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sábado, 17 de março de 2012

Mulheres Mossoroenses - 01 de Março de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento
 

No mês dedicado a mulher, queremos homenagear a mulher mossoroense lembrando algumas “guerreiras”, que com os seus feitos e pioneirismo deixaram seus nomes gravados na galeria da nossa história. E iniciaremos o mês falando da pioneira Celina Guimarães, não apenas por ter sido ela a primeira mulher em toda América Latina a obter o direito de voto, mas principalmente pela educadora que ela foi. Celina Guimarães foi uma mulher de personalidade forte, uma guerreira, de feitos que podemos dizer que estavam muito além do seu tempo. Aproveitamos para, através dessa personagem, homenagear todas as guerreiras, de ontem e de hoje, nativas ou não dessa terra de Santa Luzia do Mossoró.
               
Celina de Amorim Guimarães nasceu em Natal/RN, a 15 de novembro de 1890. Era filha de José Eustáquio de Amorim Guimarães e Eliza de Amorim Guimarães.
               
Estudou na Escola Normal de Natal, onde concluiu o curso de formação de professores. E foi nessa mesma Escola que conheceu aquele que seria o seu companheiro por toda vida: Elyseu de Oliveira Viana, um jovem estudante vindo de Pirpirituba/PB, com quem se casou em dezembro de 1911.
               
Em janeiro de 1912 foi designada para ensinar a cadeira de Ensino Misto Infantil do Grupo Escolar Tomás Araújo, Em Acari, juntamente com o seu marido, onde permaneceram até 1913.
              
E foi assim que a 13 de janeiro de 1914, atendendo convite do Dr. Manuel Dantas, então diretor de Instrução Pública do Estado, foi transferida para Mossoró, onde assumiu a cadeira infantil do Grupo Escolar 30 de setembro.
               
Dona Celina era uma mulher muito dinâmica, inteligente e assídua no trabalho. Essas qualidades fizeram com que ela fosse merecedora de elogio individual registrado no relatório elaborado em setembro de 1914 pelo Inspetor de Ensino, professor Anfilóquio Câmara, e inscrito no Livro de Registro Profissional.
               
Quanto à questão do primeiro voto feminino, vale salientar que não foi D. Celina a primeira mulher a requerer a sua inclusão no alistamento eleitoral. Quem o fez foi à professora Júlia Alves Barbosa, que era catedrática da Escola Normal de Natal, em 24 de novembro de 1927. “Teve, todavia, deferimento retardado pelo Juiz Manuel Xavier da Cunha Montenegro, da 1ª vara da capital, dada à condição de solteira da requerente, somente despachado e publicado pelo Diário Oficial do Estado em data de 1º de dezembro”. Dessa forma, coube a D. Celina o pioneirismo.
                
Mas o fato é que em 25 de novembro de 1927, há exatos 85 anos, era concedido pela primeira vez na América Latina, o direito de voto a uma mulher. A Lei de nº 660, de 25 de outubro de 1927, sancionada pelo Governador José Augusto Bezerra de Medeiros regulamentando o Serviço Eleitoral no Estado do Rio Grande do Norte, estabelecia não mais haver “distinção de sexo” para o exercício do sufrágio eleitoral e condições de elegibilidade. O projeto que alterava a lei ordinária foi de autoria do deputado mossoroense Adauto Câmara, que o apresentou na Assembléia Legislativa com aprovação unânime. E foi com base nessa Lei que a 25 de novembro do mesmo ano, a professora Celina Guimarães Viana requereu sua inclusão no alistamento eleitoral. Seu requerimento preencheu todas as exigências da Lei e nesse mesmo dia, verificados os documentos que o acompanhavam, exarou o Juiz Israel Ferreira Nunes, então Juiz Eleitoral de Mossoró, em substituição ao Dr. Eufrásio de Oliveira, seu jurídico despacho, mandando incluir o nome da requerente na lista geral de eleitores deste município. Coube, portanto, a D. Celina Guimarães Viana a condição de primeira eleitora não só deste Estado como do país e de toda América Latina.
               
Como educadora, uma de suas primeiras providências ao chegar a Mossoró foi abolir o uso da palmatória na sua sala de aula, ferramenta muito usada na época e temida por todos os alunos. Dizia ela que batendo se domava, não se educava. Domar era para animais; criança precisava de educação. Foi ela responsável por traduzir e ensinar a regra de futebol para os jovens de Mossoró, até então um esporte desconhecido para eles. Quando da realização das eleições estaduais de 1928, lançou um manifesto a todas as mulheres, para que comparecessem as urnas e fizessem valer o seu direito de voto. Em 1928, várias mulheres já tinham conseguido inscrição no cadastro eleitoral. E muitos outros feitos dignos de registro em relatos mais longos.
              
É por tudo isso que homenageamos todas as mulheres de Mossoró através de Celina Guimarães Viana, a primeira eleitora da América Latina.

Geraldo Maia do Nascimento
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Fonte:

Enquanto não vem cangaço - DESCULPA FANTÁSTICA...


O sujeito finalmente conseguiu realizar o seu sonho de comprar um Audi A4 1.8T, automático e conversível. 
Então, numa bela tarde, se mandou para uma auto-estrada para testar toda a capacidade da 'belezura'. 
Capota abaixada, o vento na cara, o cabelo voando, resolveu ir fundo!Quando o ponteiro estava chegando nos 120, ele viu que um carro da Polícia Rodoviária o perseguia com a sirene a mil e as luzes piscando.
- Ah, mas não vão alcançar este Audi de jeito nenhum, pensou ele e atolou o pé no acelerador. O ponteiro marcou 140, 160, 200... e a patrulha atrás. 
- Que loucura, ele pensou e, então, resolveu encostar.

