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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O CHOCALHO DA DISCÓRDIA


Por Ruy Lima

Lampião e seu Inimigo nº 1

O que tem um chocalho a ver com a intensa rivalidade entre Virgulino Ferreira (mais tarde o famoso Lampião, o Rei do Cangaço) e José Alves de Barros (nome de registro de José Saturnino ou Zé Saturnino) seu vizinho e companheiro de vaquejadas e farras? Tudo!

O chocalho é um instrumento, tipo sineta, fabricado artesanalmente, que se põe no pescoço de animais, para que, com o movimento destes, se produza um som. Nenhum chocalho tem som igual ao outro. Daí a sua particularidade para identificar o animal, ao longe, bem como a quem ele pertence.

A inimizade entre Virgulino e Zé Saturnino teve início em 1914, tendo como elemento principal a quebra de um acerto por parte de Zé Saturnino na pega de uma novilha indomada, solta na caatinga. 

Os dois haviam feito um pacto que só pegariam a novilha quando estivessem juntos. Tratava-se de uma questão de honra, ficando acertado que na terça-feira seguinte os dois iriam pegar o animal.

“Naquela segunda-feira , Virgulino foi à feira em Vila Bela e Zé Saturnino foi ao campo. De repente, defrontou-se com a novilha. Sem pensar em nada, muito menos no trato que havia feito com seu companheiro, partiu para cima da mesma. Nem precisou correr muito, derrubou-a no chão, pondo na mesma o chocalha da garupa da sua sela. Depois que soltou o animal foi que se deu conta de que teria descumprido o combinado com Virgulino. Enquanto pensava no que iria dizer ao seu amigo, a danada da garrota, num piscar de olhos, desapareceu na caatinga, que nem mesmo o tinido do chocalho se ouvia mais.”

“Zé Saturnino sabendo que o seu par de vaquejada, desde menino pequeno, queria ser o maior em tudo e não admitia perder para ninguém, ficou apreensivo com a reação desse quando soubesse do que tinha acontecido.

A essas alturas, o melhor seria dizer a verdade e justificar a sua falha. Mas, o difícil mesmo seria o seu parceiro aceitar as suas desculpas.”

Ele sabia que Virgulino iria ficar irritado, chamá-lo de tudo quanto fosse de impropérios, como já era de seu costume.

“Virgulino era assim, desde criança. Se as coisas não fossem de seu jeito, disparava fortes agressões verbais contra as pessoas envolvidas. Não era um sujeito benévolo.”

“Realmente, Virgulino não acreditou no companheiro e foi direto para o local onde pastavam os animais da fazenda Pedreira, de Saturnino.

“Logo que adentrou à caatinga escutou o som de um chocalho, reconhecendo sem demora tratar-se do chocalho da garupa da sala de seu amigo Zé. Foi lá conferir. Para sua surpresa estava o objeto no pescoço da tal novilha. Não ficou nada satisfeito com o que viu, como sempre, queria ser o melhor em tudo e, para provar que também seria capaz de pegar aquele animal arredio, não pensou duas vezes, em poucos minutos já estava com a bicha braba no chão. Todavia, estranhou que a mesma não tivesse corrido tanto, a ponto de chegar a pensar que ela estava doente e, por essa razão, Zé Saturnino havia conseguido pegá-la. Já iria soltá-la quando se lembrou que não valia a pena dizer que também teria derrubado a novilha, pois haveria de provar. Foi aí que teve a ideia de amassar o chocalho, como prova da sua ação, e assim o fez, sem pensar que a melhor opção seria tirar aquele gizo e entregá-lo para o seu dono e, quem sabe, tudo poderia ter ficado em paz. 

Todavia, não foi o que aconteceu. Virgulino julgou, erradamente, que o amigo estava passando-o para trás e, por isso, não o perdoou. Tinha mania de perseguição.”

Em resumo, Zé Saturnino não ficou nada satisfeito com a atitude agressiva do amigo em ter amassado o seu chocalho de estimação. Teve uma cerrada discussão com Virgulino, chegando a quase se atracarem, não fosse a intervenção dos seus pais. A partir dali, a amizade de ambos se arrefeceu, em relação também aos irmãos de Virgulino.

Ruy Lima 03/11/2018
Fonte: “PEGADAS DE UM SERTANEJO – Vida e memórias de José Saturnino” – Antônio Neto e José Alves Sobrinho

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domingo, 4 de novembro de 2018

SONHOS DE PEDRA.

Autor: José Ribamar Alves 


Os meus dias verdes
O sol do verão...
Do tempo escondeu,
Só me deixou marcas
Dos sonhos de pedra
Que a vida me deu.

Perdido no ermo
Do próprio destino
Caminho sem calma,
Das auroras vivas
Só lembranças mortas
Conduzo na alma.

No vale do nada
Nas tardes de angústias
Lanço o meu queixume
Ensaiando as sátiras,
Do meu infortúnio
Que não se resume.

A dor da revolta
De um expatriado
Não supera a dor
De quem tem mil sonhos
Mas nenhum dos mil
Dá sorte no amor.

Meus sonhos de pedra
Me desaproximam
Da realidade
Sou eu o poeta
Que deixando o mundo
Não deixa saudade.

