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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

MEMORIAL LUIZ GONZAGA - RECIFE -PE

Foto: MEMORIAL LUIZ GONZAGA - RECIFE-PE

Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço Kydelmir Dantas

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

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Joca do Brejão e a Saga dos Terésios

Por: João Macedo
Foto
Bosco André e Manoel Severo ladeando Joca Coelho, pai do autor deste artigo e neto do lendário Joca do Brejão.

No século XVIII, ainda em sua primeira metade, entre os primeiros colonizadores do Cariri, inscreve-se um alagoano de nome José Paes Landim. Foi ele o fundador do Engenho de Santa Teresa, encravado em terras na ribeira do rio Salamanca, entre Missão Velha e Barbalha. De seu casamento com Geralda Rabelo Duarte origina-se a numerosa prole designada de Terésios pelo historiador Joao Brigido. O antigo Engenho de Santa Teresa contempla várias propriedades rurais, todas historicamente orientadas para a cultura de cana de açúcar e fabricacão de rapadura. São lugares ainda hoje facilmente visitados , bastando sair da rodovia que liga Missao Velha à Barbalha, e pegar à direita estrada carrossal que se inicia no sitio Carnaúba em direção à Barbalha. Passando-se pela vila de Santa Teresa, margeando um verde vale, adiante alcançamos o Brejão. Neste território viveu no inicio do século XX o coronel João Raimundo de Macedo, conhecido como Joca do Brejão.

Filho de D. Jacinta Maria de Jesus, a D. Iaiá, com Raimundo Antônio de Macedo (Mundoca). De seu primeiro casamento, D. Iaiá teve como segundo filho o legendário coronel Antônio Joaquim de Santana (coronel Santana), que morava distante dali, ou seja, na Serra do Mato, nas bordas da chapada do Araripe. Com a idade avançada, o coronel Santana voltou ao vale-matriz dos Terésios, onde veio a falecer em casa ainda hoje existente, e que pode ser facilmente avistada transitando-se por aquela mesma rodovia caririense.

Por sua posição geográfica privilegiada, espécie de paraíso entre o Cariri e o sertão, e pelas conhecidas características pessoais do coronel Santana, a Serra do Mato se constituiu em local de visita assídua de Lampião. Aliás, as incursões do bandoleiro no Cariri costumavam ser nas escarpas da chapada e no lado oriental da região, saindo de Porteiras, Brejo Santo, passando por Milagres, Missão Velha, pelos lados da Cachoeira, e as bandas da Aurora. É possível, portanto, que o líder maior do cangaço jamais tivesse passado pelo Brejão do coronel Joca, um vale mais densamente povoado, na vizinhança de Barbalha e da movimentada Juazeiro.

Com a tomada de Missão Velha por seu irmão em 1901, o coronel Joca vislumbrou assumir o comando político de Barbalha e assim o fez em 1906, desbancando o coronel Neco Ribeiro, sobrinho de Pinto Madeira, em uma disputa que durou oito horas. Relatos dos mais antigos apontam o coronel Joca como homem de notável postura moral. Assim, ainda que mais jovem do que o coronel Santana, e possuidor do mesmo espirito tenaz, conta-se que em muitas situações atuou como orientador do irmão, procurando regulá-lo em seus excessos. O coronel Joca foi um dos signatári os do "pacto dos coronéis" em 1911, embora não tenha comparecido pessoalmente, enviando como representante seu filho José Raimundo de Macedo. Ocorrida em Juazeiro, sob os auspícios do Padre Cícero Romão Batista, essa reuniao, como assinalado por Joaryvar Macedo, em seu "Império do Bacamarte", foi utópica na medida em que previa um conjunto de posturas e ações incompatíveis com o espirito político da época. É tanto que logo após sua realização, o coronel Joca veio a se confrontar com o próprio juiz que selou o pacto desta reunião, por este ter assumido posições que se chocavam com a estrutura de poder em Barbalha.

Em que pese a conturbada época, de inicio do século XX, quando o mandonismo e a forca imperavam, emanaram dos Teresios personalidades no mundo das letras e da cultura, como o destacado filho do coronel Santana, o desembargador Juvêncio Santana, que veio a ser afilhado e mentor do Padre Cicero, assim como deputado e secretário do Interior e Justica do Ceará. Criterioso e equilibrado, certa vez o jurista foi em Fortaleza instado a explicar a atuação de seu pai como coiteiro de cangaceiros. Argumentou que a um proprietário rural restavam somente duas op ções para evitar receber um bando em sua casa: ou abria fogo contra os cangaceiros, o que não era recomendável, visto ser atividade de risco, gerando grande desassossego para a familia, ou o governo colocaria uma tropa oficial na porteira de cada fazenda, o que seria impraticável. Outro destacada personalidade originária dos Teresios foi o professor Antônio Martins Filho, reitor e fundador da Universidade Federal do Ceará. Apesar de ter sido oficialmente registrado como nascido no Crato, o reitor teve como local de nascimento exatamente a Santa Teresa. Em seu livro "Memórias - menoridade (Imprensa Universitária-1995)", registrou sua infancia no Cariri e a ligacao de seus pais com o coronel Joca: "o mundo em que anteriormente vivíamos, podia ser muito limitado, mas era limpo e, principalmente cordial. De fato, conhecíamos somente o sitio Santa Tereza, o Brejão do seu Joca e a cida de de Barbalha, em que todos eram conhecidos e amigos". O bisavô de Martins Filho chamava-se João Antonio de Jesus, conhecido como o Major Janjoca, dono da maior parte do sítio Santa Teresa.

