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domingo, 2 de maio de 2021

A POLÊMICA MORTE DO “REI DOS CANGACEIROS”

Por Sálvio Siqueira

Há vários fatos, e contrafeitos, referentes a historiografia cangaceira que nos mostram, através de alguns autores, a falta de aprofundamento, pesquisa e análise sobre os mesmo e, infelizmente, vem a tona a desagradável geração, criação e o fantasiamento destes fatos, locais e lugares sobre a história de um povo num passado recente.

Dentre tantos e tantos acontecimentos ocorridos encontramos ‘falhas’ descrevendo-os. Tanto entre aqueles que relatam o que não aconteceu como aqueles que escrevem o que outros não proferiram. Parecendo como querendo o autor, ou orador, puxar para si uma verdade inexistente ou a criação do ocorrido, falando ou colocando no papel o que queria que tivesse acontecido. Quebra-se, com tais infortúnios falados e escritos a História vivida.

Felizmente, para nós que gostamos da verdade histórica, de seus relatos imparciais, ainda existem aqueles que são verdadeiros, sinceros e repassam tudo isso para seu trabalho literário.

Retornando ao fator polêmicas da historiografia cangaceira, eis que surge a maior dentre todas: a morte de Lampião na aurora do dia 28 de julho de 1938.

O pesquisador e escritor Sérgio Dantas, Juiz de Direito, autor de diversos livros como “Lampião Entre a Espada e a Lei”, “Corisco – A Sombra de Lampião”, “Antônio Silvino – O Cangaceiro, O Homem, O Mito”, “Lampião na Paraíba – Notas para a História”, “Lampião e o Rio Grande do Norte – a história da grande jornada”, "Lampião O Processo de Martins", que, infelizmente, confidenciou-me que não mais editará trabalhos literários, livros, sobre determinadas personagens históricas do Fenômeno Social Cangaço, produziu um trabalho sobre esse fato polêmico, a morte de Lampião, vindo, cientificamente esclarecendo alguns tópicos colocados em tese por outros autores.

Sálvio Siqueira

Abaixo, o trabalho original, na íntegra, do grande escritor.

PS// Esse trabalho vale a pena imprimir, encadernar, encapar e, depois de ler, coloca-lo na estante para futuras consultas.

"NOTA EXPLICATIVA" E "TERIA SIDO O SANDES??"

Por Sérgio Dantas

NOTA EXPLICATIVA:

O pequeno texto abaixo discute, brevemente, a morte de Virgulino Ferreira, o ‘Lampião’ e a suposta autoria da fabulosa façanha.

A princípio a questão seria colocada na segunda edição no nosso livro ‘Lampião Entre a Espada e a Lei’. Todavia, diante do crescimento assombroso das mídias sociais - e da queda diretamente proporcional do estudo sistemático através dos livros -, o projeto infelizmente foi abandonado.

O texto que se segue é bem simples. O enxugamos bastante, mas seguimos o rigor científico.

Para que não nos acusem mais tarde de não ‘citar as fontes’ usadas na pesquisa, aqui as aponto exaustivamente – aliás, como sempre fiz. E todas elas declinadas com datas precisas. Sejam notícias; sejam trechos de entrevistas que fiz há anos atrás, quando muitos dos atuais mestres no assunto ainda sequer se debruçavam sobre ele....

Espero que as linhas a seguir sirvam como subsídio para os amigos que ainda pelejam sobre o personagem. Falo o ‘sobre o personagem’ porque o tema ‘cangaço’, em si, não é hoje estudado com a devida profundidade; não é muito levado a sério como deveria. Majoritariamente só se fala sobre Lampião, amiudando o assunto maior que o engloba. Quase nada se fala ou se escreve além do hoje mais explorado símbolo do Nordeste.

E mesmo sobre este cangaceiro, quase sempre só se colocam em relevo os episódios que culminaram com a sua morte na grota do ANGICO em julho de 1938. Toda uma vida de crimes e combates de duas décadas é praticamente deixada de lado. Parece que sequer existiram...

Que coisa danada esse episódio do ANGICO!!! Então, para não sermos diferentes e não fugirmos do palpitante - e repetitivo- tema, vamos debater um pouco mais sobre ele.

Algumas fotografias estão no final do texto.

S.D.

+ + + + + +

TERIA SIDO O SANDES??

Alta madrugada do dia 27 de julho de 1938. A tropa formada por cerca de meia centena de soldados – e comandada pelo tenente João Bezerra da Silva - aproxima-se do coito fincado na hoje bastante celebrada ‘Grota do Angico’.

Vencida a imensa ladeira formada por barrancos e serrotes fincados às margens do rio São Francisco, a aproximação é feita de formaextremamente cautelosa. Qualquer barulho, naquele momento, poderia denunciar definitivamente a presença da tropa e colocar em risco toda a operação.

Ferreira de Melo relembraria:

Andamos de quatro pés, de joelho, rastejamos, e quanto mais nos aproximávamos em meio à escuridão, falávamos aos cochichos, evitando, assim, que algum barulho viesse a denunciar a nossa presença naquelas imediações”.

(Gazeta de Alagoas, 14 de dezembro de 1965.

Elias Marques, um dos soldados da tropa, acrescentaria: “Eu não sei como nós conseguimos chegar até a grota sem que nenhum dos cangaceiros que estavam ali percebesse alguma coisa.

Nós começamos a subir parando a cada passo dado; avançávamos um passo e parávamos um pedaço, para ver se havia algum sinal de movimentação dos cangaceiros ou latido de algum cachorro.

Nada, nada, nada. Era um silêncio e um escuro de dar medo. Já começava a cair uma neblina; uma chuvinha bem fina, que é comum ali naquela época do ano. Se já era ruim a subida, ficou pior, pois não se via quase nada. De repente, o coiteiro que marchava na frente, Durval, deu o sinal que estávamos em cima do coito e aí o tenente mandou fazer alto”. (Entrevista, 20 de abril de 2007)

A volante finalmente chega ao lugar conhecido por Alto das Perdidas, pouco acima do esconderijo de Lampião. Se muito, cem metros de distância. O tenente Bezerra pesa o que pode ser feito naquele momento; qual a estratégia a adotar.

Pedro Rodrigues Rosa (Pedro de Cândido) teria lhe contado que o esconderijo, fincado no leito seco de um riacho, poderia ser cercado com sucesso por três lados: aquele onde acabara de estacionar a tropa, parte do leito pedregoso mais acima e o setor mais abaixo do mesmo riacho. A área imediatamente à sua frente, na margem oposta do leito, onde existe uma furna, não tem como ser atingido e ultrapassado. 

Além de se erguer a prumo, é coberto por touceiras de macambira e densa vegetação de espinhos. Além disso, para alcança-lo, teria que seatravessar – de peito aberto - o acampamento inimigo.

Decidiu-se, sem demora, que a ala

encarregada de tomar o riacho em um ponto mais

abaixo seria comandada pelo aspirante Ferreira de

Melo. Pedro de Cândido, sob a mira das armas do

oficial e de seus soldados, os guiaria por aquele setor.

Disposta assim a primeira coluna,

Bezerra segue, guiado por Durval Rodrigues Rosa, com

o resto do contingente em direção à parte superior do

leito do riacho. Aqui se dividiria a tropa mais uma vez.

Ele próprio consignaria, em letra de forma, o seu

plano:

“Ao chegar a outros cinquenta metros

distante, mandei outro grupo avançar e

atravessar o mesmo riacho em que se achava

Ferreira de Melo e ficar ‘vis a vis’ à segunda

tropa já em posição. Eu tomaria o riacho,

ficando assim o grupo de Lampião em um

cerrado cruzamento de fogos”. (Silva,

1940:88).

O soldado Euclides Marques da Silva, o

‘Antônio Jacó’, contou a Antônio Amaury que, com

mais esta divisão, o cabo Juvêncio teria ficado com

cinco homens, o sargento Aniceto com mais cinco e o

restante ficaria sob as ordens de Bezerra. (Araújo,

2013:247)

O cerco aos poucos se fecha. Agora é

apenas questão de espera e paciência. A vida de

Lampião, naquele momento, está por um fio.

A barra do dia lança uma luz tênue

sobre o acampamento dos cangaceiros. Os soldados

começam a enxergar, ainda com alguma dificuldade, o

que lhe parece ser um grupo de ‘toldas’ feitas com

pano de chita. Estão espalhadas por quase toda a área

da grota, lado e outro do riacho, a formar uma

estranha cidadela de tecido ordinário. Também ouvem

o murmurar de vozes. Já havia cangaceiros acordados.

Uma ou outra silhueta humana pode ser percebida

com algum esforço.

O sargento Aniceto Rodrigues

recordaria, posteriormente, a orientação recebida pelo

tenente Bezerra antes de dispor as tropas:

“O nosso guia, o coiteiro Pedro de Cândido,

fixa o local do acampamento de Lampião.

Nossa tropa distingue já alguns dos

cangaceiros, que conversam. O tenente

Bezerra dá ordens. A tropa toma posição”. (O

Povo, 15 de agosto de 1938)

Enquanto isso, mais abaixo, Ferreira e

seus homens progridem pelo leito do riacho. Se

deslocam lentamente, de pedra em pedra, para não

serem percebidos. Os militares que evoluem mais à

frente da coluna também já começam a ver –

igualmente com dificuldade - o mesmo agrupamento de

barracas.

