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segunda-feira, 18 de novembro de 2024

A SAUDADE QUE FICA DO CAIPIRA DE POÇO REDONDO

 Por Archimedes Marques

Escritores - Dr. Archimedes Marques, Alcino Alves Costa e Elane Marques, esposa do Dr. Archimedes 

Você deixou tudo a tua cara
Só pra deixar tudo
Com cara de saudade. (Alice Ruiz)

O que chamamos de morte e que na verdade é apenas o desencarne, o fim da vida terrena, é um caminho inevitável. Temos todos, um dia ou outro, hoje ou amanhã, próximo ou mais demorado, de uma forma ou de outra, que viver isso. Não porque é uma fatalidade do destino, mas porque faz parte da vida desde que a nossa vida se faz vida. Mas o que sempre esperamos, torcemos e pedimos ao Criador é que os bons, aquelas pessoas ILUMINADAS que só fazem o bem ao seu semelhante durem mais tempo, sobrevivendo aos maus.

Assim cada um de nós vive, mesmo se de maneira dolorosa igual, de um jeito diferente as diferentes perdas pelas quais temos que atravessar, embora saibamos muito bem que dessas perdas ficam os seus exemplos, positivos ou negativos.

E mesmo quando o tempo consegue aplacar essa dor, estancar esse dissabor, sempre fica dentro da gente aquele sentimento indecifrável de vazio junto com a saudade, sensações que perduram até chegar a nossa hora, então passando tais sentimentos para os nossos amigos que também chorarão por nós, caso mereçamos, e assim sucessivamente. É a vida daqueles que sobrevivem a vida dos seus amigos, dos seus entes queridos.

Absoluta certeza tenho que não somente eu sinto essas sensações com a perda do amigo ALCINO ALVES COSTA, mas também centenas de outras pessoas, pois o CAIPIRA DE POÇO REDONDO (como ele próprio carinhosamente gostava de ser chamado) sem dúvida alguma foi um homem ILUMINADO que bem soube iluminar a todos que o cercavam, uma pessoa abençoada por Deus que irradiava e continuará na saudade irradiando luz, irradiando alegria, irradiando paz, irradiando harmonia, também irradiando determinação, irradiando a coragem do bravo sertanejo. Alcino é desses abençoados amigos que para sempre ficam guardados “debaixo de sete chaves”, pois além de tudo ele abençoava os seus amigos com a sua áurea desprovida de qualquer maldade. As diversas homenagens e eloquentes mensagens de despedidas desprendidas por seus amigos no cortejo funeral ocorrido no seu querido Poço Redondo são inequívocas provas de tudo isso que falei. Um amigo que bem soube plantar, regar e colher uma grande legião de amigos.

A SAUDADE QUE FICA DO CAIPIRA DE POÇO REDONDO

Poço Redondo, encravado nesse nosso sertão sergipano, na escaldante tarde desse dia 02/11/2012 (coincidentemente o dia dedicado aos mortos) chorou as suas lágrimas de pesar desde a sua residência nas primeiras horas, a Câmara de Vereadores, a missa de corpo presente na Igreja da Matriz, a Prefeitura até chegar ao Cemitério local da cidade em verdadeira romaria de amigos, provando e comprovando o quão querido era e continuará sendo o poeta, compositor, escritor, pesquisador e historiador ALCINO ALVES COSTA, para mim e com certeza para a grande maioria daquele povo, até então, A MAIOR PERSONALIDADE NASCIDA NAQUELAS TERRAS.

Da missa de corpo presente, além das eloquentes falas dos seus amigos, uma passagem ficará para sempre guardada na minha memória: uma rosa amarela brilhante e ensolarada retirada do nosso singelo buquê e repassada às minhas mãos pela minha companheira Elane Marques, cuja cor específica evoca sentimentos de calor, respeito, alegria, felicidade e amizade, depositada por mim sobre o caixão então fechado onde jazia o corpo do CAIPIRA DE POÇO REDONDO, rosa essa que também continha nas suas pétalas gotas das minhas lágrimas, notei como bom observador, que colocaram-na para dentro dessa urna funerária assim que fora aberta na própria igreja quando da bênção final com os Asperges sagrados de água benta realizados pelo Pároco local. Dessa minha simples homenagem e das suas conseqüências senti-me agraciado pelas circunstâncias em ver aquela rosa amarela a seguir junto com o corpo do amigo Alcino em direção ao seu descanso final.

Não só os seus parentes e amigos, mas também a cultura sergipana, nordestina e brasileira perde um grande ícone. O sertão perde uma imensa parte da sua identidade. O movimento CARIRI CANGAÇO jamais será o mesmo sem a presença do grande amigo de todos os seus componentes. A história do cangaço que sem dúvidas é das mais legitimas expressão da nossa cultura, da cultura do nosso querido Nordeste, deixa de ter em “vida matéria” dos seus maiores historiadores, embora as suas obras, os seus legados, os seus escritos, os seus pensamentos, os seus entendimentos, os seus ensinamentos vivam para sempre. Com toda certeza daqui a centenas de anos ainda estarão citando ALCINO ALVES COSTA como fonte de informação, pois as águas bebidas das suas fontes e também oferecidas ao público foram águas de fontes saudáveis e não envenenadas, águas de fontes puras e cristalinas, águas das fontes de um verdadeiro CABRA-MACHO SERTANEJO que de tudo deixou a sua cara e com isso deixou tudo com cara de saudade como bem diz a escritora e poeta Alice Ruiz no preâmbulo acima citado.

Ser um desses amigos de Alcino, para mim foi um dos maiores privilégios, uma verdadeira honra. De Alcino só me resta eterna gratidão por também fazer parte da sua legião de amigos.

Que você seja bem sucedido também na sua nova morada amigo ALCINO ALVES COSTA e que o seu exemplo de vida ensine os bons a serem melhores!