O guarda veio, pediu os documentos, examinou o carro e disse:
- Eu tive um dia muito duro e já passou do horário do meu turno. Se me der uma boa desculpa, que eu nunca tenha ouvido, para dirigir desta maneira, deixo você ir embora.
E o sujeito emendou:
- Na semana passada, minha mulher fugiu com um policial rodoviário e eu tive medo de que fosse ele querendo devolvê-la. 
- Boa noite - disse o guarda.
Extraído do blog:
petroleorn, do petroleiro e prfessor de português Edicarlos Rocha

A INDÚSTRIA DOS SAVEIROS


A INDÚSTRIA DOS SAVEIROS
O país vai ler o comunicado que a abaixo publicamos; vai sentir o valor das encrespações que havemos feito aos portugueses, que vivem entre nós: vai apreciar por si mesmo se assiste sobeja razão para sustentar que se eles intrometem em todos os [...] negócios domésticos; vai julgar [...] não uma verdade o que [...] da influencia perturbadora [...] [...] do comercio, de que [...] e da acumulação dos capitais [...] mãos.
Digam-nos depois que não é por [...] da verdade e do país, que escreve e que continuaremos a escrever em pró da nacionalidade brasileira!
Quatro brasileiros beneméritos, bem dignos irmãos, amigos do povo e da pátria, compram uns 60 saveiros, os quais distribuíram por nacionais, que a pouco e pouco fossem pagando com muita módica quantia (160 réis por dia, dizem-nos) aquele empréstimo generoso.
Em mãos de africanos cativos de portugueses, pela maior parte, estava toda a indústria de remar saveiros, cujo numero em nosso porto excedia talvez de mil.
Havia aí uma lei, que facultava esta indústria a pessoas livres; isto é, que reconhecia o monopólio para escravos; que tendia a dar cabo daquele terrível núcleo de insurreições, que não era ainda nem proteção a nacionais, nem reconhecimento de suas necessidades todas.
E esta lei o que é que ela poderia trazer de proveito, se uma sociedade brasileira não houvesse emprestado um capital aos proletários do país? [Por] bem existir a cem anos a lei; [se] aquele empréstimo nem um [benéfico] [podia] lhe trazer.
Mas é assim que a vontade do povo é lei,
É assim que a vontade do povo impera;
É assim que o povo é mais forte que o governo;
É assim que a soberania do povo se manifesta.
No dia 1º de novembro de 1850 foi dada aos nacionais a permissão de dirigirem eles sós saveiros em estações determinadas. Não erão certamente as melhores estas estações.
E o que fazem os portugueses monopolizadores? Não satisfeitos de negarem-se a vender alguns saveiros que servissem para este primeiro passo da nacionalização da indústria; não satisfeitos de tentarem arredar os homens livres daquele trabalho que pintavam como ímprobo; vendo que são poucos para o trato do comercio os saveiros possuídos por brasileiros, retiram todos os seus escravos á um tempo daquele serviço, posto que somente três dos cais fossem destinados para pessoas livres, para desta arte pretextarem depois que os brasileiros não tem meios de satisfazerem as necessidades do comercio, e guerreando a indústria brasileira exigirem depois a revogação da lei, que o povo faz executar, e a medida adotada pelo governo, isto é, exigirem a continuação de seu monopólio.
É um desaforo que eles não praticariam, se capitalistas brasileiros unindo-se em sociedade fornecessem o capital conveniente para se obter um número suficiente de saveiros.    
É um desaforo, que os bons dentre eles não podem, não devem deixar de reprovar.
Não se zomba assim com o pão quotidiano do povo...    
Fonte: Jornal: O Argos Cachoeirano – Periódico literário, doutrinário e moral.
Bahia, sábado, 9 de novembro de 1850.

Extraído do blog Pesquisando a História do pesquisador:
Urano Andrade

Salvador sedia a 4ª Semana do Saveiro


A Associação Viva Saveiro realiza em Salvador, a partir desta quinta, 15, até o dia 22, a 4ª Semana do Saveiro. O evento, que tem patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia, visa divulgar e preservar a identidade histórica e cultural dos saveiros de vela de içar.
Ao longo dos oito dias de evento haverá uma rica programação cultural, que inclui exposições de arte e artesanatos do Recôncavo, exibição de vídeos, visitação das embarcações, passeios, regatas, seresta e até a apresentação de um selo comemorativo do tombamento do saveiro Sombra da Lua pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Nesta quinta, às 19h, será aberta a exposição Bel Borba Saveiros da Baía, no Centro Cultural dos Correios, no Pelourinho. No seu processo de criação, o artista utilizou velas, ferros e madeiras de saveiros afundados. Parte da venda das obras expostas será doada para preservação das embarcações. A mostra permanecerá em cartaz até 28 de abril.
ACESSE A PROGRAMAÇÃO: 

Seminário Bombardeio da Cidade do Salvador

 
A Fundação Pedro Calmon, através do Centro de Memória da Bahia, convida todos a debater o Bombardeio da Cidade de Salvador, em mesa redonda que acontecerá dia 26 de março, as 16h, na sala Kátia Mattoso, 3º andar da Biblioteca Pública do Estado da Bahia.
 
