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terça-feira, 21 de abril de 2020

CANGACEIRO, VÍTIMA DA JUSTIÇA



Autor – Luís da Câmara Cascudo
Fonte – Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo
“Aqui no Nordeste brasileiro nós sabemos que o cangaceiro não é uma formação espontânea do ambiente. Nem sobre ele influi a força decantadamente irresistível do fato econômico. Nas épocas de seca a fauna terrível prolifera, mas nenhum componente é criminoso primário. Os bandos têm sua gênese em reincidentes, trânsfugas ou evadidos. Nunca a sugestão criminosa levou um sertanejo ao cangaço. É cangaceiro o já criminoso. E criminoso de morte.
Depois de tanta discussão explicativa fica-se sem saber de que elementos estranhos sai o tipo hediondo, que outrora inda conservava o tradicional “panache” do heroísmo pessoal, do respeito às mulheres e aos velhos e da solidariedade instintiva à bravura. Nunca um cangaceiro digno desse nome matou um homem reconhecidamente bravo. Quase sempre ficavam amigos ou mutuamente se distanciavam.
Mas qual seria o fator psicológico na formação do cangaceiro? Para mim é a falta de Justiça, que no Brasil é corolário político.
A vindita pessoal assume as formas sedutoras dum direito inalienável e sagrado. Impossível fazer crer a um sertanejo que o tiro com que ele abateu o assassino de seu pai deve levá-lo à cadeia e ao júri subsequente. Julga inicialmente um desrespeito a um movimento instintivamente lógico e que a Lei só deveria amparar e defender. Daí em diante surgirá o cangaceiro vítima de sua mentalidade. Ele descende em linha reta das “vendettas” e da pena do Talião.
Este é o aspecto raro. O comum é o sertanejo matar o assassino que ficou impune e bazofiador. Neste particular a ideia de prisão é para ele insuportável e inadmissível. Surge, fatalmente, o cangaceiro.

Defensores de Mossoró em 13 de junho de 1927.

A desafronta constitui a característica inicial do “bravi”. Numa alta proporção de oitenta por cento o cangaceiro do Nordeste brasileiro apareceu num ato de vingança. E são estes justamente os grandes nomes que o sertão celebra num indisfarçado orgulho que não dista da possível imitação.
Adolfo Rosa quis uma prima e o tio mandou prendê-lo num tronco. Dois dias depois o tio estava morto e surgia Adolfo Velho Rosa Meia Noite, chefe de bando, invencível e afoito. É uma das figuras mais representativas do velho cangaceiro típico, generoso e cavalheiresco. Jesuíno Brilhante tornou-se cangaceiro defendendo os irmãos contra a Família Limão. Baixo, loiro, afável, risonho, Jesuíno é uma lembrança cada vez mais simpática para o sertão. E sua morte é guardada como a dum guerreiro:
Jesuíno já morreu
Acabou-se o valentão.
Morreu no campo da honra
Sem se entregar à prisão.
Antônio Silvino matou o que lhe matara o pai. Jesuíno, no ódio que tinha da Família Limão, declarou guerra a todos os limoeiros que encontrava. Destruía-os totalmente, mastigando os limões entre caretas vitoriosas. Antônio Silvino “acabou a raça” dos assassinos do pai.
O horrendo Rio Preto, hercúleo e feroz, não seria abatido se não fosse vingança doméstica. Os Leites, ajudados por meu tio Antônio Justino, fizeram guerra de morte ao moleque demoníaco. Se a Justiça chamasse Leite ou o negro Romão (escravo alforriado por meu tio, e que matou Benedito, o herdeiro de Rio Preto) às contas, estes se tornariam infalivelmente cangaceiros.
Não é fenômeno peculiar à zona nordestina do Brasil. Em São Paulo há o caso do jovem Aníbal Vieira. Quatro empregados duma fazenda violentaram lhe uma irmã. Aníbal não “foi à Justiça”, que por retarda e tardonha desanima. Armou-se com seu pai e matou dois dos violentadores. Os dois restantes fugiram para Mato Grosso. Aníbal viajou para Mato Grosso e matou-os. Julgou-se de contas saldadas. Fora um justiceiro. Mas a Justiça não entendeu desta forma. Mandou prender Aníbal. A tropa de polícia que o perseguia encontrou-se com ele em Três Lagoas. Aníbal fez frente à força militar. Feriu dois soldados e fugiu. Aí estará o movimento inicial dum Dioguinho.”
Fonte: Diário Nacional, São Paulo, 03 de junho de 1930.
Fotografia: Oferta do Museu Municipal de Mossoró a Câmara Cascudo. Acervo Fotográfico @institutocascudo

