Amigo:
esse vídeo é uma copia original do vídeo que tá hospedado no youtube, essa
montagem de som foi uma ideia minha.na descrição do vídeo diz que o vídeo é
original com efeito de som, e não com som original.
Licenciado em Letras e Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Linguagem Psicopedagógica na Educação pela Cândido Mendes do Rio de Janeiro, professor do Instituto de Português Aplicado do Distrito Federal e assessor de revisão de textos em órgão da Força Aérea Brasileira (Cenipa), do Ministério da Defesa, Luiz Serra é militar da reserva. Como colaborador, escreveu artigos para o jornal Correio Braziliense.
Serviço – “O Sertão Anárquico de Lampião” de Luiz Serra, Outubro Edições, 385 páginas, Brasil, 2016.
O livro está sendo comercializado em diversos pontos de Brasília, e na Paraíba, com professor Francisco Pereira Lima.
franpelima@bol.com.br
Já os envios para outros Estados, está sendo coordenado por Manoela e Janaína,pelo e-mail: anarquicolampiao@gmail.com.
Todas as demolições marcantes de uma cidade, deveriam ser fotografadas em vários ângulos, oficialmente; bem assim a mesma obra que tomou o seu lugar. Isso iria para o acervo público e teríamos o registro da evolução da urbe. O que descreveremos abaixo é importantíssimo para a história de Santana do Ipanema entre a velha e a nova paisagem. Nenhuma foto achamos que contasse a história do elo entre duas ruas:Benedito Melo (Rua Nova) e Antônio Tavares nos seus trechos finais. Também nenhum registro escrito foi encontrado. Essa crônica deveria ir para o acervo público com um pouco de luz da história local. Descrição histórica e única:
No final da Rua Nova, havia uma balaustrada de cerca de 300 metros de extensão. Ela limitava as ruas Antônio Tavares e Rua Nova. Servia como segurança porque a parte da Antônio Tavares era muito baixa com vários metros de desnível. Quase no meio da extensão da balaustrada havia uma escadaria de cimento. Para transitar de uma a outra rua, ou se usava a escadaria ou se rodeava lá pelo final da balaustrada que terminava na rodagem para Olho d’Água da Flores (hoje Rua São Paulo). O terreno baixo era ladeiroso, irregular, e cheio de mato ralo. Os balaústres eram desenhados e mantinham uma pequena plataforma na parte superior onde pessoas gostavam de sentar para apreciar o mundo.
Na gestão anterior a Paulo Ferreira ou na dele mesmo, a balaustrada foi demolida e no lugar dos degraus foi construída uma rampa, calçada ainda com pedras brutas do tempo de vila. (continuam lá) alguns prédios foram construídos no terreno baldio, inclusive a residência inicial de Paulo Ferreira. Depois o, então, prefeito, ergueu outra residência abaixo do início do balaústre, onde morou até o seu falecimento. Uma pequena praça foi construída na parte final da balaustrada. Daí para cá, as modificações não foram tão significativas assim. Esse episódio faz parte da junção Rua Nova, Rua Antônio Tavares e Rua São Pedro.
Tudo ali sempre foi tranquilo e abençoado pelo santo porteiro dos céus, o bom Padroeiro do Bairro que leva seu nome.
Uma Interessante Entrevista Com Joca Bernardo, o Homem Que em Agosto de 1938 Informou a Polícia Quem Conhecia a Localização do Esconderijo de Lampião e Foi o Responsável Pelo Massacre de Toda Uma Família, Perpetrado Pelo Cangaceiro Corisco, Que Buscou Vingar a Morte do Rei do Cangaço.
Autor do texto – Jornalista Roberto Vilanova – Maceió, Alagoas.
Fonte – O blog TOK DE HISTÓRIA informa que recebeu o material original dessa reportagem com o nome do autor, o número da página (12), mas sem a indicação de data de publicação e do nome do jornal, ou revista. Sabemos que o Jornalista Roberto Vilanova publicou reportagem semelhante no Caderno B do Jornal do Brasil, edição de 11 de maio de 1977, página 5, sugerindo uma época da publicação original desse texto, que agora apresentamos. Com Exceção das Fotos Originais da Reportagem, Todas as Outras Fotografias Aqui Publicadas, São de Responsabilidade do blog TOK DE HISTÓRIA.
