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quinta-feira, 7 de maio de 2015

O GLOBO – 05/10/1975 JOÃO ALVES, O CASCAVEL, DE CANGACEIRO A CURANDEIRO


Aos 97 anos, Cascavel, que lutou no bando de Antônio Silvino, é o outro cangaceiro nordestino ainda vivo, chama-se João Cosme Alves e vive na Ilha do Bispo, pequeno povoado na periferia de João Pessoa, na Paraíba, preparando garrafadas que curam dor de dente, espinhela caída, doenças venéreas e até impotência masculina. Cascavel garante que já expulsou o demônio do corpo de uma mulher que contraíra uma doença chamada “macaca-de-purungá”. E embora se sinta obrigado muitas vezes a pedir esmolas na esquina da rua em que mora, costuma emprestar dinheiro a quem precisa, sem cobrar juros e nem lembrar os compromissos dos devedores.

Em 1903 – há exatamente 72 anos – Cascavel enfrentou um desordeiro que pretendia desonrar sua cunhada. Ele diz que apenas emasculou o homem. Mas outros garantem que matou o galanteador. Foi durante a fuga para escapar da prisão que encontrou o bando de Antônio Silvino e seguiu o cangaceiro, tornando-se famoso nos sertões nordestinos.

Cascavel lembra os feitos do bando de Antônio Silvino contando o caso da invasão da fazenda de Manoel Belo, em Pernambuco. O chefe dos jagunços mandou pedir três contos de réis ao fazendeiro e recebeu o recado de que teria três balas se ousasse chegar perto da propriedade:

- Juntos, nós invadimos o lugar e todos fugiram, o dono da fazenda e a resistência organizada por um destacamento da polícia. Manoel Belo chegou a Caruaru sem conseguir falar e, quando recuperou o fôlego, só conseguiu dizer: “Antônio Silvino”.

TUDO NA VIDA

Cascavel diz que já fez quase tudo na vida. Foi sapateiro, capinador, barbeiro, funileiro e agora é rezador ou curandeiro. O apelido lhe veio quando era menino, depois que foi picado por uma cobra cascavel e esteve entre a vida e a morte. “Mas quem morreu foi a cobra”, e o episódio valeu-lhe o nome que a princípio incomodava e depois virou lenda.

A camisa entreaberta ao peito deixa à mostra uma cicatriz. Cascavel explica que o buraco é de bala calibre 44 e o tiro foi durante a companha de Princesa, em 1930, na época em que servia na Polícia Militar. Recorda a noite em que chegou à capital da Paraíba, quando João Pessoa era presidente do Estado, antes da Revolução de 30, em companhia dos batalhões destroçados pelas tropas rebeldes de José Pereira.

- Da ponte Sanhauá, avistei o fogo que subia em labaredas mais altas do que os prévios. O povo incendiava a Casa Vergara, o armazém mais importante da cidade, ligado aos rebeldes de Princesa, e isso mostrava que a Revolução tinha começado.

Imagem ilustrativa como sendo do ex-cangaceiro Cascavel.



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Quadrante 45 Viagem no Tempo (FICÇÃO) – Parte VII

Por Raul Meneleu Mascarenhas






CONTINUA...

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

DEPOIMENTO DO EX-CANGACEIRO DE LAMPIÃO, MARCOS ALEXANDRE DA COSTA, VULGO CURIÓ, AO JORNAL O GLOBO, PUBLICADO NA EDIÇÃO DE 05 DE OUTUBRO DE 1975.

Material adquirido no acervo do pesquisador 
Antônio Corrêa Sobrinho

O ÚLTIMO DOS CANGACEIROS DO NORDESTE VAI SER SOLTO

Preso desde 1945, Curió está na Penitenciária Agrícola de Itamaracá, trabalhando no viveiro e recebendo Cr$ 30,00 por semana, mas, antes disso passou 27 anos na antiga Casa de Detenção de Recife. Embora ele conte uma história diferente, os registros da Penitenciária mostram que Curió foi condenado por quatro crimes – e não por sua atuação no bando de Virgulino Ferreira – pois todos os crimes foram praticados após a morte de Lampião e a dispersão do bando.

