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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Corisco, o compadre de Lampião



Aí estão Corisco e o tenente José Rufino. 

Após a morte de Lampião, em 28 de julho 1938, Corisco matou uma família inteira que supostamente relatou o esconderijo do amigo, e durante mais dois anos ainda espalhou terror pela Bahia. 


Porém não tinha mais o apoio de tantos coiteiros e o próprio bando estava se dizimando, com muitos se entregando à polícia.

Em 25 de maio de 1940, escondido numa casa em Barra do Mendes, na Bahia, foi descoberto pelo tenente José Rufino, que deu-lhe a chance de se entregar. 


Preferiu, contudo, a troca de tiros, que tirou-lhe a vida e quase decepou um dos pés de Dada. 


Esta, porém, teve a vida poupada e foi capturada. Com a morte de Corisco o cangaço terminou completamente no nordeste.

Por Cristino Gomes da
Silva Cleto batizado,
por Alemão conhecido,
por Diabo Louro chamado,
por Louro de Fogo tido,
por Corisco apelidado.

Tão somente doze anos
mais novo que o capitão
pois em mil e novecentos
e dez, em pleno sertão
nasceu Corisco o temível
sucessor de Lampião.

Fraternalmente porém
o capitão Virgulino
sentado em torno das trempes
dava ao cruel assassino
café, enquanto o chamava
de meu compadre Cristino.

Trecho do livro “Lampião, a Força de um Líder”
de Gonçalo Ferreira da Silva

http://www.jvicttor.com.br/liquidificordel/?p=45 

Maria Bonita

Por: José Nêumanne Pinto
Rainha do cangaço, a companheira de Lampião ganhou um estudo da neta, Vera Ferreira


Trecho: “Tentamos ressaltar um olhar sobre Maria que nos conduz ao significado de uma mulher em um determinado contexto e período na história do Brasil”
Legenda: Aventura 

Ela tinha 19 anos quando saiu de casa para percorrer o sertão. Nascida e criada na Malhada da Caiçara, no sertão baiano, Maria de Déa foi destinada ao casamento, celebrado em plena adolescência, e a uma vida pacata. Aos 16 anos, casaram-na com o sapateiro Zé de Nenê, mas o lar do casal, que foi morar no povoado de Santa Brígida, ali perto, logo desmoronou, segundo as más línguas porque o varão era pacato demais para a inquietação fabril da mulher. Além do mais, o marido era estéril e a diferença de temperamento gerou conflitos que levavam o par a se separar e se reconciliar até o dia em que, no final de 1929, cruzou a soleira dos pais dela, Zé Filipe e Dona Déa, o temível Rei do Cangaço no sertão, Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, aos 32 anos.


O chefe de bando era vingativo, cruel e destemido, mas também tinha lá seus laivos de herói romântico. Dos saques das fazendas dos ricaços do sertão furtava perfumes franceses de boa cepa e o melhor uísque escocês. Ao relento nos acampamentos no zigue-zague das fugas para escapar da perseguição policial, puxava um fole de oito baixos e a ele foi atribuída a autoria de um dos maiores sucessos do cancioneiro sertanejo e nacional, Muié rendeira, de cuja autoria se apropriaria, no Rio, o malandro Zé do Norte. Não era de estranhar que fizesse corte à morena e começou por lhe encomendar que bordasse suas iniciais CL (Capitão Lampião) em 15 lenços de seda, o que permitiu a abordagem e, depois, serviu de pretexto a novo encontro, que terminou com a retirada da morena separada do marido da casa dos pais. Foi, então, que a beleza da escolhida do Rei lhe deu a alcunha com que morreu na Grota do Angico, Sergipe, ao lado do amante, e que se fixou na memória do povo: Maria Bonita.

Expedita, filha do casal real da caatinga, criada no Estado em que os pais morreram, Sergipe, sobreviveu à carnificina e gerou, entre outros filhos, Vera Ferreira, que, professora universitária em Aracaju, tem mantido viva a memória dos avós e empreendeu obra de vulto para comemorar o centenário da avó. Bonita Maria do Capitão, livro trazido a lume pela Editora da Universidade do Estado da Bahia, lançado em São Paulo na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), por R$ 100, é obra de fôlego O volume de 328 páginas, organizado pela neta, jornalista e escritora, com a cumplicidade da desenhista paraibana Germana Gonçalves de Araújo, reproduz o legado da personagem lembrada pelos caprichos e vontades, mas também pelo bom humor e descontração quase infantil, com esmero e bom gosto.

A aventura da menina que saiu de casa aos 19 anos para percorrer o sertão nordestino a pé num bando de cangaceiros até tombar, aos 27, humilhada a ponto de ter a cabeça, decepada quando ainda vivia, exposta à curiosidade popular, tem sido narrada em prosa, verso, imagem e som.
O casal, evidentemente, foi tema de muitos romances de cordel. Num deles, Sabóia, chamado de Marechal de Cordel do Cangaço, registrou: “Cupido fez passatempo / com Maria e Lampião/ ela Rainha ele Rei / governou nosso sertão / cangaço e amor viveu / não foi uma ilustração”. Rouxinol do Rinaré e Antônio Klévisson Viana versejaram: “Maria Gomes de Oliveira / amou muito a Lampião / decidiu ser a primeira / cangaceira do sertão / ignorando o destino / acompanhou Virgolino / pela força da paixão”. O livro reproduziu a capa de um cordel de Sávio Pinheiro sob título O arranca-rabo de Yoko Ono com Maria Bonita ou A desaventura de John Lennon e Lampião, editado em 2008.

Seu apelido famoso também foi muito cantado. “Acorda, Maria Bonita, / levanta pra fazer café, / que o dia já vem raiando / e a polícia já está de pé” - esta é uma estrofe de Muié Rendeira, que ou foi acrescentada depois ou se tornou, como mofou Bráulio Tavares em seu texto registrado no livro, o caso de premonição mais espetacular da história da música popular, de vez que o casal foi morto, de fato, ao amanhecer.

Seu nome também foi muitas vezes lembrado em funções de repentistas pelo sertão afora. Certa vez, Otacílio Batista glosou: “Virgolino Ferreira, o Lampião, / bandoleiro das selvas nordestinas / sem temer a perigo nem ruínas / foi o rei do cangaço no sertão, / mas um dia sentiu no coração / o feitiço atrativo do amor / a mulata da terra do condor / dominava uma fera perigosa. / Mulher nova, bonita e carinhosa / faz o homem gemer sem sentir dor”. Zé Ramalho pôs música nos versos e a canção virou tema da minissérie Lampião e Maria Bonita, na Rede Globo.