Archimedes Marques é Delegado de Polícia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS, idealizador e administrador do Site Folha do Delegado.

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ENCONTRO DE GIGANTES

 Por Alcino Alves Costa

Certa vez, através de e-mail, Alcino Alves me disse que depois da sua morte, qualquer amigo que quisesse homenageá-lo, fizesse uso desta sua imagem.

Outrora, Poço Redondo era um arruado pertencente ao vasto município de Porto da Folha. Com sua emancipação em 25 de novembro de 1953 quase todas as fazendas nascidas nos escondidos daquelas brenhas caatingueiras passaram a pertencer ao novo município. Dentre elas uma fazenda chamada Pia Nova. Nos idos do cangaço o proprietário da Pia Nova era um caboclo de “boa cepa”, “raiz de braúna”, verdadeira “madeira de lei”, “homem atutanado”, sertanejo de “peso e medida”, chamado Torquato José dos Santos.


Já caindo para a idade seu Torquato cuidava com esmerado carinho e zelo de sua terrinha, de sua família, especialmente de sua numerosa filharada. No meio dela um rapazinho saindo da puberdade, chamado João. Este jovem caboclo carregava orgulhosamente o nome de seu pai junto ao seu nome de batismo. Vindo, com o passar dos anos, a se tornar no célebre João Torquato, o homem que derrotou Corisco, o “Diabo Louro”, na famosa medição de força acontecida na fazenda Queimada de Luís.  


Zé Sereno à esquerda e Mané Moreno à direita - ambos são primos.

O sofrimento, dores e provações de João Torquato começaram acontecer naquele entardecer do triste dia 02 de maio de 1937, quando chegou a sua casa um bando de malvados cangaceiros comandados por Zé Sereno e Mané Moreno.Numa atitude injusta e perversa, os cruéis cangaceiros assassinam o velho Torquato e seu genro Firmino. Medonha tragédia que destroçou a vida de João e todos da família. Desatinado com tamanha injustiça, João Torquato só pensava em vingar a morte do papai amado e de seu cunhado Firmino. Só lhe restava uma alternativa. Mesmo sabendo que sua mãe iria acrescentar ainda mais as suas dores e sofrimentos se decidiu por procurar uma das “forças do governo” que combatiam Lampião e nela se engajar. Só assim teria oportunidade de caçar e se vingar dos monstros que tiraram a vida de seu pai.

Foi o que fez. Procurou a volante comandada pelo famoso Zé Rufino e nela deu início a uma nova e inesperada etapa de sua vida; a vida de caçar cangaceiro. Pouco se demora sob o comando de Zé Rufino. O seu destino é a volante do temido Antônio Recruta, onde perseguiu cangaceiro por longo tempo. Nesta volante, João Torquato participou de vários confrontos com os cangaceiros. 

Um deles, no entanto, se tornou célebre. Aquele em que sozinho enfrentou a cabroeira de Corisco, baleando-o e tirando a vida dos cangaceiros Guerreiro e Roxinho.

Como se sabe Corisco, após a morte de Lampião, ficou “atoleimado” e “atarantado” da cabeça, sem tino e sem razão. Ensandecido, cometeu diversas atrocidades, dentre elas as monstruosas execuções e degolamento de Domingos Ventura e mais cinco pessoas da família do vaqueiro da fazenda Patos, nas Alagoas, e como requinte final, após cortar as cabeças de suas desventuradas vítimas, as enviou para a cidade de Piranhas, aonde foram entregues ao prefeito João Correia Britto. O mesmo acontecendo, já em Sergipe, na fazenda Chafardona, em Monte Alegre de Sergipe, quando em mais um ato brutal assassinou Sinhozinho de Néu Militão, cortou a sua cabeça colocando-a em uma gamela e a enviando para o então povoado de Monte Alegre, por um rapaz chamado Santo e entregá-la ao cabo Nicolau que ali destacava.

Corisco

Foi logo após esse crime que Corisco se deslocou até as caatingas da linha divisória entre Sergipe e Bahia.  Existem duas versões sobre o local em que aconteceu o extraordinário combate travado por João Torquato e Corisco.

O notável historiador Antônio Amaury, em seu livro “Gente de Lampião: Dadá e Corisco”, no capítulo “Agonia do cangaço”, páginas 113, 114 e 115, seguindo as acreditáveis informações de Dadá, diz que este confronto entre Corisco e João Torquato, aconteceu na fazenda “Lagoa da Serra”, residência do coiteiro Geraldo. Ocorre que João Torquato afirmava convicto que o seu embate com Corisco se deu em uma fazendinha abandonada chamada “Queimada de Luís”. Está em muitos livros a história deste confronto. Como se sabe o cangaceiro Guerreiro foi morto pelas balas do fuzil de João Torquato quando caminhava ao lado de Dadá e Roxinho pela malhada da fazendinha.

Imaginando que Guerreiro fosse Corisco, João Torquato faz pontaria em seu corpanzil e dispara a sua mortífera arma. O bandido tomba gravemente ferido. Não é Corisco é o cangaceiro Guerreiro. Corisco e os que lhe acompanhavam pensaram ser uma volante. A cabroeira corre e se ampara no paredão de um tanque. Prepara-se para enfrentar os agressores. Assim pensando, Corisco grita raivoso: “Macacos covardes! Venham! Vamu brigar. Vocês tão pegados é com Corisco” - jamais poderia imaginar que estava sendo atacado apenas por um soldado.

João se surpreendeu ao ouvir aquela possante voz. Pensava que o bandido que havia derrubado na malhada da fazenda fosse justamente Corisco, mas estava enganado. Os cangaceiros estão amparados no paredão do tanque. No outro lado do paredão está João Torquato que os enfrenta como desmedida coragem. Troca tiros com os bandidos. De repente divisa um cangaceiro que como se fosse uma cobra – e cobra ele era – se arrasta cautelosamente a sua procura. Sem perda de tempo o “contratado” dispara seu fuzil e o assecla despenca, rolando em sua direção. O “cabra” é muito jovem. Mais parece um menino. É Roxinho, o mesmo que estava ao lado de Guerreiro e Dadá na malhada da fazenda.

