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quarta-feira, 16 de março de 2022

VIDA E MORTE DE VIRGULINA

  Por Rangel Alves da Costa

Eu me chamo Virgulino, não tenho outro nome de pia, tendo por pai um José e por mãe uma Maria. Poderia ser chamado de Virgulino de Maria, mas outro apelidado me foi dado em distante freguesia. Um filho chorando um pai, pois morto em triste dia, quando a arma do poder tirou o que dele existia, jogando à própria sorte o que da família existia, fazendo surgir o ódio e toda vingança que havia.

 

Mas o que mais afligia era ser acusado de crime que nem de longe eu cometia. Dizer que minha família roubava a honra toda anuvia, cria no homem um ódio que nunca se atrofia, é querer criar bandido naquele de calmaria. Quando a fama se fez grande, acusado em demasia, então o jeito foi passar a ser aquilo que eu não queria, então agi pelo erro e fiz o que não queria: fazer o que não tinha feito pra provar a valentia.Coisa triste era a fome de vingança que eu sentia, mas não tinha outro jeito a dar naquilo que eu pressentia, ou dava o troco no troco ou escolhia a covardia, como não nasci pra temer então escolhi a ousadia, em dar um troco maior naquilo que me feria.


Quando o sangue jorrou nas terras onde eu vivia, o homem se fez em galope no filho de José e Maria. Uma chama acendeu, mas juro que não queria, e quando labareda comeu eu já estava em rebeldia, lutando contra o algoz desde o amanhecer do dia. 
 
Dói demais relembrar uma família em correria, saindo de canto a outro, sem ter sossego e alegria, e só se mantendo viva pelo revide que existia. Se bala viesse de lá, a bala daqui zunia, se tocaiado algum fosse, outra emboscada fazia.

Quando já sem pai e sem mãe, o mundo foi moradia. Ao lado de irmãos seguia nos rastros da valentia, levava comigo a certeza do que o mundo oferecia: lutar contra a injustiça e sua esfomeada sangria, ser um guerreiro do mato, um Lampião que na guerra alumia.

Na chama o Lampião, só assim me conhecia, deixado de lado o Virgulino e o filho de Maria. Foi nos carrascais desse mundo, na vida em descortesia, que empunhei arma e punhal pra viver em rebeldia, caçando e sendo caçado, no prazer e na agonia.
 
Eram muitos Lampiões que surgiam a cada dia. Na sina do sertanejo a dor que transparecia, maltratado e oprimido, um escravo de sesmaria, nas mãos do senhor coronel a desdita lhe doía, levando peso da canga e açoitado em grosseria.


Uma gente tão sofrida que a sorte lhe consumia, sem vez nem voz protetora, era água de bacia, derramada pelo chute do poder e sua demagogia. Capanga caçando irmão, no sertão a mesma pia, como se violar a pobreza causasse maior alegria. 
 
O povo desprotegido, a proteção mais queria, mas como encontrar alguém que lhe servisse de guia? Sinhô Pereira, Antônio Silvino ou Lampião, era o sertão que queria, ou alguém lhe defendia ou nada mais restaria.

E de repente Lampião já era o rei do sertão, o que muito enobrecia. Mas um viver de pesar que no prazer se fingia, todo adornado no ouro pra esconder o que a alma carcomia, sem descanso ao relento no peito a nostalgia. A punhalada da sina, na vida toda sangria.

Então no amor fui buscar o alento que queria. Depois de minha mãe Maria, eis que mais uma Maria. Essa toda bonita, flor no cabelo e laço de fita, e dizendo ninguém acredita, mas foi o prazer que tive em meio à vida maldita.


Por vinte anos vivi acendendo um Lampião, tratado com fidalguia, na fama e na honraria. Fui Capitão, do Estado a cortesia, e para fazer aquilo que eu dizia e não fazia. Não deseja fazer o que o poder queria, quando do outro lado o mesmo poder perseguia. 

Foi de conchavo e alinhavo, a trama que eu tecia. Do coronel a igreja, tudo à minha serventia. Mandava um bilhete assinado e logo o que eu queria, bastava me aproximar e toda porta se abria. Se um fogo despontasse, com fogo eu respondia.