A beleza de Maria, mostrada em foto e cinema por Benjamin Abrahão, fascinou artistas plásticos como Mino e virou tema obrigatório de xilogravadores como J. Borges, Mestre Noza, J. Miguel e Marcelo Soares. Suas peças de vestuário e as joias que usava foram reproduzidas no livro, que também se refere à peça de Rachel de Queiroz sobre ela e a filmes do gênero dito nordestern que a adotaram como personagem. Como resumiu Maria Lúcia Dal Farra em poema: “Maria de Déa, Maria Bonita, minha Santinha! / Mulher de tantos nomes / tão poucos para contê-la”.

Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde
Recriações
Artes plásticas

A permanência de Maria Bonita como personagem emblemática se fez presente nas diversas recriações feitas por artistas, reproduzidas no livro, como a retratada na xilografia de Humberto Araújo.
Cinema
A cantora Vanja Orico de Maria Clódia caracterizada como Maria Bonita no filme Lampião, o Rei do Cangaço , de 1964, dirigido por Carlos Coimbra, uma das muitas adaptações de sua história para a tela grande.
Teatro
Croqui do “vestido de caatinga”, feito pelo artista plástico Aldemir Martins em 2006 para a montagem da peça Lampião , escrita nos anos 50 por Rachel de Queiroz, encenada no Teatro Leopoldo Fróes, em São Paulo.

JOSÉ NÊUMANNE PINTO 

http://blocoson.blogspot.com.br/2012/04/maria-bonita.html

JUQUINHA: UM AMIGO QUE SE FOI, UM EXEMPLO QUE FICA

Por: João Paulo História

Ainda criança conheci um dos mais importantes personagens da história de Nossa Senhora das Dores. Naqueles idos da década de 1990, ouvia atentamente meu avô - o senhor Orestes Souza de Carvalho - falar de um homem que, na opinião dele e da maioria dos de sua geração, havia sido o maior administrador público que a cidade, criada em 1920, conheceu.

O argumento usado por meu avô para convencer-me de sua versão era o fato de que ninguém, até então, tinha calçado tantas ruas, construído tantas escolas e, o mais importante para ele, demonstrado tanto zelo pela coisa pública. Afinal, afirmava (e continua afirmando ainda hoje) que o então prefeito Antônio Cardoso de Oliveira se fazia presente no canteiro de obras a fiscalizar e orientar os operários para que os recursos fossem aplicados sem desperdício e com a mais alta qualidade na matéria-prima implementada. Além do mais, chamava sua atenção o fato de que o prefeito fiscalizava, pessoalmente, inclusive aplicando multas que irritavam alguns, a limpeza e a organização das ruas da cidade e do município.

Após conhecer S. Juquinha por meio da memória de meu avô, tive a oportunidade de pessoalmente ser apresentado a ele. O jovem daquela época, então, passou a chamá-lo de “general”, pois, na mente daquela criança de menos de 10 anos de idade, aquela figura de fala e fisionomia firmes só podia ser um “general”. E o “general” logo nomeou-me “capitão”.

Essa imagem, do exemplo de homem público que havia conhecido a partir do meu avô e depois nas idas e vindas pelo calçadão da Getúlio Vargas, ficou durante muito tempo em minha mente.

Ao tornar-me um catador de histórias passei a mergulhar ainda mais na trajetória desse personagem cuja história confunde-se com a da própria cidade. E essas pesquisas solidificaram ainda mais em minha mente a imagem construída na infância, a de um homem sério, honesto e zeloso pela coisa pública, querido, admirado e respeitado pelos familiares, amigos e adversários políticos.

Ele nasceu no dia 15 de novembro de 1922, na fazenda Poço dos Paus, município de Capela. Filho de Francisco Cardoso de Oliveira e dona Maria Clarice de Oliveira, aos quatro anos de idade mudou-se com a família para N. Sra.das Dores, onde seu pai havia adquirido, dois anos antes, a fazenda Riacho da Areia. Passaram, então, a residir no povoado Volta onde o menino Juquinha conheceu suas primeiras letras pelas mãos da professora Maria da Glória Santos, a mesma que se tornou patrona da escola do povoado Gentil—construída pelo prefeito Antônio Cardoso.

Ingressou na vida política em 1951, quando foi eleito vereador pelo PSD para o quadriênio 1951-1955, tendo recebido mais de 400 votos (algo expressivo tendo em vista o pequeno eleitorado da época). Em 1967, assumiu o cargo de Prefeito de N. Sra. das Dores pela ARENA-2. Exerceu o cargo durante os anos 1967 e 1971, tendo tido o apoio do Governo do Estado, na pessoa de Lourival Baptista (1967-1970), com quem a Prefeitura fez diversas parcerias com vistas à realização de benfeitorias na cidade.

Dentre as principais obras de sua administração vale destacar: construção de um Matadouro Modelo, o mais moderno do Estado na época, no bairro “Cruzeiro Velho”; reforma da Pç. da Matriz; calçamento na Av. Lourival Batista, Pç. Joel Nascimento, Rua Edézio Vieira de Melo, Pç. José Barreto de Souza, Av. Augusto Franco, dentre outras; construção do Centro de Supervisão Escolar, hoje DRE´05; reforma do Estádio “Lourival Baptista”, atual “Ariston Azevedo”; construção de escolas nos povoados Sapé, Ascenso, Gentio, Bravo Urubu e outros; e a mais importante delas, a construção do prédio do Ginásio “Tertuliano Pereira de Azevedo”, hoje Colégio Cenecista Regional “Francisco Porto”, que proporcionou a muitas gerações de dorenses o acesso ao ensino secundário, antes somente possível aos ricos que podiam pagar para seus filhos estudarem em Aracaju. Juquinha, eu sou um dos frutos dessa sua ação, pois, sou ex-aluno desta escola que você não deixou ser extinta.

Devido a essa destacada atuação como prefeito de N. Sra. das Dores foi homenageado, em 1969, no Iate Clube de Aracaju, como o melhor administrador público do Estado de Sergipe naquele ano. Sua simplicidade não o envaideceu por causa deste reconhecimento, que ele dizia ser “coisa de Lourival”. Não Juquinha, não foi “coisa de Lourival”, você mereceu esta justa homenagem.

