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sábado, 22 de setembro de 2012

LIVRO - A OUTRA FACE DO CANGAÇO - VIDA E MORTE DE UM PRAÇA


Autor: Antonio Vilela de Sousa


PARA AQUISIÇÃO DO EXCELENTE LIVRO:

A presente obra custa R$ 20,00 (Vinte reais) + frete a consultar. Tem 102 páginas, fotos inéditas e está sendo comercializado exclusivamente pelo autor 
Via e-mail: 
incrivelmundo@hotmail.com
ou telefones: (87) 3763 - 5947 / 8811 - 1499/ 9944 - 8888 (Tim)

Ivanildo Alves da Silveira
Natal-Rn

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Zé do Telhado - herói camiliano - Bandoleiro Português


José Teixeira da Silva, nascido em 1818 no lugar do Telhado, Castelões de Recezinhos, comarca de Penafiel, é dos salteadores mais conhecidos da história portuguesa. "Zé do Telhado", nome que saltou para além do Marão, diz o povo, roubava aos ricos para dar aos pobres. A fama, essa, não lhe valeu aos olhos da justiça nem o salvou da Cadeia da Relação no Porto, onde por fim recolheu, acusado de roubos vários, homicídio, organização de quadrilha de assaltantes e evasão tentada sem passaporte. Lá travou conhecimento com Camilo Castelo Branco, ele que, por outros motivos românticos, era na altura hóspede do local. Dessa estadia resulta "Memórias do Cárcere", onde ficam gravados os feitos do bandoleiro.

(Na foto: Camilo Castelo Branco e José Teixeira da Silva)

«Este nosso Portugal é um país em que nem pode ser-se salteador de fama, de estrondo, de feroz sublimidade.

(...)

Roubar ilustriosamente, é engenho. Saquear a ferro e fogo, é roubo.

(...)

Diz algo, no entanto, como exemplo desta lastimável anomalia, a história de José Teixeira da Silva do Telhado, o mais afamado salteador deste século.

(...)

Seu pai era o famigerado Joaquim do Telhado, capitão de ladrões, valente com as armas e raio devastador em franceses que ele matava porque eram franceses e porque eram ladrões, posto que, na qualidade de membro da nação espoliada, o Senhor Joaquim chamasse só a si o que era de fazenda nacional. Um tio-avô de José Teixeira, chamado ele o Sodiano, já tinha sido salteador de porte e infestara o Marão durante muitos anos.»

Os tempos pediam heróis. Depois de três invasões napoleónicas, o país seguia na miséria, dividido entre lutas liberais e absolutistas, com a corte exilada num Brasil distante e os que ficaram em terra entregues à crise económica e política. Da Guerra Civil, tal como Maria da Fonte, também Zé do Telhado sai herói. Pela bravura ao lado das tropas liberais do General-Visconde de Sá da Bandeira, condecoram-no com a "Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito". Da tropa e desempregado, voltou para a mulher e cinco filhos, seguindo a vida de salteador que lhe valeu a fama. Os anos ao comando da quadrilha de bandoleiros de Custódio, o "Boca Negra" não lhe custaram enfim a forca, mas o degredo. É em Malanje, Angola, que terminou os seus dias, negociante de borracha, cera e marfim e a dar pelo nome de "Quimuêzo", o homem de barbas grandes.

Fontes: 

http://noitesdeinsonias.blogspot.com.br/2011/01/ze-do-telhado-heroi-camiliano.html


Nova Edição de: Lampião Além da Versão...


Se você está querendo ler histórias sobre o "Cangaço" inicie lendo esta obra, do escritor Alcino Alves Costa, um dos maiores conhecedores da história do cangaço.  

Juliana Ischiara, Alcino Alves Costa e Paulo Gastão

Se você deseja adquirir seu exemplar é só entrar em contato com o Mestre das publicações, o Professor Pereira, R$ 50,00 com frete incluso; seguem os contatos:

franpelima@bol.com.br
Te. 83 9911-8286  -   83 8706 2819
ou com o autor Alcino Costa - Poço Redondo-SE
alcino.alvess@gmail.comtel. 79 8852-7661

ZÉ DO TELHADO. O Bandoleiro Cavalheiresco.


Zé do  Telhado - O Bandoleiro de Portugal


Diz-se, que Zé do Telhado, antes de enveredar pelos caminhos do crime, viveu e passou, por algumas experiências de miséria, e penúria, que viriam a contribuir, para que ele como forma de revolta, se tivesse decidido pela vida de Bandoleiro.

Conta-se que este homem, certo dia, depois de ter ouvido repetidas vezes, os filhos chorar com fome, a pedirem á mãe, o pão que ela não tinha para lhe dar... E que ele, pai, todos os dias, ao sair de casa, prometia trazer no regresso, sem que nunca cumprisse com o prometido.

Mas finalmente, a hora da grande decisão acabou por acontecer... A partir daquela hora, Zé do Telhado, nunca mais deixou que a sua família passasse nessecidades. Ele teve a coragem de se assumir, como o Repartidor Publica. Que roubava aos que tinham demais, para com o produto do roubo, contribuir para atenuar as misérias, daqueles que tinham de menos... Ou melhor, aqueles que nada tinham!...

Hoje, João Mossoró lançará o seu mais novo CD


Hoje, 22 de Setembro, sábado, o cantor João Mossoró fará o lançamento  do seu novo CD, Conexão Nordeste e casa de show Estudantina, 
na Praça Tiradentes, na cidade do Rio de Janeiro.