Extraído do blog: Pesquisando a História,
 do pesquisador Urano Andrade

LAMPEÃO DE A a Z

Autor: Paulo Medeiros Gastão
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Kiko e Paulo Gastão - sentados - Ivanildo silveira, Rostand Medeiros, João de Sousa Lima e Lívio Ferraz
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SAUDADES ETÍLICAS (REVOLUÇÃO E INTELECTUALIDADE NA MESA DE BAR) (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa

SAUDADES ETÍLICAS (REVOLUÇÃO E INTELECTUALIDADE NA MESA DE BAR)
Que não imaginem que o presente texto se volta para a apologia da bebida, do porre, da farrice, da bebedeira, da ebriedade e embriaguez. Mas também podem imaginar que sim, pois trata também sobre isso, porém de modo a mostrar o que a mesa de bar representou na formação da cultura, da intelectualidade e dos tantos movimentos libertários que antigamente existiam.
Visualizem a seguinte situação. Já é boca da noite e um sujeito apressado, com roupas e cabelos desgrenhados, fumando um cigarro, chega ao barzinho de sempre, senta na mesma mesa e nem precisa avisar ao garçom ou ao dono do botequim o que pretende tomar. Não precisa porque já conhecem os seus hábitos etílicos, bastando servir primeiro o uísque e depois a cerveja.
Visualizem a cena seguinte: De uma pastinha o indivíduo tira papéis, jornais e até livros. Enquanto fuma e bebe vai remexendo numa coisa e noutra, lendo rapidamente algumas linhas, fazendo anotações, parecendo mesmo distante do mundo. Porém fica pouco tempo ali sozinho nos seus afazeres etílicos e de escrita e leitura, pois logo chega alguém vestido num paletó amassado e usando calça jeans. Senta na cadeira que já o espera, e também não precisa pedir nada no bar, pois logo lhe chega o litro da costumeira bebida.
Pensem na próxima cena. Aquele indivíduo que já estava lá parece nem ter sentido a chegada do outro, pois não houve cumprimentos nem diálogos abertos, e somente depois que o recém chegado toma a primeira dose é que lhe joga na frente alguma coisa escrita. E então começa um diálogo que mais parece uma discussão, com vários palavrões e xingamentos, mas não que desejem agredir-se, mas contrapondo-se ou defendendo aquele escrito.
Agora pensem quem deveria ser aqueles dois. Vou dizer. O primeiro que sentou à mesa é jornalista, um famoso editorialista de jornal de grande circulação. Reconhecido como antigovernista, reacionário e até anarquista, possui uma escrita ferina e é temido por grande parte dos políticos e poderosos. Mas parece um zé-ninguém, apenas alguém que chega num bar simplesmente pra beber.
Quanto ao segundo, digo que este é homem de grande cultura, verdadeiro intelectual, crítico literário e poeta. Mas também, como o próprio se intitula, um libertino libertário, escritor, ex-comunista, ex-socialista, ex tudo, e agora apenas alguém que não vive um só dia sem contar com aquele encontro noturno para discutir a vida, falar mal dos governantes, pregar revoluções, desconstituir teorias e produzir coisas geniais.
Isso mesmo, pois naquela velha mesa de bar, naquele barzinho de aparência rústica, em meio a encontros etilicamente revolucionários, nasceram poesias magistrais, surgiram composições memoráveis, foram entoados os primeiros versos da música genial. A lágrima foi chorada, a glória emergida.
Dali a pouco vão chegando outros e mais tantos outros jovens e velhos, todos com aspectos de liberdade demais no vestir e no andar, ávidos pelo primeiro gole, loucos para entrar com ferocidade na primeira discussão surgida. De repente a mesa, que agora são duas, está completamente tomada por jornalistas, compositores, poetas, escritores, diplomatas, gente que está ali para se deliciar do prazer da conversa, da criação e principalmente da vasta bebida, da fumaça incontida do cigarro, do pratinho que chega com tira-gosto.
Logicamente que aqueles dois primeiro personagens citados exemplificam apenas pessoas adeptas a uma manifestação fortemente cultural chamada mesa de bar. Infelizmente não de hoje, mas de ontem e de outros tempos idos. E um tempo onde era permitido ter o barzinho como expressão intelectual, tornar aquele ambiente um cenário de exposição verbal ou vocal daquilo que havia sido produzido, possibilitar que entre uma dose e outra surgissem parcerias, inspirações geniais, discussões que redundavam em manifestos, simples conversas que diziam tudo sobre a situação do país.
Hoje ainda existem esses bares, mas são poucos, e menos ainda a intelectualidade que os possa freqüentar com dignidade. O que hoje é escrito no computador e tendo um copo de uísque ao lado, noutros tempos nascia no papel do guardanapo, riscando a própria mesa, catando qualquer coisa pra preservar a genial criação. E tudo cheirando a limão, tosquiado pela fumaça do cigarro, algo assim que ninguém dava nada naquele momento.
E dizem que certa vez Vinícius de Morais saiu embriagado de um desses barzinhos e levando consigo a toalha da mesa. Ora, ali estava escrito um de seus mais famosos sonetos. Jaguar, o do Pasquim, lembra bem que via enquanto ele rabiscava, mas não conseguia ler nada: também estava bêbado.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Procura (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

Procura


Porque incansavelmente
transponho montanhas e vales
singro o Amazonas e o Danúbio
alimentado pela esperança
de olhar e feliz reconhecer
saciado pela máxima certeza
de que o encontro chegará
bem antes de o sol se pôr
depois de todos os sóis e luas
desde que o sonho me veio
e disse para seguir adiante
no passo de sua lembrança
nas pegadas da recordação
porque antes de a lua chegar
feliz estará meu coração

e já foi manhã e tarde
o sol já caminha apressado
e nada do que procuro
parece perto do sonho
a não ser que eu acorde
e sinta que é na realidade
que deva seguir procurando
e bata a porta de sua casa
em busca da nossa verdade.


Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 16 de março de 2012

A construção discursiva de personagens históricos

Por:Wescley Rodrigues
Mais uma vez vem a baila o livro do ex magistrado Pedro de Morais, intitulado “Lampião, o Mata Sete”, que afirma ter sido o “Rei do Cangaço” um homossexual que viveu um triângulo amoroso e uma relação de fachada com Maria Bonita e Luiz Pedro, seu lugar tenente. As opiniões a cerca da obra são acaloradas, uns criticam, outras tratam-na com ar jocoso, e ainda há aqueles que a demonizam na tentativa de criar uma barreira para que os leitores não tenham acesso a tal produção. A priori deixo claro que não estou aqui para fazer uma defesa do livro em questão, mas para propor um novo olhar que historicamente, sociologicamente e antropologicamente estamos esquecendo, ou não queremos tirar as nossas vendas do comodismo para vislumbrá-la.
Primeiramente é bom salientar que sou completamente contrário a qualquer forma de censura a livros, vivemos em uma sociedade e estado democrático de direito, na qual a liberdade de expressão é princípio elementar que depõe a favor da dignidade da pessoa humana. Só porque um livro vai contra os nossos princípios ou as ideias que temos como verdadeiras, isso não nos autoriza a censurá-lo, pois ao fazermos tal, não estaremos longe do que fez a Igreja Católica com a sua lista de livros proibidos, ou a ditadura militar brasileira que impediu a circulação de toda obra que atentasse contra os seus princípios distorcidos de sociedade.
Não li na integra a obra do referido escritor, haja vista diretamente não poder criticá-lo ou elogiá-lo, mas confesso que pretendo ler, ao contrário da repulsa que alguns amigos pesquisadores do cangaço estão tendo com a obra, pois acredito que só através de uma minuciosa leitura é que estarei gabaritado para fomentar e construir as minhas análises de forma consistente sobre o escrito.
Mas para não me alongar na ideia apresentada, trago ao foco uma questão importante, essa diz respeito à fabricação dos personagens históricos. Antes de Lampião e seus cabras serem protótipos do Nordeste ou da sua dita masculinidade, cabras machos, de fibras, eles são produtos e sujeitos históricos. Como sujeitos históricos são fabricados, construídos, mediante discursos e narrativas. Falo isso por não acreditar em uma verdade histórica, mas uma verossimilhança, uma interpretação autorizada pelos documentos de um passado que já foi, o qual não poderemos resgatá-lo, somente interpretá-lo, representá-lo, mediante os vestígios que chegam ao presente. Essa é uma concepção que atenta de frente contra a teoria positivista de história que ainda vigora na atualidade.
Por ser uma figura histórica que é ditos por um corpus escriturário, Lampião é essa figura que congrega discursos, representações. O livro do Pedro de Morais ajuda-nos a entender um pouco dessas facetas narrativas que os mitos em torno das figuras históricas constroem. Esses são discursos que trazem em si a marca de seu lugar de produção. Por isso, conclamo os amigos a lerem a obra “Lampião, O Mata Sete”, não como um livro de história no sentido positivista, mas, como diriam os teóricos da história francesa, uma vertente de resignificação de personagens históricos a partir de propagandas de épocas distintas, uma página de entendimento de como a fabricação de um mito envolve polêmica e opiniões nem sempre comprováveis, mas que vão tornando-se válidas a partir de sua resignificação simbólica e infiltramento no imaginário e cultura histórica. Tal fabricação de personagens se deu com Napoleão, Hitler, Jesus Cristo, Delmiro Gouveia, Antônio Conselheiro, Padre Cícero, e tantos outros personagens históricos.
Acredito na necessidade de se abri um espaço no Cariri Cangaço 2012 para se debater tais questões fazendo um paralelo com o livro abordado há pouco.
Prof. Ms. Wescley Rodrigues
Sócio da SBEC
Sousa - PB 
Extraído do blog: "Cariri Cangaço"

CARTA AO MESTRE E SENHOR JESUS

Por: Alcino Alves Costa

Meu Mestre e Senhor Jesus Cristo

Jesus no Monte das Oliveiras - http://www.derradeirasgracas.com/

Perdoe a minha ousadia por tentar chegar até vós esta carta. Uma razão imperiosa e desesperadora me leva a este quase delírio. É o sofrimento atroz e sem limite do homem do Sertão do São Francisco, desde o fazendeiro até aquele menos favorecido da sorte. Ambos, fazendeiro e lavrador, padecem em virtude da canícula abrasadora que castiga o caatingueiro e seu esquálido rebanho bovino que agoniza sem água e sem comida.

Meu Mestre e Senhor Jesus, os vossos filhos caipiras estão pagando um preço altíssimo em virtude da falta de chuva e com ela a tenebrosa seca que mais uma vez assola e dizima os rebanhos e a quase que inexistente economia sertaneja.

O gado está morrendo a míngua, de fome e sede. Muitos criadores estão entrando em desespero total. A terra está torrada. O capim e outras leguminosas desde muito deixaram de existir. A palma forrageira quase que sumiu dos roçados. Outros refrigérios são adquiridos por um preço exorbitante. Portanto, meu Mestre Supremo, me perdoe por enviar-lhe esta desesperada cartinha que é um pedido de socorro e misericórdia em favor do povo sofrido do meu sertão.

Há muitos anos o Sertão do São Francisco sofre com os horrores da seca e da insensibilidade do homem. A seca que torra o chão e estiola a mataria; o homem que destrói, derruba e queima as matas e caatingas; mata os pássaros e os animais silvestres; polui os rios e riachos, deixando a nossa mãe-natureza jogada ao léu, completamente abandonada, e quase sempre, quando sofre esses abusos, se vinga. 