Ele nasceu Antônio Cardoso de Oliveira, mas ficará imortalizado em nossa memória como Juquinha, simplesmente Juquinha, pois, simplicidade era uma de suas marcas, exemplo de amigo e de homem público, exemplo de honestidade. Afinal, como ele mesmo dizia: “Eu cumpri com o meu dever. E quem cumpre com seu dever merece ter valor.” E é com esta certeza de dever cumprido que até hoje Juquinha é reverenciado por todos os dorenses, independente de idade e filiação político-partidária, pois, mesmo aqueles que não vivenciaram sua administração, como eu, podem acompanhá-la por meio da memória dos mais velhos que o apontam como um dos maiores homens públicos que Dores já viu surgir, um homem leal, honesto e zeloso com a coisa publica, um homem com muitos predicados. Predicados reconhecidos até mesmo por seus adversários, os quais sempre foram tratados com urbanidade, com respeito.

Juquinha, você não morreu, os heróis não morrem, ficam para sempre vivos na memória dos homens de bem!

Obrigado pelo seu exemplo e pela sua amizade!

Descanse em Paz meu “general”, sei que neste momento você está nos braços do Pai, ao lado daqueles que você tanto amou!

Esta é uma pequena homenagem do seu amigo, o “capitão”!

N. Sra. das Dores (SE), 12 de setembro de 2012.


João Paulo Araújo de Carvalho

Enviado por:  Paulo Paulo História

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

LIVRO - A OUTRA FACE DO CANGAÇO - VIDA E MORTE DE UM PRAÇA


Autor: Antonio Vilela de Souza



PARA AQUISIÇÃO DO EXCELENTE LIVRO:

A presente obra custa R$ 20,00 (Vinte reais) + frete a consultar. Tem 102 páginas, fotos inéditas e está sendo comercializado exclusivamente pelo autor

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Ivanildo Alves da Silveira
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LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE


Autor: Archimedes Marques


Preço: R$ 50,00
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Agência: 3088-0
Conta: 33384.0

Em nome de Elane Lima
Marques (Minha esposa).
E-mail

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Relançado um clássico da HQ


Aventuras no cangaço n.1 traz de volta antigo personagem de Gedeone Malagola

A cooperativa de Quadrinhos Júpiter II tem como uma de suas propostas resgatar estilos e personagens das Histórias-em-Quadrinhos do passado, alegrando os velhos fãs e apresentando o personagem a jovens e novos leitores, tornando-o mais conhecido – ou menos desconhecido – do público brasileiro. 

 

Por isso este lançamento que relembra uma temática muito corriqueira no passado: na literatura, no cinema, nas HQs, as histórias tendo o cangaço como pano de fundo, histórias por vezes realistas, por vezes aventurescas – não que ainda não seja um tema apreciado por muitos artistas e historiadores, mas muito menos do que era nas décadas passadas.


Aventuras No Cangaço n.1 (no formato 21 cm x 15 cm, capa couchê colorida – autoria de Edu Manzano – com 24 páginas preto & branco) começa mostrando em seu primeiro número um personagem criado por Gedeone Malagola na década de 50 do século passado: Milton Ribeiro, baseado no ator, mais precisamente num personagem interpretado por este ator no filme "O Cangaceiro", de Lima Barreto.

Mais informações sobre este personagem: AQUI

São reapresentadas nesta edição duas HQs lançadas originalmente na revista Vida Juvenil, editada por Mário Hora Júnior no ano de 1957. E aguardem mais surpresas nos próximos números! Personagens memoráveis a caminho! Pedidos para smeditora@yahoo.com.br (JS)

João Mossoró: o cantor que vai de Luiz Gonzaga à música portuguesa


No próximo dia 22 de Setembro de 2012, o cantor João Mossoró fará o lançamento  do seu novo CD, Conexão Nordeste e casa de show Estudantina, na Praça Tiradentes, na cidade do Rio de Janeiro.
Local:  Estudantina - RJ - Centro

Horário:

A partir das 21;00 horas

Diversos artistas participarão do lançamento do CD do cantor João Mossoró.

Aguardem!

http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

Faça uma visitinha ao blog: 

"FATOS E FOTOS".

http://sednemmendes.blogspot.com.br, 
para você ler as crônicas e poesias dos escritores:
Clerisvaldo B. Chagas e Rangel Alves da Costa

Ele é filho do blog do Mendes e Mendes 

As trincheiras de Rodolfo, em 1927: VIII - A trincheira do Telégrafo

Imagem 01 - A trincheira do Télegrafo, 1927

Rua do Triunfo, 99, paralela à Praça Vigário Antonio Joaquim, zona central, Mossoró-RN. Neste número, em 13/06/1927, estava situado o sobrado do Telégrafo Nacional, que tornou-se em mais uma trincheira de defesa ao assalto de Lampião, (1900-1938), à cidade de Mossoró. Esta edificação, naquela data, foi o Quartel General da Polícia. Mirabeau Melo, chefe da Estação Telegráfica e o Tenente Laurentino de Morais, segundo informa Raul Fernandes, não pregaram olhos durante a noite anterior ao assalto, comunicando-se com Natal e organizando defesas.

Os funcionários que permaneceram no trabalho - Moacir da Cunha Melo, Mário Vilar de Melo e Alcides Magalhães. Estavam armados - Mirabeau Melo, com um rifle e quinze balas, o dentista José Furtado de Castro, o advogado Gilberto Stuart Gurgel, os oficiais Laurentino de Morais, Abdon Nundes de Carvalho, João Antunes e o Soldado João Arcanjo de Oliveira.

Estavam desarmados - os Padres Luiz Mota, (1897-1966),  Ulisses Maranhão e o Cônego Amâncio Ramalho. Outros civis que fizeram parte desta trincheira, na categoria de desarmados, foram: Cornélio Mendes, José Gomes, Antônio Araújo, Júlio Ramalho, técnico da Usina Força e Luz, o comerciante João Fernandes de Queiroz, o chofer contratado da Polícia, Homero Couto, Manoel Leandro Bezerra, guarda do telégrafo, Francisco P. de Souza, mensageiro, e, Cícero Leandro.