Local:  Estudantina - RJ - Centro 
Horário:

A partir das 21;00 horas

Diversos artistas participarão do lançamento do CD do cantor João Mossoró. 
Não se esqueçam, é hoje.



http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

LINDA? (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa (*)
Rangel Alves da Costa

Reconhecimento de beleza em mulher não é tarefa que seja fácil, não é novelo que se desenrole jogando ao chão. A maioria se contenta com a beleza física, com o rosto e o corpo bonitos, com o tamanho da bunda ou a grossura das coxas. Ledo engano, pois vai muito além.

Também não vou enveredar no senso comum para dizer que a beleza de uma pessoa está muito mais no seu interior, ou beleza espiritual, do que simplesmente naquilo que ela apresenta como atração do lado de fora, no que aparenta fisicamente.


Nem tanto dentro nem tanto fora, pois a beleza é fruto de uma junção do visível e do que somente se percebe a partir do relacionamento com a pessoa. Neste sentido, não conhecendo nada além da aparência física, o jeito é, equivocadamente, se contentar afirmando que nunca viu nada mais belo na vida.

O problema é que, estrutural e aparentemente, casas também são bonitas, carros são perfeitos, equipamentos são irretocáveis. Mas por dentro podem ser verdadeiras aberrações, umas imprestabilidades. E pessoas não são objetos para receber selo de qualidade apenas pelo rosto dengoso, o olhar de oceano nem o corpo de geografia.

Mas por outro lado, não deixo de dar alguma razão aos que se contentam com as aparências. Ora, se gostam e se contentam em apenas ver, olhar, admirar, então tudo bem. Mulheres passam que são verdadeiras deusas, encantam igualmente sereias. Os castelos de areia também são bonitos, mas não suportam o sopro do vento ou a água macia.

Verdade é que na maioria das vezes não passam de castelos de areias as deusas das ruas, as embonecadas dos corredores, as chiques sustentadas nos brilhos das maquiagens. E a outra realidade, vinda do interior e que mais tarde se sobressairá em tudo, será revelada na palavra, no pensamento, na concepção de vida, no jeito de ser. É aí que o aparentemente belo pode tomar outra feição.

Creio não resistir por muito tempo a boniteza física que não conhece nada da vida além do corpo que ostenta e tanto se orgulha; creio não continuar prevalecendo a beleza física carregada de ignorância de mundo, de desconhecimento da realidade, de distanciamento de qualquer cultura educacional; creio não ir além do que fragilmente aparente a diva inimiga do saber, do estudo, da busca de uma consciência crítica sobre o contexto social.

Mas não digo que para ser bela a mulher tem de ser inteligente. Nada disso. Afirmo apenas que a burrice arraigada espanta qualquer beleza. A não ser que o outro seja do mesmo nível. Quer dizer, que também cultive todas as formas de analfabetismo. Se este for capaz de julgar além da aparência, logicamente que repensará o conceito de formosura perante aquela que da boca não sai qualquer serventia, que não expressa nada que tenha proveito, que seja o próprio conceito da mediocridade.

Entretanto, se a rudeza contumaz tem o dom de transformar o dissimuladamente belo em algo abominável, o mesmo pode ocorrer na situação inversa. Muitas pessoas tidas aparentemente como despossuídas de qualquer atração física ou mesmo avistadas como feias, de repente passam a ser vistas através dos olhos da inteligência e se transformam em verdadeiramente belas, lindas.

E por quê? Ora, o espírito afável, terno, lúcido, companheiro, tomado de luz e felicidade; a mente possuidora de julgamentos, de valores, noções, ideias, visão de mundo, conhecimento da realidade, inteligência; a boca que sabe se abrir, sabe falar, sabe quando deve se expressar; a palavra bonita, generosa, confiável, carinhosa, sempre com o dom de agradar; o ser humano sensível, agradável, cortês, honrado, que transmite confiança e segurança.


Por isso mesmo a mais bela, a mais linda do mundo, não é nem será aquela cuja beleza seja apenas exterior. O beija-flor não se contenta apenas com a cor da flor, mas com o seu néctar; o passarinho não pousa apenas no umbral da janela bonita, mas naquela que lhe dá acolhida; a moringa só tem importância pelo que guarda lá dentro.

Seja negra, pobre, moradora dos escondidos do mundo, um ser que ninguém acredita ou valoriza, mas será tão bela quanto a flor, linda feita a manhã, ao ser avistada e nela reconhecer-se não apenas o corpinho sexualmente admirável ou o rosto rosado de maquiagem, mas a mulher espiritualmente forte, consciente de si, que conhece a sua realidade e mais além, e perto dela o outro ouvirá a palavra bonita, o gesto de conforto, tudo que possa alegrar coração.

(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

As trincheiras de Rodolfo, em 1927: XI-A Praça Vigário Antonio Joaquim

Imagem 01 - Pça. Vigário Antonio Joaquim, anos 1930. Mossoró.

Outras trincheiras menores foram instaladas nesta praça para defesa ao assalto de Lampião, (1900-1938), à cidade de Mossoró, em 13/06/1927. Nas proximidades da praça, também, outros pontos de defesa foram colocados, que aproveito para citá-los nesta postagem.