Dos quatro processos que envolvem o nome do ex-cangaceiro, dois são por assassinatos praticados em Alagoas e no Maranhão e os outros dois por furto e latrocínio nos municípios, pernambucanos de Canhotinho e Nazaré da Mata. Mas Curió declara que antes de 1945 esteve preso em Alagoas porque se entregou:

- Foi no mesmo ano em que a Polícia matou Lampião – explica Marcos Alexandre da Costa – eu e mais 19 jagunços resolvemos nos entregar ao comandante do II Batalhão de Polícia de Alagoas, porque o bando tinha ficado sem chefe e nós queríamos acabar com as perseguições. Fiquei preso dois anos, até 1940, e depois o Presidente da República mandou soltar todo mundo. Aí viajei para São Paulo e foi entre as visitas que vinha fazer aqui no Nordeste que pratiquei os quatro crimes, porque faziam pilhérias comigo.

Curió acha que somente com emprego certo poderá terminar a vida tranquilo e parado num lugar porque desde menino sempre gostou de andar pelo mundo.

GANHAS O MATO

Ele entrou para o bando de Lampião em 1934, com 27 anos, mas antes morava em Recife e negociava com cereais no Mercado de São José. O desejo de viver andando pelo mundo e o fato de ter matado duas pessoas durante uma briga levara-no a sair da capital pernambucana e “ganhar o mato”.


Em Alagoas encontrou o bando de Lampião e, através de Velocidade, Pinga Fogo e Santa cruz todos seus amigos e cangaceiros, foi logo aceito no bando para trabalhar como cargueiro, “a pessoa que ia fazer as compras quando o bando parava em alguma cidade”. 

- Com o grupo eu fiquei até o dia em que mataram o chefe. Ganhei o nome de Curió porque gostava muito de subir em árvores, feito passarinho.

Curió conta que no dia da morte de Lampião estava dormindo juntamente com 21 cangaceiros a uma distância de um quilômetro do local onde se encontrava o chefe, Maria Bonita e mais onze jagunços.

- A Polícia matou todos eles e nós, quando ouvimos os tiros e corremos para lá só tinha gente morta, as cabeças de Lampião e Maria Bonita cortadas; mas tudo foi traição do tenente João Bezerra, que se dizia amigo do chefe e tinha jogado dados com ele no mesmo dia em que cometeu o crime.

ATAQUES DO GRUPO

Com o bando de Lampião, o ex-cangaceiro viajou por quase todo o Nordeste, “desde a Paraíba até São Luiz do Maranhão e tudo feito a pé ou a cavalo”. Mas sobre os ataques do grupo às cidades em que chegava. Curió nada explica. Diz apenas:

Lampião só matou para se defender e era amigo de todo mundo, dos policiais e dos fazendeiros, andando livre por todo canto.

Para Curió, Lampião é um ídolo; honesto, corajoso “e também não gostava muito que a gente andasse com mulheres porque tinha medo que começasse a falta de respeito”.

- Dinheiro – afirma Curió – foi coisa que nunca faltou. Lampião sempre dividia tudo com os jagunços, mas nada era roubado. Sempre ganhava o dinheiro e eu acho que os fazendeiros era os que davam, sem precisar brigar.

Ele não se arrepende do tempo do cangaço, somente dos crimes que cometeu depois. Acha que a vida de lutas no sertão era uma aventura onde “se matava para não morrer”.

Imagens de "O Globo" - Curió aos 34 anos, quando entrou pra cadeia; e após 30 anos de prisão, esperando a sonhada liberdade.

Material do acervo do pesquisador: Antônio Corrêa Sobrinho Fonte: facebook

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HISTÓRIA Glória e tragédia de Delmiro Gouveia


No dia 10 de outubro de 1917, começo da noite, era assassinado Delmiro Gouveia, quando lia jornais no alpendre do seu chalé em Pedra. Tiraram-lhe a vida dois balaços: um localizou-se no braço, outro, no peito, varando-lhe o coração; o terceiro alcançou a parede. A história desse homem prospectivo e determinado é uma homenagem do Cultura nos 90 anos de seu desaparecimento.

Pedra não enfrentara, até então, alvoroço igual ao que ocorreu depois do atentado. Antes, muita gente concentrara-se ali para a chegada da luz elétrica; celebrara-se com festa a inauguração da fábrica de linhas; a gente que se reunia, agora, atônita e entre assomos de revolta, deplorava a morte do homem que transformara Pedra de simples parada de trem em núcleo industrial de trabalho e progresso nos carrascais do sertão agreste.

Dos que consumaram a empreitada sinistra nada se sabia; apenas se dizia que, após os tiros, haviam sido vistos vultos que se esgueiravam do local nas sombras da noite. Piquetes foram armados nas estradas pelas quais se deixava Pedra ou nela se penetrava. De nada adiantou quanto ao objetivo visado, ou seja, a detenção dos criminosos.

