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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

História do Cangaço


As volantes

O agravamento do problema do cangaço levou as polícias estaduais a criar forças especiais para combatê-lo, as chamadas "volantes", comandadas por policiais de carreira, mas formadas por "soldados" temporários e cujos métodos de atuação - em especial em relação à população pobre - não era muito diferente daqueles dos próprios cangaceiros. Quanto ao governo federal, seu descaso pelo cangaço foi sempre o mesmo manifestado pelo semi-árido de um modo geral.

De qualquer modo, em 1938, o governo de Alagoas se empenhou na captura de Lampião. Uma volante comandada por João Bezerra conseguiu cercá-lo na fazenda de Angicos, um refúgio no Estado de Sergipe. Depois de vinte minutos de tiroteio, cerca de 40 cangaceiros conseguiram escapar, mas onze foram mortos, entre eles o líder do bando e sua mulher, conhecida como Maria Bonita.


Para se ter uma ideia do caráter violento da sociedade em que isso aconteceu, vale mencionar que os onze mortos foram decapitados e suas cabeças, levadas para Salvador (BA), ficaram expostas no museu Nina Rodrigues até 1968 - quando foram finalmente sepultadas.

http://maccord-rita-prof.blogspot.com.br/2012_02_24_archive.html

DE UMA SEXTA FEIRA ENSOLARADA

Por: Honório de Medeiros
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O carro parou ao lado da criança. Havia como que um assento de cimento – se é que se pode dizer assim – ao lado da banca de revistas, mas ela não deu muita atenção ao carro, nem mesmo quando seus ocupantes saíram e um deles lhe fez cócegas na cabeça e passou apressado.

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A mãe, sentada, de cabeça baixa, cotovelo cravado nas pernas, tinha os olhos ocultos pela mão direita espalmada e não modificou sua postura para ver o que se passava ao seu redor. De relance se pôde perceber que parecia insensível ao tráfego barulhento, enquanto sua mão esquerda segurava firmemente o pulso da criança.

Entraram na banca. Compraram jornais. Separaram, de comum acordo, um chocolate para ser dado à criança. Saíram. Nada mudara. Ao se aproximarem perceberam as roupas de ambas – singelas, mas compostas. Ofereceram o chocolate sem dizerem qualquer palavra. A mãozinha frágil o pegou, ávida, enquanto um “oba!” despertava a atenção da mãe. Esta, tirando a mão dos olhos e encarando os dois homens que observavam sua filha deixou a descoberto um rosto ainda jovem, banhado em lágrimas.

- “Minha senhora”, perguntaram, “porque está chorando?”

 “Fome!”, respondeu.

A criança, de um louro amarelado que ressaltava sua ascendência negra, magrinha, magrinha, lambia, deliciada, o chocolate totalmente despido. Não se dava conta do que se passava ao seu lado.

- “Fome?”. Perguntaram novamente.

-  “É”. “Não tenho vergonha em dizer”. “Os senhores sabem se tem alguma Casa de Apoio aqui perto?”

- “Tem uma logo naquela rua”, responderam.

- “Está fechada”. “Tem o Albergue”, ela continuou, “na descida da ladeira, mas ele cobra vinte reais para o pernoite e refeições”.

Fez-se um silêncio incômodo, doloroso. Será que ali estava alguém querendo aplicar um golpe, explorando aquela infância comovente que agora brincava de lamber, um a um, os dedinhos sujos de chocolate, eles se perguntaram.

- “Vim do interior no carro da Prefeitura trazer meu marido para o hospital de emergência, mas não posso ficar lá e ele só sai segunda”

Era uma sexta-feira radiante, ensolarada...

- “Eu ia ficar na casa do meu pai. Ele mora aqui, mas se mudou e não mandou seu endereço novo. O carro da Prefeitura só vem na segunda, o que vou fazer para dar de comer a essa criança? Pedir eu não peço. Falei com o motorista da Besta para ele nos levar que eu pagava lá. Ele disse que não fazia fiado”.

Enquanto falava, as lágrimas pingavam uma a uma no regaço do vestido. As mãos torciam uma à outra. A bolsa, preta, de material ordinário, flácida, vazia, separava-a da criança que então olhava, atenta, um pequeno jorro de água que brotava da torneira mal fechada e originava um pequeno córrego a deslizar por entre o capim limitado por pedras de contenção. Os olhos da mãe já há muito não encaravam nada nem ninguém. Estavam perdidos no vazio. O desabafo era para o mundo que a cercava. Eles apenas o desencadearam. Parecia alheada de tudo.

- “Olhe”, disse um deles estendendo a mão que segurava a cédula.

Ela olhou durante algum tempo antes de pegá-la. Abriram as portas do carro.

- “Como é o nome dos senhores?” Levantara-se, puxando a menina.

- “Por quê?”

- “Eu quero rezar pelos senhores”.

Foram-se. Pelo vidro retrovisor era possível perceber a imagem que se distanciava. Continuavam no mesmo lugar, imóveis, as duas, olhando o carro. Mesmo pelo espelho era possível perceber uma mão segurando, firmemente, a cédula, enquanto a outra não largava a criança que dava adeus, em câmara lenta – tão pequena, tão frágil – destacando-se delicadamente contra o cinza da banca de revistas.

