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terça-feira, 3 de abril de 2012

COLORADO RQ - De volta aos anos 70 - Por: Dihelson Mendonça

 

Alguém aqui viveu nos anos 70 ? Muita gente. E quem não se lembra quando a TV chegou ao Ceará e ao Cariri ? Eu tinha 4 anos de idade em 1970, e morava na vizinha cidade de Farias Brito. Por essa época, o maior comerciante local, chamado Antonio Leandro, começou a vender aparelhos de TV. Existiam lá basicamente dois modelos, o velho Colorado RQ, e o TV PHILIPS Planar.

Meu 
pai, que sempre foi uma pessoa muito entusiasmada pelas novas descobertas, comprou o segundo aparelho de TV da cidade, sendo que o primeiro ( claro ) era do dono da loja. E enfim, chegou o nosso philips planar em preto e branco ( colorida nem se falava ). Acontece que naquele tempo, a televisão "pegava" com sistema de repetidoras. Vinha por várias estações repetidoras desde Fortaleza até o Cariri ( não é como hoje, que vem via satélite ). Existia então, uma estação repetidora na Serra do Quincuncá, da antiga TV Ceará Canal 2, e funcionando com gerador a óleo diesel, só era ligada à tardinha, e desligada lá pelas 22 horas. Teve até um caso do último capítulo da novela "A barba azul", em que faltou o óleo, e um comerciante da cidade foi quem forneceu., o que ganhou a simpatia da população.

Foi através dessa TV, hoje rudimentar, que nós tivemos nossos primeiros contatos com o mundo "civilizado". Seriados como "O Túnel do Tempo", "Viagem ao fundo do mar", "terra de gigantes", e o clássico "Perdidos no Espaço". Parece até que estou vendo a sala lá de casa, com 50 crianças sentadas em qualquer lugar, assistindo Roy Rogers, Durango Kid, Hospitalouco, A feiticeira. Por essa época também, chegaram as primeiras geladeiras da era moderna, Consul, e o que não faltava na cidade, eram placas de "Vende-se Din Din". Era moda, tinha gente que colocava uma placa de "Din din" só pra dizer que tinha geladeira nova. Telefones na cidade ainda não existiam ou eram muito poucos, o contato com o mundo externo era feito via Rádio-Amador, que enviávamos recados, mensagens para parentes mundo afora, além dos correios, que eram de altíssima credibilidade. Ah! quando o carteiro passava, era uma 
festa na rua.

As estradas que ligavam Farias Brito ao Crato eram quase intrasitáveis no inverno, estradas carroçais, e haviam algumas maneiras de se vir ao Crato, como pelo "Rápido Crateús", ou pela "Viação varzealegrense", ou ainda pelo misto de "Seu Orlando", que ficava estacionado na praça principal. Quando alguém ficava doente e precisava de urgência, iam acordar o Antonio Sales, que possuía um Jeep, era muito eficiente, e atendia à cidade toda. Hoje Antonio Sales é proprietário de uma beneficiadora de arroz aqui em Crato, ali na Rua dos Cariris. Uma excelente pessoa. Aliás, quantas vezes eu não vim doente para o Crato nesse bendito Jeep do Antonio Sales ? Lembro-me de uma vez, muito criança, de colo, em que eu abri os olhos para o mundo. Primeiro foram os sons. Alguém dizia: "Ele tá tornando!" outro comentava: "Ele vai se acordar". O caso é que quando abri os olhos, haviam dezenas de pessoas cercando a cama e me olhando. Uns diziam que eu tinha "dado uma agonia" ( desmaio ), e já outro dizia: "é melhor levar logo pro Crato". Foi nessas idas e vindas ao Hospital São francisco de Assis, que acabei conhecendo o Crato, meus tios vieram morar ali na Cel. Luiz Teixeira, lá no alto do seminário, de onde se via boa parte da cidade baixa.


Aqui no Crato, o sistema de televisão no início dos anos 70 era também muito semelhante. Existia uma torre repetidora ali no Alto do Seminário, defronte ao seminário São José, que transmitia o Canal 10 ( TV verdes Mares ) para toda a cidade.


Mas televisão era um negócio muito caro para a classe pobre. Pobre sempre foi pobre, em qualquer lugar do mundo. Para facilitar as coisas, os prefeitos das cidadezinhas como Farias Brito, inventaram a tal da TV pública. Um aparelho de TV era montado em cada praça da cidade. lembro-me ainda do dia em que estavam montando a TV pública em Farias Brito, que ficava na esquina aonde hoje é a prefeitura. Ali, o calçadão não existia, e as pessoas ficavam assistindo da esquina da praça. Todo fim de tarde, um encarregado ia abrir o cadeado da caixinha de metal que abrigava a TV das chuvas, abria as duas portinholas e ligava a TV para o povão assistir as novelas. E que novelas boas as daquela época: Tinha "A barba azul", com Eva Vilma e Carlos Zara, que era sucesso, e tantas outras.


