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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

700.000 visualizações

Gráfico dos países mais populares entre os visualizadores do blog

 O blog do Mendes e Mendes passou das 700.000 visualizações.

Os dez países que mais acessam este blog:

Brasil
603.670
Estados Unidos
38.257
Portugal
20.844
Rússia
6.795
Alemanha
6.645
França
2.650
Cingapura
1.450
Reino Unido
1.158
Dinamarca
729
Espanha
553

Total Geral:

Brasil - 
603.670 visualizações.

Os demais países juntos, com exceção do  Brasil formam um total de: 
96.914 visualizações.

Nós que fazemos este blog só temos a agradecer a sua participação, sinal que os nossos escritores e colaboradores são competentes nos seus excelentes trabalhos sobre o cangaço.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

OS MISTÉRIOS DO ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ, CONTINUAÇÃO, ÚLTIMA PARTE DA SEGUNDA TEORIA ACERCA DA INVASÃO

Por: Honório de Medeiros(*)
[Honório+lindo+026.jpg]

Segunda teoria acerca da invasão: o ataque a Mossoró resultou da paixão de Massilon por Julieta, filha do coronel Rodolpho Fernandes (terceira e última parte)

Pois bem, Massilon teria uma paixão por Julieta, filha do Coronel Rodolpho Fernandes. 

Temos, aqui, um entreato:  
Amarílio Gonçalves[1]: 

Coronel Isaías Arruda

Em virtude da amizade com o ‘coronel’ Isaías Arruda, na verdade um dos grandes coiteiros de Lampião no Ceará, o Rei do Cangaço, como era chamado, esteve, mais de uma vez, no município de Aurora. Em suas incursões pelo município sul-cearense, o bandoleiro se acoitava na fazenda Ipueiras, de José Cardoso, sobrinho de Isaías.

Uma dessas vezes foi nos primeiros dias de Junho de 1927. Na fazenda Ipueiras, onde já se encontrava Massilon Leite, que chefiava pequeno grupo de cangaceiros, Lampião foi incentivado a atacar a cidade norte-rio-grandense de Mossoró – um plano que o bandoleiro poria em prática no dia 13 do citado mês. Em razão do incentivo, Lampião adquiriu do ‘coronel’ um alentado lote de munição de fuzil que, de mão beijada, Isaías havia recebido do Governo Federal (Artur Bernardes), quando este promoveu farta distribuição de armas a ‘coronéis’ ‘para alimentar o combate dos batalhões patrióticos à coluna Prestes’.

Presente àquela negociação, que rendeu ao ‘coronel’ Isaías a considerável quantia de trinta e cinco contos de réis, esteve o cangaceiro Massilon, que teve valiosa influência junto a Lampião, no sentido de atacar Mossoró, cujos preparativos tiveram lugar na fazenda Ipueiras. Consta que 

O cangaceiro Massilon Leite

Massilon Leite – associado a Lampião no sinistro empreendimento – tinha em mente assaltar a agência local do Banco do Brasil e sequestrar uma filha do cel. Rodolfo Fernandes.

Alexandro Gurgel conta que Pedro Dantas Filho, natural de São José do Brejo do Cruz e morto em 2002, aos 88 anos, conheceu Massilon, que comerciava gado na cidade, e este lhe informou que o cangaceiro nutria uma paixão platônica pela filha de Rodolpho Fernandes e via no ataque a Mossoró uma oportunidade de raptar a moça.


Calazans Fernandes[2], no seu livro histórico “O Guerreiro do Yaco”, a vida romanceada do Coronel Childerico Fernandes, nos conta o seguinte: 

O cangaceiro Lampião

Do Alto da Conceição, na entrada de Mossoró, Lampião avaliou o tamanho da cidade que via pela frente. Ao contar as igrejas, sua reação imediata foi segurar Massilon pelo cangote:

“Cidade de quatro torres é demais para cangaceiro atacar. Você ainda me paga”. 

Vinha contabilizando os insucessos da carreira do bandido e ainda ignorava completamente que, devido a ele, Mossoró recebia sinais de alerta através de Esther Fernandes, uma das filhas de Rufino, da Maniçoba, mulher de Ezequiel Fernandes de Souza, sócio de Alfredo Fernandes e Cia., da família de Rodolfo Fernandes.

Coronel Rodolfo Fernandes

Ela fazia a ponte entre o irmão Zé Rufino, de Vitória, e o prefeito de Mossoró.

Ao mesmo tempo em que Zé Rufino, então com 26 anos, conhecera Massilon, havia conhecido o jovem Virgulino, de 20. Tropeiros nos mesmos caminhos, os dois se cruzavam ao abrigo das oiticicas na travessia do rio nas cercanias de Apodi. Num desses encontros, nos tempos perversos de 1918, Zé Rufino assistiu a Virgulino surrar de chicote uma velha que roubava farinha para alimentar a penca de filhos. Desentenderam-se, trocaram advertências, mas o episódio encerrou-se aí. 

Nas mesmas sombras e lazer, desde essa época Massilon e Zé Rufino encontravam-se na lide dos comboios de algodão, de peles de oiticica, dos sertões para Mossoró, de onde, dos armazéns de Alfredo Fernandes & Cia., tiravam o sal para os varejos da Tromba do Elefante, as charqueadas do Cariri no Ceará e do Gurguéia no Piauí, de rotas mais curtas do que as de antigamente para o São Francisco e as Minas Gerais, porém mais freqüentes naqueles anos de expansão da carne de sol.

Das estradas, a parceria dos dois chegou à mesa do café da manhã dos Fernandes, que Massilon associava a milhões e a mulheres perfumadas. Na casa de Esther, na intimidade da família, o cabra de olhar trigueiro deslumbrou-se no luxo do mobiliário e no jeito fortuito das moças orgulhosas nos seus vestidos de seda.

Mesmo nas suas suspeitas, Lampião só desconfiou de que a obstinação de Massilon em atacar Mossoró escondia uma paixão quando já era tarde. Pelo resto da vida, aliás, ele nunca saberia que seu cabra alimentava a intenção única de se valer do chefe e seu bando como escudos, para raptar a irmã[3] do prefeito Rodolfo:

“... que fiquem com todo o dinheiro. Eu só quero a minha Julieta”... 
Como se diz no Sertão: 
“é tudo “foquilore”!


