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domingo, 1 de setembro de 2019

VOLTA SECA CONTA COMO FOI PRESO

Se você quiser ler a entrevista completa é só clicar neste link: - http://lampiaoaceso.blogspot.com/2009/12/entrevista-de-volta-seca-jornal-o.html - O abaixo é apenas parte do todo.


(...)

Jaguar - Bom, conta cumé que você foi preso?

- Bom, o seguinte foi esse: a minha prisão foi por causa de um colega meu mesmo. Foi mais por causa de eu me doer por causa dos outros e, no fim, me deram um chute. E quem padece sempre sou eu. Mas agora eu já deixei isso prum lado, que não dá certo. O caso foi esse: nesse combate de Massaranduba, onde morreram três e saiu um baleado – o baleado chamava-se Bananeira. Foi baleado na rótula, mas nós não tinha visto ele. Nós tava brigando, e quando terminou a briga, que nós se arretiramos e chegamos na frente, ele ficou dando com a mão de lá. 

Então, eu olhei e falei: 

- Ô capitão, lá tem um chamando e é um dos nossos. 

Aí ele suspendeu a cabeça e eu vi que era o Bananeira e ele tava baleado. 

E eu disse: 

- Vamos lá. 

Ele disse: 

- Eu já saí e num vou voltar mais lá. 

Eu digo: 

- Mas como é que é que o senhor falou que é um por todos e todos por um? Vamos salvar o rapaz, ele tá vivo, num tá morto ainda. Aí ele disse: 

- Eu num vou mais, se você quiser ir, vai. Eu num vou. 

Eu chamei o Fortaleza e falei que o Bananeira tava baleado e ele perguntou: 

- Já chamou o capitão?

Eu disse: 

- Já. Ele disse que já terminou o combate e que ele não vai lá mais. 

Eu disse:

- Você é forte, cê carrega ele e eu agüento o fogo. Então fomos. Aí, chegamos lá e botamos o fogo. O rapaz botou ele no ombro e tiramos ele pra fora. Quando nós tiramos ele fora e trouxemos, eu disse: 

- Capitão, o rapaz taí e tá baleado na perna. Nós temos que salvar ele, levar ele pra um lugar qualquer aí e dar remédio que o homem vai ficar bom". 

Lampião disse: 

- Bom, então você leva ele. Você que foi lá buscar, então, você leva ele.

Ziraldo - Mas por que o Lampião tomou essa atitude? Você não tem uma ideia?

- Num sei. Ele se aborreceu justamente porque eu disse que ia buscar ele. Aí, eu apanhei o rapaz, levamos e chegando na frente ele disse: 

- Bom, você fica aí que eu vou ver se pego um animal pra montar ele. Porque nós não podemos levar ele na rede.

Aí o Fortaleza disse: 

- Mas cumé que o capitão faz uma coisa dessas? 

Eu disse: 

- Eu acho que ele tá mal satisfeito!

 Aí Lampião disse: 

- Então, você vai, pega o animal e leva ele. 

Aí chamei um outro, nós pegamos um cavalo lá, fizemos uns negócios, montamos ele e saímos. 

Lampião disse: 

- Bota ele na frente que quando os macacos aparecerem, nós tamos aqui. É tempo de você ir e tirar ele pra lá.

Eu disse:

- Tá bem.

Aí ele disse: 

- Como é, bota ele pra frente! 

Eu digo: 

- Mas outra vez? Cê num tá vendo que ele tá machucado e não pode ir assim?

-  Ele disse: 

- Mas você num foi tirar ele de lá? Então cê pode. 

Aí eu vi que ele queria me provocar e digo: 

- Bom, se é isso, não tem problema não. O senhor manda um outro aí ajudar que eu monto ele e passamos pra frente".

Ele disse: 

- Não, monta ele sozinho. Aí, o Bananeira disse assim pra mim: 

- Nada, deixa isso pra lá, ele fica com pilunga contigo. Eu num sei porque. Eu não tive culpa de ser baleado.

Eu digo: 

- Não, mas você num vai ficar sozinho não. Cê vai comigo. Aí, chamei um rapazinho que tinha lá - Pocorante (Pó Corante). Chamei ele e disse: 

- Vamos embora. Aí, pegamos ele e fomos embora. Nós levamos ele pra frente, quando chegamos lá no lugar que ia tratar dele, na fazenda, eu digo:

- Eu vou viajar. Mas o rapaz tem que ser medicado. Num vai ficar assim não
. 

Lampião disse: 

Ah, porque num sei o quê. 

- Eu digo: 

- O senhor tem razão de falar, porque o senhor é o chefe. Mas o senhor não devia fazer isso não. 

Mas esse Pocorante, esse colega meu, tava mesmo procurando um negócio. Aí, Lampião pegou e disse:


- Você vai lá pegar o meu burro. 

Aí, depois, Lampião chegou pra mim: 

-  Ele não encontrou o burro, não. Você vai lá e dá umas voltinhas, vê se encontra o burro. 

Aí, eu saí e o burro tava em pé ali. Eu cheguei e disse: 

- Mas você não encontrou o burro? O burro tava aqui, como é que você não viu o burro?

-  Lampião então falou pra ele: 

- Eu tava bem era de dar um murro na sua cara.

E o Pocorante ficou calado. depois eu fui procurar o Pocoronte e disse: 

- Escuta rapaz, cumé que um home diz que dá um tapa na sua cara e você fica calado? Escuta, pra que é que você tem um fuzil na mão? Pra que que você tem tanta bala? É pra você mesmo? Ah, num pode dizer nada, que é com o capitão? Ah, bom, então, amanhã ele se enche de gozo e diz que bate na minha cara e eu dou-lhe um tiro na cara dele também". 

Aí, Pocorante disse: 

- É, mas é todo mundo colega da gente mesmo. Na hora ele opina contra, não sei o quê...

- Digo: "Não sei o quê, nada. 

Ele saiu, amarrou a camisinha e foi direto a ele. 

- Ó capitão, o senhor disse que ia bater na minha cara. Eu disse pro Volta Seca e ele disse que se o senhor dissesse que ia bater na cara dele, ele dava um tiro na sua cara. Fez uma fofoca direto. 

