Por: José Cícero
Por mais de uma vez, Virgulino Ferreira da Silva,
Lampião – o rei do cangaço - estivera no município de Aurora.
É certo pensar
que algum motivo de caráter superlativo atraíra o célebre bandoleiro
pernambucano para as terras
aurorenses. Senão, por que a redundância das vezes que esteve em visita e em
descanso na ribeira salgadiana? O que lhe atraia tanto para este município? Eis
a pergunta que não quer calar...Vale lembrar que Lampião estivera em Aurora
dois anos antes(1925) com passagem pelo Tipi, Monte Alegre, Catingueira e
Taveira. Outras datas ainda carecem de registros mais apurados, todavia
ocorreram de forma discreta, posto que não tiveram a devida repercussão em face
da ausência de outros confrontos tal qual o de junho/julho 1927.
No entanto, uma das vezes mais notória aconteceu no início de junho de 1927
quando na Ipueiras de Zé Cardoso, sobrinho do conhecido Izaias Arruda, então
coiteiro de grande confiança de Lampião. Lá foi onde se deu toda a logística e
trama para o malfadado e famoso ataque a Mossoró-RN, na época, considerada a
segunda maior cidade do interior daquele estado. Fato ocorrido no dia
13 de junho de 1927 às 16 horas.
De Aurora o bando levaria, além de um otimismo exagerado, farta munição
desviada por Izaias dos chamados “Batalhões Patrióticos” criado durante o
governo Artur Bernardes para o combate à Coluna Prestes. O fruto do assalto ao Banco
do Brasil de Mossoró seria dividido entre os três empreendedores da
Ipueiras. De cara Izaias já recebera trinta e cinco contos de réis pelo
armamento fornecido. Como se nota, não era um investimento de risco.
O retorno do Rio Grande do Norte para Aurora se deu por absoluto instinto de
sobrevivência... Vez que com o malogrado ataque a Mossoró, Lampião e seu bando
sofreram um revês dos mais humilhantes e significativos. Estavam acuados e em
frangalhos. Várias baixas foram sentidas, tanto no aspecto moral quanto no seu poder
de fogo, posto que o seu quantitativo de confronto ficou seriamente
comprometido, notadamente pelas deserções que se seguiram, a começar pelo grupo
de Massilon. Não houve escolha. Aurora lhes daria arrego. Afinal, aqui deixara,
além de amigos; coiteiros fidedignos. Deve ter pensado Lampião quando foi
acossado pelas saraivadas das balas mossoroenses e seguidamente durante os
confrontos com as volantes interestaduais. Porém a invencibilidade de Lampião
ainda estava à prova. Com pouco mais de 30 homens ele enfrentara um contingente
de 300 praças do RN, Limoeiro até o solo caririense. E ainda teria a
sua espera em Aurora cerca de 87 jagunços do coronel e mais de 150 praças
oficiais em várias emboscadas que se seguiram.
Depois deste episódio Lampião e sua hoste nunca mais seria o mesmo.
Perdera uma das suas mais importantes qualidades: o respeito, além da sua
famigerada invencibilidade. O medo começava a partir dali, a vencer a
auto-confiaça de um grupo inteiro, menos a do seu líder. Era ele um exemplo da
persistência e da coragem em pessoa. Mesmo após ter perdido os valentes
Jararaca, Colchete e Xexéu, Lampião ainda se mostrava impávido. A morte rondava
os cangaceiros como um fantasma danado. Um cão sardento a seguir os passos do
bando nos grotões cearenses. O moral do pequeno grupo estava ao nível do chão.
E Lampião do alto da sua inteligência e experiência sentia exatamente isso nas
suas entranhas e sentimentos. À pulso tentava esconder tudo isso por trás do
seu gesto guerrilheiro. Não transparecia para os seus comandados nada que se
parecesse negativo para a auto-estima do seu pessoal. Sua valentia era de um
leão enfurecido abrindo passagem a todo custo em plena caatinga do Ceará. Por
quase um mês os cangaceiros foram perseguidos desde o ataque à Mossoró até o
município de Aurora e a Paraíba. Foram combates sangrentos quase sem trégua o
que exigia dos “jagunços” uma resistência sem limite. Acuados por várias
frentes de batalha, Lampião teve que agir rápido. O jeito foi derivar para os
lados do Cariri com os pensamentos voltados para Aurora como verdadeira tábua
de salvação. E em 1º de julho adentraram os limites aurorenses pelo vizinho
município de Lavras da Mangabeira na altura do sítio Olho d’água das Éguas na
serra da Várzea Grande. Após um pequeno descanso, o bando segue pelo Bordão de
Velho e Malhada Funda onde todos se alimentam. Um boi e três ovelhas são
sacrificados para a alimentação dos cangaceiros que há dias não sabiam o que
era comer com fartura e tranqüilidade. A fome e a sede agora, não era mais
problema.