A extensa distribuição dos Terésios no Cariri e o senso de pertencimento a um mesmo tronco ancestral, conferiram ao clã uma notável articulação afetiva, traduzida tanto na sucessão de casamentos entre parentes, quanto no apoio mútuo e incondicional em situações e conflitos em que algum membro esteve envolvido. Cite-se o caso em que a matriarca Marica Macedo de Aurora, quando de seu conflito em 1908 com o chefe político daquele município, Totonho Leite, retirou-se com a família para Missão Velha em busca de apoio dos coronéis Joca e Santana. O primeiro marido de Dona Marica, Cazuza Ma cedo, era irmão do pai do coronel Joca e padrasto do coronel Santana, Raimundo Antônio de Macedo (Mundoca) e também irmão da sogra do coronel Santana. Ocorre que quando de seu percurso, fazendo pernoite no sitio Taveira, entre Aurora e Milagres, Dona Marica acabou sendo vitima do cerco dessa propriedade pelas forcas governistas, que combatiam os Santos e Paulinos, desafetos de Totonho Leite e que estavam ali abrigados sob proteção do coronel Domingos Furtado. Como resultado do chamado "fogo do Taveira", morreram várias pessoas, incluindo o filho mais novo de Dona Marica. Exaltados com a ocorrência cruel contra sua parente, o coronel Joca e o coronel Santana juntaram-se ao coronel Domingos Furtado de Milagres e o major Zé Inácio do Barro, e neste município reuniram seiscentos homens, prontos para aniquilarem Aurora, caso o presidente Nogueira Acioli nao retirasse de imediato as forças que ali permaneciam. As forças foram retiradas, mas mesmo assim Aurora veio a ser invadida sob o comando do major Zé Inácio, sucedendo-se o domínio da cidade pelo coronel Cândido Ribeiro Campos (Cândido do Pavão) e a liderança feminina de Marica Macedo, que veio a falecer em 1924.

Percebe-se quão movimentado e contraditório foi o contexto histórico em que viveram os Terésios no início do século passado. Os acontecimentos dessa época tiveram influência profunda na geopolítica da região.
João Macêdo " Médico
Professor da UFC - Universidade Federal do Ceará

Web site: cariricangaco.blogspot.com/  Autor:   João Macêdo

http://www.cangacoemfoco.jex.com.br/historias+sertanejas/joca+do+brejao+e+a+saga+dos+teresios

Ambição, Injustiça, Violência, Traição e Morte...


Nascido em 1898, no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, Pernambuco, Virgulino Ferreira da Silva viria a transformar-se no mais lendário fora-da-lei do Brasil. O cangaço nasceu no Nordeste em meados do século 18, através de José Gomes, conhecido como Cabeleira, mas só iria se tornar mais conhecido, como movimento marginal e até dando margem a amplos estudos sociais, após o surgimento, em 1920, do cangaceiro Lampião, ou seja, o próprio Virgulino Ferreira da Silva. Ele entrou para o cangaço junto com três irmãos, após o assassinato do pai.

Com 1,79m de altura, cabelos longos, forte e muito inteligente, logo Virgulino começou a sobressair-se no mundo do cangaço, acabou formando seu próprio bando e tornou-se símbolo e lenda das histórias do cangaço. Tem muitas lendas a respeito do apelido Lampião, mas a mais divulgada é que alguns companheiros ao ver o cano do fuzil de Virgulino até vermelho, após tantos tiros trocados com a volante (polícia), disseram que parecia um lampião. E o apelido ficou e o jovem Virgulino transformou-se em Lampião, o Rei do Cangaço. Mas ele gostava mesmo era de ser chamado de Capitão Virgulino.

Lampião era praticamente cego do olho direito, que fora atingido por um espinho, num breve descuido de Lampião, quando andava pelas caatingas, e ele também mancava, segundo um dos seus muitos historiadores, por conta de um tiro que levou no pé direito. Destemido, comandava invasões a sítios, fazendas e até cidades. Dinheiro, prataria, animais, joias e quaisquer objetos de valor eram levados pelo bando. "Eles ficavam com o suficiente para manter o grupo por alguns dias e dividiam o restante com as famílias pobres do lugar", diz o historiador Anildomá Souza. Essa atitude, no entanto, não era puramente assistencialismo. Dessa forma, Lampião conquistava a simpatia e o apoio das comunidades e ainda conseguia aliados.

Anildomá Souza
  
Os ataques do rei do cangaço às fazendas de cana-de-açúcar levaram produtores e governos estaduais a investir em grupos militares e paramilitares. A situação chegou a tal ponto que, em agosto de 1930, o Governo da Bahia espalhou um cartaz oferecendo uma recompensa de 50 contos de réis para quem entregasse, "de qualquer modo, o famigerado bandido". "Seria algo como 200 mil reais hoje em dia", estima o historiador Frederico Pernambucano de Mello. Foram necessários oito anos de perseguições e confrontos pela caatinga até que Lampião e seu bando fossem mortos. Mas as histórias e curiosidades sobre essa fascinante figura continuam vivas.


Uma delas faz referência ao respeito e zelo que Lampião tinha pelos mais velhos e pelos pobres. Conta-se que, certa noite, os cangaceiros nômades pararam para jantar e pernoitar num pequeno sítio - como geralmente faziam. Um dos homens do bando queria comer carne e a dona da casa, uma senhora de mais de 80 anos, tinha preparado um ensopado de galinha. O sujeito saiu e voltou com uma cabra morta nos braços. "Tá aqui. Matei essa cabra. Agora, a senhora pode cozinhar pra mim", disse. A velhinha, chorando, contou que só tinha aquela cabra e que era dela que tirava o leite dos três netos. Sem tirar os olhos do prato, Lampião ordenou ao sujeito: "Pague a cabra da mulher". O outro, contrariado, jogou algumas moedas na mesa: "Isso pra mim é esmola", disse. Ao que Lampião retrucou: "Agora pague a cabra, sujeito". "Mas, Lampião, eu já paguei". "Não. Aquilo, como você disse, era uma esmola. Agora, pague."