Aí, eu venho de lá pra cá e Lampião mandou me chamar:

- Você disse que se eu te desse um tapa você me dava um tiro. 

E eu: 

- Dava, não, eu dou. Dava é uma coisa, eu dou. Quer ver? Experimente. 

Aí, ele ficou falando, num sei o quê...

Jaguar - Ele num tava num bom dia, hein, rapaz?

- Sei não.

Millôr - Enquanto isso, onde estava o ferido, o Bananeira?

- O Bananeira tava numa fazenda, sendo medicado.

Ziraldo - Eu acho que Lampião não tava querendo arriscar o bando dele por causa de um que já tava morrendo.

- Eu acho que era isso. Bom, aí ele pegou com aquele negócio comigo, todo dia tendo uma conversinha. E quando foi de noite, mandou me chamar. Eu fui, chegou perto, me fez a mesma pergunta e eu respondi a mesma coisa. Aí, veio a Maria mesmo e disse: 

- Lampião, você deve deixar isso pro lado. Você fica toda hora procurando uma coisa e deve deixar. Ele é seu amigo, você é amigo dele, é superior a ele, é tudo. Mas ele tá certo. Ninguém vai querer tomar tapa na cara, isso num fica certo. Então, você não deve fazer isso. Deve parar com esse negócio. 

Aí, bem, parou. Quando é de noite, ele mandou me chamar e eu mandei dizer que não ia mais lá. Aí, ele ficou falando que no outro dia de manhã ia me almoçar, num sei o quê... Os outros vinham e me diziam: 

- Olha, cuidado, o Lampião disse que vai te almoçar amanhã.

Eu disse: 

- Num faz mal, não. Diz pra ele que eu janto ele agora de noite também.

Aí, quando foi mais ou menos meia-noite, ele botou gente em roda pra eu não sair, que queria falar comigo de manhã.

Eu disse: 

- Num faz mal. Aí, veio o cunhado dele mesmo, o Virgínio:

- Volta Seca, cê sabe que eu gosto de você, o Mariano também. É todo mundo seu amigo, ele pode mandar matar você e nós num pode fazer nada. E vai ser uma coisa. Então, vai embora, vai por teu caminho, vai embora.

Eu digo: 

- Tá certo. Aí, ele mandou pedir as armas e eu disse que não dava. Mandou que eu entregasse fuzil e munição e eu disse que não entregava. Mas não entregava mesmo. Aí, com o auxílio dos outros, eu fui embora.

Ziraldo - A pé ou a cavalo?

- A pé. Eu fui embora. Aí, ele mandou recado pra tudo quanto é fazenda, que no lugar que eu passasse, ia me matar.

Ziraldo - Aí você ficou numa ruim, né?

– Pois é. Aí, fiquei contra. Mas não tem nada, não. O destino é esse, é esse mesmo. Se morrer hoje, morri; se morrer amanhã, morri. É tudo a mesma coisa. Quatro dias depois encontro com o oficial com a volante. Um cara lá, que era meu amigão, moleque sem-vergonha, me cagoetou.

Jaguar - Qual era o nome dele?

- Chamava-se Adão.

Jaguar - Onde você conheceu ele?

- Lá na fazenda.

Ziraldo - Ele já morreu?

- Eu não sei se ele tá vivo ou se tá morto. Só sei que chamava Adão. Então, ajuntou lá um time e me cagoetou com a polícia.

Sérgio Cabral - Isso onde?

- Lá no Estado da Bahia.

Ziraldo - Que cidade?

- Não é cidade não, é mato mesmo, Lagoa da Onça. Aí, eu cheguei lá e um rapaz falou comigo que era pra eu tomar cuidado que a polícia tava por ali. 

Eu disse: 

- Pode deixar comigo que eu sei sair. Quando foi de manhã, eu saí e matei um garrote. Quando eu tava tirando o couro do garrote, eles me cercaram dentro de uma roda...

Millôr - Estava matando o garrote pra comer?

- É. E aí mandaram bala em mim. Tinha um rapazinho comigo ali e ele logo recebeu um na cabeça e caiu logo ali.

Jaguar - Era amigo, seu, esse cara?

- Era, tava comigo.

Sérgio Cabral - Num queriam nem prender, queriam era matar?

- O negócio num era prender, não. Era matar.

Ziraldo - Como é que você escapou dessa?

- Como que eu escapei? Eu saí, arrombei a cerca por baixo, cheguei por detrais dele, dei uns dois tiros e caí fora. Eles ficaram lá, brigando umas duas horas, eles mesmos, sozinhos. Eu fui embora. Cheguei lá, fiquei sentado, chupando melancia. E a minha vontade era de ir lá, só escutando eles gastando bala feito diabo. E eu quieto, quietinho lá no meu canto. depois, eu saí e fui na casa desse cara. Num sabia de nada.

Millôr - Do Adão?

- É, desse Adão. E ele já tinha chamado a turma dele toda lá, tava tudo dentro de casa. Eu num sabia de nada, era amigo, né? Aí, quando cheguei lá, ele disse: 

- Ôpa, que que há, rapaz?

- Eu digo: 

- Nada. Ele diz: 

- O que que foi aquele tiroteio? 

- Eu digo: 

- Eles me encontraram ali e me deram uns tiros: eu dei uns dois também neles e caí fora. 

Ele diz: 

- Ô rapaz, a tua mão num tá de calo, não? Olha, cê vê como que pode. A falsidade dói como o diabo... Ele de novo:

- Escuta, rapaz, sua mão num tá de calo, não? E eu: 

- Que nada, rapaz, isso é bobagem. Ele pegou a minha mão e apertou. Quando ele apertou, eu digo: 

- Ô rapaz, deixa disso. 

- Ele disse: 

- Você tá preso. 

Eu digo: 

- Preso? Olha, rapaz, eu pego você sem Deus me ajudar.

Foi a palavra mais errada que eu disse na minha vida. Ele aí avançou em cima de mim. Quando ele avançou, eu chamei ele e botei no chão. Aí ele gritou: 

- Me acode!

-  Quando eu vi, já tava todo mundo em cima de mim. Uns 15.