Mas um dia o pavio do destino de vez me apagaria. Não foi na luta de homem, mas sim na maior covardia. Emboscaram todo o bando e o meu fim se fazia. Se levanto o mosquetão nada daquilo acontecia.



E foi o fim de Virgulino e também de sua Maria. Mas o homem que se foi na terra permanecia, não conseguiu ao sertão trazer a sua alforria, mas ensinou a lutar contra o mal que lhe oprimia, e continua a ensinar a não aceitar desvalia.


Rangel Alves da Costa, pesquisador, escritor, poeta
Conselheiro Cariri Cangaço - Poço Redondo, Sergipe
blograngel-sertao.blogspot.com

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terça-feira, 15 de março de 2022

LUIZ GONZAGA CONEXÃO NACIONAL PARTE 03

 Por Instituto Museu do Sertão

https://www.youtube.com/watch?v=d09Bx_ah3_g&ab_channel=InstitutoMuseudoSert%C3%A3o

Luiz Gonzaga, programa Conexão Nacional da Rede Manchete Parte - 03

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LUGAR DE SENTIMENTOS, MEMÓRIAS, CORDEL E ARTE: MIGUEL E JOSENIR LACERDA

 

Manoel Severo, Josenir Lacerda e Miguel

Para os apaixonados pela memória, arte, poesia, cordel, enfim; por todas as culturas; visitando a cidade de Crato, no sul do Ceara, não pode deixar de conhecer o casal Miguel e Josenir Lacerda. Poderia começar dizendo o tamanho do talento não só do casal, mas de toda a família; filhos, genro, netas, enfim; ou dizer a forma espetacularmente acolhedora e gentil como a família nos recebe e a todos que os visitam. A casa da família localizada bem no centro de Crato é um misto de Centro Cultural, Museu, Biblioteca, etc etc etc etc.

Josenir Lacerda
Josenir Lacerda e Hélio Santos

Cada detalhe do espaço é cuidado e mantido com muito zelo pelo casal; ali em cada cômodo e a cada centímetro são guardados, mantidos e mostrados; sentimentos, memórias, culturas de todas as formas e as mais diversas manifestações de arte, frutos da história de toda uma vida, que vão se desnudando a partir de cada peça, de cada escrito, de cada objeto. Josenir e Miguel respiram arte, artistas de corpo e alma, inteiros.

Josenir Lacerda, cordelista, poetisa, artesã de mão cheia, "bonequeira" talentosa; de fundadora da Academia de Cordelistas do Crato direto para a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, dedicada à cultura popular, folclore e tradições em suas próprias palavras, sou uma “sonhadora poetisa, que aplica rimas na saia, põe babados no folheto, canta o sertão e a praia”.

A relíquia guardada com todo carinho: O rádio pertencente aos pais de Josenir; seu José João; primeiro barbeiro do Crato; e dona Alzenir, ali a família se reunia principalmente para acompanhar as novelas da época
No meio de tanta cultura e arte, o inusitado, coleção das bonequinhas da filhas e coleção de frascos de perfumes; se identifica com algum?

Visitar Josenir Lacerda e Miguel é certeza de uma maravilhosa prosa, com muitas pitadas de poesia, a residência na verdade é um Templo, onde se cultua afeto, talento e criatividade. Josenir e Miguel são companheiros e entusiastas do empreendimento Cariri Cangaço desde nossos primórdios, lá atrás em 2009 em nossa primeira edição, Josenir Lacerda nos levou para conhecer ao lado do mestre Luciano Carneiro a Academia de Cordelistas do Crato, parceiro importante de nosso projeto e de lá ate os dias de hoje, sempre que o Cariri Cangaço aporta no cariri cearense, eles estão ao nosso lado.

