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segunda-feira, 16 de abril de 2012

4 de janeiro de 1927, no “Diario de Noticias”

Por: Rubens Antonio
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4 de janeiro de 1927, no “Diario de Noticias”:
Não se dá treguas a Lampeão!...

A policia pernambucana fe–lo penetrar o Ceará – A perseguição continúa – A policia cearense vae entrar em acção

RECIFE, 3 – Argos – Graças á campanha iniciada, directamente, pelo actual governo, e orientada pelo dr. chefe de policia, os nossos sertões já se encontram livres co terrivel grupo de Lampeão, que tanto males tem causado á pacata população sertaneja.
Assumindo a chefia da Segurança Publica, o sr. chefe de Policia logo fez remetter para toda a região frequentemente assaltada por bandoleiros numerosa força, com ordens terminantes de dar–lhes combate sem treguas. Lampeão e seu grupo, a principio, offereceram forte resistencia, mas, finalmente, foram cedendo aos poucos, devido á violencia do ataque, deixando sem vida, no campo de luta, dois seus mais dedicados elementos
– Antonio Ferreira, irmão de Lampeão, e Manoel Marcellino, vulgo “Bom, devéras”.
Rechassados em frequentes ataques, demandaram os bandidos ás fronteiras do Ceará, sempre perseguidos pela policia pernambucana, sob o comando do major Theophanes Torres. Dahi seguiram para a Serra do Matto, onde actualmente estão, achando–se de caminho para Joazeiro. A nossa policia, de accordo com o estabelecido no convennio, penetrou o territorio cearense, a fim de não perder o rastro de Lampeão.
Segundo fomos informados, a policia cearense teve tambem ordem de ir ao encontro dos bandidos que, é bem possivel, muito breve estarão cercados por seus perseguidores.
Hontem, chegaram de villa Bella, presos e devidamente escoltados, quatro fazendeiros alli residentes, tidos como agenciadores e protectores de Lampeão.
Podemos adeantar foram elles recolhidos á Penitenciaria, e estão sendo ouvidos pelo chefe de policia, em declarado interrogatorio.

O padre Cicero solidario com o goveno de Pernambuco

O “Jornal Pequeno” diz: – Soubemos, de segura fonte, que o padre Cicero, a pessoa de maior influencia politica nos sertões cearenses, acaba de hypothecar seu inteiro apoio ao governo de Pernambuco, na campanha em que está empenhado contra os bandoleiros.
Folgamos em registrar essa nova, pois a nossa policia estava agindo sem nenhum auxilio, e já agora, tem a valiosa cooperação da policia cearense, bem como a de numerosos amigos daquelle influente politico nortista, tornando–se, assim, menos espinhosa a sua tarefa.
Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço:
Rubens Antonio

MEMÓRIA CATIVA (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

MEMÓRIA CATIVA

Há muito que deixei de pensar muito. Melhor assim. De uns tempos pra cá se tornou absolutamente indesejável relembrar o passado recente.
Tornei-me, forçadamente, de memória cativa. Transformei-me num cativo, seduzido, escravizado em conservar no memorial da minha mente apenas aquilo que realmente mereça ser recordado.
Não sei mais se vale a pena abrir um jornal de ontem, de anteontem, de um mês atrás. As notícias ruins não envelhecem, não apagam com o tempo seus vestígios de dor e de sofrimento. Tudo parece apenas somado ou multiplicado ao que se tem hoje.
Sim, haveriam de dizer do grito lancinante nos tempos idos, lá nas outras distâncias. Lembrariam do sangue escravo jorrando, dos inocentes mortos nas guerras dos outros, das cabeças que rolaram por causa de ideologias libertárias.
Sim, dor e sofrimento também, mas nada parecido com a violência gratuita que se tem hoje, com as banalidades brutais do dia a dia, com a plena e total desumanização do ser humano. O ser como algo a se merecer.
Por isso me nego, não quero, não admito lembrar dessa cruel construção humana que mais tarde dirão que é história. O que se faz hoje e se fez num passado recente são aqueles pesadelos dos dias que não merecem ser relembrados novamente.
Os livros novos, de lavra recente, pouco têm a dizer sobre conquistas efetivamente boas para os seres humanos. Páginas e mais páginas falam em crises, em períodos difíceis, em eventos que desonram vergonhosamente o novo homem.
O novo homem da tecnologia, do ilimitado conhecimento, do hardware e do software, ainda assim não conseguia vencer as barreiras do ódio, do terror, da covardia. Neste aspecto, a informação só é capaz de dar vazão mais rápida à desumanidade.
Sou diferente, não quero pensar assim, não quero ter tanta informação desse jeito comigo. Prefiro a notícia do vento, do passo do tempo ido, do saudosismo, da relembrança que se encanta com as simplicidades de um dia.
Escravizo minha memória como carta boa que se guarda num baú. Cativo minha memória como louça valiosa em cristaleira de madeira nobre. Escravizo minha memória como carta do amado adormecida no seio da amante. Deixo minha memória aprisionada igual a bilhete guardado na garrafa que vai sendo levada pelas águas eternamente.
Prefiro viver atrelado ao ontem antigo de minha infância, minhas molequices interioranas, minha nudez festiva correndo embaixo da chuvarada, meu cavalo de pau e meu boi misterioso escondido na mata enluarada.
Prefiro lembrar minha calça curta, minha roupinha de suspensório, meu cabelo brilhoso forjado na brilhantina, o passeio no parque, o olhar caminhando atrás da menina bonita de vestidinho florido de chita. Lembro ainda da goiaba roubada nos quintais da vizinhança, do puxão de orelha pela vidraça quebrada.
Minha namorada, minha bela namorada, que doce recordação. Mas qual delas não sei dizer, pois sempre fui namorador demais ainda que elas não soubessem do meu desejo criança. Apenas adolescentes, caminhávamos por estradas que se tornaram diferentes caminhos.
Meu lugar, uma povoação pequenina, mas que encanto de berço. Descalço pelas ruas descalças, em busca do sol pertinho de mim e da lua imensa e bela que ali tinha mais cor. Um dia roubaram minha matutice e me entortaram pelos caminhos da cidade grande. Prefiro o sol quente lá em cima do que esse asfalto queimando embaixo.
Prefiro lembrar do cachimbo e do chapéu do meu avô, vê-lo jogando sinuca ou fazendo medição de terras sem saber ler ou escrever; prefiro lembrar da pequena mercearia, bodeguinha mesmo do meu outro avô. Do oratório de uma avó e da religiosidade fervorosa de minha outra avó.
Prefiro até chorar assim, pois escravo consciente de uma memória cativa que diz do quanto valeu e apena ter vivido.


Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com 

Sobre cristais (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa


 Sobre cristais 




Olhos de água límpida
brilho de quartzo azulado
solar fragmento vítreo
sublimazia de leve pureza
cristais que se derramam
num corpo tão forte
e tão frágil pela beleza
infinita superior beleza
numa nascente corporal
veio de água cristalina
doce pedra turmalina
mulher em estado brilho
no toque apenas menina

da rocha bruta que sou
do ferro que ainda restou
não posso ter mágoas
ciúme ou inveja de nada
pois quando imaginam
ter apenas a pedra de sal
deito e adormeço amando
um resplandecente cristal
corpo virgem e perfumado
mulher de paz espiritual.


Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

A chegada de Luiz Gonzaga no céu por William J. G. Pinto

 
No último final de semana aniversariou nosso confrade William J. G. Pinto. Impossibilitadas de estar presentes, as gestoras do Cordel de Saia, deixam aqui, alguns versos de William sobre o centenário de Luiz Gonzaga, o rei do baião.

PARABÉNS!!! poeta 
*
Luiz Gonzaga nasceu
Em solo pernambucano
E o Brasil percorreu
Como um rei soberano
Nem precisou fazer plano
Pra ser o rei do baião
Tudo fez com devoção
Tocando forró e xote
Do Brasil foi o mascote
foi corpo e foi coração
*
Quando rei Luiz morreu
sertão deu um pipouco
Todo mundo estremeceu
Eu ainda achei pouco
Numa casa de rebouco
Asa branca descansou
E com Lua ela voou
Montada no seu chapéu
E levou Luiz pro céu
Conforme Deus projetou
*
São Pedro lhe esperou
Com festa e animação
E então anunciou:
É Luiz, Rei do baião
Chegando lá do sertão
Roupa de couro e chapéu
Luiz adentrou no céu
Irradiando alegria
Cantou de noite e de dia
De Deus recebeu troféu
*
William José Gomes Pinto
Poeta de cordel e dentista, natural de Palmeira dos Índios, AL, nasceu em 1953. Tem vários folhetos publicados dentre eles um dedicado aos 20 anos da ABLC. Membro da ABLC, ocupando a cadeira n° 14, de Pacífico Pacato Cordeiro Manso. Aborda, principalmente as temáticas sociais.
Fique por aqui, as notícias sempre chegam!

A GALINHA DE MUNDICO


A GALINHA DE MUNDICO

+
A galinha de Mundico,
Penosa de estimação
Bateu asas foi embora
Deixando o mesmo na mão,
Mas voltou arrependida
Porém não teve guarida
Nem do Mundico perdão.
+
- Desde nova lhe conheço,
Era franga em meu terreiro.
Vivia trepando em pau
Pois gostava d’um poleiro.
Galos entravam na rinha
Pra disputar a franguinha,
Querendo ser o primeiro.
+
- Já virou galinha velha
Do sobrecu arreado
De tanto galo que andou
No seu costeiro montado
Agora me pede arrego
Dizendo que quer sossego
Depois de ter aprontado.
+
- Muito tempo já passou
Mas me lembro muito bem.
Você deixou o meu milho
Foi ciscar noutro xerém.
Pra sua canja digo não,
E nem quero o seu pirão
Pois bem sei não me convém.
+
Falou assim o Mundico,
E coberto de razão,
Ignorando a galinha,
Que magoou seu coração.
Hoje tem uma perua
E sai com ela na rua
Cheio de satisfação.
+

Texto e foto de Dalinha Catunda