Quando mataram Delmiro Gouveia, na noite de 10 de outubro de 1917, não se findou uma existência apenas. Interrompeu-se, de maneira brusca, a marcha evolutiva do Nordeste, iniciada vigorosamente no momento em que começaram a funcionar as turbinas montadas nas escarpas da Cachoeira.

Outra seria, hoje em dia, a situação do Nordeste se as balas assassinas não o houvessem abatido. Da fábrica de linhas Delmiro teria partido para outros avantajados empreendimentos. A ampliação da usina da Cachoeira era uma de suas metas. Alcançada, que fosse, surgiriam novas indústrias, ampliar-se-ia o parque fabril, perspectivas bem mais alentadoras teriam os cidadãos nordestinos na luta contra o famifgerado subdesenvolvimento.

Nascido na segunda metade do século XIX, Delmiro ingressou na centúria seguinte embalado pelos rumorosos sucessos registrados em Paulo Afonso. É estupendo que, naquele tempo recuado, marcado por tantos fatores negativos, encarnasse o estereótipo de grande empreendedor do século XXI.

Delmiro desapareceu quando mais dele precisávamos. E, para infelicidade nossa, não teve continuadores. Nem a fábrica de linhas logrou sobreviver ao seu fundador. Doze anos depois, isto é, em 1929, um dia consumou-se o crime maior: depois de uma concorrência desleal, o trust inglês apoderou-se das instalações que Delmiro deixara e que não conseguira abocanhar enquanto vivo foi o caboclo cearense do Ipú. Parte da maquinaria foi lançada ao rio São Francisco, outra levada para bem longe pela Machine Cottons.

O que ninguém conseguirá, porém, é destruir a glória do pioneiro autêntico, empreendedor que nos albores do século XX apontou para o Brasil o caminho da redenção econômica da região nordestina.

O fadário romanesco

Delmiro é fruto de um amor arrebatado, que ensejou um desses raptos rumorosos que povoam a história dos sertões.O pai, Delmiro de Farias, cavalariano que deixou fama no Norte do Ceará pela audácia e temeridade das suas proezas, numa das viagens a Pernambuco, realizadas com objetivos comerciais, enamorou-se de uma jovem - Leonila Flora da Cruz Gouveia- e com ela fugiu. Perseguido pelos irmãos da moça, conseguiu escapar e chegar às terras do Ipú, onde constituiu uma segunda família.

Sim, porque Delmiro Porfírio de Farias já era casado. Quando se iniciou o romance com Leonila, possuía cinco filhos da sua união com Francisca de Mesquita Farias. Nos arrebatamentos da paixão, não atentou imediatamente para as pesadas responsabilidades antes contraídas.

Refugiou-se no Ipú, em propriedade do coronel Felix José de Sousa. O nascimento de Delmiro Gouveia ocorreu a 5 de junho de 1863, segundo filho do casal, pois o primeiro fora mulher e de nome Maria Augusta. O batizado de Delmiro foi celebrado a 30 do mesmo mês, na Fazenda Boa Vista. Oficiou o ato o padre Bernardino d´Oliveira, coadjutor da Paróquia de Santa Quitéria e que empreendia uma desobriga.

Ameaçado de prisão, pois contra ele existia mandado da Justiça, Belo Farias, assim o chamavam, alistou-se como voluntário e seguiu para o Paraguai. O Brasil estava em guerra contra Solano Lopes. Integrando o 26 do Ceará, participou de inúmeras pelejas, confirmando nos campos guaranis o destemor de que dera provas na terra natal. A 2 de dezembro de 1867, aniversário do Imperador Pedro II, quando o 26 acampava em Taji, um grupo de cearenses, entre os quais estava Belo Farias, caiu em uma emboscada. Combate ferrenho e desigual travou-se na Clareira de Cainbocá. Quando terminou, com a chegada de reforços do 26, quase todos estavam mortos. Entre eles, Delmiro Porfírio de Farias, já então com a patente de capitão, e que apresentava vários ferimentos pelo corpo e seis golpes na cabeça, que lhe abriram o crânio. Hoje, é nome de rua em Fortaleza. A Rua Delmiro de Farias tem início no bairro Jardim América e passa pelos bairros Damas e Rodolfo Teófilo.

De Belo Farias, Delmiro Gouveia herdou o nome próprio. Mas, na personalidade do filho, destacam-se traços dominantes do pai. O arrojo, a coragem que atinge as raias de temeridade, o gênio expansivo, o temperamento arroubado, o gosto pela aventura. Em certa fase de sua existência, tem-se até a impressão de que Delmiro Gouveia procurou reeditar as façanhas de seu genitor.