O próprio Ferreira assinalaria:

“Às 4 horas da manhã cercávamos o coito

com cuidado, dando ordem para avançar no

momento aprazado”. (Gazeta de Alagoas, 14

de dezembro de 1965)

Ferreira e seus homens aguardam,

portanto, apenas a ordem de Bezerra para invadir o

coito. Bezerra é o comandante e somente ele pode –

como fora combinado pouco antes – determinar o

ataque.

Enquanto isso, ali bem perto da tropa do

aspirante – até então mais avançada de todas -, um

cangaceiro com cantis nas mãos desce o riacho em

direção a um poço formado no meio das pedras. Sem

perceber, marcha ao encontro do pequeno troço

comandado pelo aspirante Ferreira. Sequer dá conta de

que, naquele instante, está na mira do fuzil do soldado

Abdon Cosmo, um dos membros da vanguarda.

O soldado Antônio Vieira, membro

daquela coluna, nos recordaria:

“Tinha uns companheiros mais adiantados,

em número de quatro ou cinco, eram quatro,

como vanguarda da tropa comandada pelo

aspirante Francisco Ferreira: companheiros

Antônio Ferro, Honorato, Zé Panta e Abdom.

Aí vimos o cangaceiro que vinha em nossa

direção. Olhamos para o aspirante, que

estava mais atrás de nós, e ele fez um sinal

com a mão, como dizendo para aguardar, e

não atirar naquela hora. (Entrevista, 04 de

abril de 2005).

Antônio Vieira, em outro ponto da

entrevista a nós concedida, seria taxativo:

“Fomos avançando devagar, e aí Abdom,

esse companheiro nosso, fez sinal mais uma

vez apontando com um dedo que tava vendo

um dos cangaceiros que vinha para onde nós

estávamos. O aspirante tava perto; assim

bem dizer do meu lado e sinalizou de volta,

como insistisse que não atirasse ainda.

(Entrevista).

O próprio Abdom relataria a Antônio

Amaury Corrêa de Araújo:

“Eu mais os meus companheiros estávamos

de joelho no chão e eu vim trazendo o

cangaceiro, que tava um pouco longe, na

mira do fuzil. O comandante, Chico Ferreira,

deu um sinal com a mão que eu não

atirasse”. (Araújo, 2013:237).

Abdom a princípio atende ao comando.

Continua, porém, com o cabra na mira. A distância

entre os dois, naquele instante, talvez não chegue a

cinco metros. O cangaceiro – apelidado de Amoroso -

se baixa para pegar água e ao se levantar, vê-se

praticamente de cara com o antagonista.

No mesmo instante Abdom atira. E atira

sem a autorização do aspirante. Precipita-se. É

possível que algum gesto feito pelo bandoleiro o tenha

assustado. Possivelmente teria disparado a arma até

mesmo por reflexo.

O tenente João Bezerra, quando ainda

organizava o cerco, minutos antes, havia ordenado a

todos que aguardassem a sua ordem para dar início ao

combate. Teria advertido, repetidamente, que ninguém

deveria atirar antes do seu sinal. Ainda não havia

tomado posição quando Abdom disparara o seu fuzil. A

Antônio Amaury, em entrevista realizada na cidade de

Garanhuns em 1969, relembraria Bezerra:

“Eu vou entrando aqui prá dentro. Digo:

vamos entrar aqui, eu ouvi o tiro lá: touuu!

Menino, foi um estrondo! Eita, que peste foi

aquilo? Que eu disse que não atirasse.

Quando eu me meti assim, aí abriu-se as

portas do inferno.. Faça de conta...ora, você

faça juízo: cem fuzis detonar a um tempo só!”

(Bezerra, Entrevista a Antônio Amaury, 1969,

cópia – gentileza Antônio Amaury C. Araújo).

O fato é que o soldado Abdom, mesmo

que inadvertidamente, teria contrariado a expressa

ordem do comandante da tropa. A ansiedade do

momento, além do próprio temor em ser descoberto

pelo cangaceiro, poderiam justificar o disparo

extemporâneo que quase poria a perder a operação.

O aspirante Ferreira de Melo

confirmaria, anos mais tarde, a versão apresentada a

Antônio Amaury por Bezerra:

“Ficou convencionado que o tenente Bezerra,

tão logo se aproximasse do esconderijo, daria

o primeiro tiro, no que seria seguido por todos

nós. Ocorreu, no entanto, que a minha tropa

tanto se aproximou dos miseráveis, ao ponto

de vermos, a poucos metros da nossa frente,

um cangaceiro de cócoras, apanhando água,

com uma cabaça ou cantil”. (Ferreira de Melo,

entrevista, Gazeta de Alagoas, 14 de

dezembro de 1965)

Importante é anotar que, naquele

momento, o dia ainda não tinha clareado totalmente. O

coito ainda estaria envolvido numa leve penumbra.

Para ver o cangaceiro assim tão próximo, Ferreira teria

que estar necessariamente no leito do riacho, junto a

um poço formado pela água das chuvas onde o

primeiro fora buscar água. De lá até a grota se teria

algo em torno de 70 metros. Não estaria Ferreira,

portanto, acima da furna – como se tem escrito

recentemente -, e sim bem abaixo do coito, junto ao

que se convencionou chamar ‘Poço do Tamanduá’. Foi

neste local que o cangaceiro ‘Amoroso’ teria ido pegar

água.

O tiro de Abdom faz eco nas paredes do

riacho:

‘Abriram-se as portas do inferno’ – como

diria João Bezerra anos mais tarde.

Ferreira de Melo também deixaria as

suas impressões sobre o início do fogo:

“Iniciada a batalha, confesso que nunca vi

quadro tão horroroso, principalmente em

virtude dos gritos horripilantes que os

cangaceiros davam. Eram gritos horríveis,

que assustariam a qualquer cristão, mesmo

preparado para o difícil momento”. (Ferreira

de Melo, Gazeta, idem).

O disparo feito pelo soldado dera início a

uma pesada carga de tiros. Agora, fuzis e

metralhadoras cospem fogo para todos os lados. A

fumaça dos disparos se mistura rapidamente à neblina

da manhã.

Conta-se que, logo aos primeiros tiros,

Lampião teria tombado. Não caíra, porém, sem ensaiar

alguma luta. Segundo Antônio Amaury, o cangaceiro

Vila Nova teria dito a Dadá, a mulher de Corisco - nos

dias imediatamente seguintes ao tiroteio -, que seria “o

único do grupo a estar totalmente equipado e, pelo fato

de estar bastante próximo a Lampião, ouviu o chefe

determinar alto, logo aos primeiros tiros – Oh meninos,

desce uns de vocês pro riacho!”. (Araújo, 2013:57).

O cangaceiro José Ribeiro, o Zé Sereno,

também não estava distante de Lampião naquela

madrugada. Deporia, mais tarde - em perfeita

consonância com o que narrou Vila Nova a Dadá –que

ouvira, efetivamente, o chefe gritar aos comandados:

“Vamos brigar, respondeu e alto para os

outros cabras: oh, meninos, descem aí uns de

vocês pro riacho!”. (Araújo, 1987:107).

Não é outro o depoimento de Manoel

Loyola, o Candeeiro. Em entrevista a nós concedida em

31 de julho de 2006, o antigo cangaceiro fora bastante

claro quanto aos primeiros momentos do entrave.

Assim nos contou:

“Quando o primeiro tiro foi disparado lá

embaixo, dentro do riacho, Lampião ainda

gritou ordem para os que estavam ali mais

perto dele...Quinta-feira, Vila Nova,

Pitombeira; os meninos que tavam ali de-

junto. Corre prá ali, atira ali lá baixo. E o

tiroteio cerrado; um escuro medonho lá pra

baixo, ninguém via quase nada; só se via

bem o clarão do fogo dos tiros”.

Lampião cai. Seu corpo está atravessado

por duas balas de fuzil. (2)

A autoria do chamado ‘tiro fatal’, porém,

permanece até hoje incerta. Antônio Honorato, o

‘soldado Noratinho’, reivindicou, em diversas

oportunidades, a responsabilidade pelo feito. Ninguém

o contrariou. Os militares, em sua totalidade, não se

opuseram à informação dada pelo colega de farda.

Bertoldo também assumiu, durante uma

entrevista, a autoria do disparo (Diário de Pernambuco,

2 de agosto de 1938).

Através de recente teoria, Frederico

Pernambucano sustenta que o soldado Sebastião

Vieira Sandes, o ‘Santo’, seria o responsável pelo tiro

que tirou a vida de Lampião. Em proveito da sua tese,

explica que o militar teria sido deslocado para o alto da

gruta, amarrado ao corpo do coiteiro Pedro de Cândido.

Acompanhava-os – segundo o historiador – o próprio

aspirante Ferreira de Melo.

Algumas observações devem ser feitas

aqui.

Ora, como poderia ter o soldado Sandes

matado Lampião no primeiro tiro - como quer

Pernambucano -, se vários cangaceiros depuseram, em

várias ocasiões, que o chefe ainda teve tempo de ‘dar

ordens’ ??

Curioso! – se dirá, ao mínimo.