Meu Mestre e Senhor, desde muitos anos que o camponês sofre os horrores das intermináveis secas que tanto nos flagela. Os campos sertanejos estão nos estertores da morte. A sua caatinga está praticamente extinta. O amanho da terra, a semente e o plantio são coisas do passado. No sertão deixou de existir qualquer tipo de lavoura. As fazendas estão sem alegria e sem vida. O gado magro, fraco, cambaleante, faminto e sedento muge desconsolado pelos caminhos e veredas dos roçados. Os currais estão vazios e solitários, sem aquela alegria da bezerrada cabriolando em sua malhada e o vaqueiro aboiando na porteira do curral no momento da ordenha. A fartura caatingueira dos tempos de outrora foi substituída por uma horripilante e negra miséria. A miséria de vermos nos dias de hoje todo o nosso rincão sertanejo murcho, com um aspecto triste, de extremado sofrimento e profunda desolação.

A população cabocla está angustiada e aflita. Muitos, iludidos por novos sonhos e perspectivas deixaram suas terras e se destinaram estrada afora procurando amparo nas cidades vizinhas. Os que ficaram padecem os rigores desse sol abrasador e a vingança da natureza em represália a mão assassina do homem é constante.

Jesus Cristo! Esparramai as vossas bênçãos por sobre o povo sertanejo. Que a vossa misericórdia chegue através da chuva; essa bendita chuva que é o sangue de nossa terra. Com ela vamos ter a ventura de ficarmos felizes e inebriados com os rios e riachos, as lagoas e os charcos, os açudes e os tanques, as barragens e os barreiros; cheios, abarrotados de água, esse bendito e precioso liquido que fará brotar, lá das profundezas de nossa fecunda mãe-terra, o verde que representa a bonança e a fartura do homem do campo; o verde que irá matar a fome de nossos esquálidos rebanhos; o verde que transforma um cenário de tristeza e dor em um lugar de exuberante beleza.

Meu Mestre e Senhor Jesus, é este o motivo que lhe escrevo. Sei perfeitamente, devido aos meus incontáveis pecados, que não sou merecedor de nenhum crédito de vossa infinita bondade. Porém, não consigo visualizar nenhuma possibilidade no sentido do campônio se livrar do abismo que ele está desabando sem a vossa ajuda, sem a vossa misericórdia.

Nos daí, Mestre Jesus, chuva que encha de vida a terra. Faças com que o lavrador volte a plantar a sua roça e assim colher o fruto de sua própria lavoura e com ele alimentar os filhos. Jesus! Tenhas piedade dos rebanhos bovinos morrendo de fome. Na beira das estradas e nas malhadas das fazendas os esqueletos dos animais formam um quadro dantesco que enluta e entristece até os corações mais enegrecidos. Aquele antes imenso rebanho bovino definha e diminui assustadoramente em nossa região.

O que será do homem nascido e criado na caatinga, acostumado e adestrado nos eitos dos roçados; na lida do gibão e da perneira; na labuta campeira; e de uma hora para outra, dominado pela intempérie do tempo. Ainda a indiferença e impiedade das autoridades, se vê obrigado a deixar o campo e passar a residir nas cidades vizinhas, criando dessa maneira, o ambiente propício para que seus filhos se afundem no abismo da prostituição e do vício da droga.

Em nome desse povo tão sofrido eu vos peço chuva. Só assim, através de vossa intercessão, uma calamidade dessa dimensão não atingirá o vosso povo, o povo sertanejo.

Desculpe-me meu Mestre e Senhor pela ousadia desta carta. Perdoe-me, mas insisto, mandai-nos chuva e que ela chegue com brevidade.

Termino essa missiva lhe pedindo perdão pelos meus pecados e que vós protejas o flagelado do sertão.

FLAGELADO
Autor: Alcino Alves Costa
Interpretes: Babá e Júlio


Ai meu Deus que amargura
Eu tenho no coração
Por ver tanto sofrimento
Dos filhos do sertão
Ai meu Deus que triste sina
Do homem do sertão
Tão humilde, tão bondoso,
Sofrer tanta judiação.

Vai, vai, vai flagelado
Vai ganhar seu pão...

São chamados flagelados
Só porque estão sem pão
Vive triste o sertanejo
Com tamanha humilhação
Andam em bandos reunidos
Todos tristes e amolados
Com um saquinho nas costas
Já sem fé, desenganados.

Vai, vai, vai flagelado...     

Sofre, sofre flagelado
Sofre homem de verdade
Mostre ao mundo seu valor
Seu trabalho e humildade
Peço a todos brasileiros
Que proteja o flagelado
Dê comida aos seus filhos
Que já estão desamparados

Vai, vai, vai flagelado...

Não queremos passar fome
Nós queremos trabalhar
Luta, luta, governante
Pra o flagelo acabar
Termino fazendo preces
A Virgem da Conceição
Que proteja o flagelado
Dando chuva no sertão.

Vai, vai, vai flagelado...

Música gravada pela dupla Babá e Júlio


Publicado nos dias 29 e 30 de março de 2009, no JORNAL DA CIDADE, Aracaju – Sergipe.

Saudações,

Alcino Alves Costa

Enviado pelo escritor e pesquisador do cangaço:
Alcino Alves Costa

Pediu o filho de Corisco

Por: Ivanildo Alves da Silveira
*Cortesia e comentários de Ivanildo Silveira
Uma das grandes polêmicas no estudo do cangaço, se tratou da "briga", para que fossem enterradas as cabeças dos cangaceiros, " Corisco ", " Lampião " e outros que se encontravam expostas ao público no museu, em Salvador, tendo como guardião, o professor Estácio de Lima..