Extraído do blog do escritor e pesquisador do cangaço:
Honório de Medeiros



domingo, 23 de setembro de 2012

Vingt-un Rosado e o petróleo mossoroense - 23 de Setembro de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Na próxima terça-feira, 25 de setembro, se vivo fosse, o professor Jerônimo Vingt-un Rosado Maia completaria 92 anos de idade de uma vida dedicada à cultura da região denominada por ele mesmo como \"O País de Mossoró\". Seus feitos sempre são lembrados como editor da maior coleção de livros do país (Coleção Mossoroense), como fundador e incentivador de diversas bibliotecas e museus e fundador da Escola Superior de Agricultura de Mossoró - Esam. Nada se fala, no entanto, da sua luta em prol do petróleo mossoroense. E foi uma luta árdua, para um jovem de pouco mais de vinte e cinco anos de idade, que usando as armas que sempre lhe foram peculiar, enfrentou mais uma batalha em prol de Mossoró.
               

O envolvimento de Vingt-un Rosado com o petróleo mossoroense começou em 1945, quando o então soldado padioleiro 494 da Companhia Escola de Engenharia sediada na cidade mineira de Ouro Fino tomou conhecimento de um artigo elaborado em 1922 pelo norte-americano John Casper Branner e outro redigido pelo geólogo brasileiro Luciano Jacques de Morais em 1929 em que se falava da possibilidade de existência de petróleo no Rio Grande do Norte, mais precisamente na cidade de Mossoró.
               
Conhecedor que era de outras manifestações espontâneas de petróleo na região, como a que foi relatada em 1853 pelo padre Florêncio Gomes de Oliveira, em que afirmava que em Apodi \"em um dos recantos da lagoa desta vila que está mais em contato com as substâncias minerais da serra, tem-se coalhado, em alguns anos, uma substância betuminosa inflamável, e de boa luz semelhante à cera, em quantidade tal que se pode carregar carros delas\", e pelas observações feitas pelo farmacêutico 


Jerônimo Rosado, seu pai, que identificou elaterite na região de Caraúbas, resolveu abraçar a luta pela descoberta do \"ouro negro\" na sua Mossoró. Foi assim que usando as páginas do jornal \"O Mossoroense\" em 6 e 13 de abril de 1947, publicou um trabalho sobre a Wildcat Mossoroense, que é a zona onde se supõe existir petróleo, por dados vagos ou informações superficiais, sem comprovação.
               
A partir de 1949 foram realizados diversos estudos geológicos no litoral do Rio Grande do Norte, mas os resultados não foram satisfatórios. Mesmo assim os estudos prosseguiram. E o incansável Vingt-un, convencido da existência de petróleo na região, lia na 

Rádio Tapuyo, em 11 de maio de 1955, um trabalho no qual já defendia a construção de uma refinaria para Mossoró. Um sonhador Talvez. Mas alguém que soube, através de sua luta, tornar o sonho realidade.
               
Em 25 de fevereiro de 1956, Vingt-un profere uma aula sobre a Geologia da Região de Mossoró e suas consequências naturais para o curso de Antropologia Cultural, em que fala também do petróleo mossoroense. Em 31 de maio de 1956, escreve para a Rádio Tapuyo um pequeno trabalho sobre o mesmo tema. Em 1957, em tese apresentada à Faculdade de Ciências Econômicas de Mossoró, registra: \"Petróleo: Fracassado o Poço Pioneiro de Gangorrinha, G-1-RN\". Parecia o fim do sonho do petróleo mossoroense, mas não para Vingt-un, que visionava: \"Um dia as torres voltarão ao sagrado chão de Mossoró e dirão bem alto que Jonh Gasper Branner, o sábio de Stanford, e Luciano Jacques de Morais, o grande geólogo patrício, estavam certos, ...\" .
               
Em 1967, Vingt-un publicou um livro na Coleção Mossoroense sob o título: \"Alguns Apontamentos sobre o Petróleo Mossoroense\". A esperança não havia morrido para aquele homem de fé. E o seu sonho se torna realidade em 1979, quando finalmente é descoberto a primeira acumulação economicamente viável num poço perfurado para captação de água que deveria atender ao Hotel Thermas. 


Ao lado desse poço, foi perfurado pela Petrobras um poço gêmeo que até hoje é produtor. E com a descoberta de outros campos, como o de Canto do Amaro, o Rio Grande do Norte assume a posição de maior produtor terrestre do Brasil.
               
Em 1982, Vingt-un reedita: \"Alguns Apontamentos sobre o Petróleo Mossoroense\", com um novo título \"Um dia, as torres voltarão ao sagrado chão de Mossoró\". Essa luta de Vingt-un foi reconhecida pela Petrobras em 2003, por ocasião das festividades dos 50 anos da Petrobras.
               
Vingt-un Rosado faleceu em 21 de dezembro de 2005, deixando um imenso vazio na cultura de Mossoró. Hoje é só lembranças. Sete anos se passaram, e a terra cumpriu sua missão. A matéria, como na sentença bíblica, voltou ao pó. Hoje, Vingt-un é Mossoró.


Todos os direitos reservados

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comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

Autor:
Jornalista Geraldo Maia do Nascimento

Fontes:

CANGAÇO – MILLENARIAN REBELS: PROPHETS AND OUTLAWS - PARTE I

Para os países que falam (Inglês)

Translator’s Introduction

It is no surprise that the French group of revolutionary outlaws, Os Cangaceiros, would take an interest in millenarian revolt since their namesakes in Brazil fought side by side with millenarian rebels on more than one occasion. And such an interest is no mere whim. During the Middle Ages, revolt almost always expressed itself in millenarian language in the Western world, and such expressions continued, though increasingly less frequently, into modern times. Thus, those of us who are interested in understanding the ways in which the spirit of revolt develops in individuals and in larger groups of people could perhaps learn something from examining millenarianism in its various forms.