Rei no comércio de pele

Criança ainda, deixou o Ipú; a mãe resolvera voltar a Pernambuco. Foi no vizinho Estado, de modo particular no Recife, onde se criou e se desenvolveu. Pobre, desajudado, cedo conheceu o peso da luta pela vida. O destino, tão pródigo para com uns, foi extremamente avaro para com ele, nos primeiros passos pelos caminhos do mundo. Empregado da ´Pernambuco Railway´, depois servidor da Alfândega, Delmiro enfrentou também os percalços da mercância primária, que praticou, como meio de sobrevivência, pelo agreste pernambucano.

Casando-se com 20 anos, em Pesqueira, com Anunciada Cândida Falcão, pouco depois se estabeleceu no ramo de peles e algodão. Ao sabor de sucessos e reveses, teve várias experiências. Admira a persistência que demonstrava, não esmorecendo jamais, ressurgindo quando parecia afastado da liça, lançava-se a novos tentames quando só encontrara no passado motivos para desalentos e tristeza.

À custa de trabalho e espírito de iniciativa, firmou-se, afinal, no comércio de peles. Por vastas regiões do Nordeste, estendeu a rede de seus agentes e controlou quase de maneira total os negócios da especialidade que escolhera. Vence onde outros baquearam.

Que era o bode até então? Um animal precioso que imperava na região. Além do leite, fornecia carne sem perigo de desperdício, já que era de porte pequeno. O que sobrava do consumo das famílias era levado às feiras. A essa vantagem, reunia a de sobreviver, como o jumento, aos piores períodos de estiagem.

Com a intensiva exportação de peles para os Estados Unidos, Delmiro Gouveia abriu nova frente de exploração animal e conferiu ao caprino uma valorização extraordinária, pela larga importância que passou a representar na economia de milhares de nordestinos.

O mascate de outrora chegou às culminâncias de ´rei da pele´. No Recife, era uma figura prestigiosa nas altas rodas sociais. Não tardou que o elegessem presidente da Associação Comercial.

No bairro de Apipucos, instalou sua residência, com evidente bom gosto, e deu-lhe o nome de Vila Anunciada, homenagem à esposa. O palacete, cercado de jardins e tendo à frente altaneiras palmeiras imperiais, foi cenário de elegantes reuniões, abrilhantadas com a presença de artistas que visitavam o Recife.

REVOLUÇÃO NO DERBY

Além do comércio de peles, Delmiro incursionou também nos domínios da indústria de açúcar. Na Usina Beltrão, depois fábrica de Tacarauna, refinava o produto e o vendia em tabletes, como se fazia na Europa.

Mas o grande empreendimento de Delmiro no Recife foi o Mercado do Derby. De volta da Exposição Universal de Chicago, em 1893, trouxe a idéia de dotar o Recife de um grande parque permanente de diversões, com mercado, hotel, restaurante e outras inovações.

Em 1898, assinou contrato com o Prefeito do Município, Dr. José Cupertino Coelho Cintra, para a realização do útil empreendimento. Obteve isenção dos impostos municipais para o mercado, com o direito de explorá-lo durante 25 anos, findo os quais deveria pertencer à Prefeitura.

Sem delongas, iniciou a construção, de tal modo que a primeira parte do mercado foi inaugurada a 13 de maio de 1899. A conclusão total verificou-se no dia 7 de setembro do mesmo ano.

O edifício era algo original. Igual ou superior não existia outro no país. Chafarizes, torneiras de água e um sistema de esgotos, cuidadosamente traçado, asseguravam asseio admirável. Em frente à fachada principal, um jardim; ao lado, em uma área de 400m, o velódromo.

Em prédio à parte, instalações para jogos, cafés e divertimentos, inclusive teatro. Carrosséis, barraquinhas, regatas e retretas animavam as noites do Derby, iluminadas pela primeira luz elétrica que o Recife conheceu. Além das diversões que ostentava, o Mercado do Derby oferecia vantagens de natureza econômica. Vendia por preços sempre inferiores aos vigorantes na praça. Comprava em grandes quantidades e se abastecia diretamente nas fontes produtoras, evitando os intermediários que encarecem o produto. Assegurava vantagens com os quais outros estabelecimentos não tinham possibilidade de competir.

