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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sérgia Ribeiro da Silva - a cangaceira Dadá

Dadá, ao lado de Corisco - Foto de Benjamin Abrahão Botto.

Sérgia Ribeiro da Silva[1], mais conhecida como Dadá (Belém de São Francisco, 25 de abril de 1915 — Salvador, fevereiro de 1994), foi uma cangaceira - única mulher a pegar em armas no bando de Lampião.

Nasceu em Belém de São Francisco, onde viveu seus primeiros anos de vida e teve algum contato com índios. A família muda-se para a Bahia onde, aos treze anos, é raptada por Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto) - o "Diabo Loiro", de quem seria prima.

Cabocla bonita, esbelta, conheceu o homem da sua vida de forma violenta, em meio a caatinga árida por onde vivia errante o bando de cangaceiros. Consta que seu defloramento provocara-lhe tanta hemorragia que por pouco não faleceu.

A relação, que começara instintiva, transforma-se com o tempo. A vida nômade, seguindo o companheiro, que era o segundo homem, na hierarquia do bando, a chegada dos filhos, fez com que mais que uma amante Dadá se tornou a companheira de Corisco, com quem, ainda no meio das lutas veio a se casar.

Tiveram sete filhos, que eram ocultamente deixados em casas de parentes para serem criados. Destes, apenas três sobreviveram.

O bando de Lampíão dividia-se, como forma de defesa, em partes menores, a mais importante delas era justamente a chefiada por Corisco. A esposa tinha uma pistola, que ele dera, para sua defesa pessoal, e também lhe ensinou a ler, escrever e contar.

Num dos ataques feitos pelas volantes (em outubro de 1939, na fazenda Lagoa da Serra em Sergipe), o Diabo Louro é ferido em ambas as mãos, perdendo a capacidade para atirar. Dadá, então, torna-se a primeira e única mulher a tomar parte ativa - e não meramente defensiva - nas lutas do cangaço.

Se o marido era temido como um dos mais violentos bandoleiros, consta que muitas pessoas tiveram sua vida poupada graças à intervenção de sua companheira. Dada também era chamado "Suaçuarana do Cangaço".

Tendo Lampião sido executado em 1938, Corisco, que estava em Alagoas com parte do bando, empreendeu feroz vingança. Como seus companheiros tiveram as cabeças decepadas, e expostas no Museu Nina Rodrigues de criminologia, na capital baiana, Corisco também cortou a cabeça de muitas vítimas, então.

O cangaço definhava, sobretudo pela disparidade de armamentos: os volantes tinham uma arma que os cangaceiros nunca conseguiram obter: a metralhadora. A própria Justiça passa a oferecer vantagens para os bandoleiros que se rendessem.

A 25 de maio de 1940 Corisco e seu bando é cercado em Brotas de Macaúbas, pela volante do tenente Zé Rufino. Dissolvera o bando, e abandonara as vestes típicas, procurando passar por simples retirantes.
Uma rajada da metralhadora rompe os intestinos de Corisco. Dadá é ferida na perna direita.

O último líder do cangaço morre dez horas depois do ataque, sendo enterrado em Jeremoabo e, dez dias após, exumado e a cabeça decepada é enviada ao Museu, junto às demais do bando.

Dadá, colocada em condições infectas, tem seu ferimento agravado para uma gangrena, que restou-lhe, na prisão, à amputação quase total da perna. Por essa situação, o célebre rábula baiano Cosme de Farias, representa Dadá na Justiça, pleiteando sua libertação, em 1942.

Dadá passou a viver em Salvador, lutando para ver a legislação que assegura o respeito aos mortos fosse cumprida - e a tétrica exposição do Museu Antropológico Estácio de Lima[2], localizado no prédio do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues tivesse fim. Só a 6 de fevereiro de 1969, no governo Luiz Viana Filho, foi que os restos mortais dos cangaceiros puderam ser inumados definitivamente - tendo, porém, o museu feito moldes para expor, em substituição.

Por sua luta e representatividade feminina, Dadá foi, na década de 1980, homenageada pela Câmara Municipal de Salvador. Na Bahia, que tivera Gláuber Rocha e tantos outros a retratar o cangaço nas artes, Dadá era a última prova viva a testemunhar o cotidiano de lutas, dificuldades e, também, de alegrias e divertimentos. Deu muitas entrevistas, demonstrando sua inteligência e desenvoltura.

Morreu, na capital baiana, em 1994.

http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9rgia_Ribeiro_da_Silva




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Verdades da Profissão de Professor

Por: Paulo Freire
www.onordeste.com

Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. 

dayanapb.blogspot.com

Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho. A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.

http://www.mensagenscomamor.com/frases_para_professores_e_Professoras.htm

JUSTIÇA PARA LAMPIÃO

Na foto, as cabeças mumificadas de Lampião e Maria Bonita nas mãos do Dr. Estácio de Lima, diretor do Museu Etnográfico e Antropológico do Instituto Nina Rodrigues em Salvador, onde os restos mortais permaneceram por 31 anos.

O massacre na Grota de Angicos em 28 de Julho de 1938 resultou na morte de Lampião e Maria Bonita e de outros 9 cangaceiros, que em seguida tiveram suas cabeças arrancadas e exibidas como troféus por várias cidades: Piranhas - AL, Maceió - AL, Santana do Ipanema - AL, Aracaju - SE, Rio de Janeiro - RJ e Salvador - BA, onde permaneceram no Museu Etnográfico e Antropológico do Instituto Nina Rodrigues até 1969, quando enfim foram sepultadas (durante muito tempo, as famílias de Lampião, Maria Bonita e Corisco - este morto em 1940, lutaram para dar um enterro digno a seus parentes, mas só em 1969 os crânios foram enterrados no cemitério Quinta dos Lázaros em Salvador). Em 2003, depois de muitas reivindicações, os restos mortais foram finalmente entregues às famílias dos cangaceiros (conta-se que as cabeças de Lampião e Maria Bonita foram levadas para um jazigo da família em Aracaju).