Ou será verdade? Agreguemos aos depoimentos de Amarílio, Alexandro e Calazans o fato, que pode ter outra conotação, como será analisado mais adiante, de Massilon ter assumido para si a responsabilidade de atacar a casa do Coronel Rodolpho Fernandes enquanto Jararaca e seus parceiros distraia os defensores pela frente.

Por qual razão houve o ataque à residência do Intendente e, não, ao comércio? Por qual razão Massilon comandou o ataque? Por qual razão os cangaceiros, comandados por Jararaca, antes de se posicionarem para o ataque à residência do Intendente invadiram a residência de Joaquim Perdigão, seu genro, mas não atacaram seu vizinho?

CONTINUA... 

Leiam, anteriores a este texto, em
www.honoriodemedeiros.blogspot.com:
1) O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: UM MISTÉRIO QUASE CENTENÁRIO;
2) O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: COMO ERA A CIDADE NA ÉPOCA DA INVASÃO;
3) O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: PRIMEIRA TEORIA ACERCA DA INVASÃO(Primeira Parte);
4) O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: PRIMEIRA TEORIA ACERCA DA INVASÃO (Segunda Parte);
5) O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: SEGUNDA TEORIA ACERCA DA INVASÃO; PRIMEIRA PARTE.
6) SEGUNDA TEORIA ACERCA DA INVASÃO: O ATAQUE A MOSSORÓ RESULTOU DA PAIXÃO DE MASSILON POR JULIETA, FILHA DO CORONEL RODOLPHO FERNANDES (SEGUNDA PARTE).
[1] “AURORA HISTÓRIA E FOLCLORE”; TAVARES, Amarílio Gonçalves; 2ª. Edição; Ceará.
[2] “O GUERREIRO DO YACO”; Fundação José Augusto; 2002; Natal, RN.
[3] Aqui o autor equivocou-se: é a filha do Coronel.


(*)Mestre em Direito; Professor de Filosofia do Direito da Universidade Potiguar (Unp); Assessor Jurídico do Estado do Rio Grande do Norte; Advogado (Direito Público); Ensaísta.


honoriodemedeiros.blogspot.com. 



terça-feira, 2 de outubro de 2012

25 de janeiro de 1927, no “O Combate”

Por: Rubens Antonio(*)
[Rubens+2.jpg]

25 de janeiro de 1927, no “O Combate”:
Papeis invertidos
Lampeão não depredou Limoeiro... Mas a força parahybana quasi arrasa tudo!
Uma sensaccional entrevista com o prefeito daquella cidade

FORTALEZA, 25 [Agencia Brasileira – Pelo Submarino] – O prefeito de Limoeiro agora chegado do interior, tem sido alvo das attenções dos reporters e dos photographos avidos de detalhes sobre a invasão dessa cidade pelo bando de Lampeão.
Depois de vaias recusas resolveu o mesmo falar aos jornaes e da forma seguinte:
Reporter: – Poderia descrever a acção de Lampeão em Limoeiro?
Prefeito: – Com muito gosto. Este bandido esteve, de facto, em Limoeiro, onde passou um dia e uma noite, esta numa fazenda afastada umas tres legoas da cidade.
Manda a justiça que se diga não ter elle nem qualquer dos seus homens praticado a menor depredação, nem desrespeitado a quem quer que fosse.
Excessos mesmos, de quem bebe cachaça, e que é uma coisa natural nessas gentes, elles não praticaram alli,
Reporter: – Mas, dizem, entraram na cidade ovacionando as autoridades.
Prefeito: – É certo que invadiram aquella localidade dando hurralis ás autoridades, como tambem é veridico ter sido a sua primeira ordem: aqui não se pega naquilo que não for nosso.
Reporter: - Constou aqui que o senhor teria estabelecido perfeita cordialidade com Lampeão.
Prefeito: - Lampeão, ao penetrar na cidade, mandou me solicitar uma audiencia especial, e, coisa interessante marcava, elle proprio, logar e hora para a realisar.
Em virtude do mêdo reinante, e procurando poupar o municipio ao saque, accedi em ter contacto com o cangaceiro. Fui muito bem recebido.
A principio, um certo respeito, depois fui tratado com muita gentileza lá ao modo do facinora, que não tardou a se acamaradar de uma maneira petulante. Mais ou menos senhor da scena, jogou com o seu intento: - precisava de dinheiro e queria o. Recursei seccamente o pedido. Elle insistiu, tendo nova recusa de minha parte. Tornou a insistir, obrigando me a dizer lhe que eu não tinha dinheiro e que o municipio tambem não tinha um real. Voltou-se para o seu ajudante de campo, um tal Sabino e disse:
- “veja só! a gente pede, torna a pedir de bons modos e recusam, quando se rouba gritam...”
A ameaça era grave e, a despeito de me pegar de surpreza não fez com que perdesse a minha presença de espirito. Depois de dar um passeio vagaroso pela quadra onde estavamos os tres pergunta me:- “onde anda o Moysés”
“O major Moysés, respondi, não estava em Limoeiro, no momento”
Novo passeio terminado com a seguinte phrase: 
- Não estou satisfeito, por que não gosto de vir ao encontro de alguem ou de alguma coisa para se rmal succedido. Se encontrasse o Moysés teria que ajustar com elle umas contas velha...” Depois de assim monologar despediu-se dizendo me que pensasse sobre o dinheiro.
Mais tarde encontram-nos de novo.