Grupo de Corisco

O menino é valente. Tenta pegar a sua arma que havia escapado de suas mãos. Não consegue. João Torquato com o coice de seu fuzil esbagaça a sua cabeça.Temendo o cerco da volante, assim imaginava Corisco, o mesmo e sua Dadá deixam o paredão do tanque e procuram a proteção da caatinga. João Torquato grita para o “Diabo Louro”:

 “Tá correndo covarde? Num diz que é valente, cabra frouxo. Num corra! Vamu brigar”.         

O famoso alagoano escuta as palavras desafiadoras do soldado. É um valente. Vira-se para enfrentar a volante. Surpreso se depara apenas com um inimigo. Cadê os outros? Fica a se indagar por segundos. É a sua perdição. João Torquato aproveita aquela momentânea indecisão e dispara a sua arma. Naquele dia o filho de seu Torquato estava totalmente protegido pela sorte. Uma bala atingiu justamente os dois braços de Corisco deixando-o fora de combate.

O balaço fez com que o fuzil do companheiro de Dadá caísse por terra. Sem forças para segurá-lo o cangaceiro se desespera e procura se proteger na mataria. Percebendo a situação do famoso bandoleiro, João Torquato grita desafiador: “Não corra covarde. Espere pra morrer”. Mesmo com os braços destroçados Corisco pára. Mostra o quanto é valente. Sabe que irá morrer, mas morrerá como um verdadeiro homem. João Torquato aponta-lhe a sua mortífera arma. Será o fim de um dos mais famosos companheiros de Lampião.

Dadá e Corisco

É neste instante tão decisivo que entra em cena a figura de Dadá. Sem temer o inimigo o enfrenta com inusitada coragem. Nele atira, fazendo-o desviar a sua atenção em Corisco e ter que trocar tiros com ela. Dadá não pára de atirar. Atira no feroz inimigo e empurra Corisco na direção de uma baixada protetora ali nas proximidades. As balas de sua arma se acabam. Eis que numa atitude gigantesca e inesperada, a companheira de Corisco o defende jogando pedras em João Torquato, o homem dos olhos grandes e “abotecados” como ela dizia.

Continua empurrando o companheiro. Escorrega e cai. O vingador da morte do pai sorriu. Apontou-lhe o seu fuzil. Iria matá-la sem piedade. Errou o alvo. Com raiva se prepara para o segundo tiro. Percebe então que a sua arma estava sem munição. Enfia uma das mãos no bornal. Tem que recarregar rapidamente o seu fuzil. Ao retirar a mão do bornal com as balas o nunca esperado aconteceu. Seus companheiros vinham chegando e sem medir as consequências atiraram justamente em João Torquato ferindo-o na mão que ele segurava as balas.Os pedidos que naquela agonia Dadá rogava a Nossa Senhora foram atendidos. Na confusão que reinou no meio dos da volante, Corisco e sua valente companheira conseguiram se salvar. Como se sabe, Corisco deixou esse mundo no dia 25 de maio de 1940, assassinado pelas armas de Zé Rufino. Baleada, Dadá teve a sua perna amputada.

João Torquato deixou à volante e retornou a sua amada Pia Nova, onde viveu até o final de seus dias.Em 1958 vamos encontrá-lo ao lado de Zé de Julião. Havia se tornado um de seus fiéis aliados, naquela famosa disputa política entre o antigo cangaceiro Cajazeira e o seu oponente Artur Moreira de Sá, quando os dois eram candidatos a prefeito de Poço Redondo.


Desesperado com a monstruosa perseguição que lhe movia o governador do Estado, Zé de Julião roubou a urna no dia da eleição, ou seja, em 03 de outubro de 1958, e João Torquato ali estava de arma em punho, pronto para matar ou morrer defendendo um dos antigos “cabras” de Lampião, cangaceiros que ele tanto odiava. Para conhecer mais detalhes sobre essa história de sofrimento do povo sertanejo de Poço Redondo, em especial da família Torquato, leia-se os capítulos “Combate da Arara – morte de Zepelim”, página 249; “Os cangaceiros se vingam e matam Torquato e Firmino”, página 259; “A traição se consuma”, página 261; “Um milagre salva a volante”, página 265; e “A vingança de João Torquato, o filho de Torquato e o tiroteio com Corisco”, página 273, da terceira edição do livro “Lampião além da versão – mentiras e mistérios de Angico”, que se encontra a venda com Pereira, em Cajazeira, na Paraíba.

Alcino Alves Costa, o Decano
Caipira de Poço Redondo
Sócio da SBEC, Conselheiro Cariri Cangaço

http://cariricangaco.blogspot.com/2012/02/encontro-de-gigantes-poralcino-alves.html

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domingo, 17 de novembro de 2024

MORTE DO CANGACEIRO BRIÓ.

Por José Mendes Pereira

 

Como muitos sertanejos que saem das suas terras para outras, na intenção de adquirirem uma vida melhor, Zé Neco Camburanga e sua Bubu não foram diferentes desses outros, pois foram empurrados pela seca, deixando a sua velha morada na caatinga, e foram morar no Alto, bem pertinho da cidade de Poço Redondo, no Estado de Sergipe. Em suas companhias, foram sete amados filhos: Santo, Brió, Zé Neco, Maria, Lilinha, Conceição e Tereza.                