Os cangaceiros Vila Nova e Zé Sereno,

bastante próximos do chefe, foram bem claros em

afirmar que Lampião já estava acordado e gritara

ordens aos comandados logo após o primeiro disparo.

Além desses dois, o cabra conhecido por

‘Pitombeira’ teria afirmado ao estudioso Alcino Costa,

anos atrás:

“Quando menos esperamos, o mundo caiu em

cima de nós. Uns ainda dormiam e outros já

estavam acordados. Eu tava bem ao lado da

barraca de Lampião (...) O capitão brigou.

Essa conversa dele não ter brigado é pura

mentira”. (Costa, 2011:395, com grifos

nossos)

Pelo que se vê, são vários depoimentos –

colhidos desde a data do evento até hoje - a contradizer

amplamente o que teria contado o soldado Sandes a

Frederico Pernambucano.

Assim, se foram vociferadas ordens de

comando por parte do chefe, evidente que não morrera

após serem deflagrados os primeiros tiros. A teoria

baseada no único e exclusivo depoimento do soldado

Sandes não se sustenta. Carece de melhores

fundamentos.

De fato, uma única fonte - a contrariar

inúmeras outras em contrário -, por razões óbvias, não

deve ser levada em consideração.

Por outro lado, quem estava no

acampamento naquele amanhecer foi unânime em

afirmar que, no início do combate, os tiros vieram do

leito do riacho, e não da parte de cima da gruta, como

o culto historiador tem tentado defender. O cangaceiro

Santa Cruz, por exemplo, não deixaria dúvidas em

relação a este aspecto em particular:

“A força atacou por baixo, pelo lado do

riacho, por isso nada vimos. Quando ouvi os

primeiros tiros, vi quando Lampião caiu por

terra. Maria Bonita botou as mãos na cabeça.

Aí então eu corri e me enfiei dentro do mato.

Só ouvia era balas zunir por cima da minha

cabeça”. (Jornal de Alagoas, 8 de novembro

de 1938, com grifos nossos)

A área onde se deseja colocar Sandes

amarrado ao corpo de Pedro (acima da gruta) era, na

época, coberta por densa mataria. Não teria como

alguém acessá-la sem fazer barulho – notadamente se

se tem alguém amarrado ao próprio corpo, a dificultar

o deslocamento. Qualquer pisada em um galho seco

poria toda a operação a perder.

A fotografia publicada na revista A

NOITE ILUSTRADA, de 9 de agosto de 1938, abaixo

reproduzida, bem nos dá uma ideia de como seria a

área naquele período. Impossível rompê-la sem usar

um facão! (e, portanto, insistimos, sem gerar ruído que

inutilizaria a delicada operação policial).

Descartada, portanto, a possibilidade de

alguns soldados ali estarem posicionados, em função

da espessa e espinhosa vegetação, vai-se ao nó górdio

do problema:

Quem teria sido, efetivamente, o autor

do disparo fatal? Quem deu o tiro que fulminou o rei

do cangaço?

A pergunta, salvo o aparecimento

posterior de alguma fonte histórica sólida e irrefutável,

permanecerá sem resposta. Não se há como – com base

no que se tem disponível até hoje – apontar autoria.

Em Salvador, no início de outubro de

1938, o já capitão João Bezerra dera entrevistas para

vários jornais. Em certo ponto de suas considerações

sobre a matança de Angico, teria declarado - a não

deixar margem a dúvidas – que seria impossível

atribuir esse ou aquele como autor do disparo fatal,

“visto que Lampião foi alvejado por vários tiros”. (Correio

Paulistano, 4 de outubro de 1938).

Frederico Pernambucano, porém, insiste

que Ferreira de Melo estaria com Sandes no instante

do tiro fatal. Ambos teriam se posicionado, junto com o

coiteiro, exatamente em cima da gruta próxima à

barraca do chefe de cangaço.

Todavia, a fala do próprio Ferreira

contraria a instigante tese. Em entrevista, faria coro às

declarações de Bezerra:

“Lampião já estava de pé e recebeu apenas

uma bala, conforme eu já disse, cuja bala

ninguém pode afirmar com segurança de que

arma partiu. Na época, foi muito comentado

que o projétil que atingiu ao companheiro de

Maria Bonita, teria partido da arma

empunhada pelo cabo Honorato, conhecido

por Honoratinho. Todavia, ninguém poderia

precisar, em meio ao fumaceiro, às

apreensões e à balburdia do momento, que

esse ou aquele policial tivesse atingido ao

nosso terrível adversário. (Gazeta de

Alagoas, 14 de dezembro de 1965, com grifos

nossos)

Ainda na década de sessenta, ao ser

entrevistado pelo professor Estácio de Lima, Ferreira

voltaria a ser taxativo. Sobre a autoria do disparo que

teria tirado a vida do célebre bandoleiro, disse:

“Resposta impossível. Mais provável, a

minha força, por haver sido a primeira que

atirou. Também o nosso tenente poderia tê-lo

abatido, ou o próprio pessoal do sargento

Aniceto. De qualquer forma, LAMPIÃO foi

liquidado pela tropa sob o comando geral de

BEZERRA”. (1965:286, com grifos nossos).

Vê-se que, nem de relance, o oficial toca

no nome de Sebastião Vieira Sandes.

Teria Ferreira de Melo simplesmente ‘se

esquecido’ do importante acontecimento? Teria

passado despercebido por ele e pelos demais

integrantes da tropa um detalhe tão relevante?

A afirmação ‘mais provável a minha

força’, referida no depoimento citado há pouco, nos dá

certeza de que nem ele próprio tinha conhecimento de

quem teria sido o autor do disparo.

Assim sendo, não tem sentido sustentar

a versão de que teria ele, pouco antes do início do

tiroteio, deslocado alguém (no caso, o soldado Sandes)

com a missão específica de atirar em Lampião. E se

assim tivesse sido, claro, não teria se esquecido

completamente do relevante detalhe e certamente não

o omitiria nas diversas entrevistas que deu. Afinal não

se tratava de algo de somenos importância. Era algo

grande demais para ser olvidado.

Há alguma lacuna, portanto, que não se

fecha neste particular. Assim, de se perguntar porque

o soldado Sandes não reivindicou antes – mesmo a

desconsiderar todas as provas em contrário – a sua

própria façanha? Porque ficou calado diante das

sucessivas entrevistas dadas pelo soldado Honorato e

pelo cabo Bertoldo? Porque silenciou por décadas a fio?

Importante notar que, durante a

entrevista do soldado Honorato para o jornal A NOITE,

na presença de muitos colegas de farda – dentre eles o

próprio Sandes -, não houve qualquer refutação à

suposta autoria do disparo fatal. Os soldados que ali

estavam permaneceram calados, como a confirmar a

legitimidade da história. DATA

O soturno Vieira Sandes teria preferido

ficar calado e se privar de contar ao mundo tão

relevante glória?

Parece-nos entranho. Não seria provável

alguém abrir mão do ‘prestígio’ de ser o matador

daquele que por duas décadas assombrou o sertão

nordestino – e mesmo o país – com seus incontáveis

crimes.

Deve ser considerado o fato de que o

próprio Sandes, anos mais tarde, enfurecido com a

insistência da imprensa para que falasse sobre a morte

de Lampião, sempre evitou tocar em assunto tão

delicado. Não se dirigia a jornalistas.

Assim foi colocado pelo jornal Folha de

São Paulo, após uma das tentativas frustradas de

entrevista-lo:

“Santo era o único que conhecia Lampião

pessoalmente, porque, antes de ser da

volante (polícia), tinha servido ao bando do

cangaceiro - foi obrigado a trocar de lado pela

polícia, mas ainda respeitava o ex-patrão.

Santo, que mora em Maceió, recusa-se a dar

entrevistas. Segundo sua família, sempre

chama de "cabra da peste mentiroso" quem

afirma que esteve envolvido na morte de

Lampião”. (Folha de São Paulo, 13 de

novembro de 1996, com grifos nossos) (3)

Resta-nos hoje, portanto, apenas uma

inquietante pergunta: Porque o soldado Sandes - que

sempre adjetivava como “mentiroso” quem o

relacionasse com a morte de Lampião -, mudou tão

repentina e radicalmente de opinião, a ponto de

assumir a autoria do assassinato do cangaceiro? Qual

a razão de apresentar uma história para a família e

amigos e outra, bem diferente, para o festejado

pesquisador pernambucano?

Hoje é difícil saber onde está a verdade

neste aspecto. Afinal, mortos não voltam para dirimir

dúvidas....

E o mistério, assim o cremos,

permanecerá para a eternidade. E será uma porta

sempre aberta às especulações de todo matiz. Afinal,

esse compartimento histórico tem-se tornado a cada

dia mais vasto.

Fica aqui, porém, a intricada questão

como um desafio aos que hoje ainda se debruçam

sobre o tema (e que ainda gostam de fazê-lo).

Eu, infelizmente, estou velho. E

cansado. Ânimo me falta para concorrer com a

modernidade do conhecimento não muito profundo

disseminado pelas redes sociais. Sou antigo; sou da

época dos livros e da pesquisa comprometida.

De todo modo, a minha contribuição

literária e histórica já foi dada tempos atrás. Hoje não

há mais interesse em novas produções.