Na imagem 01, que mostra esta praça nos anos de 1930, no número 1, a trincheira do Ginásio Diocesano Santa Luzia, com cerca de 4 pessoas armadas. O número 2, a Igreja do Coração de Jesus, em sua torre, 4 pessoas armadas. O número 3, neste prédio, que posteriormente foi a sede da sociedade União de Artistas, estava instalado o jornal O Nordeste. Nesta trincheira, estavam presentes e armados, Amâncio Leite, João Damasceno, Manoel Luz e outros não identificados.

Outras trincheiras, também, importantes, situadas nos arredores da área da praça, foram a Trincheira da Usina Força e Luz, a então empresa de fornecimento de energia elétrica, cujo proprietário era o grande empresário Francisco Tertuliano de Albuquerque, localizada na atual Avenida Almir de Almeida Castro, contando com dois vigias, e a segunda,  a Trincheira de Afonso Freire, (1894-1986), residente à rua Padre Urbano, atual Dix-sept Rosado, que pela imagem 01 é possivel identificá-la, na parte do fundo, pararela e atrás da rua principal, que corre no sentido direita/esquerda.

Afonso Freire reuniu em casa, o irmão Leônidas Freire de Andrade, o vizinho Pedro Ferreira Leite, Lauro Leite, Francisco Negócio da Silva e Abel Chagas Filho. Alguns ocuparam o telhado. Esta trincheira dispunha de seis rifles calibre 44 e trezentas balas. Sobre o responsável por esta trincheira, Raul Fernandes, em sua maneira concisa e criteriosa de apresentar os fatos, na obra abaixo referenciada, apresenta mais detalhes. Afonso Freire, modesto comerciante, não acreditava no ataque dos cangaceiros e não tinha recursos para comprar armamento. No dia 12 de junho daquele ano, jogava pôquer, no Grande Hotel (que também serviu como uma trincheira), com Saboinha e os comerciantes Raimundo Leão e José Carvalho, quando chegou Pedro Maia, funcionário da Estrada de Ferro. Informou a Vicente Sabóia que Lampião se aproximava do povoado de São Sebastião. Sabóia, vendo a disposição de Freire, cedeu-lhe armas necessárias para organizar uma trincheira em casa.

Imagem 02 - Mesa de Rendas, 1937. Mossoró

A imagem 02, retrata a Mesa de Rendas do Estado, o edíficio localizado na esquina, à esquerda, em cujo local foi organizada uma trincheira de defesa com três a quatro soldados. Em 1927, neste edifício funcionava a sede do Telégrafo Nacional (Correios).


Citarmos as fontes é respeitar quem pesquisou e dar credibilidade ao que escrevemos. Télescope. Fontes: FERNANDES, Raul. ( 09/09/1908-14/08/1998). A Marcha de Lampião, Assalto a Mossoró. 7a. edição, Coleção Mossoroense, Volume 1550,  Fundação Vingt-un Rosado, outubro de 2009; Provável autor das fotografia 01 e 02: Fotos de Manuelito Pereira, (1910-1980).  Índice das Matérias Publicadas em Memória Fotográfica.

Escrito por Copyright@Télescope 


Esta é a última trincheira postada neste blog, contra o ataque de Lampião a Mossoró. Mas vale lembrar ao leitor que existiram mais outras trincheiras, as quais o proprietário do blog:  http://telescope.zip.net/historia/, ainda não as publicou.


O Nordeste em fúria

Por Adriana Martins - REPÓRTER/Diário do Nordeste


Historiador Ângelo Osmiro Barreto reconstitui
episódios da história do cangaço, para além de Lampião

Durante a pesquisa para a construção do livro, o autor foi alvo de críticas vindas tanto de amigos quanto de membros da academia: "A violência com certeza é inerente ao cangaço, naquele período a lei do mais forte imperava"

Nem só de Lampião se fez o cangaço. Foi dessa premissa que partiu o historiador Ângelo Osmiro Barreto para escrever o livro "Assim era Lampião e outras histórias", cujo lançamento aconteceu na última terça-feira 18. A partir de pesquisa bibliográfica e de campo, Barreto percorre o rico universo do sertão nordestino entre meados do século 19 até os anos 1930 - período em que a região padeceu sob os conflitos entre coronéis e cangaceiros, alimentados pela ausência do poder público.

A delimitação temporal adotada por Barreto toma como referência, em parte, a morte de Lampião, assassinado junto com integrantes do seu bando em 1938, em uma fazenda no sertão de Sergipe. "Embora não tenha sido o único personagem do cangaço, é um dos principais, o que mais percorreu Estados e que, por isso, o que mais deixou miséria pelo que fez", justifica o historiador.

O raciocínio de Barreto vai na contramão da romantização empreendida por muitos dos produtos culturais sobre o cangaço - desde músicas até filmes, livros, cordéis e outros. "Lampião não foi um herói que lutou contra os coronéis, assim como nenhum outro cangaceiro", frisa ele.

No texto de abertura do livro, o autor complementa a argumentação: "A violência com certeza é inerente ao cangaço, naquele período a lei do mais forte imperava, onde o Estado pouco ou nada contribuía para a melhoria de vida das pessoas, o poder do coronel representado pelo tamanho de suas terras e o número de seus jagunços era de fato a lei".

Exatamente pelo fator da violência, Barreto acredita serem importantes as pesquisas sobre o cangaço - tema que precisou justificar repetidas vezes frente aos olhares e comentários de desmerecimento lançados por alguns amigos e até por colegas acadêmicos.

