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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

LAMPIÃO Cangaceiro: 1898 – 1938 - PETIMETRE, DA CABEÇA AOS PÉS - Parte III

Por: Hélio Pólvora

Se o sertanejo era, “antes de tudo, um forte” (Lampião tinha 1,79m de altura, carnes enxutas), como disse Euclides da Cunha em Os Sertões, um de seus produtos, o cangaceiro, era acima de tudo um vaidoso. Vingou-se do ostracismo ao criar para si uma indumentária no mínimo extravagante, mas que muito atiçou o imaginário popular e lhe rendeu temerosa admiração. Socialmente excluído, espezinhado, escravo de novos senhores feudais, instalou mostruário em que exibir-se, ancho e exultante.

Ao contrário dos bandidos lendários de países ricos, que usavam roupas simples de cores esmaecidas, ele se pavoneava nas cores fortes, nas jóias de ouro e prata, adornos florais, tecidos finos. Queria mostrar-se morgado e poderoso. 

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Lampião costurando numa máquina Singer - http://www.istoe.com.br

Consta que antes de se lançar no cangaço, costurava ele próprio suas roupas, com ademanes de estilista, e sabia bordar bem à maquina.

Dadá e Corisco - cariricangaco.blogspot.com

Dadá, mulher de Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto), fixou em definitivo a moda desses outlaws nordestinos. Cabe-me aqui não a honra, mas apenas o ensejo de vos reapresentar a figura vulgarizada pelo cinema, folclore e literatura de cordel. Eis o cangaceiro típico:

Chapelão de couro em estilo napoleônico, de aba dianteira larga, dobrada e alevantada, nela bordadas em couro branco três estrelas de oito pontas que semelhavam sóis, de mistura com moedas de ouro e prata.

No pescoço, lenço comprido de seda inglesa ou tafetá francês, vermelho e verde, ou axadrezado. As pontas eram atadas com anéis ou moedas valiosas sobre a camisa cáqui ou azul. A de Lampião era vermelha ou listrada, com botões de ouro.

Calças de cintura alta, em geral curtas, porque a elas seguiam- se perneiras de couro enfeitadas com ilhoses presos por fivelas. Sapatões de couro ou alpercatas de couro cru.

Cartucheiras trespassadas para 120 balas. Fuzil Mauser modelo 1918, bandoleiras enfeitadas com moedas de prata e ilhoses brancos. Duas cintas laterais para sustentar os cantis. Anéis graúdos em quase todos os dedos (Lampião sempre trazia um, regalo de algum coronel catingueiro, que assim pagava o estipêndio da trégua). Acrescentem as luvas (as de Lampião eram bordadas), os cabelos compridos — e terão o tipo. Dadá, com o seu faro de modista digna da maison Dior ou griffe Hermès, muito contribuiu para essa indumentária, com enfeites, adornos e bordados, entre os quais as estrelas nos chapéus e os motivos florais.
 
Maria Bonita - portalbr93.blogspot.com

A revista Time-Life alinhou Maria Bonita entre as mulheres da moda. Até os cães viviam nos trinques: Dourado, o de Lampião, trazia coleira de ouro e prata, o danado. Meninos cantavam nas póvoas sertanejas:

Minha mãe me dê dinheiro
Pra comprar um cinturão
Pra botar uma cartucheira
Pra brigar pra Lampião


Conforme observou Constanza Pascolato em entrevista a Bia Lemos, Lampião, Maria Bonita e outros misturavam “riqueza, extravagância e barbárie”. Lançaram a moda do “banditismo de ostentação” e este encontrou terreno fértil. Viceja no Brasil.

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Sede do IV Congresso Nacional do Cangaço

Homenagem a Alcino Costa

SÃO RAIMUNDO NONATO-PI SEDIARÁ O IV CONGRESSO NACIONAL DE CANGAÇO

Em reunião na cidade de Vitória da Conquista – BA, na ocasião do III Congresso Nacional de Cangaço, a Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço decidiu pela cidade de São Raimundo Nonato, no Piauí, como sede do IV Congresso Nacional do Cangaço. O evento deverá ocorrer na última semana do mês de outubro de 2015.