A imagem 01, esta foto foi realizada, no dia seguinte, ao após o ataque, pelo fotógrafo José Octávio Pereira Lima, proprietário do Foto Octávio, da cidade de Mossoró-RN. Embora a imagem não esteja nítida, mas é possível detectar, no centro da mesma, as figuras dos clérigos Padre Mota e o Cônego Amâncio Ramalho.
Telégrapho Nacional - Mossoró - 1927
(este prédio fica ao lado da Mesa de Rendas, hoje Secretaria de Tributação Estadual)

Citarmos as fontes é respeitar quem pesquisou e dar credibilidade ao que escrevemos. Télescope.Fontes: FERNANDES, Raul. ( 09-09-1908-1998). A Marcha de Lampião, Assalto a Mossoró. 7a. edição, Coleção Mossoroense, Volume 1550,  Fundação Vingt-un Rosado, outubro de 2009; Provável autor da fotografia 01: Foto José Octávio, Mossoró-RN;  Índice das Matérias Publicadas em Memória Fotográfica.


Próxima Trincheira a ser postada: IX
Escrito por Copyright@Télescope 

João de Sousa Lima Realizará Palestras Sobre o Cangaço.

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As palestras acontecerão nas cidades de Juazeiro do Norte, Ceará, Serra Talhada, Pernambuco, Água Branca, Alagoas, Paulo Afonso, Bahia, Porto da Folha, Sergipe e Aracaju, Sergipe. 

A realização das palestras é da Cintilante Produções. Participem, divulguem, apoiem a cultura nordestina.








O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: PRIMEIRA TEORIA ACERCA DA INVASÃO, SEGUNDA PARTE

Por: Honório de Medeiros
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OS MISTÉRIOS DO ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: PRIMEIRA TEORIA ACERCA DA INVASÃO (Segunda Parte):

Leiam, anteriores a este texto, em

1) O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: UM MISTÉRIO QUASE CENTENÁRIO; 2) O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: COMO ERA A CIDADE NA ÉPOCA DA INVASÃO; 3) O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ: PRIMEIRA TEORIA ACERCA DA INVASÃO (Primeira Parte).

TEORIA: O ataque a Mossoró resultou da ganância do Coronel Isaías Arruda e Lampião, no que foram secundados por Massilon 

Que o Coronel Isaías Arruda foi o maior responsável por induzir Lampião a atacar Mossoró, quanto a isso não há dúvidas. Sem esse assédio, não teria havido o ataque. Com a mentalidade rapace da qual era possuidor Isaías Arruda, quando lhe propuseram essa idéia, percebeu de imediato que sua concretização lhe permitiria ganhar algo de qualquer forma: planejar a empreitada, convencer Lampião, fornecer armas e munição, nada tinha ele a perder se pusesse mãos à obra e o atraísse para esse projeto.

Se tudo desse certo, raciocinou o Coronel, ganharia sua parte - uma verdadeira fortuna[1], levando-se em consideração o valor do exigido, dias após, por Lampião ao Coronel Rodolpho Fernandes, para que houvesse a invasão da cidade -, como acontecera antes, quando Massilon voltara com o dinheiro arrancado de Apodi.

Se nada desse certo obteria um lucro especial vendendo, ao cangaceiro, como de fato vendeu, as armas necessárias ao ataque; além do mais, se por obra e graça das circunstâncias, Lampião morresse no Rio Grande do Norte, ele, o Coronel, ver-se-ia livre das pressões que estava sofrendo, oriundas de Fortaleza, do Governo do Estado, e, até mesmo, do Governo Federal, por suas ligações com o líder cangaceiro, e que o levaram, segundo alguns historiadores, a trai-lo, tentando envenená-lo e queima-lo vivo, ou, segundo outros, a encenar essas duas tentativas de comum acordo com o Rei do Cangaço.

Entretanto a idéia de atacar Mossoró não nasceu no Coronel Isaías Arruda.

Isso por vários motivos, dois deles bastantes simples: em primeiro lugar, ele não chamou Lampião ao Cariri, como já sabemos, e sem Lampião, não haveria condições para realizar o ataque a Mossoró; em segundo lugar por que se a questão fosse meramente financeira, outras cidades, mais próximas e bem menos perigosas, no Ceará, na Paraíba, ou mesmo no Rio Grande do Norte, poderiam ser invadidas e render um grande lucro, sem a possibilidade de fracasso que uma cidade do porte e da distância[2] de Mossoró representava.


Capela de São Vicente, Mossoró, final dos anos 20, começo dos anos 30, por Francisco Soares de Lima

É em Sérgio Dantas, no “LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE[3]”, que encontramos subsídio para essa conclusão:

O cangaceiro “Mormaço”, em diferentes interrogatórios prestados à Polícia (Martins, Pau dos Ferros, Mossoró e Crato), deixou claro que Lampião desejava chegar ao Ceará para refugiar-se e municiar o bando. Também acrescentou, em diversas oportunidades, que Arruda intermediava, invariavelmente, tais compras de munição.

Por outro lado, Mossoró não teria entrado no campo das elucubrações criminosas do Coronel Isaías Arruda, se não tivesse acontecido o seguinte fato, esse muito significativo, também relatado por Sérgio Dantas[4]:

Em dias de abril daquele ano[5], o sinistro caudilho[6] recebera importante solicitação. Décio Holanda[7] – destacado fazendeiro do município de Pereiro, no Ceará – pediu-lhe que colocasse a “cabroeira” particular a seu serviço, posto que planejava tomar de assalto a cidade de Apodi, no Estado vizinho.

(...)

Viajou[8] até Serra do Diamante, em Aurora, e foi ter com Arruda. Descreveu-lhe o imbróglio. Através do confrade – mestre na intriga política – empresariou o bandoleiro Antônio Leite, o Massilon.

O plano sinistro, em um primeiro momento, previa a conquista de Apodi. Sugeria, em seguida, o aprisionamento de Francisco Pinto e principais agregados políticos do intendente. Por fim, prescrevia extorsões, roubos, incêndios, homicídios.

Ainda:

Aurora, Ceará. Há dois dias Massilon já retornara ao esconderijo. Ao mentor Isaías Arruda, prestou contas do assalto. O apurado foi dividido meio a meio, como anteriormente combinado entre cangaceiro e Coronel (O CEARÁ, 1928).

Antônio Leite estava eufórico. Descrevia detalhada e reiteradamente a sucessão de assaltos. Gabava-se do feito heróico:

- Disseram que eu não sabia brigar, e eu volto com quarenta contos de réis!


Casa do Coronel Isaías Arruda em Aurora, Ceará. Nela há um subterrâneo onde o Coronel estocava armas.

Ou seja, em assim sendo, Mossoró foi conseqüência de Apodi e de uma circunstância inesperada: a chegada de Lampião em Aurora, no Ceará, terras do Coronel Isaías Arruda. Apodi, por sua vez, foi conseqüência das brigas entre coronéis norte-rio-grandenses e paraibanos disputando o poder[9].