Saudações,

Sérgio Augusto S. Dantas

Autor dos livros: Lampião e o Rio

Grande do Norte (2005), Antônio Silvino – O

Cangaceiro, o Homem, o Mito (2006), Lampião Entre a

Espada e a Lei (2008), Corisco: A Sombra de Lampião

(2014), Lampião e a Paraíba – Notas para a História

(2018) e Lampião: o Processo de Martins (2020).

REFERÊNCIAS E NOTAS

(1) Não há dúvida que o primeiro tiro daquela

madrugada de 28 de julho de 1938 foi disparado pelo

soldado Abdom Cosme de Andrade. Não houve um tiro

anterior a este. Assim noticiou A Noite, edição de 1 de

agosto de 1938: “O combate da fazenda Angicos, em

Sergipe, entre as forças volantes alagoanas e o bando

de Lampião foi iniciado pelo soldado Abdon Carmo (sic)

de Andrade, que foi o primeiro a romper fogo contra o

covil dos cangaceiros”.

(2) Há controvérsia sobre o local exato dos ferimentos

que vitimaram Lampião. Os depoimentos orais são um

tanto díspares. Todavia, o que parece mais provável é

que um dos tiros lhe atingiu a região abdominal, e um

outro, a região torácica. Durval Rodrigues Rosa, no

entanto, sustentava que um dos tiros recebidos pelo

cangaceiro teria sido na altura do pescoço. Neste caso,

torna-se difícil autenticá-lo, já que a sua cabeça teria

sido cortada bem na base. Além disso, seus restos não

foram periciados na época. N do A.

(3) Sobre as declarações de Sandes, ver Folha de São

Paulo de 13/11/1996 em

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/11/13/bra

sil/24.html.

BIBLIOGRAFIA REFERIDA:

ARAÚJO, Antônio Amaury Correia de. ASSIM MORREU

LAMPIÃO. 4ª edição. Editora Traço, São Paulo/SP,

2013.

__________________________________ GENTE DE

LAMPIÃO: SILA E ZÉ SERENO. Editora Traço, São

Paulo/SP, 1987.

COSTA, Alcino Alves. LAMPIÃO ALÉM DA VERSÃO:

MENTIRAS E MISTÉRIOS DE ANGICO. 3 EDIÇÃO.

Gráfica Real, Cajazeiras/PB, 2011.

LIMA, Estácio de. O MUNDO ESTRANHO DOS

CANGACEIROS. Editora Itapuan, Salvador, 1965.

MELLO, Frederico Pernambucano de. APAGANDO O

LAMPIÃO. VIDA E MORTE DO REI DO CANGAÇO.

Global, São Paulo/SP, 2018.

ROCHA, Melquiades. BANDOLEIROS DAS

CAATINGAS. 2ª edição. Editora Francisco Alves, Rio

de Janeiro/RJ, 1988.

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" LAMPIÃO, NA FAZENDA PIÇARRA "

Por Luís Bento

Lampião, sempre ouvia falar pôr internedio dos tios que lá moravam, boas informações sobre seu Tonho da Piçarra, " que era um bom patrão e um bom companheiro ". Lampião tem a iniciativa de enviar uma carta dizendo que o admira e que gostaria de conhecê-lo. Seu Tonho deu a resposta, que o receberia de bom grado na sua fazenda Piçarra. Isso era janeiro de 1926. 

Dois meses depois, em março do mesmo ano, chega Lampião com uma tropa de mais de cem Cangaceiros em sua fazenda. Foi a maior festa, seu Tonho matou um boi grande, carneiros, porcos, perus, mandou cozinhar sacos de arroz e feijão ( lavra da própria fazenda ) e foi animação durante todo dia para celebrar está nova amizade, tudo sobre o som de uma sanfona de oito baixo.

Seu Antonio da Piçarra

Naquela época era costume de todo Nordestino que trabalhava na roça fumar cigarro, o usado era de marca " Caxias ", cigarro do bico fechado que tinha bem menos nicotina que os da época. Já fazia alguns anos que seu Tonho tinha deixado de fumar, Lampião oferece um maço de presente e pede:

" Eu peço a você só esse pedido, fume esse cigarro para você sempre lembra de mim, e também vou deixar este rifle papo amarelo para fechar nossa amizade " - convence Lampião.

Diante deste fato e desta visita, seu Tonho fica sendo mal visto pela polícia e pelo Governo do Estado.

Fonte: Antônio Euzébio Teixeira Rocha

Saga de Antônio da Piçarra - De Padre Cícero a Lampião. Pág 111.

FOTOS:

Lampião, Antônio da Piçarra e fazenda Piçarra.

LUÍS BENTO

JATI 02/05/21.

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MATÉRIAS » CURIOSIDADES - O MISTÉRIO DO NEVOEIRO DE LONDRES, DESVENDADO MAIS DE 60 ANOS DEPOIS

 Por Giovana de Matteo

Cena do filme O Nevoeiro (2007) - Divulgação/Metro-Goldwyn-Mayer

Em 1952, a cidade inglesa foi tomada por uma neblina escura e tóxica que levou a morte quase 12 mil pessoas

Era 5 de dezembro de 1952 e Londres já se preparava para o final de ano em clima de natal, contudo, um grande nevoeiro que cobriu toda a cidade surpreendeu os londrinos naquele dia. Ninguém sabia a causa daquele evento, no entanto, 60 anos depois, uma equipe de químicos de todo o mundo revelou que aquela névoa era letal, e começou devido um desastre de poluição que ficou marcado na história britânica.

De início, os cidadãos acreditaram que a névoa seria como as outras tantas que comumente fazem parte do cotidiano britânico. Porém, ao anoitecer, o ambiente começou a ficar estranho. O céu ficou amarelado e a cidade toda foi tomada por um cheiro de 'ovo podre'.

Para a preocupação de todos, esse clima não foi embora. No dia seguinte, o céu amanheceu com uma cor esverdeada. O fedor de lixo tomava conta da cidade. O tempo foi passando e a névoa densa só piorava: a visibilidade estava cada vez mais difícil e respirar aquele ar podre se tornou torturante. A situação era essa por longos cinco dias, até que em 9 de dezembro aquele terror acabou.

Homem usa uma tocha para guiar um ônibus durante o Grande Nevoeiro de 1952 / Monty Fresco/ Getty Images

No final, 150 mil pessoas foram hospitalizadas. Além disso, estima-se que cerca de 12 mil pessoas, incluindo homens, mulheres e crianças, vieram à falecer durante o período do nevoeiro que os expôs ao ar extremamente poluído.

Esse evento catastrófico ficou conhecido como 'O Grande Nevoeiro de Londres'. Na época ele foi atribuído ao carvão, porém por décadas os detalhes que levaram a ocorrência dessa névoa tóxica permaneceram indefinidos.

Essa fumaça surgia da queima de carvão para o aquecimento doméstico, e por isso a neblina era vista como um fenômeno de inverno. A eletricidade, também no pico do consumo, com as pessoas enfurnadas em casa, vinha de termoelétricas movidas a carvão nas imediações da cidade.

No entanto, em 2016 uma equipe liderada por Renyi Zhang, da Universidade Texas A&M, retomou os estudos sobre o fenômeno, que esclarece os fatores que levaram ao Grande Nevoeiro, além da análise de outros acidentes de poluição atmosférica.

O que causou esse horror?

O clima durante o Grande Nevoeiro de 1952 / Crédito: Wikimedia Commons

O estudo foi publicado na Proceedings of the National Academies of Sciences e foi feito através de medições atmosféricas em duas cidades propensas à poluição (Xian e Pequim, ambas localizadas na China), e alguns experimentos laboratoriais.

Os cientistas revelaram que uma das características do Grande Nevoeiro foi à presença de partículas de ácido sulfúrico (sulfato) no ar, que causaram o tom amarelado e esverdeado no céu e também o odor fétido. A inalação dessa substância também foi uma das principais causas de hospitalização das pessoas.

Zhang e sua equipe atestaram que o sulfato pode se acumular dentro das gotículas de água nas neblinas por causa de interações químicas entre o dióxido de enxofre e o dióxido de nitrogênio. Esses elementos, por sua vez, são liberados em razão da queima de carvão, ou pelos escapamentos de automóveis.

“As pessoas já sabiam que o sulfato era um grande contribuinte ao nevoeiro, e que as partículas de ácido sulfúrico eram formadas pelo dióxido de enxofre liberado pela queima do carvão”, explicou Zhang. “Nossos resultados mostraram que esse processo era facilitado pelo dióxido de nitrogênio, outro coproduto da queima do carvão, e ocorreu inicialmente no nevoeiro.”

O episódio foi representado em The Crown /Crédito - Divulgação/Netflix

Já o sulfato promove a formação de outras partículas, incluindo nitrato e matéria orgânica, o que faz com que uma forte neblina se forme. Desse modo, quando a água da neblina desaparece, ocorre uma concentração do ácido que libera partículas corrosivas que se penetram em quaisquer superfícies que entrem em contato, podendo se alojarem em prédios, cimentos, estradas, e até pulmões de humanos e animais.

Portanto, essa combinação de reações químicas, e um clima desfavorável, teria levado à formação do Grande Nevoeiro de Londres. Além disso, a equipe de cientistas avaliou que as condições por trás desse episódio podem ocorrer em outros lugares do mundo.