Para ele, no entanto, pesquisar o cangaço não significa endossar, mascarar ou romantizar a violência característica desse universo. "Deve-se estudar o cangaço assim como outros períodos e episódios de nossa história, que nos ajudam a entender o Nordeste e o Brasil. Ao mesmo tempo, as pesquisas permitem corrigir as distorções sobre as figuras desse universo, a exemplo do ´heroísmo´. Por fim, entender o cangaço ajuda a evitar que se cometam os mesmos erros", explica.

A paixão pelo cangaço vem desde a adolescência, graças, em parte, à coleção de livros formada em casa pelo pai professor - entre eles, alguns volumes sobre o tema. "Depois de me afastar por um tempo, retomei as leituras sobre o assunto e me interessei em conhecer os locais onde ocorreram os episódios", conta.

Foi essa paixão que levou Barreto à presidência do Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará (GECC); antes, também foi presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC).

Continuação

As pesquisas para "Assim era Lampião e outras histórias" são, na verdade, uma continuação daquela iniciada para o primeiro livro de Barreto, "Curiosidades do Cangaço" (2002). "Após um intervalo que se segue ao lançamento, volta-se a coletar informações e entrevistas, a viajar. É um trabalho contínuo", esclarece.

Entre essas viagens estão passagens por locais onde aconteceram episódios relevantes ou onde nasceram, morreram ou ainda residem personagens relacionados ao cangaço. "Fomos, por exemplo, em Angico, hoje uma fazenda no interior de Sergipe, onde ocorreu a chacina do bando de Lampião", cita Barreto.

"Lá conversamos com ex-policiais, inclusive com a pessoa que arrumou as cabeças degoladas dos integrantes do bando na escadaria da Prefeitura de Piranha, cidade alagoana localizada na divisa com Sergipe. À época, esse indivíduo contava com mais de noventa anos. Faleceu 2010", recorda o historiador.

A lista de entrevistados inclui ainda ex-cangaceiros, ex-soldados volantes (como se chamavam as tropas que combatiam cangaceiros) e sertanejos em geral, "os que mais sofriam pela situação, fosse com a polícia, fosse com os cangaceiros", lamenta. A variedade de personagens enfatiza a percepção sobre a pluralidade do cangaço, "que não é só Lampião. Para entender o tema é preciso explorar a religiosidade, a política e outros aspectos, a partir de personagens como Padre Cícero, coronéis e outros", ressalta Barreto.

Essa mesma pluralidade também garante o interesse do público geral pelo livro, não apenas de outros pesquisadores, historiadores e profissionais da área. "Embora seja um trabalho mais aprofundado que o primeiro, não chega a mergulhar fundo em todos os aspectos do cangaço, mesmo porque isso não caberia em um único livro", destaca o autor. Um exemplo de "personagem-satélite" é Zé Saturnino, inimigo de Lampião. "Nos anos 1990 conheci Luiz Cazuza, que morreu em 2011, quase com 101 anos, porém lúcido.

Ele era sobrinho de Saturnino, no livro conto um pouco de sua trajetória no período do cangaço, de seu contato direto com Lampião", comenta Barreto.

No Ceará, o autor visitou Limoeiro do Norte e Juazeiro do Norte - foi nessa última que, em 1926, Lampião recebeu do batalhão patriótico a patente de capitão, além de armas e munição, sob pretexto de combater a Coluna Prestes. "Mas ele nunca fez isso", adverte o autor. "A partir desse momento ganhou a alcunha de capitão Virgulino Ferreira da Silva". Em Juazeiro, porém, as pesquisas foram feitas em livros e documentos no Arquivo Público, ou com pessoas quer conheceram outras que estiveram entre os conflitos. "Daqui para frente essa será a regra. Indivíduos que tenham vivido naquela época estão morrendo por conta da idade. Ficam os descendentes", observa Barreto.



Serviço

"Assim era Lampião e outras histórias"
Ângelo Osmiro Barreto
LC Gráfica e Editora
2012, 238 páginas
R$ 35 (com frete incluso)

Contato para aquisição
Email : angelosmirio@zipmail.com.br
Fone  : (85) 9987 1646

Matéria do Diário do Nordeste enviada pelo Coroné Osmiro

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Serra Grande e o Governador do Sertão

Lampião em foto de 1926 em Juazeiro do Norte

O mês era novembro, o ano 1926, Lampião contava com perto de 90 cangaceiros em seu bando. Homiziado na Serra Grande, cerca de 25 km de Vila Bela, mantinha preso sob resgate de 16 contos de réis, o representante comercial da multinacional Standard Oil, Pedro Paulo Mineiro Dias.

No dia 27 daquele mês, depois de quase 15 dias de perseguição as volantes localizam o bando e irrompe violento combate entre o grupo cangaceiro e as volantes sob o comando geral de Teófanes Torres Feraz, e em campo comandadas por Manuel Neto, Arlindo Rocha e Higino Belarmino, mobilizadas para resgatar Mineiro Dias, ao todo eram cerca de 295 volantes contra perto de 90 cabras dos grupos cangaceiros.