Millôr - Você tinha uns 14 anos, né? Um menininho...

- Era garoto, mas era forte. Andei tombando uns dois lá, e aí, pronto. Eles me amarraram igual um porco. Diziam: 
- Eu mato, num mato...

Aí, veio a irmã dele, que queria dar boa vida a ele, e disse: 

- Num façam isso com ele não. Já que vocês prenderam, leva ele e entrega na polícia. 

Eu, amarrado, o que que podia fazer? Eles me pegaram e foram me entregar justamente a esse tenente que estava baleado. Lá no tiroteio ele tomou um tiro e tava com as costas toda esfacelada. Aí, quando chegaram lá e me entregaram, foi o mesmo que entregar um mosquito nas mãos de urubu. Empurra pra lá, empurra pra cá, eu num vi mais nada. Eu olhava pra cara daqueles fedorentos e endoidei, fiquei maluco. Aí, chegou um crioulão com um chapelão: 

- O negócio é matar". 

Aí foi dar um tapa na minha cara. Eu abaixei e dei um pontapé nele...

Millôr - Tava amarrado ainda?

- Amarrado. Aí, veio o tenente lá, todo emplastado: 

- Num toca nesse homem não! 

É um tenente alagoano – eu esqueci o nome do homem. E foi logo dizendo: 

- A hora de vocês matarem ele era lá, na hora que vocês estavam brigando. Eu recebi esse tiro e vocês saíram correndo. Então, era nessa hora que vocês deviam ter matado ele. Aqui ele tá garantido por um homem e pela lei e ninguém precisa pôr um dedo nele.

Ziraldo - Cê acertou o coice no sargento?

- Acertei e foi um coice desgraçado. Ele caiu lá com a mão, rolando pelo chão. 
Eu digo: E se dane. 

O tenente é Joaquim, Zé Joaquim. Ele disse: 

- O homem tá garantido e eu não entrego a ninguém a não ser o (sic) chefe da polícia. Num sendo ele, num sai da minha mão. E qualquer coisa que triscar nesse homem aí, já pode saber que vai expulso e preso.

- Ziraldo - Ele sabia que você era o Volta Seca?

- Sabia.

Millôr - Isso foi em Alagoas?

- Foi na Bahia mesmo, Santo Antonio da Glória. Aí, eu fiquei lá, num comia nada.

Ziraldo - Na prisão eles não davam comida?

- Não, vinha de tudo, farinha pura...

Jaguar - Você ficou preso em Santo Antonio da Glória?

- Foi. Não tinha fome nem sentia nada, revoltado.

Ziraldo - Os jornais anunciaram essa prisão lá na cidade?

- Só depois. Aí, eu digo, tá certo. Viro daqui, viro dali, o tenente diz:

- Aqui ninguém toca em você, nem nada. 

- E  passou logo um telegrama pra polícia, pro chefe da polícia, que era o capitão João Facó. Aí, ele mandou reforço: 

- Diga que garanto o homem, num toca num dedo dele, nem nada, me traz o homem. E disse: 

- Entrega pro coronel Costinha que ele recambia ele daqui pro Rio, pra Bahia. 

O coronel Costinha mesmo foi me buscar, mas o tenente disse: 

- Não, eu mesmo levo e entrego lá. Num tenho confiança de deixar vocês levarem ele".

Millôr - Bacana o homem, hein?

- É, tá certo, bacana. Nós saímos e quando nós chegamos lá no trem, ia pra mais de 300. Um carro do trem, uma traça daquela, não cabia ninguém, a não ser eu e a polícia só. Um carro só, e veio cheio que não tinha lugar pra sentar.


Millôr - Cheio de polícia pra levar você, né?

- É. Pra me levar. Eu tava amarrado, porque Lampião mandou recado que se não me segurasse, eles iam me pegar no lugar que eu tivesse. No trem, no caminhão, no diabo que fosse. E botou diversas emboscadas, mas eles souberam fazer o troço. Chegando lá, me entregaram, e de lá me tocaram pra Bahia.


Millôr - Eles te entregaram perto de Canudos?

- Não, muito pra baixo.


Ziraldo - Se o Lampião pegasse você, cê tava perdido dos dois lados, né?

- Tava não, ele já queria me salvar. O negócio era esse.


Millôr - A essa altura ele já queria te salvar, né? Então, você chegou na Bahia...

- Me tocaram pra Salvador.


Millôr - Você nunca tinha ido à capital?

- Não.


Jaguar - Quanto tempo você esperou pra ser julgado? Uns dois anos?
- Uns dois anos.

Ziraldo - Quando você foi julgado, aqueles dois primeiros crimes estavam no julgamento?

- Não, aqueles já tinham sido prescritos.


Ziraldo - Eles não ficaram sabendo daquilo, né? Aquilo era lá dos cafundós...

...Jaguar - Só foi julgado pelos casos do cangaço, né?

- Só, e eles mesmo num davam nada não.


Aparício - Quem te defendeu?

- Quem me defendeu foi Deus e eu mesmo. Não tinha ninguém por mim.


Ziraldo - Cê num teve advogado?...

Millôr - Cê num teve julgamento com promotor de acusação?

- Na hora teve uma moça, uma advogada, chegou e disse: 

- Eu vou defendê-lo e vou botá-lo na rua. 

O juiz num aceitou.

Ziraldo - Quem era esse juiz e essa advogada?

- Ela eu num me lembro do nome, não. Era uma moça de Vila Nova da Rainha. O juiz eu num quero nem tocar no nome dele, deixa esse negócio de juiz pra lá.


Millôr - Agora, Volta Seca, é verdade que você tem um jornal guardado pra fazer o Jorge Amado engolir?

- Isso eu falei, mas agora já acabou.


Millôr - Acabou o jornal ou acabou a pinimba?

- Acabou a pinimba.


Jaguar - Por quê?

- Ele escreveu num livro dele que me conheceu muito, em Água de Menino, na Bahia. E se ele me conheceu, foi quando fui preso, porque, na Bahia, eu nunca tinha ido na capital. E ele então escreveu que tinha visto eu em Água de Menino, sendo capitão de areia.