O pesquisador Leandro Fernandes (Teresina-PI), o escritor Marcos Damasceno (Dom Inocêncio-PI), e os professores Wilson Seraine (Teresina-PI) e Vagner Ribeiro (Teresina-PI) fazem parte dessa instituição e buscaram candidatar a cidade piauiense para sediar o congresso, onde disputou com o Rio de Janeiro-RJ e Pau dos Ferros-RN. A cidade festejou a escolha e está de braços abertos para sediar o evento e receber os mais de 500 (quinhentos) pesquisadores e visitantes.

- Algo para comemorar-se, e orgulharmo-nos de nossa terra. A cidade ser escolhida foi algo honroso para nós, e ganhará muito com isso: no campo da pesquisa, da literatura, nos contatos, e isso fomentará a economia. E vamos nos empenhar para honrar com o voto de confiança e com a escolha. (Marcos Damasceno).

- É com muita alegria e entusiasmo que recebo a notícia da escolha de São Raimundo Nonato como sede do nosso IV Congresso Nacional de Cangaço. Mesmo ainda na expectativa da decisão, eu, Wilson Seraine, Marcos Damasceno e Vagner Ribeiro já estávamos em campo conversando com as pessoas. Em São Raimundo Nonato já há expectativa para o evento, e a cidade sente-se honrada em sediá-lo. Desde já agradecemos a confiança e reafirmamos nossa disposição e vontade para fazer acontecer este Congresso, com a participação de todos. (Leandro Fernandes).

- Foi como uma injeção de ânimo na minha nordestinidade. Que honra! Gente pesquisando, produzindo e divulgando toda essa riqueza. Patrimônio material e imaterial que nos apontam um sentido a continuar na busca de nossas raízes. São memórias que compõem a história e nos marcam numa identidade cultural tão necessária a cada comunidade brasileira neste começo de século XXI. (Vagner Ribeiro).

A cidade é sede do Museu do Homem Americano e do Parque Nacional Serra da Capivara. Tem uma visitação turística boa, uma rede de hotelaria boa e expressivas instituições de ensino superior, como a UESPI e a UNIVASF. Os professores e os alunos serão nossa força maior. São Raimundo Nonato tem vários auditórios bons, inclusive já sediou o Congresso Internacional de Arqueologia, com a presença de mais de 1.000 pesquisadores do mundo todo. Professores renomados como Guilherme Medeiros, Ivete Nery, Damiana Crivellare e Déborah Gonçalves serão convidados para a comissão. Contaremos com pessoas que têm experiência em eventos, como Jussara Baião, Marta Baião, Socorro Macedo, dentre outras.

Fonte: Leandro Fernandes/Marcos Damasceno/Vagner Ribeiro

Extraído do blog do Rubinho Lima

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LAMPIÃO Cangaceiro: 1898 – 1938 - Senhor absoluto - Lampião - Parte II

Por: Hélio Pólvora




O historiador Davis Ribeiro Sena transcreve em português correto, no livro As Revoltas Tenentistas que Abalaram o Brasil, trecho de um bilhete de Lampião ao governador de Pernambuco, Sérgio Loreto:

“(...) Se o senhor estiver de acordo, devemos dividir os nossos territórios. Eu, que sou o capitão Virgulino Ferreira, governador do sertão, fico governando esta zona de cá, por inteiro, até as pontas dos trilhos em Rio Branco. E o senhor, do seu lado, governa de Rio Branco até a pancada da água do mar.
Capitão Virgulino Ferreira, governador do sertão (...)”

Cegos cantavam nas feiras, de pires estendido para a esmola; a literatura de cordel registrava:

Sou senhor absoluto 

De todo esse sertão. 
Aqui quem quiser passar 
Precisa apresentar

Licença do Capitão

Mais alguns anos e Getúlio Vargas amarraria o cavalo no Obelisco, perto do Palácio Monroe (demolido nos anos de 1970, sob protestos), final da Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro. A ditadura custou a desmantelar um dos vários focos de rebeldia armada contra o abandono dos sertões e injustiça de senhores de baraço e cutelo. 