A revista "O Cruzeiro", em 6 de Junho de 1959 publicou uma matéria denominada "Justiça para Lampião", relatando a queixa desses parentes e o posicionamento do diretor do museu, Dr. Estácio de Lima, em não querer entregar as cabeças por defender que os restos mortais deveriam permanecer no centro de pesquisa, a exemplo das múmias egípcias, maias e incas, para serem estudadas.

Matéria de O Cruzeiro, de 6 de Junho de 1959, por João Martins:

Em Salvador fomos encontrar o Dr. Estácio de Lima, professor da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Direito e Diretor do Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues. Não queríamos, nesta reportagem, apresentar apenas um lado da questão. Ao contrário, nosso objetivo era fornecer todos os dados, tôdas as razões alegadas tanto por uma como por outra parte, pois o público, e não nós, é que deve julgar. E para julgar precisa ter um conhecimento total do assunto. Do contrário, faríamos apenas baixo sensacionalismo, sem finalidade construtiva. Não nos interessa acirrar paixões cegas: a nós, interessa, apenas, que seja feita justiça, com serenidade e consciência. Assim, a palavra do Prof. Estácio de Lima, que é homem de grande inteligência e cultura, era absolutamente necessária que fôsse ouvida. Afinal de contas, que razões o levariam a manter os trágicos despojos no Museu que dirige, um Museu que é dos mais famosos, mais conceituados e mais sérios do Mundo? Sendo a Bahia o berço da nossa civilização, das nossas tradições cristãs, da nossa cultura, porque deveriam exisitir lá essas cabeças decepadas? Haveria alguma razão para tal? E se existisse, que razão seria essa? O próprio diretor do Departamento de Turismo da Prefeitura de Salvador, o escritor Carlos Vasconcelos Maia, que tem realizado um grande trabalho no seu setor, nos dissera que, do ponto de vista turístico, não havia nenhum motivo para a conservação das cabeças. A Bahia, com tantos encantos e tantas atrações, não precisava de tais troféus para mostrar aos seus visitantes. Pelo contrário, a maior parte dos turistas que iam ver as cabeças saíam marcados por uma impressão nauseante e desfavorável. Entretanto, conforme frisou êle, o Museu era um excelente centro científico e não um lugar de turismo. E se excusou de dar uma opinião específica, lembrando que a única pessoa habilitada para tal era o Prof. Estácio de Lima, um cientista brilhante e o responsável pelo Museu. Êste, por sua vez, não se negou a nos atender. E declarou: 

“- As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram ofertadas ao Museu, há vinte e um anos, pelo Prof. Lajes Filho, catedrático da Cadeira de Medicina-Legal de Alagoas. Aqui também estão as cabeças de Corisco, Azulão, Zabelê, Canjica e Maria, todos cangaceiros. Compreendo perfeitamente os sentimentos da família de Lampião. Mas precisamos, principalmente no campo científico, nos guiar pela razão, em vez de nos deixar dominar pelo sentimento. As cabeças estão conservadas pelo método egípcio de mumificação. Elas são documentos inestimáveis de uma época da criminalidade brasileira. Daqui a cem anos, elas ainda demonstrarão que Lampião não era um assassino nato, um lombrosiano. Êle era fruto de condições sociais, políticas e econômicas. Foi uma vítima do seu tempo e do seu ambiente. Essas cabeças são uma lição de tôdas as horas de que fenômenos, como o cangaceirismo, não podem nem devem ser exterminados com armas, mas sim com a criação de fatôres que não propiciem a sua eclosão. Dizem que elas não têm utilidade científica. Então, nada do que se encontra nesse Museu tem utilidade. Temos aqui corpos inteiros mumificados, esqueletos, fetos, monstros etc. Todos os restos mortais que aqui estão pertenceram a gente que também tem parentes, ou descendente. Deveríamos nesse caso enterrar tudo, não só dêste Museu, como de todos os outros que existem no mundo, inclusive as múmias egípcias. Por outro lado, é preciso lembrar que êste Museu é um centro científico. As cabeças não estão expostas em público, nem sofrem qualquer desrespeito. Em janeiro do ano passado estiveram aqui tôdos os professôres de Medicina-Legal e Antropologia do Brasil, reunidos em Congresso Nacional. Examinaram as cabeças e nenhum foi contra a sua conservação. Elas são peças científicas, como o são, por exemplo, os cérebros de Einstein e de Lenin, também conservados. As próprias religiões conservam os corpos dos seus santos. Entretanto, dizem que essas cabeças são como um estigma para a família de Lampião. Estigma, por quê? Se existisse algum estigma, êste não seria dado pelas cabeças mumificadas mas, sim, pelos atos de Lampião. E a lembrança deles não se apagará com o sepultamento dos despojos. Como já disse, porém, não há nenhum motivo de estigmatização, pois, hoje Lampião é visto e julgado não como assassino vulgar, mas como um produto do estado de coisas na sua época e no seu meio. Sabemos que os cangaceiros eram, não só recuperáveis, como um valioso material humano. E que fizeram os que hoje gritam pelas cabeças em prol dos cangaceiros que sobreviveram, aquêles que foram irmãos de luta e de sofrimento de Lampião? Nada. No entanto, eu fiz. Escrevi relatórios pedindo o indulto para todos ao Presidente da República. Rebelei-me contra o julgamento que queriam fazer em Volta Sêca, um julgamento de adulto, provando que êle era menor e depois lhe conseguindo a liberdade condicional. Trabalhei pela recuperação de todos e pela sua integração na sociedade. Continuo em contato com êles, ajudando-os nos seus problemas. Aí estão, vivos, trabalhando decentemente, com famílias constituídas, Labareda, Saracura, Cacheado, Velocidade, Deus Te Guie e muitos outros. Sabem quem são os guardas do Museu, os homens responsáveis inclusive pelas cabeças de Lampião e Maria Bonita? Labareda e Saracura, seus antigos companheiros, adimitidos por mim como funcionários de tôda a confiança. Nenhum dos antigos cangaceiros protesta, nenhum vê qualquer desrespeito pelo seu antigo chefe, todos compreendem o que aqui está. Os cangaceiros, meus amigos, são homens excepcionais, corretos, leais, sem o menor perigo de reincidência no crime, pois não são anormais. Foram presos exemplares e agora são cidadãos exemplares. As cabeças que aqui estão demonstrarão uma realidade social através dos tempos. Como poderemos, agora, por sentimentalismo, perder êsses documentos de uma época? Êste Museu, criado em fins do século XIX por Nina Rodrigues, tinha em seu poder as cabeças do famoso bandoleiro Lucas da Feira e de Antônio Conselheiro. Ambas se perderam no grande incêndio de 1905, que destruiu a Faculdade de Medicina e o Museu. Hoje, todos lamentam essa perda. Que dirão, no futuro, se destruirmos essas peças de tão alto valor para a ciência e a história? Sou humano e compreendo o que está ocorrendo. Mas, como já disse, não podemos nos deixar dominar pelo sentimentalismo, e sim pela razão. Êsse é o dever dos cientistas. E peço que também compreendam êste lado da questão”.