O ataque a Mossoró
O mito do rei do cangaço começava ali, nas plagas norte-riograndense a
desmoronar. A evidenciar os primeiros sinais da sua fragilidade, da sua
exaustão, até então desconhecida para os que se sentiam donos absolutos de uma
situação, bem como de uma terra onde a lei, quando se supunha que existisse,
estava sempre a serviço dos mais fortes. Nunca em favor dos oprimidos e
injustiçados pela vida e pela sorte.
O governo, a volante e os povos dos sertões adentro, começava também a se darem
conta de que as investidas, assim como a própria existência do Lampião podiam
ser barradas, combatidas de igual para igual. Teriam um basta. Um fim. A
depender da coragem e da ousadia dos homens comuns, de carne e osso do próprio
sertão até então, ao Deus dará. Neste conflito as gentes dos sertões pagaram um
preço dos mais altos. Foram a um só tempo, protagonistas e vítimas de um
corolário de injustiças cometidas por ambos os lados. Há quem diga, inclusive,
que em alguns casos, mais por parte dos policiais do que dos próprios bandoleiros
cangaceiristas. A narrativa do cangaço não pode ser expressa pelo prisma nem
tanto dos anjos e tampouco pelos dos demônios. Haja vista ter sido toda ela uma
construção cotidiana alicerçada pela condição humana em meio a ignorância, a
estupidez, a ganância, os equívocos e a fragilidade sentimental do gênero
humano.
Por conseguinte, Aurora, como se ver, parece não ter dado muita sorte aos
propósitos lampiônicos. Mesmo se sabendo que não era a intenção precípua do
famoso cangaceiro invadir a urbe de Mossoró. Tudo foi ideia do Massilon Leite.
Um pseudo-estrategista que até então conquistara a admiração e o respeito do
rei do cangaço não por muito mérito, mas pela suas invencionices mirabolantes.
Coisas que o rei o capitão Virgulino pensava ser verdade. Depois por uma série
de embuste e mania de grandeza. Massilon não passara de um bom falastrão. Um
homem cuja lábia o servia muito mais que a própria arma e ousadia. Um fino
observador das estradas e da vida dos coronéis, vez que era, além de
bandoleiro, também almocreve. Um propagandista de mão-cheia, que sempre que
podia usava o recurso da linguagem exagerada e, portanto, nem sempre
verdadeira, mas em favor dos seus interesses lucrativos. Um homem cuja
capacidade inventiva atraíra até o próprio Lampião – um cético em potencial que
costumava por princípio desconfiar da sua própria sombra. Mas foi assim. A
leitura falsa e florida que Massilon fizera de Mossoró foi uma verdadeira peça
teatral para a qual Lampião e sua turma não estava suficientemente preparada
para absorver com as devidas nuances da verdade. Faltou o princípio da
precaução. A devida avaliação objetiva dos fatos. Uma análise estratégica da
investida. O suposto Eldorado traçado maquinalmente por Massilon inebriou a
todos, qual cachaça envelhecida em túnel de cedro. Ao ponto de Lampião e seus
comandados anteciparem o prazer daquela que seria (na cabeça de todos eles) uma
vitória fácil. Favas contadas... Mais uma a ser colocada no rol da fama do
nobre capitão. Mas, ao que tudo indica, Massilon sabia que não era assim. Por
algum motivo ainda não devidamente explicado e conhecido, o fez jogar seu amigo
Lampião com sua gente numa verdadeira armadilha. O desiderato de se atacar
Mossoró e adjacências foi, por assim dizer, um clássico caminhar de mocós em
direção a tábua do forjo. Um fiasco com todas as letras, como o bando jamais
havia executado. E Lampião, mesmo com sua cartilha do ‘confiando desconfiando’,
seguiu com seu bando como gado a caminho do matadouro. E Massilon era em suma,
o condutor em potencial desta boiada suicida. Resta saber com que interesse
Massilon engendrara tal empreitada insana. Um projeto que já soara fracassado
deste o princípio. Estava ele mancomunado com os interesses do Governo? Queria
passar a perna em Lampião? Receber algum tipo de recompensa e, em seguida
tentar ocupar seu lugar na história do cangaço nordestino? Estava a serviço do
Cel. Izaiais Arruda que almejava consolidar seu apoio político junto ao
governador e ao mesmo tempo obter lucros financeiros com a derrota de Lampião?