Lampião reinou cerca de vinte anos com sua tropa a princípio escassa, depois de 30 a 50 cangaceiros, durante os anos 20 e 30 do século 20.

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Dominguinhos chegando no céu.

 Por: Luiz Gustavo Oliveira - Campina Grande - 23/07/2013
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-"Manda chamar São Pedro aí menino", avisa um senhor robusto de passo vagaroso e sorriso tímido ao anjo que o recebe na portaria do céu.

sopadeletras.blogs.sapo.pt

E o anjo, tomado pela surpresa do pedido, emenda sem muita convicção.
-"São Pedro essa hora está dormindo!"

blog.dadovilla-lobos.com.br

E o homem de gestos lentos e voz baixa, com sua sanfona do lado não perde tempo:


-"Eu  sabia. Só pode estar dormindo o santo, com tanta seca no Sertão!"

-"Pois me diga uma coisa, meu filho, onde é que fica aqui o pessoal do forró, do baião, do xote, do xaxado, do pé de serra?


E o anjo já irritado já com tanta perguntação, dispara:

-"O senhor pegue sua sanfona e entre tocando do mesmo jeito que fez a vida toda e eles vão reconhecer na hora pois pra tocar como o senhor, aqui nunca chegou ninguém."

E assim, querendo agradar, Seu Domingos aprumou sua velha companheira e emendou sua cantiga mais linda.
 
Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo 
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade 
Que bom, 
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando 
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim

Seus olhos brilhavam, a medida que os amigos de tantos anos iam aparecendo.


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Veio Jackson com um pandeiro na mão acompanhando a toada. Deu um abraço e disse:


 -“Tamo junto. Hoje o côro vai comer" 

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Veio Patativa do Assaré com um maço de papel rabiscado e emendou:


-"Não vinha simbora não homem? Olha o tanto de letra pra você botar musica."

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Veio Marinês com uma chinelinha rasteira e não perdeu tempo:


-"Até que enfim, Neném! Pensei que tú não vinha mais. Termine logo essa ladainha que eu quero matar a saudade de tocar um xote contigo".

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Abdias na sua sanfona de oito baixos rasgava solos de arrepiar as penas dos anjos que se aproximavam pra ver aquela "confusão" que se formava na entrada do céu.


Um sujeito de uma brancura que doía nos zóio puxou também seu fole que logo Dominguinhos reconheceu. Com uma deferência sanfonada, abraçou o velho amigo:

jornalggn.com.br

- "Se achegue, mestre Sivuca. Eu lhe disse que a gente ainda se encontrava".


E assim, tantos outros grandes mestres da música popular nordestina.
Tantos amigos, tantos companheiros desses longos anos de estrada. O forró começou e era uma música atrás da outra.

-"Eita forró bom como o diabo.", gritou Dominguinhos.

Pra quê? Os amigos quase que em coro advertiram:

 -"Hôme se ajeite no linguajar que você tá no céu. Aqui não se fala no coisa ruim".

Dominguinhos deu aquela sua risada macia que lhe é característica.

-"Oxe, e é mesmo né? Pois tá combinado."

Com meia hora de forró, Dominguinhos olhava pra um lado e pro outro como que procurasse alguém que ainda não tinha dado as caras naquela animação. Todos já sabiam de quem se tratava, mas como já estava tudo combinado, faziam de tudo pra aumentar  ainda mais o suspense. A esta altura, já faziam parte da plateia em deleite, um milhão de anjos e querubins, 

santaluziadrs.blogspot.com

Santa Luzia, São Pedro (ainda com uma cara de sono bem dormido) e São João que não podia faltar depois de tantos anos vendo o velho sanfoneiro tocar em suas festas. 

www.arquidiocesebh.org.br

Até o Todo Poderoso mandou seu filho na frente pra avisar que esperassem ele chegar pra presenciar o grande encontro. Apesar de toda sua onipresença, esse encontro ele fazia questão de ver com os próprios olhos.

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Foi então que, chegando de mansinho por trás, o velho amigo pousa a mão no ombro do sanfoneiro de Garanhuns, que numa alegria que não se via há anos, puxava os versos animados de


"Olha! Que isso aqui tá muito bom
Isso aqui tá bom demais
Olha! Quem tá fora quer  entrar
Mas quem tá dentro não sai...”