Aí têm os leitores as razões apresentadas pelas duas partes interessadas no caso das cabeças mumificadas de lampião e Maria Bonita. O público é que deve julgar. Ambos os lados alinham motivos e considerações dignas de respeito. A questão deve ser decidida num plano alto. De qualquer maneira, enterrada ou não, a cabeça de Lampião permanecerá na história da nossa evolução social. Lampião foi incontestàvelmente um líder, um homem de grandes qualidades de chefia, um rebelado contra um sistema de coisas que imperava (e ainda não desapareceu de todo) no sertão nordestino. Dêle disse o Major Optato Gueiros, que o combateu:

“- Lampião foi um gênio militar perdido. Um grande homem que o meio e as circunstâncias tornaram bandido”.

A verdade é que as fôrças policiais que o perseguiam, as famigeradas volantes, eram tão ou mais sanguinárias que os cangaceiros. Para muitos sertanejos, a Lei e as autoridades que a executavam não passavam de opressores. Lampião, para muitos, foi um libertador, um vingador. E o dever de todos é trabalhar para que, nas caatingas nordestinas, desapareçam todos os fatôres que no passado criaram os cangaceiros e que hoje ainda fabricam bandidos. O cangaceirismo, tal como era no tempo de Virgulino, não pode ressurgir em virtude das estradas, da facilidade de comunicações pelo rádio, da aviação, das armas automáticas. Mas, infelizmente, só êsses elementos materiais é que impedem que, no Nordeste, surja outro Lampião. As condições sociais e econômicas, que ainda lá existem, permanecem como fábrica de injustiças, de miséria, de revolta e de desespêro.
A vida e morte de Lampião ficaram como marcos impagáveis. Discute-se ainda se êle morreu em combate, de surprêsa ou envenenado. A discussão é estéril. Grande importância tem, sim, a sua vida e as suas andanças. Nêle estavam retratadas fielmente tôdas as virtudes e todos os defeitos do nordestino. Capaz de gestos nobres e de atos sanguinários. Cruel e justiceiro. Bom e perverso. Grande na coragem, implacável na vingança, terno no amor. Êle era, ao mesmo tempo, um vaqueiro, um músico, um poeta e um cangaceiro. O seu primo, o Dr. Antônio Ferreira Magalhães, está justamente escrevendo um livro que abrange êsses diversos aspectos do seu famoso parente. O tempo passou e agora podemos vê-lo em conjunto, como êle realmente era. De tudo, porém, o mais tocante era o seu amor a Maria Bonita. Diante da morena baiana, o seu coração floresceu. E dêsse amor ficou um fruto, que o perpetuou em outros filhos. Agora, materialmente, Lampião e Maria Bonita estão reduzidos a duas cabeças que se encontram mumificadas num museu do Estado da Bahia. Devemos deixá-las onde estão ou devemos dar-lhes sepultura cristã? Essa é a questão.

Maria Bonita

Por: José Mendes Pereira
José Mendes Pereira

O que disse Volta Seca ao jornalista do jornal o Pasquim no ano de 1973, sobre a entrada de 

Maria Bonita

Maria Bonita para o cangaço, foi bem detalhado. Mas uma resposta me deixou inquieto. O jornalista fez-lhe uma pergunta:

Volta Seca

- Ela atirava também?”. E ele o respondeu:
- Atirava! Eu queria está com ela e não queria está com dez homens da marca dos que eu conheço por aqui. Estava mais satisfeito”.