A história não reservou para Joca Bernardo, quase 80 anos de idade, uma linha sequer. Mas é bem melhor assim, porque ele entrou para a história intima do sertão como traidor de Virgulino Ferreira – o Lampião, e, talvez por arrependimento, recusou receber o prêmio maior pela delação: a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. Por causa disso sua esposa, desde essa época, lhe abandonou depois de argumentar e tentar convencê-lo de que não deveria jogar fora a sorte. Como jogou, ela preferiu ir embora para São Paulo no primeiro pau-de-arara que cortou as estradas secas do sertão, não lhe dando mais notícias.
Mas não é fácil encontrar Joca, apesar dele viver discretamente no distrito do Piau, pertencente a Piranhas, a mais de 350 quilômetros de Maceió, porque o sertanejo é, também, antes e tudo, muito desconfiado. Aliás, a sua própria existência só é sabida por quem conhece a fundo a história de Lampião, como o presidente da Arena de Piranhas, Antônio Rodrigues, que lhe descobriu para essa reportagem.
A bela cidade de Piranhas, Alagoas, a margem do Rio São Francisco – Foto – Rostand Medeiros.
Medo da morrer
A troca de identidade, complementada pelos cumprimentos à mão estendida, durou pouco, mas Joca Bernardo mantinha-se olhando por baixo dos olhos, como se estivesse diante de um Tribunal. À pergunta se escondia com medo de morrer, respondeu que não. E explicou que era para evitar comentários que, na certa, iriam lhe trazer recordações. E ele não deseja recordar as inconveniências naturais de um traidor. Nesse pé a conversa se expandiu e tomou gosto, porque se Joca se manteve, durante todo esse tempo, calado, chega mesmo um momento, principalmente na sua idade, em que o peso da consciência rompe a barreira do silêncio que se impõe por conveniências.
O silêncio é quebrado também pelo conflito interno que Joca passou a viver logo depois da morte de Lampião, não porque traiu o bandido, mas porque, para escapar da morte que Corisco espalhou como vingança, acabou delatando um inocente. Ou seja, disse a Corisco, com quem se encontrou mais tarde, que o vaqueiro Domingos Silvino, empregado do sogro do tenente Bezerra, é quem havia delatado Lampião à polícia. Corisco foi à casa de Domingos e matou ele, a mulher, uma visita e três só deixou vivo apenas o de menor idade, Antônio Silvino, que mora hoje em Piranhas e não quer ver Joca na sua frente.
Joca Bernardo.
Foi o próprio Antônio Silvino quem relatou o massacre a sua família e, conforme Corisco disse a seu pai, Joca é o único responsável. Silvino falou que um dos cangaceiros chegou a puxar o punhal para matá-lo, mas Corisco o conteve. Nessa época, ele, Antônio, tinha 6 anos de idade e recebeu a missão de conduzir, de burro, as cabeças de toda a sua família que deveria ser entregue ao tenente Bezerra, em Piranhas, com um bilhete atrevido.
Silvino Ventura tinha seis anos de idade quando viu sua família ser covardemente trucidada pelo famigerado Corisco na Fazenda Patos e foi obrigado a transportar em um animal as cabeças cortadas de seus familiares para a casa do tenente José Bezerra, em Piranhas. Faleceu de um acidente em Piranhas, no dia 30 de julho de 1985, aos 54 anos de idade.
“Quando eu passei pelas ruas de Piranhas era dia de feira. O Corisco juntou as cabeças dentro de um caçuá e mandou eu tanger o burro. Nas ruas o povo pensava que o sangue que escorria era carne de bol. E quando eu parei na porta do tenente Bezerra foi que juntou gente”, conta Silvino.
A casa extremada era a residência do tenente José Bezerra, para onde a criança Silvino Ventura trouxe as cabeças ensanguentadas de seus familiares dentro de um caçuá, transportado por um animal– Foto -Rostand Medeiros.
