Por João Costa
Amanhece na
Grota Angico em 28 de julho de 1938; a chuva havia sessado, as orações matinais
concluídas, o café da manhã servido enquanto alguns cangaceiros ainda dormem –
a aurora encontra o capitão Virgulino Ferreira já de pé, saboreando café de
punhal na cintura, fuzil ao lado à disposição.
Ao mesmo
tempo, subindo riacho seco de Angico, na linha avançada da Volante de tenente
João Bezerra está o aspirante Ferreira; militar obstinado e linha-dura; um
pouco atrás, o delator Pedro de Cândido e o soldado Sebastião Vieira Sandes, ou
Santo – os únicos na numerosa volante que conheciam pessoalmente Lampião.
E um detalhe
desconhecido por muitos: Cândido segue Sandes pari passu amarrado ao
próprio Sandes.
Cândido, por
ser coiteiro da máxima confiabilidade de Virgulino e Sandes por ter sido
cangaceiro que gozara da confiança do casal Virgulino-Maria Bonita, tratado
intimamente por “Galeguinho”, artesão em couro que dividia com o capitão horas
intermináveis no manejo de uma máquina Singer, mas agora soldado volante e atirador
de escol.
“Ocupada a
posição, a um sinal do aspirante, Pedro de Cândido se aproxima da borda do
penhasco e recua de repente, branco como papel: avistara Lampião logo abaixo,
em frente de uma pedra pontuda”.
O até então, “Rei
do Cangaço está a menos de oito metros de distância, em pé, inteiramente
equipado, salvo pelo chapéu e pela cartucheira de ombro”, narra Frederico
Pernambucano de Melo, em seu livro “Apagando Lampião”.
E segue
narrando em detalhes:
“o coiteiro
Pedro de Cândido olha para Santo; por meio de gestos e de movimentos de boca,
Santo confirma a identificação para o aspirante (Ferreira) que, em resposta,
“olha para Santo e molega o dedo indicador na direção de Pedro”; era a senha
para que este também fosse eliminado".
Os demais
soldados da volante que subiam o riacho estavam distante e o cerco planejado
pelo tenente Bezerra e Ferreira ainda não se concretizara.
Mas na guerra
as oportunidades surgem, não dá tempo para “arrodeios” nem vacilações,
especialmente quando se trata de emboscada, do fator surpresa e da dimensão do
inimigo.
Em cima da
grota o aspirante Ferreira, o militar responsável pelo manejo da famosa
metralhadora Bergman já está bem posicionado, mas ele também sabe que
metralhadoras são pesadas e não apropriadas para tiro de ponto e uma rajada
poderia “botar a caçada a perder”.
O historiador
narra que o aspirante Ferreira abdicou de apertar o gatilho. Em vez disso, faz
gestos para que Sandes se aproximasse. Mas por que Sandes?
Porque era o
franco-atirador da volante, habilidoso no manejo do fuzil Mauser alemão modelo
1908, calibre 7mm, cano extralongo, balas novíssimas, ano 1932 e, claro,
conhecia pessoalmente Virgulino.
Sandes toma
posição de tiro.
Lá embaixo,
Lampião leva à boca sua caneca com café, e é nesse exato o instante do disparo
fatal, de cima para baixo.
Pou!
O ex-amigo,
ex-coiteiro, ex-cangaceiro, carinhosamente chamado por Maria Bonita, de
Galeguinho, e agora soldado de volante, Sebastião Vieira Sande – o soldado
Santo, põe um ponto final na longa trajetória do bandoleiro mais famoso do
Brasil.
- “Foi uma
queda desconjuntada do corpo; queda de quem cai para não levantar mais”,
relatou Sandes muitos anos depois a Frederico Pernambucano.
“Foi um tiro
solitário, certeiro e a uma distância menos de 8 metros”, acrescentou.
Nos segundos
seguintes o inferno desabou sobre a Grota de Angico. Agora, chovia balas sobre
os cangaceiros – que tiveram poucas chances de organizar um contra-ataque,
restando a debandada geral debaixo de nuvens de fumaça da munição detonada e
não da névoa do amanhecer.
Após o tiro
fatal em Lampião, o soldado Sandes se desamarra de Cândido e faz um gesto
inesperado.
- Foge,
desgraçado!
Mesmo tendo
recebido ordens do aspirante Ferreira para matar o coiteiro ali mesmo, Pedro de
Cândido ganha um sopro de vida.
Mas os
admiradores do cangaço podem ficar com outra versão dos acontecimentos – a do
sargento Antônio Honorato da Silva, o Noratinho.
Ao Jornal
Diário de Pernambuco de 2 de agosto de 1938, Noratinho deu a sua
versão numa narrativa elaborada. Disse ele:
“Vi Lampião se
erguer, apresentando na face a expressão de um enorme pavor. Levei o fuzil ao
rosto. Mirei bem. A mulher do bandoleiro, nesse instante, estendeu os braços
pedindo clemência. Fiz fogo e o chefe dos cangaceiros baqueou. Acompanhei sua
queda com dois tiros”.
O sargento
Honorato nunca vira antes Lampião nem de longe nem de perto. Pano rápido.
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Fonte: Apagando
o Lampião – Vida e morte do Reio do Cangaço, de Frederico Pernambucano do
Mello.
Foto1. Sandes
(acervo de Frederico P. de Mello) 2. Pedro de Cândido no destaque, de volta a
Angico.
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