O cangaceiro Sabino

Eu ia com o padre Guedes, e Lampeão com o Sabino. Lampeão abordou me de novo. Exigiu dez contos de réis. Tornei a recusar, mas notei caracteristico movimento contrafeito de Lampeão, que olhou para Sabino. Offereci-lhe dois contos, de minhas economias.
Neste momento o “ajudante de campo” interrompeu a conversação dizendo:
“Ué... dois contos... isso, moço, não é dinheiro p’ra nós...”
Tinha um ar de mofo e deboche, despido de qualquer affectação e midos de seu indifferentismo por quantias pequenas.O padre Guedes compreendeu tudo e voltando para Sabino bateu-lhe no hombro, num gesto de camaradagem e disse-lhe: 
- “É pouco, mais o que se pode dar, antes pouco que nada.”
Lampeão riu-se e reolveu acceitar os dois contos de reis.
Não os trazia commigo, mas fiquei de dal-os mais tarde. Ja estavamos partindo quando o cangaceiro falou:
- “Dois contos, mas numa condição: precisamos de balas e vocês nol-as darão.” Retruquei logo: deste artigo não ha aqui na praça. Caso se convença da sua existencia me avise para que possa intervir no sentido de ser satisfeito seu pedido, e – com todo geito, prosegue o prefeito o ia evando o bandido. A minha prudencia chegava mesmo a me causar impressão. Já tinhamos andado quando Lampeão voltando se disse
– “Olhem: podem avisar por ahi que me responsabilisarei por tudo que tomarem os meus homens, salvo bebidas, pois, não as reputo genero de primeira necessidade.
Reporter: - Quando se foram os bandidos.
Prefeito: - Muita esperança tivemos de que mal recebesse os dois contos partir-se, mas dali foram aalmoçar a contento, todos elles, e depois, correram ás casas commerciaes adquirindo do melhor e pagando tudo por altos preços, sem regatearem.
Á tarde desse dia Lampeão deu donativo para a igreja e em frente desta, cercado de toda a garotada local, deu a seguinte ordem: 
- “Despejem esses bolsos de nickels e pratas aqui. Vocês não são burros de carga!”
De facto, sem a menor repulsa, todos despejaram  seus bolsos que estavam abarrotados de prata e nickel. Em seguida passou a fazer – galinha gorda – com a meninada. Emquanto esta luctava e se esmurrava, Lampeão e os seus riam-se á vontade divertindo-se a valer, com os meninos. Foi tanto dinheiro jogado ás creanças a despeito de seu grande numero a que menos logrou apanhar pratas colhei dez mil réis. Antes disso já havia dado esmolas aos cégos e aleijados, de cedulas de dez mil réis.

Lampeão e bando em Limoeiro

Foi, no adro da igreja que fui ter com Lampeão para lhe entregar o dinheiro. Recebeu-o e ia guardal-o quando adverti:

“É conveniente contar.”
Retrucou:
- “Qual nada. Não costumo tratar com que não seja serio”.

Creia que me revoltava tudo aquillo, mas, soffria calado as affrontas para poupar a cidade ao saque.
Guardando o dinheiro disse ainda:
“Confio no senhor. Em seguida trato a bolsa de couro, a tira collo.

Com dificuldade a abriu e não menor foi a para conseguir que o dinheiro coubesse lá dentro, pois a mesma estava transbordando de cedulas graudas. Já declinava o dia. Todos nós convenceramos que, ao receber dinheiro elle levantasse acampamento. Qual nada, e travo ia continuar, para mim e todos os dalli.
De repente disse-me.
– Preciso falar para Aracaty, á noite é preciso que o telegraphista não avise coisa alguma. Quero ir consigo.
A hora aprazada lá estava Lampeão na estação telegraphica – Falou: o direto para Aracaty, ordenou para o telegraphista:
- “Repita a ligação para Russas.
- Não posso, pois não tenho linha livre...
- Reputa já disse...
E como o telegraphista tentasse subtilmente isolar o apparelho.
Não desligue o apparelho... quero falar com Russas.
Foi feita, afinal, a ligação, e, veio se a saber estarem alli forças da Parahyba. Cheio de raiva, mandou que pedisse o rapaz do telegrapho confirmação da noticia. Esta veio. Sem que ninguem esperasse falou alto:
- “Vou defender esta cidade”!
E incontinente passou a dar ordens a Sabino. Foram expedidas patrulhas, distribuidos piquetes nas estradas e atalhos da região. Tudo aquillo impressionava a todos, pois o homem se revelava tão conhecedor do lugar como nós mesmos.
Antes dessas ordens voltou-se para mim e disse:
“Bóta tudo p’ra fora. Aqui só fica eu, voce e aquelle senhor.
Referia-se ao telegraphista. Não precisava pedir nem dar ordens. Todos comprehenderam pela entonação da voz do bandido que elle estava fulo de raiva.
A meia hora que se seguiu foi para mim de angustias. Por todos os meios convencer o faccinora que elle não devia insistir em ficar alli. Mostrei-lhe que só quem tinha a perder era a população. Alleguei o modo por que tinha sentido tratar. Emfim depois de uma grande discussão acabei convencendo o homem que devia partir.
Lampeão chamou novamente Sabino transmittiu lhe contra-ordem, a qual foi recebida com contrariedade da parte deste.
Exigia, porem, que lhe indicassemos uma fazenda onde pudesse pernoitar com os seus homem, garantindo elles, que não sofreriam nem a fazenda nem os seus moradores. Era questão de palavra.
Indicaca a fazenda, partir Lampeão seguido de seus companheiros.
Era um pesadello que parecia passar.
Reporter: - Tinha, mesmo, força em Russas?
- Prefeito: - Sim tinha. Mas, antes não tivesse esta sob o commando de tenente parahybano. Quelé deu entrada no outro dia pela manhã, em Limoeiro onde praticaram todas as sortes de desatino.

(*)Mestre em Geologia, cursei Geologia, Artes Plásticas e História, entendo-me como um Historiador Natural, com aspectos também de Filósofo Natural. Ministrei aulas, na Universidade Estadual da Bahia - UNEB de: - Antropologia - Epistemologia - Metodologia do Trabalho Científico - Ensino de História - Elementos de Geologia - Paleontologia - Sedimentologia - História da Ciência * email: historiageologica@gmail.com

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço:
Rubens Antonio

http://cangaconabahia.blogspot.com

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

LUIZ GONZAGA ETC. E TAL


Nunca na história da nossa música popular um artista foi tão louvado em folhetos de cordel, livros e músicas dos gêneros os mais diversos como Luiz Gonzaga, o rei do baião.

Especialmente neste ano do seu centenário de nascimento uma longa e farta programação já está em andamento, principalmente na região Nordeste, notadamente Pernambuco, onde nasceu.

