14 de Março de 1914, em Mossoró. Escoimando-se os fatos ocorridos antes e depois do ataque de Lampião à Mossoró, o fato de que o Benício era o Diretor Geral da Segurança Pública do RN (cargo que corresponde ao atual de Secretário de Segurança), depreende-se que o mesmo deveria ter tido todo o empenho para o envio de força policial  para  guarnecer Mossoró. Não o fez, de sorte que o nosso bravo Rodolfo Fernandes defendeu a cidade convocando amigos e civis voluntários. Ora, se o FELIPE GUERRA era compadre e amigo íntimo do Jerônimo Rosado, e exercia influência sobre o Benício Melo Filho, deve-se atribuir, dentre outros fatores, que o Felipe Guerra, já Desembargador desde 1919 e residente em Natal tenha traficado influência para que o Benício Filho adotasse posição pusilânime e que deixou muito à  desejar, em  relação  à  defesa   de  Mossoró. Qualquer novidade enviarei pra Vosmincê. Abraço. Marcos Pinto.”

[5][5] Gil Soares nos conta esse episódio (“O PASSADO VISTO POR GIL SOARES”; MUINIZ, Caio Cézar; Coleção Mossoroense; Série “C”; V. 1.477; 2005; Mossoró): “Mas Cascardo preferiu manter à frente da Municipalidade o jovem médico Paulo Fernandes, já estudioso de problemas econômicos da região. Nomeado na segunda fase política da Interventoria Aluísio Moura, começara destinando à Associação de Damas de Caridade os subsídios do cargo. Quatro anos antes, seu pai, esse admirável Prefeito Rodolfo Fernandes – depois de sustado inexplicavelmente, à última hora, na estação ferroviária de Natal, o embarque de contingente da Política para enfrentar o numeroso bando de cangaceiros chefiado por Lampião (grifei) – organizara e dirigia, com recursos locais e a decisiva cooperação de numerosos habitantes, a defesa de sua cidade, sendo rechaçada, dentro das ruas, a horda invasora.” Raimundo Nonato: “No dia 13 de junho, Mossoró contava só com 22 soldados” (“LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; Sexta edição; Coleção Mossoroense; 2005; Mossoró).

[6] Raul Fernandes em “A MARCHA DE LAMPIÃO”; Paulo Fernandes em carta a Nertan Macedo.

[7] Raul Fernandes em “A MARCHA DE LAMPIÃO”.

[8] Jornal dirigido por Rafael Fernandes, principal líder político situacionista mossoroense desde o falecimento do Coronel Francisco Pinheiro de Almeida Castro, e primo de Rodolpho Fernandes.

[9] Em quatro dias os cangaceiros cobriram aproximadamente 900 quilômetros entre ida e volta. Raimundo Nonato observa: “Constituída, em menor parte, de vasto descampado e larga área de terreno plano, quase sem outras elevações importantes, depois dos prolongamentos subordinados às ramificações e contrafortes das Serras de Luis Gomes e Martins, a região era precariamente escassa de abrigos e desprotegida aos elementos essenciais de amparo, defesa e esconderijos naturais” (“ LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; Sexta edição; Coleção Mossoroense; 2005; Mossoró).

[10]  Para se ter uma idéia do valor do montante, em 1927, 1 (hum) mil-réis valia US$ 8.457 (oito mil, quatrocentos e cinquenta e sete dólares). Portanto Lampião exigiu US$ 3.382.800 (três milhões, trezentos e oitenta e dois mil dólares) ao Coronel Rodolpho Fernandes. Esse valor, corrigido pela inflação da moeda americana implicaria, hoje, maio de 2012, em U$ 43.130.700 (quarenta e três milhões, cento e trinta mil dólares). O cálculo foi feito de acordo com a TABELA DE CONVERSÃO DE MIL-RÉIS EM DÓLARES constante de “OS CANGACEIROS” (PERICÁS, Luiz Bernardo; Boitempo; 1ª edição; 20120; Rio de Janeiro) e 
http://www.dollartimes.com/calculators/inflation.htm

[11] Rodolpho Fernandes residia no “Bairro Novo”, distante do centro da cidade, quase deserto, nas vizinhanças da Igreja de São Vicente e próximo ao Cemitério.

[12] Jornal “O NORDESTE”, e Jornal “A REPÚBLICA”, este último colhendo depoimento do Professor Eliseu Viana (“LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; NONATO, Raimundo; Sexta edição; Coleção Mossoroense; 2005; Mossoró): “O Sr. Prefeito da Cidade, Cel. Rodolfo Fernandes, a entidade mais visitada pelos bandidos (...)”. O próprio Rodolpho Fernandes assim aludiu ao assunto em correspondência a seu Compadre Almeida Barreto: “Pelos jornais terá lido que a 13 de junho, Lampeão atacou Mossoró, tendo de preferência cercado minha residência pela frente, pelo lado da casa de Alfredo e pelos fundos” (“RODOLPHO FERNANDES”; GASTÃO, Paulo; Coleção Mossoroense; Série “B”; nº 1.637; 1999; Mossoró.

(*) Mestre em Direito; Professor de Filosofia do Direito da Universidade Potiguar (Unp); Assessor Jurídico do Estado do Rio Grande do Norte; Advogado (Direito Público); Ensaísta.