A significação do Mercado do Derby para o Recife não se restringia ao que ressaltei, porque teve repercussão urbanística pelas obras complementares que exigiu em trecho da cidade onde havia mangues, como era a Estância daquela fase. Delmiro fez aterro, saneou, abriu ruas.

Atrito com o Vice-Presidente

Com o Mercado do Derby surgiram os primeiros atritos entre Delmiro Gouveia e os que dominavam a política pernambucana da época, representados pelo prefeito Esmeraldino Bandeira.

A tensão chegou a tal ponto, que Delmiro Gouveia se viu forçado a ir ao Rio de Janeiro, para conversações com o conselheiro Rosa e Silva, Vice-Presidente da República e chefe situacionista de Pernambuco, a cujo comando obedecia ao Prefeito do Recife.

Os entendimentos marchavam satisfatoriamente, quando, alguns dias depois da chegada de Delmiro Gouveia, ali desembarcava também o indivíduo que atendia pelo apelido de ´Sabe Tudo´. Seu nome verdadeiro: João Batista da Rosa. Pelos avisos que recebera Delmiro, viera para matá-lo, a mandado de Esmeraldino Bandeira.

Delmiro Gouveia, através de um amigo comum, cientificou Rosa e Silva do que se passava e o responsabilizou por qualquer atentado que viesse a sofrer. O Conselheiro irritou-se com esse gesto e o repeliu.

Em uma tarde de sábado - 17 de junho de 1899 - Delmiro encontrou-se com Rosa e Silva na Rua do Ouvidor e dele se aproxima, dizendo-lhe:

- Seu amigo Esmeraldino mandou assassinar-me e eu responsabilizo o senhor pelo que vier a acontecer.

Rosa e Silva, sem se deter, respondeu-lhe:

-Seja instrumento de quem quiser, mas não me aborreça.

Delmiro, não se contendo, agride a bengala o Vice-Presidente da República, que se refugia na Chapelaria Inglesa, de propriedade de Artur Watson, dali se retirando dez minutos depois, sem acompanhantes.

O incidente teve vasta repercussão. E não era de se estranhar. Pela primeira vez, tão alto dignatário da República, a segunda pessoa do governo, recebia uma desfeita daquela natureza, numa das artérias mais movimentadas da capital federal. Um escândalo em grande estilo.

Incêndio criminoso

Delmiro iria pagar caro pela ousadia. E não demoraria a execução do plano de vingança que os inimigos arquitetavam. Às últimas horas de 1° de janeiro de 1900, elementos criminosos atearam fogo a dependências do Mercado do Derby, que tanto servia ao povo e era o orgulho do Recife. Os prejuízos atingiram cifras altíssimas: 600 contos de réis.

Como se não bastasse o fato por si só, o Governo do Estado assumiu uma atitude que feriu ainda mais a sensibilidade do povo: prende Delmiro e o seu sócio e gerente do Mercado, Napoleão Duarte.

A detenção de Delmiro verificou-se com o maior aparato policial: um alferes e 50 praças embaladas. A intenção era desmoralizá-lo e até matá-lo, se porventura opusesse resistência.

A reação popular logo se fez sentir. Pela primeira e única vez, na história do Recife, o comércio cerrou as suas portas em solidariedade a um homem.Já fechou em outras ocasiões, mas sempre em movimentos reivindicatórios.

De diferentes setores, partiram demonstrações de simpatia e apreço a Delmiro. A Associação Comercial mobilizou-se em defesa do seu consórcio e ex-presidente, designando uma comissão para entender-se com o governador Sigismundo Gonçalves. Os jornais ´Gazeta da Tarde´ e ´Jornal Pequeno´, vespertinos, não circularam, o mesmo acontecendo, no dia seguinte, com os matutinos ´A Província´ e ´A Concentração´, o que dá a idéia da falta de garantia reinante.

No dia 3, uma ordem de hábeas-corpus restituiu a liberdade a Delmiro, que no dia 5 publica uma nota na imprensa, em termos veementes, relatando os dramáticos acontecimentos e estigmatizando os adversários.

Cercado de perigos de toda sorte, na mira de inimigos poderosos que não o perdoavam, Delmiro embarcou para a Europa, na esperança de encontrar, quando regressasse meses depois, paz e tranqüilidade para o trabalho.

O incêndio do Mercado e a prisão tiveram trágica repercussão na sua vida amorosa: porque não foi visitado pela esposa, quando detido pela Polícia, não mais voltou ao lar. E começou a separação que seria definitiva.