Sérgio Cabral - Ele falou mal de você?

- Me chamou de capitão de areia. 

- Então, eu disse mesmo: Eu tenho o jornal guardado pra um dia dar pra ele comer. Mas eu já deixei pra lá. Deixei até de ganhar dinheiro um dia desses, só porque me disseram que ele ia também. Era no Hotel Serrador, ia ter uma peça e ele ia também. Então, quando me falaram que ele ia, eu disse: "Pode me tirar fora, vou não.

Ziraldo - Num gosta de mentiroso...

- Eu não. Quando falar, fala verdade. Tá certo falar aquilo que aconteceu, mas mentir!...


Jaguar - Você cumpriu a pena onde?

- Na Bahia.


Jaguar - Fugiu quantas vezes?

- Só duas.


Jaguar - Voltou ou te pegaram?

- Pegaram, voltou o quê? Se eu fugia, cumé que eu ia voltar?


Ziraldo - Podia. Tá ruim cá fora, né?

- Tava não, eu fazia grana.


(...)


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VOLTA SECA


Em 1973 o Pasquim entrevistou o cangaceiro Volta Seca e disse que os cangaceiros mais perversos que tinha no grupo de cangaceiros eram Gato e Zé Baiano.
Millôr 

Veja:

O repórter perguntou-lhe:

- O Corisco era perverso?

- Nunca era tanto, não. O mais perverso que tinha lá era o Gato e o Zé Baiano. Eles eram perversos. Sempre andavam vigiados pela gente pra não fazer perversidade. Sempre tinha um ali, que era promovido pra tomar conta. Por exemplo, tava com dez homens. Aqueles dez homens, eu tava com responsabilidade, porque se eles fizessem alguma coisa mal feita, o chefe vinha era em cima de mim.


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'ELE TINHA NO ROSTO UM PAVOR ENORME'

Do acervo do pesquisador Kiko Monteiro
Acervo Lampião Aceso

Disse SOLDADO que MATOU o cangaceiro LAMPIÃO 


"Livre o Nordeste do maior de seus bandoleiros", publicou O GLOBO em sua primeira página do dia 29 de julho de 1938, há 81 anos, quando o jornal noticiou a morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O fim do famoso cangaceiro ainda seria motivo de manchetes nos dias seguintes, à medida que chegavam à redação mais informações sobre a emboscada na qual o criminoso foi morto pelos policiais comandados pelo Tenente João Bezerra. No dia 1 de agosto daquele ano, O GLOBO publicou um depoimento do soldado que alvejou Lampião, na madrugada do dia 28 de julho, na fazenda Angicos, no sertão sergipano.


 Lampião segurando um exemplar do jornal O Globo

Segundo o relato do policial Antonio Honorato da Silva, o cangaceiro estava acabando de acordar quando foi morto por ele. Lampião tinha ao lado a sua mulher, Maria Bonita, que também não foi poupada, mesmo após se render. O casal e mais nove integrantes do bando foram mortos naquela tocaia.

- Vi Lampeão erguer-se, tinha no rosto um pavor enorme. Levei o fuzil ao rosto e mirei bem. A mulher estendeu os braços, pedindo clemência. Nesse instante, fiz fogo. Ele baqueou e eu acompanhei a queda com outros dois tiros. Estou satisfeitíssimo e sou o homem mais feliz do mundo - descreveu Antonio Honorato da Silva, em depoimento enviado por telégrafo. 
Honorato apresenta para Melchiades da Rocha o fuzi que derrubou Lampião Acervo Lampião Aceso


Naquele mesmo dia 1 de agosto, o jornal divulgava mais informações sobre o chamado Rei do Cangaço, que, durante cerca de 18 anos praticou todo tipo de roubo e assassinatos em sete estados do Nordeste, sempre acompanhado de seu bando. De acordo com relatos de pessoas próximas a ele, Lampião vinha manifestando a vontade de sair da vida de crimes, depois de comprar propriedades agrícolas em Sergipe. Mas, àquela altura, o pernambucano já estava sendo procurado, vivo ou morto, pelas autoridades de diferentes estados.

"Chegam agora novos detalhes da maneira por que os cangaceiros foram surpreendidos", relatou O GLOBO. Segundo a reportagem, enviada de Maceió, Alagoas, os policiais foram informados de que os bandidos estavam acampados na fazenda Angicos, onde hoje fica o município de Poço Redondo, em Sergipe. Eles cercaram o acampamento do bando no meio da noite, "colocando metralhadoras em todos os flancos, enquanto dois soldados atirariam isoladamente em Lampião e Maria Bonita".

Por volta das 5h da manhã, pouco antes de amanhecer, os soldados avançaram pelo mato sobre as barracas. Quando viu os "volantes", o líder do grupo se levantou e, surpreso, foi alvejado na boca, na nuca e na cintura. "Maria Bonita fez um gesto de suplica, tentando impedir a morte do amante, e caiu sob rajadas de balas", descreveu o jornal. Mesmo depois de ver o líder morto, seus comparsas revidaram fogo, mas os soldados levaram a melhor. Alguns integrantes do bando fugiram, mas pelo menos nove foram mortos naquele confronto. 
Maria e Lampião


Em seguida, os soldados decapitaram os corpos de Lampião, Maria Bonita e outros bandidos. Os corpos mutilados foram deixados a céu aberto, mas as cabeças foram salgadas e carregadas em latas de querosene, sendo expostas em várias cidades desde o local da emboscada até Maceió. A começar pelo município de Piranhas, onde os policiais deixaram as cabeças à mostra na escada de acesso à prefeitura.

Pesquei no O Globo



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sábado, 31 de agosto de 2019

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO LANÇA LIVRO COM DADOS INÉDITOS SOBRE LAMPIÃO


Por Mariana Mesquita em 29/01/19

Considerado o maior especialista em Cangaço do mundo, pesquisador diz que o atirador que matou Virgulino Ferreira não é o noticiado pela imprensa da época

Existem centenas de livros escritos sobre Virgulino Ferreira, o Lampião - que morreu no dia 28 de julho de 1938, após passar 21 anos percorrendo o interior do Nordeste, e desde então se transformou em um dos símbolos mais emblemáticos da História do Brasil. "Apagando o Lampião: vida e morte do Rei do Cangaço" poderia ser mais um nessa longa lista - mas consegue a proeza de trazer fatos novos sobre o tema, inclusive apontando quem (e como) foi o responsável pela execução do cangaceiro.