No tocante, porém, ao repertório dos discos com músicas suas e de parceiros regravadas tem sido, até aqui, um tanto redundantes.
Mas muita coisa boa certamente ainda há de vir.

AGRADECIMENTO

Aproveito para agradecer ao poeta-agrônomo Kydelmir Dantas o envio de folhetos sobre Gonzaga, discos de Israel Filho e Joan Marques e um exemplar da revista Domingo do Jornal de Fato, com entrevista do fundador da Cortez Editora, o rio-grandense do Norte José Cortez.

FANTÁSTICO

Domingo que vem 7, tem mais notícias sobre o Rei do Baião no programa Fantástico, da Globo. E o filme Gonzaga - de Pai Pra Filho, de Breno Silveira, já tem data de estreia nacional: 26 deste mês.

ANDY WILLIAMS

Somente agora tomei conhecimento da morte do cantor Andy Williams, uma das grandes vozes norte-americanas ao lado de Sinatra e Peggy Lee. Williams chegou a gravar alguns brasileiros, como Mario Albanese/Ciro Pereira e Dorival Caymmi.

http://assisangelo.blogspot.com.br/

Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço:
Kydelmir Dantas 

GRUPO VINA Apresenta RECITAL DIÁLOGOS

GRUPO VINA
Apresenta
RECITAL DIÁLOGOS
Clarice e Chico

+

LOCAL: MEMORIAL DA RESISTÊNCIA (Espaço Cafezal) - Mossoró-RN
HORA: 22:00
DIAS: 05, 12 e 19/10/12


TEXTO ORIGINAL: AILTON SIQUEIRA;

ADAPTAÇÃO: GRUPO VINA
DIREÇÃO CÊNICA: CHICO WINDOWS;
 DIREÇÃO MUSICAL: JOÃO LIBERALINO.

Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço:
Kydelmir Dantas

10 de agosto de 1927, no “Diario da Bahia”

Por: Rubens Antonio(*)
Minha foto

10 de agosto de 1927, no “Diario da Bahia”:
A HORDA SINISTRA 
organização do bando de Lampeão
O ataque a Mossoró

Sabendo recentemente chegado do nordeste brasileiro, zona infestada pelos bandoleiros do famigerado Lampeão, o academico Raul Fernandes, filho do prefeito da cidade de Mossoró, fomos á sua residência, á Rua do Tijolo 21, no sentido de obtermos esclarecimentos sobre o recente assalto áquella próspera cidade pelos bandidos da trinca sinistra Lampeão – Sabino – Massilon, ora colligados para a consecução funesta do devastamento e inquietação do nordeste brasileiro.

Apresentados pelo seu collega Aurelino Navarro, recebeu–nos o academico Raul Fernandes, amavelmente, e para logo se dispos a nos prestar todos os esclarecimentos precisos, offertando–nos tambem farta documentação photographica do que foi o assalto a Mossoró.

– Que pode nos dizer do assalto a Mossoró e da organização do bando de Virgulino?

– Desde que esta hora de vandalos vagueia pelos sertões nordestinos, disse o nosso entrevistado, é esta uma das coisas que mais desperta o interesse publico: saber da organização do bando, de como vivem e qual o seu ideal.

Durante a minha recente viajem de Natal para este porto, faziam–me a bordo, repetidamente estas perguntas.

Acho–me felizmente apparelhado para respondel–as, uma vez que conversei largamente com um dos bandoleiros, Jararáca, mortalmente ferido no ataqu a Mossoró.

A organização do bando é a mesma das sociedades primitivas. O chefe, capitão Virgulino, occupa este lugar porque (declaração de Jararáca), é o mais velho do grupo, o que tem mais dinheiro, o que melhor atira e o que “tem melhor tino no combate”.


– Quaes os auxiliares de Lampeão?

– O seu lugar tenente é o Sabino Leite, seguido por Massilon, ambos 1°s Tenentes no bando. A seguir vêm Jararáca, (hoje morto), Colchete, (tambem morto), Az de ouro, Chá preto, Candieiro, Pinga–fôgo etc. Alguns destes appellidos de guerra partem de superstições como o de “Rio preto”, nome de um celebre negro da Parahyba, malfeitor consummado e que todos acreditam piamente, “bala não lhe entrar no couro”.

– Que nos diz do physico destes homens e do seu gráo de ferocidade?

– Todos são homens validos, apresentando os caracteres de audacia e menosprezo pela vida, que a penna fulgurante de Euclydes da Cunha tão bem plasmou na sua “Troya sertaneja” immortal.

Verdadeiramente selvagens, na sua marcha pelos sertões postam–se como acabados cannibaes na desvastação pavorosa de tudo que lhes entrave o passo.

– Qual a impressão que faz do bando o povo dos sertões?

– No nordeste a palavra Lampeão causa panico é pronunciada entre demonstrações de odio e pavor. Durante os assaltos praticam os bandidos toda sorte de atrocidades. Matam, roubam, saqueiam, devastam: não respeitam as donzellas e até creanças têm sido sacrificadas.

Os soldados que lhes cáem nas mãos são sangrados impiedosamente.


– Como procedem para “requisições” de dinheiro?
Só aos chefes assiste o direito fazer taes requisições, e uma particularidade interessante dos combates é a seguinte.

Toda vez que tomba morto um dos bandidos é destacado um companheiro para tirar–lhe as armas. Foi assim que foi ferido Jararáca, quando vier, descoberto, ousadamente tirar as armas do seu camarada Colchete, morto durante o assalto.

– E a disciplina é solida entre os bandidos?

A não ser nos momentos do perigo não obedecem aos seus chefes, fazendo cada qual por si nas occasiões de saque e de pilhagem, quando praticam, como afiancei ha pouco, toda sorte de atrocidades.

Ao que nos consta, os bandidos usam um fusil mauser modelo 1908, arma privativa do exercito!

– Perfeitamente; usam deste typo de fusil, punhal longo, bornaes, e cartucheiras com capacidade para 100 balas. A roupa em geral é kaki; chapeu vistoso e alpercatas. São muito vaidosos dos seus trajes e quasi que o luxo das vestes é uma caracteristica da posição elevada que cada bandido occupa no grupo.


Jararáca quando foi preso trazia ricas alpercatas e meias de seda. Contou que fôra reservista do exercito e telegraphista por muitos annos.