Na cidade, um dos maiores divertimentos era quando chegava a época da política. Os Fariasbritenses devem se lembrar das clássicas disputas entre Aurélio Liberalino de Menezes, e Gabriel Bezerra de Morais ( Seu Bié ). Meu pai era o encarregado da CAENE ( Companhia de Águas e Esgotos do Nordeste ), que depois virou CAGECE, e minha mãe trabalhava na prefeitura de Farias Brito na época do Bié. Eu estudava no Grupo escolar Getúlio Vargas ( estadual ), e competíamos com o Colégio Municipal, porque quem estudava no "estadual" tinha bem mais status que o "municipal". Meus tios ainda estudavam no Ginásio Enoch Rodrigues, instituição de bastante respeito na cidade.


Mas afinal, porque eu estou relatando todas essas coisas ?


Porque ao ver esses folhetos aqui de propagandas de lojas como a Zenir, Americanas, com computadores a preços populares, comecei a pensar cá com meus botões: A história se repete : "Um computador para cada casa". Vamos chegar em breve a um tempo em que haverá um computador ( e vários ), para cada residência. Lembranças dos anos 70, em que dizíamos: Um dia haverá uma TV em cada casa, e não tardou a acontecer. Estamos para o computador hoje, como a TV estava para os anos 70. Só que a velocidade com que a tecnologia se desenvolve hoje é estonteante. Um produto que se compra hoje, daqui a 6 meses está obsoleto, enquanto naquela época, se comprava uma geladeira por exemplo, para o resto da vida.


E aqui eu paro para pensar se de fato, a tecnologia melhorou muito nossa qualidade de vida ou não, pois mesmo quando não tínhamos toda essa parafernália de coisas eletrônicas, em nossas casas, parece até que éramos mais felizes, tocava-se na vida com os dedos, valorizava-se mais o trabalho, a dignidade, havia um senso de responsabilidade, de honestidade, de ganhar o pão com o suor do rosto, as famílias se arrumavam e iam todos à missa aos domingos, e depois às festas da cidade. As praças eram cheias de crianças brincando, correndo, havia música em toda parte, e o mundo era um lugar bem mais seguro de se viver.


Bom, mas eu ia escrever sobre uma coisa, e acabei escrevendo sobre várias outras coisas, tantas, que acho até que a crônica acabou se tornando melhor. Mas eu não sou nenhum Emerson Monteiro, Zé Flávio Vieira, ou Antonio Morais, sou apenas um reles cronista dos minutos livres. E por sinal, já vai começar o noticiário da CNN, com as últimas do Japão...


Pensando bem, estou ficando velho...sabe qual é a diferença entre você ter 15 anos e 45 ? Nenhuma. A única diferença é que o tempo passou, e muita coisa boa ficou pra trás. Mas em qualquer tempo, podemos ser felizes com tudo aquilo que temos, já que a única coisa que verdadeiramente temos sabe o que é ? A nossa vida e as nossas recordações. O resto...é o resto.


"Os nossos comerciais, por favor !"

( dedicado a Flávio Cavalcanti - Rei da Televisão )
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Por: Dihelson Mendonça

LEIA MAIS EM:


Christiano Câmara hoje no Cariri Cangaço-GECC


Musicólogo Christiano Câmara

Hoje, as sete da noite, na Saraiva Mega Store do Shopping Iguatemi, em Fortaleza, o musicólogo cearense Christiano Câmara apresenta Palestra com o tema "A História na Música"; uma oportunidade excepcional para quem, como nós, é apaixonado por nossas raízes, nossa história e nossa cultura. Quem conhece Christiano Câmara sabe que esse é um compromisso que não podemos faltar. Nesta terça-feira, logo mais as sete da noite, na Saraiva Mega Store do shopping Iguatemi em Fortaleza.

Christiano Câmara e "A História na Música"
Cariri Cangaço - GECC
Saraiva Mega Store  
Shopping Iguatemi, Fortaleza
19 Horas

Cariri Cangaço

http://cariricangaco.blogspot.com.br/2012/04/christiano-camara-hoje-no-cariri.html

VENTO NORTE (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa*
 Rangel Alves da Costa

VENTO NORTE
                                       
Depois das festanças, das alegrias e das felicidades exageradas, o povo do lugar sabia que já estava chegando os tempos de brisa e bonança passar e ter de enfrentar o sopro do vento norte. Mas que medo que isso dava, que aperreio isso trazia. Não era só enfrentar um vento, mas o vento. E o vento norte...