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Escrito por Frederico Pernambucano de Mello, que se dedica a pesquisar o Cangaço desde os anos 1960 e é considerado a maior autoridade no assunto, "Apagando o Lampião" traz outras informações inéditas que por si só justificariam a escritura da obra, que paralelamente registra toda a trajetória deste verdadeiro gênio militar (para alguns, herói; para outros, bandido sanguinário).Embora tenha sido publicado no ano passado, o livro deve ser lançado oficialmente em março, na cidade de Maceió (AL).

"Há muitas biografias sobre Lampião, e tenho a pretensão de conhecer a maioria, mas verifiquei que havia alguns aspectos virgens de um relato confiável. Por isso, resolvi escrever", explica o autor. Estes quatro pontos-chave que representam novidades são muito importantes para entender a história como de fato se passou. 

Após duas décadas de tentativa, Frederico Pernambucano de Mello ouviu o relato do verdadeiro executor de Lampião - Crédito: Acervo Frederico Pernambucano de Mello.

A "autoria" da morte de Lampião havia sido noticiada pela imprensa em 1938, apontando como responsável Antonio Honorato da Silva, que era guarda-costas do aspirante Francisco Ferreira de Mello, um dos encarregados pelo cerco à grota de Angico, onde os cangaceiros estavam escondidos. Mas Frederico descobriu que o verdadeiro autor do disparo fatal contra Lampião havia sido Sebastião Vieira Sandes, o "Santo", que também era guarda-costas de Francisco e antes de ingressar na volante, tinha convivido com o cangaceiro por muitos anos, sendo seu "coiteiro" e, inclusive, tendo chegado a costurar peças para o bando junto com o próprio Lampião.

A entrevista que Sandes concedeu a Frederico, durante mais de dez dias, foi longamente aguardada. O historiador sonhou com esse momento por mais de duas décadas, tentando convencer o entrevistado através de conhecido em comum e chegando a visitar Sandes em Maceió e em São Paulo.

Um dia, após ter recebido um diagnóstico de aneurisma inoperável, ele procurou Frederico e contou que Lampião não morreu em combate, e foi executado de cima para baixo, com um único tiro, enquanto tomava uma caneca de café. A bala bateu na lâmina do punhal que estava no cinto do cangaceiro e causou um prolapso de vísceras, expondo todas as suas tripas. "Esse punhal está guardado no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, e o relato bate com o laudo pericial realizado por um especialista da Polícia Federal, Eduardo Makoto Sato", frisa Frederico Pernambucano de Mello.

Outro ponto interessante e que amplia o olhar humano sobre a trajetória de Lampião é a divergência com José Alves de Barros, o Zé Saturnino, que entrou em confronto com o jovem Virgulino e precipitou sua entrada no cangaço. Em uma entrevista realizada em 1970 e mantida inédita até o momento, Frederico Pernambucano de Mello ouviu relato de que ambos eram amigos de infância. A briga só começou quando Saturnino se casou com uma moça da família Nogueira, inimiga dos parentes de Lampião. "Virgulino não perdoou isso", aponta o autor, que guardou estas informações por mais de quatro décadas. "Sou o tipo de pesquisador que trabalha com informações a longo prazo", afirma.

Livro 'Apagando o Lampião' será lançado oficialmente em março, em Maceió (AL) - Crédito: Divulgação.

O livro registra ainda detalhes sobre as relações de Lampião com as autoridades da época: sua ida para a Bahia foi acordada com o Chefe de Polícia de Pernambuco, Eurico de Souza Leão. "Este fato foi mantido em sigilo por vários anos, até que me foi contado pelo oficial executor das ações, Audálio Tenório de Albuquerque", aponta. Evidentemente, não pegaria bem para o governo pernambucano admitir que "exportou" o cangaceiro para o estado vizinho. 

Outro detalhamento inédito diz respeito ao acordo feito entre Lampião e Farnese Dias Maciel, irmão de Olegário Maciel (governador mineiro entre 1930 e 1933, quando morreu no poder) e filho do segundo Barão de Araguari, figura importantíssima de Minas Gerais.

Segundo o autor, Farnese tinha uma rixa com a família Borges, e queria contar com o bando Lampião para agir em seu favor. No momento em que foi executado, o cangaceiro estava recrutando mais de cem homens, que iriam se somar aos quase 150 de seu bando (formado por um grupo principal com 22 membros e mais dez subgrupos com oito a doze homens, que atuavam nos mais diferentes pontos do Sertão nordestino).

"Os planos de ir para Minas eram conhecidos, mas nenhum biógrafo até o momento havia tido o cuidado de investigar quem estava convidando Lampião", aponta. Ainda de acordo com Frederico, o Cangaço havia exaurido o interior do Nordeste, e Lampião estava em busca de outras localidades com maior capacidade contributiva para proceder aos saques.

Serviço:

Livro ""Apagando o Lampião: vida e morte do Rei do Cangaço", de Frederico Pernambucano de Mello
336 páginas, R$ 55, Editora Global.


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O LENDÁRIO PADRE IBIAPINA E A PEDRA DO REINO

Por Valdir Nogueira

“O vento que bater na Pedra do Reino há de espalhar tristeza e dor duas léguas em redor”, disse o padre José Antônio de Maria Ibiapina tempos depois da tragédia sebastianista do Reino Encantado. Com suas palavras, o missionário apenas quis impor medo nas pessoas para que novamente outro possível movimento de fanatismo fosse evitado. Porém, a sentença do piedoso vigário teria contribuído para aumentar a fama de região amaldiçoada que por muito tempo perseguiu o local. Todavia, a maldição de ontem transformou-se na tradição de hoje. Não há mistérios. Pelo contrário, a Pedra do Reino agora é um símbolo forte da história do município de São José do Belmonte, no sertão de Pernambuco.
  