O Dr. Silvio Bulhões ( vide foto, logo abaixo), filho de Corisco, foi um dos que lutaram nessa frente, tendo ido a jornais, e a imprensa de um modo geral, além de ter mantido diálogo com o governo e estudiosos, a fim de que a cabeça de seu famoso pai, tivesse um enterro digno.

Abaixo, trecho de uma reportagem da revista " O Cruzeiro " de 02 de janeiro de 1969, que tratava do assunto em tela.. Vejamos.

Economista, Dr. Silvio Bulhões, filho do cangaceiro Corisco.
Abaixo, a matéria de Tobias Granja, tendo destaque, também na mesma, a transcrição de dois bilhetes encaminhados pelo cangaceiro "Corisco", ao padre Bulhões ( pai de criação de Silvio), solicitando informações e uma foto do mesmo.
Abraço a todos
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC e Cariri-Cangaço
Natal/RN

Extraído do blog: Lampião Aceso

Quem não leu, vai ler, e quem já leu, vai ler de novo -

Por: Renato Cassimiro

Caro Severo,
Você me pede uma opinião sobre o excelente depoimento de Nirez, com respeito à participação de Ademar Bezerra Albuquerque na realização do filme com Lampião. A rigor, não ouvi ali nada do que não seja o restabelecimento da verdade. Nirez tem a seu favor um zelo muito grande por tudo que lhe cerca, seja na fotografia, na música e em todas as suas manifestações de grande memorialista.
Não há dúvida que o seu depoimento procura esclarecer a verdade sobre aquilo que, historicamente, se aceitou como sendo uma ação de Benjamim Abraão.
É perfeitamente factível que as atenções de Ademar Bezerra Albuquerque para não perder a oportunidade de realizar o trabalho, através de Benjamim, sejam verdadeiras e incontestáveis. E nisto o Nirez juntou detalhes fornecidos pelo Chico Albuquerque com grande propriedade para firmar a veracidade das afirmativas. Procurando imagens do Juazeiro antigo, não encontrei em muitos anos uma só que pudesse ser referida ao “fotógrafo” Benjamim. E olhe que ele tinha tudo para fazê-lo, pois no período em que foi secretário do Pe. Cícero, Juazeiro se viu descoberto por uma quantidade enorme de visitantes ilustrados e o dia-a-dia da casa do padre era muito favorável a isto.
Efetivamente, este período de Juazeiro e do Pe. Cícero (época em que Benjamim servia à casa do padre) é muito rico em imagens fotográficas e filmes. A propósito destes filmes, reproduzo o texto que apresentei em nosso então jornal eletrônico Juazeiro on line, na sua edição de 18.01.2009, numa coluna denominada Juazeiro, por aí, que ainda pode ser encontrado disponível em http://www.juaonline.info/.
FILMOGRAFIA(I)...
Numa consulta à Cinemateca Brasileira (Secretaria do Audiovisual/Minc), São Paulo, localizei dados sobre os filmes realizados pelo sr. Lauro Reis Vidal, durante sua visita a Juazeiro, em 1925. Foram três películas: um filme original, de 1925, e dois outros montados nos anos 1939 e 1955.
FILMOGRAFIA(II)...
O JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO (Infelizmente, a Cinemateca Brasileira não possui este filme), é um documentário inscrito na categoria de curta-metragem/silencioso/não-ficção. O material original foi em 35mm, BP, 16q. Produção de 1925, em Fortaleza, onde foi lançado em 08.12.1925, no Cine Moderno. A produtora foi a Aba Film, de Adhemar Albuquerque, que fez a direção. Sinopses: "Surpreendente filme natural apresentando magníficos aspectos da região do Cariri em que se vêem: Joazeiro, Crato, Barbalha e outros lugares, assim como Missão Velha, Lavras, Quixadá, Ingazeiras, Fortaleza, etc. Impressionante vista do grande açude do Cedro". (Jornal do Comércio, 28.11.1926). "Trata-se de uma bela reportagem cinematográfica do Cariri, zona em que o padre Cícero exerce a sua infatigável atividade e o seu grande prestígio. O Joazeiro, a cidade do padre Cícero, é apresentada em seus diversos aspectos, mostrando o seu progresso, o seu povo, enfim tudo o que ali existe de importante. Além do Joazeiro, o público aprecia outros bonitos pontos do sertão cearense, destacando-se o Crato, Barbalha, Missão Velha e o colossal açude do Cedro, obra grandiosa da engenharia brasileira. De Fortaleza há algumas, como sejam o porto, o passeio Público e o Parque da Liberdade. Há também belos trechos da estrada de ferro e fotografias de Lampião e seu grupo. É um filme digno de ser apreciado. Não fatiga o espectador. Ao contrário, torna-se atraente pela variedade de cenas, que desenrola. Além disto satisfaz uma curiosidade: mostra o maior domador de homens dos sertões, o padre Cícero Romão Baptista, que se apresenta em diferentes cenas, entre o povo que o aclama, em sua residencia trabalhando, abençoando afilhados e romeiros, discursando, enfim de diversas maneiras é ele visto na tela". (Jornal do Comércio, 02.12.1926)
FILMOGRAFIA(III)...
O JUAZEIRO DO PADRE CÍCERO, o segundo documentário, foi realizado em 1939, na categoria de curta-metragem/sonoro/não-ficção, a partir de um material original anterior, em 35mm, BP, com duração de 8min, 220m, 24q. A produção foi de Lauro Reis Vidal, no Rio de Janeiro.
FILMOGRAFIA(IV)...
PADRE CÍCERO, O PATRIARCA DO JUAZEIRO, o terceiro documentário, foi realizado em 1955, na categoria de curta-metragem/sonoro/não-ficção, a partir do material original em 35mm, BP, com duração de 11min, 300m, 24q. A produtora foi a Filmes Artísticos Nacionais, do Rio de Janeiro, e a co-produção foi de Lauro Reis Vidal, tendo como direção Alexandre Wulfes. Por exigência da época, o documentário passou pela censura em 19.01.1955, com o certificado 31942, válido até 19 de janeiro de 1960.
 FILMOGRAFIA(V)...
Comentários: Observe que fotos de Lampião são referidas em período anterior à sua visita a Juazeiro, em 1926. Algumas das cenas destes documentários podem ser vistas em outras produções recentes, tanto para cinema como para tv. Na ilustração da coluna de hoje, o arquivo do Juaonline apresenta algumas delas, em fotos que foram obtidas por Raymundo Gomes de Figueiredo (anos 50), a partir de fotogramas destas películas. Especialmente sobre esta primeira película, encontro um registro cartorial firmado pelo Pe. Cícero nos seguintes termos:
1931, 13 de novembro - DOCUMENTO DO PADRE CÍCERO CONCEDENDO AUTORIZAÇÃO EXCLUSIVA, AO SR. LAURO DOS REIS VIDAL, PARA EXIBIÇÃO DO FILME" JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO E ASPECTOS DO CEARÁ. "ÍNTEGRA: " Amigo e Sr. Laudo Reis Vidal. Saudações. Consoante os seus desejos, pela presente, dou a V.S. a exclusividade absoluta para exibição e representação cinematográfica em "qualquer parte do país e fora dele" de filme que diz respeito a aspectos deste município ou fora dele, nos quais figure a minha pessoa. Assim autorizado poderá V.S. fazer a exibição de qualquer película authentica que tenha obtido, ou que possa obter, conforme melhormente consulte as suas conveniencias e as aspirações gerais do povo, a exemplo da que já é de sua propriedade. Joazeiro, 13, de outubro de 1931. Ass. Padre Cícero Romão Baptista.(Lo. B-l, N° de Ordem 10, p. 18)