O cangaceiro Balão

A resposta de Volta Seca contraria o que disse Balão em novembro de 1973 à Revista Realidade. Veja: “Maria Bonita usava uma pistola Mauser de 11 tiros, mas também não atirava nada”. Balão deixou a sua resposta com duplo sentido. Quem era que não atirava nada, Maria Bonita ou a mauser?
Eu acho difícil Maria Bonita ter assassinado alguém no período em que ela participou do movimento social dos cangaceiros. É óbvio que o seu olhar era sério, duro, mas apenas o olhar, e dentro dela batia um coração amável e generoso. Afinal, Maria Bonita entrou no cangaço não para se vingar de ninguém, e sim, para ser a mulher do homem que ela achava que era a sua verdadeira alma gêmea. 
Em tudo que eu tenho lido sobre o cangaço ainda não encontrei algo escrito por algum autor de livros, textos ou outra coisa parecida, afirmando que Maria Bonita era perversa. 
Mesmo eu discordando algumas respostas de Balão na entrevista que ele também cedeu em novembro de 1973 à Revista Realidade, e deixando a resposta com duplo sentido, eu estou mais para acreditar nele, quando disse que Maria Bonita não atirava nada. 

José Mendes Pereira – Mossoró-Rn.

domingo, 14 de outubro de 2012

"Chico Pereira" - O CANGACEIRO

Por: Ivanildo Alves da Silveira

Vingança no Sertão – Código de honra

O sertão nordestino sempre teve seus códigos de honra. Quando alguém ousava quebrar tais códigos, estaria assinando uma sentença de morte.

Sabemos que o sertanejo é homem forte e destemido, enfrentando as intempéries da seca, além de outras adversidades, mas capaz de superá-las, com coragem e altivez. O sertão é misterioso, implacável e não perdoa os erros ou quebra da palavra empenhada, que significa dizer: código principal da honra sertaneja.

O cangaceiro Chico Pereira

O que aconteceu com Chico Pereira não poderia jamais ter sido diferente, mesmo tendo prometido ao pai moribundo, não participar ou promover qualquer tipo de vingança. Vingança aconteceu. E a história já fez o seu julgamento.

Vejamos, através da narração dos fatos, como tudo aconteceu.

O coronel João Pereira, morava na cidade de Nazarezinho, outrora distrito de Souza/PB, era casado com Dona Maria Egilda, proprietário da fazenda Jacu, possuía um barracão em Nazarezinho e tinha sete filhos, sendo quatro homens e três mulheres.

Uma noite, João Pereira, já prestes a fechar seu estabelecimento, viu entrarem três homens
armados. Ao atendê-los, o coronel chamou a atenção deles sobre o uso de armas, quando na época havia uma proibição municipal que não permitia pessoas andarem armadas. Isso foi o suficiente para início de uma discussão seguida de tiroteio e facadas, pancadarias e gritaria, resultando em alguns mortos e outros feridos, inclusive o coronel João Pereira, o qual foi levado para sua casa na fazenda Jacu, distante cerca de cinco quilômetros.

Em consequência dos ferimentos graves, o coronel veio a falecer diante de sua família, suplicando aos filhos para que não se vingassem. "Vingança, NÃO." foram suas últimas palavras.

Há revolta do povo que não se conformava com a morte do coronel e pedia justiça, uma vez que a polícia apresentava nenhum interesse em prender o foragido Zé Dias, envolvido na chacina e protegido pelas autoridades locais.

Chico Pereira, o filho mais velho do coronel, com apenas vinte e dois anos de idade, se viu impelido pela comunidade a fazer justiça. Pressionado, sai à procura de Zé Dias que se refugiara nas serras da região. Chico Pereira encontra-o, prende-o e o leva à delegacia, sendo ovacionado pelo povo que queria ver Zé Dias preso.

Após alguns dias, o criminoso já se encontrava solto. A população revolta-se e passa a exigir vingança por parte do filho mais velho do coronel. Este, sem outra opção, se vê obrigado a não cumprir o pedido do pai moribundo e parte para a Vingança, como era costume na época, exigência da lei de honra, familiar do sertão. Depois de alguns dias, o criminoso é encontrado morto. Maria Egilda, finalmente ouve do filho a declaração que mais temia: "Mamãe, fizeram-me criminoso':

E foge, passando a viver clandestinamente nas matas da região. Para enfrentar a polícia e não ser preso cria um bando de cangaceiros.

Chico Pereira começa então sua saga que dura mais de seis anos, ora fugindo da polícia, ora comandando o bando. Mesmo diante de tantos problemas e da vida tumultuada, sua noiva, Jardelina, jovem adolescente de doze anos de idade, quando noivara, não hesitou em se casar com ele, aos quatorze, em cerimônia realizada por procuração. Foi esta a única saída possível e que lhe possibilitou ser pai de três filhos, os quais não chegaram a conhecê-lo, pois Jarda, como era conhecida, já estava viúva com apenas dezessete anos de idade.

Absolvido em júri popular, na Paraíba, Chico Pereira foi acusado de um crime que não cometeu no Rio Grande do Norte, onde nunca estivera. Apesar de contar com a proteção do Presidente do Estado da Paraíba, através de um irmão deste, foi levado para aquele estado e entregue à justiça potiguar.

Tempos depois, foi Chico Pereira transferido do presídio de Natal/RN para o interior do estado. Os policiais potiguares, devidamente instruídos, forjaram um capotamento do carro, massacraram-no e o matam sem a menor chance de defesa. Estava Chico Pereira com vinte e oito anos de idade. Sua mãe, dona Maria Egilda, nem sequer teve a sorte de enterrar o seu filho, pois preferiu seguir a orientação do advogado da família, Doutor João Café Filho ( futuro presidente do Brasil), que recomendou para ninguém da família pisar em terras do Estado vizinho sob pena de ser morta.

A tragédia continua com o assassinato inesperado e brutal de Aproniano, e a prematura morte de Abdon, que estuda medicina no Rio de Janeiro. Este, acometido de tuberculose, veio a falecer nos braços de sua mãe, na fazenda Jacu.