Zé Neco, influenciado talvez pelas roupas que os cangaceiros usavam ornamentadas, tempos depois foi para o bando, e lá no cangaço, foi apelidado de Demudado, aquele que morreu juntamente com Zé Baiano no massacre do coiteiro Antonio de Chiquinha, que juntamente com outros comparsas, tramaram a chacina. Mas antes de Demudado entrar para o cangaço, sua família presenciou a grande tragédia, o assassinato de seu filho, irmão Brió, pelos seus futuros companheiros, os cangaceiros.                       

Diz Alcino que o verdadeiro nome de Brió era Benjamim, um rapaz que levava a vida alegre e galhofeira. Era um bom e cativo frequentador de festas. Não perdia uma festa, um leilão, ou mesmo um grande forró de pé-de-serra. 

Certa vez, achou-se compromissado com uma moça chamada Maria, esta sendo uma bela jovem, filha de um senhor chamado Cândido Saturnino. Durante o ano, trabalhou com muita garra, no intuído de ir ao altar com Maria no final do ano que corria. Mas Brio não imaginava o que o destino lhe reservava.

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Nos finais de semana, Zé de Julião gostava de fazer bailes em sua casa, e em um desses, realizou um bailão, e toda a rapaziada de Poço Redondo estava presente para apreciar o toque e o tinir do triângulo e do pandeiro, agarrando-se a uma cabocla cheirosa e carinhosa.

O baile estava bastante animado sobre os efeitos da cachaça, dominava os dançadores no meio do salão.  Lá fora, a noite estava vaidosa, mas já dava sinais de que logo, logo iria embora, pois o dia não mais tardava chegar. De repente, um início de confusões desinquietou os dançarinos do forró. E quem eram os brigões? O noivo Benjamim, o Brió, havia dado uma grande tapa no rosto de um rapaz chamado Lameu. Em tempos longínquos, uma tapa na cara era uma das maiores desonras do sertanejo. Ou ela seria perdoada definitivamente, ou alguém morreria por isso. Mané Lameu, o seu filho tomou suas dores para si, trocando tapas, que com isso, obrigou muitos dançarinos abandonarem o salão. Todos tentavam apartar os brigões.                   

Zé de Julião, apesar de ter aconselhado os bagunceiros, como era muito amigo de Mané Lameu, ficou a favor deste, retirando a razão de Brió. E posteriormente, sentindo-se decepcionado com a atitude de Zé Baiano, Brió dizia por onde passava que podia esperar, que a cobrança seria cara. Não media o tamanho das palavras, forçando o povo a acreditar que iria entrar na volante de Zé Rufino, somente para se vingar. 

Tropa de Zé Rufino. Responsável pela morte Corisco em Barra do Mendes.Foto colorizada e retificada por Rubens Antonio.https://br.pinterest.com/pin/72128031512085854/

Estas ameaças de Brió eram dirigidas a Mané Lameu, e não para Zé Baiano. Brió andava conversando pelos cantos da boca. Melhor seria diminuir o tamanho das palavras ou pesá-la, para ter a certeza do tamanho e do peso. Brió estava dizendo aquilo, porque sabia que todos temiam a carrasca volante que era de Zé Rufino, e queria preocupar toda aquela gente. Mas antes desta confusão, ele já havia sido contratado por Zé Sereno.

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Nesse dia, os cangaceiros estavam nas Capoeiras, e naquela semana, já aguardavam a chegada de Brió para acompanhá-los. Mas por infelicidade do novo cangaceiro, o famoso Zé de Julião foi ao coito.  Não satisfeito com o que Brió tinha feito em seu baile, formando certas confusões em sua casa, fazendo com que os dançarinos fossem embora, e ainda por cima, boatando que iria entrar na força volante do tenente Zé Rufino, o famoso Zé de Julião contou aos cangaceiros todos os fatos do baile e as palavras ditas por Brió.      

Chateados, julgando uma traição, os cangaceiros tomaram uma solução de imediato. Matar Brió assim que chegasse ao coito.  Não iriam dar armas para um suspeito.  As intrigas que tantos males levavam para as famílias sertanejas, acabavam de desgraçar mais uma inocente vida, que com certeza, iriam levar péssimos resultados.  

Certo dia, pela manhã, Brió foi até à beira do riacho para pegar o seu animal que lá estava peado, em seguida dar início aos seus trabalhos rotineiros. Mas ele, em vez de ir buscar o animal, foi direto para o coito, já que era um esperado pela cangaceirada.

O tempo foi se gastando, o sol ficou a pino, e com o passar dos minutos, o pai da natureza foi-se embora, dando lugar a noite que alegremente ocupou o seu horário. E nada de Brió chegar. Brió não retornou para casa. Todos do lugar estranharam a sua ausência. Por onde anda Brió? Quem dá notícias de Brió? O que aconteceu com Brió? 

Zé Baiano e Zé Sereno eram primos do cangaceiro Mané Moreno, que na foto aparece do lado esquerdo. 

Os dias se passaram e em certa noite, o cangaceiro Mané Moreno e um dos seus bandoleiros, juntos, foram até a casa da mãe de Brió, a Bubu.  Com ansiedade, a velha recebeu notícias do filho. Mané Moreno disse que não se preocupasse, o moço viajara a serviço deles, e dentro de uma semana, retornaria. Felizmente o pesadelo que antes incomodava muito dona Bubu, acabou a partir dali.  Cheia de alegria, a velha preparou um gostoso e bem quentinho café e, satisfeita, ofereceu aos bandidos. Saciados aquela vontade de esquentarem o sofrido estômago, rumaram para a fazenda Propiá, onde iriam passar a noite dançando. Os Camburanga não imaginavam que o bandido estava mentindo, e que a verdade ainda não havia ocupado o lugar da mentira. 

Vamos até o coito? Não se preocupe, vamos com cuidado!  

O cangaceiro Juriti. É aquele que foi queimado pelas mãos do sargento Deluz dentro de uma fogueira.