Rapto e fuga

Da Europa, Delmiro somente retornaria no segundo semestre do ano seguinte, chamado às pressas para acudir à firma Silva Carneiro & Cia., que fundara antes de embarcar, e cuja situação era tão difícil, que não pode evitar a falência, mesmo com sua presença em Pernambuco.

Por assa época, ocorreu fato que viria a alterar, por completo, os rumos da sua vida. Com o lar desfeito, Delmiro, quarentão, sentindo-se isolado, enamorou-se por uma jovem - Carmélia Eulina do Amaral Gusmão-, filha da amásia do governador Sigismundo Gonçalves.

Indiferente aos motejos que iria provocar e sem atentar para as conseqüências do seu gesto, Delmiro raptou-a e com ela passou a residir na Usina Beltrão, no bairro de Santo Amaro. Os inimigos o acusaram pelo crime de rapto e sedução e mobilizaram a Polícia e a Justiça para enquadrá-los nos termos da lei e o levarem à cadeia. Não teve alternativa senão fugir.

Abandonando o Recife, para escapar às perseguições políticas e policiais, Delmiro Gouveia foi localizar-se no interior alagoano. Como pretendia continuar no comércio de peles, instalou-se em Pedra, na confluência de três Estados - Pernambuco, Bahia e Alagoas. Pedra tinha outro aspecto favorável: o de ser parada de trem que fazia a ligação Jatobá-Piranhas.

Com o conhecimento que tinha do ramo comercial que escolhera, e ao qual se dedicava fazia anos, e com as boas relações que estabelecera não demorou que os negócios de Delmiro prosperassem bastante. Tantos e tão repetidos sucessos levaram-no, em 1904, a constituir a firma IONA & CIA., cuja atividade principal era exportação de peles de cabra e de carneiro, couros de boi, mamona em bagas e caroço de algodão.

Foram abertos, em algumas capitais nordestinas, escritórios de IONA & CIA. O de Fortaleza teve como gerente José Porto, figura de alto prestígio no comércio do Estado e que foi, mais tarde, acionista e suplente do Conselho Fiscal da Companhia Agro Fabril, sob cujos auspícios surgiu a fábrica de linhas.

Atuando desde o Sul da Bahia até o Norte do Ceará, penetrando até mesmo no Piauí, o consórcio sob o comando de Delmiro fazia excepcional movimento, promovendo a circulação de vultosas somas de dinheiro e criando riqueza numa região pobre e desprotegida de meios de subsistência.

Delmiro não se descurava de difundir práticas destinadas a fomentar o aumento dos rebanhos. Porque a sua atividade não assumia caráter predatório. Agia no presente com olhos no futuro. E indiretamente contribuiu para melhorar o padrão alimentar do sertanejo. Porque só o interessava a pele. A carne, de muito valor nutritivo, ficava para o consumo do povo.

Novas avançadas

O êxito de IONA & CIA. estimulou em Delmiro o anseio de empreendimentos mais avançados. Em dez anos, o ramo de atividades que escolhera era demasiado restrito aos impulsos criadores do seu extraordinário dinamismo. Sonhou, então, com a industrialização do Nordeste, com a energia captada em Paulo Afonso, um desafio de séculos à capacidade realizadora do brasileiro.

Passando imediatamente à ação, logrou convencer o Governo de Alagoas da viabilidade dos seus planos, obtendo as concessões que pleiteava para utilizar as terras secas e devolutas de Água Branca: isenção de impostos, pelo período de dez anos, para exploração de uma fábrica de linha, e permissão para aproveitar o potencial hidrelétrico da Cachoeira e estabelecer linhas de transmissão de energia no Estado de Alagoas.

Logo cogitou Delmiro de formar uma sociedade anônima, que reunisse seus sócios, interessados, auxiliares mais graduados e amigos de sua preferência. Como fruto das demarches com esse objetivo, fundou a 6 de maio de 1912 a Companhia Agro Fabril Mercantil com o capital inicial de mil e duzentos contos de réis.

Enquanto se desenrolavam as providências para a instituição da Companhia, marchavam as medidas relacionadas com a compra das máquinas para a usina da Cachoeira e a fábrica de linha. Desse modo, foi ganho precioso tempo. Tanto que, já a 24 de janeiro de 1913, chegava a Pedra água da Cachoeira. A 24 de junho do mesmo ano, inaugurava-se luz elétrica e, a partir de setembro, trabalhava-se no prédio da fábrica que funcionou a 1° de julho de 1914.
AS CONQUITAS ECONÔMICAS E SOCIAIS

Delmiro lançava, no Nordeste, as bases de uma corajosa experiência. Com a energia da Cachoeira de Paulo Afonso, ia tentar o processo de industrialização. Para compreender a exata significação da sua iniciativa, é preciso que se atente para a época em que surgiu - o princípio do século passado e para o ambiente em que ia projetar-se - o interior de uma região dominada pelo atraso, pela ignorância e pelo pauperismo.