In Prophets and Outlaws of the Sertão, Georges Lapierre[1] tells the story of two movements of revolt in northeastern Brazil whose activities often intertwined. On the one hand, there were several millenarian movements involving dispossessed peasants, rural migrant workers, and urban poor. On the other hand, there were the cangaceiros, individuals whose acts of revenge against a very visible ruling class and its lackeys had driven them to live as outlaws and who joined together in bands called cangaços to wage their battle against a social order to which they were neither willing nor able to belong.

Map of the Empire of Brazil in the nineteenth century – http://blogdoestado.blogspot.com.br

For me, the most interesting aspect of this historical tale lies in the comparisons and contrasts that can be made between these two very different ways of rebelling that manifested themselves in Brazil as the 19th century moved into the 20th century.

Though Georges Lapierre’s account mentions several millenarian movements in Brazil during that period, he only goes into any detail about two of them: the one that gathered around Antonio Conselheiro (Antonio the Counselor)[2] and the one that gathered around Father Cicero. In my opinion, the former is far more interesting, because it was truly a movement of millenarian revolt, whereas Father Cicero’s movement, regardless of any apocalyptic or millenarian language it may have used, was essentially just a movement of social reform[3]. The very fact that its leader was able to maintain a possession in the church hierarchy and gain a significant in the state hierarchy shows that neither revolt nor the bringing of the millennium had any real significance in his activities. He was merely seeking to bring his concept of a christian social morality into the existing social order.

Conselheiro, on the other hand, had a true hatred of the existing social order, and firmly believed that its end was at hand. Being a true believer, he was convinced that god was about to rain his wrath down upon the ruling order and bring a holy kingdom of real equality to the earth, one with neither state nor property, where the entire world would be equally accessible to all. Such a vision was bound to attract many of the dispossessed. Conselheiro’s vision was apocalyptic, but also a vision of action. If the movement that gathered around him ended up forming a “holy city” (Canudos), a commune in which to begin the new way of living, it was also prepared to fight the ruling powers. That battle, however, took a form quite typical of a particular sort of millenarianism. It was a defense of the holy city that was based on trust in a supernatural intervention.

Cangaceiros – Ronald Guimarães – http://www.ronald.com.br/

The cangaceiros, on the other hand, were not religious. They were simply outlaws, driven to leave society behind after taking revenge on someone from the ruling class or one of its lackeys for some humiliation. Like the millenarian rebels, they were from the poor, dispossessed classes. But the path they chose for their revolt was different, reflecting a personal humiliation they pushed them to attack, rather than a more general humiliation. Lacking the faith of the millenarians, they built no utopian communal “cities”, choosing rather to roam the countryside, attacking the rich and raiding cities. When their raids on cities were successful, they often expressed a type of utopian vision as well, throwing huge drunken feasts with music and dancing, often giving away some of what they had stolen. But they sought no permanence and faded back into the countryside to wander.

I find the sympathy of the cangaceiros  for the millenarian movements of their time interesting because their way of life in their world seems to parallel that of the Free Spirit movement of the middle ages. The Free Spirits are often described as millenarians, but their millenarianism was distinctly different from that of Conselheiro, Thomas Münzer, the Münster millenarians and most other millenarian movements. The distinction lies in the fact that the Free Spirits did not see the millennium as something that was going to come soon, but as something that already existed within them. Their perspective was not apocalyptic — aiming toward a future end of the world — but rather based in the immediate present. This is why the Free Spirit, while still using religious language, actually attacked the foundations of religion: dependence on an external supernatural power, hope in a heavenly future, faith in an external source of salvation. Quite rightly, the Free Spirits declared themselves to be greater than god, and apparently lived as vagabond outlaws… much like the cangaceiros. Their perspective left no room for passivity, because they had chosen to be the creators of their own lives.

Drawing depicting Antonio Conselheiro and disseminated via newspapers and books in southern Brazil in the late nineteenth century – http://culturapauferrense.blogspot.com.br

The millenarians of Canudos and Münster, and the followers of Thomas Münzer certainly expressed a more active — and downright fierce — form of apocalyptism. They were ready to fight to the death for their future millenarian dream. But this willingness was based on the delusions of faith and hope — faith in a supernatural savior; hope in divine intervention. Thus, they are not so different from groups like the Branch Davidians in Texas — groups made up largely of the poor, waiting for the apocalypse and ready to defend themselves to the death if necessary. But the fact is that apocalyptism is far more often passive, precisely because it hopes in an external intervention. This is true whether or not it is religious in nature. We are currently living in a period in which apocalyptic thinking is rampant even among people with no religious belief. Whether it takes the form of paralyzing fears of massive plagues and disasters or idealized dreams of a collapse that will do away with the technological and bureaucratic horrors of the present, it doesn’t ever seem to lead to active revolt. The fears, when they manage to get past their paralysis, tend toward the desperate grasping at any action the might “give us more time”, and such desperation sees any sort of anarchist revolutionary and utopian practice — especially one that is live here and now — as a hindrance to this acceptance of any action that works — because such a practice rejects all litigation, all legislation, every form of working through the ruling order… And the apocalyptic hopes for a collapse have always tended to move people toward a mere survivalism, a “practice” that is nothing more than an accumulation of skills in the hopes of being the most fit to survive in the post-collapse world. In my opinion, a small and shabby vision.