No coito, só tinham sanguinários: Mané Moreno, Juriti e Zé Sereno. Brió, sem saber que estava caminhando para a morte, assim que chegou, foi imediatamente preso e condenado. Ao receber a voz de condenado, ficou sem saber o motivo da prisão. Ainda não tinha participado de combates, não havia traído nenhum deles, e ele tinha direito de saber o tamanho do castigo que estava recebendo. Mas o pobre Brió, não se lembrava das palavras pesadas que havia dito com o amigo de Zé de Julião, o Mané Lameu. Agoniado, perguntou:                              

- O que foi que eu fiz, gente? Eu vim para trabalhar com vocês e sou recebido dessa maneira?!                                                           

- Que trabalhar que nada, seu traidor! Você está querendo perseguir a gente? Quer ir para força para ser macaco, é, seu vagabundo?                                    

Brió percebeu que ali iria morrer. Aquela perseguição de corpo presente não era de brincadeira. Os homens estavam realmente com muita raiva dele. Ele sabia bem, que tinha conversado muito sobre a briga que ele teve com Mané Lameu. E quem teria dito lá no coito, que ele estava pensando em entrar na volante do governo? Os traidores só podiam ter sido Zé de Julião e a Gracinha, que eram muito amigos dos bandidos. Com certeza delataram as suas palavras desnecessárias.     

Mãe, pai e filhos do Zé de Julião - http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2021/01/ze-de-juliao-retratos-na-parede.html - Do acervo do escritor Rangel Alves da Costa.

Brió tentou meios de se salvar, mas não teve jeito.  E ao saber que não seria perdoado, faz um pedido, dizendo:                   

- Já que vocês vão me matar peço-lhes que não me matem enforcado e nem afogado. Matem-me com um único tiro. 

Brió já amarrado levaram-no para o outro lado do riacho do Brás. Juriti, perverso, resolveu enforcá-lo num galho de angico, só pelo prazer de vê-lo morrer de uma maneira que o infeliz pedira tanto que não o matassem dessa maneira. Brió, no momento em que os asseclas suspenderam-no para o colocarem em um dos ganchos que existia no angico, Brió ainda lutou para salvar a sua vida. Mas os asseclas o dominaram. Mesmo pedindo que não o executassem, enforcaram-no. 

Era o mês de fevereiro, do ano de 1935, que mais uma vida deixou de existir neste mundo de meu Deus. Brió estava morto.

Das virgens, esposa de Mané Lameu foi ela quem encontrou o corpo de Brió dependurado numa árvore em fevereiro do ano de 1935.

Diz Alcino Alves que dias depois, a mulher de Mané Lameu, Dona das Virgens, quando caçava umas cabras de leite que não tinha ido para o chiqueiro do Poço Dantas, viu uns urubus voando sobre um angico, chegou mais perto e então viu aquela figura humana dependurada. Correu e foi avisar ao pessoal do povoado. 

Muitos chegaram ao local, e, pesarosos, afirmaram que o corpo dependurado era de Brió. O infeliz estava com as calças arreadas até o tornozelo, com um paletó, o chapéu, a língua todo de fora e já muito deformado. Enterraram-no lá mesmo.  

Pesquisado em "Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistério de Angico" - Alcino Alves Costa.                

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MARTHA MENEZES E SUA MÃE EX-CANGACEIRA DULCE MENEZES.

 Por José Mendes Pereira

Imagem da Martha Menezes

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PASSAGEM DO CANGACEIRO VIRGÍNIO EM SÃO SEBASTIÃO DO UMBUZEIRO-PB

Por Blog do Didi Milton 

https://www.youtube.com/watch?v=lEKdBgC-2do

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CANGACEIRO ESPERANÇA E A EMBOSCADA PARA MANOEL NETO E DOURADINHO

 Por Aderbal Nogueira

https://www.youtube.com/watch?v=9aFgsUMRWTU

Sobrinhos do cangaceiro Esperança narram que Lampião quis emboscar Manoel Neto e Douradinho. Falou até do apelido de "cachorro azedo", de Manoel Neto. Visita também à Fazenda Rochedo, onde os cangaceiros se abasteciam de água. Para participar da Expedição Rota do Cangaço entre em contato pelo e-mail: narotadocangaco@gmail.com Seja membro deste canal e ganhe benefícios:    / @cangacoaderbalnogueira   Parcerias: narotadocangaco@gmail.com

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TÚMULO DE ANÁLIA FERREIRA, IRMÃ DE LAMPIÃO.

 Por Helton Araújo 


Túmulo de Anália Ferreira, irmã caçula de Lampião, localizado no cemitério de Delmiro Gouveia em Alagoas.

Anália faleceu de parto no ano de 1941, com apenas 31 anos de idade.

Quer ver fotos raras relacionadas ao tema cangaço?

Clica no link que está logo ai abaixo e assista o vídeo que foi postado no nosso canal no YouTube. Nele apresentamos 30 fotos raras do cangaço.

https://youtu.be/4PIaPKBbHNg?si=2bL9WEtciP7EMBiY

Agradeço ao amigo Silvio Goethe Friedrich, pelo envio da foto.

https://www.facebook.com/groups/lampiaocangacoenordeste

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sábado, 16 de novembro de 2024

ANTÔNIO, IRMÃO DE LAMPIÃO

Por Itamar Nunes Art 

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LAMPIÃO, O TERROR DO SERTÃO

 Por Itamar Munes Art


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ESTÁCIO DE LIMA, ESCRITOR DO TEMA CANGAÇO

Por Beto Rueda

Estácio Luiz Valente de Lima nasceu na cidade de Alagoas da Lagoa do Sul, hoje Marechal Deodoro, Estado de Alagoas, a 11 de junho de 1897. Filho do desembargador Luiz Monteiro de Amorim Lima e Maria de Jesus Valente.