Apesar de todos os fatores negativos, Delmiro subjulgou-os, firmou-se e venceu. A fábrica não conheceu retrocessos. Enfrentou dificuldades, mas foi sempre para frente.

Dentro em pouco, não havia Estado onde não se vendesse a linha Estrela. Competia com o produto de um trust poderoso. Não obstante, espraiava-se no mercado interno, para depois se impor no internacional. Pedra chegou a exportar até para colônias inglesas.

Delmiro deu oportunidade ao caboclo nordestino para mostrar aquilo de que é capaz, quando bem orientado. Ao fanático e ao cangaceiro opunha-se o homem de trabalho, pronto a revelar inteligência, intuição, capacidade construtiva.

Sob a dinâmica de Delmiro, Pedra deixou de ser um burgo apagado na geografia nordestina para transformar-se num centro de progresso, onde o operário desfrutava vantagens excepcionais, que nem nas capitais lhe eram concedidas: água encanada ou em chafarizes, luz elétrica, que era uma das melhores do Brasil, vila de casas, médico, escolas, cinemas, rinque de patinação, banda de música.

A par dessas medidas de caráter social, Delmiro desencadeou um combate sem tréguas aos costumes retrógrados, procurando incutir na população de Pedra hábitos de higiene e de boas maneiras. O banho tornou-se obrigatório, não se fumava em cachimbos de barro, não se podia cuspir no chão, não se entrava numa casa com o chapéu na cabeça, homens e mulheres tinham de andar calçados e limpos.

Em Pedra, imperava ordem excepcional. Não se bebia cachaça nem se explorava a prostituição. Havia respeito, as ordens estabelecidas eram cumpridas à risca.

O abastecimento da população merecia cuidados especiais. As feiras realizavam-se semanalmente e ninguém pagava impostos, porque Delmiro os arrematara por dez anos e os dispensava dos contribuintes. Nem na seca de 1915 houve escassez, apesar dos flagelados, em grande número, que afluíram a Pedra em busca de socorros e que eram atendidos em tendas ao redor da vila.

Frota de carros

A necessidade de comunicação normal e rápida levou Delmiro a abrir as primeiras estradas no interior nordestino, pelas quais rodaram também os primeiros automóveis. Inicialmente, a ligação com os terminais ferroviários, Quebrângulo, Alagoas, e Garanhuns, Pernambuco. Depois com Cachoeira, Água Branca e Paulo Afonso. Ao todo, 520 quilômetros.

Cinco carros, ao todo, a serviço de Delmiro nas carrascais do sertão alagoano: um Fiat, italiano, um Austin grande e um Austin pequeno, ingleses, um NAG, alemão, e um Bayard, francês. Das condições das estradas, em que esses veículos eram utilizados, basta dizer que permitiam velocidade de 60 quilômetros.

Uma sensação, os carros de Delmiro. Quando chegavam a uma localidade parecia um dia de festa. Formava-se aglomeração e não se falava em outra coisa.

Empenhado na industrialização da linha, Delmiro não olvidou as riquezas tradicionais da região: a agricultura, e a pecuária. Procurou difundir as culturas agrícolas com a irrigação das terras secas e muito cedo compreendeu a importância da palma forrageira como alimento dos rebanhos propagando-a o quanto pôde.

Desvendada a trama sinistra

Quem teria o atrevimento de assassinar um homem de imenso prestígio, pelo espírito de iniciativa que o animava, pela grandiosidade dos planos que pôs em execução, pela ousadia e determinação com que agia, pelo poder que detinha em face da riqueza que acumulara?

Várias as hipóteses levantadas.

Delmiro fora vítima do trust inglês da linha. A Machine Cottons sentia escapar-lhe preciosos mercados com o avanço da linha ´Estrela´ fabricada no burgo de Pedra, no interior alagoano. Delmiro já não se continha dentro do Brasil. Expandia-se pelo continente, favorecido pelas circunstâncias determinadas pela I Grande Guerra, no auge a campanha submarina alemã afundando navios cargueiros e dificultando ao máximo o comércio internacional . E era difícil prever até onde chegaria Delmiro, tal o arrojo com que se lançava à conquista de novos centros consumidores. Cortar-lhe o fio da existência era um dos meios indiretos de alcançar o estrangulamento da promissora indústria.