O combate da Serra Grande teria se configurado como um dos maiores da história do cangaço. A luta que iniciou perto das oito da manhã se seguiu até o final do dia com um resultado desastroso para as tropas volantes, preponderantemente pela vantagem inegável do posicionamento estratégico dos bandidos em cima da serra; uma garganta de quase duas léguas de extensão; enquanto as volantes subiam quase de peito aberto de encontro ao ataque cangaceiro. Pela primeira vez na guerra contra os cangaceiros, estavam sendo usadas metralhadoras, no caso, duas hot Kiss. Primeiro chegaram as forças de Manuel Neto e Arlindo Rocha, aguardavam a chegada de Higino Belarmino para entrarem juntos na garganta da Serra Grande, segundo Marilourdes Ferraz em seu livro O Canto do Acauã, “tornava-se difícil traçar um plano com segurança relativa para os soldados. A serra, muito acidentada, era um local adequado para emboscadas”, o que com certeza veio a ser fatal para as forças volantes. O grupo cangaceiro estrategicamente localizado estava dividido em três frentes, aguardando a chegada dos soldados, que se organizavam; para o enfrentamento, entretanto as forças policiais não conseguiam se entender sob que plano executar para o embate vital, Higino havia traçado um plano exeqüível no que foi rejeitado por Arlindo Rocha, ao final Higino acabou ordenando o ataque que foi relato por Marilourdes Ferraz como segue: “Belarmino desistiu do ataque coordenado, puxou o relógio do bolso e disse que, quem fosse homem, subisse a serra.
 Escapasse quem Deus quisesse. E acrescentou São sete e quarenta e cinco. Fico aqui escutando a hora que a espoleta quebra em cima da serra”. E recorrendo a João Gomes de Lira relatamos a resposta dos outros comandantes da volante: “ Manuel Neto - venho de longe, com mais de 30 léguas, no encalço, para brigar, e quero é brigar. Já estou com o pé na embocadura da serra. Já vou subindo.” Já O anspeçada Euclides de Souza Ferraz também falou: - “Com meu pelotão da morte, também vou subindo a grande serra.” E o sargento Arlindo Rocha “Ah! Tá bom! Eu hoje também quero é almoçar bala!” Vendo Arlindo se adiantar, querendo tomar sua frente, Manuel Neto protestou:- “Não, Arlindo. Você sabe que a vanguarda é minha e não cedo o lugar.”

Manoel Neto

O combate se deu violento em todas as suas frentes, Antônio Ferreira combatia ora na vanguarda e ora na retaguarda do soldados, Higino por sua vez impediu que os bandidos fechassem a saída da garganta da serra impedindo um verdadeiro massacre. Nesse momento Manuel Neto teria sido atingido por vários balaços que cortaram as pernas e ali Lampião teria gritado: “Perdeu a fama hoje, cachorro azedo”. Perdendo as forças Manuel Neto conseguiu escapar da morte rolando serra a baixo sob a cobertura dos primos Antônio Capistrano e Euclides Flor e ainda do soldado Raimundo Barbosa, naquele momento a chuva de balas era enorme e as volantes em maior número de membros era fragorosamente derrotada sendo obrigada a abandonar suas posições de combate. O sargento Arlindo Rocha levou um disparo na boca que quase lhe destruiu a mandíbula, O curioso é que ele havia dito, antes de enfrentar os bandidos, que naquele dia "ia comer bala". Diante de um revés jamais imaginado os comandantes das forças volantes ordenaram a retirada imediata dos soldados, passavam das cinco da tarde e acabava ali um dos maiores combates da história do cangaço em Pernambuco.

Antonio Ferreira, irmão de Lampião ficou ferido de leve e Corisco abandonou temporariamente o cangaço após esse combate. Pelo lado das forças policiais dez soldados morreram e perto de 30 ficaram feridos. Já entre os cangaceiros, somente alguns feridos. O consolo para as forças volantes após o desastroso combate foi alimentar nos sertões o boato mentiroso da morte do irmão mais velho de Lampião, Antônio Ferreira, fato que só veria a acontecer em Janeiro de 1927 em um “sucesso” envolvendo o cangaceiro Luiz Pedro na fazenda Poço do Ferro em Floresta.

Higino Belarmino, Nêgo Gino, em foto de 1973

Após a memorável vitória sobre seus mais aguerridos perseguidores, Lampião se retira para a Fazenda do coronel Ângelo Gomes, o “Anjo da Gia”, ali urdiu um dos mais pitorescos episódios da história do cangaceira. O Rei do Cangaço mandaria uma ousada carta à maior autoridade do estado de Pernambuco. Ditada por Virgulino foi datilografada pelo próprio Mineiro Dias, na máquina de escrever portátil do mesmo que a colocou em um envelope branco com o ilustre destinatário: "Ex° governador de Pernambuco", o próprio seria o portador daquele importante documento escrito...

Lampião, O Governador do Sertão.

O então chefe de polícia Antônio Guimarães acabara levando a atrevida e ousada correspondência do audacioso Virgulino Ferreira para o Governador de Pernambuco Júlio de Melo. Na missiva o líder cangaceiro propõe à autoridade governamental a divisão do estado de Pernambuco em dois, sendo o próprio se auto-proclamado: Lampião – o Governador do Sertão. A referida carta havia chegado às mãos de Guimarães pelo próprio representante da Standard Oil, Mineiro Dias, solto sem pagamento de resgate, após o combate de Serra Grande. A divisão proposta por Virgulino, dividia o estado em dois: Lampião governaria o trecho de Rio Branco; atual Arcoverde; até o sertão e o governador: de Rio Branco até "onde bate a pancada do mar", a capital Recife. Àquela época em Rio Branco terminava a linha férrea da Great Western and Brazil Railway. O fato é que os jornais de então em muito contribuíram para o atrevimento, uma vez que estampavam quase que diariamente o título ao bandido, em função de suas incursões quase que impunes pelos sertões pernambucanos ao longo daqueles anos.