O SERTÃO ENTRE CHUVISCOS E PINGOS D’ÁGUA

*Rangel Alves da Costa

De vez em quando, as noites se mostram chuvosas no sertão sergipano. Pouca chuva, mas alguma chuva, e fato sempre desejado pelo sertanejo. Qualquer pingo d’água é tido como dádiva sagrada.
Chuvas inconstantes, em verdade, mas caindo em pingos grossos de quando em vez. Também não de forma generalizada, mas apenas aqui e acolá, enchendo uma ou outra barragem. O alento, contudo, uma esperança boa no coração sertanejo.
Ao alvorecer tudo ainda está molhado, chuviscando de vez em quando. O tempo mais frio, mais preguiçoso, com pessoas recolhidas aos seus lares até um pouco mais tarde. Dormem um pouco mais, demoram-se mais para irem à luta.
Como costuma acontecer, chuvisco ao anoitecer e amanhecer são apenas ocasionais no sertão. O sol sempre bate à porta após o amanhecer. E chega volumoso, já aquecido, já ameaçador para o homem, mas principalmente para a terra e o bicho.
Dessa vez, contudo, a clareira não foi aberta. O dia amanheceu entre o chuvisco e o nublado. Quando o chuviscamento cessou o véu das nuvens continuou. Nada de sair o sol e de tempo aberto. Dessa vez, o sol esquecido de aparecer.
No sertão, o tempo nublado, como que nevoento, como que mais escurecido, acaba produzindo um retrato de mais singela poesia. Poesia escrita no ar, tracejada nas nuvens, versejante pelos arredores e horizontes. Nada parece existir de verdade, senão aquela plangência leve e lenta pelo ar.
Um tempo esmaecido, outonal, de cores ocres, ainda que não seja na estação da revoada das flores e folhas. Um retrato acinzentado, tingido na cor de uma leve melancolia. Sim, as cores do tempo chamam a outras visões sobre o instante.
Pelas estradas, onde as craibeiras já florescem seus reluzentes dourados, o esmaecimento do dia junto ao amarelado acaba produzindo paisagens saudades, ternas e entristecidas. Tudo muito belo, mas de uma beleza de versos tristes.
Os pássaros chegam em voo lento, sem cantigas ou madrigais. Os ninhos não piam como de costume. Os bichos do mato permanecem em suas tocas, os calangos sobem nas pedras tentando avistar uma nesga de sol. As estradas nuas, as ruas nuas, um quase silêncio.
No mundo acostumado pelo sol escaldante, pela luz encalorada por todo lugar, olhar para as distâncias e tudo avistar noutro semblante, certamente que causa estranheza na alma. E que se imagine o dia inteiro assim. Dia que se prolonga na sonolência e na pausa de tudo.
Como dito, desde a primeira alva do dia - e assim pelo dia inteiro - apenas o tempo nublado por todo o sertão. Os matos parecendo inertes, os bichos mais recolhidos, as pessoas mais silenciosas, tudo mais entorpecido.
E em muitas pessoas a propensão às saudades, às melancias, às nostalgias, às saudades. Ora, sem dúvida que paisagens se mostram tão aflitivas que acabam escavando no mais profundo do baú das recordações. Abrir as janelas sem sol, sem queimores e esvoaçamento, é chamar para si as saudades.
E aquela brisa mansa chegando e passando. A leve ventania cantando e indo embora. As portas fechadas, as janelas fechadas, ruas de poucas pessoas que apenas passam, e quase sem alegria. Apenas o nublado em tudo. Mas um menino corre atrás de uma bola. Aquela falta de sol lhe anima.
Certamente que muitos ficam desejosos que as nuvens acima logo se transformem em chuvaradas. Templo nublado é sempre esperançoso, é sempre uma promessa de a qualquer instante a chuvarada cair. Olhares se voltam ao alto. De vez em quando uma mão lança mão de um rosário. A prece esperançosa de chuva.
Uma aflição terrível também. O sertanejo logo começa a sonhar, a planejar, a querer que a chuva logo aconteça. Na chuva sua vida, sua sobrevivência, sua existência. E não só o homem, pois a terra também se remexe em suas entranhas e pede. E implora que chova logo.
Pelos rincões mais adiante, nas vastidões sertanejas, o mesmo semblante esmaecido. Por onde os olhos avistam e os passos imaginam chegar, o mesmo quadro anuviado. Nem faz sol nem chove, não cai pingo d’água nem o braseiro toma logo conta de tudo. Apenas as promessas das nuvens em pêndulo agonizante.
Pelas estradas além, e até nas lonjuras, a mesma paisagem, a mesma cor, a mesma situação. Talvez o sertão inteiro assim, nublado, anuviado. Nos percursos, trilhando as margens com suas casinholas, suas matarias, seus bichos e seus habitantes, sempre a mesma poesia enternecida.
No sertão, um tempo assim não se pode definir de outra forma senão através do poético. Uma poesia mista de alegria e tristeza. Alegria sim, pois porta aberta para a chegada da chuva. Porém, de tristeza também.
Uma tristeza diferente, sem dor, sem agonia, sem aflição. Uma tristeza de saudade, apenas. Mas não saudade de pessoa, daqueles que deram adeus ou de qualquer outra situação de partida. Apenas a tristeza saudosa trazida pelo olhar perante a paisagem nublada.