Enviado pelo poeta José Ribamar Alves

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ANTÓNIO SILVINO EM SANTA MARIA



Naquela época, Santa Mana era apenas um pequeno povoado pertencente ao município de Taquaritinga, onde todas as segundas-feira era realizada uma feirinha. O homem mais influente do lugar era o senhor José Braz, político, proprietário de terras e criador de gado.. Naquele tempo o Governador do Estado era o General Dantas Barreto. A pressão sobre os cangaceiros se intensificava, embora o Capitão António Silvino reagisse, como sempre fizera com outros governos. Considerava-se "Governador do Sertão" e não admitia comentários a respeito de sua pessoa. Apesar de viver ocultamente dentro das caatingas, sabia de tudo que se comentava ao seu respeito e do seu próprio grupo. Sabemos que o Capitão António Silvino e o Coronel José Braz eram amigos, porém, foi o Coronel obrigado a fornecer animais selados, redes, dormida e alimentação de primeira para a tropa de soldados, comandada pelo Sargento João Nunes e o cabo António Tetéu, que em perseguição aos cangaceiros haviam acampado em Santa Maria. Após iniciada a desavença o senhor José Braz não demonstrou medo de António Silvino, afirmando que se ele tivesse a audácia de vir a Santa Maria, não seria recebido com banda de música e fogos, como foi numa cidade do Rio Grande do Norte, mas seria sim, recebido à bala porque era o que merecia diante de sua prepotência e de todo o mal que fizera no Nordeste. Não demorou muito tempo para o Capitão António Silvino ficar sabendo das ideias e propósitos do senhor Braz a

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seu respeito. Mandou um portador saber se era verdade o que lhe disseram. A resposta do proprietário e criador de gado foi afirmativa. Então, o mesmo portador que levara a resposta voltou dizendo que a qualquer hora o Capitão visitaria o povoado, para ter certeza da valentia do chefe do lugar. Nesse povoado não havia soldados para manter a ordem e garantir a segurança dos moradores. Havia apenas um subdelegado civil e um inspetor de quarteirão. Depois que a notí. cia espalhou-se, o povo ficou bastante apreensivo, querendo inclusive abandonar suas atividades. Porém o chefe (Zé Braz) tranquilizou a todos dizendo que o senhor Pequeno, inspetor do povoado, era um homem muito disposto e que de modo algum tinha medo dos cangaceiros. Além disso, haviam contratado dez homens corajosos para defender o povoado. Diante das precauções tomadas, não havia razão para ninguém retirarse. O senhor Pequeno não iria permitir que bandidos desmoralizassem aquele povo. Os voluntários recebiam um salário acima do normal, naquele tempo, e em virtude de ser uma missão perigosa recebiam café, almoço e ceia. armas de fogo e munição para enfrentar os foras-da-lei. A expectativa era grande nos primeiros dias, mas os cangaceiros não deram sinal de vida durante meses. Ninguém dava notícia do Capitão. A feira que quase acabara estava voltando ao seu ritmo normal. Além do senhor José Braz, se destacavam ainda os senhores José Patrício e José Alvino de Queiroz, sem falar no senhor Pequeno que dizia a todos com plena convicção, que os cangaceiros não iriam cumprir o recado enviado pelo Capitão, garantindo ao senhor Zé Braz que "dois bicudos não se beijam". O senhor José Braz todavia, tinha suas dúvidas, e como chefe, repetia as mesmas instruções de sempre para o inspetor, perguntando se os voluntários enfrentariam mesmo os bandidos, correndo o risco de morrer lutando. O inspetor sempre respondia: "Vá dormir descansado, que cangaceiro só entra aqui depois que eu estiver morto com meus companheiros, o que é muito difícil". Entretanto, o senhor José Braz não duvidava da audácia de António Silvino e esperava-o a todo momento. Dizia sempre que António Silvino era audacioso e felino como um gato selvagem, e que a qualquer instante apareceria. Ficava de prontidão em sua residência. Seus colegas José Patrício e José Alvino, também aguardavam nas suas casas.

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Quando a maioria já pensava que o Capitão desistira de invadir o povoado, num dia de segunda-feira, na hora em que a feira estava repleta de pessoas, surgiram por trás do cemitério os cangaceiros, fazendo alguns disparos para o ar, amedrontando os feirantes. O senhor Pequeno e seus homens romperam fogo contra os invasores. O Capitão António Silvino revidou com tamanha violência e rapidez que impressionou o inspetor, de maneira que o mesmo, tomado de medo, fugiu com os seus companheiros voluntários, enquanto os outros, sem comando, abandonaram o campo de luta. Os senhores Alvino e Patrício ocultaram-se diante do perigo, haja vista que naquele momento o povoado estava entregue aos "fora-da-lei". O senhor José Braz ficou sozinho, entrincheirado num prédio de primeiro andar que era a sua residência, sustentando o tiroteio até a munição acabar. 

DONA JOSEFA LUCENA HERÁCLIO RELATA ESSE FATO 

Dona Santa Heráclio conta que esse acontecimento ocorreu no dia 12 de junho de 1912. António Silvino invadiu o povoado de Santa Maria, acompanhado de vinte e quatro cangaceiros. Após dominar o lugar, ocupou o mercado público como se fosse legalmente um oficial do governo. O irmão de Dona Santa, Miguel Braz Pereira de Lucena, temendo ir pela rua, foi de telhado em telhado até conseguir chegar no mercado para conversar com o Capitão, na esperança de que ele mudasse de ideia e não matasse seu pai. Os cangaceiros ficaram admirados com a audácia do Dr. Miguel (era advogado), especialmente pela eloquência e maneira de falar com o Capitão, dizendo-se amigo e na certeza que pouparia, a vida do seu genitor. Soltando gracejos, os cangaceiros disseram que teria sido ótimo caso o tivessem visto andando por cima das casas, pois certamente receberia uma bala muito certeira. António Silvino ordenou que seus cabras terminassem as brincadeiras e disse para o Dr. Miguel: - "Foi até bom você vir se entregar, porque ficou mais fácil de sangrar seu pai. Você ficará aqui enquanto eu vou matar seu velho". Ordenou aos companheiros não fazerem nada com o advogado e nem deixá-lo fugir, o que os cabras cumpriram à risca, e foi com outros capangas matar o Coronel José Braz que se encontrava com a família, no primeiro andar de sua residência. O Capitão, aos gritos, perguntava se José

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Braz preferia morrer em cima, no sobrado, ou na calçada da rua. Nesse momento, José Braz desceu a escadaria acompanhado de sua filha Santa, dizendo: "Você só chegou à minha porta, porque as balas acabaram e já não tenho com que me defender". Os cangaceiros fizeram um círculo, dentro do qual ficaram António Silvino, o Coronel José Braz, Jararaca e Santa. O Capitão iniciou, dizendo: "José Braz, você sabia que não podia comigo e por que ficou contra mim? Agora vai morrer sangrado como um porco". Com um punhal chamado "bico de lavandeira" na mão, colocava a ponta do mesmo na garganta do Coronel. Santa, que de tudo participava, tomou posição entre o cangaceiro e seu pai, sustentando a lâmina da arma, e pediu: "Mate-me, mas deixe meu pai vivo, eu lhe suplico" O Capitão retirou o punhal, no entanto continuou torturando-o com sua arma, que encostava ora no peito, ora na barriga do seu inimigo, ouvindo as súplicas da moça. Já estavam sem condições de suportar tanto sofrimento e humilhação, quando António Silvino afastou-se um pouco e o cangaceiro Jararaca aproximou-se de Santa, dizendo baixinho no seu ouvido: — "Não tenha medo, moça. Seu pai não vai morrer. Quando ele quer mesmo matar, não judia". 