Nega tudo
Joca Bernardo nega a delação ao vaqueiro Domingos Silvino, mas confirma que se encontrou com Corisco. Até o seu relato do encontro – surpresa e, até mesmo, as circunstâncias dele, Joca parece não mentir. Mas na reprodução do diálogo ele acaba revelando uma certa frieza:
“Eu tava juntando o gado quando o Corisco pulou de cima de um lajedo. O Corisco e mais uns cinco cabras, inclusive a Dadá, que foi a minha salvação. Aí o Corisco falou se era verdade que tinham matado Lampião Eu respondi que ouvi dizer. Até ele disse: vou matar muita gente para vingar a morte. E vou começar logo por você. Aí a Dadá ”ó xente, home. Que história é essa? A gente mata quem tem culpa, inocente não,” relatou.
Ruínas da propriedade Patos, onde a família Ventura foi trucidada– Foto – Rostand Medeiros.
A História, segundo se sabe através do Sr. Antônio Rodrigues, de tradicional família de Piranhas e político influente na região, é bem diferente. Corisco soube que Joca havia traído Lampião e foi procurá-lo. No encontro, disse que ia matá-lo e Joca, com medo, falou que se morresse, seria inocente. E lamentou que tivesse servido de coiteiro para Lampião e, agora, “qual o pagamento que recebia?”. Corisco titubeou, principalmente diante da interferência de Dadá, e resolveu tirar a história a limpo. Foi então que Joca Bernardo lembrou, maliciosamente, “onde Lampião teria passado antes de ir para Angicos”, seu até então inexpugnável esconderijo.
Lampeão, antes de atravessar o rio São Francisco, passou na fazenda do sogro do tenente Bezerra (o fazendeiro Antônio Brito). Com isso, Joca quis insinuar que o vaqueiro Domingos Silvino Ventura, sempre à disposição para cumprir ordens fazer recado do bando, teria denunciado os planos de Lampeão de se alojar em Angico por alguns dias. A verdade é que Corisco aceitou a justificativa, se não teria evitado o massacre da família Silvino Ventura, de quem sobrou, a propósito, apenas Antônio Silvino, o filho mais novo, na época, do vaqueiro.
Corisco.
Traição a Lampião
Na verdade, Joca Bernardo não tinha nada contra Lampeão – a quem ajudava, na medida do possível, para poder ir levando a vida sem ser molestado pelo seu bando, se bem que tivesse de enfrentar as inconveniências da polícia que sempre se confundia, pelas arbitrariedades cometidas, com os cangaceiros, às vezes, praticando horrores em nome da Lei que a bem da verdade era material, porque estava simbolizava na mira de um fuzil “bem azeitado e municiado”.
Assim, dentro do possível ou de acordo com os conformes, Joca e tantos outros coiteiros se prestavam ao serviço de acoitar Lampião e seu bando porque não tinha mesmo escolha. E entre ser morto pelos cangaceiros ou pela polícia, o que dá, no fundo, no mesmo, era preferível morrer tentando ser fiel a Deus e ao diabo, mesmo sem se saber quem era quem. Ou seja, quem era Deus e quem era Diabo.
Pedro de Cândido.
Mas como a miséria só quer começo, um dos maiores coiteiros de Lampião, Pedro de Cândido – ninguém duvidava da sua ligação com Lampião, mas Pedro vivia imune em Piranhas, no dia em que os cangaceiros se arrancharam em Angico, foi comprar queijo que Joca fabricava. E apesar de sempre levar dinheiro suficiente, dado por Lampião acabava usurpando o chefe e não pagava as mercadorias, o que criava, naturalmente, um clima de animosidade não só para ele, como para o bando.
Tiro fatal
Naquele dia, porém, Pedro de Cândido, inadvertidamente, engatilhou a arma que desfechou em Lampião o tiro fatal. Utilizando-se da fama de valente, talvez imposta pela condição de coiteiro chefe de Lampião, Pedro bateu à casa de Joca Bernardo para comprar “todos os que queijos que tivesse na hora ou a fazer durante os próximos 15 dias”, que era o tempo de descanso dos cangaceiros.
– Foto – Rostand Medeiros.
Joca respondeu que tinha uma encomenda de queijo do Juiz de Pão de Açúcar e não podia ceder o volume já encontrado pronto. O argumento não foi levado em consideração, porque Pedro de Cândido retrucou abusado: – “Cabra safado, eu tou pedindo o queijo e não quero saber de história. Vou levar tudo agorinha mesmo”, recorda Joca.