E a idéia do ataque a Mossoró, da qual resultou o planejamento de Isaías Arruda e a execução de Lampião, com certeza não foi de nenhum dos dois, mas, sim, proposta de Massilon, à qual aderiu de pronto, pelas razões elencadas acima, o Coronel, e, com extrema relutância, o maior dos cangaceiros.

Portanto tudo leva a crer que Massilon, ou alguém ou alguns que ele representava, idealizou, Isaías planejou, e Lampião executou.

A pergunta que se faz agora, é se a idéia de Massilon atacar Mossoró foi algo estritamente seu ou de alguém ou alguns mais, do qual ou dos quais ele seria mero marionete.

CONTINUA QUARTA-FEIRA DA PRÓXIMA SEMANA COM A SEGUNDA TEORIA ACERCA DA INVASÃO DE MOSSORÓ POR LAMPIÃO.

[1] Cinqüenta por cento do butim.

[2] Perto de quinhentos quilômetros, de Aurora a Mossoró, área praticamente descampada, sem a proteção natural como serrotes, mata fechada ou pedreiras, ante um cerco militar, sem as quais o cangaceiro não passava.

[3] Cartgraf Gráfica Editora; 2005; 1ª edição; Natal, RN.

[4] “LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE”; Cartgraf Gráfica Editora; 2005; 1ª edição; Natal, RN.

[5] 1927.

[6] Isaías Arruda.

[7] Décio Sebastião de Albuquerque Holanda era seu nome completo. “Genro de Tilon Gurgel do Amaral, casado que foi com sua filha Francisca Brito Gurgel (Chicuta). Décio morou vários anos no RN, transferindo-se depois para o Ceará” (“NAS GARRAS DE LAMPIÃO”; GURGEL, Antônio; BRITO, Raimundo Soares de; Coleção Mossoroense; Série “C”; v. 1.513; 2ª edição; Mossoró).

[8] Décio Holanda.

[9] Mais adiante será esmiuçada essa afirmação.

Extraído do blog do escritor, professor, advogado e pesquisador do cangaço: 
Dr. Honório de Medeiros




terça-feira, 11 de setembro de 2012

Canudos Renasce

Por: João de Sousa Lima

A antiga cidade de Canudos, Bahia, ressurge da seca que castiga o Sertão. Com a baixa das águas do Açude de Cocorobó a velha Canudos reaparece e encanta pela estrutura antiga que permanece em partes.

UM POUCO DA HISTÓRIA DE CANUDOS:

O cenário era a Bahia do século XIX, quem governava o Brasil era Prudente de Morais. O Nordeste brasileiro serviu de palco para que ocorresse uma das mais significativas revoltas sociais da primeira República.

A rebelião conhecida como Guerra de Canudos deu-se em virtude da situação precária em que vivia a população, sem terra e obrigada a se submeter aos arroubos dos coronéis. As terras pertenciam aos grandes proprietários rurais – os conhecidos coronéis – que as transformaram em territórios improdutivos. Essa situação revoltou os sertanejos, que se uniram em torno de Antônio Conselheiro, o qual pregava ser um emissário de Deus vindo para abolir as desigualdades sociais e as perversidades da República, como a exigência de se pagar impostos, por exemplo.

Os moradores do arraial acreditavam ser ele um divino mestre, que já praticara até milagres. Antônio Conselheiro fundou o vilarejo denominado Canudos e os sertanejos e suas famílias para lá passaram a migrar. Vários fatores contribuíram para o desenvolvimento de Canudos. O clima seco castigava severamente a região, danificando o plantio de alimentos, secando os diques e matando os animais que não resistiam à falta de água. Os sertanejos também tentavam sobreviver, mas a cada ano milhares morriam de fome e sede. A maneira tão desumana de viver estimulava o surgimento de desordens e agitações sociais, transformando os camponeses em malfeitores que andavam em bandos pelos sertões do Nordeste, fortemente armados, apavorando as populações locais e invadindo as propriedades dos coronéis.

Antônio Conselheiro, entre outros devotos, propagava a salvação da alma e o povo tinha fé que seu messias os ajudariam a sair daquela situação precária. A igreja começou a perder seus fiéis para um falso religioso, na concepção do governo, e assim ele passou a ser malquisto pela Igreja. No ano de 1896, o arraial contava com mais ou menos 20 mil sertanejos que repartiam tudo entre si, negociando o excesso com as cidades vizinhas, adquirindo assim os bens e produtos que não eram gerados no local.

Os habitantes de Canudos precisavam se resguardar e decidiram então organizar milícias armadas, pois era de se esperar uma reação contrária da parte dos coronéis e da Igreja Católica. Enquanto a igreja perdia seus fiéis, os coronéis sentiam-se prejudicados com o constante deslocamento de mão-de-obra para Canudos, que prosperava a olhos vistos. A população abandonou a sociedade republicana convencional, que até então só a alimentara de falsas promessas, e partiu para na direção da nova sociedade que despontava. Mesmo sem nenhuma garantia, pois não havia falsas promessas, o que era mais honesto. Os padres e coronéis coagiram o governador da Bahia a tomar providências urgentes, eles queriam que o governo desse fim a Canudos. Os jornalistas e intelectuais também eram contra os moradores do arraial, pois entendiam que os mesmos desejavam a volta da monarquia, algo totalmente fora de propósito.

A Destruição de Canudos

Foram instituídas três empreitadas militares, que foram vencidas pelos seguidores de Antônio Conselheiro. Em virtude de tamanha dificuldade, o Governo Federal assumiu o comando. A quarta expedição foi organizada pelo então ministro da Guerra, Carlos Bittencourt, o qual recrutou cerca de 10 mil homens que, comandados pelo general Artur Costa, apoderaram-se de Canudos e promoveram um terrível massacre, no qual muita gente inocente morreu, principalmente idosos e crianças, que só buscavam uma melhor qualidade de vida. A Comunidade de Canudos foi arrasada no dia 05 de outubro de 1897, entrando para a história como o palco do mais intenso massacre já presenciado na história.


João de Sousa Lima e Josué Santana Macedo escalando os escombros da antiga igreja de Canudos.


Base onde ficou exposto um dos canhões que atacou a velha Canudos.


Escombros de uma das construções de canudos.