MOMENTO DE CORAGEM DA MENINA SANTA

Atualmente, ao relatar esse fato, D. Santa diz que as palavras de Jararaca, naquele momento, foram mesmo que uma injeção energética, tornando-a mais tranquila e ao mesmo tempo afoita, chegando a dizer ao Capitão: —"Você só mata Papai, porque o meu noivo não está aqui". Ele observando-a, sem maltratar o Coronel, perguntou: —"Quem é seu noivo, menina?". Ela respondeu: - "É Jerônimo Heráclio". O Capitão, muito sério, guardou a arma e disse para José Braz: "Você não vai morrer agora; agradeça à sua filha, que me impressionou com tanta coragem. E além disso, não quero encrencas com os Heráclios, Agora, tem uma coisa: mande para mim dois contos de réis, pelo Coronel António Farias". Naquele tempo, dois contos de réis era muito dinheiro, mas o Coronel foi obrigado a cumprir a palavra. O senhor Jerônimo Heráclio foi de opinião que o seu futuro sogro mandasse o dinheiro imediatamente, servindo ele mesmo de portador para entregar a importância ao Coronel

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António Farias (pai do senhor Severino Farias e avô do Dr António de Arruda Farias, ex-Prefeito do Recife) 

O Coronel António Farias era amigo do Capitão, e párente do senhor José Braz, que forçado pelas circunstâncias, continuou amigo do Capitão, que recebeu o dinheiro, dizendo: "Só perdi a amizade de José Braz por causa daqueles macacos safados", referindo-se ao Sargento João Nunes e ao Cabo António Tetéu. Por ter dado pousada aos soldados, o Capitão achou que o Coronel havia se tornado inimigo seu, daí os recados desaforados e os preparativos que culminaram com o encontro e invasão do povoado por vinte e quatro cangaceiros, juntamente com seu chefe, quando incendiaram quase todas as casas comerciais, após retirar e fazer entrega ao povo de tecidos, géneros alimentícios e tudo que encontraram. Somente o dinheiro em cédulas António Silvino guardava. Níquel, prata e cobre eram distribuídos com os curiosos que já haviam invadido o lugar a chamado do "bandido-chefe". Foi verdadeiramente um dia de juízo para os moradores do povoado. Os amigos do Coronel José Braz, que tanto o incentivaram, sem falar no senhor Pequeno, se omitiram de aparecer na hora difícil. Eram eles José Patrício e José Alvino de Queiroz que, tempos depois, demonstraram tanta audácia sob o comando do alferes Teófanes Ferraz Torres. O senhor Pequeno, ex-inspetor, com vergonha de apresentar-se ao chefe político (o único a enfrentar os cangaceiros) , demorou muito tempo a aparecer, e quando voltou não era mais o valentão de antes. O senhor José Braz (que também ocupava o posto de sub-delegado) demitiu-o. 

DONA SANTA NÃO ESQUECEU A BOA AÇÃO DO CANGACEIRO JARARACA

Após afastar-se da senhorita Santa e do Coronel, Antonio Silvino foi para o mercado público onde o Dr. Miguel Braz Pereira de Lucena se encontrava sob a guarda incómoda de vários cangaceiros. Ao chegar, chamou seus companheiros para irem embora, dizendo ainda: "Não matei José Braz, nem vou matar o Dr. Miguel". Enquanto o Dr. Miguel esteve com os cangaceiros aguardando o desfecho daquele triste dia, não demonstrou muito medo, mas o contrário, conversando com eloquência, impressionando aos bandoleiros.

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O Capitão disse ao Dr. Miguel: "O seu pai sabia que não podia comigo". Após esse encontro, retirou-se com seu grupo, deixando os habitantes do povoado sofrendo os prejuízos material e moral por muito tempo. Santa ficou muito grata ao cangaceiro Jararaca e ainda hoje tem gravado na mente o perfil do mesmo: homem preto, de estatura elevada, timbre de voz bonito e olhos verdes. Apesar de sua cor preta não era feio, e pareceu-lhe até bonito naquela hora tão amargurada. Ainda hoje ela comenta: "agradeço e ainda ouço aquelas palavras de esperança, pronuncia, das por um bandido num momento tão difícil. Diariamente, faço preces a Deus por sua alma". Era um verdadeiro inferno na época de António Silvino, naquelas regiões. Naqueles dias ela contava com apenas 16 anos de idade. No ano seguinte, em 1913, com 17 anos casou-se com o senhor Jerônimo Heráclio do Rego, homem azogado, muito trabalhador e honesto.

Infelizmente por motivo de internet perdi a fonte.

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FAZER CULTURA É O QUE O BRASIL PRECISA VALE CONHECER A ARTE DE SILDOMAR GOMES


Por Luiz Serra

O artista popular Sildomar Gomes é de Serrinha dos Pintos, sertão do Rio Grande do Norte. Nos espaços culturais de seu pequeno município, iniciou suas exposições que tiveram a alegria e a plena atenção de todos.Um seguidor da iconografia sertaneja de Mestre Vitalino.

A Mostra no meio da rua em Ceilândia, Brasília, detalhes da vida no sertão...Sildomar Gomes (2018)

Nestes dias a Mostra de Sildomar Gomes está na cidade-satélite de Ceilândia, próximo de Brasília, mesmo sem apoio substancial, sua mostra de uma casa do sertão está despertando a atenção dos visitantes (fotos).