O governador Júlio de Melo teve poucos dias para se ocupar do desaforo, já no dia 12 de dezembro assume o governo, Estácio Coimbra que ato contínuo faz a nomeação para a chefia de polícia um jovem advogado, filho de uma família aristocrática da Zona da Mata, Eurico de Souza Leão, que teria a responsabilidade de responder à altura tamanha ousadia daquele que buscava desmoralizar as forças do estado. Começava ali uma urdida e bem engrenada campanha em Pernambuco para acabar com banditismo de Virgulino Ferreira.

CARTA DE UM GOVERNADOR PARA O OUTRO

Senhor governador de Pernambuco,

Suas saudações com os seus.

Faço-lhe esta devido a uma proposta que desejo fazer ao senhor para evitar guerra no sertão e acabar de vez com as brigas. (...) Se o senhor estiver no acordo, devemos dividir os nossos territórios. Eu que sou capitão Virgulino Ferreira Lampião, Governador do Sertão, fico governando esta zona de cá por inteiro, até as pontas dos trilhos em Rio Branco. E o senhor, do seu lado, governa do Rio Branco até a pancada do mar no Recife. Isso mesmo. Fica cada um no que é seu. Pois então é o que convém. Assim ficamos os dois em paz, nem o senhor manda seus macacos me emboscar, nem eu com os meninos atravessamos a extrema, cada um governando o que é seu sem haver questão. Faço esta por amor à Paz que eu tenho e para que não se diga que sou bandido, que não mereço. Aguardo a sua resposta e confio sempre.

Capitão Virgulino Ferreira Lampião, Governador do Sertão.

Consultas: Floresta uma Terra - um Povo; Leonardo Ferraz Gominho, Canto do Acauã; Marilurdes Ferraz e as Memórias do Grande João Gomes de Lira.

http://cariricangaco.blogspot.com

Lampião contra o mata sete


Autor: Archimedes Marques

Preço: R$ 50,00
BANCO DO BRASIL
Agência: 3088-0
Conta: 33384.0

Em nome de Elane Lima
Marques (Minha esposa).
E-mail
archimedes-marques@bol.com.br

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A morte do cangaceiro Jararaca



Em torno da morte do famoso cangaceiro Jararaca, tiveram curso várias versões curiosas, uma das quais foi recolhida por Leonardo Mota, o brilhante folclorista cearense, no interior do Rio Grande do Norte. 

Seguindo essa versão, Jararaca fora barbaramente assassinado por 

soldados da policia potiguar, depois de haver sido conduzido da Cadeia Pública ao cemitério de Mossoró, aonde tê-lo-iam obrigado a cavar a própria sepultura. Para não desfigurar o cunho pitoresco do episódio, preferimos transcrevê-lo como narra o apreciador sertanista.


Quando Lampião teve a certeza de que atravessaria livremente todo o Ceará, em cujo território já por vezes penetrara, erguendo vivas ao então Presidente do Estado, decidiu invadir o Rio Grande do Norte, para atacar a cidade de Mossoró. Seduziam-se os pingues recursos desse empório comercial servido por uma agência do Banco do Brasil. Saiu-lhe porém, o ano bissexto. 


A população de Mossoró, tendo a frente o valoroso prefeito Cel. Rodolfo Fernandes, reagiu bravamente ao assalto da cabroeira de Virgulino e dois sequazes deste tombaram baleados sem que os companheiros os pudessem conduzir.

Um dos feridos era Jararaca. Transportado para cadeia, solicitamente o medicaram. Era preciso que ele falasse sem que as autoridades o ouvissem. De fato, só depois de pensado, interrogado e até de fotografado, o Jararaca morreu. Mas ninguém o viu morto, pois o enterramento foi dado como feito alta noite. Uns vinte dias depois me dizia um sertanejo da terra potiguar: Jararaca morreu, mas não foi de morte morrida, foi de morte matada. E com a desventura de quem não tem papas na língua nem é jornalista de Governo, descreveu a cena macabra: Uma boca de noite, noite de lua, o Jararaca, algemado, foi conduzido da cadeia para o cemitério. Chegando lá rodeado de soldados mostraram-lhe uma cova, aberta lá num canto, quase fora do sagrado e lhe perguntaram se ele sabia para que era aquilo. Foi quando o Jararaca falou frocado e destemido: 

- Saber de certeza não sei não, mas porém estou calculando. Não é pra mim? Agora isso só se faz porque eu me vejo nesta circunstância, com as mãos inquiridas e desarmadas! Um gosto eu não deixo pra vocês: é de se gabarem de que eu pedi que não me matassem. Matem! Matem! Que matam, mas é um home. Fique sabendo que vocês vão matar o home mais valente que já pisou nesta... 

Mas não teve tempo de acabar de dizer o que queria. Por traz dele um soldado, naturalmente de combinação com os outros, deu-lhe um tiro de revólver na cabeça. A bala pegou bem no mole do pé do ouvido, lá nele. O Jararaca amunhecou das pernas e caiu, de olho virado. Aí, os soldados o empurraram com os pés pra dentro da sepultura. Só demoraram enquanto tiraram os ferros das algemas. Quando o cadáver rolou pra cova, fizeram luz e espiaram: o finado tinha caído de bruços. Mas, ninguém se ambarassou com isso: por cima do corpo ainda quente as pás de terra deram serviço. Calou-se o narrador para dizer, logo mais, entre compadecido e irônico, num misto de piedade e galhofa. Coitado do Jararaca! Tão valente na hora da morte, mas foi enterrado dando as costas pra este mundo velho, onde ele fez tanta estrepolia.