Homem culto, o padre José Antônio de Maria Ibiapina, nascido José Antônio Pereira em Sobral no dia 5 de agosto de 1806, realizou um importante trabalho, que, apesar de não ter cunho partidário, mostra as potencialidades de uma política carismática. O pai de Ibiapina fora fuzilado pela sua participação na República do Equador, e seu irmão mais velho morrera na ilha de Fernando de Noronha, onde cumpria prisão por também ter militado no movimento de 1824. Parece que sua mãe já havia falecido, pois o futuro padre passou a cuidar das três irmãs e do irmão mais novo. Em 1827, ingressou na primeira turma do curso de Direito de Olinda e, em 1832, bacharelou-se. 

Foi professor da faculdade durante alguns meses, mas já no ano seguinte era nomeado juiz de direito da comarca de Quixeramobim, no Ceará, onde residia o garoto Antônio Vicente Mendes Maciel, futuro Antônio Conselheiro. Já em 1834, foi eleito deputado geral, porém, quando sua noiva, filha de ilustre família, fugiu com um primo, abandonou as carreiras de deputado e de juiz, passando a dedicar-se às atividades de advogado, com banca em Recife, mas tendo também trabalhado algum tempo em Brejo de Areia, na Paraíba. Frequentador assíduo da igreja, em 1853, contando 47 anos, foi convidado a se ordenar sacerdote, sendo dispensado de cursar seminário, devido à sua formação, que incluía o direito canônico. Em seguida, o bispo de Olinda o nomeou vigário geral e provisor da diocese. Ele, porém, optou por trabalhar em missões pelo interior dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí.



Poucos foram os missionários que realizaram tantas obras quanto o padre Ibiapina. Segundo um de seus biógrafos, em Santana do Acaraú, por exemplo, em 1862 ou 1863, concitou a população a construir, em apenas 73 dias, uma grande casa de caridade, que contava com 15 portas de frente, além de um cemitério junto à matriz e um canal de navegação, entre os locais denominados Armazéns e Espera do Negro, que reduzia a distância fluvial em uma légua. Em Picos, no Piauí, em apenas 11 dias, promoveu a construção de “uma igreja com adro e cruzeiro”. No entanto, além de estradas e açudes, padre Ibiapina promoveu a construção de nada menos que 22 casas de caridade, destinadas a atender órfãos e inválidos, nas quais trabalhavam as irmãs de caridade de uma espécie de ordem que ele instituíra. 

Existe mesmo um processo em prol da canonização do padre Ibiapina. Em 1876, ele sofreu um acidente vascular, que o forçou a encerrar o trabalho missionário e levou ao seu falecimento, aos 77 anos, na tarde de 19 de fevereiro de 1883, na Casa de Caridade Santa Sé, na Paraíba. Seu exemplo, contudo, celebrado nos sertões, influenciou a atuação dos também cearenses padre Cícero e Antônio Conselheiro.

Valdir Nogueira,Pesquisador e Escritor
Conselheiro Cariri Cangaço
São José de Belmonte-PE


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ZEQUIAS CONTA TUDO

*Rangel Alves da Costa

Zequias Geremias dos Santos, ou somente Zequias, conforme gosta de ser chamado. E não há quem não conheça esse nome no seu sertão e arredores onde ainda vive. Já perto dos cem anos, mas ainda de viva memória e lucidez, um verdadeiro testemunho dos distantes e idos.
Segundo confessou-me, sua vida já foi de serventia de quase tudo. Já foi vaqueiro, mateiro, caçador, coiteiro e muito mais. E quase até jagunço. Hoje vive numa casinha simples de cipó e barro, além de uma estrada de chão, nos escondidos além de uma porteira. Mas não vive esquecido não, eis que diz sempre rodeado com os vultos de seu passado.
Ultrapassei a porteira sem medo de não ser recebido. Ele já me aguardava. Caminhei até sua portada e chamei pelo nome. Então Zequias apareceu já apontando um tamborete. Disse-lhe em seguida que achava melhor a gente sentar mais adiante, debaixo de um sombreado de umbuzeiro. E para lá seguimos.
Caminhando devagar, no passo lento dos anos, levava à mão fumo, palha de milha e um canivete miúdo. Eu já sabia a serventia. Depois que coloquei seu tamborete, após a assentada a primeira coisa que fez foi preparar seu cigarro de palha.
Ajeitou o fumo na palha, juntou tudo com o canivete, passou a ponta da língua na beirada da palha e depois fechou o cigarro. Puxou uma caixa de fósforos do bolso e acendeu. A fumaça subiu. No instante seguinte já estava me perguntando sobre o que eu queria saber. Respondi que sobre tudo, e tudo que sua memória pudesse revelar. Então ele começou:
“Muito eu tenho visto de coisa do outro mundo. Tenho medo não, não senhor. Já faz tempo, mas certa feita eu vi quando, vindo daquelas bandas do meio do mato, uma pessoa sem cabeça. Sim, um cabra sem cabeça e como se tivesse saído de uma cova. Veio na minha direção e perguntou se eu sabia onde tava sua cabeça. Sei, eu sei onde tá sua cabeça, foi o que respondi. E disse: tá lá dentro do mesmo lugar de onde você veio. Pode ir lá procurar que você acha. Então o cabra voltou e nunca mais apareceu. Poucos acreditam quando conto essa história, mas foi tudo verdade. Também verdade que depois disso nunca mais desapartei de um rosário com crucifixo no pescoço...