Dominguinhos não precisou nem virar. Reconheceu o amigo pelo cheiro. Aquele cheiro. Aquele cheiro bom. Aquele cheiro lá das bandas do Exú.

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E nesse instante, o céu se alumiou ainda mais e se cumpriu a Prece a Luiz escrita por Dominguinhos anos atrás e cantada agora entre um longo abraço e lágrimas de saudade e alegria pelo reencontro. 
 
Prece a Luiz
Por: Dominguinhos

Se Deus me desse outra vida
Além dessa que vivo
Iria viver de novo pertinho de seu Luiz
E aprender outra vez, os segredos da sanfona
O canto de amor a terra e esse apego ao chão
Se Deus me desse outra vida 
Gastava ela na estrada
Varando noites a fio
Fazendo o povo dançar
Só queria teus abraços pra descansar da sanfona
Depois de nela tocar, o mais bonito baião
Pois Asa Branca, na vida triste do povo
Para o Nordeste alegrar trazendo amor e paixão
Légua tirana deixa distante do povo
Seca martírio e miséria trás alegria ao sertão
Faço uma prece ao Luiz
Peço pra me iluminar
Que eu não esqueça a raiz do rumo do meu cantar

E as lágrimas que caiam dos olhos de Dominguinhos, do Gonzagão e de todos aqueles que aí  estavam, carregaram as nuvens do céu e depois de tantos dias, choveu no Sertão do Brasil.

Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço Kydelmir Dantas

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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

LAMPIÃO Cangaceiro: 1898 – 1938 - Reino de fazer inveja - Parte I

Por: Hélio Pólvora

Depois de ouvir missa na igreja de Glória, cidade da Bahia nos limites com Pernambuco e Alagoas, o capitão Virgulino Ferreira da Silva, cabeça descoberta, sem arma de fogo, cai de joelhos, benze-se e em passo manco, sequela de uma bala, vai cumprimentar o padre Emílio Ferreira.

Calmo, sorriso maroto, o sacerdote acolhe-o um tanto alvoroçado.

“Estou mesmo diante do Rei do Nordeste?”

“Para servir Vossa Reverência.”

O padre havia recebido pouco antes, de um caixeiro-viajante, um mapa do Brasil, de um metro quadrado. Tem a ideia de desdobrá-lo sobre a mesa.

“Pois então trace aqui o seu reino.”

Munido de um lápis, capitão Virgulino, dito Lampião (havia adaptado um fuzil, para disparar mais rápido, e o cano avermelhava na escuridão) firma o olho bom, que era o esquerdo (o outro parecia um coágulo estagnado no centro de uma mancha branca, vazado que fora por um espinho) e inicia o traçado. Usado óculos brancos, sem aro, que pareciam aderir ao rosto comprido, ovalado.

Lampião e o cangaceiro Juriti - Este último foi morto dentro de uma fogueira - assassinato feito pelo sargento Deluz

De Mossoró, a mão desce para Conceição do Piancó, no Rio Grande do Norte, atinge Poção e Pesqueira, em Pernambuco, atravessa Alagoas, invade Porto da Folha e Capela, em Sergipe, e dali, via Itapicuru, entra na Bahia, rumo centro-oeste, via Riachão do Jacuípe e Morro do Chapéu, de onde se aventurou a Barra de Estiva e Rio de Contas. Flecha para cima, até Remanso, cruza a caatinga pernambucana, passa por Juazeiro do Norte, onde pontificava seu devoto Padre Cicero, e Caririaçu, no Ceará. Depois de Morada Nova, completa o circuito em Mossoró.

O reino compreendia sete Estados brasileiros. Ao todo, 273 mil km2. O padre admira-se:

“Territorialmente, seu reino faria inveja a muita cabeça coroada da Europa.”

O Rei do Cangaço arreganha os dentes, vaidoso.