Apesar de se saber que Pedro era coiteiro de Lampião Joca ainda duvidou para quem seria tamanho carregamento de queijo até que descobriu:
– “Eu pensei assim” – conta ele – “o Pedro não negocia e se quer tanto queijo só pode ser pra muita gente. se é para Muita gente, Lampião tá por aqui.”
Ruínas da propriedade Patos– Foto – Rostand Medeiros.
Joca não reagiu e Pedro de Cândido levou todo o carregamento de queijo que havia sido encomendado pelo Juiz de Pão de Açúcar. Mas naquele mesmo dia o sargento Aniceto, que tinha ficado em Piranhas, enquanto o coronel Lucena, o tenente bezerra e o aspirante Chico Ferreira saíram em diligência por Delmiro Gouveia, atrás de Lampião foi informado da situação. O relate ainda é de Joca.
“Eu fui procurar o tenente Bezerra, mas ele não estava. Encontrei o sargento Aniceto e lhe contei: sargento, saber eu não sei não senhor, mas o senhor quiser saber onde Lampião tá escondido, aperte o Pedro de Cândido que ele diz. Agora só digo uma coisa ao senhor: Lampião está aqui por perto e não veio com pouca gente não. Têm uns 100 homens com ele. E contei também o caso dos queijos que o Pedro me tomou.”
Muro formado por pedras na propriedade Patos. – Foto – Rostand Medeiros.
A partir daquele momento começou a contagem regressiva da vida de Lampião e seu bando. Mas como o próprio Joca admite a delação não tinha a intenção de trair Lampião porque, do jeito que até hoje alguém afirme que o cangaceiro não morreu, naquele tempo acreditava-se na sua imortalidade, pelo menos à bala ou à faca. Joca desejava que Pedro levasse uma surra, através do “aperto” da polícia, e não admitia que a polícia desse fim a Lampião, porque o bandido sempre escapava aos cercos ileso, Mas não foi assim: o cangaceiro morreu mesmo.
Recusa
O sargento Aniceto se encarregou de assegurar junto ao tenente Bezerra e ao coronel Lucena o trabalho decisivo de Joca Bernardo, ajudando à Polícia. Aí os dois oficiais chamaram Joca a Piranhas e anunciaram o prêmio: 5 contos de réis e a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas, que lhe seria dada pelo Governo do Estado. Joca recusou as divisas e aceitou apenas o dinheiro, que acabou não recebendo em toda sua totalidade.
– “Eu acho que o Governador mandou o dinheiro todo, mas o portador ficou com um pedaço. Eu só recebi 1 conto e réis,” relembra.
Bela região do Rio São Francisco – Foto – Ricardo Trigueiro Morais.
Ele recusou as divisas de sargento, porque teria de vir morar na Capital e um sargento, naquela época, não ganhava suficiente para sustentar uma família. Então, Joca preferiu continuar tangendo gado e fazendo queijo, sem pagar aluguel de casa e sem ter outros gastos que naturalmente teria de assumir se mudasse de cidade e de vida. Mas sua mulher não aceitou a argumentação e como não pôde fazê-lo receber a patente, preferiu abandonar a casa. Foi morar em São Paulo.
Por ironia, quem recebeu as divisas foi o Pedro de Cândido. Joca, que pensava em se vingar da sua violência, não só lhe proporcionou a reaproximação com as autoridades de Piranhas e de Alagoas, como lhe deu a própria chance de ser autoridade, porque logo em seguida ser incorporado à polícia como sargento, Pedro foi nomeado delegado no sertão. E morreu assassinado por culpa, ao que se sabe, de seus dotes de “dom Juan”, sem que lhe respeitassem, ao menos, a posição de delegado.
Joca amarga a fama de traidor – na verdade o traidor é ele mesmo e se não fosse a aposentadoria do Funrural, engordada pelo frete que consegue tangendo urro carregado d’água, estaria na miséria. Sequer conseguiu o intento de fazer Pedro de Cândido levar uma surra porque Pedro, ao ser preso, não reagiu e nem foi difícil contar o esconderijo de Lampião.