Millenarian revolt is interesting mostly because when millenarian perspectives actually led to revolt, to one extent or another, those involved had begun to recognize that they themselves had to act to realize their own liberation. Its limits lie precisely in the continued reliance on a supernatural force to guarantee this. As long as this faith remained, millenarians tended to paint themselves into corners, creating small utopian settlements that they defended with courage and ferocity, but that ended up as their graveyards. But a few, like the Free Spirits, seem to have gotten beyond faith and hope, beyond dependence on a supernatural power to uphold them. And it is interesting that their practice becomes much more that of the outlaw who doesn’t settle down, but remains on the move, thecangaceiro, who may perhaps develop a revolutionary perspective, and thus learn to aim all the more clearly.

Continuaremos quarta-feira

Source of information
http://theanarchistlibrary.org/library/os-cangaceiros-millenarian-rebels-prophets-and-outlaws

Extraído do blog "Tok de História" do historiógrafo e pesquisador do cangaço: 
Rostand Medeiros

Lampião - Parteiro


“Em 1932, o casal de cangaceiros tem uma filha. Chamam-na de Expedita". 

Expedita Ferreira

Maria Bonita dá à luz no meio da caatinga, à sombra de um umbuzeiro, em Porto de Folha, no Estado de Sergipe. Lampião foi o seu próprio parteiro”. Por isso era chamado de médico.

Maria Bonita insistia muito para que Lampião cuidasse do olho vazado. Diante dessa insistência, ele se dirige a um hospital na cidade de Laranjeiras, em Sergipe, dizendo ser um fazendeiro pernambucano. Virgulino tem o olho extraído pelo Dr. Bragança - um conhecido oftalmologista de todo o sertão - e passa um mês internado para se recuperar. Após pagar todas as despesas da internação, ele sai do hospital, escondido, durante a madrugada, não sem antes deixar escrito, à carvão, na parede do quarto:

"Doutor, o senhor não operou fazendeiro nenhum. O olho que o senhor arrancou foi o do Capitão Virgulino Ferreira da Silva, Lampião”.


Além das emboscadas planejadas para liquidá-lo, cabe ressaltar que Lampião conseguiu sobreviver ao veneno e ao fogo. Do primeiro, contou com a dosagem fraca que lhe deu, somente, um inconveniente desarranjo intestinal; do segundo, apesar de chamuscado, conseguiu escapar pulando. Mas foi ferido à bala diversas vezes.

Apesar de ter sido baleado nove vezes, Lampião sobreviveu a todos os ferimentos, sem contar com qualquer tipo de assistência médica formal. Naquela época, desconheciam-se os antibióticos e as sulfas. 

Para estancar o sangue e curar os ferimentos, por exemplo, usavam-se mofo, pó de café e, até, excrementos de gado. Eram usadas ainda, ervas medicinais e rezas dos curandeiros, que nem sempre funcionavam como se esperava. 

Um ferimento em seu pé, neste sentido, condenou Virgulino a mancar para o resto da vida”.Cauteloso

“Desconfiado, só ingeria algo depois que alguém tivesse provado o alimento. Por outro lado, só entregava o dinheiro após ter recebido a mercadoria. Entretanto, não conseguiu se livrar da traição dos falsos amigos”.

http://mariolopomo.zip.net/arch2010-04-18_2010-04-24.html 

PARA NÃO CONFUNDIR AS COISAS (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

PARA NÃO CONFUNDIR AS COISAS

Afirmo sempre que primeiro é preciso conhecer a realidade, sopesar a situação, entender seu contexto, para depois se intrometer sem correr o risco de agir imprudentemente, de falar besteira, perdendo uma ideal oportunidade de ficar calado. E tudo para não confundir as coisas.

Verdade é que pensam que porque um parente meu tem emprego na prefeitura, é comissionado por lá, recebe sem fazer nada ou simplesmente exerce a deplorável função de bajulador, de descarado baba-ovo, de adulador sem-vergonha, tenho que, por reconhecimento e agradecimento familiar, também me tornar um safado.


Ledíssimo engano. Cada um responde na medida do que faz, cada um é agraciado com o que merecer, cada um é dono de seu nariz e de seus atos. Ora, se é submisso, arrasta-se aos pés pelo emprego, pelo que recebe na moita ou possui apenas expectativa de arranjar qualquer coisa, então que vá - sozinho ou junto com pai, mãe e irmãos - pedir voto, bater palmas, segurar bandeira. É grave erro pensar que todos da família têm de agir da mesma forma, que todos têm de abençoar a safadeza.

Seria um absurdo querer tapar o sol com a peneira diante do inegável. Se o candidato é imprestável, claramente não possui capacidade de administrar, é o pior entre todos, seria um aberração de repente pretender transformá-lo no melhor do mundo, no mais confiável e trabalhador, e somente porque um parente meu faz parte do seu metiê.

Ademais, se o parente vende a alma ao diabo em busca de proveito atual ou futuro, isso é problema só e apenas dele. E ninguém venha querer insinuar que uma família inteira deve votar num candidato somente porque um e outro tiram proveito com a candidatura. Ao querer vincular a família, seria o mesmo que querer desonrar a todos em defesa de uma desonra maior ainda.

Citando exemplos. O proveito que um parente tira bajulando um candidato não se estende a outros parentes; o que um ganha defendendo a candidatura não é estendido nem repartido com os demais; aquele que ganha, seja lá quanto for, bota no bolso e pronto, nem pensa nos outros. O que recebe é por mérito ou desonra sua. Então por que os outros familiares têm de apoiar o candidato do parente?