Antiga fotografia do Arraial de Canudos


Mapa da Antiga Canudos


A madeira que criou toda a discórdia de Canudos com o Governo. O material encontra-se em uma igreja da cidade. Se tivesse sido entregue na época muitas mortes teriam sido evitadas.


Mulheres e crianças prisioneiras de Canudos.


Uma das companhias do exército que dizimou Canudos.

Extraído do blog do escritor e pesquisador do cangaço:
João de Sousa Lima

http://www.joaodesousalima.com/2012/09/canudos-renasce.html

Para quem ainda não o leu - 25 de setembro de 1926, no “Diario de Notícias”:

Por: Rubens Antonio
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Os terriveis auxiliares do facinora Lampeão

Antonio Ferreira, irmão do bandido, é considerado mais perverso do que elle!

 

Os leitores já conhecem, de sobra, a carranca enfezada do famoso Lampeão, e, modéstia á parte, se a conhecem, devem–no á incansavel reportagem do Diario de Noticias, que a publicou, de primeira–mão, depois de consegui–la por intermedio de um representante nosso, nos sertões de Pernambuco.

Irão conhecer, hoje, porém, a mascara tigrina de um irmão do bandido, e de um irmão que é considerado por todas as victimas do misero bandido, como mais perverso, mais hediondo e ainda mais requintadamente brutal do que Virgolino.

Trata–se de Antonio Ferreira, que, ainda ha pouco, em terras do Ceará, rechou ao meio uma criancinha de 1 anno, a machado, porque o pai da mesma, o dr. Virgilio Castro Moreira, feito prisioneiro, se recusou a entregar ao scelerado uma carta para a agencia da Companhia Standart Oil, em Fortaleza.
Os leitores ahi têm a fera no alto destas columnas.

Mirem a sua physionomia, e tremam de saber que similhante monstro pisou terras bahianas no mês passado.

http://cangaconabahia.blogspot.com.br/2012/08/25-de-setembro-de-1926-no-diario-de.html

VIRGULINO FERREIRA DA SILVA



Conhecido como o rei do cangaço e o governador do sertão, Virgulino Ferreira da Silva nasceu no dia 7 de julho de 1897, na Fazenda Ingazeira, situada no município de Vila Bela (hoje, Serra Talhada), no sertão de Pernambuco. Foi o segundo filho de José Ferreira da Silva e de Maria Selena da Purificação. O seu nascimento, porém, só é registrado no dia 7 de agosto de 1900. Tinha como irmãos: Antônio, João, Levino, Ezequiel, Angélica, Virtuosa, Maria e Amália. Todos cresceram ouvindo e/ou presenciando estórias de cangaceiros, e Antônio Silvino lhes serve de exemplo maior.

Naquela época, o sertão quase não possuía escolas e estradas, viajava-se a pé, a cavalo, em burro e em jumento. Os denominados coronéis (os proprietários de terras) imperavam sob o peso da prepotência como os verdadeiros chefes políticos, sem nunca sofrer represálias porque a força do Estado estava sempre do seu lado. Neste sentido, eram eles que davam a palavra final, ou seja, elegiam, destituíam, perseguiam, condenavam, absolviam, torturavam e matavam.

Em períodos de crises econômicas, os coronéis recebiam ajuda do Poder Público. Isto era uma recompensa, um benefício recebido, por causa dos eleitores que controlavam mediante os "votos de cabresto" - aqueles votos fornecidos a um candidato, e garantidos pela palavra-de-ordem dos poderosos, que impõem nomeações e asseguram a hegemonia da classe política local, sem se importar com a competência profissional dos nomeados.

Apesar de muito inteligente, Virgulino abandona a escola para ajudar a família no plantio da roça e na criação de gado. Torna-se famoso nas vaquejadas. Gosta muito de dançar, de tocar sanfona, compõe versos e adora um rifle. Sabe costurar muito bem em pano e couro e confecciona as próprias roupas.

Ele tinha 19 anos quando entrou para o cangaço. Dizem que tudo começou através de disputas com José Saturnino, membro da família Nogueira e vizinha de terras. Lutando contra essa família durante muitos anos, Virgulino e seus irmãos já se comportavam como futuros cangaceiros, não tardando a entrar em conflito com a polícia. A decisão de viver e morrer como bandido, contudo, só foi tomada, mesmo, quando a polícia mata José Ferreira da Silva - o patriarca da família - enquanto ele debulhava milho.

Em um das primeiras lutas do bando, na escuridão da noite, Antônio (um dos irmãos Ferreira), espantado com o poder de fogo do rifle de Virgulino, que expelia balas sem parar e mais parecia uma tocha acesa, gritou o seguinte: Espia, Levino! O rifle de Virgulino virou um Lampião ! A partir desse dia, a alcunha do famoso cangaceiro passa a ser Lampião .

Virgulino consegue realizar seu maior sonho, com a intermediação do Padre Cícero Romão Batista: adquirir a patente de capitão, no Batalhão Patriótico do deputado Floro Bartholomeu, o batalhão das forças legais. Além de alimentar sua vaidade pessoal, a patente funcionaria como uma espécie de salvo-conduto, permitindo o bando circular pelas divisas dos estados do Nordeste.

Aproveitando aquela oportunidade, Virgulino solicita, também, para os companheiros Antônio Ferreira e Sabino Barbosa de Melo, os postos de 1o. e 2o. tenentes. Acatada a solicitação, os membros do bando abandonam as roupas costumeiras, vestem a farda de soldado e, como autoridades constituídas, passam a ter o dever - por mais irônico que isto possa soar -, de defender a legalidade e proteger a população nordestina.
Tudo isso foi redigido pelo Padre Cícero e assinado, a pedido deste, no dia 12 de abril de 1926, pelo engenheiro-agrônomo do Ministério da Agricultura, Dr. Pedro de Albuquerque Uchoa. Feliz da vida aos 28 anos de idade, o jovem Capitão Virgulino reúne a família para tirar fotografias.
Oficialmente, ele recebe a missão de combater a Coluna Prestes - um grupo de comunistas liderados por Luís Carlos Prestes -, grupo que vinha percorrendo o país durante o governo do presidente Artur Bernardes. No entanto, após se distanciar uns 6 quilômetros de Juazeiro, Lampião decide se embrenhar na caatinga, em busca de combates mais lucrativos, deixando para trás o prometido a Padre Cícero e as responsabilidades para com o Estado. E os soldados do governo foram chamados de "macacos", porque saíam pulando quando avistavam os cangaceiros.