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MATÉRIAS » BRASIL - MILAGRE DA HÓSTIA DE JUAZEIRO: A GRANDE POLÊMICA DO PADRE CÍCERO

 Por Caio Tortamano

Padre Cícero ao lado da beata Maria de Araújo - Divulgação/ Arquivo de Renato Casimiro

O NOTÓRIO CASO QUE CONSAGROU O PÁROCO REGIONALMENTE ENVOLVEU CONFLITOS DE INTERESSE ATÉ UMA VIAGEM PARA O VATICANO NO FIM DO SÉCULO 19

Casos milagrosos demandam grande investigação da Igreja Católica para que sejam efetivados como tais, mas antes disso, esses casos aparentemente sem explicação chamam atenção das comunidades locais e geram grande comoção popular. Foi isso que aconteceu em Juazeiro do Norte, no Ceará, no ano de 1889.

O caso envolveu o famigerado Padre Cícero, que teria administrado diversas hóstias para a Beata Maria de Araújo. Esses alimentos ritualísticos teriam se transformado em sangue na boca da própria religiosa, que a limpou em panos brancos, que teriam manchado.

Cícero julgou ser o próprio sangue de Jesus Cristo aquele que teria surgido. O estranho fenômeno não teria acontecido uma, mas 47 vezes durante a quaresma — período religioso que precede o feriado da Páscoa.

Repercussão

Um evento único como esse chamou a atenção de fiéis e céticos por todo o Brasil, tornando Juazeiro em um importante ponto de peregrinação de católicos no nordeste do país. Entretanto, não foram todos os cristãos que acreditaram na improvável história, muitas autoridades eclesiásticas questionavam a veracidade dos fatos.

Imagem de Padre Cícero / Crédito: Divulgação

Isso levou o bispo do Ceará na época, Dom Joaquim José Vieira, a organizar uma equipe de técnicos para conferir se os relatos eram verdadeiros. Além de padres foram chamados dois médicos e um farmacêutico, todos chegaram na mesma conclusão: não tinha nenhuma explicação natural para aquilo que tinha acontecido.

Reviravolta

Insatisfeito, Dom Joaquim estava disposto a mostrar a todo custo que o caso não passava de uma armação feita pelo Padre Cícero para ganhar notoriedade — nessa altura o religioso já era popular em sua região. Com isso, articulou uma segunda comissão que estaria já com a intenção de desmistificar o ocorrido em Juazeiro do Norte.

Convictos de que era uma mentira, o parecer não poderia ser diferente e o caso foi classificado como uma armação forjada. A suposta farsa acarretou na suspensão das ordens sacerdotais de Cícero, além de levar Maria de Araújo para uma vida de exílio.

Beata Maria de Araújo viveu até o fim de sua vida enclausurada / Crédito: Divulgação - Município de Juazeiro

 

Beata Maria de Araújo viveu até o fim de sua vida enclausurada / Crédito: Divulgação - Município de Juazeiro 

Idolatria e legado

Porém, o que o bispo não contava é que a negação só teria transformado a história em uma lenda mais popular ainda, motivando multidões a frequentarem a igreja do Padre, venerando as toalhas manchadas de sangue — que agora eram relíquias.

Em 1898, Cícero foi até o Vaticano atrás de uma absolvição com o Papa Leão XIII, a qual não conseguiu — mesmo o cearense nunca tendo sido excomungado de fato pela Igreja. Em 2001 o papa Bento XVI, ainda enquanto cardeal, promoveu novos estudos sobre o caso buscando a reabilitação póstuma para o brasileiro. Catorze anos depois, Padre Cícero foi perdoado pela Igreja e até hoje é um dos maiores nomes da fé católica no Brasil.

Devido às milhares de graças que os seguidores do padre dizem ter alcançado por intercessão dele: cegos que teriam voltado a ver, aleijados que andaram novamente, loucos que teriam recuperado o juízo, a abertura de um processo de beatificação foi inciado no Vaticano, podendo evoluir para uma santificação.

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QUESTÕES ECLESIÁSTICAS O MILAGRE DE JUAZEIRO VOLTA A ROMA

 Por Lira Neto

Naquela noite escura e sem lua, Cícero Romão Batista levantou as mãos para os Céus e pediu perdão pelos pecados do mundo. Quem olhasse de fora em direção às janelas abertas da capela de Nossa Senhora das Dores avistaria, já de longe, o lampejo das centenas de velas acesas cortando o breu. O forte cheiro de cera derretida e o adiantado da hora indicavam que os membros da irmandade de beatos, cerca de vinte deles, haviam passado mais uma madrugada inteira em vigília, em louvor ao Sagrado Coração de Jesus.

Meia hora antes do amanhecer, quando os galos se preparavam para anunciar outra manhã de sol no sertão, Cícero decidiu que as sete ou oito mulheres ali presentes mereciam receber a comunhão antes dos homens, para retornarem às respectivas casas. Elas precisavam descansar o corpo fatigado da prolongada sentinela. Com véus escuros sobre a cabeça e alvos rosários entrelaçados nas mãos magras e morenas, as beatas atenderam ao chamado e se aproximaram em fila indiana, uma a uma.

Foto: arquivo de Renato Casimiro/Daniel walker 1889: 

A HÓSTIA VIRA SANGUE

À frente delas, ia Maria de Araújo. Com os olhos fechados, foi a primeira a se postar diante do padre e entreabrir a boca, contrita. Quando a hóstia lhe tocou a língua, a beata abriu e revirou os olhos espantados. Parecia ter entrado num estranho transe. Foi então que se deu o fenômeno: segundo chegariam a jurar sobre a Bíblia as testemunhas ali presentes, a hóstia na boca de Maria de Araújo mudou de forma e de cor. Transformou-se em sangue vivo.

O sangue desceu dos lábios da mulher e, como ela tentasse contê-lo, este lhe banhou o dorso da mão esquerda. Depois, escorreu ao longo do braço, até cair ao chão da capela, que ficou respingado de vermelho. Com ar aflito, a beata mirava e mostrava ao padre uma toalhinha branca dobrada nas mãos, tingida pelas manchas rubras que haviam transbordado da boca e que ela depois procurara enxugar. Foi um alvoroço. Quando os primeiros raios de sol aqueceram a alvenaria da fachada principal do templo, a notícia já corria pelo povoado cearense: na branca capela de Nossa Senhora das Dores, entre os lábios da beata Maria de Araújo, a hóstia consagrada pelo padre Cícero havia se materializado na carne e no sangue divino de Jesus. Sangue que, a exemplo do que ocorrera dois milênios antes e no alto da cruz, estaria sendo derramado para lavar os pecados e as dores dos homens.

Foi no dia 1º de março de 1889, uma sexta-feira, véspera da Quaresma. Como a desafiar a incredulidade dos mais céticos, o episódio se repetiria por meses a fio, sempre às quartas e sextas-feiras. No Sábado de Aleluia, o sangue teria jorrado de novo da boca da beata Maria de Araújo. Numa das ocasiões, de tão abundante, chegara a atingir e embeber o corporal – o tecido branco e quadrangular sobre o qual se colocam o cálice com o vinho – e a patena, o pratinho de metal com as hóstias. Seria impossível, diante de tão insistentes e misteriosas manifestações, conter o êxtase coletivo. De imediato, uma palavra passou a ser voz corrente na região: milagre. Juazeiro do Norte transformara-se em chão sagrado.

Moradores das cidades e localidades mais próximas chegavam ao minúsculo povoado, atraídos pelas narrativas que davam conta do sangue de Jesus derramado em pleno agreste. Mas foi em 7 de julho, um domingo que marcava o ápice da festa cristã do Precioso Sangue, que Juazeiro assistiu pela primeira vez à chegada maciça e ordenada de milhares de peregrinos. Foi a primeira de todas as romarias. Naquela manhã, cerca de 3 mil pessoas – quase dez vezes a população do lugarejo – apinharam-se nas estreitas ruelas do local. A maioria era proveniente do Crato e vinha sob as bênçãos expressas do novo reitor do seminário, monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro. Conhecido pela oratória inflamada, monsenhor Monteiro conduziu uma procissão até a capela de Nossa Senhora das Dores, naquele dia adornada com velas, flores e fitas coloridas. Ao término da missa, com sua autoridade clerical e o estilo ardoroso de sempre, Monteiro fez um sermão histórico, durante o qual exibiu, com gestos arrebatados, uma toalha manchada de sangue. Segundo ele, não havia dúvidas de que aquele era o verdadeiro sangue de Jesus Cristo.

As palavras do reitor do seminário do Crato contagiaram o mundaréu de gente. A comoção se propagou como descarga elétrica no meio da multidão. Centenas de pessoas se prostraram de joelhos, em choro compulsivo, diante da visão do tecido ensanguentado. Levas de peregrinos se sucederam à romaria inicial. Vinham sempre aos milheiros, a pé ou a cavalo, de perto e de longe, com o intuito de adorar os panos considerados sagrados pelo contato com o sangue divino. Colocadas em uma caixa de vidro e postas à exposição pública na capela do Juazeiro sob a guarda de Cícero, as relíquias tornaram-se alvo de devoção extremada.