Ora, quem tiver seu nome sujo que limpe, quem rasgou sua roupa que costure, quem comprou fiado que pague. Ninguém venha nesse momento falar em solidariedade, compartilhamento ou união familiar porque inegavelmente isso não existe. Quando querem esculhambar, ferir, macular, nem lembram que são parentes. E muitas vezes são os primeiros a alardear inverdades e a chegar com quatro pedras na mão.

Tem gente que se diz de família, porém só lembra que existe parente nessa hora. E tal lembrança chega de maneira totalmente contraditória. Se o dito parente, mesmo enxergando a imprestabilidade do candidato escolhido, se predispõe a alardear qualidades inexistentes, dizendo que é o melhor, é o máximo, então receberá mimos e abraços. Mas se fala na cara que sua honra e o seu caráter não permitem sentir a podridão e dizer que é perfume, então será xingado, achincalhado, transformado num verme.

Mas talvez alguns aspectos expliquem porque agem assim. Certamente não sabem que o indivíduo é um ser único em si mesmo e caracterizado por fatores fundamentais que o predispõe a ser reconhecido socialmente: honra, caráter, integridade, ser livre para pensar e agir, procurar sempre preservar-se diante dos chamados desonrosos do mundo. Se não for assim logo será transformado num alienado, num submisso, num escravo do novo tempo.


Quando alguém diz que vou seguir por aquela estrada porque sei o que encontrarei adiante, deverá sempre ser respeitado nessa decisão. O caminho do homem quem faz é ele próprio, a cada dia constrói sua condição cidadã e se firma com o reconhecimento que merecer. Mas basta um ato, um só, para que se transforme num asqueroso ser. Basta que deixe de fazer o que achar correto para seguir pelo lamaçal, puxado pelo braço do familiar que já anda de botas longas.

É aquela velha história. Para salvar alguém, o indivíduo pula na água sem saber nadar. Depois que o outro está salvo simplesmente vira as costas e segue adiante. Nem olha pra trás para ver o outro se afogando.

(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com



sábado, 22 de setembro de 2012

LIVRO - A OUTRA FACE DO CANGAÇO - VIDA E MORTE DE UM PRAÇA


Autor: Antonio Vilela de Sousa


PARA AQUISIÇÃO DO EXCELENTE LIVRO:

A presente obra custa R$ 20,00 (Vinte reais) + frete a consultar. Tem 102 páginas, fotos inéditas e está sendo comercializado exclusivamente pelo autor 
Via e-mail: 
incrivelmundo@hotmail.com
ou telefones: (87) 3763 - 5947 / 8811 - 1499/ 9944 - 8888 (Tim)

Ivanildo Alves da Silveira
Natal-Rn

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Zé do Telhado - herói camiliano - Bandoleiro Português


José Teixeira da Silva, nascido em 1818 no lugar do Telhado, Castelões de Recezinhos, comarca de Penafiel, é dos salteadores mais conhecidos da história portuguesa. "Zé do Telhado", nome que saltou para além do Marão, diz o povo, roubava aos ricos para dar aos pobres. A fama, essa, não lhe valeu aos olhos da justiça nem o salvou da Cadeia da Relação no Porto, onde por fim recolheu, acusado de roubos vários, homicídio, organização de quadrilha de assaltantes e evasão tentada sem passaporte. Lá travou conhecimento com Camilo Castelo Branco, ele que, por outros motivos românticos, era na altura hóspede do local. Dessa estadia resulta "Memórias do Cárcere", onde ficam gravados os feitos do bandoleiro.

(Na foto: Camilo Castelo Branco e José Teixeira da Silva)

«Este nosso Portugal é um país em que nem pode ser-se salteador de fama, de estrondo, de feroz sublimidade.

(...)

Roubar ilustriosamente, é engenho. Saquear a ferro e fogo, é roubo.

(...)

Diz algo, no entanto, como exemplo desta lastimável anomalia, a história de José Teixeira da Silva do Telhado, o mais afamado salteador deste século.

(...)

Seu pai era o famigerado Joaquim do Telhado, capitão de ladrões, valente com as armas e raio devastador em franceses que ele matava porque eram franceses e porque eram ladrões, posto que, na qualidade de membro da nação espoliada, o Senhor Joaquim chamasse só a si o que era de fazenda nacional. Um tio-avô de José Teixeira, chamado ele o Sodiano, já tinha sido salteador de porte e infestara o Marão durante muitos anos.»

Os tempos pediam heróis. Depois de três invasões napoleónicas, o país seguia na miséria, dividido entre lutas liberais e absolutistas, com a corte exilada num Brasil distante e os que ficaram em terra entregues à crise económica e política. Da Guerra Civil, tal como Maria da Fonte, também Zé do Telhado sai herói. Pela bravura ao lado das tropas liberais do General-Visconde de Sá da Bandeira, condecoram-no com a "Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito". Da tropa e desempregado, voltou para a mulher e cinco filhos, seguindo a vida de salteador que lhe valeu a fama. Os anos ao comando da quadrilha de bandoleiros de Custódio, o "Boca Negra" não lhe custaram enfim a forca, mas o degredo. É em Malanje, Angola, que terminou os seus dias, negociante de borracha, cera e marfim e a dar pelo nome de "Quimuêzo", o homem de barbas grandes.

Fontes: 

http://noitesdeinsonias.blogspot.com.br/2011/01/ze-do-telhado-heroi-camiliano.html


Nova Edição de: Lampião Além da Versão...


Se você está querendo ler histórias sobre o "Cangaço" inicie lendo esta obra, do escritor Alcino Alves Costa, um dos maiores conhecedores da história do cangaço.  