No bando de Lampião tinha indivíduos de todos os tipos: gordos, magros, ruivos, louros, morenos, altos, baixos, negros e caboclos. Alguns, inclusive, eram jovens demais: Volta Seca (11 anos), Criança (15 anos), Oliveira (16 anos). O mais idoso era Pai Velho, com 71 anos de idade.

Lampião arranjava, facilmente, armamentos e munições, mas, como o fazia, era um segredo que não contava a ninguém. Uma parte das armas automáticas, para combater a Coluna Prestes, foi adquirida através do Deputado Floro Bartolomeu e do Padre Cícero. Os demais armamentos do bando foram arranjados mediante a intervenção de amigos.

Um acidente provocado pela ponta de um pau cega o olho direito do Capitão Virgulino, um órgão que, anteriormente, já se apresentava problemático devido à presença de um glaucoma. Enxergando com um olho, apenas, Lampião se vê obrigado a ficar sempre enxugando, com um lenço, as lágrimas que pingam do olho vazado. A despeito dessa deficiência, ele nunca deixou de ser um excelente estrategista.

Dizem que foi uma brincadeira de mau gosto da família Ferreira (o corte da cauda de alguns animais) a gota d água que desencadeou uma afronta irreparável com o fazendeiro José Saturnino, proprietário das terras vizinhas e membro da família Nogueira. Sendo mais numerosos e tendo o apoio do governo, essa família termina por expulsar os Ferreira de suas terras.

A partir de 1917, Virgulino e a sua família passam a conviver com intensos tiroteios e emboscadas, não podendo morar em um lugar específico: são obrigados a vagar pelo sertão e levar uma vida de nômades.

Em meio às lutas e fugas, falece Dona Maria Selena, no Engenho Velho. E, no início de agosto de 1920, o patriarca da família - José Ferreira - é fuzilado pela volante do sargento José Lucena, enquanto debulhava milho. Naquele mesmo dia, então, os Ferreira fazem um juramento: o seu luto, até a morte, iria ser o rifle, a cartucheira e os tiroteios.

Quando sabia da existência de um coronel perverso, Lampião não perdia a oportunidade de queimar-lhe as fazendas e matar-lhe o gado. Nas incursões em vilas e povoados, o grupo saqueava, dizimava e matava. As violências cometidas pelo bando eram inúmeras: tatuagem a fogo, corte de orelha ou de língua, castração, estupro, morte lenta, entre outras. Muitos habitantes abandonavam definitivamente as suas propriedades, tornando desertas as caatingas, já que elas estavam entregues a soldados e cangaceiros.

Virgulino Ferreira era bastante impulsivo. Às vezes, passavam-se meses sem se ouvir falar nele, pensando-se, inclusive, que tinha morrido. Mas, de repente, ele surgia do nada com o seu bando, como um tremendo furacão, lutando contra as volantes, incendiando fazendas, roubando e matando com a maior naturalidade. Em algumas ocasiões, seus gestos eram generosos: confraternizava com as pessoas, organizava festas, distribuía dinheiro, pagava bebida para todos.

Em uma de suas paradas para descansar, perto da Cachoeira de Paulo Afonso, conheceu Maria Déia, filha de um fazendeiro de Jeremoabo, na Bahia. Há cinco anos ela era casada José de Nenén - um comerciante da região - mas nutria uma paixão platônica por Lampião , mesmo sem nunca tê-lo encontrado.

Alguns afirmam que foi a própria mãe de Maria Déia que segredou a Lampião sobre essa paixão. Já outros dizem que foi Luís Pedro - integrante do bando - que insistiu para o rei do cangaço conhecê-la. Na realidade, o fato é que Virgulino caiu de amores ao vê-la. E, impressionado com a sua beleza, passou a chamá-la de Maria Bonita.

Em vez de três dias, ficou dez na Fazenda Malhada da Caiçara. Com a concordância dos pais, que apoiavam o desejo da filha, Maria Déia coloca as suas roupas em dois bornais, penteia os cabelos, despede-se para sempre do marido, e parte com Lampião rumo à caatinga. Era o ano 1931 e ela tinha 23 anos.

Pouco tempo depois, Maria Bonita engravida e sofre um aborto. Mas, em 1932, o casal de cangaceiros tem uma filha. Chamam-na de Expedita. Maria Bonita dá à luz no meio da caatinga, à sombra de um umbuzeiro, em Porto de Folha, no estado de Sergipe. Lampião foi o seu próprio parteiro.

Como se tratava de um período de intensas perseguições e confrontos, e a vida era bastante incerta, os pais não tinham condições de criá-la dentro do cangaço. Os fatos que ocorreram viraram um assunto polêmico porque uns diziam que Expedita tinha sido entregue ao tio João, irmão de Lampião que nunca fez parte do cangaço; e outros testemunharam que a criança foi deixada na casa do vaqueiro Manuel Severo, na Fazenda Jaçoba.

O Capitão Virgulino adora ser fotografado e filmado. Neste sentido, consente que Benjamim Abraão, um fotógrafo libanês, conviva durante meses com o seu bando e colete muito material sobre o cangaço. Esse fotógrafo, contudo, é assassinado por um coronel, e grande parte do seu acervo é destruída.

Maria Bonita sempre insistia muito para que Lampião cuidasse do olho vazado. Diante dessa insistência, ele se dirige a um hospital na cidade de Laranjeiras, em Sergipe, dizendo ser um fazendeiro pernambucano. Virgulino tem o olho extraído pelo Dr. Bragança - um conhecido oftalmologista de todo o sertão - e passa um mês internado para se recuperar. Após pagar todas as despesas da internação, ele sai do hospital, escondido, durante a madrugada, não sem antes deixar escrito, carvão, na parede do quarto:

Doutor, o senhor não operou fazendeiro nenhum. O olho que o senhor arrancou foi o do Capitão Virgulino Ferreira da Silva, Lampião.

Além das emboscadas planejadas para liquidá-lo, cabe ressaltar que Lampião conseguiu sobreviver ao veneno e ao fogo. Do primeiro, contou com a dosagem fraca que lhe deu, somente, um inconveniente desarranjo intestinal; do segundo, apesar de chamuscado, conseguiu escapar pulando. Mas foi ferido à bala diversas vezes.