Não foi tudo. O Céu parecia ter aberto a caixa de milagres. Pouco depois, em 19 de agosto daquele mesmo ano, espalhou-se que outro fenômeno fantástico ocorrera no povoado. Segundo assegurava Maria de Araújo, dessa vez o próprio Jesus Cristo teria lhe aparecido em visão, enquanto ela orava na capela. Dois dias mais tarde, em nova aparição à beata, em plena celebração da missa pelo padre Cícero, Jesus teria revelado a ela, reservadamente, que decidira fazer do Juazeiro um portal por onde apenas os puros e justos entrassem no reino dos Céus. Monsenhor Monteiro parecia convicto de que a beata falava a verdade. “Não há dúvida de que a beata Maria de Araújo, humilde, pobrezinha, é uma santa, é uma santa como a história ainda não registrou!”, escreveu o reitor. “Muitos livros não bastarão para neles se escrever o que há de sobrenatural naquela simples criaturinha de Deus!”

Os romeiros não ousaram duvidar da nova maravilha. Se, de acordo com o que pregava a Igreja, Jesus teria aparecido em outros tempos para um punhado de bem-aventurados, por que não se revelaria agora para Maria de Araújo, que já teria obtido a suprema graça de abrigar o sangue sagrado no interior de sua boca? Se dois séculos antes, em 1675, Jesus teria mostrado o coração exposto em chamas para a freira francesa Margarida Maria Alacoque em um convento da região da Borgonha, por que não poderia repetir o mesmo prodígio, tanto tempo depois, numa capela do pequenino Juazeiro, que tinha o piedoso padre Cícero como seu protetor?

Todos sabiam que a Igreja Católica aceitava, como fato, a crença de que Jesus Cristo, com o peito incendiado de sangue e de luz, teria pedido à francesa Margarida Alacoque que difundisse mundo afora o culto ao Sagrado Coração, confiando-lhe a missão divina de reparar, pela oração, os sortilégios humanos. Pois para os que acorriam em massa a Juazeiro não era de se admirar que o mesmo Cristo houvesse voltado à Terra e anunciado a Maria de Araújo, uma devota fervorosa do Coração de Jesus, que iria fazer, por meio dela, um novo chamamento às almas desgarradas do caminho e da palavra de Deus. Padre Cícero, confessor da beata, seria o grande responsável pelas bênçãos que estavam se derramando sobre o Juazeiro. Era ele que indicaria a todos o caminho dos Céus.

Não demorou para que as histórias espantosas percorressem léguas e mais léguas, até chegar às letras de forma dos principais jornais do país. O primeiro periódico a noticiar o caso foi uma importante gazeta da capital do Império, o Diário do Commercio, que tinha redação, escritório e oficina montados na nevrálgica rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. “Recebemos a seguinte informação, em carta dirigida da província do Ceará”, anunciava o jornal carioca, na edição de 19 de agosto daquele ano de 1889. “Quando o padre Cícero dava a comunhão à virtuosa beata Maria de Araújo, transformou-se a sagrada forma em sangue, que caiu na toalha e na murça da beata, fato que se foi dando todas as sextas-feiras e depois diariamente.” Informava-se ainda que “um sem-número de habitantes da cidade do Crato, e de toda a circunvizinhança, concorreu de modo que jamais se viu naquela povoação tamanha aglomeração de fiéis”.

Dez dias depois, era a vez do Diário de Pernambuco repercutir a notícia, com maior alarde. “Fato estupendo”, lia-se em negrito nas páginas do prestigioso jornal do Recife. A descrição do milagre era novamente seguida da informação de que caravanas de peregrinos não paravam de acorrer ao local. “É provável que esta fiel exposição de um acontecimento sobrenatural levante a incredulidade, e que esta o comente a seu sabor. Mas o que é certo é que ele foi testemunhado por mais de 30 mil pessoas; e que o Juazeiro tem se tornado uma nova Jerusalém pela romaria dos povos vizinhos.”

Uma nova Jerusalém. A senha estava dada. A serra do Catolé, com seu espinhaço de pedra recortando o horizonte do Juazeiro, seria o novo monte das Oliveiras. O riacho Salgadinho, que banhava as terras do povoado, o novo Jordão. Jesus Cristo teria escolhido o povo mais simples e o lugar mais remoto para, sobre ele, derramar de novo Sua palavra. Nada mais justo, acreditavam os peregrinos em romaria. Segundo rezava o Novo Testamento, não foram também os primeiros apóstolos homens do povo, humildes e incultos pescadores de peixe, transformados pela fé em pescadores de almas?

Cícero não podia ter dúvidas de quem era o remetente daquela carta que vinha de Fortaleza, datada de 4 de novembro de 1889, com o selo e as armas eclesiásticas gravados no lacre de cera. O bispo do Ceará, dom Joaquim José Vieira, com a autoridade que lhe competia como chefe da Igreja na província, cobrava explicações a respeito dos boatos que lhe chegavam sobre aquele distante povoado. Com caligrafia rebuscada, o tom da correspondência era cortês, mas firme.

“Sou amigo de Vossa Reverendíssima; confio na sinceridade e na sua ilustração e por isso o julgo incapaz de qualquer embuste”, iniciava, amistosa, a carta do bispo ao padre Cícero Romão. “Faça-me, com a maior urgência, uma exposição minuciosa de todas as circunstâncias que precederam, que acompanharam e subseguiram o fato, para que eu possa tomar as providências atinentes ao caso”, ordenava dom Joaquim. “Enquanto se espera por esse juízo, proíbo expressamente a Vossa Reverendíssima qualquer manifestação a esse respeito”, advertia o prelado, para finalizar: “Estou persuadido que Vossa Reverendíssima, ilustrado e piedoso como é, não se escandalizará com esta minha determinação, pois sabe que me incumbe o dever de velar sobre a pureza da doutrina católica. Deixo de fazer mais considerações porque julgo ter explicado bem claramente o meu pensamento.”

Apesar das ordens cristalinas contidas na mensagem, o bispo recebeu apenas o silêncio como resposta. Chegou a enviar uma segunda correspondência oficial a Cícero, reiterando a mesma cobrança, que ficou igualmente sem retorno. “Parece-me ser grande imprudência chamar a atenção do público para a beata Maria de Araújo. Este fato pode trazer a ela sentimentos de vaidade, em detrimento da salvação”, insistia dom Joaquim, na segunda carta. “Padre Cícero, parece-me prudente não se dar ainda expansão ao fato, porque é possível que mais tarde se verifique ser ele fruto de causas meramente naturais; e então grande ridículo recairá sobre a nossa Santa Religião.”

Ao contrário do minucioso relatório que exigia, dom Joaquim viu-se obrigado a ler pela imprensa uma nova notícia sobre os episódios fantásticos. Desta feita, o agravo vinha com assinatura e, portanto, assumida autoria. Uma carta escrita de próprio punho pelo monsenhor Francisco Monteiro, o reitor do seminário do Crato, endereçada a um cônego paulista, acabara de ser publicada em um jornal de São Paulo. Nela, falava-se abertamente em novos milagres. Na carta, reproduzida pela folha religiosa Estrela da Aparecida, monsenhor Monteiro dizia que, no dia 22 de agosto, em Juazeiro, a beata Maria de Araújo chegara à capela de Nossa Senhora das Dores, pouco antes da missa, com a roupa banhada em sangue. Segundo ela, Jesus Cristo havia-se revelado de novo a ela, desta vez devidamente paramentado, de sobrepeliz e estola, como se fosse um padre pronto para subir ao altar. Pelo relato, Jesus oferecera à mulher um cálice de ouro, cheio de vinho, que de imediato se transformara em sangue. Maria de Araújo bebera a metade do líquido e a outra metade teria sido derramada pelo próprio Jesus sobre a cabeça da beata. “Quero que bebas o meu Sangue e te banhes com ele”, dissera-lhe Cristo, ainda conforme a carta assinada e tornada pública pelo reitor do seminário do Crato. “Quero fazer deste lugar, Juazeiro, um chamado para a salvação dos homens. É este um esforço de amor do meu coração”, acrescentara Jesus à beata Maria de Araújo.

O bispo se convenceu de que estava diante de um grave caso de indisciplina. Meses antes, recebera em audiência no palácio episcopal, em Fortaleza, o mesmo monsenhor Monteiro, que não lhe fizera a mais leve menção ao assunto. Dom Joaquim sentiu-se ludibriado. Tanto por Monteiro quanto por Cícero. Este, em junho, três meses depois da primeira ocorrência dos alegados milagres, chegara a lhe enviar longa carta. Nela, também não havia nenhuma palavra sobre o caso. Apenas um dramático apelo para que o bispado intercedesse junto às autoridades e conseguisse uma possível ajuda contra a seca que mais uma vez assolava a província. “Vossa Excelência Reverendíssima, por caridade e por Nossa Senhora das Dores que é dona deste lugarzinho tão caro a seu sagrado coração, seja o instrumento de que ela se sirva para nos salvar”, implorara Cícero. “Eu não sou nada, tenho consciência do pouco que sou e por isso não me atrevo a dirigir-me aos que governam; são políticos, só com políticos se entendem. Lembrei-me de pedir a Vossa Excelência, que sabe chorar com os que choram, para se interessar por nós, nos alcançando algum recurso do Governo”, dizia a carta. “Temos pedido muito a Nosso Senhor e os meus pecados impedem que ele ouça! Como posso ver esse pobre povinho que amo tanto, como uma parte de minha alma, desaparecer?”, escrevera o padre Cícero. Sobre hóstias que se transformavam em sangue, nada.