Juliana Ischiara, Alcino Alves Costa e Paulo Gastão

Se você deseja adquirir seu exemplar é só entrar em contato com o Mestre das publicações, o Professor Pereira, R$ 50,00 com frete incluso; seguem os contatos:

franpelima@bol.com.br
Te. 83 9911-8286  -   83 8706 2819
ou com o autor Alcino Costa - Poço Redondo-SE
alcino.alvess@gmail.comtel. 79 8852-7661

ZÉ DO TELHADO. O Bandoleiro Cavalheiresco.


Zé do  Telhado - O Bandoleiro de Portugal


Diz-se, que Zé do Telhado, antes de enveredar pelos caminhos do crime, viveu e passou, por algumas experiências de miséria, e penúria, que viriam a contribuir, para que ele como forma de revolta, se tivesse decidido pela vida de Bandoleiro.

Conta-se que este homem, certo dia, depois de ter ouvido repetidas vezes, os filhos chorar com fome, a pedirem á mãe, o pão que ela não tinha para lhe dar... E que ele, pai, todos os dias, ao sair de casa, prometia trazer no regresso, sem que nunca cumprisse com o prometido.

Mas finalmente, a hora da grande decisão acabou por acontecer... A partir daquela hora, Zé do Telhado, nunca mais deixou que a sua família passasse nessecidades. Ele teve a coragem de se assumir, como o Repartidor Publica. Que roubava aos que tinham demais, para com o produto do roubo, contribuir para atenuar as misérias, daqueles que tinham de menos... Ou melhor, aqueles que nada tinham!...

Hoje, João Mossoró lançará o seu mais novo CD


Hoje, 22 de Setembro, sábado, o cantor João Mossoró fará o lançamento  do seu novo CD, Conexão Nordeste e casa de show Estudantina, 
na Praça Tiradentes, na cidade do Rio de Janeiro.

Local:  Estudantina - RJ - Centro 
Horário:

A partir das 21;00 horas

Diversos artistas participarão do lançamento do CD do cantor João Mossoró. 
Não se esqueçam, é hoje.



http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

LINDA? (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa (*)
Rangel Alves da Costa

Reconhecimento de beleza em mulher não é tarefa que seja fácil, não é novelo que se desenrole jogando ao chão. A maioria se contenta com a beleza física, com o rosto e o corpo bonitos, com o tamanho da bunda ou a grossura das coxas. Ledo engano, pois vai muito além.

Também não vou enveredar no senso comum para dizer que a beleza de uma pessoa está muito mais no seu interior, ou beleza espiritual, do que simplesmente naquilo que ela apresenta como atração do lado de fora, no que aparenta fisicamente.


Nem tanto dentro nem tanto fora, pois a beleza é fruto de uma junção do visível e do que somente se percebe a partir do relacionamento com a pessoa. Neste sentido, não conhecendo nada além da aparência física, o jeito é, equivocadamente, se contentar afirmando que nunca viu nada mais belo na vida.

O problema é que, estrutural e aparentemente, casas também são bonitas, carros são perfeitos, equipamentos são irretocáveis. Mas por dentro podem ser verdadeiras aberrações, umas imprestabilidades. E pessoas não são objetos para receber selo de qualidade apenas pelo rosto dengoso, o olhar de oceano nem o corpo de geografia.

Mas por outro lado, não deixo de dar alguma razão aos que se contentam com as aparências. Ora, se gostam e se contentam em apenas ver, olhar, admirar, então tudo bem. Mulheres passam que são verdadeiras deusas, encantam igualmente sereias. Os castelos de areia também são bonitos, mas não suportam o sopro do vento ou a água macia.

Verdade é que na maioria das vezes não passam de castelos de areias as deusas das ruas, as embonecadas dos corredores, as chiques sustentadas nos brilhos das maquiagens. E a outra realidade, vinda do interior e que mais tarde se sobressairá em tudo, será revelada na palavra, no pensamento, na concepção de vida, no jeito de ser. É aí que o aparentemente belo pode tomar outra feição.

Creio não resistir por muito tempo a boniteza física que não conhece nada da vida além do corpo que ostenta e tanto se orgulha; creio não continuar prevalecendo a beleza física carregada de ignorância de mundo, de desconhecimento da realidade, de distanciamento de qualquer cultura educacional; creio não ir além do que fragilmente aparente a diva inimiga do saber, do estudo, da busca de uma consciência crítica sobre o contexto social.

Mas não digo que para ser bela a mulher tem de ser inteligente. Nada disso. Afirmo apenas que a burrice arraigada espanta qualquer beleza. A não ser que o outro seja do mesmo nível. Quer dizer, que também cultive todas as formas de analfabetismo. Se este for capaz de julgar além da aparência, logicamente que repensará o conceito de formosura perante aquela que da boca não sai qualquer serventia, que não expressa nada que tenha proveito, que seja o próprio conceito da mediocridade.

Entretanto, se a rudeza contumaz tem o dom de transformar o dissimuladamente belo em algo abominável, o mesmo pode ocorrer na situação inversa. Muitas pessoas tidas aparentemente como despossuídas de qualquer atração física ou mesmo avistadas como feias, de repente passam a ser vistas através dos olhos da inteligência e se transformam em verdadeiramente belas, lindas.

E por quê? Ora, o espírito afável, terno, lúcido, companheiro, tomado de luz e felicidade; a mente possuidora de julgamentos, de valores, noções, ideias, visão de mundo, conhecimento da realidade, inteligência; a boca que sabe se abrir, sabe falar, sabe quando deve se expressar; a palavra bonita, generosa, confiável, carinhosa, sempre com o dom de agradar; o ser humano sensível, agradável, cortês, honrado, que transmite confiança e segurança.