No tempo do cangaço os sertanejos do nordeste brasileiro não sabiam bem de que lado deveriam ficar, se eram obedecendo às volantes polícias dos governos estaduais, que viviam os acusando de darem abrigos aos cangaceiros, ou aceitando as terríveis exigências dos marginais que confiando nas suas armas mortíferas não respeitavam ninguém. Mas o que se sabe é que, se os facínoras eram perversos quando escolhiam as suas vítimas, bem mais eram as próprias volantes políciais, as quais tinham obrigação de protegerem os sertanejos, mas elas faziam o contrário, ditavam as suas regras maldosas e impiedosas contra os sofridos homens camponeses. Ou eles indicavam o rumo que haviam tomado os cangaceiros quando por lá passavam, ou iriam ser judiados com surras e outras tristes formas de agressões e violências, e muitas vezes, havia deramamento de sangue, matando algum membro daquela família, e geralmente, o marcado para morrer sem dúvida era o patriarca.
João de Sousa Lima
O escritor e pesquisador do cangaço João de Sousa Lima quehoje tem mais de 20 livros publicados declara que quem mais fazia perversidade com os camponeses era a própria polícia, e para confundi-los, usava o mesmo tipo de uniforme que era usado pelos cangaceiros, somente para atribuir os crimes feitos por ela nos sertões ao bando de cangaceiros ou ao próprio perverso e sanguinário capitão Lampião.
E assim os pobres catingueiros não tinham a quem recorrer segurança. Ali estavam entre a cruz e a espada. Ou eram amigos dos cangaceiros e inimigos da polícia ou eram amigos dos policiais e inimigos dos cangaceiros, mas numa condição, morrerem nas mãos de um grupo ou do outro não seria tão difícil. E para que isso não acontecesse o melhor mesmo era venderem o que tinham adquirido com muito trabalho, e se mandarem para outro Estado que os cangaceiros ainda não haviam feitos seus coitos por lá.
Rubens Antonio
O baiano professor e pesquisador do cangaço Rubens Antonio diz em um dos seus trabalhos com o título "Joanna Facão" que Joanna Epiphania Cardoso foi uma das vítimas do capitão Lampião em 11 de abril do ano de 1931. O motivo desta vingança foi porque o seu esposo Manoel José Cardoso foi acusado pelos facínoras da "Empresa de Cangaceiros Lampiônica & Cia." de ser informante da polícia. O sertanejo que por ventura dedurasse os cangaceiros à polícia, jamais seria perdoado, porque com certeza, tinha feito a encomenda da sua morte.
A gestante Joanna Epiphania Cardoso não dedurou ninguém, mas a suspeita de dedurar fora atribuída ao seu marido pelos cangaceiros, e por isso ela foi capturadajuntamente com ele no lugar chamado de Arraial São Paulo, próximo à Uauá, em terras baianas.
No período deste ocorrido ela estava com 23 anos de idade e no oitavo mês de gravidez, sendo o 3º. parto. Assim que os bandoleiros dominaram o casal resolveram de imediato assassinar o esposo da Joanna, e em seguida, ela foi brutalmente espancada com violentas chibatadas e laterais de facão, todas aplicadas pelo próprio capitão Lampião.
Joanna foi obrigada a montar num burro totalmente despida e sair desfilando pelo arraial. Os seus cabelos da cabeça e genitália foram cortados a facão por este cangaceiro. Terminado o serviço em espécie de vingança os cangaceiros obrigaram a gestante ir com eles, e só foi
liberada a quilômetros de distância do arraial. A infeliz vítima de Lampião foi nomeada pela população do Arraial de "Joanna Facão". E conta o professor Rubens Antonio que ela viveu muito e só veio a falecer na década de 1990.
Sepultura de Joanna Facão
Imagens gentilmente
disponibilizadas por Basílio Gomes Gonçalves.
Naquela época de intranquilidade dos matutos era um verdadeiro inferno, porque as esperanças de um dia reinar novamente a harmonia no pedaço de chão sofrido do nordeste era uma incerteza total. Os perseguidores tanto os cangaceiros como os policiais não davam tréguas aos catingueiros, e com isso viviam num desassossego dos danado. Num descuido de olhos apareciam as almas perversas na caatinga dos infelizes catingueiros.