Num fui coiteiro porque quis não. Naquele tempo do cangaço, não tinha escolha não, ou acoitava cangaceiro ou era pior. Mas uma coisa é certa: o cangaceiro tratava o sertanejo com muito mais respeito que o soldado da volante. Esse era um filho da gota serena de ruim. Já chegava querendo apunhalar o cabra se não dissesse que sabia onde o bando tava acoitado. Eu tinha tanta raiva de volante que não me neguei em ajudar cangaceiro, mas nunca procurei Lampião pra oferecer meu serviço. Quando o bando aparecia aqui e me pedia pra arranjar isso ou aquilo, pra ir comprar uma coisa ou outra, e ir levar em tal lugar, então eu fazia o serviço. E muita vez recebi até dinheiro pelo que eu fazia...
No meu tempo de vaqueiro aconteceu uma história pra lá de espantosa. Todo mundo dizia que havia um boi chamado Assombração que ninguém conseguia pegar, pois mesmo avistado e já pertinho, de repente o bicho se encantava e sumia. Pois bem. Certo dia eu disse que ia pegar o tal de Assombração. Ajeitei meu cavalo bom e segui pela mataria. O bicho vivia numa mataria fechada que só. Mas eu tive uma ideia e não contei a ninguém. Quando fui atrás do bicho encantador, eu levei também uma novilha nova, bonita. Cheguei perto da mataria fechada, numa distância boa, e amarrei a novilha num pé de pau. Eu sabia que o Assombração vinha atrás da novilha. Fiquei escondido num tufo de mato e me pus a esperar. Somente no outro dia o Assombração apareceu. Apareceu e começou a cercar a novilha, como se quisesse uma coisinha. Então eu subi no cavalo e fui até lá, mas não pra pegar o bicho encantador. Minha intenção era outra. Desamarrei a novilha e voltei com ela, bem devagar. Eu olhava pra trás e avistava o Assombração lá em pé. Quando olhei de novo não vi mais nada. E agora o que planejei. Botei a novilha num curral e deixei a porteira aberta. No outro dia o Assombração riscou por lá. E foi só eu fechar a cancela do curral e pronto. O bicho tava preso e se encantamento nenhum...”.
E Zequias contou muito mais. Mas depois eu conto.

Escritor
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LAMPIÃO EM GUARACY



Recebi essa foto do nosso amigo Cláudio César da cidade de Iguaracy. Essa foto teria sido tirada no sítio lagoa velha que pertencia a seu avô José Ricardo Magalhães. O sítio está situado no referido município. Ele só não soube precisar a data da foto.


Faltou o autor colocar em qual Estado do Nordeste do Brasil fica a cidade de Guaracy. 

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OPTATO GUEIROS E O COMPORTAMENTO DA FORÇA VOLANTE


Do acervo do José João Souza

O ex-comandate de tropas volantes em Pernambuco, Optato Gueiros , nos deixa o seguinte relatos: Comandei verdadeiras feras. Tínhamos o direito, às vezes, de alistar civis sertanejos, que depois , apesar de serem efetivados como soldados, nada conheciam de disciplina, nem qualquer outra instrução a não ser o manejo do fuzil, para atirar. Uma tropa, composta dessa gente, naqueles tempos, só não era o mesmo cangaceiro porque não se consentia que matassem e furtassem, mas o desejo de fazer tudo isso alguns deles tinham. A minha disciplina revelava-se na ordem direta da mentalidade de muitos deles. Quando brigavam, um com o outro, e apontavam as armas para se matarem, eu punha a bala na agulha e dizia:

- O que ficar vivo, é "meu". E assim decidi muitos barulhos.
Do livro: "LAMPEÃO"
De: Optato Gueiros


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RAIMUNDO SANTA HELENA MORRE AOS 92 ANOS



Morreu neste sábado (03) * (nota de correção no final da postagem) no Rio de Janeiro, o poeta popular Raimundo Luiz do Nascimento, mais conhecido como “Raimundo Santa Helena ou apenas Santa Helena”. Ele, nasceu em 06 de abril de 1926, “em um trole rodando à vara”. Auto-intitula-se “Paraibense”, pois sempre diz que “sua cabeça nasceu na Paraíba e o restante do corpo nasceu no Ceará”.

Sertanejo

O cordelista Raimundo Santa Helena era filho do Delegado Raimundo Luiz, que segundo a História foi assassinado por Lampião. 


E o poeta atuou por muitos anos na Feira de São Cristóvão no Rio de Janeiro. Inclusive temos muitos cordéis dele em nossa biblioteca que tem o nome de seu pai. O poeta veio a Santa Helena na década de 90 paraninfar uma turma de 3° ano pedagógico da Escola Municipal Padre José de Anchieta, a convite da turma, orientados pela professora Rosangela Tavares Dantas de Souza.

A maior parte de seus folhetos traz trechos autobiográficos, reforçando a construção de uma imagem de si constituída através de uma trajetória de vida bastante peculiar, que tem como ponto de partida a morte de seu pai pelo cangaceiro Lampião, durante uma invasão do bando no sertão de Cajazeiras, na Paraíba, em 9 de junho de 1927.

Em função deste fatídico dia, Santa Helena, aos 11 anos, fugiu de casa com um canivete na mão para vingar a morte do pai. Foi parar em Fortaleza e, acolhido por uma professora, estudou, trabalhou e acabou entrando para a Escola de Aprendizes de Marinheiros do Ceará. Na Marinha, participou da Segunda Guerra e estudou nos Estados Unidos, o que o ajudou na composição de cordéis bilíngues, como o “Brazilian Amazônia”, publicado na ocasião da ECO-92.

Seu primeiro cordel foi declamado a bordo do navio “Bracuí”, em 1945, após o anúncio do final da segunda grande guerra. Em 1984, lançou o folheto Mãos à obra nas escolas, cuja tiragem de 500 mil exemplares foi distribuída em diversas escolas. Dentre os seus folhetos mais importantes, destacamos ainda os cordéis Malvinas, Guerra de Canudos, Massacre dos Ianomâmis, Cruzado Furado, Desastre aéreo na TV, Nicarágua em dez línguas e o cordel para crianças O menino que viajou num cometa. Dentre os últimos lançamentos publicados, destacamos os cordéis intitulados Rio-2012 – Olimpíada, Transplantes e Passageiros da paz, lançados ao vivo pela TVE e em pleno ar num avião sobre o oceano Atlântico.

O poeta possui uma significativa variedade temática em sua obra poética, que vai desde o cangaço, passando por biografias de pessoas importantes – como as dos ex-presidentes Tancredo Neves e Getúlio Vargas – a temas ligados à educação sexual e à saúde de um modo geral. No entanto, a sua predileção temática e mais recorrente está relacionada à informação divulgada pela mídia, seja impressa, radiofônica ou televisiva.

