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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

SAUDADES DO CARIRI CANGAÇO

Por: João de Sousa Lima


O Cariri Cangaço é algo difícil de se explicar, para quem participa é duro encontrar palavras para expor a satisfação de ter estado nesse encontro ou talvez as fotografias, como provas incontestes,  consigam  compor um pouco desse quadro.
O evento é na realidade um encontro de amigos, pessoas que realizam suas pesquisas, suas buscas e suas descobertas e no exato momento do Cariri Cangaço explanam suas impressões, discutem seus erros e acertos, ajustam suas dúvidas, defendem suas razões. As vezes as discussões são acirradas, ásperas, uma quase batalha "NAS CAATINGAS DA PESQUISA HISTÓRICA", em cujas plagas o guerreiro transfigura-se em um Mandacaru imponente, brava árvore nordestina que não se abala ante as intempéries que o cercam e as vezes parece o caboclo sertanejo de braços voltados aos Céus clamando a Deus um pouco de água.
O Cariri Cangaço é a expressão maior da arte diversificada dos fatos históricos do meu sertão nordestino e ele está nas pequenas impressões que colhemos: Está no sorriso da Nely, na educação carinhosa de Honório de Medeiros, no amor de Manoel Severo, na visão divina de Marcos Passos e seu fiel escudeiro Felipe Passos, na fidelidade de Ângelo Osmiro, na longa caminhada de Antonio Amaury e na epressão ajustada de Alcino Alves Costa, na voz inconfundível de Barros Alves, na gentileza de Geraldo Ferraz,  na felicidade de Ivanildo Silveira, no silêncio contagiante de Kiko Monteiro, na recepção acertada de José Cícero, na inteligência de Renato Casimiro, na presença de Narciso, no barulho eterno de Paulo Gastão e seu discípulo Vilela, na elegância de Pedro Luis, na companhia de Tomás e Afrânio Cisne, na amizade de Reclus, na sensibilidade de Wescley, na educação de Bosco André, nas letras de Pereirinha, no amor de Juliana e Júlio Schiara, no silêncio do Bonessi, nas imagens de Aderbal, nas imagens eternas de Ricardo Alburqueque, na fala de sabino Basseti, nas bombas desativadas de nosso BIN LADEN, na saliência de Lívio, na presença contagiante de  Wilson Seraine, no conhecimento de Múcio Procópio, na participação de Archimedes, na sombra de Aninha, na perseverança do Comendador, na participação de Jairo, Cacau e Inácio Loiola e no pelotão pauloafonsino Gilmar, Rubinho, Alcivandes, Voldi e  Luiz.
O Cariri Cangaço é a expressão maior na discussão da arte Nordestina, é a lembrança do passado como inclusão social no conhecimento do presente e na divulgação pontual desses fatos relevantes que fazem parte da historiografia brasileira.


Barros Alves, Nely e João

Décio Canuto, João e Geraldo Ferraz

Narciso, Vilela, Kiko, Ângelo, Nely, Ivanildo e João

Público atento

Deputado Inácio Loiola, Alcino Alves e João

Tomás, Pedro Luiz, Ângelo, João, Reclus e Afrânio

Ângelo, João e Renato Casimiro

Jadilson, João, Nely, Voldi, Gilmar, Alcivandes, Luiz e Rubinho.
João e o maestro Severo.

Postado por: João de Sousa Lima 

Primeira chamada!

Flagrantes 1

Confira alguns dos momentos, confrades, e personagens do Cariri Cangaço 2011 sob a mira do Lampião Aceso


Recepção de arrepiar:
A Filarmônica do Crato executou no Hall do Teatro Salviano Arraes algumas canções do cangaço.


Em sessão solene da câmara de vereadores o coroné Severo nos matou de inveja ao receber o titulo de cidadão cratense.


Fato inédito:
Quem advinhar o nome do dono destas alpercatas ganha um... "picolé de Xuxu". Dica: "Estas bixiguentas estão me sufocando igual aos sapatos que eu abandonei desde que era um adolescente"...


Messier Aderbal
entrevista o pesquisador Ricardo Albuquerque herdeiro do acervo de fotografias de Benjamim Abrahão e curador da exposição Cangaceiros.


Manhã da Terça-Feira, 21.
Estamos no SESC do Crato para assistir e participar de "Angico o debate final". Final? É utopia visse, parece que vamos deixar para futuras gerações o possivel fim deste embate.


Homenagem do escritor Antonio Vilela para o soldado Adrião Pedro de Souza entregue ao seu neto Décio Canuto.


Alcino Alves Costa
joga no time dos que acreditam que Angico está repleto de "mentiras e mistérios".


Ivanildo Silveira
 questiona as crenças e teses de alguns debatedores e apresenta evidencias.


Casa lotada:
A tarde de Quarta-Feira 21, no Clube Recreativo - Barro,CE juntou pesquisadores e especialmente os estudantes do ensino fundamental para conhecerem parte da sua própria história.