Vida longa teve o único sobrevivente, Abdias, que veio a falecer recentemente, no dia 28 de julho de 2004, com cento e três anos de idade. Dos três filhos de Chico Pereira, Raimundo formou-se engenheiro, no Recife; Francisco ordenou-se padre em Roma e o terceiro, Dagmar, é frade franciscano com nome de Frei Albano.

Chico Pereira foi um dos homens mais destemido do sertão paraibano, que levado pelas circunstâncias da época, fez "justiça" com as próprias mãos e tornou-se cangaceiro.


FONTES DE PESQUISA:

01- Vingança, Não - Autor: F. Pereira Nóbrega (Filho de Chico Pereira);
02- A Vingança de Chico Pereira - Autor: João Dantas


Um abraço, obrigado pela leitura, e poste seus comentários, logo abaixo.

Ivanildo Silveira
Natal RN

Extra - Procura-se


Francisco Batista nasceu na cidade de João Câmara, mas foi criado emParazinho, também no Rio Grande do Norte. Ele é filho de Filomena Batista e Antonio Firmino Carlos. Seus irmãos são: Manoel Batista, Luiz Batista, Cícero Batista, Gideão Batista e Lourdes Batista. 

Após a morte do seu pai, sua mãe casou-se com seu tio Argemiro Chaves e tiveram mais filhos, sendo eles: Alvino Chaves Batista, Arnaldo Chaves Batista e Raimunda Chaves Batista. Estes últimos foram criados em Angico Velho.

Francisco  Batista não vê seus familiares a mais de 60 anos. Hoje Francisco Batista mora em Cuiabá. 

Se alguém souber aonde se encontra os seus irmãos, entrar em contato com  os telefones: (065)92725022 / (065) 92862585, falar com Neusa, ou mesmo através deste email facebook tatianny_motta@hotmail.com.
Caso contrário, entrar em contato com: 

josemendesp58@hotmail.com, 
josemendesp58@gmail.com 
ou ainda através deste blog. 

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Convite do lançamento do meu novo livro

O autor do livro:  "Eu não sou herói-A história de Emil Petr". Rostand Medeiros

Amigos e amigas,

Com satisfação e alegria envio



o convite do lançamento nosso novo trabalho


"Eu não sou herói-A história de Emil Petr".

O evento ocorrerá no dia 31 de outubro de 2012 (quarta-feira), ás 19:00, no Iate Clube de Natal. 

A edição deste nosso livro ficou a cargo da Editora Jovens Escribas, tendo a frente o editor e autor Carlos Fialho.

Convido todos vocês que batalham pela história a visitarem o nosso blog TOK DE HISTÓRIA e conhecerem mais deste nosso livro.

Um abraço a todos e gratos pela atenção.

Rostand Medeiros

sábado, 13 de outubro de 2012

Os Nazarenos

Odilon e Euclides Flor

O Capitão Jorge Alfredo Bonessi diz em um dos seus artigos, publicado no blog Cariri Cangaço:
http://cariricangaco.blogspot.com.br/2010_11_01_archive.html

Capitão Jorge Alfredo Bonessi

"Sabe-se que no mesmo dia da luta, à tarde, Odilon Flor chegou ao coito de Angicos, e ao ver os cadáveres de Lampião e Maria Bonita  chorou dizendo:

- Choro  esse que não se pode avaliar agora se foi de alegria, se foi de frustração  pelo feito  não ser obra sua, 

- Choro de final de campanha, 

- Choro porque a guerra no sertão tinha acabado, 

- Choro de despedida,  

- Choro de saudades dos amigos que morreram na luta,  

- Choro pelos sofrimentos que passou, pelo cansaço, pelas pessoas que sofreram mortes horríveis nas mãos dos cangaceiros,  

- Choro pelo horror que presenciou ante as vítimas  deixadas nas passagens do cangaço pelo chão sertanejo..."

E continua o pesquisador:

"O Coronel Lucena, Chefe Geral da Polícia depois do comandante, Capitão Teodoreto Camargo, do Exército, estava em Santana de Ipanema, sede geral da volante, tomando uma sopa, na casa de um amigo, quando o telegrama dando noticias da morte de Lampião e mais dez cangaceiros chegou as suas mãos: ele também chorou."

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Companheiros inseparáveis - Faca, facão e punhal: Poder e vaidade no Cangaço

Por: Willian White
O rei Lampião

Com a exceção da primeira, as demais fotos ficaram por conta e risco do Lampião Aceso).

Um projeto da envergadura e abrangência deste catálogo sobre Facas Brasileiras precisa tratar, mesmo que em rápidas palavras, de um movimento  típico do Nordeste brasileiro que fez uso permanente e intensivo de diversos tipos de armas brancas: o cangaço. Cangaço  era o agrupamento de indivíduos em bandos de variados tamanhos, desde 3 ou 4 a mais de uma centena, em geral jovens oriundos da zona rural  que se juntavam para cometer crimes diversos, sempre motivados por três objetivos: vingar-se de alguém, proteger-se de alguma vingança ou simplesmente ter uma “profissão” rendosa.


Não se sabe exatamente com quem, onde ou quando esse tipo de atividade teve início. Entretanto, se a localizarmos nos Estados de Pernambuco e Bahia nas primeiras décadas do século 19 e, mais precisamente, de 1850  em diante, certamente estaremos muito próximos da realidade. Importante para os objetivos desta publicação é saber que seu apogeu ocorreu nas décadas de 1920 e 1930 do século XX,  período que coincidiu com o domínio absoluto do mais terrível  dos chefes cangaceiros: Virgulino Ferreira da Silva que, sob o vulgo de Lampião, aterrorizou sete estados do Nordeste brasileiro.

