Por Valdir José Nogueira de Moura
A madrugada de 16 de outubro de 1916 não parecia diferente de tantas outras no sertão de Vila Bela. Na Fazenda Serrinha, o silêncio era espesso, quebrado apenas pelo piar distante de uma coruja ou pelo farfalhar do vento na caatinga. Deitado, respirando o ar pesado das noites sertanejas, Manoel Pereira da Silva — a quem todos chamavam de Né Dadu, Né Pereira ou simplesmente Né Sinhô — finalmente descansava.
A alma de Né Pereira, no entanto, raramente encontrava paz. Desde a morte do tio, o influente Padre Pereira, a vida de Né virara um rosário de cobranças e sangue. Ele tomara para si a promessa moral de vingar a honra da família contra os eternos rivais, os Carvalho. Para isso, reuniu homens de gatilho fácil e transformou o cotidiano do Pajeú numa rotina de emboscadas e sobressaltos. As fazendas Umburana, Piranhas e Várzea do Ú conheciam bem o som dos cascos do seu bando.
Né tinha a seu favor a sombra forte e protetora do padrinho, o poderoso Coronel Antônio Andrelino Pereira da Pitombeira. Por causa dessa blindagem, a polícia de Pernambuco desdobrava-se em desespero, enviando oficiais e contingentes numa tentativa quase ingênua de pacificar aquela célebre "questão" nordestina.
Mas o sertão, caprichoso em suas tragédias, costuma ensinar que o perigo mais letal raramente vem do inimigo que se encara de frente.
Enquanto Né Pereira dormia, a traição espreitava sob o mesmo teto. Zé Grande, apelidado de Palmeira — um de seus próprios "cabras" de confiança —, trazia nos bolsos o peso do ouro e das promessas dos Carvalho. Peitado pela família rival, Zé Grande não precisou de um grande exército nem de uma batalha armada; precisou apenas do silêncio da noite, de um passo leve e da covardia que não exige coragem para puxar o gatilho.
Um tiro seco cortou o escuro da Serrinha. Ali morria Né Pereira, sem chance de sacar da garrucha, sem ver a cara de quem o traíra.
Os tradicionais inimigos talvez tenham comemorado ao amanhecer, imaginando que o fim de Né traria, finalmente, a trégua. Pobre ilusão. No Sertão, o sangue derramado não seca na poeira; ele aduba novas vinganças.
A dor e o ódio cruzaram o peito do irmão mais novo, Sebastião Pereira da Silva — o icônico Sinhô Pereira —, que, ao lado do primo Luiz Padre, jurou que a história não terminaria na Serrinha. Do luto fez-se a tempestade: Sinhô reuniu armas, homens e rancor, e durante cinco longos anos (entre 1917 e 1922) governou o cangaço nordestino com mão de ferro, escrevendo nas pedras do sertão um dos capítulos mais temidos e lendários da história antes de deixar, definitivamente, o Nordeste.
Aquele tiro na calada da noite de 16 de outubro de 1916 não apagara um conflito; apenas acendera o pavio de um incêndio ainda maior que estaria a acontecer.
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ALERTA AOS NOSSOS LEITORES!
"Um dia, um dos discípulos de Confúcio fez-lhe a seguinte pergunta:
- Mestre, devo eu pagar o mal com o bem?
E o mestre lhe respondeu:
- Nunca faça isto. O bem se paga com o bem, e o mal com justiça. Se você pagar o mal com o bem, com que você irá pagar o bem?".
Então, amigo leitor, o mal deve ser retribuído com a justiça, e o bem deve ser retribuído com o bem.
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