Criado com mais sete irmãos - três mulheres e quatro homens -, Lampião sabia ler e escrever, tocava sanfona, fazia poesias, usava perfume francês, costurava e era habilidoso com o couro. "Era ele quem fazia os próprios chapéus e alpercatas", conta Anildomá Souza. Enfeitar roupas, chapéus e até armas com espelhos, moedas de ouro, estrelas e medalhas foi invenção de Lampião. O uso de anéis, luvas e perneiras também. Armas, cantis e acessórios eram transpassados pelo pescoço. Daí o nome cangaço, que vem de canga, peça de madeira utilizada para prender o boi ao carro.

Em 1927, após uma malograda tentativa de invadir a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, Lampião e seu bando fugiram para a região que fica entre os estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia. O objetivo era usar, a favor do grupo, a legislação da época, que proibia a polícia de um estado de agir além de suas fronteiras. Assim, Lampião circulava pelos quatro estados, de acordo com a aproximação das forças policiais.


Numa dessas fugas, foi para o Raso da Catarina, na Bahia, região onde a caatinga é uma das mais secas e inóspitas do Brasil. Em suas andanças, chegou ao povoado de Santa Brígida, onde vivia Maria Bonita, a primeira mulher a fazer parte de um grupo de cangaceiros. A novidade abriu espaço para que outras mulheres fossem aceitas no bando e outros casais surgiram como Corisco e Dadá e Zé Sereno e Sila. Mas nenhum se tornou tão célebre quanto Lampião e Maria Bonita, que em algumas narrativas é chamada de Rainha do Sertão.

 
Benjamim Abraão, Lampião e Maria Bonita

Da união dos dois, nasceu Expedita Ferreira, filha única do lendário casal. Logo que nasceu, foi entregue pelo pai a um casal que já tinha onze filhos. Durante os cinco anos e nove meses que viveu até a morte dos pais, só foi visitada por Lampião e Maria Bonita três vezes. "Eu tinha muito medo das roupas e das armas", conta. "Mas meu pai era carinhoso e sempre me colocava sentada no colo pra conversar comigo", lembra dona Expedita, hoje com 75 anos e vivendo em Aracaju, capital de Sergipe, Estado onde seus pais foram mortos. 
  
Na madrugada de 28 de julho de 1938, o sol ainda não tinha nascido quando os estampidos ecoaram na Grota do Angico, na margem sergipana do Rio São Francisco. Depois de uma longa noite de tocaia, 48 soldados da polícia de Alagoas avançaram contra um bando de 35 cangaceiros. Apanhados de surpresa - muitos ainda dormiam -, os bandidos não tiveram chance. Combateram por apenas 15 minutos. Entre os onze mortos, o mais temido personagem que já cruzou os sertões do Nordeste: Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião.  
  
Mesmo após mais de 70 anos depois da sua morte, Virgulino Ferreira da Silva, aquele menino do sertão nordestino que se transformou no temido Lampião, ainda não foi esquecido. E sua extraordinária história leva a crer que nunca o será. 

Matéria baseada na edição 135 da revista Os Caminhos da Terra, por David Santos Jr. e em relatos de Gervásio Aristides da Silva (Pernambuco), Rosalvo Joaquim (Sergipe) E Lampião, Rei do Cangaço, de Eduardo Barbosa (fotos).

http://www.gentedanossaterra.com.br/lampiao.html
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Curador do Cariri Cangaço Manoel Severo é recebido em AURORA

Por: Jose Cícero

Com vistas ao fechamento oficial da programação do Cariri Cangaço deste ano em Aurora, assim como relativa aos demais  parceiros caririenses, o secretário de cultura e turismo do município recebeu na tarde do último sábado(24) em sua residência a equipe da curadoria do CC, capitaneada pelo seu idealizador  Manoel Severo. 

Além de AURORA o curador do evento, visitará igualmente neste final de semana todos os municípios que sediarão a iniciativa tais como: Barro, Porteiras, Missão Velha, Barbalha, Juazeiro do Norte e Crato. Severo também visitou durante a manhã de sábado Lavras da Mangabeira, que anteriormente havia realizado uma avant premier. 

De Aurora, o curador do CC se dirigiu para a cidade do Barro, seguindo para Missão Velha, Porteiras e, finalmente Barbalha, Juazeiro e Crato no domingo quando manterá contatos com prefeitos e secretários de cultura.



SEMINÁRIO DE AURORA

Agora na sua 3ª edição em Aurora e a 4ª na região, o  seminário CC  vem se configurando como um dos mais importantes e participativos eventos temáticos e culturais, não somente do Cariri, como de todo o  Nordeste Brasileiro. E, seguramente, o primeiro em se tratando da temática sertaneja e do cangaço lampiônico, conforme ressaltou o secretário de Aurora, o professor José Cícero.

Com sua estréia  ocorrida ainda em 2010  o município de Aurora  abordara o tema "Os 83 anos da passagem de Lampião e seu banda pelo território aurorense" cuja palestra foi proferida pelo secretário José Cícero. Em 2011 " A Trama da Ipueiras d'Aurora com vistas à invasão de Mossoró" abordada pelo memorialista  de Missão Velha, João Bosco André. O tema deste ano será: "Marica Macedo do Tipi: Sertaneja d'Aurora, matriarca do Cariri", a carg do Dr. Vicente Landim de Macedo(neto da homenageada) atualmente residente na capital federal.

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O evento está marcado para ocorrer no próximo dia 20 de setembro, às 19 h no auditório da Escola Técnica no Araçá. A prefeitura, por meio da sua secretaria de cultura e turismo está desde já convidando toda a população para participar do acontecimento. Segundo a curadoria do evento, cerca de 150 pesquisadores do país inteiro e até o exterior deverão está participando do Cariri Cangaço este ano. Familiares de Marica Macedo e do coronel Izaías Arruda também estarão em Aurora participando do seminário.