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Os pais de Lampião

Por: José Mendes Pereira
Lampião

Segundo informações de alguns pesquisadores através de depoimentos pessoais, que José Ferreira da Silva, o patriarca da família Ferreira, era pessoa pacata, trabalhadora, ordeira e de ótima índole, do tipo que evita ao máximo qualquer desentendimento. Esses depoimentos positivos merecem especial atenção e ainda maior credibilidade por terem sido prestados por pessoas inimigas da família. Apesar da inimizade, nenhum depoente denegriu a pessoa de José Ferreira da Silva. Ao contrário, elogiou de acordo com o seu comportamento de um grande homem sertanejo.

Mas segundo os depoentes, a mãe de Lampião dona Maria Sulena da Purificação já era um pouco diferente, isto é mais realista em relação ao ambiente em que a família vivia. De maneira geral todos os entrevistados declararam que José Ferreira da Silva desarmava os filhos na porta da frente, e dona Maria os armava na porta de trás dizendo:

"- Filho meu não é para ser guardado no caritó. Não criei filho para ser desmoralizado".

Quem está de fora tem outra visão, porque o que aconteceu com os Ferreiras não foi com a sua família. Eu acho que dona Maria tinha razão, quando  exigia o respeito com os seus filhos.

Diante de tantas decepções que a família Ferreira viveu, o que ganhou foi sofrimentos. O pai perdeu a propriedade, isto é obrigado a vendê-la a qualquer valor, desde que saísse daquelas terras de Pernambuco, tentando evitar um confronto que poderia surgir mortes entre seus filhos e o fazendeiro José Saturnino.

O fazendeiro José Saturnino - inimigo nº 1 de Lampião

O futuro rei do cangaço estava cobrando do Zé Saturnino a falta de honestidade, por  ter aceitado roubos no seu rebanho de bodes, e quem sabe, tenha sido ele mesmo o causador da subtração no seu rebanho. 

Sem ter nada com a confusão de Lampião contra o fazendeiro José Saturnino, o João Ferreira dos Santos, o quinto filho do casal foi preso e maltratado, porque os policiais exigiam dele informações onde se encontrava Lampião.

 
João Ferreira dos Santos -irmão de Lampião

Em seguida Lampião perdeu a mãe. Ela não suportando o desrespeito que o Zé Saturnino estava praticando contra o seu esposo, o coração não aguentando as pressões,  infartou-a. E dias depois, perdeu o pai, que fora assassinado pelas armas do tenente Zé Lucena.

 Tenente Zé Lucena

QUANDO TUDO ACONTECEU
Por: Hélio Pólvora 

"1889: Proclamação da República no Brasil; 1898: Nasce Virgulino Ferreira da Silva, a 4 de julho, em Serra Talhada, Pernambuco (segundo a certidão de batismo); 1911: Nasce Maria Bonita, a 8 de março; 1914: Primeira Guerra Mundial; 1918: O pai de Lampião é assassinado após disputa de terra. 1920: Lampião entra para o cangaço, com três irmãos; 1925: A Coluna Prestes inicia marcha; 1926: Lampião recebe patente de capitão dos Exércitos Patrióticos; 1930: Deposição de Washington Luiz e início da era Vargas; Corisco se junta a Lampião; 1932: Nasce Expedita, filha única de Lampião e sua rainha, a 13 de setembro; 1937: Vargas decreta o Estado Novo; 1938: Lampião e Maria Bonita morrem na Grota do Angico: ela é decapitada ainda viva. 1939: Segunda Guerra Mundial; 1940: Morre Corisco, a 25 de maio, metralhado em Barra do Mendes, Bahia; 1969: As cabeças de Lampião e Maria Bonita são sepultadas na Quinta dos Lázaros, em Salvador, a 6 de fevereiro".
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Dominguinhos foi sucessor direto de Luiz Gonzaga

POR: LUCAS NOBILE - DE SÃO PAULO

Considerado um dos maiores sanfoneiros do país, Dominguinhos foi o sucessor direto de Luiz Gonzaga (1912-1989). Nascido em Garanhuns (PE), em 1941, filho de Seu Chicão, afinador e tocador de foles de oito baixos, José Domingos de Moraes iniciou sua carreira ainda na infância.

Aos oito anos, se apresentou para o Rei do Baião pela primeira vez, em hotel de sua cidade natal, sem saber que tocava para Gonzagão.