O cangaço
percorreu quase o Nordeste inteiro. De Pernambuco ao Ceará, foram muitos os Estados que sentiram no chão e na pele, nos ódios e nos afetos, as marcas e as
consequências da presença cangaceira. Homens do mundo, sem lar nem parada
certa, o cangaceiro vivia à mercê da força da caminhada ou do encalço do
inimigo. Num repente, e tudo já se modificava, o coito era levantado, o passo
era apressado, o mosquetão começava a cuspir fogo. Daí as mortes também serem
ao largo das vinditas, em qualquer terra, em qualquer chão.
Cangaceiro
nascido num lugar, acaso encontrasse a morte como desfecho, esta poderia
acontecer nas mais distantes lonjuras de seu berço de nascimento. Virgulino
Lampião, por exemplo, veio ao mundo em Vila Bela, Pernambuco, e dele se foi no
então distrito sertanejo e sergipano de Poço Redondo. Muitos se foram assim,
distantes dos lares, das famílias, de tudo o que haviam deixado para trás. Mas
noutras situações o destino, com suas forças e mistérios, acabou levantando na
própria terra as cruzes daqueles que nela haviam nascido.
Poço Redondo,
no Alto Sertão Sergipano do São Francisco, (localidade sertaneja da Gruta do
Angico, do Fogo da Maranduba, das Cruzes dos Soldados, do Coito da Pia das
Panelas, e muito mais), também foi destino de morte de muitos de seus filhos
que um dia deixaram seus lares para seguir os passos de Lampião. Canário,
Enedina, Diferente, Mergulhão, Elétrico, Moeda, Alecrim, Rosinha, todos, após
as carrasquentas andanças debaixo de distantes luas e sóis, acabaram retornando
para o repouso final na própria terra.
Todos estes
poderiam ter dado seus últimos suspiros em terras distantes. Por situações de
perigo haviam passado, pelo fogo da morte haviam cruzado, na direção da
matadeira haviam estado. Mas não, saíram ilesos para, já dentro da terra natal,
terem suas vidas ceifadas. E tendo a vastidão sertaneja como último leito, vez
que nenhum dos mortos foi velado pelos parentes e amigos nem teve sepultura
minimante digna. Entre mandacarus e xiquexiques, os gravetos em cruzes e seus
epitáfios sem nada dizer.
Canário
(Bernardino Rocha) foi morto em 06 de setembro de 38, após a Chacina de Angico,
na Fazenda Coruripe, nos arredores da sede de Poço Redondo. O companheiro da
também poço-redondense Adília, foi morto à traição, com um tiro pelas costas,
desferido pelo também cangaceiro Penedinho (que era primo de sua companheira
Adília). Mesmo tendo sido morto tão próximo da sede, jamais teve digno
sepultamento. Sua cabeça foi posteriormente decepada e levada por Zé Rufino
(comandante de volante sediado na baiana Serra Negra), e o restante do corpo
enterrado acerca de cem metros do local da traição.
Rosinha, no
contexto cangaceiro mais conhecida como Rosinha de Mariano, havia nascido na
região poço-redondense da Maranduba, sendo filha da afamada família Soares,
irmã da também cangaceira Adelaide e prima de Áurea de Mané Moreno (o da
Bahia). Após a morte de seu companheiro, Rosinha pediu permissão para se
afastar temporariamente do cangaço. Permissão concedida, mas não retornou no
prazo dado pelo Capitão. Após seu intempestivo retorno, sua sina já estava
traçada: seria morta. A incumbência foi dada aos cangaceiros Zé Sereno, Juriti,
Balão e Vila Nova. Assim, ao lado do Coito da Pia das Panelas, nas beiradas do
Riacho Quatarvo, na região das Areias, em Poço Redondo, a cangaceira tombou sem
vida.