Graduou-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1915. Chegou a Salvador em 1916. Em 1921 concluiu doutorado pela Faculdade de Medicina da Bahia. A partir de 1926 conquistou por concurso a cátedra de Medicina Legal na mesma entidade.

Foi presidente da Academia de Medicina da Bahia, da Academia de Letras e do Conselho Penitenciário do Estado. Também dirigiu por longo período o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues.

Escreveu várias obras teóricas e científicas. Também foi autor de ensaios, publicados em revistas especializadas, na área de folclore. Dentre seus livros mais conhecidos, destacam-se O mundo estranho dos cangaceiros (1965), baseado em entrevistas de cangaceiros sobreviventes e O mundo místico dos negros (1975). De sua extensa bibliografia constam 22 obras.

Com relevantes serviços prestados à comunidade, faleceu na capital baiana a 29 de maio de 1984, aos 86 anos de idade.

REFERÊNCIAS:

LIMA, Estácio de. O mundo estranho dos cangaceiros. Salvador: Itapoã, 1965.

GASTÃO, Paulo Medeiros. Quem é quem no cangaço. Natal: Sebo Vermelho, 2013.

https://www.facebook.com/groups/508711929732768/?multi_permalinks=1588074625129821%2C1586722755265008%2C1586617891942161&notif_id=1731534989110291&notif_t=group_highlights&ref=notif

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UMA NOITE DESVAIRADA NA PAULICÉIA

 PorRedação Tribuna do Norte

Tomislav R. Femenick

Jornalista e historiador

Tempo atrás, um amigo paulista mandou-me, via Internet, uma foto tirada no início dos anos setenta. Lá estavam o cineasta Cacá Diegues, a cantora Nara Leão, o jornalista Samuel Wainer, a jornalista Sheila Leirner, o cartunista Geandré e o jornalista e escritor Jorge da Cunha Lima. Seria apenas um grupo de intelectuais, algo sem importância, não fosse também a presença da famosa Dona Laura, proprietária da boate La Licorne (onde a foto foi tirada) e de outra casa noturna, a Scarabociu.

Para quem não nunca ouviu falar, o La Licorne, principalmente, e o Scarabociu, integravam o famoso circuito da Boca do Luxo, onde estavam os melhores cabarés e boates da capital paulista. Tão famosas quanto essas casas eram suas meninas, geralmente estudantes e algumas já formadas, que optavam por continuar na noite. Mais famosos ainda eram seus frequentadores. Dizem que o charme dessas mulheres encantou o Secretário de Estado americano, Henry Kissinger; o presidente do Chile, Eduardo Frei; o piloto Niki Lauda, o cantor Julio Iglesias e até uma comitiva da primeira-ministra hindu, Indira Gandhi. O La Licorne estava para São Paulo assim como o Moulin Rouge está para Paris.

Mesmo morando em São Paulo, a verdade é que eu nunca tinha ido ao La Licorne. Foi então que, por essa época, o meu primo Carlos (o Dr. Charley do DNER) foi à capital paulista participar de um seminário sobre construção de estradas. Caxias como ele era com o dinheiro público, ficou hospedado na minha casa. No dia do encerramento do encontro ele descolou um convite e me chamou para ir ao jantar no Hotel Hilton. Terminado o banquete, os promotores do evento fizeram uma surpresa: todo mundo estava convidado para tomar uns scotts no Scarabociu e, depois, assistir ao show e tomar outros drinques no La Licorne. Fomos todos, até dois engenheiros que eram evangélicos. 

No Scarabociu fomos recebidos pelas hostesses da casa e por algumas garrafas de whiskies Buchanan’s, Old Par e President, todos devidamente com maioridade plena, isso é, 21 anos. O ambiente era pequeno, agradável e aconchegante, como devem ser as casas do ramo. Mas lá estávamos apenas fazendo hora. Perto da meia-noite levantamos acampamento e fomos em direção ao La Licorne.

Aqui se deu um fato insólito. Quando estávamos entrando na famosa casa, o show já havia começado e as luzes do salão estavam apagadas. Ao meu lado estavam Charley e um engenheiro do Paraná. Este me perguntou:

– Você conhece bem o ambiente daqui?

– Não porque, como você, está é a primeira vez que entro aqui – respondi.

Como se fora uma deixa de teatro, no mesmo instante uma voz saída da escuridão gritou: 

– Tomislav!!! 

Eu fiquei sem jeito – ou, como se dizia naqueles anos, perdi o rebolado. Como Tomislav é um nome incomum, ninguém acreditou no que eu havia dito antes. 

Fique em pé, esperando as luzes se acenderem. Terminada a apresentação, notei uma mão acenando para mim. Era meu amigo José Laorte, que morava em Brasília, estava visitando São Paulo e, como eu, visitava o La Licorne pela primeira vez. Depois das explicações, acho que tinha convencido que eu não era um habitué daquele cabaré. Eis que aconteceu o mais inesperado. Um outro amigo de Mossoró, que há muito tempo eu não via, aproximou-se de mim, cumprimento-me e disse: 

– Hoje você vai conhecer Dona Laura – era outro mossoroense, seu motorista particular. 

Depois dessa, ninguém mais acreditou em mim. Acho que nem mesmo eu.

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O jornalisa Tomislav Rodrigues Femenick no meio do seu material de trabalho. - Todo jornalista/historiador é amante e devorador de livros e jornais.

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sexta-feira, 15 de novembro de 2024

RECORDANDO OS FERAS.

 Clerisvaldo B. Chagas, 15 de novembro de 2024.