"Ali na porta do Tavares Correia [hotel em Garanhuns, em Pernambuco] a gente tocava sempre. Um dia nos botaram pra tocar dentro do Tavares Correia. Tinha uma pessoa lá, um cidadão e exatamente era o Luiz Gonzaga. Só que eu com oito, nove anos não sabia quem era Luiz Gonzaga nem artista nenhum", conta Dominguinhos em trecho do filme "Dominguinhos Canta e Conta Gonzaga", lançado em 2012.


O sanfoneiro não foi o principal discípulo de Gonzagão apenas no estilo musical. Foi o Rei do Baião que lhe batizou artisticamente como Dominguinhos, dizendo que Neném, apelido de infância do músico, não pegaria. O apadrinhamento de Gonzaga se intensificou em 1957, quando ele convidou o sanfoneiro a fazer sua primeira gravação, "Moça de Feira" em um disco do Rei do Baião, três anos depois de se mudar para o Rio, por recomendação de seu "professor".


Em mais de 55 anos de carreira, Dominguinhos gravou 40 discos. No primeiro, "Fim de Festa" (1964), além de interpretar temas de outros compositores, como Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Zito Bormorema e Zé do Baião, registrou duas músicas suas: "Frevo Cantagalo" e "Garanhuns".

No último, "Iluminado Dominguinhos", lançado também em DVD em 2010, Dominguinhos gravou grande parte de seu repertório instrumental com a participação de Gilberto Gil, Elba Ramalho, Wagner Tiso, Yamandu Costa, entre outros.

Assim como Luiz Gonzaga, Dominguinhos se notabilizou por ser um dos divulgadores pelo país de gêneros nordestinos, como o baião, o frevo, o forró e o xote. Também como seu incentivador, não se restringiu apenas a aqueles estilos, sendo reconhecido também por suas interpretações para o repertório de choro.


Grande parte do aprendizado desse gênero se deu ainda nos anos 1960, quando ele chegou a tocar no regional do Canhoto, ao lado de nomes como os violonistas Dino Sete Cordas e Meira, absorvendo harmonias inventivas em contatos informais.

Como instrumentista, tocou com nomes respeitados da música brasileira como Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Chico Buarque, Fagner, Elba Ramalho, Milton Nascimento, Nara Leão, Toquinho, Beth Carvalho, Djavan, Nana Caymmi, Jards Macalé, Luiz Melodia, Renato Teixeira, entre outros.


Além de sua trajetória como sanfoneiro, Dominguinhos também se destacou como compositor. Autor de músicas instrumentais carregadas de sentimento e expressividade --muitas delas simples e complexas ao mesmo tempo--, também teve composições suas letradas que alcançaram grande sucesso.


Suas músicas mais conhecidas são "Eu Só Quero um Xodó" e "Tenho Sede" (parcerias com Anastácia), cujo registro mais famosos foram feitos por Gil na década de 1970, "Isso Aqui Tá Bom Demais" e "De Volta pro Aconchego" (com Nando Cordel), clássico na voz de Elba Ramalho, nos anos 1980, "Abri a Porta" e "Lamento Sertanejo" (com Gil).


"De Volta pro Aconchego" e "Isso Aqui Tá Bom Demais" fizeram parte da trilha da novela "Roque Santeiro", aumentando a popularidade de Dominguinhos nos anos 1980. Na mesma década, Chico Buarque gravou "Tantas Palavras", parceria sua com o sanfoneiro, que novamente voltou a fazer sucesso por todo o país.

Dominguinhos fez sua última apresentação em 13 de dezembro, em homenagem a Luiz Gonzaga, no dia do centenário de nascimento do Rei do Baião, em Exu (PE).