Por sua
vez, Mergulhão (Gumercindo Braz, irmão da cangaceira Sila e também dos
cangaceiros Novo Tempo e Marinheiro, filhos de Paulo Braz São Mateus), Elétrico
(filho de Pedro Miguel), Moeda (João Rosa, da região da Guia), Alecrim (José
Rosa, irmão de Moeda) e Enedina (Enedina do Nascimento, esposa do também
cangaceiro Cajazeira), todos estes foram mortos na Chacina do Angico de 38, nas
beiradas poço-redondenses do São Francisco, na região ribeirinha do Cajueiro. E
todos, tão próximos de suas moradias e de suas famílias, mas tão distantes de
qualquer retorno, tombando sem vida no próprio chão onde um dia nasceram.
Os túmulos destes,
contudo, jamais foram abertos em cemitérios locais. Alguns, como Canário
(enterrado sem a cabeça) e Rosinha, sepultados na solidão do meio das matas
fechadas, espinhentas, assim como foram suas vidas nas desvalias cangaceiras.
Já outros, aqueles do Angico, enterrados ao desvão do tempo, tiveram suas
cabeças cortadas e levadas como provas da derrocada de Lampião. E de um Cangaço
que jamais foi vencido.
Em meio a tantas notícias péssimas, chega alguma coisa mais agradável aos sentidos sertanejos: a verba para dá continuidade às obras do Canal do Sertão, maior obra hídrica de Alagoas. Iniciado no município de Delmiro Gouveia o canal é planejado para percorrer 250 quilômetros, de Delmiro a Arapiraca, isto é, passando pelo Sertão e entrando no Agreste. Foi dividido em oito trechos, dos quais três deles já estão funcionando plenamente, de Delmiro Gouveia a São José da Tapera, trechos I ao IV, com 123 km, sendo beneficiadosalém de Delmiro, Água Branca, Pariconha, Mata Grande, Canapi, Inhapi, Olho d’Água do Casado e Piranhas. Foram registradas mais de 500 captações para atividades pecuárias e comunidades rurais. Essas são informações do Ministério do Desenvolvimento Regional encontradas no site Sertão na Hora.
(CRÉDITO: MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL).
Devido a grande importância da obra, achamos que as informações do andamento dos trabalhos – sonho e luta de mais de 40 anos – precisaria estar sempre na pauta das divulgações. Acontece tanto tempo de silêncio sobre o tema levando tudo para um esquecimento temporário que parece esfumaçado o projeto de redenção. Somente quem vive no semiárido compreende a importância desse trabalho que orgulha a engenharia brasileira. A realidade já apresentada é coisa fantástica com suas pontes, túneis, passarelas e extensão. Caso seja administrado com a competência que exige uma das maiores obras do mundo, o Canal do Sertão irá transformar aquele pedaço de Nordeste sofrido em “Terra de Leite e Mel”.
Alagoas recebeu agora, uma parcela de 36,04 milhões para a continuidade dos trabalhos, diz a divulgação. Passou voando por Santana do Ipanema que não foi contemplada em suas terras com essa extensão do “Velho Chico”. Não houve luta de políticos santanenses para defender sua inclusão na obra. Isso, porém, é passado e o importante é que muitos outros municípios do alto sertão e da Bacia Leiteira foram incluídos. Esperamos que no final dos trabalhos a convivência com as secas ocasionais seja até motivo de orgulho e contentamento da fibra sertaneja, da raiz blindada e persistente por um futuro poderoso.
Gravado aproximadamente no ano 2000, quando dona Antônia contava com 98 anos. Graças ao amigo e pesquisador João de Souza Lima conseguimos esse depoimento. Aqui uma pequena parte desse registro.
Antônia Pereira da Silva foi
casada com o cangaceiro Gato e ambos eram índios descendentes da tribo
dos Pankararés.
Anos após o casamento com Antônia Gato resolveu carregar a índia Inacinha que era prima de
Antônia, e fez a proposta de ficar com as duas, mas Antôni não aceitou e por ele foi espancada violentamente por ter recusado a proposta sem graça do seu marido.
Prejudicada Antônia conta ao chefe maior do cangaço Lampião que diante da sua confissão prometeu falar com Gato. Os dias foram se passando e Lampião não resolveu. Ela não esperou e fugiu do coito à noite enquanto todos dormiam, e foi se refúgiar na casa de um tio patenteado capitão reformado da polícia, que residia na margem do Rio São Francisco no lado baiano, e ficou com ele até o término do cangaço.