Reciclados que viram arte do povo... Sildomar Gomes

Ideia da reciclagem

Sua estratégia está no reaproveitamento de materiais de sucata, o barro de rebocos, ferro, azulejos, a ideia da reciclagem é a sua marca criativa, e, nesta exposição aberta, pois está sendo exibida na rua, compõem-se de 37 peças. Numa faixa estão os dizeres:

“Recicle Tudo Aquilo Que Pode Se Tornar Arte”.

A Mostra no meio da rua em Ceilândia, Brasília, detalhes da vida no sertão...Sildomar Gomes (2018)

Notícias

“O artista plástico utiliza uma série de técnicas para criar obras que transmitem emoções para outras pessoas. Com o intuito de embelezar o nosso setor O, o artista plástico Sildomar Gomes, construiu uma réplica de uma casa de pau a pique, também conhecida como taipa de mão. Em tamanho real, típica do sertão brasileiro, também é dele a decoração e ambientação com peças que casam com o conjunto da obra”.  Diário Literário da Sally

Vale a pena prestigiar essa arte de inegável valor humano e cultural.

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sábado, 3 de novembro de 2018

O REINO ENCANTADO: CRÔNICA SEBASTIANISTA


Por Francisco Pereira Lima

Um excelente livro "O Reino Encantado:Crônica Sebastianista"de Tristão de Alencar Araripe Júnior. A primeira edição é de 1878. Com estudo e organização da Professora Dra. Débora Cavalcantes de Moura.

Quem desejar adquirir: Pedidos: franpelima@bol.com.br ou whatsapp 83 9 9911 8286

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O SERTÃO E A MAGIA DA BOCA DA NOITE

*Rangel Alves da Costa

Neste momento estou em Poço Redondo, no sertão sergipano. Aqui, sem qualquer dúvida, o retrato mais expressivo do ser e do viver sertanejo. Mas não estou a passeio nem sou visitante ocasional, pois nasci aqui e até os onze anos por aqui permaneci como um calango na sua terra. Mas não abdiquei do berço de nascimento. Todos os finais de semana eu risco no seu chão como um alazão que chega afoito por mais viver.
É momento de entardecer sertanejo. Já é boca da noite, como se diz por aqui. E é na boca da noite que as cozinhas espalham os aromas de cuscuz, de tripa de porco, de toucinho, de carne seca, de ovos de capoeira, de café torrado ou empacotado. A mesma logo será posta, o menino mastigará o seu pão, a dona de casa se dará por satisfeita se a comida disponível deu ao menos para enganar a fome. Depois disso a noite cai de vez, a lua se faz maior e mais brilhosa, os noturnos se perfazem na singeleza sertaneja.
Sou conhecedor e admirador de tudo isso. Contudo, mesmo sentido perto de mim todo esse encantamento da chegada da boca da noite, algo me leva ainda mais longe ou mesmo pelos arredores de onde estou. Logo ali já é mato, já é a pequena propriedade, já é o casebre, já o sertão em seu estado mais natural. E fico imaginando daqui a magia que é a chegada do anoitecer naquelas localidades mais distantes e onde a noite praticamente termina logo após o noturno café.
Talvez por que a vida dos sertanejos das regiões mais afastadas seja mais cansativa pelos labores cotidianos debaixo do sol, a verdade é que depois da janta já é chegada a hora de fechar as portas. E nos tempos idos nenhuma porta era avistada aberta depois das sete da noite. Quando muito, apenas alguns amigos em proseado numa malhada ou noutra, uma mulher debulhando milho ou alguém dedilhando uma saudosa viola.


Atualmente, mesmo com as televisões já estando presente mesmo na maioria dos casebres e casinhas de cipó e barro, somente os mais jovens se demoram mais vendo novelas. O autêntico sertanejo não. Avista, quando muito, o noticiário e já se dá por satisfeito. Depois vai até o lado de fora acender seu cigarrinho de palha, avistar a lua grande, meditar sobre a vida e sobre o mundo ao redor, tentar avistar nuvem de chuva, mas nada disso por muito tempo. Não demora muito e já estará se recolhendo para o adormecimento dos justos. Ora, antes mesmo de o galo cantar já estará novamente em pé e pronto pra luta.
Nos tempos dos candeeiros – e sem geladeira, televisão, eletrodomésticos – a singeleza da vida sertaneja era ainda maior. Muitas vezes sem vizinhos por perto e com poucas palavras para serem partilhadas entre os da casa, a noite fechava mesmo após a última xícara de café. Quem passasse pelos arredores só avistava, quando muito, a luzinha fraca e amarelada dos candeeiros e lamparinas pelas frestas da janela. E um pouco mais tarde, como economia de gás, até mesmo as chamas eram apagadas. E o silêncio e a escuridão sertaneja se abraçavam em terna e afetiva comunhão.
Lá fora, apenas um ou outro barulho fazendo barulho, vaga-lumes passeando pelos arredores, açoites de vento trazendo folhagens. Uma coruja pia, um grilo faz seu contínuo canto. Os sonhos navegam. Os sonhos aportam e singram no mundo-sertão de secura e de sol afoito.

Escritor
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QUEM SABE FAZ AO VIVO

As Verdades de Angico 

(*) Por: Leandro Cardoso Fernandes 

Pra começar bem a semana, mais um grande artigo do confrade Leandro Fernandes. (Foto)

Respectivo texto de uma palestra proferida com garra e maestria por ele no 'Cariri Cangaço 2009' e agora gentilmente enviada como "Gás" para o Lampião Aceso e compartilhada com vocês. 


Siiiiiim! Na próxima semana vamos conhecer a vida, andanças, obras, opinião e as atuais pesquisas de Leandro Fernandes em uma super entrevista, Aguardem!



Escrever sobre o combate do Angico traz uma sensação ambígua: um certo receio por estar pisando em solo instável, recheado de controvérsias e versões discrepantes; e, por outro lado, um destemor confiante por estar devidamente fundamentado para questionar e apontar respostas para alguns dos pontos obscuros.