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/07/1246795-dominguinhos-foi-sucessor-direto-de-luiz-gonzaga.shtml

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A história de Luiz Gonzaga

Foto de Luiz Gonzaga

O INÍCIO

Gonzaga nasceu em 13 de Dezembro de 1912, na Fazenda Caiçara, em Exu, distante 603 Km da Capital Pernambucana. Segundo dos nove filhos da união do casal Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus(Santana), veio ao mundo dividido entre a enxada e a sanfona. Foi observando seu pai animando bailes e consertando velhas sanfonas, que lhe desperta a curiosidade por tal instrumento. Certa vez seu pai encontrava-se na roça e sua mãe na beira do rio, o mesmo pegou uma velha sanfona e começou a tocar. Santana, que não queria que o filho trilhasse o mesmo caminho do pai, dava-lhe puxões de orelha que nada adiantavam. Luiz seguia em frente, acompanhando seu pai em diversos forrós, revezando-se com ele na sanfona e ganhando seus primeiros trocados. Um belo dia Januário foi pego de surpresa quando o Srº Miguelzinho, dono de um forró, pediu para que Gonzaga tocasse, este havia acordado com um outro tocador que não apareceu. A salvação foi convidar o então menino Gonzaga que já mostrara suas habilidades no mesmo terreiro, sem a anuência de seus pais. Fez muito sucesso.

Januário, pai de Luiz GonzagaSantana, mãe de Luiz Gonzaga

 E por aquelas "bandas" era conhecido por Luiz de Januário. Assim o Forró rolou solto ao longo da noite, Gonzaga sentia-se feliz, empolgado, era a primeira vez que tocava com o consentimento da mãe. Com o passar da noite, começou a sentir seus olhos arderem, a cabeça pesar, foi então que pediu para deitar na rede e de tão menino que era, ainda fez xixi enquanto dormia. Daí então passou a acompanhar Januário em festas de mais responsabilidades, revezavam-se entre toques e cochilos. Santana a princípio relutava, mas deixou-se levar pelos dois mil réis que o principiante tocador ganhava em suas "empreitadas". Assim cresceu Gonzaga: ajudando o pai na roça e na sanfona, acompanhando Santana às feiras do Exu, fazendo pequenos serviços para os fazendeiros da região, sendo protegido pelo Cel. Manuel Aires de Alencar, homem bondoso e respeitado até por seus inimigos. Gonzaga era bem tratado pelos Aires de Alencar, tanto que suas primeiras escritas e leituras foram ensinamentos das filhas do Coronel.

A PRIMEIRA SANFONA

Januário e Luiz Gonzaga tocando sanfona juntos

Foi o próprio Coronel Aires quem realizou o grande sonho de Gonzaga: possuir sua primeira sanfona. Tal instrumento custava a importância de cento e vinte mil réis, Gonzaga tinha só a metade, a outra o próprio Coronel adiantou, quantia esta paga mais tarde com o fruto do seu trabalho de sanfoneiro. O primeiro dinheiro ganho com a nova sanfona foi no casamento de Seu Dezinho, na Ipueira, onde ganhou vinte mil réis. Tal convite viera aumentar sua fama, começa ali a ser um respeitado sanfoneiro na região.

O PRIMEIRO AMOR

Casamento? Gonzaga só pensava nisso. Comprou até aliança. Queria casar com Nazinha, filha do Seu Raimundo Milfont, um importante da cidade. O pai da moça ao tomar conhecimento das intenções do aprendiz de sanfoneiro, não permitiu o namoro. "Um diabo que não trabalha, não tem roça, não tem nada, só vive puxando fole". Gonzaga não hesitou, indignado, comprou uma peixeira, tomou umas truacas (cachaça), quis brigar, quis matar, mas acabou levando outra surra de Santana. Dessa vez fugiu triste para o mato, mas com uma idéia fixa na cabeça: entrar para o Exército.