O nome do pernambucano Jararaca era José Leite de Santana. Ele tinha apenas 22 anos – nos registros policiais, contudo, aparece com 26. 

Mesmo com um rombo de bala no peito, conseguiu gargalhar durante uma entrevista na cadeia. O cabra de Lampião dizia que era por causa das “lembranças divertidas do cangaço”.
Lampião diz qui num corre
Mas correu lá da Matinha
Deu um chouto vergonhoso
E galope armofadinha!

Lampião diz qui num corre.
É mofino corredor!
Já correu de Mata Grande,
Qui poeira levantou.

Raul Fernandes.

http://blogdosanharol.blogspot.com.br/2009/07/cangaco-viii.html

Faca cega... Fé amolada


Antônio  Silvino e a Rolinha "menininha"

O célebre "Governador do Sertão" foi o cangaceiro que cumpriu maior pena, pelos crimes cometidos durante o ciclo do cangaço em que conviveu. 


Pagara pelos seus crimes 23 anos, dois meses e 18 dias de prisão, nas dependências imundas da velha Casa de Detenção do Recife.

Cliquem para melhor visualização e leiam abaixo um texto extraído do magnífico livro: "Antônio Silvino, o cangaceiro, o homem e o mito", página 238,  do renomado autor  e pesquisador, Sérgio Augusto de Souza Dantas.


Matéria sugerida pelo confrade: Ivanildo Alves  Silveira
Colecionador do cangaço, Membro  da  SBEC e do Cariri-Cangaço
Natal/RN

Extraído do blog: 
ampiaoaceso.blogspot.com

Por que Lampião tornou-se o símbolo do cangaço?


Por que Lampião tornou-se o símbolo do cangaço? 

Se não fosse por Lampião, provavelmente não estaríamos falando, hoje em dia, do cangaço da mesma forma.  Ele foi o mais importante de todos os bandoleiros, sem dúvida nenhuma. É só recordarmos dos outros líderes do cangaço.

http://victtor.com.br

Quem se lembra, na atualidade, de Jesuíno Brilhante? Ou de Sinhô Pereira, o primeiro chefe de Lampião? Em geral, apenas os estudiosos do tema.


Sinhô Pereira

Sinhô Pereira, por exemplo, teve uma atuação mais limitada, uma carreira episódica de crimes. Abandonou definitivamente o cangaço em 1922, foi para Goiás e depois, para Minas Gerais, onde mudou de vida. 
O cangaceiro Antonio Silvino

Antônio Silvino, o primeiro “rei dos cangaceiros” foi ferido no tórax em 1914, se entregou à polícia e foi preso. Já Lampião nunca abandonou o cangaço, nem se rendeu. Nunca foi preso. Acabou a vida como líder cangaceiro. Seu bando, no auge, em meados da década de 1920, chegou a contar com 120 homens. Chegou a ter vários subgrupos, que se uniam ao bando principal quando requisitados, uma espécie de “confederação” de cangaceiros, da qual ele era o chefe inconteste. Lampião atuou por mais de duas décadas, num território enorme, em sete Estados nordestinos.  Em seu bando, a partir da década de 1930, também havia mulheres, crianças e animais de estimação, o que deu outra aura para o cangaço.

Toda a estética associada ao cangaço nas artes plásticas e no cinema vem principalmente do período lampiônico, especialmente nos anos 1930, com uniformes e chapéus extremamente adornados (verdadeiros trabalhos artísticos). É bom lembrar que nos anos 1920 e 1930 a mídia estava mais desenvolvida, o rádio, as revistas, os jornais e o cinema divulgavam fotos e histórias de Lampião e seus asseclas. 
Benjamin Abrahão Botto

Benjamin Abrahão chegou a filmar Lampião e seu grupo.  Ou seja, há até mesmo imagens em movimento do “rei dos cangaceiros”. Os bandos lampiônicos tinham uma vida social que incluía música, danças, “esportes” e festas com muita bebida, o que também ampliou a imagem daqueles bandoleiros.  A ferocidade e agressividade dos bandidos dos grupos de Lampião eram notórias, e as práticas de torturas, “sangramentos” e assassinatos com requinte de crueldade eram muito mais significativos do que nos períodos anteriores, certamente.  

Seu Antonio da Piçarra - Coiteiro de Lampião

Não houve um cangaceiro tão inteligente e hábil “politicamente” como Lampião, alguém que conseguisse construir uma rede de apoio de coiteiros tão eficiente, que teve relações com tantos “coronéis” importantes e que atuou num território tão dilatado, por tanto tempo. Por estes e outros motivos, Lampião foi, incontestavelmente, o rei dos cangaceiros.

 http://www.brasildefato.com.br/node/6182

1938 - Angico


Autor: Paulo Medeiros Gastão
O livro pode ser adquirido através deste e-mail: 
paulomgastao@hotmail.com
Diretamente com o autor (não está a venda em livrarias). Preço: R$ 20,00 (vinte reais+ frete). 

http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

CORONEL NATÉRIO, OU O DILACERADO CORAÇÃO (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

CORONEL NATÉRIO, OU O DILACERADO CORAÇÃO 

Não haveria nem como falar dos bens, das infinitas riquezas, das contadas e acrescidas propriedades e posses do Coronel Natério Quintiliano Titó. Esse era o nome do homem, do coronel dono do mundo, protetor da jagunçada e de tristezas e solidões infinitas.