– Sabe se os bandidos têm signaes que os orientem nos combates?

Sim, têm um corneteiro e usam uma especie de codigo, combinação de tiros repetidos ou espaçados que lhes indicam posição, proximidade do inimigo, etc. Quando em desncanço costumam contar suas façanhas e tambem dançar e canta o ccôco “Mulher rendeira”, ao som de um realejo cujo côro é o seguinte:

“Ê mulhé rendeira
Ê mulhé rendá,
A volta de Lampeão
Crua é p’ra se daná...”

– A propósito, é verdade que padre Cicero protege Lampeão?

– É sabido e notorio isso e Jararáca, em seu depoimento, disse que quando o grupo opera no Ceará, abriga–se nas fazendas dos coroneis Souto e Ferraz e quando está no Pagehú seu refugio é a caatinga.

– Mas afinal qual o objectivo de Lampeão, qual o seu “ideal”?

– Narrou Jararáca que Lampeão declarava sempre que o dinheiro que adquiria era para comprar os officiaes das policias que o eprseguem e tambem pretende fazer a sua independencia, indo residir em Goyas. 

Alguns dos bandidos adheriram ao grupo por satisfazerem vinganças, outros por decidida propensão para o crime.

– E agora, quanto ao ataque a Mossoró?

– Minha cidade natal soffreu dias terriveis de angustiosa inquietação desde que recebeu o prefeito as cartas ameaçadoras do bandido exigindo 400 contos e avisando do proximo assalto. A cidade preparou–se como poude para a defesa, armando–se a população civil, retirando–se as familias e levantando–se trincheiras, como documentam as photogrphias que apresento. Chegou o dia do assalto e o rezultado foi a fuga dos bandoleiros abandonando um morto e um ferido, ficando varios delles perdidos no matto como soubemos depois.

– Soubemos que foi energica e efficaz, heroica mesmo a acção do Cel. Rodolpho Fernandes?!

– Sou suspeito para falar da acção de meu pae, ma so povo de Mossoró é testemunha de que elle soube cumprir o seu dever.
Estavamos satisfeitissimos com as declarações do jovem Raul Fernandes e demos por terminada a nossa entrevista, agradecendo–lhe a bôa vontade com que nos ouviu.
.
A titulo de curiosidade reproduzimos aqui o “ultimatum” de Lampeão ao prefeito de Mossoró, e a resposta deste:
.
“Cel. Rodolpho

Estando eu até aqui pretendo é dinheiro. Já foi um aviso ahi para o senhor, se por acauzo resolver mi a mandar me a importancia que nós pede Eu envito de Entrada ahí, porem não viado, esta importancia eu entrarei até ahi penso que Adeus querer eu entro e vai aver muito estrago, po isto se vir o dinheiro eu não entro ahi mais mande resposta logo.
Capm. Lampeão.

Virgolino Lampeão

Recebi o seu bilhete e respondo–lhe dizendo que não tenho a importancia que pede e nem tambem o Commercio O Banco está fechado tendo os funccionarios se retirado daqui. Estamos dispostos acarretar com tudo o que o Sr. queira fazer contra nós. A cidade acha se firmemente inabalavel na sua defesa confiando na mesma.

Rodolpho Fernandes
Prefeito


(*) Mestre em Geologia, cursou Geologia, Artes Plásticas e História, entende-se como um Historiador Natural, com aspectos também de Filósofo Natural. Ministrou aulas, na Universidade Estadual da Bahia - UNEB de: - Antropologia - Epistemologia - Metodologia do Trabalho Científico - Ensino de História - Elementos de Geologia - Paleontologia - Sedimentologia - História da Ciência * email: historiageologica@gmail.com

Enviado pelo 
Rubens Antonio

sábado, 29 de setembro de 2012

AS MULHERES NO CANGAÇO

Por: Archimedes Marques
Caricatura do autor Archimedes Marques criada por ele próprio.

A luta da mulher pela igualdade de direitos sempre foi constante na história da humanidade, vez que desde os primórdios, perdurando por séculos e séculos era considerada como se objeto fosse, um ser inferior de sexo frágil sempre dominada pelo chamado sexo forte. Na década de 30 do século passado, enquanto nos grandes centros mundiais e principais cidades do Brasil, movimentos de mudança em prol da mulher se sucediam e se multiplicavam, no nosso sertão nordestino tudo continuava como dantes, sem mudança de comportamento algum. Entretanto, mesmo sem saber que estava fazendo verdadeira revolução, a brava sertaneja ao largar tudo para seguir o cangaceiro em vida perigosa e sem futuro serviu de exemplo de força, coragem e determinação para outras mulheres do país, além, de certa forma mudar a história do cangaço, separando assim tal movimento em duas fases, fazendo também que nessa segunda fase houvesse menos selvageria e até aparecesse a figura do amor entre aqueles rudes e ignorantes personagens.

João de Sousa Lima

Tomando emprestadas as palavras do amigo João de Sousa Lima: “A mulher, na expressão primordial da palavra, amenizou as marcas das pegadas ferradas das sandálias de couro do cangaço e em seus rastros gravou sua passagem, nos confins do solo sagrado de uma nação chamada Nordeste”.

Buscando o fato motivador dessa inusitada atitude feminina como tipo de amor arrebatador ou mesmo como falta de uma melhor opção de vida diz o citado historiador: “Várias histórias povoam esse estranho mundo feminino. Mulheres viam nas passagens dos cangaceiros, em suas roupas coloridas e seus apetrechos brilhantes, uma forma diferenciada de vida e, no entanto, como uma armadilha, se envolveram em um mundo recheado de tiroteios, mortes, sangue, fugas alucinadas e escapadas perigosas”.

João de Sousa Lima na palestra em Aracaju

A mulher cangaceira não foi uma mulher submissa, não foi uma mulher escrava, caseira, muito pelo contrário, foi uma mulher “paparicada”, respeitada e até tratada com amor pelo seu companheiro e pelos demais componentes do bando dentro das reais possibilidades que a dura vida assim exigia, com raras exceções é evidente, pois as traições amorosas femininas não eram admitidas em hipótese alguma.