Lampião nasceu a 4 de junho de 1898 no Sítio Passagem das Pedras, município de Vila Bela, atual Serra Talhada, no Estado de Pernambuco. Desde muito cedo mostrou-se dono de inteligência anormalmente desenvolvida para os padrões da classe social a que pertencia.  Era almocreve por profissão, além de hábil produtor de arreios e roupas de couro, sanfoneiro, vaqueiro de primeira ordem, amansador de burros e sabia ler e escrever regularmente. Por motivos ainda hoje controversos, tornou-se cangaceiro com cerca de 16 anos juntamente com seus irmãos Antônio, Livino e, posteriormente, Ezequiel.

Os irmãos Ferreira acabaram por unir forças com Sinhô Pereira, chefe do até então principal grupo de cangaço em atividade na área e que, ao abandonar a vida de bandoleiro por volta de junho de 1922, deixa seu bando sob o comando de Lampião que à época contava apenas 24 anos. Foi agraciado com a falsa patente de Capitão em 1926 por pressão de personalidades do Juazeiro do Norte (CE), entre eles o Deputado Federal Floro Bartolomeu e o próprio Padre Cícero Romão Batista com a intenção de que combatesse a Coluna Prestes, de passagem pela região.  Morreu na Grota de Angico, município de Porto da Folha (SE), atualmente pertencente ao município de Poço Redondo, em 28 de julho de 1938, aos 40 anos de idade e após 22 anos de atividade cangaceira ininterrupta.

Os bandos do cangaço lampiônico, se assim podemos chamar o período áureo desta atividade, eram prioritariamente compostos por jovens oriundos de algum latifúndio pertencente a um coronel-de-barranco, tremenda força política de então nas caatingas, onde exerciam a função de vaqueiros ou simples moradores e parceiros. Assim sendo, e por força das próprias atividades que desempenhavam, estes indivíduos desde a mais tenra idade se familiarizavam com o sangue de animais que abatiam e com as lâminas com que desempenhavam esta função. Era tudo muito mecânico, normal e rotineiro. A intimidade que tinham com facas e a indiferença pelo sangue e a morte eram fatores importantes quando entravam para um bando cangaceiro.

Além deste aspecto, os jovens delinqüentes eram vistos com extrema admiração pelas moças de vilas e fazendas, pois que andavam sempre vestidos à sua maneira vistosa característica, endinheirados e exalavam poder já que muito raramente encontravam resistência em suas andanças e ataques. Parece inclusive ter ocorrido uma certa reordenação na hierarquia do poder sertanejo, já que de certa forma  o coronel latifundiário também foi cerceado em seu mandonismo absoluto pelo rifle insolente do cangaceiro, de maneira que a arma substituía a posse da terra na estrutura social da caatinga. O cangaço usava do sequestro a dinheiro, do fogo em pastos, casas e currais, da matança indiscriminada de rebanhos e de uma série de outras ameaças largamente cumpridas para obter recursos e manifestar seu efetivo poder não apenas em relação ao coronel, mas à população sertaneja em geral.

Alguns autores têm se ocupado em pesquisar a estética do cangaço apesar da escassa fonte de informações existente. Muita divergência surge desses trabalhos, mas há unanimidade quando se referem à vaidade do cangaceiro. E por muitos aspectos. A citada intimidade do homem em geral e do cangaceiro em particular com as armas brancas é histórica, ficando até a dúvida de que se seria mesmo o cão o melhor amigo do homem do cangaço. A estética de sua indumentária lembra algo de mouro trazido pelos portugueses durante o período colonial e particularizada ao sertão.

A marca registrada dessa composição, não há dúvida, é o grande chapéu de couro com a aba rebatida na frente e atrás, fortemente adornado com medalhas de santos, moedas de prata e ouro, signos de Salomão e outros penduricalhos. Apesar de haver um padrão relativamente bem definido de suas vestimentas e adornos, cada indivíduo do grupo tinha o direito, e o exercia com capricho, de manifestar sua vaidade como melhor entendesse. Isso ia do tipo de meia que usavam  à aplicação de enfeites nas alças dos mosquetões e fuzis, ao número e tipo de anéis que adornavam suas mãos, muitas vezes um em cada dedo - sendo alguns destes premiados com dois -, o comprimento dos cabelos e o trato de brilhantina e perfume que recebiam, os óculos de grau ou de sol,  a luneta e uma infinidade de outros quesitos com particular atenção dedicada às facas, facões e punhais.



Lambedeiras de Elétrico e Quinta-Feira. Abaixo: "Estoque" de Catingueira e Pajeuzeira de Avelino, 1909 Coleção de Frederico Pernambucano de Mello. Foto de Valentina Fildini. In Estrelas de Couro - A estética do Cangaço, pág 135.

Quanto à importância de cada lâmina carregada pelo cangaceiro pode ser dito que o facão era utilizado nas tarefas mais duras como o corte de galhos de árvores para montagem de suas barracas, o esquartejamento de bovinos e outros. No geral não chamavam muito a atenção com a honrosa exceção de um que Lampião portava e possuía cabo de prata lavrada com muito esmero e apresentando em sua porção final uma cabeça de águia esculpida. Mas por serem de feitio comum e carregados por poucos elementos do cangaço, eram praticamente escondidos sob a axila de seu proprietário,  de forma que permaneciam muito pouco visíveis. Ressalte-se aqui que mesmo feiosos e sem grande prestígio, tais facões acabaram, por ironia do destino, participando do ato final da epopéia cangaceira ao serem utilizados para decapitar os onze cangaceiros mortos na grota sergipana naquela garoenta madrugada do inverno de 1938. Dois anos antes, a 7 de junho de 1936, o cangaceiro José Baiano, violento chefe de um subgrupo, foi morto à traição juntamente com outros 3 companheiros e teve sua cabeça “separada do pescoço por sucessivos golpes de facão”,  conforme atesta a Certidão de Exumação emitida pela Secretaria de Segurança Pública de Sergipe.