O poeta Cleíson Ribeiro acompanhado ao violão pelo secretário de cultura do Barro Sanderley Coelho nos apresentaram a cantiga "Enxame de Lampião".


Toda a irreverencia e talento na canja do confrade Jadilson "Bin Laden" Ferraz.


Mesa: Professor Pereira Cajazeira, PB. Alfredo Bonessi, Fortaleza. Carlos Elydio, SP e o nosso anfitrião jornalista Souza Neto.


Parte da caravana teve a oportunidade de conhecer a velha casa da fazenda do Major Zé Inácio do Barro.


Esperando na janela: A professora "Aninha do Ó"


Estação de Aurora, CE. Aqui fora assassinado o Cel. Izaias Arruda


SESC do Juazeiro manhã da Quinta-Feira, 22: Sessão exclusiva para exibição do primeiro capítulo da minissérie "SEDIÇÃO DE JUAZEIRO" de Jonasluis de Icapuí.


Renato Dantas, Daniel Walker, Jonasluis, Manoel Severo, Aderbal Nogueira e Renato Cassimiro.


Visita extra proporcionada pela confrade Paulinha. Esta é a senhora Maria Assunção Gonçalves, 95 anos. Artista plástica e uma das ultimas viventes que testemunhou a visita de Lampião a Juazeiro. Na época aos 11 anos de idade entre tantas crianças foi pega carinhosamente no braço pelo rei do cangaço. Dentre outras observações nunca esqueceu dois detalhes: Que não havia munição exposta na sua cartucheira e que "Ele era feio, viu" 


Mesa composta no Teatro Nelory Figueira - Barbalha.


Dr. Pedro Luiz, o médico e escritor Magérbio de Lucena e Hugo Rodrigues.


Aqui posamos com o grande amigo Coroné Ângelo Osmiro que nos brindou com "A LITERATURA NA ÉPOCA DO CANGAÇO". O pesquisador cearense reuniu em uma sublime apresentação todos os titulos que foram produzidos no período de atuação lampionica. O conteúdo desta palestra estará em breve como matéria do nosso blog, aguardem.


Reconhecimento: O decano de Poço Redondo foi um dos quatro homenageados pelo Dr. Ivanildo Silveira e por nós em nome da comunidade do Orkut Lampião, Grande Rei do Cangaço e do blog Lampião Aceso. Receberam também: Manoel Severo e sua esposa Daniele Esmeraldo, o documentarista Aderbal Nogueira e o escritor João de Sousa Lima.


"O colecionador " Ivanildo Silveira entrou em ação com "O CANGAÇO EM IMAGENS" prendendo a atenção da plateia para um desfile de fotos inéditas e alertou sobre controvérsias quanto à legendas de outras já bastante publicadas.


Outro momento da palestra de Ivanildo Silveira.


Voldi Ribeiro trouxe para floresta do Araripe um pouco da vida de Delmiro Gouveia.


Em seguida o confrade Gilmar Teixeira tratou da sua misteriosa morte e apresentou os principais indícios que o levaram a publicar QUEM MATOU DELMIRO?


Continua... 

Sila- Depoimento de quem sobreviveu


O momento bom era fim de mês, quando os macacos iam receber o ordenado na sede da polícia, na Bahia. Por 15 dias o sertão ficava livre. A gente ia para a fazenda de algum coiteiro, matava criação, fazia festa. O cangaceiro Balão tocava realejo [espécie de acordeom], a gente dançava. Éramos como uma família.


Quando Zé Sereno informou que iríamos para a gruta de Angicos, em Sergipe, onde o massacre aconteceria, achamos que seria mais uma reunião de costume. A viagem foi tranqüila, mas, ao chegar, notei Lampião abatido. Talvez estivesse adivinhando as coisas. Maria me disse que há uns meses ele andava assim.


De noite, depois de comer, Maria disse a Lampião que ia sair comigo para fumar. Ela não fumava na frente dele em sinal de respeito. Ela gostava de conversar comigo. E me confidenciou que estava cansada daquela vida: 'Nem minha filha posso ver, é só fugir, correr'. Contou que tinha até proposto a Lampião irem morar no Mato Grosso, e ele não quis. Durante a conversa, percebi uma luz, ao longe, que acendia e apagava, como uma lanterna. Comentei com Maria e ela disse que devia ser um vaga-lume. Já eram os macacos posicionados para nos atacar.

Zé Sereno, o primeiro da esquerda

Voltamos para a barraca, Zé já estava deitado, preferi não incomodá-lo. Se eu tivesse acordado ele, ele chamaria Lampião, teríamos fugido ou nos equipado. Mas a volante chegou de surpresa. Acho que estava escrito.
No dia 28 de julho de 1938, Zé Sereno se levantou antes de amanhecer e foi rezar com Lampião. Falei que ia dormir mais um pouco e já me levantei com um tiro. Saí descalça, correndo, a fumaça das balas não me deixava enxergar nada. Era tiro de metralhadora, rifle, revólver. Segurei nas mãos de Enedina e corremos.