Então, de volta a nossa realidade, cumprindo um cronograma organizado pela Cyntilante Produções que realizou a turnê “Lampiãozinho e Maria Bonitinha”, uma peça teatral de grande sucesso cuja produção vencedora de 19 prêmios é uma das criações de 

Fernando Bustamante

Fernando Bustamente, um carioca radicalizado em Belo Horizonte, homem da arte e da cultura que também preserva com tal peça as raízes cangaceiras do nosso querido Nordeste brasileiro, de igual modo, de tudo foi acompanhado de 13 a 23 do corrente mês e ano, em excelentes e bem explicativas palestras com o tema AS MULHERES NO CANGAÇO, pelo nosso estimado escritor e amigo João de Sousa Lima.


Assim inteligentemente foi unido o útil ao agradável, pois nada melhor para a peça “Lampiãozinho e Maria Bonitinha” do que estar acompanhado de um nordestino nato, um “cabra macho” pernambucano radicalizado na aprazível Paulo Afonso, um pesquisador, estudioso, escritor que sabe tudo e muito mais a respeito do cangaço, um verdadeiro “Sherlock Holmes” das caatingas que esmiúça, investiga e descobre personalidades que vivenciaram aquela época de sangue e lágrimas (mas também de amor) e, porque não dizer, um historiador que desvenda verdadeiras histórias então escondidas, destarte para a trajetória de vida dos ex-cangaceiros 

Moreno e Durvalina

Moreno e Durvinha, incógnitas e submersos nas Minas Gerais por sete décadas, mas trazidos à tona anos atrás graças a interferência direta de João de Sousa Lima.

Sem dúvida alguma, aquelas pessoas que tiveram o privilégio de assistir alguma das seis palestras de João de Sousa Lima – como tivemos no último dia 22 aqui em Aracaju – além de viajarem de volta ao cangaço, aprenderam muito com os ensinamentos desse grande e obstinado historiador.

As eloquentes explicações em analises das diversas fotografias relacionadas às personagens do cangaço apresentadas por João de Sousa Lima foi iniciada na cidade de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, terra adotada pelo amado e imortal “Padim Ciço”. 

Padre Cícero - coisadecearense.blogspot.com

Ingressar para falar agora sobre o fantástico mundo de Juazeiro, sua sedição, suas lutas, suas glórias, seus heróis, seu misticismo, seu messianismo, sua religiosidade, seu povo em verdadeira adoração ao Padre Cícero Romão Batista e este por sua vez em suposto apoio a Lampião e ao cangaço é debruçar em “montanhas” de escritos e opiniões diversas, por isso é melhor que fiquemos somente neste parágrafo que bem traduz a irreverência do citado palestrante que sem dúvida ensinou e também mais aprendeu com a interessada assistência que lotou a Escola Iva Emidio Gondin naquele memorável dia 14/09/2012.


Serra Talhada foi a segunda estada do citado grupo. Justamente a área inicial de conflito dos eternos inimigos 

Lampião e seu inimigo nº 1 - Zé Saturnino

“Virgulino Ferreira da Silva e Zé Saturnino” e que de todo o conflito deu origem a era “Lampiônica”, trocando em miúdos, ao cangaço de Lampião que ganhou fama não somente no Nordeste, mas também no Brasil e porque não dizer, mundo afora. Terras circunvizinhas que também deram tantos outros componentes dessa história de sangue e barbárie, a exemplo de Nazaré do Pico, um pequeno povoado encravado no sertão de Pernambuco, cujo lugarejo localizado nas proximidades de Serra Talhada, mas pertencente ao município de Floresta, saíram os mais ferrenhos perseguidores de Lampião, dentre eles: Odilon Flor, Euclides Flor, Gomes Jurubeba, João Gomes Jurubeba, Davi Jurubeba, Enoque Menezes, João Gomes de Lira e o mais famoso deles, o incansável Manoel Neto, que chegou ao posto de Coronel da brava policia pernambucana.

Manoel de Sousa Neto

Serra Talhada é hoje a mais importante cidade do sertão pernambucano e é considerada a capital do xaxado, justamente em alusão a dança mais usada, ou mesmo inventada pelos cangaceiros. Essa terra de cabras valentes é também destaque cultural e teatral com o 

carlosbritto.com

“Grupo de Xaxado Cabras de Lampião” bem administrado pelo amigo escritor e pesquisador 

Cleonice Maria, Ivanildo Silveira e Anildomá Willians

Anildomá Willians de Souza e sua esposa Cleonice, dentre outros grupos da região circunvizinha que encantam todos aqueles que assistem a tais espetáculos. Nessa cidade a peça teatral “Lampiãozinho e Maria Bonitinha” se destacou igualmente também ao sucesso da palestra “As mulheres no Cangaço” que encantou os estudantes e professores do Colégio Cônego Torres em inesquecível e marcante dia 17/09/2012.

Cedida gentilmente pelo escritor João de Sousa Lima

A sua terceira apresentação ocorreu em Água Branca nas Alagoas região da famosa Baronesa Joana Vieira Sandes de Siqueira Torres, viúva do Barão Joaquim Antônio de Siqueira Torres, cujo assalto a essa cidade em 1922, deu a Lampião, recém "nomeado" líder do bando de 

Sinhô Pereira

Sinhô Pereira, início de sua fama de audaz bandoleiro, sem esquecer que naquelas paragens também nasceu um dos mais destacados cangaceiros da história, Cristino Gomes da Silva Cleto, mais conhecido como Corisco o Diabo Louro.  

Os cangaceiros: Corisco e Dadá

Consta que do inteligente e bem arquitetado crime de roubo realizado nessa cidade pelos cangaceiros, mais de perto, na mansão da Baronesa de Água Branca, anos depois, já na segunda fase do cangaço, mais de perto a partir de 1929, por muito tempo as jóias roubadas dessa famosa senhora ornaram e embelezaram ainda mais a figura de Maria Bonita até que se perderam nas mãos dos policiais volantes que a decapitaram em 1938.

Maria Bonita

O Ponto de Cultura Engenho da Serra na cidade de Água Branca ao lotar suas galerias em 18/09/2012 viveu dos seus maiores momentos de glória com as falas de João de Sousa Lima e a linda apresentação teatral que com certeza não se perderão no tempo e no espaço.