O mimo de Miguel: A coleção de bicicletas, pelas quais nutre um ciúme terrível...só perdendo paro o veículo corcel de mil novecentos e antigamente, o carro oficial da família

É Miguel quem nos conta: "Severo nós temos aqui um corcel 1978 , cor: bege; que já faz parte da família, houve uma época que me atrevi a vende-lo, fui lá e vim cá e nada de vender, foi aí que ele foi quase responsável pelo fim do casamento, risos; Josenir me chamou para uma conversa e disse _Olhe Miguel, quando vc quiser vender nosso corcel me ofereça, que eu compro !!! Pronto a partir daí o corcel passou a ser integrante oficial da família, vender...nem pensar”.

Josenir Lacerda, cordelista festejada, produziu centenas de folhetos, em sua casa encontramos não só sua produção, mas cordéis de muitos amigos; de todo o nordeste; que acostumaram-se a ter em seu espaço um lugar de encontros e reencontros. Nesta nossa ultima visita que aconteceu agora no último dia 04 de março, estávamos juntos declamando uma poesia do grande pernambucano Chico Pedrosa "O erro da vendedora", quando o telefone toca, do outro lado da linha estava Chico Pedrosa, vai entender essa sintonia do mundo das artes e da inspiração...

Retalhos de sentimentos e lembranças, guardadas com zelo e muito afeto
Manoel Severo e Hélio Santos , registros no Cordel e Arte

O Erro da Vendedora, do poeta Chico Pedrosa

O engano é uma falha
Difícil de reverter
Por ele tem muita gente
Pagando sem merecer
Quantos pobres inocentes
Tidos como delinquentes
Vivem a se lastimar
Pois se errar fosse humano
Quem cometesse um engano
Não deveria pagar.

Um estudante entrou numa
Loja especializada
Para comprar um presente
Para a sua namorada
Que estava noutra cidade
Depois de olhar à vontade
Os produtos da vitrine
Despertou-lhe o interesse
Por algo que aquecesse
Os dedos da mão de Aline

E um belíssimo par de luvas
Comprou para a namorada
E pediu a vendedora
Moça fina e educada
Que embalasse o presente
Inadivertidamente
No lugar da encomenda
A moça se atrapalhou
Invés das luvas botou
Uma calcinha de renda

E entregou para o moço
Que acabara de escrever
Um bilhete à namorada
Dizendo como fazer
Com aquele presentaço:
Minha querida um abraço
E beijos apaixonados
Meu amor esse presente
Vista pensando na gente
No dia dos namorados

Lhe comprei, porém, sabendo
Que você não vai usar
Porque quem nunca vestiu
É difícil acostumar
Eu mesmo queria ir
Pra lhe ajudar a vestir
Como eu fiz com a vendedora
E se nela eu gostei de ver
Eu imagino em você
Minha deusa encantadora!

Ela ainda garantiu
Que não mancha nem desbota
A mão entrando e saindo
Não rasga nem amarrota
Eu comprei frouxa na frente
Pra mão descer livremente
Na bainha dos torpedos
E sem precisar cortar
Lá dentro facilitar
O movimento dos dedos

Torço para que te sintas
Feliz com este presente
Que irá cobrir aquilo
Que pedirei brevemente
Cobrir aquilo que um dia
Quando eu não te conhecia
Não podia nem tocar
Hoje pego, beijo amasso,
Coço, massageio e faço
Você gemer e sonhar

Só uma coisa lhe peço
Depois que você usar
Coloque um pouco de talco
Que é pra desinfectar
E pra sair o mal cheiro
Feito isso o tempo inteiro
Pode usar e se exibir
Se perguntarem que deu
Pode dizer que fui eu:
Seu namorado Valdir

A pobre moça tomou
Aquilo por gozação
Num instante veio abaixo
Seu castelo de paixão
Despachou o namorado
Que até hoje o coitado
A culpa imerecedora
Carrega sem entender
E assim pagou sem dever
O ERRO DA VENDEDORA!