Do acervo de Alcindo Alves da Costa

Vi o desespero dos outros, pela última vez avistei meu irmão, Mergulhão, que tinha entrado no cangaço até por minha causa.
Subimos um morro com sangue escorrendo pelas pernas machucadas pelos espinhos dos xiquexiques. Enedina foi atingida e os miolos dela cobriram meu rosto. Eu e Criança nos arrastamos por uns 300 metros e escapamos. Ouvíamos os gritos dos soldados: 'Lampião está morto! De repente, Zé apareceu entre as moitas. Depois soubemos que ao todo foram 11 mortos.   
Foi a coisa mais triste do mundo. Arrasados, fugimos com os outros sobreviventes e passamos uma temporada no mato. De vez em quando aparecia um coiteiro que nos contava que as cidades estavam em festa. Soubemos que as cabeças de nossos amigos foram exibidas em várias cidades. Eu nunca quis saber detalhes sobre isso, nunca quis ver as fotografias. As lembranças desse dia são horríveis. Com o tempo, a memória vai ficando mais sensível. Tenho pesadelos freqüentes com tiroteios, em que corro, corro... Só acordo quando caio da cama.


O bando foi reorganizado às pressas por Zé Sereno, mas, sem Lampião, o movimento estava morto. Nos escondemos em uma fazenda amiga, e o capitão Aníbal, comandante da polícia, a mando do presidente Getúlio Vargas, começou a mandar cartas para o Zé, falando que a gente se entregasse, que nada iria acontecer. Um dia Zé reuniu todos os cangaceiros e falou: 'Se não der certo, a gente se revolta'.
 Seguimos para Jeremoabo, cidade baiana, onde devíamos nos entregar, e, no caminho, passamos um dia em Serra Negra. Quando entramos na cidade, não ficou ninguém dentro de casa. Saíram todos para nos ver. Lá, à tarde, eu e Zé casamos na igreja. Usei um vestido estampado. Estava feliz, achando que a vida ia melhorar.


Ao nos entregarmos, não fomos presos, mas não podíamos sair da cidade. Os casados tinham até direito a uma casa. Eu estava grávida e tive um aborto aos cinco meses. Adoeci, sentia dores pelo corpo, acho que de canseira.
Após dois meses, fomos tentar a vida em Salvador. Antes, pedi que Zé desse ao capitão Aníbal os pertences do cangaço – chapéus, bornais, cantis cravejados a ouro. Queria esquecer tudo. Zé tomou conta de uma fazenda de cana até sair a anistia. Lá, tive Gilaene, minha primeira filha. Mas Zé pegou uma briga com jagunços e fugimos. Andamos a pé semanas. Meu braço ficou inchado de carregar a menina.
Fomos para Minas, onde tive Ivo, meu segundo filho. Zé trabalhava em uma fazenda e eu costurava. Tive outro parto, de gêmeos, que morreram com 14 dias. Depois de outras pequenas andanças, paramos em São Paulo, onde tive Wilson, o caçula, e aprendi a evitar filhos, com tabelinha.
 Fomos morar no bairro de Vila Jaguara, onde criamos as crianças. Zé trabalhou como segurança particular, depois em uma escola da prefeitura, onde se aposentou. Mas eu é quem sempre tomei as rédeas da casa. Costurei por dia em casa de freguesa, tive sala de costura nos Jardins, costurei no Mappin, na TV Bandeirantes, fiz bicos de vendedora e enfermeira.


Por nove anos Zé viveu doente, a vida ficou ainda mais dura. Ele morreu de derrame cerebral em 1982. Durante quase 50 anos juntos, ele foi bom pai, mas toda a vida foi mulherengo.
Por muitos anos, nunca comentei nossa história com ninguém. Só me dei conta da importância do que tinha vivido quando meus filhos já eram moços. Hoje vivo de aposentadoria e ganho algum dinheiro extra dando palestras em faculdades e eventos sobre o cangaço. Daquela época, guardo apenas o chapéu do Zé e um bornal.
Eu sou feliz, graças a Deus. Pude criar meus filhos com três coisas importantes – paz, saúde e uma mãe que olhasse por eles. Acho que o cangaço era meu destino e que sobrevivi para contar a história. Me dou valor por ser o que sou e ter passado o que passei. Mulher tem que ser corajosa. Até hoje ando sozinha por esse Nordeste todo, todo mundo sabe que fui cangaceira de Lampião e me respeita."

Livros lançados por Ilda Ribeiro de Souza: "Sila – Memória de Guerra e Paz", editora da Universidade Federal de Pernambuco, 1995; e "Angicos, Eu Sobrevivi", Oficina Cultural Monica Bonfiglio, 1997.

GALERIA DE FOTOS DE LUZIA PAIVA FERNANDES

Ela é a que está de traje verde
As demais são amigas