Como não poderia deixar de ser, o grupo chegou para a sua quarta apresentação na simpática e aprazível cidade de Paulo Afonso. Por sinal o município que deu a personagem feminina maior dessa história nordestina, Maria Bonita, a inesquecível mulata da terra do condor que sem sombra de dúvida dominava uma fera perigosa, uma morena trigueira que sabia fazer o rei do cangaço gemer sem sentir dor, como bem diz o grande poeta Zé Ramalho em uma das suas mais lindas canções. 

Zé Ramalho

Das terras da Malhada da Caiçara saiu o único e verdadeiro amor de Lampião. De Paulo Afonso a segunda fase do cangaço se fez maior, como já dito, “mais humana”, pois onde existe mulher existe o amor. 

Nunca é demais falar que Paulo Afonso foi o município brasileiro que mais ofereceu componentes para o cangaço, chegando, pelas pesquisas efetuadas por João de Sousa Lima e outros historiadores ao número de 47 cangaceiros, entre homens e mulheres, que se embrenharam naquela dura vida bandida das caatingas.

Sem citar os homens, entre as mais famosas cangaceiras que saíram da região de Paulo Afonso, estão: Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, do povoado Malhada da Caiçara; Lídia Pereira de Souza, do Povoado Salgadinho (citada por todos os cangaceiros sobreviventes como sendo a mais bela de todas as cangaceiras. Assassinada covarde e brutalmente a pauladas pelo seu companheiro 


Zé Baiano em decorrência de uma traição amorosa); 

Nenê, Luiz Pedro e Maria Bonita

Nenê (a carinhosa Nenê, companheira de Luis Pedro), também do povoado Salgadinho; Otília Maria de Jesus (Otília, companheira de Mariano), do povoado Poços; 

Inacinha e Gato

Inácia Maria das Dores (Inacinha, companheira do feroz cangaceiro Gato, por sinal ambos índios da tribo Pankararé), do Brejo do Burgo; Catarina Maria da Conceição (Catarina, companheira do cangaceiro Nevoeiro, também uma índia da tribo Pankararé), igualmente do Brejo do Burgo; 

Grupo do cangaceiro Virgínio

Durvalina Gomes de Sá, (Durvinha, companheira apaixonada pelo cangaceiro Virgínio e após a morte deste, eterna mulher do cangaceiro Moreno), nascida no povoado Arrasta-Pé.

Das terras baianas o grupo teatral e nosso homenageado João de Sousa Lima, aportaram em Porto da Folha no nosso querido Estado de Sergipe, para a sua quinta e penúltima apresentação. Da chamada terra dos “buraqueiros”, há se ressaltar que nenhum outro município da região tem uma história cultural tão grande quanto Porto da Folha, pois em verdade os municípios de Canindé do São Francisco e Poço Redondo também faziam parte das suas terras até que ganharam suas emancipações políticas e administrativas posteriormente. Assim, Poço Redondo desponta hoje como sendo o segundo município nordestino a mais fornecer membros para o cangaço, ou seja, foram 34 filhos desse então povoado de Porto da Folha que acompanharam o bando de cangaceiros, sem esquecer do marco maior dessa história, ou seja, o local onde ocorreu o combate final de Lampião. Foi na gruta de Angico, que em 28/07/1938 Lampião e Maria Bonita, juntos com outros nove cangaceiros, foram mortos pela volante alagoana comandada pelo Tenente João Bezerra.

João Bezerra - o matador de Lampião

Com efeito, como diz o amigo escritor e poeta Rangel Alves da Costa: “Um dos fenômenos mais marcantes da história de Poço Redondo diz respeito ao banditismo social, na sua vertente cangaço, que brotou no lugar numa profusão de raízes e frutificou impressionantes consequencias. 

Escritor e poeta Rangel Alves da Costa

Mesmo tendo surgido em outros rincões nordestinos, foi na aridez poço-redondense que o cangaceirismo mostrou sua feição mais nítida, mais acabada, mais cruel e também a mais romântica”. Foi justamente no reinado de Lampião em Sergipe que Poço Redondo experimentou a convivência e o medo com as ações cangaceiras.

Escritor Alcino Alves Costa

Falar em Poço Redondo sobre o cangaço e não falar do grande amigo escritor Alcino Alves Costa é a mesma coisa do cidadão ir a Roma e não ver o Papa, assim, relembrando fatos importantes, de acordo como “Caipira de Poço Redondo”, dois acontecimentos do cangaço marcaram profundamente a vida dos habitantes desse município: “Nenhum lugar, na vastidão dos campos sertanejos, viveu agonia tão grande e provações tão gigantescas como o pequenino núcleo das brenhas do Riacho Jacaré”. Por duas vezes, toda a população do então povoado Poço Redondo abandonou suas casas com medo da violência dos cangaceiros e da volante. Esses acontecimentos ficaram conhecidos como “As Carreiras”. Aquela vidinha sem novidades e aborrecimentos tinha se acabado com a chegada de Lampião em Sergipe, mais de perto, naquelas cercanias. Todas as desgraças e horrores começaram a aparecer, atingindo cruelmente as famílias e habitantes daquele abandonado pedaço do nosso pequenino Estado. O primeiro assassinato em Poço Redondo aconteceu em 1932. O cidadão conhecido por Santo da Mandassaia foi morto cruelmente por Corisco. Assustados, todos os moradores do povoado deixaram suas casas e foram morar em Curralinho, um povoado à beira do Rio São Francisco. Em Poço Redondo não ficou um só morador, daí os militares decidiram que a povoação abandonada seria um ponto estratégico para o combate ao cangaço. Uma guarnição de dez soldados, comandados pelo sargento Alfredo, se estabeleceu no local e, sabendo disso, a população que havia se mudado para Curralinho resolveu voltar para suas casas, entretanto, mesmo com a presença dos militares, os moradores de Poço Redondo continuaram sofrendo todas as represálias e malvadezas dos cangaceiros, além de sentirem na pele os seus filhos abandonarem tudo para ingressarem no cangaço. Mais adiante, em 1937, revoltados porque os soldados mataram o cangaceiro Pau Ferro, os bandoleiros assassinaram os soldados Tonho Vicente e Sisi e ainda mandaram um recado garantindo que iriam invadir a vila de Poço Redondo. O pavor tomou conta de todos. A tropa que guarnecia o povoado estranhamente teve que se apresentar ao Quartel em Propriá e novamente a população ficou órfã, sem segurança alguma. A solução foi se mudar novamente para o Curralinho, situação que perdurou até a chacina de Angico com a consequente morte de Lampião, oportunidade em que aliviados e sem nada mais temer o povo voltou para Poço Redondo.