Na varanda do casarão, bem perto da escadaria de pedra sangrantemente escrava de onde se avistava uma paisagem num misto de mato, de bicho, de plantação e colheita, depois de tirar por um instante o inseparável charuto do canto da boca, chamou um dos jagunços, aquele em quem mais confiava, e foi falando coisas de se estranhar.

Num gosto de falar nessas coisa não, mas vosmicê é feliz Tibero? Se for pessoa que conhece essa coisa chamada felicidade num precisa me dizer cuma é não. Só me diga se num for, que aí vou comparar com a minha infelicidade. Arresponda homem!...

O jagunço baixou a cabeça, matutou pra responder, então o coronel entendeu tudo. O cabra era feliz e tava com vergonha de dizer qualquer coisa. Mas o trato havia sido esse, não podia reclamar do vergonhoso silêncio do outro.


Coçou a cabeça por cima do chapéu, baforou longamente, se adiantou um pouco mais do frontal do avarandado, fez sinal pro outro lhe acompanhar e continuou na sua tristeza de dá dó, até mesmo perante os sentimentos de um jagunço, de um pistoleiro de marca maior, e que já havia tocaiado uma verdadeira boiada de desafetos. E prosseguiu:

Se sua vida vale nada, cabra veio, a minha num acrescenta um tostão, nem uma nica que só trinca no bolso. Boiada tenho demais, terra que num sei mais nem adonde chega, dinheiro de fazer escada pras nuvem. E acho que até subi nessa nuvem, nesse alto da glória e poder, do mandar e nunca ser desdito, coisa que fiz sem pensar. E o que quero agora é somente descer sem poder...

Mas coronel, o sinhozinho... Mas o dono do mundo nem deixou o outro prosseguir, continuando ele mesmo a falar, mas não sem antes tirar do bolso um pequeno cantil e tomar uma golada de uma bebida forte que sempre trazia consigo. E prosseguiu no passo da lamentação:

Vosmicê mesmo tá como prova do poder que tenho até sobre as pessoas. Quem eu quero vem se ajoelhar a meus pés, pedir perdão até pelo nada feito, implorar um clemência, beijar até minhas botas. E tudo porque exigi que fosse assim, sempre lutei pra impor uma ordem através da ignorância, da arrogância, do medo e da brutalidade. Com meus inimigos não tenho nem muito a dizer, pois suas mãos enlameadas de sangue e o cano de sua arma sempre fumaçando e ainda quente dos disparos sabe quantos já mandei por terra. Mas pruquê tudo isso, meu Deus? Agora me penitencio e pergunto pruque jamais parei pra pensar que um dia ia envelhecer e num momento como esse me penitenciar feito um cristão arrependido. E como tô cabra veio, e como tô...

Mas o senhor, meu sinhozinho, ainda tem tempo de... E o jagunço foi novamente interrompido pelo coronel dono do mundo. Se o matador tivesse oportunidade de olhar nos olhos do patrão estranhamente veria uma feição mais ruborizada, cheia de ressentimentos, e também um olhar cansado e distante, já sem o brilho voraz que era uma de suas marcas. E o impensável é que veria ainda lágrimas mansamente escorrendo, desaguando pela fronte até se espalhar pelos vastos bigodes. E com voz trêmula o homem continuou na sua palavra.

Vosmicê, bem sei, tem mulher e filhos. Tem uma famia, bem sei. Também tenho muitos filhos e netos, mas num sei se tenho famia. Agora todos eles tão na cidade grande na grã-finagem, no bem bom, gastando de minhas posse, do que consegui juntar inté agora. Mas juro que nenhum sabe o que fiz pra chegar adonde cheguei e ter o que tenho. Sabe apenas da fonte rica que tem, mas num sabe a custa de quantas bataia, quantas lutas, mortes e perseguições, tive de enfrentar pra construir esse império de nada...

Mas o senhor... E não foi adiante porque o coronel não deixou. Este prosseguiu dizendo que sabia que os seus dias estavam terminando, nada mais lhe daria felicidade. E mandou que o jagunço escolhesse o que quisesse como forma de pagamento por tudo que já havia feito, ainda que de forma tão cruel. Escolhesse porque com os outros daria o pagamento em moeda.

O jagunço disse que não queria nada não, apenas continuar ao lado do seu sinhôzinho até quando ele vivesse. Então o velho senhor dono do mundo se virou e pediu que ele trouxesse seus netinhos até ali. O cabra não entendeu nada, até pensou que tinha de ir à capital buscar a filharada do patrão. Perguntou quando poderia partir, e então o velho ensaiou um sorriso.


Que nada homem, que nada. Deixe aqueles que dizem de sangue do meu sangue por lá. Eles conhecem bem quem sou e onde vivo. Eu falo dos seus filhos, que agora quero ter como meus netos. Vá logo homem, vá logo e traga também a mulher, o cachorro, e tudo. Aqui agora será sua moradia.

Nos outros, buscava uma tardia alegria. Porém difícil demais de obter diante de tantos remorsos, arrependimentos, tristezas infinitas. Mas um dia, assim que um molecote subiu no seu colo, ele fez um carinho e sentiu contentamento de verdade. Um dos últimos gestos afetivos daquela velha pedra dilacerada.

(*)Poeta e cronista