Por que estaria pulsilanimente enviando Lampião para o cadafalso? O que
ganharia com tal propósito? Que ligação teve ele, com a célebre tentativa de
envenenamento de Lampião e seu bando, dias depois em Aurora, durante um
banquete oferecido graciosamente como noutras vezes no sitio Ipueiras,
propriedade de Izaiais? Como se percebe toda uma trama envolvia os fatos que em
seguida ocorreram. Acontecimentos que até hoje, ainda não foram devidamente
explicados.
A Traição para com o rei do cangaço
De fato, na história do cangaço não era possível a construção duradoura de
amizades sólidas. Amigo era quase sempre um artigo que tinha vida efêmera. Não
eram amigos apenas cúmplices. Um jogo de interesse que transcorria ao sabor dos
acontecimentos. Era um eterno andar sob areia movediça. A lógica dos fatos nos
apontava isso. A começar pela maneira como terminou a grande relação de amizade
que(supostamente) existia entre o rei do cangaço e o Cel. Izaias – um dos
maiores coiteiros que Lampião mantinha a peso de ouro nestas bandas dos sertões
do Cariri cearense. Sim. Nada era de graça quando se envolvia com os negócios
lucrativos do cangaço guiado na maioria das vezes pela teoria macabra do roubo
e da pilhagem.
Tanto que em Aurora, Lampião se sentia como que em casa. Com um ingrediente a
mais: aqui ele se sentia seguro e em plena mordomia, em face dos verdadeiros
banquetes que lhe eram oferecidos pelos potentados do lugar. E não diga que era
apenas da parte do famoso coronel. Isso não. As regalias assim como os presentes
dispensados aos bandoleiros iam muito além dos préstimos oferecidos pelo Sr.
Izaias Arruda. Aqui nas terras aurorenses, Lampião parecia mais querido que
odiado. Não se sabe se por temor ou pura admiração dos seus feitos cantados e
decantados pelo Nordeste adentro. O certo é que em Aurora Lampião promoveu
seguidores ao passo que verdadeiros bandos nasceram e atuaram anos a fio por
estas ribanceiras. Inclusive de jagunços sanguinolentos, como verdadeiras
milícias profissionais à serviços dos coronéis do latifúndio. Basta dizer que
do subgrupo de Massilon muitos eram naturais d’Aurora principalmente da região
das Antas tais como: Zé de Lúcio( o Três Pancadas), José de Roque e Zé Cocô, só
para citar alguns. Um outro pequeno grupo tivera a participação do famoso Róseo
Fidélis das bandas da Ingazeiras.
Contudo, mesmo desconfiado como era sua praxe, Lampião nunca esperaria uma
traição que viesse dos seus amigos das Auroras. Estava redondamente enganado. O
tempo não tardaria a lhe provar o contrário em três grandes momentos distintos.
A estratégia traçada aqui para a invasão de Mossoró, o ataque da volante
sofrido no sítio Ribeiro e o suculento banquete(envenenado) oferecido na
Ipueiras – fazenda-vivenda pertencente a José Cardoso, parente do famoso
coronel Izaiais Arruda que terminaria com um cerco policial e o ato incendiário
ao bando de Lampião.
Mas, de certa forma Lampião com sua perspicácia saíra quase incólume de todas
elas. Não totalmente ileso, mas salvara a sua vida e dos seus próprios
apaziguados no seu conjunto(com pouquíssimas baixas). Uma saída possível do
cerco da Ipueiras onde tombou o cangaceiro Xexéu. As baixas que tiveram foi o
preço mínimo que pagara para não sofrer uma derrota ainda mais completa e
humilhante. A fome, a sede, o cansaço, a falta de munição e o verdadeiro
desmantelamento dos armamentos. Tudo isso somado redundou no enfraquecimento e
quase fim do bando lampiônico naquele momento singular na história de Virgulino
Ferreira. Seu know-how de homem estrategista ajudara a escapar de todas as
armadilhas e confrontos com as volantes, mas o batera sensivelmente. Lampião
não estava preparado para a derrota. Neste sentido Mossoró e Aurora
comprometeram para sempre os sólidos princípios da velha ousadia do cangaço
lampiônico.