Este ano, o CC homenageará várias autoridades da região. Em Aurora por exemplo, receberão as condecorações: o prefeito Adailton Macedo, o dr. Vicente Landim, além da srª Orlandina Arruda(filha do cel. Izaías Arruda) e o dr. Marcolino Lira.

José Cícero - Conselheiro Cariri cangaço
Pesquisador e escritor
Secretario de Cultura de Aurora

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A morte de Antônio Rosa

Por: Ivanildo Alves Silveira

Antonio Rosa, ainda garoto, foi deixado na casa dos pais de Lampião, por retirantes que vinham de Alagoas, com destino a Juazeiro do Norte... O menino foi criado pelos pais, do futuro Lampião.


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Zé Saturnino, inimigo número 1 de Lampião

Após o conflito dos Ferreiras com Zé Saturnino e os Nogueiras, Antonio Rosa tomou as mesmas dores e reagia junto com Virgulino, Livino e Antonio. Posteriormente, acompanhou-os no cangaço, no princípio de 1924, Antonio Rosa chega ao povoado de São João do Barro Vermelho e conversando com um cidadão chamado "Constantino", esse mostrou ao cangaceiro uma belíssima arma, e fez naquele o desejo de possuí-la. Por não querer se desfazer da arma, isso foi o suficiente para que, mais tarde, Antonio Rosa matasse o pobre homem.

Esse assassinato  abalou todas as pessoas do local São João do Barro Vermelho, por conseguinte, Antonio Rosa se dirigiu para o Estado da Paraíba, onde se juntou a Livino Ferreira e Lampião. 

Lampião e Antonio Ferreira

Surgiram os boatos, que a população de S. João do Barro, estava armada para  matar o rei do cangaço, quando o mesmo viesse visitar aquele local, porque ele tinha muitos amigos no vilarejo, inclusive sua comadre  dona Especiosa.

Lampião foi informado por gente da localidade, que a família do morto estava querendo se vingar de "Antonio Rosa". Uma pessoa que atendia pelo nome  de Afonso Gomes, procurou um primo de Lampião, na vila de São Francisco, o basto Paulo Barbosa  e os dois rumaram ao sertão paraibano, para se encontrar com o chefe dos cangaceiros, tendo ouvido desse, o seguinte: "Que negócio é esse? Vocês tão se armando para me matar e vem aqui, onde estou? "Afonso retrucou, dizendo: "Quem está se armando é a família de Constantino para matar Antonio Rosa, em vingança!!". 

Ao ouvir  o diálogo, Livino  se afastou, e conversou com os dois, tendo dito: "-Diga a família do finado que por dez mil réis nunca mais Antonio Rosa bota os pés por lá".

Alguns dias depois, o grupo cangaceiro chega a Pernambuco, e vai direto para a região da Serra Vermelha, na Fazenda Situação, pertencente a Francisco Baião. A noite vinha caindo, e, Antonio Rosa foi procurar se deitar na varanda da casa. Quando estava armando a rede colocando o punho no armador, Livino Ferreira e um cabra chamado Enéas, pela janela que dava acesso à varanda, detonaram suas armas nas costas do velho parceiro, que caiu sem soltar um gemido. Na manhã seguinte, a vizinhança fez seu sepultamento a umas vinte braças de distância da casa.

Antonio Rosa Ventura morreu no dia 08 de julho de 1924.

Obs: texto extraído do livro "Lampião, nem herói nem bandido - a história", pgs 72/74, do pesquisador Anildomá Willians de Sousa.

Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Natal/Rn.

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A TROCA DE SEXO

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

A TROCA DE SEXO

Isso aconteceu - de verdade verdadeira - lá pelas bandas da Cantirana, um dos lugares mais distantes e escondidos dos sertões nordestinos, mas que com a chegada da modernidade via internet e tudo mais, nada ficou a dever aos centros urbanos mais avançados. Basta ver a cocotagem e os modismos. Até comércio com nome difícil se alastrou por lá, a exemplo dos sempre abarrotados “Shoppis Centis Jiboia Dourada” e “Sexis Shopis Calango Aceso”.

Pois foi na Cantirana, em meio a uma família das mais tradicionais da região, que se deu o famoso caso da troca de sexo. E mesmo quando ainda não estava tão na moda como agora está essa história de mexer nas partes de baixo, ou vergonhas encobertas, como se dizia por lá. Pois vou contar como foi, e segundo ouvi de um cabra lá de Serrinha.

Para não fazer rodeios, bom que se diga logo que a dita troca de sexo envolveu alguém que até então era tido e havido acima de qualquer suspeita. Homem de reconhecida reputação, pai de família e de netos, de farto poder econômico, de conceito dos mais elevados na sociedade cantiranense. Difícil de acreditar que um senhor com tais características, na casa de seus sessenta anos, fosse se envolver com troca de sexo. Enfim.

Mas se envolveu e quase o mundo acaba por causa disso. Não só a cidade, mas a região inteira parou estupefata com o fato, com a desavergonhada história daquele até então inatacável senhor e sua mudança de sexo. Contudo, há também de se dizer que tudo começou por culpa do próprio homem, que já naquela idade e querendo aflorar seu outro lado que se mantinha comportadamente escondido.

Tudo começou depois de uma conversa que ele manteve, em confissão, com o vigário do lugar. Acostumado a usar o artifício do confessionário para falar fofocas e pecaminosidades com o desavergonhado do padre, principalmente sobre as safadezas desenfreadas da rapaziada, acabou soltando uma frase que deixou o outro de cabelo em pé. Disse que era triste ver a sexualidade tão aflorada e ele não poder aproveitar nada daquilo. Por isso mesmo que não suportava mais e ia mudar de sexo.