O que vai exposto a seguir é um exercício de reflexão sobre o dia mais intrigante da historiografia do cangaço, sem pretensões a resolver todos os mistérios do Angico. O epílogo de Lampião sempre foi um palco de vardades mentirosas e mentiras verdadeiras, parafraseando o expert Alcino Alves Costa, que colocou boa parte do seu trabalho em apontar os fatos inquietantes daquele amanhecer. Os parágrafos enfeixados a seguir são uma tentativa de contemplar o que há de mais claro e seguro para responder a dois questionamentos apenas, dentre os muitos que se nos apresentam em relação a este episódio.

Vamos lá, então.Precisamos, inicialmente, situar o ambiente onde se desenrolou o fatídico combate.

Lampião, já beirando os quarenta anos, desde meados de 1937 que não brigava. Seu último combate digno de nota foi uma “botada” que Zé de Rufina, lhe fez na Lagoa do Domingos João, arredores de Canindé do São Francisco (SE). Então, o Lampião que encontramos no Angico é um Virgulino cansado, fugidio e sem interesses em confrontos com tropas volantes. Pouco tempo antes, Maria Bonita estivera em Propriá, incógnita, para investigar possíveis “escarros com sangue”. Ela própria, na véspera do combate, confidenciara à Cila que gostaria de abandonar aquela vida, chegando, inclusive, a conversarem sobre o que aconteceria caso fossem apanhadas por volantes. O grupo, cada vez mais, parecia menos aguerrido.

Candeeiro, em entrevista concedida ao documentário “Candeeiro” de Aderbal Nogueira, revela que Lampião, antes de atravessar o São Francisco, disse a seus comandados que estava com vontade de fazer uma ‘longa viagem’ para Minas Gerais e que, quem quisesse ir junto, seria bem vindo:  
“Tô com vontade de ir pra Minas. Por que se vai pra Sergipe leva bala; pra Bahia, leva bala; pra Pernambuco, bala. Aqui não dá mais pra viver.”
Tudo sinalizava para uma guinada na vida do Rei do Cangaço: ou abandonaria aquela vida para viver em outras plagas, com identidade falsa; ou apenas repetiria o que havia feito em 1928, quando, atravessando para a Bahia, renovou o palco do cangaço. Aqui chegamos ao primeiro questionamento:
Lampião realmente morreu no Angico?
Teria ele abandonado o palco de lutas no sertão, colocado um substituto no seu lugar e rumado para Minas?
Antes de analisarmos os fatos, devemos recordar que há uma certa dificuldade geral em se aceitar “pacificamente” a morte de um herói ou de um mito. Desde os tempos de Dom Sebastião, rei de Portugal, passando por Elvis Presley e agora, mais recentemente, Michael Jackson, que as pessoas tentam se convencer de um possível “milagre” para evitar o fim trágico, a morte de seus ídolos. Com Lampião não foi diferente. O grande chefe de cangaço sempre despertou sentimentos contraditórios, mesmo em seus perseguidores, que colocavam nele a pecha de bandido, mas o admiravam como inimigo valente, destemido e inteligente.

Então, surgem afirmações desse tipo: - o grande estrategista que era Lampião nunca se deixaria apanhar num cerco como o que foi feito em Angico! Entretanto, quem faz esse tipo de afirmação não coloca o risco real da vida; esquece que grandes bandidos, como Jesse James, Billy the Kid e outros foram mortos de maneira semelhante, às vezes sem qualquer esboço de reação. É a vida real, livre dos subterfúgios de nossa vontade romanceada.


Recentemente veio à lume o livro de José Geraldo Aguiar, “Lampião, o invencível – Duas Vidas e Duas Mortes”, afirmando que Lampião teria escapado do cerco de Angico e morrido em Minas Gerais na década de noventa, com identidade trocada (na verdade, várias trocas de nomes).

Ao analisarmos o que está posto no livro supracitado, verifica-se de imediato a falta de embasamento, seja documental, seja por depoimentos de pessoas que conheceram Lampião, para que se possa dar crédito a tal teoria. As entrevistas enfeixadas no livro são de pessoas que tiveram contato com o pretenso Lampião lá em Minas Gerais. Não há qualquer depoimento de quem o conheceu na época do cangaço. O Sr. João Teixeira Lima (o dito Lampião mineiro) poderia muito bem, de maneira muito cômoda, chamar para si a identidade de Lampião, quem sabe buscando intimidar as pessoas em sua volta, mantendo uma atmosfera permanente de mistério em torno de si próprio.

A comprovação de veracidade do conteúdo exposto por José Geraldo Aguiar baseia-se basicamente no próprio depoimento do candidato a Lampião, e em exame comparativo de fotos, que sequer levou em conta a ausência do leucoma característico do olho direito do Rei do Cangaço, no Sr. João Teixeira Lima. Chama a atenção também a gritante diferença entre a personalidade do “Lampião de Buritis” e a do verdadeiro Virgulino Ferreira. O primeiro, um sociopata, de difícil convívio, sem amizades, que quando se via em dificuldades, para conseguir o que desejava, vociferava que era Lampião ou então bradava “você sabe com quem está falando?”.

O verdadeiro Lampião tinha personalidade diametralmente oposta: era cordial, calculista, profícuo em fazer amizades (inclusive com deputados, interventores e autoridades), não demonstrando qualquer problema de relacionamento. Tanto isso é verdade que construiu enorme e sólida rede de coiteiros e amigos em vários estados nordestinos, além de atrair para as fileiras do cangaço centenas de homens e mulheres.