Rasparam minha cabeça
Como quem raspa um leitão

Botaram água fervendo

Caía pêlo no chão
Eu berrava como um bode
Minha barba e meu bigode
Raparam com um facão     

Em vez da noiva enxerguei
De cartucheira na mão
Um grupo de cangaceiros
E o bandido Lampião
Pensei que estava sonhando
Quando acordei fui levando
Uma surra de facão¹
(...)



Facão curto de Lampião: Gavião guarnecido por cachorro, 1938. Coleção privada. In Estrelas de Couro - A estética do cangaço pág. 134. Frederico Pernambucano de Melo.

A faca talvez tenha sido a lâmina de maior utilidade pois servia a muitos fins,  como matar, esfolar e retalhar pequenas criações, castrar animais e, vez por outra, homens, cortar couro e tecidos para a produção de arreios e roupas, retirar balas alojadas em seus corpos, descascar frutas, cortar queijo e o que mais fosse necessário. Estas facas apresentavam características muito diversas umas das outras e algumas eram verdadeiras obras de arte muitíssimo trabalhadas. Apresentavam lâminas de cerca de 20 a 30 cm com cabos caprichosamente executados por alguns cuteleiros que se tornaram famosos, casos da família Caroca na Paraíba e da família Pereira no Cariri cearense.

Eram cabos compostos por pequenos discos de materiais diversos como chifre bovino, caprino ou ovino, madeira, prata, cobre, níquel, alpaca, marfim, osso e eventualmente até ouro. No entanto, o uso deste metal estava longe de ser a regra. Comumente, para o uso cotidiano, as facas eram lâminas simples e com cabo de madeira ordinária, especialmente com o advento da industrialização por volta de 1930, fato que colaborou bastante para a extinção da cutelaria artística como era até então conhecida. Era mais importante que seu aço pegasse bom fio do que tivesse alto senso estético.  Estas também pouco apareciam na indumentária do cangaço. Quase sempre estavam guardadas no cós da calça, nas costas, ou na mesma posição do facão, ou seja, sob as axilas.

Porque na ponta da faca
Uma barriga não erro
E um ladrão que me rouba
Até o cabo eu enterro
Pule o que for mais valente
Para eu corrê-lo no ferro²

Dei uma volta na rua
Encontrei um camarada
Com uma faca de ponta
Feita de aço de espada
No momento que eu cheguei
Sem desejar encontrei
Um princípio de zoada³
(...)

Finalmente, e com notável destaque, havia o punhal. Utilizado apenas como arma perfurante, posto não possuir fio em nenhum dos lados, mas apenas a ponta extremamente aguçada própria para sangrar animais em geral, inclusive homens, como atestam inúmeros registros de diversos autores. Tratamento especial e diferenciado sempre foi dedicado aos punhais, estes sim, motivo de orgulho e vaidade de seus proprietários.

Eram sempre carregados de forma ostensiva, transversalmente ao abdome que lhes servia de perfeita moldura, e sustentados pelo cinturão de balas.



A vaidade de cada um se manifestava neles de diversas maneiras: pelo material com que era produzida sua lâmina, a composição de sua empunhadura e sua bainha, o cuteleiro que o confeccionou, seu comprimento e a habilidade que cada um possuía ao manejá-lo. Material para as lâminas era quase sempre importado: espadas quebradas, ferramentas agrícolas e especialmente pedaços de trilhos de ferrovias  e do sistema de vagonetes utilizados na indústria açucareira. A forja e montagem desses punhais eram feitas em locais denominados tendas, que nada mais eram que rústicas cutelarias bastante disseminadas pelo Nordeste, em especial nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará, onde a movimentação de cangaceiros era intensa.


Sobre esta imagem o colecionador e especialista em cutelaria Dênis Artur Carvalho faz a seguinte observação: O cangaceiro Atividade está portando três armas brancas: Uma faca de ponta com cabo de embuá na cintura, um facão de cortar mato abaixo do braço e uma faca paulista à altura do peito. Eu nunca tinha visto nenhuma fotografia de cangaceiro portando uma faca típica da região de São Paulo. Preferiam a boa faca de ponta nordestina ou as famosas lâminas europeias principalmente alemãs. Abaixo, uma peça idêntica, de minha coleção:

Facas de ponta com empunhadura "Embuá" também da nossa coleção:


A estética e características gerais de forma, tipo de cabo, comprimento de lâmina e material e modelo da bainha era função da criatividade do cuteleiro e dos recursos de quem encomendava o produto. De maneira geral,  o punhal tinha forma bastante esguia, longa e fina, arrematado pela empunhadura de estilo muito semelhante ao utilizado pelas facas artesanais acima descritas. Mesmos materiais, mesmas formas. As bainhas também eram caprichosamente elaboradas, quase sempre por terceiros, podendo ser de couro ou metal. Quando metálicas, por vezes eram forradas de couro ou veludo e podiam possuir uma ou duas articulações, ao logo de seu comprimento, como delicadas dobradiças, de forma a facilitar o andar e o montar de quem as usasse.

Prestando mais atenção
Eu vi um grande punhal

Fabricado com três quinas
De um tamanho desigual
O cabo de ouro e prata
Nunca se viu então igual⁴
(...)
   
Conduzia o seu punhal
Passado na cartucheira
Com setenta e três centímetros
Respeito da cabroeira
Moedas de prata e ouro
Lhe enfeitavam a bandoleira
(...)