Dom Joaquim sabia que uma circunstância histórica tornava o assunto ainda mais explosivo e suscetível de contagiar multidões. As notícias sobre o milagre se espalhavam com a mesma velocidade daquelas que davam conta de que, no Rio de Janeiro, um grupo de militares havia acabado de derrubar o imperador dom Pedro II e proclamado a República. Para cristãos mais exaltados, a confluência entre os dois episódios significava um claro sinal de que o fim dos tempos estava próximo. Os republicanos, que estabeleceriam a separação constitucional entre Igreja e Estado e instituiriam o casamento civil, passaram a ser a própria representação do Anticristo. A Bíblia dizia que quando este chegasse à Terra, o fim do mundo estaria próximo. O alegado milagre no Juazeiro seria então a resposta dos Céus, a advertência celeste de que era chegada a hora do arrependimento final.

Cícero, que durante os longos primeiros quarenta anos de sua vida havia permanecido um sujeito anônimo fora das fronteiras do pequenino Juazeiro, começava a desfrutar de uma notoriedade crescente. Para os que acreditavam no milagre, ele era o santo benfazejo do Cariri. Para dom Joaquim, ao contrário, ele era a ovelha desgarrada, aquela que ameaça pôr a perder todo o resto do rebanho. Ao deixar de responder às duas cartas enviadas pelo palácio episcopal, Cícero caíra em descrédito perante o julgamento de seu superior imediato. Para o bispo, o indesculpável silêncio equivalia a uma confissão de culpa. No entender de dom Joaquim, o único remédio que restava era fazer cumprir a proverbial sentença: “Antes que o mal cresça, corte-se-lhe a cabeça.”

2001: RATZINGER REABRE O CASO

Eram nove horas da manhã. Como fazia todos os dias, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, 74 anos, atravessava a pé a praça de São Pedro, no coração da Santa Sé. De batina preta, boina de feltro escuro sobre os cabelos muito brancos, o proeminente teólogo era reconhecido como o mais poderoso interlocutor de Sua Santidade, o papa João Paulo II. Ratzinger percorreu com passos firmes o caminho e, diante do portão de ferro do Palácio do Santo Ofício, recebeu a habitual continência dos dois soldados da Guarda Suíça. Transposto o pórtico principal, chega-se às dependências da Congregação para a Doutrina da Fé – como desde 1965 passou a ser denominado o Santo Ofício, mais anteriormente conhecido pelo nome original, que fazia tremer a alma dos acusados de heresia: Inquisição Romana. No interior daquelas paredes de pedra, em pleno século XXI, ainda existe um tribunal religioso encarregado de julgar os que professam opiniões divergentes das consideradas oficiais pela Igreja.

Na condição de prefeito da Congregação, o equivalente contemporâneo ao cargo de inquisidor-geral, cabia a Joseph Ratzinger o papel de guardião da ortodoxia católica. Por isso, alguns dos segredos mais caros ao Vaticano eram conduzidos na velha valise de couro negro que ele sempre levava à mão direita.

No escritório, em cima da vasta mesa de trabalho, a pilha de papéis oficiais com o timbre da Santa Sé dividia espaço com um crucifixo de ouro, uma luminária, um porta-lápis e um pequeno calendário. Neste último, via-se a indicação: primavera de 2001. O cardeal, sentado em sua cadeira estofada de espaldar alto, preparou à mão o esboço de uma carta que seria enviada em caráter reservado à Secretaria-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB. A correspondência dizia respeito a um delicado tema: a pertinência de uma possível reabilitação canônica de um sacerdote brasileiro falecido em 1934, aos 90 anos de idade. Alguém que levou para o túmulo o estigma de ter sido um proscrito da Igreja. Um clérigo julgado e condenado como insubmisso, contra o qual os inquisidores da época pediram a pena de excomunhão. Um reverendo maldito que, a despeito disso, continua a arrebanhar milhões de peregrinos e devotos, incansáveis perpetuadores de sua memória: o padre Cícero Romão Batista.

O diligente Joseph Ratzinger, é claro, tinha notícia dos cerca de 2,5 milhões de fiéis que acorrem todos os anos a Juazeiro do Norte, cidade a 520 quilômetros de Fortaleza, no interior do Ceará. O número de peregrinos que chegam ao local onde viveu padre Cícero impressiona. É como se toda a população de uma metrópole como Roma se deslocasse em massa, anualmente, para reverenciar um sacerdote banido das hostes da Igreja. Em Juazeiro, a multidão compacta paga promessas, acende velas, renova a fé, faz novos pedidos e invoca a proteção de seu guia espiritual.

No topo da serra que avizinha a cidade, foi erguida uma imagem gigantesca do padre Cícero, com 27 metros de altura, uma das dez maiores estátuas cristãs em concreto das Américas. Próximo à capela onde está enterrado o corpo do reverendo, na chamada Casa dos Milagres, o testemunho das centenas de milhares de graças alcançadas arrebatam o olhar de quem chega à porta. São os chamados ex-votos: fotografias e esculturas em madeira, cera ou barro, que reproduzem partes do corpo humano. Pernas, braços, mãos, cabeças. Muitas cabeças. Foram deixados ali por doentes terminais, alguns dos quais juram ter recuperado a saúde, aleijados que afirmam ter voltado a andar, cegos que dizem ter voltado a ver, loucos que asseguram ter recuperado o juízo. Para toda essa gente, padre Cícero é o santo milagreiro, canonizado pela devoção popular, embora proibido de entrar nos altares oficiais.

Difícil encontrar uma casa católica no sertão nordestino na qual não exista uma imagem de padre Cícero. Retratado sempre com o cajado, o chapéu e a batina, ele parece onipresente. Em Juazeiro, mais ainda. Ele está na fachada das lojas, dos supermercados, dos cartórios, das bodegas, dos comitês eleitorais. Estátuas de Cícero em gesso – e em tamanho natural – adornam até mesmo as agências das grandes redes bancárias instaladas na cidade. Ele só não está nas igrejas.

Para o Vaticano, tal veneração tem se tornado ainda mais eloquente diante da constatação de que, a cada ano, o catolicismo perde milhares de adeptos no Brasil. Segundo cálculos da própria CNBB, a sangria de fiéis é considerada alarmante. O país continua a ser “a maior nação católica do mundo”. Mas a última década assistiu à queda vertiginosa no percentual de católicos brasileiros, enquanto o contingente de evangélicos se multiplicou em idêntica proporção. Deixar que o culto a padre Cícero permaneça à margem da liturgia significa negar o acolhimento pastoral a toda uma preciosa legião de devotos. Ratzinger sabia disso. Tinha plena ciência da força do mito em torno do chamado Patriarca de Juazeiro.

É óbvio que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não desconhecia também as graves acusações históricas que recaem sobre o homem Cícero Romão Batista. Elas não são poucas. Quando reunidas, constituem notórios obstáculos à idéia de anistiar, post-mortem, as penas que foram impostas ao padre, em vida, pelo Tribunal do Santo Ofício. A primeira incriminação que incide sobre Cícero é a de ter sido um mistificador, um aproveitador das crenças do povo mais simples, um semeador de fanatismos. Homem de idéias religiosas pouco ortodoxas, leitor de autores místicos, dado a ver almas do outro mundo e defensor de milagres não endossados pelo Vaticano, Cícero estaria mais próximo da superstição do que da fé, disseram dele os muitos adversários que colecionou no meio do próprio clero. Decorre daí outra incriminação, ainda mais incisiva: a de que nas vezes em que fora repreendido por seus superiores eclesiásticos agira como um rebelde e caíra em desobediência. Na rígida hierarquia clerical, desobedecer a um superior constitui pecado gravíssimo. Almas indóceis à autoridade de bispos e cardeais não vão para o Céu, assim determina a lei da Igreja.

A relação de Cícero Romão Batista com jagunços e cangaceiros tem sido outro entrave à possível anistia cogitada por Ratzinger. Como absolver das penas do Tribunal do Santo Ofício um padre sobre cujas costas os detratores jogam a responsabilidade pela concessão da patente de capitão ao mais feroz dos bandoleiros nordestinos, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, em troca do compromisso para que o “Rei dos Cangaceiros” enfrentasse, em 1926, a célebre Coluna Prestes em sua passagem pelo sertão? Como indultar um clérigo que mesmo antes disso, em 1914, teria benzido rifles, punhais e bacamartes, aparato bélico entregue à jagunçada para promover uma sedição armada que envolveu saques violentos a várias cidades interioranas, produziu a morte de centenas de inocentes e resultou na derrubada de um governo legal? Como redimir as penalidades de um sacerdote que se transformou em líder político, fez-se o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, elegeu-se deputado federal, tornou-se vice-presidente (cargo então equivalente ao de vice-governador) do Ceará e arquitetou um pacto histórico entre os poderosos coronéis do sertão? Como perdoar um padre que acumulou vasto patrimônio à custa das esmolas e das doações de fiéis? Para os algozes de Cícero, não faltariam argumentos contrários a uma reabilitação canônica.