Escritor
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TÁ FICANDO DEZ

Clerisvaldo B. Chagas, 20 de abril de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.295

Muito bom o acompanhamento de um site da terra na movimentação asfáltica da cidade. É assim que a população fica  bem informada, principalmente nessa fase difícil de não sair às ruas. Mas enquanto acontece o confinamento, os heróis populares do asfalto, continuam firmes nas ruas e avenidas de Santana do Ipanema, passando o piche em lugares estratégicos da cidade. Quem diria que ruas anteriormente esquecidas fossem receber esse beneficiamento moderno! Chegam até nós texto e fotos dos lugares contemplados pelo modernismo. A Rua Professor Enéas, humilde e sofrida foi premiada, segundo o referido site. Assim também teria acontecido na Rua Ormindo Barros (rua da Rádio Milênio) e Rua  Adeildo Nepomuceno Marques (via do Tênis Clube Santanense) que também pega toda a lateral da Escola Padre Francisco Correia.

RUA DO TÊNIS CLUB. (CRÉDITO: SITE SERTÃO NA HORA/JEAN SOUZA
Assim sendo, todos os veículos motorizados da região do Bairro São Pedro e imediações, evitarão o Centro Comercial aliviando o trânsito, rumo à capital. É que a Rua Ormindo Barros asfaltada, terá papel preponderante naquela periferia servindo de alentador atalho. E se a Capital do Sertão já é bela por natureza, muito mais bela ficará, principalmente após as sinalizações horizontais e verticais que dão segurança, colorido e ornamentação. Pode parecer ufanismo tolo, mas as ruas empoeiradas da própria Maceió, lutam com suas associações pelo benefício a que todos têm direito. “Circular na “maciota” para cima e para baixo não tem preço”, como falou um mototaxista entusiasmado.
O projeto do governo estadual junto às prefeituras dá um salto circense de qualidade no padrão de vida das cidades interioranas. Poeira no verão e lama no inverno viram coisas do passado. E com o predomínio do asfalto nas ruas, os próprios prefeitos agraciados com o Projeto, imaginam de imediato novos empreendimentos que valorizam ainda mais os trechos com pretume que cobrem os paralelepípedos tronchos. Claro que não esquecemos das ruas que ficarão sem o petróleo, mas com apenas 18 km de asfalto muitas delas ficarão sem o benefício como a da minha residência. Fazer o quê? Mas se o prefeito de Santana do Ipanema fizer posteriormente um novo esforço, cremos que todos os lugares, sem exceção, estarão incluídos neste sonho mais avançado.
Novamente parabéns ao prefeito Isnaldo Bulhões, a sua equipe e aos incansáveis operários de cor laranja que fazem a cobertura.


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SÓ COMO ARQUIVO - INTERVENÇÃO MILITAR

Por José Mendes Pereira

Tem uma porção de gente que está fazendo manifestações pelo Brasil pedindo a Intervenção militar e que venha o Ato Institucional Número Cinco (AI-5). Essas pessoas que exigem que volte o tempo passado que foi a ditadura nem sabe o que estão dizendo. Não têm a mínima ideia como funciona este Ato.