Peça Teatral Lampiãozinho e Maria Bonitinha

Da história consta que a instalação do município de Poço Redondo, desligando-se política e administrativamente de Porto da Folha somente ocorreu em 6 de fevereiro de 1956, ou seja, 16 anos após o termino oficial do cangaço, com a morte de Corisco em 25 de maio de 1940.

Ainda relacionado às terras de Porto da Folha na época do cangaço, hoje pertencentes a Poço Redondo há também de se destacar o ferrenho combate denominado “Fogo da Maranduba”, ocorrido no dia 9 de janeiro de 1932, na Fazenda Maranduba, cujo intenso e sangrento tiroteio é considerado um dos três maiores enfrentamentos entre cangaceiros e policiais volantes na história do cangaço. Dizem os pesquisadores e historiadores que esse combate só é comparado à sangrenta batalha de Serra Grande, em Pernambuco e ao não menos cruento embate de Serrote Preto, nas Alagoas. As baixas em Maranduba foram muitas e das polícias volantes comandadas pelos audazes combatentes perseguidores Tenente Manuel Neto da força pernambucana, do  Capitão do Exército Liberato com a ajuda do Tenente Zé Rufino da polícia baiana, contabilizaram-se oito mortos e diversos feridos, enquanto que, por parte dos perseguidos cangaceiros somente três mortos e um ferido. Sem dúvida, uma estupenda vitória de Lampião que contava no confronto com um número de componentes inferior a três vezes ao da força policial.

Como o tema é “As Mulheres no Cangaço” não teceremos maiores detalhes sobre os homens que abandonaram as suas famílias para seguirem Lampião. Assim, das terras de Poço Redondo saíram para o cangaço as seguintes mulheres: 

Ilda Ribeiro - A Sila

Sila (mulher de Zé Sereno e irmã de Novo Tempo, Mergulhão e Marinheiro), 

lampiaoaceso.blogspot.com

Adília (mulher de Canário e irmã de Delicado), 

Enedina, a primeira da esquerda - e Dadá

Enedina (mulher de Cajazeira, o Zé de Julião), Dinda (mulher de Delicado), Rosinha (mulher de Mariano), Áurea (mulher de Mané Moreno) e Adelaide (mulher de Criança, irmã de Rosinha e prima de Áurea), ou seja, um total de sete mulheres, sete valentes e destemidas guerreiras que por falta de opção ou mesmo por amor aos seus homens enveredaram na vida bandida do cangaço.

De Poço Redondo atual, não podemos deixar de citar e elogiar as ações do Grupo de Teatro e Xaxado “Na Pisada de Lampião”, criado em Julho de 1997 por Beto Patriota, Raimundo Cavalcante e Dionízio Cruz, um excelente grupo de abnegadas pessoas que aparece como mais uma iniciativa em prol de manter vivas as memórias do cangaço nesse município.

Peça Teatral Lampiãozinho e Maria Bonitinha

De volta a João de Sousa Lima e ao grupo teatral, os mesmos fecharam com chave de ouro as suas participações nessa turnê, aqui na nossa capital Aracaju. Bem sabido é que de Aracaju não partiu nenhum componente para o cangaço, entretanto, dessa terra, mais de perto, do Palácio do Governo na época do governador 


Eronildes de Carvalho e seu pai Antonio Caixeiro

Eronildes de Carvalho, sem dúvida alguma, surgiram muitas estratégias para acobertar o cangaço, pois é fato notório que o “coronel” Antonio Caixeiro, de Canhoba, pai do citado governador, era o mais famoso e importante coiteiro de Lampião em Sergipe. Em Sergipe a polícia fazia de conta que caçava Lampião e esse, por sua vez, fazia de conta que era caçado.

Peça Teatral Lampiãozinho e Maria Bonitinha

João de Sousa Lima bem sabe enaltecer a forte mulher sertaneja que sem dúvida gerou uma grande referência em toda sociedade da época e deixou registrada sua passagem também nas veredas do cangaço. Todas elas tiveram grande importância no contexto histórico desse tempo. Concordamos com a opinião de que as mulheres cangaceiras vieram aplacar a fúria assassina e o desejo disforme dos seus companheiros que tanto feriram e humilharam as famílias nordestinas. Com a chegada e a permanência feminina no bando, os cangaceiros adquiriram mais respeito para com as indefesas caboclas sertanejas. Os estupros, antes presentes em quase todas as investidas criminosas, com a chegada das mulheres ao cangaço, praticamente deixaram de ocorrer.

Peça Teatral Lampiãozinho e Maria Bonitinha

Foi assim que eu vi e senti as boas falas do amigo João de Sousa Lima na sua irreverente palestra “As Mulheres no Cangaço”, um sertanejo, um pesquisador, um exímio escritor, um amante da nossa cultura que a despeito de todo bom e verdadeiro nordestino também cultua o grande e imortal Luiz Gonzaga, o nosso símbolo maior, o ser que conseguiu sintetizar os anseios incontidos de um povo através da cadência que intercala os sons da sanfona, do triângulo e da zabumba expressando o mais refinado circuito musical então existente na nossa história.

Privar da amizade de João de Sousa Lima é um privilégio que enriquece positivamente as relações de qualquer ser humano. João de Sousa Lima, além de tudo, sem dúvida alguma, é um cidadão possuidor de grandes virtudes, as quais se encontram indissociavelmente vinculadas ao código de honra de um povo forte, o povo sertanejo e nordestino que tanto nos orgulha.

Aracaju, 28 de setembro de 2012.

Archimedes Marques. (Delegado de Polícia em Sergipe, escritor do livro LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE e eterno estudante dos assuntos relacionados ao cangaço).


Enviado pelo autor: Archimedes Marques