Por isso mesmo a mais bela, a mais linda do mundo, não é nem será aquela cuja beleza seja apenas exterior. O beija-flor não se contenta apenas com a cor da flor, mas com o seu néctar; o passarinho não pousa apenas no umbral da janela bonita, mas naquela que lhe dá acolhida; a moringa só tem importância pelo que guarda lá dentro.

Seja negra, pobre, moradora dos escondidos do mundo, um ser que ninguém acredita ou valoriza, mas será tão bela quanto a flor, linda feita a manhã, ao ser avistada e nela reconhecer-se não apenas o corpinho sexualmente admirável ou o rosto rosado de maquiagem, mas a mulher espiritualmente forte, consciente de si, que conhece a sua realidade e mais além, e perto dela o outro ouvirá a palavra bonita, o gesto de conforto, tudo que possa alegrar coração.

(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

As trincheiras de Rodolfo, em 1927: XI-A Praça Vigário Antonio Joaquim

Imagem 01 - Pça. Vigário Antonio Joaquim, anos 1930. Mossoró.

Outras trincheiras menores foram instaladas nesta praça para defesa ao assalto de Lampião, (1900-1938), à cidade de Mossoró, em 13/06/1927. Nas proximidades da praça, também, outros pontos de defesa foram colocados, que aproveito para citá-los nesta postagem.

Na imagem 01, que mostra esta praça nos anos de 1930, no número 1, a trincheira do Ginásio Diocesano Santa Luzia, com cerca de 4 pessoas armadas. O número 2, a Igreja do Coração de Jesus, em sua torre, 4 pessoas armadas. O número 3, neste prédio, que posteriormente foi a sede da sociedade União de Artistas, estava instalado o jornal O Nordeste. Nesta trincheira, estavam presentes e armados, Amâncio Leite, João Damasceno, Manoel Luz e outros não identificados.

Outras trincheiras, também, importantes, situadas nos arredores da área da praça, foram a Trincheira da Usina Força e Luz, a então empresa de fornecimento de energia elétrica, cujo proprietário era o grande empresário Francisco Tertuliano de Albuquerque, localizada na atual Avenida Almir de Almeida Castro, contando com dois vigias, e a segunda,  a Trincheira de Afonso Freire, (1894-1986), residente à rua Padre Urbano, atual Dix-sept Rosado, que pela imagem 01 é possivel identificá-la, na parte do fundo, pararela e atrás da rua principal, que corre no sentido direita/esquerda.

Afonso Freire reuniu em casa, o irmão Leônidas Freire de Andrade, o vizinho Pedro Ferreira Leite, Lauro Leite, Francisco Negócio da Silva e Abel Chagas Filho. Alguns ocuparam o telhado. Esta trincheira dispunha de seis rifles calibre 44 e trezentas balas. Sobre o responsável por esta trincheira, Raul Fernandes, em sua maneira concisa e criteriosa de apresentar os fatos, na obra abaixo referenciada, apresenta mais detalhes. Afonso Freire, modesto comerciante, não acreditava no ataque dos cangaceiros e não tinha recursos para comprar armamento. No dia 12 de junho daquele ano, jogava pôquer, no Grande Hotel (que também serviu como uma trincheira), com Saboinha e os comerciantes Raimundo Leão e José Carvalho, quando chegou Pedro Maia, funcionário da Estrada de Ferro. Informou a Vicente Sabóia que Lampião se aproximava do povoado de São Sebastião. Sabóia, vendo a disposição de Freire, cedeu-lhe armas necessárias para organizar uma trincheira em casa.

Imagem 02 - Mesa de Rendas, 1937. Mossoró

A imagem 02, retrata a Mesa de Rendas do Estado, o edíficio localizado na esquina, à esquerda, em cujo local foi organizada uma trincheira de defesa com três a quatro soldados. Em 1927, neste edifício funcionava a sede do Telégrafo Nacional (Correios).


Citarmos as fontes é respeitar quem pesquisou e dar credibilidade ao que escrevemos. Télescope. Fontes: FERNANDES, Raul. ( 09/09/1908-14/08/1998). A Marcha de Lampião, Assalto a Mossoró. 7a. edição, Coleção Mossoroense, Volume 1550,  Fundação Vingt-un Rosado, outubro de 2009; Provável autor das fotografia 01 e 02: Fotos de Manuelito Pereira, (1910-1980).  Índice das Matérias Publicadas em Memória Fotográfica.

Escrito por Copyright@Télescope 


Esta é a última trincheira postada neste blog, contra o ataque de Lampião a Mossoró. Mas vale lembrar ao leitor que existiram mais outras trincheiras, as quais o proprietário do blog:  http://telescope.zip.net/historia/, ainda não as publicou.


O Nordeste em fúria

Por Adriana Martins - REPÓRTER/Diário do Nordeste


Historiador Ângelo Osmiro Barreto reconstitui
episódios da história do cangaço, para além de Lampião

Durante a pesquisa para a construção do livro, o autor foi alvo de críticas vindas tanto de amigos quanto de membros da academia: "A violência com certeza é inerente ao cangaço, naquele período a lei do mais forte imperava"

Nem só de Lampião se fez o cangaço. Foi dessa premissa que partiu o historiador Ângelo Osmiro Barreto para escrever o livro "Assim era Lampião e outras histórias", cujo lançamento aconteceu na última terça-feira 18. A partir de pesquisa bibliográfica e de campo, Barreto percorre o rico universo do sertão nordestino entre meados do século 19 até os anos 1930 - período em que a região padeceu sob os conflitos entre coronéis e cangaceiros, alimentados pela ausência do poder público.