Para se manter atualizado e garantir a credibilidade das informações que costuma divulgar, o poeta acessa pelo menos três notícias publicadas em meios diferentes; seleciona as que coincidem, a fim de garantir a ‘veracidade dos fatos’; e constrói o poema, imprimindo sempre a sua opinião pessoal acerca do acontecimento midiático selecionado. Para elaborar seus “cordéis midiatizados”, o poeta utiliza colagens a partir de matérias de jornais, fotos e documentos pessoais, ocupando todo o espaço em branco de seus folhetos, garantindo, assim, uma boa dose de originalidade em sua produção.

Referências bibliográficas

▪ SANTA HELENA, Raimundo. Plataforma de um poeta de cordel imortável. Folheto 261, Rio de Janeiro, 25/07/1988.

▪ Seleção feita por Braulio Tavares no livro: SANTA HELENA, Raimundo. Introdução e seleção feita por Braulio Tavares. São Paulo: Hedra, 2003. Biblioteca de cordel.

▪ SANTA HELENA, Raimundo. O menino que viajou num cometa. Rio de Janeiro: Entrelinhas, 2003.

▪ SANTA HELENA, Raimundo. Um marinheiro na esquina do mundo – de grumete a tenente. (Em fase de elaboração).

Fonte: Matéria do Diário do Sertão.

* A família nos informou que o falecimento ocorreu em 29/outubro/2018.


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EM BUSCA DA VERDADE, SEMPRE.


Por Sálvio Siqueira

O JORNAL “JORNAL DO RECIFE” NA EDIÇÃO DE 10 DE ABRIL DE 1926 TROUXE UMA MATÉRIA SOBRE A IDA DE LAMPIÃO E SEU BANDO À CIDADE DE JUAZEIRO DO NORTE – CE, DONDE CITA EXTRAÇÃO DE MATÉRIAS NOTICIADAS PELOS PERIÓDICOS “O CEARÁ” E O “O NORDESTE”, A ‘CONVITE’ DO DEPUTADO FEDERAL FLORO BARTOLOMEU A FIM DE FAZER PARTE DO BATALHÃO PATRIÓTICO, COM SEU QG NAQUELA CIDADE, ENGROSSANDO AS FILEIRAS QUE DAVAM COMBATE AO AVANÇO DA ‘COLUNA PRESTES’ SOBRE A REGIÃO NORDESTE DO PAÍS.

O QUE NOS CHAMOU A ATENÇÃO NA MATÉRIA FOI A CITAÇÃO DE QUE LAMPIÃO CONCEDEU DUAS ENTREVISTAS AOS RESPECTIVOS JORNAIS CITADOS E A DECLARAÇÃO DO CHEFE CANGACEIRO, SEGUNDO A REPORTAGEM, QUANTO AOS MOVIMENTOS TÁTICOS EMPREGADOS PELA FORÇA LEGALISTA ESTAREM SENDO COLOCADOS EM AÇÃO DE FORMA ERRADA.

NA ENTREVISTA, SEGUNDO O PERIÓDICO, LAMPIÃO FALA QUE SE AS AUTORIDADES FEDERAIS ACEITASSEM SEUS SERVIÇOS E SEGUISSEM SEUS PLANOS MUITO SE PODERIA FAZER DE PROVEITOSO CONTRA OS REVOLTOSOS.

O LINGUAJAR REFERENTE AO ‘REI DOS CANGACEIROS’ USADO NA MATÉRIA É EXTREMAMENTE DIFERENTE DAQUELE USADO PELO PERNAMBUCO DE VILA BELA E, ACREDITEM, TEM FORMA EXPRESSIVA DE UM OFICIAL GRADUADO EM ESCOLA MILITAR.

A IMPRENSA, EM BUSCA DE STATUS E AUDIÊNCIA, SEMPRE PASSOU OS PÉS PELAS MÃOS E DIVULGOU NOTÍCIAS DESENCONTRADAS E DE FUNDO SEM UMA VÍRGULA DE VERACIDADE. O PIOR DISSO TUDO É QUE A PESSOA QUE LER, SEM TER NOÇÃO DO QUE REALMENTE SEJA, ACREDITA PIAMENTE E REPASSA AS INFORMAÇÕES AOS CONHECIDOS. LAMENTÁVEL.









Sálvio Siqueira
ABLAC – Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço
F.C.P.E.C. – Frente de Combate a Picaretagem no Estudo do Cangaço



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JACKSON DO PANDEIRO


Dizem que existem duas escolas de canto no Brasil : João Gilberto e Jackson do Pandeiro, que hoje completaria 100 anos redondinhos. Me orgulho em dizer que bebi - em todos os sentidos, rs - muito dessa fonte, que me forneceu um entendimento e uma confiança rítmica oriunda de um alicerce onde consta, entre outras fontes e fundamentos, o canto metalizado e flutuante de José Gomes Filho, vulgo Jackson do Pandeiro. 


Paraibano de Alagoa Grande, influenciou toda a música brasileira e merece ser elevado aos píncaros da glória, em todos os lugares do Brasil. Todas as homenagens a Jackson serão poucas para o tamanho de sua importância na nossa cultura musical popular, um dos maiores tesouros do Brasil que alguns insistem em subestimar". Texto e foto do genial mineiro Moyseis Marques cantor e compositor...


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UM CANGACEIRO EM PAZ


Fonte: Revista Manchete, Rio/1969


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EXPEDITA FERREIRA


Do acervo de Pedro Melo

Quem foi Lampião?

Anos depois da morte do lendário cangaceiro, sua filha (Expedita Ferreira Nunes) quer saber toda a verdade.

Fonte: Revista Manchete, Rio de Janeiro, 1980
Foto: Expedita Ferreira, filha dos cangaceiros Lampião e Maria Bonita, Autora: Isabel Garcia


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ALUNOS DA ESCOLA MUNICIPAL ALBERTO TORRES EM NITERÓI, VISITANDO A EXPOSIÇÃO 100 ANOS DE JACKSON DO PANDEIRO.



Mais uma vez agradecendo a produtora Teca Nicolau pelo seu trabalho incansável em manter vivo o nome e a obra de artistas que enriqueceram a história da MPB. 







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