Estávamos nós a declamar o poema "O erro da vendedora" quando o telefone de Josenir, toca; do outro lado da linha: Chico Pedrosa, eita "coincidência da molesta"


Parte do cordel "A Medicina e o Cangaço", de Josenir Lacerda

Durante as ações guerreiras
Intenso estado de alerta
Enfrentando temporais
Sob precária coberta
Numa tensão enervante
Esperando a cada instante
O ataque e a descoberta

As doenças pulmonares
Venéreas e intestinais
Eram presenças constantes
E ameaças reais
Dada a promiscuidade
Excessos, leviandade
Gerando males brutais

Porém o caso mais grave
E de urgente tratamento
Era se arma de fogo
Provocasse o ferimento
Pois havendo hemorragia
O controle carecia
De eficaz procedimento

No caso de não haver
Socorro firme no ato
Com hemorragia presente
Determinante era o fato
Debilitado e carente
O cangaceiro doente
Morria de imediato

Cônscios que a qualquer momento
Surgiria uma emergência
O bando sempre levava
Medicamentos de urgência
Temendo ataque e ação
Viam nessa prevenção
Chance de sobrevivência

E nesse caso aparece
“O entendido”, o protetor
Trata o doente e o ferido
Cura a mazela e a dor
Com zelosa paciência
Diploma de experiência

Do Cangaço é o doutor

Miguel , Josenir Lacerda e Hélio Santos
No meio dos inúmeros folhetos de cordel, em meio a poesia que nasce da alma: os rádios antigos, as máquinas registradoras, as máquinas de datilografas, as balanças, os porta-chapéus, as televisões, etc etc etc 

Redação Cariri Cangaço, Crato 04 de Março de 2022

https://cariricangaco.blogspot.com/2022/03/lugar-de-sentimentos-memorias-cordel-e.html

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VISITANDO O MIAÍ

Clerisvaldo B, Chagas, 14 de março de 2022

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.672


 

Não estamos tão distantes da Semana Santa, tempo em que nos dá bastante vontade para mudar de ares nas belas praias do Miaí de Baixo, litoral de Coruripe. Era uma viagem longa que passava em Arapiraca, São Sebastião, Penedo, Piaçabuçu e Feliz Deserto. Não compensava sair de Santana do Ipanema para Miaí, para ficar na praia por apenas um dia. Segundo boas informações, o governo estadual encurtou a distância quando asfaltou o trecho Colônia Pindorama – Coruripe. Após Arapiraca entra-se por atalho via Usina Pindorama, uma das cooperativas mais pujantes do Brasil. Já andamos outra vez ali por aquele atalho, porém sem asfalto e por dentro de desertos canaviais. Falam que agora é apenas um pulo de Arapiraca para Miaí, fora o direito de visitar a Colônia Pindorama já em terras de Coruripe, com seus fabricos de deliciosos sucos tendo como carro-chefe o de maracujá.

O pequeno povoado litorâneo ainda é um bom refúgio para quem quer descansar, mas no Carnaval descanso no lugar é perdido, tanto no Miaí de Baixo quanto no Miaí de Cima até a Lagoa do Pau. O que sempre nos chamou atenção por ali foi a praia que faz recuar suas águas fazendo o banhista andar muito ao encontro das ondas. Vezes que não se vê viva alma nas extensas praias desertas. Os mercadinhos se encarregam de abastecer a dispensa e, a feira do peixe na sede municipal é uma delícia para quem aprecia o pescado. Ainda é possível comprar camarão em barcos pesqueiros se o turista assim o preferir. Caso a preguiça não chegue dá para conhecer a cidade de Feliz Deserto e a própria Coruripe. Muito coqueirais e comidas típicas: paraíso alagoano.

Mesmo com esse atalho pela Colônia Pindorama, era muito bom rever os casarões e a orla de Penedo, cidade extremamente limpa e turística. A movimentação da cidade ensolarada de Piaçabuçu com seus barcos pesqueiros ancorados. Os infinitos coqueirais que levam até o Miaí de Baixo. O esforço de Feliz Deserto para progredir... Dunas, vegetação de beira de rio, vegetais praianos, atrações para uma boa câmera fotográfica. Geografia profunda na Foz do São Francisco, na Praia do Peba, nos desenhos dos encantadores cenários.

Alagoas, onde a felicidade mora.

“A gente faz uma latada

Cobre com paia de coco

De noite vê-se o pipoco

Da rapaziada...”

Obrigado, saudoso Jacinto Silva, forrozeiro do litoral.

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