Se na brisa a paz reinava, tudo era encantamento e despreocupação, com a chegada do vento norte tudo passava a ser diferente. Era sempre assim e não adiantava fazer nada para mudar. Tudo parecia com aqueles ditados, inversamente dizendo que depois da calmaria vem a tempestade, depois do sorriso vem a lágrima, depois da alegria vem a tristeza.

O povo tristemente se afligia só em pensar na chegada do vento norte. Diferente da brisa que chegava como moça sublime e faceira, como canto suave pelo ar, o vento norte aparecia furioso, raivoso, tempestuoso demais, trazendo consigo inúmeras preocupações.

Eram tais preocupações que mais afligiam o povo do lugar. Mas tinha de ser assim, não podiam fugir desse destino de ter a brisa, a aragem boa, e depois o vento ruim. E por não poderem fugir desse desígnio é que sentavam nas calçadas, abriam as portas e janelas, se punham no meio do tempo, para o vento chegar com os seus maus presságios.

Quando avançava ao longe e já ia chegando à curva da montanha, de repente o lugar ficava sombrio, silencioso, triste demais. Mas ele avançava como mensageiro ruim, carteiro trazendo desagradáveis notícias, anunciante de coisas terríveis. Um zunido constante, rouco, estranhamente sibilado.

E chegava para a velha senhora sentada na cadeira de balanço na calçada e soprava: Pensei que dessa vez não ia encontrá-la mais por aqui. A senhora parece mais forte do que eu imaginava, e olhe que sei de tudo, do bom e do ruim, principalmente do pior. Mas a senhora está aí e é bom que seja assim, pois será a chance de me despedir. Na próxima vez que eu soprar por aqui a senhora não mais estará nessa vida...

E chegava pra solteirona que tentava se esconder por detrás da janela e dizia bem no ouvido: Fique assim não. Adianta você viver dia e noite nessa janela esperando homem passar para ver se arruma macho? Só mesmo um mais desesperado do que você pra olhar pra cá com sorrisos e trejeitos de esperança. E também não adianta tanto pó, tanto creme, tanta vermelhidão na boca e no rosto. Desse jeito será mais fácil assustar do que arranjar namorado. Já pensou em ficar nua pra ver se chama atenção? Se ficar nua e nenhum homem se interessar é porque pode mandar abrir uma cova e se enterrar viva...

E chegava pro padre que se benzia sem parar e dizia: Velho fingidor, mais falso do que inimigo enraivecido. Quem trai o divino, a religião, o rebanho e a própria igreja não pode ser digno de ser chamado semeador das graças cristãs. Nem me olhe assim porque o senhor sabe muito bem do que estou falando. E diga que é mentira minha que faz da sacristia puteiro, que furta o dinheiro doado pra igreja, que não enche a cara de cachaça quando está com as as beatas adúlteras? E só falta dizer que não peca mais do que o maior pecador que possa existir por aqui. Pois saiba, seu padreco de uma figa, que a qualquer momento vai ser convidado a ir se queimar todinho em certas labaredas e a ser pinicado pela ponta de ferrão quente...

E chegou assustador diante de um menino, porém antes de dizer alguma coisa ruim teve de ouvir: Deixe de besteira seu vento frouxo. Só eu sei por que você é assim. Como a brisa, aquela moça suave e faceira, não quer nada consigo e vive fugindo de sua presença, então você vive assim, furioso atrás dela e tentando fazer os outros sofrer por onde passa. Nunca vi dizer que uma brisa suave quisesse namorar um vento irritante e irritado. Saiba soprar também o sopro do amor e verá o quanto irá conseguir.

E o vento saiu de mansinho, desconfiado, quase sem forças nem para ir adiante. E foi preciso o menino soprar pra ele seguir pedindo perdão a tudo que encontrasse pela frente. Até encontrar a brisa, até também se tornar brisa, pois o amor junta e depois divide o melhor que há.
 

Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Esse chão, essa terra... (Poesia)


Esse chão, essa terra...
 Rangel Alves da Costa



Colocar os pés no chão
e seguir por aí
jamais será caminhar
ainda que o destino
vá seguindo adiante

toda estrada e caminho
mesmo em cima do asfalto
tem na terra seu berço
no chão seu laço fecundo
no grão a veia de tudo

pisar no que não gosta
amaldiçoar a lama
chutar as pedras e espinhos
fazer do percurso nativo
um sacrifício pra chegar

e talvez nem chegue
pois não beijou o chão
não acariciou a terra
não respeitou o sagrado
e bem sabe que o destino
não é cavado noutro lugar.



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com