José Geraldo Aguiar, no seu livro, diz que o cangaceiro Zé do Sapo morreu como substituto do Rei do Cangaço, no Angico. Afirma também que os soldados teriam jurado e cumprido, sob pena de morte, não ‘abrir o bico’ sobre a “farsa” encenada na madrugada de 28 de julho de 1938. Ora, basta uma análise superficial dos fatos para perceber que estas ilações estão edificadas sobre pés de barro.
Quem foi o tal de Zé do Sapo?
Alguém o conheceu?
A que subgrupo pertenceu?
Qual o seu nome verdadeiro?
Impossível obter resposta para estas questões, uma vez que são frutos da invenção de um personagem imaginário – à semelhança do Paturi do pesquisador Frederico Bezerra Maciel – para preencher lacunas de uma tese insustentável. Quanto ao cumprimento do ‘juramento’ dos soldados, sob pena de morte, eu pergunto: como conseguir esse intento, apartir de soldados brutos de 3 volantes (Bezerra, Ferreira de Melo e Aniceto), que não conseguiam sequer obedecer à hierarquia? Lembrem-se que Antonio Jacó desobedeceu, à vista de todos, as ordens de João Bezerra quanto a devolver o produto do saque que fizera ao cadáver do cangaceiro Luís Pedro.

Vale ressaltar que nos depoimentos de Zé Sereno, Cila e Candeeiro, Lampião acordara cedo e rezara com o bando (aqueles que quiseram) o Ofício de Nossa Senhora. Depois tomou café feito pelo cangaceiro Vila Nova (o único que estava devidamente equipado), segundo depoimento de Zé Sereno. Após o desjejum com Vila Nova, Lampião ordenou que Amoroso fosse buscar água para o café dos outros, que ainda curtiam o friozinho daquela manhã (sob as cobertas), conforme depoimento de Cila e Candeeiro. O tiroteio irrompeu sobre Amoroso, que, por milagre, pelo medo e embriaguês dos soldados, escapou ileso. Neste momento, Lampião conversava com Zé Sereno e Luís Pedro. Sereno teria dito: “não falei que a gente brigava hoje?”.

Com relação ao reconhecimento do cadáver do Rei do Cangaço, cito aqui, rapidamente, Joaquim Góis, que reconheceu a lesão cicatricial de seu tornozelo direito; Pedro de Cândido, que além de reconhecer a cabeça do Rei e da Rainha do Cangaço, identificou os corpos decapitados para curiosos e jornalistas; e Durval Rodrigues Rosa, que afirmou textualmente “ainda hoje é ‘serviço’ fazer o povo acreditar que foi mesmo
Lampião que morreu naquele dia. (...) Eu tinha visto ele nos dias anteriores e poderia reconhecer aquele rosto em qualquer foto, quanto mais assim de perto, como eu vi.”
Após esta análise concluímos que: Lampião morreu realmente na madrugada de 28 de julho de 1938, na margem sergipana do rio de São Francisco, em Angico.

Passemos ao segundo questionamento.
Qual foi a causa da morte? Veneno? Bala? Outra causa?
Antes de analisarmos os fatos, vale a pena explicar que esta controvésia sobre um possível envenenamento dos cangaceiros ganhou terreno a partir de declarações de Manoel Neto a um jornal pernambucano, sugerindo que os cangaceiros teriam sido envenenados por um coiteiro (cujo nome não cita). Esta e outras declarações veiculadas na imprensa pernambucana foram rebatidas por João Bezerra e por Francisco Ferreira de Melo, creditando-as ao despeito e à tentativa de ofuscar o brilho do feito.

Mais munição para esta controvérsia foi a débil reação do bando no combate em Angico, que também suscitou especulações. Outro reforço à tese está na propalada mortandade de urubus, que, ainda hoje, não foi confirmada. Essa última apareceu em uma declaração de Wandenkolk Wanderley, à imprensa, afirmando que vira vários urubus mortos, contradizendo o depoimento que dera mais de 30 anos antes e que, curiosamente, não apresentava a mortandande dessas aves. Já o escritor Joaquim Góis disse que, ao chegar em Angico, logo após o combate, avistou “muito urubu alegre naquele dia”.

  Wandenkolk participou de comitiva, que esteve em Angico, após o massacre, Em plena efervescência, para o sepultamento das cabeças dos cangaceiros, do Nina Rodrigues, em 1959, ele apareceu no Diário de Pernambuco de 26 de abril, daquele ano, defendendo sua tese, o que suscitou na defesa de João Bezerra, no mesmo periódico.
Acervo Geziel Moura

Uma coisa é certa: se realmente houve a tão propalada mortandade de urubus, a quantidade de veneno ingerida pelos cangaceiros teria sido incrivelmente grande. Outro detalhe importante desta história é que, por causa da fedentina dos corpos, despejaram sobre os mesmos cal e creolina, o que poderia ter causado a morte de algum urubu, por lesão aguda da mucosas digestivas destas aves.
Vamos em frente.

Os Cães

Outro reforço para a tese da farsa e do veneno é que os cachorros não deram o alarme, não denunciando os soldados, que seriam “estranhos”. Mas, mesmo após uma simples análise, encontramos vários motivos para que os cachorros não tivessem se manifestado.

Vejamos.

Em primeiro lugar, nos reportaremos ao perfil dos cães. Candeeiro, em entrevista no vídeo de Aderbal Nogueira, ao responder os questionamentos de Paulo Gastão, o entrevistador, é taxativo em dizer que Guarani, o cachorro de Lampião, era quieto e não latia, apenas “saía atrás da gente” – SIC. Isso nos força a refletir sobre a maneira de ser, a “personalidade” do cão, provavelmente sinalizando que os cães eram de companhia e não feras nervosas que latiam à aproximação de quem quer que fosse. Se esse fosse o caso, os cangaceiros ficariam expostos, pois cachorro latindo no meio da caatinga é o pior que poderia acontecer ao grupo, uma vez que denunciaria sua localização.

Além do mais, como a madrugada fora de chuvisco e frio, muito provavelmente os cães estavam abrigados, ou sob os arbustos ou junto dos donos, sob as tordas. A própria disposição dos grupos naquele leito seco de pedras, dificultaria enormemente o discernimentos dos cães quanto a invasores, pois é sabido que naqueles dias juntaram-se ao bando de Lampião os subgrupos de Zé Sereno, Luís Pedro, o sobrinho de Lampião, José, e os coiteiros Manoel Félix, Pedro de Cândido e Durval. Ou seja: TODOS ESTRANHOS aos cachorros! E ainda faço outro questionamento: como os cães conseguiriam distinguir um soldado de um cangaceiro, uma vez que se vestiam de maneira semelhante, utilizando, inclusive perfumes variados, que confundem o faro canino?