Ao ouvir isso, o padre quase engasgou. Sem acreditar no que ouvia, emudeceu de vez e nem respondeu à despedida do outro. Não procurou entender o contexto das palavras e se pôs a martelar que o amigo havia acabado de assumir aquilo que ninguém poderia imaginar. Depois de velho, sair do armário e mudar de sexo. Era demais. E não suportava, como sempre acontecia, guardar em segredo aquela confissão. Tinha de contar a alguém. E deu de cara logo com a beata mais fofoqueira da paróquia.

Após ouvir a fofoca, por três vezes a beata ameaçou enfartar, começou a se abanar de cima a baixo, sentou e levantou, e logo resolveu tocar adiante a novidade, porém jurando por tudo na vida que jamais contaria de qual boca havia saído a nova. Desse modo, o fogo já estava aceso, a fumaça se espalhava por todo lugar, e logo viria incêndio. E certamente seria um incêndio dos maiores.

Verdade é que da boca da beata o senhor já saiu com fama ainda pior. Um velho safado, pai de família e que agora se revelava querendo não só boiolar, mas afeminar de vez. De janela a janela a situação foi ficando ainda mais feia para o seu lado. Já era chamado de florzinha, viado velho, quenga velha, dentre coisas ainda mais escabrosas. E a coisa ficou esquisita mesmo quando a conversa chegou aos ouvidos dos familiares.

Até esse momento, mesmo estranhando que algumas pessoas o olhassem sorrindo, com zombaria e até dizendo palavras que não conseguia entender, o homem nada sabia daquela conversa envolvendo o seu nome. Lembrava apenas que havia dito ao padre que estava pensando em usar das armas da medicina e fazer um implante de um órgão sexual muito mais novo e mais potente, vez que estava perdendo a virilidade e precisava estar preparado para qualquer circunstância diante daquela moçada fogosa.

Pois bem. Quis dizer, e disse uma coisa, e o padre ouviu outra, ou deu uma maldosa interpretação ao escutado. Se ouvisse apenas que o safado do amigo dizia que pensava trocar sua ferramenta velha por uma nova, a coisa não tinha tomado a proporção que tomou. Assim, mudar de sexo significa simplesmente trocar aquilo que tinha como imprestável por um membro potente e jovial.

Partindo de uma brincadeira, pois sabendo da impossibilidade de isso acontecer, o homem acabou chamando para si toda a desgraça do mundo. A esposa arrumou-lhe a mala no mesmo instante que soube da história; os filhos juraram nunca mais olhar na sua cara; um neto disse que dali em diante não ia mais estudar de jeito nenhum; a vizinhança fechou-lhe a porta; toda a cidade ecoou em alarde aquele prato cheio.

Então ele se lembrou de onde poderia ter partido aquela conversa. Saiu correndo em direção à igreja, e de arma em punho fez o padre seguir até a porta e de alto-falante na mão trazer a verdade à tona. Aí sim, nesse momento uma grande verdade foi revelada, pois o padre, além de pedir perdão pelo mal entendido, acabou confessando que na realidade aquele sonho de troca de sexo era seu, e de mais ninguém.
Ele sim, que não suportava mais ser padre se por dentro era uma freira, uma sacerdotisa, uma libélula esvoaçante...

(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.

Poeta e cronista
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terça-feira, 27 de agosto de 2013

O documentário que faltava por aqui

De Maurice Capovilla  "O último dia de Lampião" 1975
 

Sinopse:

"Depoimentos documentais somam-se à reconstituição das últimas 24 horas de Virgulino Ferreira, o Lampião.

Com narração de Sérgio Chapelin registram-se imagens e vozes de soldados da Volante e, também, de cangaceiros sobreviventes da emboscada (ocorrida em 28 de julho de 1938), na qual morreram Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros.

O cineasta pergunta a todos eles: 'onde você estava aquele dia?'. As filmagens contaram o episódio narrado, tanto sob o ponto de vista dos cangaceiros, quanto do ponto de vista dos 'macacos' (Soldados da Volante).

Começa em Piranhas, Alagoas, onde a tropa iniciou sua movimentação, até montar a emboscada na grota de Angico. Os sobreviventes foram levados aos locais onde tudo se passou. Atores e populares (alguns parentes dos envolvidos no conflito) atuaram.

A Polícia Militar de Alagoas forneceu o armamento e soldados da PM." , sinopse extraída do livro 'Cangaço, o Nordestern no Cinema Brasileiro', org.: Maria do Rosário Caetano, Avathar Soluções Gráficas, DF, 2005.)

Observações do Diretor

O tema do cangaço chegou à Blimp Film por acaso. *Um dentista, pesquisador do cangaço, era conhecido do diretor de produção da Blimp. Por isso, ele nos deixou, para nossa avaliação, enorme texto com dados importantes dos diversos bandos de cangaceiros, especialmente do bando de Lampião. O Guga (Carlos Augusto de Oliveira) me deu o material para eu dar uma olhada. Eram informações gerais e dispersas, abarcando um amplo universo dos conflitos do cangaço.

Achei interessante, pois a pesquisa citava nomes de cangaceiros e suas localizações no espaço geográfico do Nordeste. Entre eles, muitos se encontravam no coito de Angico por ocasião da morte de Lampião.

Propus então realizar um programa que centrasse o foco nos últimos dias de Lampião, isto é, as últimas 24 horas do bando. O Guga topou na hora e o Boni (José Bonifácio Oliveira Sobrinho, irmão dele e executivo da Globo) analisou e aprovou o projeto. Necessitávamos da aprovação dele, uma vez que o orçamento para esse filme extrapolava custos habituais.

'O último dia de Lampião' foi realizado em duas etapas. Na primeira viajei com a equipe precursora e subi de Salvador, passando por Alagoas e Sergipe, Até chegar ao Recife. Fui encontrando e captando depoimento dos cangaceiros. Em Alagoas encontrei dois soldados da volante, Abdon e Panta - este foi o militar que matou Maria Bonita.