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3.146

O ano de 1986 trouxe uma novidade para Santana do Ipanema e para toda a zona sertaneja. Era fundado na cidade, o Jornal do Sertão, como encarte do fantasticamente famoso, Jornal de Alagoas, este último com sede em Maceió. Ainda no início do seu desempenho, o Jornal do Sertão, registrou o futuro lançamento de um compacto duplo por quatro jovens cantores, amigos e unidos pela música. Exatamente no dia 7 de maio, foi lançado o disco dos músicos santanenses: “Pangaré”, “Dotinha”, “Dênis Marques” e “Adeilson Dantas”. O compacto duplo saiu pelo selo Beverly (Copacabana) com as músicas: “Você chegou” de Pangaré, “Novo Horizonte”, de Dotinha (lado A, interpretadas cada uma por seus respectivos autores).

FOTO DO JORNAL DO SERTÃO, 1986.

“Galopando em Emoções” de Clerisvaldo B. Chagas e Dênis, interpretada por Dênis e “Colorida”, de Adeilson Dantas, com o próprio (lado B).

“O lançamento do compacto está previsto para este mês, segundo os membros do “Som em Quatro Tempos”. Na ocasião, disse ao Jornal do Sertão um dos quatro componentes: Foram muitos anos de luta, esforços, fé e esperança para realizarmos este magnífico trabalho que sonhávamos em concretizar; podendo mostrar aos alagoanos que Santana do Ipanema, apesar de ser uma cidade do interior, tem grandes talentos da MPB.

Muito sucesso foi o trabalho dos quatro talentos de Santana. Lá na mais na frente, Dotinha mudou-se para a cidade de Arapiraca. Adeilson Dantas foi morar na vizinha cidade de Olho d´Água das Flores e faleceu no acidente anos depois numa viagem de negócios à cidade de Maravilha. Pangaré, nome do músico adotado no início de sua carreira, passou a ser Valdo Santana e, continua cantando assim como Dênis Marques, especialista em shows noturnos e muito amados e admirados pelo povo sertanejo. Mesmo tendo sido registrado pelo Jornal do Sertão, já extinto, bem como o Diário Jornal de Alagoas, mas consta o registro na página 354 do nosso livro “O Boi, a Bota e a Batina; História Completa de Santana do Ipanema”.

Dênis Marques segue a tradição de sempre nos encantar com suas páginas musicais em todas as ocasiões que existam lançamento de livros de Clerisvaldo B. Chagas.

Muita honra, muita honra, muita honra.


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BEM-TE-VI

 Por Antônio Corrêa Sobrinho


Este eu aplaudo - o BEM-TE-VI.

Está em todo lugar,

com seu canto ímpar, sonoro, gentil.

Consigo o amarelo do Brasil.

Só num lugar o bem-te-vi não está:

nos viveiros, nas gaiolas.

Porque nasceu pra liberdade.

Bicho valente, o bem-te-vi,

agressivo, até gavião, urubu, sem falar dos que ele persegue e domina, muito lhe respeitam.

Eta cabeçudo e bicudo arretado!

A vida exige esforço e coragem.

O Bem-te-vi sabe disso.


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CANGACEIROS: ALGOZES OU VÍTIMAS?

Por Fellipe Torres fellipetorres.pe@dabr.com.br - Publicado em 25/10/2015

Arte: Silvino/DP

Livro "Guerreiros do Sol" completa 30 anos com a façanha de ter redefinido a visão até então predominante sobre o cangaço - um fenômeno complexo e essencial para explicar a região. Três décadas depois, as múltiplas facetas do tema se estruturam em duas correntes de pensamento pelas quais o papel histórico do cangaceiro oscila entre o de bandido e herói

“O velho muito sofreu com aquela morte do menino. E deu no que tá. Tenho pra mim que vai morrer. (...) Vem aqui aquele homem de beiço lascado. (...) E ele só vive de conversa. Eu nem quero imaginar. Pois inté desconfio de coisa com cangaceiro. Também era só o que faltava ao Capitão Custódio. Era esta amigação com cangaceiro. É o diabo. Nem quero imaginar”. O diálogo entre os personagens Bento e Donata, em Cangaceiros (1938), de José Lins do Rego, dá um vislumbre do quanto os romances regionalistas da década de 1930 pintavam as relações entre coronéis e os fora-da-lei do Sertão (estes, uns “injustiçados sociais”). O modo controverso de enxergar a participação de autoridades no combate (ou auxílio?) ao cangaço extrapolou a literatura e passou a dominar os saberes das universidades brasileiras.

[SAIBAMAIS]Há 30 anos, o historiador recifense Frederico Pernambucano de Mello resolveu romper com a tradição acadêmica e alterar o rumo de como o fenômeno social nordestino vinha sendo estudado até ali. Naquela época, o tema, segundo ele, era entregue a muitos preconceitos e visões apaixonadas. Era hegemônica uma visão engajada, acostumada a interpretar o cangaço como fenômeno econômico, fruto da opressão do coronel sobre o cangaceiro. Isso foi derrubado por terra mediante pesquisas de campo.

Assim surgiu a primeira edição de Guerreiros do sol - Violência e banditismo no Nordeste do Brasil(A Girafa, 520 páginas, R$ 55). Para marcar as três décadas da primeira edição, a Academia Pernambucana de Letras realiza evento comemorativo no próximo dia 9 de novembro, às 16h.

Crédito: Montagem/Arquivo/DP

No prefácio da edição de 1985, o sociólogo Gilberto Freyre assinalou um trunfo da mudança de visão, a respeito de “haver dois Nordestes, não um só, o que leva à consideração de existir mais de um banditismo, e não de um só, sob o mesmo sol tropical”. E concluiu: “São vários cangaços, várias honras”.

Para o também pesquisador do tema e historiador João de Sousa Lima, o cangaço é uma página histórica escrita unicamente no Nordeste brasileiro e, como todo fato do passado, não pode ser julgado. “Lampião foi, antes de tudo, história. Andou à margem da lei, matou, roubou. Contudo, a polícia foi muito pior. Mataram mais, roubaram mais e estupraram mais”.