Vamos mais adiante. Ainda desfiando o possível envenenamento de Lampião, eu me questiono: a que horas o Rei do Cangaço teria ingerido o veneno?

Balão, em famosa entrevista, afirma que foram dormir por volta das 22h. Supondo que Lampião tenha jantado antes de dormir - no caso de envenenamento –, deveria ter ingerido algo tóxico nessa ocasião e, portanto, morrido durante a madrugada. No entanto, deparamo-nos com o Capitão Virgulino rezando o Ofício de Nossa Senhora logo cedo (depoimentos de Cila, Candeeiro, Zé Sereno e Balão). Cila, com preguiça, não havia se levantado para fazer a oração. Já Balão, após a reza, voltou a deitar-se, pois ainda era muito cedo e fazia frio. Lampião tomou o café feito pelo cangaceiro Vila Nova e, conversando com Luís Pedro e Sereno, ordena que Amoroso vá buscar água para o café dos outros, ocasião em que o tiroteio é deflagrado.

Aí, então, eu volto a perguntar: a que horas Lampião foi envenenado? Após o “jantar” da noite anterior, a “próxima” provável refeição do Rei do Cangaço, onde poderia ter ingerido algum veneno, seria o café feito e tomado com Vila Nova. No entanto, este cangaceiro não morreu, nem de veneno, nem de tiro, pois o reencontramos por ocasião das entregas, bem de saúde, alguns meses depois.

Ao analisarmos os principais venenos que poderiam ter sido utilizados contra os cangaceiros, e o quadro clínico decorrente de sua ação no organismo, é que realmente temos a certeza de que os cangaceiros no Angico não foram envenenados.

Estricnina: é um alcalóide extremamente tóxico, e uma das substâncias mais amargas que existem; seu gosto é percebido em concentrações da ordem de uma parte por milhão (1ppm). O quadro clínico da intoxicação pela estricnina é bastante exuberante, incluindo pródromos de câimbras e dor; rigidez dorsal e cervical; rigidez de extremidades; agitação e ansiedade; hipertonia; convulsões (com o paciente acordado e lúcido); opistótono (espécie de contratura involuntária da musculatura paravetebral, deixando o corpo em forma de arco); “riso sardônico”; paralisia respiratória e parada cardiorrespiratória. Ao analisarmos as fotos das cabeças cortadas e dos corpos insepultos, não há qualquer evidência de posições de hipertonia ou espasmos da musculatura facial, sugerindo o “riso sardônico”, muito menos relatos do sobreviventes ou da polícia testemunhando crises convulsivas ou contrações involuntárias generalizadas, afastando a possibilidade do seu uso no episódio do Angico.


Arsênico: também conhecido como “veneno de sucessão”, em razão do seu largo uso na crônica histórica, principalmente no assassinato de reis por seus sucessores. A sua grande “vantagem” de uso seria o fato de não ter odor e parecer açúcar, facilitando a administração. Entretanto, no seu quadro de intoxicação, encontramos: arritmias cardíacas graves, neurite, nistagmo, choque circulatório, convulsões, tremores, sudorese, vômitos incoercíveis, tosse, diminuição do nível de consciência, lacrimejamento, etc.... Nada disso foi visto nos cangaceiros, nem pelos que escaparam, nem pelos volantes.

Cianureto: têm um típico sabor amargo, lembrando amêndoas. A sintomatologia da overdose inclui taquicardia, alternando com bradicardia; hipotensão arterial/choque circulatório; prurido, agitação psicomotora; dor de cabeça; cianose; acidose; nistagmo; coma, hipotermia; náuseas e vômitos incoercíveis; edema agudo pulmonar. Da mesma forma, nenhum dos sinais e sintomas expostos aqui foi visto ou relatado por cangaceiros ou policiais, desmoronando, definitivamente, a tese do envenenamento.

Como se não fosse o bastante, vale ainda lembrar que, entre os que morreram, Enedina foi alvejada na cabeça enquanto estava correndo (depoimento de Cila e Candeeiro); Mergulhão, antes de morrer, conversou com Candeeiro (depoimento de Candeeiro); Luís Pedro foi visto por cangaceiros e policiais conversando com Maria Bonita ferida; Lampião conversava com Zé Sereno e Luís Pedro quando o combate iniciou. Ou seja: dos onze que morreram, cinco possuem evidências sólidas testemunhais de que não estavam envenenados ou com sinais (ou sintomas) de envenenamento.

Vejamos as palavras de Candeeiro, em resposta ao questionamento de Paulo Gastão, no vídeo de Aderbal Nogueira:
- “...E que Lampião morreu envenenado, o que é que você acha dessa história?” – Paulo Gastão.
- “De jeito nenhum. Lá não tinha veneno, não, rapaz. Lhe juro como essa luz que nóis tamo vendo” – Candeeiro.
O Álcool

O cangaço e sua repressão eram movidos a álcool. E os efeitos sistêmicos do etanol, na concentração de até 3g/litro de sangue, podem explicar muitos dos supostos desencontros do Angico, principalmente entre os depoimentos. Alterações como perda da eficiência (os tiros perdidos sobre Amoroso), déficit de atenção e prejuízo de julgamento e controle (a quebra de hierarquia, as agressões de Ferreira de Melo a Durval), déficit de atenção, memória e amnésia alcoólica (as discrepâncias com relação à chuva, horários e companheiros presentes).

As limitações impostas pelo excesso de álcool somadas à dificuldade natural de registro das situações que acontecem perifericamente, numa situação de intenso estresse físico e emocional, podem, sem sombra de dúvida, resultar em pequenas imprecisões e distorções, principalmente no que diz respeito à sucessão dos acontecimentos.

Com relação às divergências no calor do combate, o depoimento dos cangaceiros tende a ser mais fiel, uma vez que os soldados provavelmente beberam durante a madrugada, e os cangaceiros ficaram acordados no máximo até às 23h do dia anterior. E, além do mais, a surpresa do combate, invariavelmente impõe uma sobriedade forçada aos cangaceiros, que estavam em desvantagem e tinham que sobreviver ao ataque surpresa.
  