Se elas querem o retorno da ditadura, que venha, e depois irão saber o quanto é duro viver no regime militar. Não se tem liberdade, não se diz nada com o presidente, deputados..., afinal, tudo é muito triste e rigoroso. Será preso sem fiança e sem visitas na cadeia aquele que falar mal do presidente ou de uma autoridade governamental. Se vier a ditadura eu tenho pena de quem não pediu, e aqueles que pediram que sofram e comam do pão que o diabo amassou.

Sentenas de mães perderam os seus filhos para a ditadura sem terem a mínima ideia o que aconteceu com eles. Deixa de tolice! Deixa que o Brasil seja um país democrático. A ditadura é coisa da antiguidade. Estamos em pleno século XI e não podemos mais passar por isso.

Eu não sofri na ditadura e nem meus pais e meus irmãos porque não erramos, mas muitos não fizeram nada e foram acusados como vingança, e conheci pessoas que sofreram bastante. Várias o carrasco da ditadura matou e até hoje ninguém sabe o local que foram assassinadas. Outros foram dependurados pelos testículos, não sito quem, mas em Mossoró alguns sofreram estas crueldades. Mulheres estupradas e mortas por lá mesmo. A peia comia no centro.

Deixa de tolice, rapaz! Leia o que é o Ato Institucionla nº. cinco AI-5 e leia também o que é ditadura para você afirmar o porquê das suas bobagens. 

O que aqui estou falando é independente de presidente. Poderia ser qualquer um, Lula, Dilma ou Bolsonaro. Não me refiro a nenhum. Nenhum deles me dão de comer.

Leia sobre Bangu que era mossoroense e sofreu todo tipo de tortura.
Bangu 1 -






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GALOPANDO NA SAUDADE


Por Ritinha Oliveira

Casinha de taipa na beira da estrada
Mesmo em ruínas conserva histórias
De tempos difíceis e também de glórias
Tem muita saudade nela camuflada
Se ouvem os gritos da dor magoada
Vagueando nela a se lamentar
Os olhos da dor começam a escoar
Respinga a parede molhando o torrão
E o rio da lágrima inunda o sertão
Que só se represa nos braços do mar


Poetisa: Ritinha Oliveira
20/04/2020


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ULISSES LIBERATO DE ALENCAR: OVELHA DESGARRADA DA “ELITE BRANCA” DO ALGODÃO.

Por José Romero de Araújo Cardoso 
José Tavares de Araújo neto e o seu primo José Romero de Araújo Cardoso

Apesar de ter se destacado entre os mais cultivados e astutos chefes de cangaço do início da segunda década do século XX, Ulisses Liberato de Alencar foi um proeminente membro da orgulhosa aristocracia rural que se formou no sertão nordestino com o apogeu da cotonicultura no século XIX e parte do século passado.

Ulisses nasceu em “berço de algodão” na fazenda “Estrelo” no ano de 1894, natural do município de Pombal, cuja localização geográfica está no alto sertão da Paraíba, situado a quase quatrocentos quilômetros da capital, na confluência dos rios Piranhas e Piancó.

Seu pai era o fazendeiro e almocreve Francisco Liberato de Alencar, descendente do mesmo ramo familiar do qual faz parte o romancista cearense José de Alencar. Do lado materno descendiam de judeus. A mãe de Francisco Liberato de Alencar, de nome Ana Maria da Conceição, dos Cardoso D’Arão, era filha de um descendente de cripto-judeu de nome João Ignácio Cardoso D’Arão, cujo pai fugiu do litoral paraibano para escapar das perseguições da inquisição que acusava a comunidade de prática judaizante, estando a mesma localizada, mais precisamente, na área adjacente a Gramame, em uma localidade conhecida por Engenho Velho.

Ouro branco, responsável por boa parte da aristocracia rural do nordeste

Após a fuga se homiziaram no cariri cearense e depois em uma localidade conhecida por Mari dos Seixas, município de Sousa, Estado da Paraíba, rumando depois para Pombal, onde se instalam definitivamente. Até 1914 o futuro líder bandoleiro era apenas mais um entre tantos sertanejos que labutavam nas adustas plagas tórridas da região do Piranhas-Piancó. O seu espírito belicoso e aguerrido só despontou com ênfase quando da seca de 15. Esta estiagem destruiu as economias amealhadas a custo pela outrora imponente família Liberato de Alencar, embora passado o rigor climático tenha havido o equilíbrio das finanças dos alencares.

Associado a essa desgraça cíclica veio a morte de Francisco Liberato de Alencar, fazendo com que Ulisses se aproximasse de famílias abastadas que personificavam a classe dominante da hinterlândia paraibana. Situavam-se degraus acima dos alencares na estamentação da sociedade sertaneja agro-pastoril. No complexo inter-relacionamento entre oligarquias havia laços de suserania e vassalagem conforme os favores e benesses concedidos. Os alencares já não dispunham de posses que rivalizassem com famílias historicamente detentoras do mandonismo local, como Queiroga e Fernandes. A submissão de Ulisses o levou aos caminhos da vida marginal.

Favores “exigidos” por “protetores” dos momentos de infortúnios comprometeram a família e o próprio Ulisses. Já não era o considerado filho do respeitado e rico fazendeiro do “Estrelo”. Transformou-se rapidamente em um bandido que roubava e matava a serviço da falta de escrúpulos e da ausência de valores. Selava assim o seu destino às leis do bacamarte e da lazarina.

O prestígio dos alencares, decaído em razão da inserção de um membro da orgulhosa aristocracia do algodão nas hostes do cangaço, amalgamado com os efeitos da seca inclemente, precisava ser reerguido. Ulisses foi enviado pela família a São Paulo a fim de se regenerar. Logo a solução se mostrou inviável, pois o bandido não demorou o bastante na região Sudeste. Retornou ao sertão e recomeçou toda uma série de estrepolias e escaramuças. Antigos “protetores” começaram a se mostrar preocupados com aquele “arquivo vivo” solto na caatinga. Não era em vão o temor que os caudilhos sertanejos demonstravam.

Município de Pombal, em destaque.

Dotado de um temperamento violento e impulsivo, Ulisses invadiu a fazenda “Bom Jesus”, em Pombal, surrando impiedosamente a sua proprietária de nome Antônia Maria da Conceição em razão que esta o estaria difamando, comentando seus crimes nas redondezas. Contemporâneos do bandido, no entanto, afirmavam que o mandante de tal atrocidade tinha sido famoso “Coronel” que marcou época no sertão, implicado diretamente nas desditas da ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão.

As conseqüências desse ato se revelaram negativas a Ulisses e aos mandatários de baraço e cutelo, vindo à tona diversos crimes praticados pelo futuro cangaceiro. A partir disso ele se tornou mais perigoso, representando uma ameaça mais latente aos seus antigos “protetores”. O caminho a seguir era o cangaço, ombreando com salteadores famosos do nordeste semi-árido a sua triste sina.

Ulisses se tornou mais um cavaleiro nômade vestindo a couraça dos guerreiros sertanejos. Empunhou o rifle, amolou a faca que um dia seu pai abriu caminho na caatinga conduzindo tropas de burros, e formou seu bando com a matéria-prima inesgotável na região. Onde há miséria e perseguição não faltará quem viva à margem da sociedade alardeando a revolta aos quatro cantos.

Suas ações, rápidas e precisas, valeram-lhe fama e respeito de outros grupos bandoleiros. Em considerável parcela da região semi-árida de quatro Estados nordestinos seu nome granjeou notoriedade fabulosa. Boa parte da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará e de Pernambuco registrou as ações espetaculares de Ulisses Liberato de Alencar.

A definição de um dos valhacoutos da fera sertaneja na localidade do Barro, Estado do Ceará, feudo inconteste do todo poderoso “Major” José Ignácio de Sousa, determinou a aproximação do cangaceiro com outro proeminente membro da oligarquia sertaneja, não menos afortunado que Ulisses. Atendia pelo nome de Sebastião Pereira e Silva, o célebre “Sinhô Pereira”. Junto com o primo Luiz Padre moviam luta sem quartel na secular guerra interfamiliar envolvendo sua família e a dos Carvalhos.

O “Major” José Ignácio era um dedicado coiteiro, considerado o maior de todos. Amigo dos alencares, principalmente de Argemiro, agente econômico na comercialização das famosas rapaduras dos engenhos do velho caudilho cearense no sertão da Paraíba. Já cangaceiro profissional, Ulisses resolveu se casar com uma sertaneja de nome Santina. Corria o ano de 1918. As perseguições ininterruptas passaram a atingir além do “Estrelo”, nas localidades onde residam os parentes de sua esposa. Torturas e sevícias eram os métodos mais utilizados pelas forças volantes a fim de obter informações sobre o paradeiro do bandido.

O cangaceiro só podia amar com satisfação o cheiro da caatinga molhada depois das chuvas que põem fim às secas, o xiquexique trespassado de espinhos e as colinas sertanejas, seus esconderijos mais usuais. Além disso, apenas a confiança em suas armas e a frieza dos seus punhais. O casamento era uma instituição social que não podia ser desfrutado plenamente pelos bandoleiros das caatingas.

No Barro Ulisses firmou sólida amizade com o vingador do sertão do Pajeú, passando de chefe de grupo independente a de subgrupo do bando de Sinhô Pereira. Neste ensejo estendeu sua luta a Pernambuco. No mesmo ano que se casou houve uma verdadeira devassa no território controlado pelo velho “Major” José Ignácio. Acossado por volantes cearenses, o famoso coiteiro deixou o nordeste em companhia de Luiz Padre, homiziando-se no Estado do Goiás, onde foi assassinado na localidade de São José do Duro (hoje Estado do Tocantins).

Em 1919, unindo forças com o grupo de Sinhô Pereira, destroçaram volantes aquarteladas na vila de São Francisco de Villa Bella (hoje Serra talhada, Estado de Pernambuco). Nas batalhas travadas Ulisses teve por companheiros todos os maiorais do banditismo rural que infestava o nordeste, destacando-se entre estes, além do comandante já citado, àquele que se tornou o “rei de todos os cangaceiros”: Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. O ataque à vila de São Francisco repercutiu negativamente, pois a perseguição recrudesceu de forma impressionante. Antigos aliados do “Major” José Ignácio que ainda lhe dava proteção no Estado do Ceará garantiam-lhe ainda relativa segurança.

Em Cantinho do Feijão (hoje Santa Helena, Estado da Paraíba), uma pequena localidade situada no alto oeste paraibano, fronteira com o Estado do Ceará, Ulisses firmou base estratégica, para tanto, contou com a proteção forçada de um parente relativamente abastado para a época, residente nesta localidade. Chamava-se Alfredo Cardoso D’Arão, homem muito respeitado no lugarejo fundado por Raimundo Luiz, pai do cordelista Raimundo Santa Helena. Mais tarde, no ano de 1927, o fundador, que na ocasião ocupava o cargo de subdelegado da localidade, foi morto num ataque fulminante do bando de Lampião, quando do deslocamento em direção ao Estado do Rio Grande do Norte, objetivando atacar Mossoró.

Usando a propriedade do parente como base avançada, Ulisses desferia ataques violentos às fazendas vizinhas, bem como às localizadas no Estado do Ceará, exigindo tributos dos desditados fazendeiros. Aqueles que o desafiasse enfrentaria sua vingança terrível. Ulisses não era de brincadeira, assim como seu bando sinistro.

O casamento de Argemiro Liberato de Alencar com Dona Maria Mafalda de Alencar aproximou Ulisses do Estado do Rio Grande do Norte. Nesse ensejo, estabeleceu seu ponto estratégico na fazenda Jordão. No dia 11 de setembro de 1922, o fim do apogeu da era Ulisses no sertão de quatro Estados foi selado definitivamente. Encontrava-se em missão de observação na localidade Alagoinha de Lavras da Mangabeira (Estado do Ceará) quando foi preso. Encontrava-se sem o bando. Para não chamar atenção havia preferido agir sozinho na missão que fora a última.
 Cadeia Velha de Pombal

Recambiado à cadeia da cidade do Crato (Estado do Ceará), foi minuciosamente inquirido. A transferência do bandoleiro, para a cidade de Pombal, foi requisitada a fim de que ele respondesse inúmeros inquéritos. No entanto, o real sentido da transferência era dar prosseguimento à “queima de arquivo” que havia sido planejada pelos poderosos caudilhos que o haviam envolvido na vida de crimes.

No mês de setembro do ano de 1923 foi sumariamente fuzilado. Junto com Ulisses morreram dois companheiros de escaramuças que também se encontravam presos. Com Chá Preto e Polvrinha fez a última viagem, sem retorno, pois quem comandava a escolta policial era um dileto soldado-jagunço a serviço de quem o queria morto. Era o fim da valente ovelha desgarrada que a opulência e a miséria do algodão geraram no sertão do Estado da Paraíba.

Josè Romero Cardoso


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segunda-feira, 20 de abril de 2020

LIVRO “O SERTÃO ANÁRQUICO DE LAMPIÃO”, DE LUIZ SERRA


Sobre o escritor

Licenciado em Letras e Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Linguagem Psicopedagógica na Educação pela Cândido Mendes do Rio de Janeiro, professor do Instituto de Português Aplicado do Distrito Federal e assessor de revisão de textos em órgão da Força Aérea Brasileira (Cenipa), do Ministério da Defesa, Luiz Serra é militar da reserva. Como colaborador, escreveu artigos para o jornal Correio Braziliense.

Serviço – “O Sertão Anárquico de Lampião” de Luiz Serra, Outubro Edições, 385 páginas, Brasil, 2016.

O livro está sendo comercializado em diversos pontos de Brasília, e na Paraíba, com professor Francisco Pereira Lima.
Peça já aqui:
franpelima@bol.com.br

Já os envios para outros Estados, está sendo coordenado por Manoela e Janaína,pelo e-mail: anarquicolampiao@gmail.com.

Coordenação literária: Assessoria de imprensa: Leidiane Silveira – (61) 98212-9563 leidisilveira@gmail.com.

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MORTE E VINGANÇA DO CANGACEIRO SOFREU | O CANGAÇO NA LITERATURA | #268


O Cangaço na Literatura

Conhece o cangaceiro Sofrê ou Sofreu? Acompanhe esta incrível entrevista e saiba mais!

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MEU ENCONTRO COM O ATOR NELSON XAVIER, O LAMPIÃO DA SÉRIE EXIBIDO PELA REDE GLOBO.



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EXPEDITA FERREIRA, EU, VERA FERREIRA E CANDEEIRO. JÁ FAZ UM TEMPINHO. RECORDAÇÕES BACANAS.

 Por Anildomá Willans


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ARLINDO LOPES PROFESSOR E ARTISTA PLÁSTICO DA CIDADE DE SÃO JOSÉ DO EGITO


Por Cangaceiros Cariri

Anotem este nome: Arlindo Lopes professor, artista plástico da querida São José do Egito, Pernambuco, que pelas mãos do confrade Sálvio Siqueira estará ao nosso lado no Cariri Cangaço Floresta 2016. 

O ponto alto da presença de Arlindo será para nossa satisfação, sua Arte: Pela foto já temos uma amostra do que vamos encontrar: Cel. Manoel Neto, nazarenos da gema...

Então que venha o Cariri Cangaço Floresta!
26 a 29 de maio de 2016.
Manoel Severo Barbosa


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MAIS UM LIVRO EM SEGUNDA EDIÇÃO



Mais um livro em Segunda Edição. Novas matérias e links para vídeos e jornais da época. Inclui o áudio do livro OS SERTÕES.

Livro para leitores e ledores que emprestam sua voz para deficientes visuais. Com corpo de texto super aumentado.

Estou fazendo os retoques finais. Aguardem!


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PARTE 1. MOSSORÓ DE TODOS OS TEMPOS COM RAIMUNDO SOARES DE BRITO, O RAIBRITO, EM 2003.



O Programa Mossoró de Todos os Tempos foi criado pela jornalista Lúcia Rocha e apresentado por Milton Marques, exibido pela TCM - TV Cabo Mossoró. Raimundo Soares de Brito, natural de Caraúbas, no Rio Grande do Norte, aposentado dos Correios, era um pesquisador, historiador e escritor, deixou mais de 40 livros. 

Radicado em Mossoró, autodidata, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UERN - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Em sua residência, mantinha grande acervo de jornais, livros e revistas, que serviam para suas pesquisas.

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A IMPORTÂNCIA DE TUDO

*Rangel Alves da Costa

Coisas existem que são tidas com pouca ou quase nenhuma importância. Quando se refere à pobreza, à carência, ao viver na humildade. Mesmo que se aviste, pouca importância será dada. Assim acontece.
E acontece porque a maioria das pessoas se contenta apenas com o exterior do que com as realidades interiores. E acaso o exterior já seja de pouca atratividade, então nem se dará o trabalho de percorrer um pouco mais aqueles caminhos.
Em local distante, à beira de estrada, entre os tufos de mato, depois da malhada, em local singelo e sublime: uma casinha.
Casinha humilde, simples, de barro, do visgo antigo, da argila lançada aos tufos sobre as ripas. Sua aparência não nega, pois uma casinha de barro mesmo.
Mas será que apenas uma casinha de barro, ripa de pau, cipó da mata, terra e visgo, tudo juntado para ser um lar no passado?
Aparentemente, apenas uma casinha, mas será que sua feição nada representa além de sua velha idade, de seu barro e portas sumindo, de sua sensação de desalento e abandono?
Ao seguir pela estrada, ao passar adiante, certamente se avistará apenas a casinha ao relento dos dias e dias noites, num tanto faz de continuar existindo.
Mas será que é sempre assim ou o olhar deve procurar a vida, seja do passado ou presente, quem dali jamais saiu em sua memória?
A verdade é que seja casarão ou casinha, em suas paredes, dependências e fachadas, sempre haverá uma história que precisa ser conhecida.


Por que foi ali construída, quem morou na casinha, por que foram abrindo a porta e saindo e saindo, deixando tudo à voracidade do tempo que a tudo vence, destrói e sepulta?
Apenas uma casinha, mas talvez uma história grandiosa na sua existência, talvez de tamanha importância no passado que até o tempo se acabrunha em ir derrubando o seu barro.
Por isso, nada existe que não possua alguma importância, significado e história. Tudo tem algo a ser contado sobre sua existência.
E assim com a casinha e com as pessoas. Muitos imaginam que pessoas humildes são como casinhas abandonadas e que, por isso mesmo, sequer merecem atenção, mas não é assim não.
Eis que somos casinha de barro. E muitas vezes, até mesmo depois de no passado termos sidos casa de paredes suntuosas e endereços conhecidos.
O tempo transforma o belo, definha o que se mostra imponente, leva ao chão o que se sentia como duradouro demais.
Somos casinha e seremos casinha de barro acaso desejemos o prolongamento no tempo, viver muitos anos. Mais tarde virá a certeza que o barro está despencando, caindo.
Não adianta querer que tudo permaneça irretocável. Também não adianta fugir da casinha já envelhecida porque a nova é mais confortável.
Tudo é importante demais, tudo deve ser respeitado, admirado e valorizado: na casinha e nas pessoas.

Escritor
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QUANDO A DITADURA PERSEGUIU CIENTISTAS E INTERROMPEU PESQUISAS: OS 50 ANOS DO 'MASSACRE DE MANGUINHOS'

André Bernardo Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil
Acervo da casa de Osvaldo Criuz.

Cassação de cientistas freou desenvolvimento de pesquisas por anos no Instituto Oswaldo Cruzfreou desenvolvimento de pesquisas por anos no Instituto Oswaldo Cruz.

(Quando soube de sua cassação, o entomologista (estudioso de insetos) carioca Sebastião de Oliveira de 52 anos, custou a acreditar. "Você esquece que hoje é 1º de abril?", rebateu ele à técnica de laboratório do parasitologista Herman Lent que lhe dera a notícia.

Dali a pouco, o telefone tocou. Do outro lado da linha, alguém confirmava a cassação: "Está dando na Rádio Globo". Só depois de ouvir o noticiário é que ele se convenceu. Não foi o único.

Naquele mesmo dia, o químico Moacyr de Andrade, também cassado, procurou o amigo Lent, referência mundial no estudo do barbeiro, o inseto transmissor da Doença de Chagas, para lhe dar a triste notícia: "Não precisei falar nada: o Herman tinha os olhos marejados", contou Moacyr, em 1986.

No dia 1º de abril de 1970, pouco mais de um ano depois do Ato Institucional nº 5 (AI-5), Sebastião de Oliveira e Moacyr de Andrade foram dois dos dez cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), embrião da atual Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que tiveram seus direitos políticos cassados. Foram aposentados compulsoriamente e impedidos de trabalhar em qualquer instituição pública do país.

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Ao todo, faziam parte da "lista negra" publicada no Diário Oficial, além dos já citados Sebastião José de Oliveira (1918-2005), Herman Lent (1911-2004) e Moacyr Vaz de Andrade (1920-2001), os pesquisadores Augusto Perissé (1917-2008), Domingos Arthur Machado Filho (1914-1990), Fernando Braga Ubatuba (1917-2003), Haity Moussatché (1910-1998), Hugo de Souza Lopes (1909-1991), Masao Goto (1919-1986) e Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1905-1990).


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