No dia seguinte, o Pe. Cícero faz constar no mesmo livro do primeiro tabelionato uma outra comunicação, reafirmando a concessão do dia anterior e ampliando suas prerrogativas: 1931, 14 de novembro - DOCUMENTO DO PADRE CÍCERO CONCEDENDO AUTORIZAÇÃO EXCLUSIVA AO SR. LAURO REIS VIDAL, PARA IXIBIÇÃO DO FILME "JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO E ASPECTOS DO CEARÁ. "Integra: "Amigo e Sr. Lauro Reis Vidal. Local. Reportando-me a minha carta passada onde lhe concedo a exclusividade de minha exibição cinematográfica ficando V.S. com plena autorização por ser o único habilitado a propagar o município de Joazeiro e minha pessoa, através da mesma exclusividade, em todos os tempos, como proprietário do filme "Joazeiro, do Padre Cícero e Aspectos do Ceará" ou outro qualquer filme que possa obter; sirvo-me da presente para juntar as fotografias e documentos que solicitou, em relação separada e por mim assignada, como elementos precisos para a via de propaganda acima citada. Encerrando, cumpre-me, de já, agradecer a sua manifesta boa vontade para comigo, os meus amigos e as coisas do Joazeiro. Saudações. Joazeiro, 14 de novembro de 1931. Ass. Padre Cícero Romão Baptista.( Lo.B-l, N° de Ordem 12, p. 19/20).
O ano de 1925 foi pródigo para filmagens em Juazeiro. Conhecemos a película realizada em 11 de janeiro, quando da inauguração da estátua ao Pe. Cícero, na Praça Alm. Alexandrino de Alencar; conhecemos a película realizada em setembro, quando da visita da comitiva do presidente Moreira da Rocha; conhecemos a que foi realizada por Ademar Albuquerque/Reis Vidal; mas não conhecemos uma que teria sido realizada por iniciativa do então deputado estadual Godofredo de Castro, neste mesmo ano.
É muito mais provável que Ademar esteja como realizador em todas estas películas e este relacionamento teria servido para oferecer um treinamento mínimo para o que viria anos depois com o filme de Lampião, pois é neste ponto que o testemunho de Chico Albuquerque a Nirez é importante.
Não tenho dúvida em aceitar que Ademar e Benjamim tornaram-se parceiros, sendo este cliente daquele e a quem poderia realizar pelo motivo apresentado por Chico Albuquerque e Nirez, o da confiança de alguém que não o punha, e a seu grupo, em apuros com a repressão policial.
Embora tenha feito isto, publicamente, em depoimento durante uma edição do Cine Ceará, anos atrás, aproveito a oportunidade para relatar brevemente o que me foi ensejado conhecer desta atividade cinematográfica de Benjamim. No início dos anos 80, eu e Daniel Walker adquirimos uma coleção de fotografias antigas de Juazeiro e alguns pequenos pedaços destas películas que o seu proprietário, Raymundo Gomes de Figueiredo, cidadão juazeirense, mantinha como acervo e no qual se incluíam livros e jornais, e a que deu o nome de Arquivo Benjamim Abraão.

Quando adquirimos e isto foi divulgado pelo Diário do Nordeste, o fato foi relevado como se tivéssemos adquirido o Arquivo “de” Benjamim Abraão. A família de Benjamim, através de seu filho, então residente em Niteroi e comerciante no Rio de Janeiro, Atalah Abraão, instruído por Eusélio Oliveira, resolveu mover uma ação contra nós dois e a levou adiante nas instâncias de Juazeiro do Norte e Fortaleza. Vencemos nas duas e o material nos foi devolvido, anos depois. Mais adiante, numa conversa com o ex-senador da república, José Reginaldo Duarte, cuja família criou nos arredores de Juazeiro, o filho de Benjamim, o sr. Atalah, nos chamou para uma conversa onde algumas coisas foram faladas a respeito da frustração que aquele ato determinou para nós e para a família, sobretudo porque ficou demonstrado que nós não havíamos comprado nenhum roubo, portanto, não éramos receptadores de um acervo, até então procurado.