 Soldados Abdon e José Panta de Godoy

Em Piranhas, consegui o depoimento dos traidores, Joca Bernardes e Durval, o irmão de Pedro de Cândido, os dois coiteiros de Lampião, que nunca tinham confessado a traição.

João de Almeida Santos, o Joca Bernardes.

Voltei a São Paulo com o material, montei e segui para a segunda etapa, que consistia em reconstituir, a partir das entrevistas feitas, os fatos que culminaram com a morte de Lampião. De grande ajuda foi Cila, mulher de José Sereno - que estava hospitalizada em São Paulo. O depoimento dela tem valor de confirmar informações contraditórias. Cila era a melhor amiga de Maria Bonita, era também a figurinista do bando e foi a nossa também. Os chapéus foram confeccionados por Dadá, mulher de, na Bahia.

 
Soldado João Bengo

Enfim, tive sorte de encontrar testemunhas oculares da história, que deram a credibilidade necessária à reconstituição dos fatos (...)'

- Trecho de depoimento de Maurice Capovilla, extraído do livro 'Cangaço, o Nordestern no Cinema Brasileiro', org.: Maria do Rosário Caetano, Avathar Soluções Gráficas, DF, 2005."

"Depoimentos dos remanescentes do grupo residentes na capital paulistana que se achavam presentes no dia da morte de Lampião e daquele que deu o tiro inicial, Abdon, nunca antes entrevistado".

Vamos ao deleite...


Fonte: Canal do excelente DocsPrimus no You Tube.
Texto: www.cinemateca.gov.br
Fotos: DocsPrimus e Prints do vídeo.

*O dentista em questão é nosso estimado amigo Antonio Amaury

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Outra leva de novidades...



...E relançamentos que compõem a mini bienal do maior encontro de cangaceirólogos do Brasil

Lampião, morreu assim pela 4ª vez

Lampião foi envenenado?

Esta pergunta tem sido feita com muita constância pelos pesquisadores interessados na vida de Lampião. E a resposta foi dada pelo médico Dr. Leandro Cardoso duramente apresentação dos resultados de seus estudos a este respeito, através das analises feitas sobre os prováveis venenos utilizáveis à época, e seus respectivos efeitos nas vítimas, contribuindo assim para elucidar as questões levantadas a este respeito.

O mesmo trabalho encontra-se transcrito na integra no presente livro, e foi apresentado em primeira mão na 2ª edição do Cariri-Cangaço.



Alguém traiu Lampião? A entrevista feita com Joca Bernardo, traz a resposta a esta pergunta, dada de viva voz pelo mesmo ao autor deste livro, reincidente entre os estudiosos do assunto.

• Valor de lançamento : R$ 45 (Quarenta e cinco reais)

"Dé Araújo" será imortalizado por Geraldo Ferraz


Trata o presente trabalho, em especial, da biografia, resumida, de um cidadão sertanejo, que, achando-se injustiçado, resolveu pegar em armas para executar sua vingança. Na sua espetacular trajetória de vida, tornou-se cangaceiro – ao ingressar no grupo liderado pelo Sinhô Pereira incorporou-se a Força Pública de Pernambuco, virou desertor, reassumiu as fileiras do cangaço – mais uma vez sob o comando do Sinhô Pereira e, logo  a seguir, ficou sob a chefia do temível Lampião -, até o momento que não mais compactou com os bandoleiros, e, finalmente, sendo convencido por familiares e amigos, a tentar a sorte no Sudeste brasileiro, se incorporou no Regimento de Cavalaria da Força Pública de São Paulo e tornou-se um militar exemplar.

• Valor de lançamento R$ 40 (Quarenta Reais).

Aninha e Paulo resgatam um capitulo perdido



Sítio dos Nunes de Flores, vive Saga cangaceira é o fruto da parceria entre a professora e pesquisadora Ana Lúcia Granja e Paulo Medeiros Gastão.

Um relato de crimes praticados por cangaceiros no distrito de Sítio dos Nunes, Estado de Pernambuco. O Processo é instaurado na Comarca de Flores e se passa no ano de 1928. 

Este documento encontra-se na integra, sendo o primeiro a ser lançado para deleite dos leitores do cangaço em território nacional.

Lembramos aos aficionado do cangaço que a tiragem da 1ª edição é limitada. Sendo de agradável leitura e trazendo fatos nunca descritos desde o primeiro livro que retrata o cangaço.

• Valor de lançamento R$ 15,00 (Quinze reais)

Posteriormente faremos a divulgação e forma de aquisição para os rastejadores de todo país. E como bem disse o confrade Honório de Medeiros - " Preparem os corações e mentes, aficionados da história do Sertão nordestino: Vem aí o...


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LAMPIÃO E CORISCO

Por: Clerisvaldo B. Chagas, 27 de agosto de 2013 - Crônica Nº 1075
  
LAMPIÃO E CORISCO

Para quem gosta de história de cangaceiros, apresentamos abaixo, matéria publicada na “Folha da Manhã”, jornal sergipano no tempo do cangaço. Dez dias após a morte de Lampião, era estampada no referido jornal:


“Diz-se que, morto Virgulino, o rei do cangaço, tem em Corisco um legítimo sucessor. Entretanto, somente a impressão exterior é que transfere para a atual eventualidade o prestígio de uma majestade que Corisco há muito adquirira por merecimento próprio.

Lampião, sem dúvida, o maior destruidor de riquezas e de vidas que já viveu no Brasil, criou fama à sombra de perversidades e vandalismos sem limite, Era uma alma esfíngica, um ser incompreendido, que guardava uma surpresa em cada gesto.