No cangaço parece não ter havido uma relação direta entre o tipo de punhal e faca utilizados e a hierarquia interna do grupo.  Tudo era exatamente uma questão de gosto, vaidade e dinheiro. Embora nem fosse de uso mais freqüente, os punhais longos exerciam especial fascínio entre os cangaceiros, sendo curioso reproduzir aqui parte do “Inventário dos objetos apreendidos, pertencentes ao famigerado “Lampeão”, produzido pelo Regimento Policial Militar de Maceió, em 26 de novembro de 1938:

FACA: de folha de aço, com 67 cm de dimensão, com cabo e terço de níquel, adornado o cabo com três anéis de ouro, notando-se na lâmina, uma mossa produzida naturalmente por bala; bainha toda de níquel,    com forro interno de couro, notando-se também na parte interna superior o estrago produzido por bala.

Sabe-se pela literatura a respeito do tema que aos 67 cm de lâmina são acrescidos 15 cm de cabo, perfazendo um comprimento total de 82 cm. Qual a utilidade prática de tamanho exagero? Talvez nenhuma, exceto manifestar o que vem sendo escarafunchado aqui: poder e vaidade.

Muito embora este relato se refira aos despojos particulares de Lampião, outros membros do bando também possuíam punhais igualmente longos, o que é visível na famosa “foto das cabeças” e que viria reforçar a tese da inexistência de vínculo entre o comprimento dos punhais e a posição hierárquica do indivíduo no grupo.

E Luís Pedro, rico e garboso...


...Findou caboclo

Para sangrar um homem ao estilo do cangaço, ou seja, fazendo o punhal penetrar pela fossa clavicular esquerda para atingir coração e pulmão não era necessário esse exagero de comprimento, coisa de 70 cm.

O tamanho de punhal mais disseminado entre os cangaceiros era de aproximadamente 35 a 40 cm, incluída a empunhadura. Claro está que o fato de a arma ser de menor porte em nada atrapalhava a expressão da vaidade em sua confecção. Era carregada com o mesmo orgulho e tinha o mesmo poder especialmente frente a adversários civis.

"O rifle de ouro" também tinha sua lâmina. - Coleção privada.

Vale ressaltar que muito provavelmente existia um aspecto psicológico, mórbido e doentio quando se considera o significado que o sangramento tinha, e tem, para o homem rústico do sertão nordestino. Ao usar sua arma esteticamente  mais expressiva para esse fim, o indivíduo manifestava, a um só tempo, sua vaidade em relação ao punhal,  e também um importante poder sobre a vítima, não apenas porque esta sempre se encontrava subjugada pelo grupo mas também porque sangrar era, e é, ato de extrema ofensa para quem o sofria,   extensiva a toda a família da vítima. Ou seja, para o sertanejo, o drama não estava em morrer,  mas sim em ser sangrado. Ofensa inadmissível, passível de vingança necessária e obrigatória e muitas vezes origem das famosas brigas de família. Sangrar era para porco, cabrito, boi – não para o homem.

Finalmente, é importante mencionar um vínculo havido entre a morte de Lampião, decretando o início do fim do cangaço, o poder e a vaidade que aqui se explicou. Após mais de vinte anos de atividade em circunstâncias quase sempre muito adversas, “morando debaixo do chapéu”, como certa vez disse o Rei do Cangaço, parece que a atividade já não exercia nele o mesmo fascínio de outros tempos. Sua mobilidade era bastante menor e sua área de ação estava mais ou menos restrita ao baixo rio São Francisco, ora em Alagoas, ora em Sergipe onde, até por influência das mulheres do bando, passaram a tomar muito mais cuidado com a higiene pessoal, fato demonstrado pela adoção de novos costumes tais como banhos freqüentes, lavagem de roupas e um acesso mais rotineiro a melhores alimentos mandados buscar em feiras através de seus coiteiros.

Esses fatos, acrescidos à onipresente sensação de impunidade, à extorsão praticada à larga contra as elites urbana e rural apenas via bilhetes, à confiança exacerbada em sua rede de coiteiros, à  cada vez maior delegação de autonomia aos chefes de subgrupos, à enorme quantia de dinheiro em espécie e ouro que acumulara e portava e à venalidade dócil e obediente dos militares responsáveis por sua captura parecem ter provocado o afloramento simultâneo de sua sensação de poder e vaidade pelo que já obtivera e não mais perderia. Lampião certamente tinha ciência de que sua morte não era conveniente a muitos caatingueiros que, de uma forma ou outra, dele dependiam para sobreviver ou auferir maiores ganhos.

 

Inclua-se aí desde grandes latifundiários e militares até o mais simples morador que fazia e vendia queijos. Lampião sempre pagou regiamente pelos produtos que adquiria, fossem alpercatas, rapaduras ou mosquetões e sua munição.

Certa vez perguntaram ao Cel. José Lucena de Albuquerque Maranhão que quando sargento havia sido responsável pela morte do pai de Lampião:

- Cel. Lucena, quem matou mesmo Lampião?
- O dinheiro dele!
- Nem só, Coronel, nem só!

¹ Macedo, Nertan. Lampião-Capitão Virgulino Ferreira. Rio de Janeiro: Editora Renes,1975. pp. 84-85.
² D’Almeida, Manoel, Os Cabras de Lampião – São Paulo, Ed. Prelúdio Ltda. 1970, pág 19
³ Macedo, Nertan, obra citada, pág.82
⁴Macedo, Nertan, obra citada, pág. 57 - D’Almeida, Manoel, obra citada, pág.9

Disponível em: Coleção Orsini

Créditos para o amigo Ernane Cunha.

http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

De:Fabio Campos

"Só existe um tipo feliz de imaginação: aquela que faz a realidade acontecer."                           
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Enviado pelo escritor Clerisvaldo B. Chagas
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