GONZAGÃO GANHA O MUNDO

Foto de Luiz Gonzaga

Dizendo que ia a uma festa deixou a terra natal rumo ao Crato, no Ceará, cidade maior e mais próspera, onde vendeu a sanfona e pegou o trem para Fortaleza, alistando-se em seguida. Com a Revolução de 1930, o batalhão de Gonzaga percorreu muitos Estados até chegar à cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Ali, conheceu outro sanfoneiro, Domingos Ambrósio, o grande amigo que lhe ensinara os ritmos mais populares do Sul: valsas, fados, tangos, sambas. Gonzaga tirou de letra. Em 1939 deu baixa no Exército e seguiu para São Paulo e em seguida para o Rio de Janeiro. Passou então, a apresentar-se em bares da zona do meretrício carioca, nos cabarés da Lapa e em programas de calouros, sempre tocando músicas estrangeiras. Em uma dessas apresentações, um grupo de estudantes cearenses chamou-lhe a atenção para o erro que estava cometendo: por que não tocava músicas de sua terra, as que Januário lhe ensinara? Luiz seguiu o conselho e passou a tocar e compor músicas do Sertão Nordestino. Foi no programa do Ary Barroso que Gonzaga recebera calorosos aplausos pela execução do Vira e Mexe, música de sua autoria, proporcionando ao até então desconhecido Gonzaga o seu primeiro contrato pela Rádio Nacional, no Rio de Janeiro.

SEUS AMORES

Casamento de Luiz Gonzaga e Odaléia Guedes

Na solidão da cidade grande, distante de sua família e do seu pé-de-serra, Gonzaga não dispunha de ninguém que dele cuidasse. Apesar de estar morando com seu irmão Zé, demonstrava vontade em construir seu próprio lugar, sua própria família. Teve diversos amores o mais conhecido foi com a corista carioca Odaléia Guedes, em meados do ano de 1945, tendo-a conhecida já grávida, assumindo e registrando como seu filho Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior - Gonzaguinha. Apesar de ser bastante exigente Gonzaga finalmente encontra o que procurava, Em 1948 conhece a pernambucana Helena Cavalcanti, tornando-a sua secretária particular e mais tarde sua companheira. Tal união estendeu-se até perto de sua morte. Não tiveram filhos, pois era estéril.

O SUCESSO

O apogeu do Baião perpassou a segunda metade da década de 40 até a primeira metade da década de 50, época na qual Gonzaga consolida-se como um dos artistas mais populares em todo território nacional. Tal sucesso é devido principalmente à genialidade musical da "Asa Branca" (composição dele com Humberto Teixeira), um hino que narra toda trajetória do sofrido imigrante nordestino.

Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação.
Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira

A partir de 1953 Gonzaga passou a apresentar-se trajado com roupas típicas do Sertão Nordestino: chapéu (inspirado no famoso cangaceiro Virgulino Ferreira, O Lampião, de quem era admirador), gibão e outras peças características da indumentária do vaqueiro nordestino. Alia-se a esta imagem a presença de sua inconfundível Sanfona Branca - A Sanfona do Povo. Com o surgimento de novos padrões na música popular brasileira, o apogeu do Baião começa a apresentar sinais de declínio, apesar disso, Gonzaga não cai no esquecimento, pelo menos para o público do interior, principalmente no Nordeste. Todavia, foi o próprio movimento musical juvenil da Década de 60 - notadamente Gilberto Gil e Caetano Veloso, este último e depois Gonzaguinha regravando ambos o sucesso Asa Branca, responsáveis pelo ressurgimento do nome Gonzaga no cenário musical do país. Em março de 1972 em show realizado no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, marca o reaparecimento de Gonzaga para as platéias urbanas. Nessa época retorna às paradas de sucesso como "Ovo de Codorna" cuja autoria é do nordestino Severino Ramos.

A VOLTA PRA CASA

Luiz Gonzaga na fazenda em Exu

Após longo período de atividade profissional, cerca de 35 anos, é chegada a hora de retornar a sua terra natal. Em Exu dá início à construção do tão sonhado Museu do Gonzagão, localizado às margens da BR-122, dentro do Parque Aza Branca (escrevia desta forma por pura superstição, embora soubesse do erro ortográfico). 

Luiz Gonzaga e reunião em família

Lá se encontra o maior acervo de peças pertencentes ao Rei do Baião: suas principais sanfonas, inclusive a que tocou para o Papa em Fortaleza; suas vestimentas; seus discos de ouro; troféus; diplomas; títulos; fotos e presentes a ele ofertados ao longo de sua brilhante carreira. Além do Museu, o Parque abriga também o Mausoléu da família, lanchonete, grande palco de shows, várias suítes para acolhimento de visitantes, a casa de Vovô Januário, lojinha de souvenir e a casa grande de onde Gonzaga observava a sua pequena Exu.

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