Suas atitudes não tinham a execução lógica de um caráter fixado na psicologia, pois a sua conduta era um mundo de fugas e fintas para os observadores mais íntimos. Era aliás, a chave do seu terrível prestígio.

Corisco é mais humano. Tem um caráter definido. Sem nenhum sentimento de bondade, age, porém, como homem lógico. É uma verdadeira máquina de precisão. Lampião ameaçava sempre, mas nem sempre executava a ameaça.

Corisco não diz o que pretende fazer. Faz. E, quando age, vai direto ao objetivo. Será fácil adivinhar-se uma atitude de Corisco, ao passo que era impossível saber o que Lampião faria até mesmo na hora do fato. Mas, na técnica de atacar, Lampião ficava muito a distância de seu antigo subordinado.


Na história sangrenta de Corisco não se registra um assalto frustrado. Ele estuda o terreno, pesquisa, prepara-se com requintes de cuidados, mas quando investe é para vencer sempre.

Não se aventura a um assalto duvidoso, ao passo que Lampião muitas vezes teve que fugir diante de uma resistência inesperada.

Esse homem diabólico ainda vive no sertão, onde sua fama só é menor do que a de Virgulino pela repercussão das barbaridades do rei do cangaço. As forças que combatem o banditismo reconhecem a superioridade técnica de Corisco e compreendem ser ele um bandido mais “duro” do que Lampião.

Morto o “terror do sertão”, resta às autoridades a caça ao bandido louro. Manuel Neto, Luiz Mariano e João Bezerra, a trindade de ferro que luta pelo extermínio do cangaço no Nordeste sabem que encontrarão em Corisco um inimigo se não mais perigoso, pelo menos mais valente e mais difícil de abater. Vai começar, agora, a caçada ao bandoleiro de olhos verdes. Não faltarão aos seus perseguidores a tenacidade e a coragem necessária para enfrentar todos os riscos dessa luta de morte a que os sertões nordestinos assistirão”.

Extraído do blgo do escritor Clerisvaldo B. Chagas

http://clerisvaldobchagas.blogspot.com.br/2013/08/lampiao-e-corisco.html
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O célebre atentado contra Isaías Arruda na estação do trem de Aurora

Por José Cícero
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A tarde estava cinzenta naquela Aurora pacata e provinciana de 1928. Uma enorme sensação de tranqüilidade cobria os semblantes dos viajantes, assim como o coração e o pensamento da multidão que se aglomerava na pedra da estação aguardando o trem. Uma cena comum em todas as cidades interioranas atendidas pelo velho comboio da Rede Ferroviária Cearense(RVC).

 Coronel Isaías Arruda - filho de Aurora - ex-prefeito de Missão Velha

Nuvens cor de chumbo em formação pareciam prenunciar no céu daquela Aurora antiga e calma, algo diferente prestes a ocorrer: uma tragédia. Logo se constataria...

Foto
Estação de Aurora - aqui também Isaías Arruda em !028

Naquela tardezinha quase insossa de sábado, dia 4 de agosto de 28 quando muitos já se esqueciam dos episódios de um ano antes, relacionados à presença do rei do cangaço na terrinha; o velho aparelho do telégrafo da RVC de novo estava prestes a receber no código morse um telegrama diferente. Um comunicado estranho; digamos que chave, para os desdobramentos do acontecimento dramático que se seguira ao fato:

Jagunços do cel. sob o comando de Zé Gonçalves - Foto de Zé Ingazeiras

Porém, aquela mensagem sertanejamente codificada não seria de todos estranha. Havia um destino e um desiderato certo: os paulinos com o fito de surpreender o coronel. - “Antonio, algodão hoje sobe!”. Eis a mensagens...

Uma missiva quase enigmática considerando que o algodão – o ouro branco d’Aurora daquele tempo, faria sempre o sentido contrário, ou seja, descia pras bandas do litoral. E o seu preço no mercado há muito era de todos conhecido.

Dizia muito mais do que ali estava escrito de modo lacônico... A estação de Aurora estava repleta de gente. Um acontecimento que se tornara comum deste a sua inauguração festiva, oito anos antes, isto é, em 7 de setembro de 1920.

E a cronologia do momento seguinte, logo provaria para todos que o pano de fundo era um crime. Um atentado violento à ordem e a vida em nome da vingança e da intolerância de uma região marcada pela lei do bagamarte. Uma intriga passada à limpo. E como se viu, expressa na força da violência e da ignorância em detrimento da razão e da justiça. Sinais de uma época densamente marcada pelo poder de fogo do coronelismo oligárquico, engendrado pelos mais temíveis e truculentos líderes políticos que o Cariri cearense já experimentou um dia. Um período onde a lei no mais das vezes, quando prevalecia, era a do mais forte.  Enquanto a justiça quase sempre, era feita, via de regra pelas próprias mãos, em geral, dos poderosos.

Estação de Aurora em dia dia -exposição de fotos antigas

Naquele sábado, de uma tarde escura de agosto, a estação de Aurora não demoraria a ser palco de um episódio que  marcaria à história do Cariri e do Ceará para sempre como um nódoa incômoda. Vez que envolveria, aquele que foi certamente, o mais famoso e temível chefe político da região: o coronel Isaías Arruda de Figueirêdo. Filho do lugar, ex-delegado de polícia, então prefeito pela força da vizinha Missão Velha. E, de quebra, o maior dos coiteiros de Lampião no interior cearense. Um autêntico mantenedor de jagunços e hábil negociador político junto aos potentados da vizinhança, assim como os grandes da capital.

O tempo escorria tal qual o suor no rosto daquela turba de anônimos já impacientes pela delonga. O relógio do prédio apontava 14h25min quando, finalmente, todos puderam escutar o apito estridente da velha máquina a ecoar no horizonte.  Apenas Sabina, entretida demais com o seu café, não se deu conta daquele acontecido. Todos, de repente voltaram suas atenções na direção do corte-grande lá pras bandas do alto da cruz, do sito Frade. A paz da Aurora estava prestes a sofrer um abalo...