Excetuando-se João, todos os irmãos de Virgulino morreram antes dele. Em 1926, Antônio foi morto em Serra Talhada, no encontro com uma volante pernambucana. Uma outra volante desse mesmo estado matou Levino Ferreira. O último a falecer foi Ezequiel, gravemente ferido pela polícia de Sergipe. Mas, quando Lampião percebeu que seu irmão estava se ultimando e sofrendo, saca do próprio revólver e dispara um tiro de misericórdia bem em cima de sua testa.

Em uma outra luta contra a volante pernambucana, na vila de Serrinha, próximo a Garanhuns, Maria Bonita foi baleada. Como estava perdendo muito sangue, Lampião deu ordem para encerrar a luta imediatamente: pega a amada nos braços e segue rumo ao município de Buíque, onde ela é tratada na vila de Guaribas.

Vale deixar registrado que o bando de Lampião resistiu durante quase 20 anos, brigando com grupos de civis que o perseguiam e com a polícia de 7 estados nordestinos. Por todo esse tempo, assaltou propriedades de grandes fazendeiros, atacou povoado, vilas e cidades, roubou, pilhou, torturou e matou os seus adversários.

Apesar de ter sido baleado nove vezes, Lampião sobreviveu a todos os ferimentos, sem contar com qualquer tipo de assistência médica formal. Naquela época, desconheciam-se os antibióticos e as sulfas. Para estancar o sangue e curar os ferimentos, por exemplo, usavam-se mofo, pó de café e, até, excrementos de gado. Eram usadas, ainda, ervas medicinais e rezas dos curandeiros, que nem sempre funcionavam como se esperava. Um ferimento em seu pé, neste sentido, condenou Virgulino a mancar para o resto da vida.

Extremamente jeitoso, além de dotado de grande capacidade de improvisação, era o Capitão Virgulino que fazia os curativos, encanava pernas e braços quebrados dos feridos e fazia os partos das mulheres dos cangaceiros. Super dotado de inteligência, ele era médico, farmacêutico, dentista, vaqueiro, poeta, estrategista, guerrilheiro, artesão. Desconfiado, só ingeria algo depois que alguém tivesse provado o alimento. Por outro lado, só entregava o dinheiro após ter recebido a mercadoria. Entretanto, não conseguiu se livrar da traição dos falsos amigos.

No dia 28 de abril de 1938, conforme o costume de anos a fio, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. A volante chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram. Quando um cangaceiro deu o alarme, já era tarde demais.

Não se sabe ao certo quem os traiu. Entretanto, naquele lugar mais seguro, segundo a opinião de Virgulino, o bando foi pego totalmente desprevenido. Quando os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva, abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

O ataque durou uns vinte minutos e poucos conseguiram escapar ao cerco e morte. Dos 34 cangaceiros presentes, 11 morreram ali mesmo. Lampião foi um dos primeiros a morrer. Logo em seguida, Maria Bonita foi gravemente ferida. Alguns cangaceiros, transtornados pela morte inesperada do seu líder, conseguiram escapar. Bastante eufóricos com a vitória, os policiais saquearam e mutilaram os mortos. Roubaram todo o dinheiro, o ouro, e as jóias.

A força volante, de maneira bastante desumana, decepa a cabeça de Lampião . Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando sua cabeça foi degolada. O mesmo ocorreu com Quinta-Feira e Mergulhão: tiveram suas cabeças arrancadas em vida.

Feito isso, salgaram os seus troféus de vitória e colocaram em latas de querosene, contendo aguardente e cal. Os corpos mutilados e ensangüentados foram deixados a céu aberto para servirem de alimento aos urubus. Guardadas as devidas proporções, após ter passado, praticamente, cento e cinqüenta anos da Revolução Francesa, os brasileiros retrocederam ao século XVIII, decepando cabeças como fizeram com Luís XVI e Maria Antonieta.

Percorrendo os estados nordestinos, o coronel João Bezerra exibia as cabeças - já em adiantado estado de decomposição - por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Primeiro, os troféus estiveram em Maceió e, depois, foram ao sul do Brasil.

No Instituto de Medicina Legal de Maceió, as cabeças foram medidas, pesadas, examinadas, pois os criminalistas achavam que um homem bom não viraria um cangaceiro: este deveria ter características sui generis. Ao contrário do que pensavam alguns, as cabeças não apresentaram qualquer sinal de degenerescência física, anomalias ou displasias, tendo sido classificados, pura e simplesmente, como normais.

Do sul do país, apesar de se encontrarem em péssimo estado de conservação, as cabeças seguiram para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia. Lá, tornaram a ser medidas, pesadas e estudadas, na tentativa de se descobrir alguma patologia. Posteriormente, os restos mortais ficaram expostos no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, por mais de três décadas.

Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno aos seus parentes. O economista Silvio Bulhões, em especial, filho de Corisco e Dadá, empreendeu muitos esforços para dar um sepultamento aos restos mortais dos cangaceiros e parar, de vez por todas, essa macabra exibição pública. Segundo o depoimento do economista, dez dias após o enterro do seu pai violaram a sepultura, exumaram o corpo e, em seguida, cortaram-lhe a cabeça e o braço esquerdo, colocando-os em exposição no Museu Nina Rodrigues.

O enterro dos restos mortais dos cangaceiros só ocorreu depois do projeto de lei no. 2867, de 24 de maio de 1965. Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília (em particular, nas conferências do poeta Euclides Formiga), e as pressões do povo brasileiro e do clero o reforçaram. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969. Os demais integrantes do bando tiveram seu enterro uma semana depois.

Virgulino morreu aos 41 anos de idade. No entanto, contabilizando-se os riscos enfrentados durante 20 anos de cangaço, a alimentação incerta, as emboscadas, os ferimentos, a falta de assistência médica, entre outros, pode-se afirmar que o rei do cangaço viveu mesmo muito tempo. Vale registrar, por outro lado, que Lampião e Maria Bonita possuem parentes próximos em Aracaju: sua filha, Expedita, casou com Manuel Messias Neto e teve quatro filhos (Djair, Gleuse, Isa e Cristina).

Por fim, a grande inteligência de Virgulino Ferreira da Silva, bem como o seu valor como estrategista valem a pena ser ressaltados. Mais de sessenta anos após sua morte, ele continua sendo lembrado na música, na moda, na literatura de cordel, no teatro, no cinema, em escolas, em museus, em conferências e debates. O temido cangaceiro, indubitavelmente, o mais importante e carismático de todos, deixou gravado nas caatingas sertanejas um pedaço da história do Nordeste do Brasil.

Fonte: www.fundaj.gov.br

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/lampiao/lampiao-3.php