Autor da antologia O cangaço na poesia brasileira (2009), o professor da UFPE e doutor em literatura Carlos Newton Júnior destaca como escritores como Ariano Suassuna se anteciparam de alguma forma em destacar o lado “vítima” dos protagonistas do banditismo. “Se você observar o enredo da peça Auto da Compadecida, de 1955, os cangaceiros são os únicos que vão direto para o céu. Isso talvez se explique pelo fato de a família de Ariano ter sido de alguma forma perseguida pelo cangaço”. De maneira semelhante, poetas das décadas de 1920 e 1930, como Rodrigues de Carvalho e Serrote Preto, já construíam um mito em torno da figura de Lampião, ao abordar o suposto “corpo fechado” dele.

Crédito: Montagem/Arquivo/DP

Em Viagens ao Nordeste do Brasil (1942), o pintor inglês Henry Koster descrevia os sertanejos da época do cangaço: “Eram geralmente resolutos e bravos. Corajosos, sinceros, honestos e hospitaleiros, ainda que extremamente ignorantes e dados a crenças em encantações, relíquias e coisas da mesma ordem”. Embora ele classifique os sertanejos como “boa raça de homens”, adverte: “Essa gente é vingativa. Ofensas muito dificilmente são perdoadas e, em falta de lei, cada um exerce a justiça pelas próprias mãos”.

Em outras palavras, Euclides da Cunha, autor do clássico Os sertões (1902), dizia o quanto o sertanejo “calcula friamente o pugilato (confronto), livre de expansões entusiásticas (...) para não desperdiçar a mais ligeira contração muscular, a mais leve vibração nervosa sem a certeza do resultado”. Em suma: “É o homem que dorme na pontaria”. O próprio Euclides diagnosticava o atraso na vida sertaneja, segundo Frederico Pernambucano de Mello, classificada como “retrógrada” por estar “envolta por toda uma estrutura familiar, política, econômica, moral e religiosa arcaica e arcaizante, fruto de isolamento de séculos”.

A escritora Marilourdes Ferraz, na obra O canto do Acauã (1978), descreve o Sertão pernambucano testemunhado pelos pais e avós: “Nos primórdios do século 20, a região sertaneja do rio Pajeú permanecia estática no tempo, com seus habitantes vivendo quase tão isolados quanto os primeiros colonizadores que ali se estabeleceram”. Em consonância com o depoimento, Frederico Pernambucano chama a atenção para a existência, naquela época, de “um Sertão tardiamente feudal”, com indiferença em face da morte (derivado do fatalismo religioso) e uma insensibilidade no trato com o sangue (por causa da natureza cruenta da atividade pecuária).

“Não é de se estranhar que cangaço tenha sido forma de vida criminal orgulhosa, ostensiva, escancarada, carnavalesca”, avalia. E essas características se mostravam nos mais diversos tipos de figuras violentas, para além do cangaço, como o valentão (espécie de justiceiro), o cabra (fiel escudeiro do patrão, agressor e defensor), capanga (guarda-costas), pistoleiro (matador) e jagunço (profissional “freelancer” cuja lida diária com as armas era o meio de vida.

Da parte da população, a cultura sertaneja abonava o banditismo dos “cabras da peste”, e até torciam pela vitória dos grupos com os quais simpatizavam, como times de futebol. Nas feiras, as façanhas de guerra dos capitães do cangaço começam a povoar os versos dos cantadores de feira, dos emboladores, rabequeiros. De maneira semelhante, chega à literatura de cordel e torna Lampião e Maria Bonita ícones pop absolutos.

Há cinco meses, o cineasta Wolney de Oliveira lançou o documentário Os últimos cangaceiros, sobre um casal de remanescentes do bando de Lampião. Eles fugiram depois da morte do líder e guardaram segredo a respeito do passado sangrento por mais de 50 anos. No longa-metragem, o senhor de 95 anos chega a confessar ao menos duas dezenas de crimes. Ainda assim, o cineasta diz ter tido o cuidado de não julgar ele próprio o casal como bandidos, vítimas ou heróis. “No filme eles aparecem das duas maneiras. A edição permite ao telespectador tirar as próprias conclusões, pois o final é aberto”, conta o diretor.

Em uma cena, o ex-cangaceiro Moreno, outrora braço direito para os “serviços pesados” de Lampião, retorna à cidade natal e é tratado como herói. Décadas atrás, ele havia sido acusado injustamente pela polícia de ter roubado um carneiro e quase morreu depois de ser espancado. “Para mim, ele é produto da época em que viveu. Como era de família pobre, entra no cangaço pra se vingar da surra. Do ponto de vista humano, me chamou a atenção o fato de ele ter sonhado, na juventude, em ser policial. Tentou se alistar, mas, pela estatura e porte físico, não foi aceito. Claro, há outros casos em que você pode classificar como bandido profissional, porque isso também se tornou meio de vida naquela época”, conclui Wolney de Oliveira.

Serviço

Sessão de homenagem aos 30 anos do livro Guerreiros do sol - Violência e banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, com palestra da escritora Anna Maria César.

Quando: 9 de novembro, às 16h

Onde: Academia Pernambucana de Letras (Avenida Rui Barbosa, 1596, Graças)

Informações: 3268-2211

O CANGAÇO

O que 

O cangaço foi uma onda de banditismo em um Nordeste de pobreza, violência e falta de poder constituído. Eles eram combatidos pelas Forças Volantes do governo, comandadas por policiais, mas formadas por desempregados do setor rural, fortemente armados.

quando

Início do século 20. Teve seu fim definitivo com a morte do líder Lampião, em 1938.

onde

Interior de sete estados do Nordeste, incluindo Pernambuco 

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Leia a notícia no Diario de Pernambuco

https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/viver/2015/10/cangaceiros-algozes-ou-vitimas.amp.html

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