O trem da Fortaleza vinha ligeiro e enfezado beirando o rio Salgado na ânsia de chegar tão logo às terras do Crato. E chegou à Aurora. Esbaforido e com sede como se fosse um animal cansado.

Enquanto exímios chapeados transportavam com pressa e sem nenhum cuidado, grandes caixotes, sacos, pacotes e outros fardos de mercadorias aos sopapos. Uns desciam para o armazém da RVC outros subiam para os vagões do trem com destino ao Crato. Animais, coisas de madeira, artesanato, aguardente, rapadura, oiticica, panelas de barro. O trem acelerava a curiosidade, tanto quanto a economia daquela vila quase esquecida no oco do mundo.

Mas de repente, o som de um tiro seco ribombeou no ar. Quebrando a normalidade natural daquele acontecimento diário. Em seguida, vários outros disparos puderam ser ouvidos no interior do segundo vagão da primeira classe. Talvez sete ou oito no total... Até hoje ninguém sabe ao certo. Um silêncio quase sepulcral se abateu na plataforma por alguns instantes que pareceram eternos. Somente o roncar da locomotiva um pouco mais a frente estacionada defronte a caixa d’água. Em seguida uma correria...

Vozes diziam tratar-se de uma discussão. Três homens saíram atracados e em seguida correram no sentido contrário do vagão. Uma disparada em direção do armazém e depois para o beco da antiga rua que dava para o cemitério. De súbito, um quarto homem um tanto elegante, rosto jovem e bem tratado. Gestos aparentemente finos, surgiu do segundo vagão da primeira classe. Vestia impecavelmente um terno de linho branco. Olhar altivo. Pisou de modo esquisito e desaprumado o piso, a pedra da estação. Alguns passos apenas e cambaleando fitou a multidão como quem quisesse dizer algo. Não foi possível. Sangrando e com a mão direita colada ao peito chamava baixinho pelo primo.

O linho branco do seu terno agora começava a se tingir de vermelho. Seus sapatos de cor marrom e bem polidos contrastavam com o vermelho escuro do seu próprio sangue formando poças na plataforma enfumaçada. Era o coronel Isaias Arruda, chefe político, filho da terra. Prefeito da Missão Velha. Alguém logo afirmara em meio a multidão de curiosos.

Homem afamado em toda região, desde as bibocas à capital do estado. Um líder corajoso e ousado. Devagar caiu ao chão da plataforma ainda com arma intacta junta ao cinto. Não teve tempo sequer de usá-la.

Alguém saindo de dentro do vagão posterior se aproxima dele e forra o chão da pedra com um jornal que lia; edição do dia 3. Seu braço esquerdo e parte superior do tórax estavam em frangalhos.

Ferimentos gravíssimos provocados pelos vários balanços com que fora atingido mortalmente. E o coronel, mesmo seriamente alvejado, bastante ferido, pronunciou baixinho quase inaudível:

- Os irmãos paulinos me acertaram!

Eles me acertaram!

- Mas como é que nem o Viana nem ninguém me avisou que meus inimigos estavam aqui?!

Oh, Bando de covardes...

E de chofre emendou:

- alguém me chame o farmacêutico!

Foram os Paulinos, eles me acertaram... repetiu: - Bando de covardes!

Outros mais ousados iam  aos poucos  se aproximando da vítima que gemia deitada ao solo da pedra, sobre as folhas do jornal ‘O Ceará’. Enquanto isso, um mais pouco afastado da estação José Vicente ou Nezinho de Milica, dois  primos  saíram em perseguição(ou fugindo) dos irmãos paulinos: Antonio e Francisco, responsáveis pelo atentado.

Foi levado para à residência de Cícero Ferreira do lado do poente  e, em seguida, para a de  Augusto Jucá um antigo amigo morador da rua grande. Isaías foi socorrido. Inicialmente por um farmacêutico prático - o único que existia na cidade. No dia seguinte, bem cedo, dois médicos de Iguatu vindo de trole pela linha da RVC: Antenor Cavalcante e Sérgio Banhos atenderam o coronel. Porém, diante da gravidade dos ferimentos não tiveram como salvá-lo. Sendo que no dia 8 de abril uma quarta-feira às 6h da manhã, quatro dias após ter sido baleado, Isaías Arruda faleceu como que por capricho do destino na terra em que nasceu, foi batizado, cresceu, casou e foi delegado.

Antiga Fazenda Ipoeiras do cel. Isaías em dia de Cariri Cangaço

Rumores apontaram ter sido o assassinato uma vingança de Lampião pela suposta traição do coronel um ano antes, durante o célebre “fogo da Ipueiras” (fazenda de sua propriedade) ao lado de Zé Cardoso e o major Moisés Leite de Figueiredo. Além da tentativa de envenenamento do bando lampiônico, em cujo local Virgulino se arranchara por diversas vezes. Ocasião em que o rei do cangaço fugia das volantes, após o fracasso da invasão à Mossoró, arquitetada sob as estratégias de Massilon Leite e financiada pelo próprio coronel.

Mas o certo, segundo se provaria logo depois, foi que os paulinos vingaram o assassinato do irmão mais velho João, morto numa emboscada no serrote d’Aurora pelos jagunços de Arruda no ano anterior.

Terminava ali de modo trágico, na estação ferroviária de Aurora a verdadeira saga de um dos mais temíveis e respeitados coronéis do Cariri - Isaías Arruda de Figueirêdo. Assim como, sua rixa ferrenha contra os irmãos paulinos da Aurora.

Prof. José Cícero.
Escritor, Pesquisador e Poeta -
Secretário de Cultura e Turismo de Aurora - Ce.
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Fotos: arquivo JC

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