O sr. Reginaldo Duarte nos lembrou, inclusive, que por vários anos, encontrando-se diversos rolos de filmes pertencentes a Benjamim (não se sabe se apenas outros que não o relativo a Lampião) num canto da casa, na localidade de Brejo Seco, proximidades do atual Aeroporto Regional do Cariri, guardados em latas...
...a garotada do sítio tomava aqueles rolos e os queimavam durante as festas juninas. Certamente que por conta do material cinematográfico de então, sua queima se assemelhava a uma chuva de prata, coisa que fazia a garotada delirar.
Este é o fim trágico, pelo qual, inclusive tivemos que pagar duramente por uma suspeita descabida, a partir da ignorância e má vontade do então, meu amigo, Eusélio Oliveira, que não se permitiu aceitar o convite para conhecer de perto o que tínhamos comprado. A grande indagação que ficou, como moral da história foi mais uma grande dúvida sobre o que teria feito ou não Benjamim Abraão, como fotógrafo e cinegrafista, aluno de Ademar.
Em tudo o que mencionei antes e do que ouvi, destaco: Sem querer por fogo na fornalha e já pondo, enfatizo o que registra a ficha da Cinemateca, mencionada: Há também belos trechos da estrada de ferro e fotografias de Lampião e seu grupo. Não é interessante que haja estas fotografias tomadas em data(s) anterior(es) a 1926. Observar que no filme com Lampião, Benjamim aparece usando um bornal com a inscrição Aba Film. Nunca houve omissão de que a produtora foi a Aba Film, de Adhemar Bezerra Albuquerque, que (também) deve ter feito a direção, à distância. Por isto, o depoimento de Nirez corrobora com as indicações anteriores de que ele era, efetivamente, produtor, diretor e fotógrafo destas películas em torno de 1925. Entre 1925 e 1936, quando filma Lampião, certamente Benjamim já teria apreendido objetivas e eficientes lições para manejar a máquina. Em mais de 10 anos de relação profissional com Ademar, Benjamim só teria feito isto? A resposta se foi, desgraçadamente, no fogo ingênuo das crianças, em noitadas de São João, nos arredores de Juazeiro do Norte.

Renato Casimiro
Extraído do blog: Cariri Cangaço

A Briga de Quelé com o cangaceiro Meia Noite

Por: Rostand Medeiros
Photo

O comerciante e almocreve Miguel Moura nutria uma boa relação com Clementino, a quem chamava de “primo”. Este comentou com seu filho que a razão de sua saída do bando de Lampião foi uma briga com o valente cangaceiro “Meia Noite”. Este era alagoano, do lugar Olho D’água, atual Olho D’água do Casado, próximo a cidade de Piranhas. Seu nome verdadeiro era Antônio Augusto Correia e pelo fato de possuir a pele negra, recebeu a famosa alcunha. Para o genitor de Antônio Ramos, o negro Meia Noite foi o mais valente de todos os homens que andaram com Lampião, do tipo de gente que “-Dava medo só de olhar”. 
Segundo Mello (op. cit.), a razão da briga entre Quelé e Meia Noite foram dois irmãos cangaceiros chamados José e Terto Barbosa. Este último havia assassinado no Ceará o irmão de um chefe cangaceiro, tendo se refugiado com seu mano na serra do Catolé, a cerca de 30 quilômetros da cidade pernambucana de Belmonte, próximo às fronteiras do Ceará e da Paraíba.
Em uma ocasião que os cangaceiros de Lampião e Quelé se encontravam na fazenda Abóbora, pertencente ao tradicional coiteiro Marçal Diniz, chegou uma mensagem de José e Terto para seus tios Neco e Chico Barbosa, igualmente cangaceiros do bando de Lampião. O que os dois sobrinhos solicitavam aos tios era uma maneira de salvarem a pele. Neco e Chico sabendo que o chefe cangaceiro cearense, conhecido como “Casa Velha”, cujo irmão foi morto por Terto, era amigo de Lampião, acharam por bem pedir a Clementino Quelé que recebesse os dois sobrinhos. O chefe dos Furtados se sobressaía cada vez mais no cangaço junto com seus irmãos e não pôs obstáculo à entrada dos dois rapazes no seu grupo.
Coronel Marçal Diniz
Quando Meia Noite soube da história se colocou totalmente contrário, pois foi amigo do homem morto por Terto Barbosa e disse que se ele viesse para o bando iria atirar nele. O resumo da ópera foi que após Quelé tomar conhecimento da alteração de Meia Noite se coloca ao lado de Terto. Corajosamente disfere uma saraivada de impropérios contra Lampião, Meia-Noite e os outros cangaceiros. Segundo Mello (op. cit), Clementino teria dito textualmente “-Que juntassem tudo que ele brigava do mesmo jeito”.
Antônio Ramos relata que depois da discursão, Quelé aparentemente não se satisfez com o posicionamento de Lampião e reclamou. No entendimento do chefe dos Furtados, Lampião “-Teria dado mais valor a um negro do que a ele”. Sentindo-se rebaixado no seu racismo tardio, Quelé abandonou a vida do cangaço e ficou marcado por Virgulino.

Continua...
Rostand Medeiros
FONTES: