Por Antônio Corrêa Sobrinho
O assassinato
do juiz de direito do município de Triunfo, em Pernambuco, em dezembro de 1923,
Dr. ULYSSES ELÍSIO DO NASCIMENTO WANDERLEY, foi, à época, amplamente noticiado
na imprensa nacional. Sobre o qual, nesta minha diletante pesquisa, trago, para
conhecimento e satisfação dos que fazem este temático grupo, o que relataram os
jornais pernambucanos: Jornal do Recife, Diário de Pernambuco, A
Província, Pequeno Jornal; e os diários editados na Capital Federal, Rio
de Janeiro: Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Jornal e A
Noite.
Observo que
formatei este trabalho, trazendo a íntegra da descrição do Jornal do Recife e,
entre colchetes, de modo complementar e para fins confirmatório, os informes
trazidos pelos sobreditos diários.
HECATOMBE EM
TRIUNFO
Jornal do
Recife
CONSEQUÊNCIAS
DE UMA POLÍTICA DE ÓDIOS E PAIXÕES – TIROTEIO E MORTES – NOTAS
Para empanar o
brilho das festividades que deveriam ser realizadas em Triunfo, em solenização
à passagem do ano, festividades que se realizaram em todo o Estado e quiçá no
Brasil, enchendo de satisfação o nosso povo, na noite de anteontem para ontem,
irrompeu naquele município pernambucano uma sangrenta tragédia, que, pela
raridade das comunicações telegráficas, não sabemos que origem teve.
No entretanto,
há muito que se esperava tão lutuoso acontecimento, pelo aspecto terrível da
política local, mais a mais intrincada pela dissidência e competições de seus
prosélitos.
Desde que
subiu à curul da prefeitura municipal de Triunfo o cônego Leal, várias
correntes que não olhavam com bons olhos a política mantenedora de sua
candidatura, desde logo se mostraram aguerridas à administração daquele
candidato
Eleito, o
cônego Leal assumiu o governo municipal, em meio às mais sérias apreensões,
tendo o braço forte do Dr. Ulisses Wanderley, juiz de direito da aludida
comarca.
Acirrados os
ânimos nessa luta partidária, de paixões e ódios que foram sempre o apanágio
dos políticos de Triunfo, dia a dia se condensava a odiosidade das partes
beligerantes, esperando-se, a cada hora, o despacho, que, anteontem, teve o seu
momento fatal.
Hostes
levantinas lograram efetivar o encontro e, num intenso propagar de paixões
baixas e soezes, investiram contra a ordem e a legalidade, ensanguentando o
solo triunfense com o horror de uma hecatombe.
Ao que
sabemos, nesse encontro morreu o Dr. Ulisses Wanderley, e foram gravemente
feridos numerosas pessoas de responsabilidade, entre as quais o Sr. Temístocles
Leal, irmão do cônego Leal, prefeito de Triunfo. Jornal do Recife
[Terminou bem
tristemente o ano de 1923 com os sangrentos sucessos de Triunfo.
Ontem, logo às
primeiras horas da manhã, entraram de circular boatos de graves ocorrências na
próspera cidade sertaneja, em consequência das quais ter-se-ia verificado a
morte de diversas pessoas, entre outras, do juiz de direito da comarca doutor
Ulisses Wanderley.
A triste
notícia teve infelizmente confirmação.
Anteontem, às
22 horas, aquele magistrado, em companhia de sua família e amigos, assistia uma
sessão de cinema quando um grupo de indivíduos armados invadiu o
estabelecimento onde se realizada o espetáculo, provocando sério conflito.
Findo este
notou-se estar gravemente ferido, com diversas punhaladas, o doutor Ulisses
Wanderley que faleceu poucos minutos após, tendo ainda recebido ferimentos o
Sr. Temístocles Leal, irmão do cônego José Leal, prefeito daquele município, e
outras pessoas.
Um indivíduo
de nome Januário que fazia parte do grupo assaltante morreu também em
consequência de tiros recebidos no conflito. Diário de Pernambuco].
[O
destacamento daquele município, antes do desenrolar desses sucessos,
compunha-se de 26 praças. A Província].
[RECIFE, 31
(A) – Telegrama aqui recebido de Triunfo diz que às 22 horas do dia 30, naquele
município, houve uma calorosa discussão no cinema local, estabelecendo-se um
grande conflito, do qual resultou a morte do Dr. Ulysses Wanderley, juiz de
direito, e de Januário Ribeiro, saindo gravemente feridos Marcolino Filho,
Temístocles Leal, chofer de Marcolino, e o comandante Isaias de Medeiros.
O governo, ao
ter ciência dessa grave ocorrência, providenciou a fim de apurar as
responsabilidades. O Jornal].
[Às 10 horas
da noite de ontem, o Dr. Ulysses Wanderley, juiz de direito daquela comarca,
achava-se em uma casa de diversões, quando chegou ao seu encontro um grupo
armado, assassinando-o a punhal.
Travou-se
então grande conflito, saindo gravemente ferido o cunhado do juiz, Temístocles
Leal, irmão do cônego Leal, prefeito do município.
Também saíram
feridos o indivíduo Marcolino de tal e outros do grupo assaltante. Reina grande
pânico na cidade.
O Exmo. Dr.
Governador, de posse dessas informações, teve longa e reservada conferência em
seu gabinete com o desembargador chefe de polícia, comandante da Força Pública,
procurador geral do Estado, tomando as necessárias providências.
Após acertadas
as primeiras medidas, o governador exonerou o delegado de Triunfo,
tenente-coronel Quintino de Lemos, nomeando para substitui-lo o tenente Pedro
Malta, que se transportará para aquele município amanhã, pela madrugada, em
trem especial.
O tenente
Malta irá acompanhado de numerosa força, a fim de restabelecer a ordem.
O Dr. Sergio
Loreto nomeou ainda o Dr. Agricio Brasil, juiz de direito de Quipapá, e o Dr.
Euclides Ferraz, para procederem inquérito a respeito. – Pequeno Jornal].
[RECIFE, 31
(Serviço especial da A NOITE, pelo cabo submarino) – A cidade de Triunfo, onde,
já, certa vez, houve gravíssima perturbação da ordem por motivos políticos,
voltou, hoje, à evidência por uma verdadeira reedição daqueles acontecimentos.
Não se conhecem
ainda os motivos principais, constando que se prendem ao partidarismo extremado
os lutuosíssimos fatos ali, agora, desenrolados. Com segurança, porém, quanto à
origem, nada é lícito afirmar.
As
comunicações aqui renhidas adiantam que, depois de um conflito cuja extensão é
igualmente ignorada, o juiz de direito da comarca, Dr. Ulysses Wanderley, caiu,
assassinado. A Noite].
[“TRIUNFO, 31
(Transmitido às 10 e meia da manhã). Ontem dez horas noite tendo Marcolino
Diniz vindo assistir festas aqui encontrou-se Dr. Ulisses Wanderley, que travou
com Marcolino calorosa discussão tendo Dr. Ulysses vibrado forte bengalada
Marcolino. Travada grade luta faleceram Ulysses Wanderley, Januário Ribeiro,
companheiro de Marcolino, saindo gravemente feridos Marcolino Diniz, o chofer
de Marcolino e Temístocles Leal, e levemente ferido Isaías Medeiros. Coronel
Quintino de Lemos tomou necessárias providências. Laurindo Diniz ”. A
Província].
[“TRIUNFO, 31
(Transmitido às 10 e meia da manhã). Ontem dez horas noite tendo Marcolino
Diniz vindo assistir festas aqui encontrou-se Dr. Ulisses Wanderley, que travou
com Marcolino calorosa discussão tendo Dr. Ulysses vibrado forte bengalada
Marcolino. Travada grade luta faleceram Ulysses Wanderley, Januário Ribeiro,
companheiro de Marcolino, saindo gravemente feridos Marcolino Diniz, o chofer
de Marcolino e Temístocles Leal, e levemente ferido Isaías Medeiros. Saudações.
– João Cordeiro, Carolino Campos”.
Eis aí mais um
fruto dessa política rotulada de “paz e trabalho”, tão apregoada e que, de
fato, só tem sido de desarmonia e sangue. A Província].
[... Agora,
depois dessa série abominável de crimes, vem o caso de Triunfo – cidade
pernambucana, onde se repetem as incursões dos cangaceiros do deputado José
Pereira Lima. Aí, o prefeito de Princesa, Marcolino Diniz, cunhado do deputado
Pereira Lima, acompanhado de vários celerados, assassinou a tiros e a faca o
juiz de direito de Triunfo, Dr. Ulysses Wanderley. O fato prende-se a um caso
anterior, ocorrido quando era governador de Pernambuco o doutor Borba: o chefe
político de Triunfo, coronel Deodato, incorreu no desagrado dos Pessoa de
Queiroz, sobrinhos do Sr. Epitácio, sendo logo dadas ordens ao deputado Pereira
Lima para o assassínio do mesmo senhor, o que não tardou em ser cumprido. De
Princesa saiu um numeroso grupo de cangaceiros, e Deodato, atacado a tiros,
sucumbiu, juntamente com alguns amigos que o defenderam na ocasião.
Esses
horripilantes crimes constituem, por assim dizer, o programa político da gente
do Sr. Epitácio.
Basta ver o
que a respeito desse hediondo crime de Triunfo diz a folha oficial do governo,
A União, noticiando-o, em sua edição de 5 de janeiro presente:
“O fato
desenrolou-se por ocasião de uma festividade pública, sendo de lamentar as suas
consequências, PELA CIRCUNSTÂNCIA (só por isso!!!) DE SER O CORONEL MARCOLINO
DINIZ UMA PESSOA DE RECONHECIDA ESTIMA E ESPÍRITO ORDEIRO, O QUAL DESFRUTA
CONSIDERÁVEIS SIMPATIAS EM TODO O SERTÃO.” (Eis a moral política do epitacismo
paraibano...). Correio da Manhã].
Avante na sua
faina de morte e destruição, os assassinos tirotearam a granel o próspero
município, implantando o terror, a viuvez e orfandade nos lares.
Ontem pela
manhã, teve notícia telegráfica da triste ocorrência o Exmo. Sr. Dr. Sérgio
Loreto, o governador do Estado, que logo conferenciou com o desembargador Silva
Rego, chefe de polícia e coronel João Nunes, comandante da Força pública,
iniciando as providências que o caso requeria.
Por ato de
ontem o senhor governador nomeou o doutor Agricio Brasil, juiz de direito de
Quipapá, para presidir o inquérito, e o doutor Euclides Ferraz, promotor
público de Floresta, para, em comissão, acompanhar o processo e formação da
culpa.
Ainda pelo
excelentíssimo senhor, doutor governador do Estado foi exonerado do cargo de
delegado de polícia de Triunfo o tenente coronel Antonio Quintino de Lemos é
nomeado para delegado especial do governo em Triunfo o tenente Pedro Malta,
delegado de Olinda.
Para aquele
município seguiu ontem, em trem especial da Great Western, o tenente Pedro Malta,
que se fez acompanhar de um pelotão da Força Pública composto de 70 praças.
Estivemos em a
residência do Dr. Felinto Wanderley, [conhecido clínico aqui residente. Diário
de Pernambuco] irmão do Dr. Ulisses Wanderley, S. S. mostrava-se profundamente
abalado, sendo o seu estado bastante agitado.
Em sua
companhia encontramos vários amigos que foram à sua residência apresentar os
seus sentimentos pelo doloroso fato.
O doutor
Felinto mostrou-nos os seguintes despachos, telegráficos que havia recebido de
Triunfo, ontem, pela manhã: Triunfo, 31 – Marcolino acompanhado grupo, ontem,
noite, assassinou barbaramente Ulisses. Temístocles e Marcolino gravemente
feridos.
Já telegrafei
governador pedindo providências.
(a) Cônego
Leal.
Felinto
Wanderley – Triunfo 31 – Criminosos, morto um feridos dois – Luiz.
O doutor
Ulisses Wanderley era juiz de direito de Triunfo, desde o governo do Dr. Manoel
Borba, quando se submetera a concurso, tendo conquistados o primeiro lugar.
Antes, porém,
havia sido juiz municipal de Afogados de Ingazeiras e Triunfo, respectivamente.
Contava 40
anos, formou-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1904.
Era filho do
saudoso Sr. Olímpio Elísio Wanderley.
Casado com
dona Elisa Leal Wanderley, irmã do cônego José Leal, atual prefeito de Triunfo,
deixa o saudoso 5 filhos menores.
[O Dr. Ulisses
Wanderley era um magistrado inteligente e estudioso, tendo uma obra publicada
sobre assuntos forenses, e vários artigos na imprensa.
Formado em
1904 pela nossa Faculdade de Direito ocupara os cargos de juiz municipal de
Afogados de Ingazeira e Triunfo, para cuja comarca, tendo feito brilhante
concurso, fora nomeado juiz de direito no governo do Dr. Manoel Borba].
O fato covarde
ocorreu anteontem às primeiras horas da noite na ocasião em que todos se
entregavam ao festivo novenário que ali se realizava, momentos depois da
chegada do cônego José Leal, que procedera de Recife, onde veio se entender com
o governador e pedir providencias ao mesmo sobre as ameaças de morte que vinham
sendo feitas pelos chefes da política em oposição, ali.
__
O chefe do
grupo que assassinou o doutor Ulisses Wanderley é ali conhecido; é filho do Sr.
Marçal Florentino Diniz e sobrinho do Sr. Laurentino Luiz, ex-prefeito de
Triunfo.
Marcolino vive
em Cajazeira, fazendo constantemente a travessia de Princesa a Triunfo.
O assassino é
ainda cunhado do coronel José Pereira, de Princesa.
A família do
Dr. Felinto Wanderley é unânime em acreditar que o assassinato do Dr. Ulisses
Wanderley foi motivado por dissidência política, pois há tempos a vítima vem
sofrendo mesquinha oposição por não obedecer às ordens da corrente que queria a
todo transe dominar Triunfo pelo terror.
O Dr. Ulisses
era grandemente estimado pelo seu modo sereno de agir, procedendo sempre como
um verdadeiro juiz.
Lamentando o
fato, que veio enlutar uma grande família pernambucana, compungindo as almas
daqueles que privavam da amizade do chorado extinto, levamos à família
Wanderley os nossos pêsames pelo fatal acontecimento.
Que as
providências tomadas ponham termo a essas lutas fratricidas são os votos que
fazemos.
__
Na palestra,
embora ligeira, que tivemos com o Dr. Felinto Wanderley, S. S. não podendo
esconder a sua grande dor de irmão, deixou-nos compreender que a sua família
atribui a responsabilidade intelectual do bárbaro assassinato a uma pessoa de
importância, residente nesta cidade, a qual, há muito tempo, não calava a sua
animosidade contra o Dr. Ulisses Wanderley, por ter este reagido sempre contra
absurdos e outros processos políticos agitados em Triunfo.
__
Do Palácio do
Governo recebemos a seguinte nota:
O Governador
do Estado, tendo em vista o que dispõe o artigo 122 da Constituição do Estado e
as informações recebidas da cidade de Triunfo após o assassinato do juiz de
direito, bacharel Ulisses Elísio do Nascimento Wanderley, ali ocorrido ontem,
resolve determinar que o juiz de direito da comarca de Quipapá, bacharel
Agricio Gonçalves da Silva Brasil, se passa temporariamente para aquela comarca
e ali proceda a rigoroso inquérito, formação da culpa até pronuncia inclusive
dos responsáveis pelo referido crime, bem assim designa o promotor público da
comarca de Floresta, bacharel Euclides Ferraz, para promover os termos da acusação
penal, de acordo com o artigo segundo da Lei nº 1.098, de 30 de junho de 1911,
e Ancilon Ferraz para servir como escrivão ao referido inquérito.
[A propósito
dos lutuosos acontecimentos desenrolados em Triunfo, Pernambuco, e dos quais
veio a resultar a morte do Dr. Ulisses Wanderley, juiz de direito daquela
comarca, o Dr. Solidonio Leite, líder da bancada pernambucana na Câmara,
recebeu do Dr. Sergio Loreto, Governador daquele Estado, o seguinte telegrama,
datado de ontem:
“Dr. Solidonio
Leite. Rio – Acabo de receber telegrama de Triunfo, comunicando grave
perturbação da ordem ali, sendo assassinado o juiz de direito e feridas
gravemente diversas pessoas que tomaram parte no conflito. Imediatamente fiz
seguir para ali diversos contingentes da Força Policial e nomeei novo delegado
militar, que seguiu hoje em trem especial, levando reforços. Nomeei, também,
juiz de direito, promotor e escrivão em comissão, para fazerem o inquérito e a
formação da culpa dos criminosos, nos termos da Constituição. Afetuosas
saudações. (a) Sergio Loreto.” Jornal do Brasil].
__
Imagens
publicadas pelo Jornal do Recife, do infausto Dr. Ulysses Wanderley e dos seus
cinco filhos, com as seguintes descrições:
*Juiz de
direito da comarca de Triunfo, covardemente assassinado a punhaladas,
anteontem, no município acima, quando assistia a uma festividade religiosa.
*Filhinhos do
doutor Ulysses Wanderley, que foi, anteontem, vítima de covarde atentado,
pagando com a vida a impretensidade de seu caráter de magistrado.
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