A estratégia genial de Lampião na geografia da caatinga
No dia 7 de julho saíram às pressas da Ipueiras. O ziguezague que a partir dali
realizou no território aurorense foi algo só digno a um profundo conhecedor da
nossa caatinga. Na sua segunda marcha, Lampião seguiu na direção do Sudeste,
Serra do Coxá, Ingazeiras. Após a traição de Ipueiras Lampião seguiu para a
serra do Góes já na divisa com Caririaçu indo pelas bandas do Pau Branco
atravessando o Salgado na altura do sítio Barro Vermelho, passando pelo Jatobá,
Brandão e pernoitando em Vazantes. De lá se dirigiu para a serra dos Quintos e
no dia 9 para a serra dos Góes adentrando o município de Milagres transpondo a
linha de ferro na localidade de Morro Dourado ainda em Aurora. Uma volta que
envolveu todo o perímetro do território aurorense. Esta estratégia deixou
completamente perdidos os que lhe caçavam a ferro e fogo. Dali conseguiu
penetrar sem ser incomodado no estado da Paraíba pela a serra de Santa Inês. Um
fino estrategista militar. Dera um banho de conhecimento geográfico e
topográfico nas diversas frentes policiais que tentaram cercá-lo no Cariri e
alhures, sobretudo nas saídas para Paraíba e Pernambuco. Este tino de rasgar os
sertões com exímia perícia era uma coisa admirável no ‘Che Guevara’ dos grotões
nordestinos. Foi um notável também neste aspecto. Esta capacidade talvez, o
tenha ajudado bastante nas incursões que fizera com sucesso durante os anos que
se aventurou pelas íngremes e inóspitas regiões do Nordeste. Lugares que até
então, nenhum cristão da capital havia posto os pés e nem sequer ouvido falar.
Porém por conta de Lampião, estava lá nos jornais da época, na pauta dos
governos na boca da sociedade, malgrado a crítica contra ou a favor do
Virgulino. Por tudo isso, o cangaço ajudou de alguma maneira, a denunciar o
sofrimento dos sertanejos abandonados pela sorte e pelo poder e a excludência
social numa época em que o Brasil quase sempre não passava do Litoral.
Lampião e sua admiração por Aurora
Mas digamos que o Cariri no geral e Aurora em particular conquistaram a
admiração e o apreço do bandoleiro. Mas a propósito, quais as motivações que o
levaram a isso? A figura afamada do padre Cícero do Juazeiro? O difícil acesso
das volantes? O quase isolamento geográfico? Mas, a estrada de ferro? O rio
Salgado? A truculência dos coronéis? A fome, a miséria e a seca?
Há que se destacar a proteção do temível coronel Izaias e sua ligação política
como prefeito de Missão velha? Até armeiro consagrado o rei do cangaço possuía
por aqui. Sem dúvida, o rei do cangaço mantinha uma autêntica relação afetiva
com Aurora e boa parte desta região. Amigos, conforme a sua perspectiva...
Místico e religioso foi aqui que certa feita escolhera para sua suposta
iniciação ao grupo dos Penitentes da Ordem Santa Cruz. O propalado mito de que
Lampião se encantava, ficava invisível, tinha o corpo fechado, começou nas
paragens aurorenses. Vez que passara algumas vezes por meio da própria volante,
sob a proteção dos seus “irmãos” da Ordem. Como dizem, um destes fatos
inusitados ocorrera durante o cerca e o ataque que sofrera no sítio Ribeiro da
Aurora. Porém, o mistério continua... O certo, no entanto, é que Aurora ocupou
um lugar de destaque na rica história do cangaço lampiônico. E isso precisa ser
resgatado, pesquisado, contado e reescrito para que as novas gerações possam
conhecer no devido grau de importância histórica este verdadeiro fenômeno
social e sociológico dos nossos sertões.
Aurora e Lampião: uma história que não pode morrer
Não nos enganemos de novo. Digamos se tratar de uma nova luta: desta feita, não
apenas da memória contra o esquecimento total, como se de chofre possa se
imaginar pelo os menos atentos ou desavisados. Mas, a história narrativa dos
que não apenas a escreveram como história oficial e, ainda a defendem com unhas
e dentes, como a saga escritas ao sabor dos vencedores. Isso não. Defendamos a
história da autenticidade: como ela foi e como ela é. A história verdadeira dos
que fizeram parte dela sofreram com ela, protagonizaram-na em toda sua
inteireza, enfim, foram não somente objetos, mas, principalmente sujeitos dela.
E Aurora, indubitavelmente foi e será sempre, sujeito da sua própria história.
Geralmente a história escrita pelos vencedores nem sempre pode ajudar ao
serviço da verdade. O cangaço assim como as passagens de Lampião pelas terras
aurorenses não podem fugir a esta regra deveras imutável.
(*) artigo especialmente produzido para o seminário Cariri Cangaço.
Por: José Cicero
Blog de Aurora
http://www.aurora.ce.gov.br/imprimir.asp?id=287
http://blogdomendesemendes.blogspot.com