Bala

O tiroteio ou combate do Angico pode ser rememorado em cores vivas pelos depoimentos de qualquer dos cangaceiros ou volantes sobreviventes. E a maior prova que ele foi intenso e real é o número de mortos e feridos: 12 mortos (incluindo o soldado Adrião) e os feridos: Balão, Candeeiro e João Bezerra.

O revide de Lampião aconteceu, apesar de bem abaixo do esperado para o grande estrategista do Cangaço. No vídeo já citado de Aderbal Nogueira, o entrevistador (Paulo Gastão) faz o seguinte questionamento:
- “Como é que um homem com a experiência de Lampião, com esses tiros todos, não deu um tiro nesse tiroteio?” - Paulo Gastão.
- “Deu não! Lampião tava do lado de cima. Amoroso deixou o fuzil, não pode pegar. Aí cerrou o tiroteio pro lado de Lampião” - Candeeiro.
Candeeiro, nesta excelente entrevista, afirma que ainda viu Lampião dando ordens aos cabras, quando do início do tiroteio, mas que não pôde reagir por ter tido seu fuzil danificado.
Candeeiro resume assim o início do combate: estava deitado quando ouviu um tiro seco. Sentou, achando que fosse alguém “treinando”. Ouviu outro tiro, e então já se levantou, e aí o “mundo desabou”. O tiroteio cerrou para os lados de Lampião, que, provavelmente, não teve oportunidade nem tempo para organizar o revide. Estava dado, portanto, o tiro de misericórdia no cangaço, que ainda estrebucharia até maio de 1940, o fim de Corisco.

Conclusão do segundo questionamento:
Lampião morreu vitimado por lesões provocadas por projéteis de arma de fogo, juntamente com mais dez companheiros, no calor do combate do Angico.
Estas são as verdades de Angico, analisadas à luz dos fatos, a partir de depoimentos de sobreviventes e sob a ótica da ciência. A verdade absoluta e imutável nunca será encontrada, pois um mesmo fato, quando observado por diferentes pessoas, resulta em diferentes interpretações. Aí está a principal fonte dos “mistérios” do Angico. O desafio é conseguir o melhor “pente fino” para filtrar toda essa enxurrada de informações, e ter como resultante a evidência mais próxima da verdade, como menor margem de erro, e sairmos desse lodaçal de especulações sensacionalistas que, quando não submetidas à inteligência, além de não levar a nenhum lugar, só nos impõe tropeços e escorregões, como, por exemplo, a inconsistente teoria do Lampião de Buritis.

Não poderia deixar de homenagear os comandantes João Bezerra da Silva e Francisco Ferreira de Melo, os verdadeiros heróis do Angico. Os dois agiram em tão perfeita sintonia que, mesmo diante dos vários empecilhos encontrados (a recusa inicial de Pedro, o início do tiroteio sem que o cerco estivesse fechado...) tiveram sucesso e deram cabo de Lampião, Maria e mais nove cangaceiros. As luzes de Bezerra e Ferreira de Melo ofuscaram largamente a genialidade militar de Lampião, às custas da surpresa (arma que sempre estivera a favor do cangaceiro) e da inteligência militar bem aplicada.

Antes de encerrar, gostaria de enfatizar que esta discussão sobre Angico somente é possível devido à coragem e determinação de dois grandes desbravadores: Antônio Amaury Corrêa de Araújo, que foi quem primeiro vislumbrou como pesquisador os acontecimentos daquela madrugada, e os colocou em ordem, presenteando-nos com uma obra fundamental sobre o assunto; e Alcino Alves Costa, que, inquieto e questionador, vem nos exortando a reflexões como estas, sobre o que parece ser a verdade.

Eles não comungam da célebre máxima exposta no filme “O Homem que Matou o Facínora”, de John Ford, onde o jornalista, ao saber que a verdade dos fatos é bem menos ‘heróica’ do que a lenda, diz:  
“Quando a lenda se tornar fato, imprima-se a lenda”.
Alcino e Amaury sempre preferiram os fatos. Parabéns a eles.Para encerrar, deixo um pensamento de Epictetus, que, na sua essência, nos exorta a não apenar ver o episódio do Angico, mas enxergá-lo com bom senso e honestidade.  
“As aparências para a mente são de quatro tipos: as coisas ou são o que parecem ser; ou não são, nem parecem ser; ou são e não parecem ser; ou não são, mas parecem ser. Posicionar-se corretamente frente a todos esses casos é a tarefa do homem sábio”.

Referências:
1) Aguiar, J. G. “Lampião, o invencível – Duas Mortes e Duas Vidas”. Thesaurus editora. 2009.
2) Nogueira, Aderbal. Vídeo “Candeeiro”. 2006.
3) Leikin, B et all. “Poisoning & Toxicology Compendium”. 1998.
4) Dantas, S. A. S. “Lampião – Entre a Espada e a Lei”. Editora Cartgraf. 2008.
5) Araújo, A. A. C. “Entrevistas com Balão, Zé Sereno e Cila”. 1971-73.
6) Fernandes, L. C. “Entrevista com Cila”. São Paulo, 2003.

FOTOS E FATOS:



 1) A Cabeça do Rei do cangaço, com leucoma e provavelmente pedações da massa encefálica nos cabelos. É Lampião, incontestavelmente.

  2) O verdadeiro Lampião, à esquerda. O pretenso Lampião de Buritis, à direita. Notar o formato diferente do queixo. Foto do livro Lampião – Entre a Espada e a Lei” do Pesquisador e escritor potiguar Sérgio Augusto de Souza Dantas.


*Leandro Cardoso Fernandes: É médico (Universidade de Pernambuco – 1997), especialista em Cardiologia e Ecocardiografia pela Escola Paulista de Medicina (2005), autor do livro “Lampião: A Medicina e o Cangaço” (em parceria com Antônio Amaury Corrêa de Araújo); autor do cordel: “Sinhô Pereira: O Homem que Chefiou Lampião”. Contato: leandrocfernandes@globo.com 

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