Entretanto, do mesmo modo, não são poucos os que definem a eterna tempestade de acusações contra Cícero como frutos de inverdades históricas, interpretações distorcidas e preconceitos elitistas que foram se acumulando, ao longo do tempo, em torno de tão controvertida figura. A carta que o cardeal Joseph Ratzinger escreveu naquela manhã de primavera tinha o objetivo de retomar – com a chancela do brasão do Vaticano – uma questão sobre a qual se debatem, por décadas a fio, apologistas e difamadores de Cícero Romão Batista.

Quem foi esse homem misterioso que, mesmo tendo um decreto de excomunhão assinado contra si, arrebatou o coração das massas e passou à memória coletiva e ao panteão popular como o santo Padim Ciço? Era um apóstolo visionário que soube entender a língua do povo, converteu multidões com sua singela pastoral sertaneja, mas ainda assim foi injustiçado por um clero intransigente, etnocêntrico, refratário às diferenças? Ou foi um sujeito astuto que usou a batina em seu próprio benefício, amealhou fortunas em terras, imóveis e gado, alimentando a sede de poder na miséria e na ignorância de seus devotos?

Não parece ter sido coincidência. Poucos meses depois de a carta de Joseph Ratzinger ter alcançado o devido destino – a sede da CNBB, em Brasília –, um novo bispo diocesano desembarcou no pequeno terminal de passageiros do Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes, em Juazeiro do Norte. O homem nomeado por João Paulo II para administrar dali por diante a diocese do Crato, à qual está subordinada a forania de Juazeiro, é um italiano sorridente e de fala serena. Quando perguntado se vem com alguma missão específica – e se tal missão tem relação direta com a possível reabilitação de padre Cícero –, ele silencia. Em alguns casos, dependendo do interlocutor, vai além: esboça um de seus enigmáticos sorrisos.

O recém-chegado, dom Fernando Panico, nascido em 1946 na cidade de Tricase, sul da Itália, exibe um currículo exemplar. Além de sobrinho de um cardeal com respeitáveis serviços prestados à Santa Sé – dom Giovanni Panico, ex-núncio em Portugal –, traz na bagagem os diplomas de bacharel em filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana e em teologia pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo, ambos em Roma. Mestre em teologia litúrgica e doutor em liturgia, Panico está no Brasil desde 1974. Aqui, sempre trabalhou em dioceses nordestinas. Primeiro no Maranhão, onde foi reitor de seminário. Depois no Piauí, como bispo de Oeiras e Floriano. Conhece bem, portanto, o universo e os matizes da religiosidade popular dos sertões. Está familiarizado com as singularidades das manifestações de fé do catolicismo caboclo, que tem em padre Cícero uma de suas maiores referências.

Tão logo tomou pose no comando da diocese, em junho de 2001, dom Fernando Panico demonstrou, sem meias-palavras, claramente ao que vinha. Do alto do púlpito, durante a homilia que fez na primeira missa como novo bispo do Crato, anunciou o propósito de encorajar e apoiar novos estudos críticos sobre a trajetória de Cícero Romão Batista. Em uma carta pastoral aos fiéis, datada de 20 de outubro daquele ano, reafirmou o mesmo propósito: “[Ele] merece nosso carinho, apesar de tudo o que contra ele aconteceu e se tem escrito”, observou o bispo a propósito do ambíguo sacerdote. Tais afirmações causaram mal-estar nos membros mais tradicionais do clero do Crato, que têm Cícero na conta de um embusteiro. “Padre Cícero chegou ao Juazeiro missionário, tornou-se visionário e acabou milionário”, costumava dizer dom Newton Holanda Gurgel, o antecessor de dom Fernando, que se viu compelido a renunciar ao cargo ao completar 75 anos de idade e com isso, não sem visível incômodo, passar a mitra ao sucessor.

Não há dúvidas de que os ventos da Igreja pretendem soprar em outra direção. O que está em cena não é uma mera questão paroquial, uma nova frente de batalha na eterna rivalidade entre cratenses e juazeirenses. Naquele mesmo mês de outubro, dom Fernando embarcou para Roma, acompanhado dos demais bispos do Ceará e Piauí, por ocasião da visita ad limina ao Vaticano – uma obrigação imposta pela Igreja a seus prelados a cada cinco anos, que devem se ajoelhar diante dos túmulos dos apóstolos são Pedro e são Paulo, além de serem recebidos pelo papa para reportar o estado pastoral de suas dioceses. Dom Fernando aproveitou a viagem à Cidade Eterna e logo obteve uma audiência com o cardeal Joseph Ratzinger, no Palácio do Santo Ofício. Na pauta do encontro com o prestigioso prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o assunto foi um só: padre Cícero.

Ratzinger não só estimulou dom Fernando a levar adiante os novos estudos sobre Cícero como deu instruções detalhadas a respeito da forma de conduzir o processo, de acordo com os rituais e procedimentos da Congregação. Como conselho adicional, Ratzinger sugeriu que as concorridas romarias a Juazeiro do Norte deviam ser incentivadas e acolhidas, ao contrário do que fazia o bispo anterior, dom Newton. A recomendação do cardeal foi obedecida à risca. Algum tempo depois da volta ao Brasil, dom Fernando fez publicar uma segunda carta pastoral aos fiéis, sintomaticamente intitulada “Romarias e Reconciliação”. O sinal de distensão entre a Igreja e os romeiros, principal herança deixada pelo sacerdote proscrito, ficou evidente: “Mais do que nunca é necessário reconhecer as romarias de Juazeiro do Norte como uma profunda experiência de Deus e legítima experiência de fé”, dizia a carta do bispo aos diocesanos.

Para seguir os desígnios ditados por Roma, dom Fernando organizou uma comissão multidisciplinar de estudos, a quem coube mergulhar nos arquivos oficiais da diocese, mas também em acervos particulares e de instituições públicas, para tentar legitimar a possível reabilitação de Cícero Romão Batista. Pelos trâmites do Vaticano, reabilitar o padre significaria o primeiro passo a caminho de uma presumível canonização. Após ele ser devidamente perdoado pela Congregação da Doutrina da Fé, o segundo passo seria a abertura do processo de beatificação, depois do qual Cícero passaria a ser declarado um “bem-aventurado”, o degrau imediatamente inferior ao seu reconhecimento como santo, quando enfim poderia ser elevado à honra dos altares.

A comissão organizada por dom Fernando, obedecendo às diretrizes de Ratzinger, foi composta por especialistas, mestres e doutores em diversas áreas do conhecimento: antropologia, filosofia, história, psicologia, sociologia e teologia. Para evitar pressões oriundas do clero do Crato, os membros passaram a se reunir em São Paulo, onde recebem a visita de dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal arcebispo-emérito da diocese paulista, que já revelou simpatia pela reabilitação canônica do padre Cícero. Durante cerca de cinco anos, a comissão de notáveis trabalhou estrategicamente em silêncio, reunindo informações, acessando papéis até então intocáveis, trazendo à luz novos elementos para um julgamento póstumo de Cícero Romão Batista.

Às 21h37 de um sábado, 2 de abril de 2005, o papa João Paulo ii exalou o último suspiro. Dezessete dias depois, o conclave de cardeais reunido no Vaticano autorizou que a fumaça branca fosse lançada pela chaminé da Basílica de São Pedro. Habemus Papam, logo entenderam os milhões de católicos espalhados pelo planeta, que testemunharam tudo pela televisão. O cardeal Ratzinger é eleito o 265º sucessor de Pedro e coroado como Bento XVI. O homem que iniciou o processo de reabilitação do padre Cícero é agora o chefe supremo da Igreja Católica Apostólica Romana.

Em 30 de maio de 2006, pouco mais de um ano após Bento XVI iniciar seu pontificado, uma comitiva brasileira liderada pelo bispo do Crato, dom Fernando Panico, chegou ao Vaticano. Levava consigo onze grossos volumes encadernados em capas vermelhas e identificados com letras gravadas em dourado. São cópias de documentos religiosos e seculares, incluindo a vasta correspondência trocada entre os protagonistas da história tumultuosa de Cícero. Também estão ali os relatórios e os pareceres da comissão de especialistas encarregada dos novos estudos em torno do caso. Um volume à parte traz cerca de 150 mil assinaturas em prol da reabilitação, às quais se soma um abaixo-assinado no qual se lê o nome de nada menos que 253 bispos brasileiros favoráveis à causa.

Uma carta de dom Fernando ao papa completa a papelada. “Venho com toda esperança e humildade suplicar a Vossa Santidade que se digne reabilitar canonicamente o padre Cícero Romão Batista, libertando-o de qualquer sombra e resquício das acusações por ele sofridas”, escreveu o bispo. “Posso testemunhar, Santidade, que as nossas romarias são um baluarte da fé dos pobres, filhos queridos da Igreja Católica, cuja devoção contém e freia, por assim dizer, o avanço das seitas evangélicas na nossa região”, explicita. Na carta, dom Fernando recordou que o mesmo Bento XVI, então cardeal, é quem lhe sugerira reabrir os estudos históricos sobre Cícero. “A comissão de estudiosos, ao realizar as novas pesquisas, manteve-se numa discrição objetiva das fontes. À Congregação para a Doutrina da Fé compete a análise de nosso trabalho. E a Vossa Santidade a palavra conclusiva.”

Nas prateleiras empoeiradas do antigo Tribunal do Santo Ofício, por determinação de Bento XVI, os documentos secretos que resultaram na expulsão de Cícero das fileiras da Igreja começam a acordar de um sono de quase 100 anos.

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