A delimitação temporal adotada por Barreto toma como referência, em parte, a morte de Lampião, assassinado junto com integrantes do seu bando em 1938, em uma fazenda no sertão de Sergipe. "Embora não tenha sido o único personagem do cangaço, é um dos principais, o que mais percorreu Estados e que, por isso, o que mais deixou miséria pelo que fez", justifica o historiador.

O raciocínio de Barreto vai na contramão da romantização empreendida por muitos dos produtos culturais sobre o cangaço - desde músicas até filmes, livros, cordéis e outros. "Lampião não foi um herói que lutou contra os coronéis, assim como nenhum outro cangaceiro", frisa ele.

No texto de abertura do livro, o autor complementa a argumentação: "A violência com certeza é inerente ao cangaço, naquele período a lei do mais forte imperava, onde o Estado pouco ou nada contribuía para a melhoria de vida das pessoas, o poder do coronel representado pelo tamanho de suas terras e o número de seus jagunços era de fato a lei".

Exatamente pelo fator da violência, Barreto acredita serem importantes as pesquisas sobre o cangaço - tema que precisou justificar repetidas vezes frente aos olhares e comentários de desmerecimento lançados por alguns amigos e até por colegas acadêmicos.

Para ele, no entanto, pesquisar o cangaço não significa endossar, mascarar ou romantizar a violência característica desse universo. "Deve-se estudar o cangaço assim como outros períodos e episódios de nossa história, que nos ajudam a entender o Nordeste e o Brasil. Ao mesmo tempo, as pesquisas permitem corrigir as distorções sobre as figuras desse universo, a exemplo do ´heroísmo´. Por fim, entender o cangaço ajuda a evitar que se cometam os mesmos erros", explica.

A paixão pelo cangaço vem desde a adolescência, graças, em parte, à coleção de livros formada em casa pelo pai professor - entre eles, alguns volumes sobre o tema. "Depois de me afastar por um tempo, retomei as leituras sobre o assunto e me interessei em conhecer os locais onde ocorreram os episódios", conta.

Foi essa paixão que levou Barreto à presidência do Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará (GECC); antes, também foi presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC).

Continuação

As pesquisas para "Assim era Lampião e outras histórias" são, na verdade, uma continuação daquela iniciada para o primeiro livro de Barreto, "Curiosidades do Cangaço" (2002). "Após um intervalo que se segue ao lançamento, volta-se a coletar informações e entrevistas, a viajar. É um trabalho contínuo", esclarece.

Entre essas viagens estão passagens por locais onde aconteceram episódios relevantes ou onde nasceram, morreram ou ainda residem personagens relacionados ao cangaço. "Fomos, por exemplo, em Angico, hoje uma fazenda no interior de Sergipe, onde ocorreu a chacina do bando de Lampião", cita Barreto.

"Lá conversamos com ex-policiais, inclusive com a pessoa que arrumou as cabeças degoladas dos integrantes do bando na escadaria da Prefeitura de Piranha, cidade alagoana localizada na divisa com Sergipe. À época, esse indivíduo contava com mais de noventa anos. Faleceu 2010", recorda o historiador.

A lista de entrevistados inclui ainda ex-cangaceiros, ex-soldados volantes (como se chamavam as tropas que combatiam cangaceiros) e sertanejos em geral, "os que mais sofriam pela situação, fosse com a polícia, fosse com os cangaceiros", lamenta. A variedade de personagens enfatiza a percepção sobre a pluralidade do cangaço, "que não é só Lampião. Para entender o tema é preciso explorar a religiosidade, a política e outros aspectos, a partir de personagens como Padre Cícero, coronéis e outros", ressalta Barreto.

Essa mesma pluralidade também garante o interesse do público geral pelo livro, não apenas de outros pesquisadores, historiadores e profissionais da área. "Embora seja um trabalho mais aprofundado que o primeiro, não chega a mergulhar fundo em todos os aspectos do cangaço, mesmo porque isso não caberia em um único livro", destaca o autor. Um exemplo de "personagem-satélite" é Zé Saturnino, inimigo de Lampião. "Nos anos 1990 conheci Luiz Cazuza, que morreu em 2011, quase com 101 anos, porém lúcido.

Ele era sobrinho de Saturnino, no livro conto um pouco de sua trajetória no período do cangaço, de seu contato direto com Lampião", comenta Barreto.

No Ceará, o autor visitou Limoeiro do Norte e Juazeiro do Norte - foi nessa última que, em 1926, Lampião recebeu do batalhão patriótico a patente de capitão, além de armas e munição, sob pretexto de combater a Coluna Prestes. "Mas ele nunca fez isso", adverte o autor. "A partir desse momento ganhou a alcunha de capitão Virgulino Ferreira da Silva". Em Juazeiro, porém, as pesquisas foram feitas em livros e documentos no Arquivo Público, ou com pessoas quer conheceram outras que estiveram entre os conflitos. "Daqui para frente essa será a regra. Indivíduos que tenham vivido naquela época estão morrendo por conta da idade. Ficam os descendentes", observa Barreto.



Serviço

"Assim era Lampião e outras histórias"
Ângelo Osmiro Barreto
LC Gráfica e Editora
2012, 238 páginas
R$ 35 (com frete incluso)

Contato para aquisição
Email : angelosmirio@zipmail.com.br
Fone  : (85) 9987 1646

Matéria do Diário do Nordeste enviada pelo Coroné Osmiro