O êxito e a projeção de Delmiro despertavam inveja e despeito. Para a malquerença e o ódio, a distância era pequena. Bastava um pequeno incidente, no jogo dos interesses contrariados. No ambiente rasteiro em que pontificava o coronelismo retrógrado e sanguinário, que respeito merecia a vida de um homem progressista?

Para implantar, no interior nordestino dos albores do século, um estilo de civilização que nem as metrópoles conheciam, impunha-se agir com braço forte. Do contrário, não estabeleceria ordem, muito menos alcançaria a meta de trabalho ordenado e produtivo. Da cabroeira insatisfeita e sem escrúpulos poderia partir o braço assassino.

Delmiro não conseguiu escapar às maquinações políticas em que se viu enredado, no Recife, durante os últimos anos de atuação ali. Não conseguiu nem fez esforço para isso. Pelo contrário, deu contribuição pessoal, com gestos desatinados, para armar situação prenhe de perigos. Sua morte não seria uma vingança política?

Corre mundo a fama de Delmiro Gouveia como homem galante e conquistador. Não se detinha diante de quaisquer obstáculos quando o coração pendia para uma mulher. Exagero ou não, o certo é que nunca se afastou, na apreciação das causas determinantes do seu assassínio, a possibilidade de tratar-se de um caso de honra.

O que se seguiu, em termos de apuração do crime, foi uma farsa e que consumou clamoroso erro judiciário. Inocentes foram condenados como executantes, não havia quem se interessasse por eles; um dos acusados como mandante desapareceu do mapa e o outro foi despronunciado pelo juiz, que aceitou em seu favor depoimento dos réus, mas que não prevaleceu para eles próprios no júri presidido pelo mesmo magistrado que proferiu a despronúncia. Que vergonha! A Justiça armou o circo, fez o jogo das aparências e não teve grandeza nem sabedoria. A Polícia excedeu-se em arbitrariedades, não realizou diligências que se impunham nem instruiu o processo como devia. Revoltante! A tudo se compunha a sociedade com inacreditável conformação.

Conheci em Maceió o último sobrevivente dos acusados do assassínio de Delmiro, chamava-se Róseo Moraes do Nascimento. Já cumprira na prisão a pena a que o condenaram. Não devia mais nada perante a lei, mas continuava a afirmar categoricamente: - Não matei o coronel Delmiro.

A revisão do processo, a pedido de Róseo, foi postulado pelo advogado Antônio Aleixo Paes de Albuquerque, que invocou como álibi o telegrama do coronel Neco Brito ao coronel Ulisses Lima, de Água Branca, ressaltando que os indigitados autores do homicídio não o poderiam ter cometido por absoluta impossibilidade material, uma vez que, na véspera do crime estavam a 200 quilômetros de Pedra, em viagem de terra e água. Esse telegrama, de suma importância, não incorporaram, estranhamente, ao processo, sendo descoberto com outras peças, em 1977, pelo historiador Moacir Sant´Anna, Diretor do Arquivo Público de Alagoas. Quando, em maio de 1983, o Tribunal de Justiça de Alagoas, em decisão histórica, procedeu à revisão do processo do assassínio de Delmiro, dela resultou, evidente, e inocência dos acusados. Róseo já havia falecido, mas a Justiça, embora tardia, reparou clamoroso erro judiciário.

O assassínio de Delmiro teve como mandantes os coronéis José Rodrigues de Lima e José Gomes de Lima e Sá; como executantes: Herculano Soares Vilela, proprietário na serra do Cavalo, perto de água Branca; o cunhado Luis dos Anjicos e o cabra Manuel Vaqueiro.

O coronel José Rodrigues de Lima, de Piranhas, chefe político, fazendeiro e criador, proprietário e latifundiário, não se sentia confortável com a vizinhança de Delmiro, industrial da linha atuando no criatório e comercializando na vila de Pedra produtos agrícolas a preços mais baixos do que o convencional da região.

José Gomes de Sá, coletor em Jatobá de Tacaratú, hoje Petrolândia tivera uma pendência com Aureliano Gomes de Menezes, a quem acusara de contrabandista de peles e de couros, a serviço de Delmiro; a denúncia não foi comprovada e Aureliano foi demitido. Envolveu-se como mentor intelectual, da trama que eliminou Delmiro. Com o assassinato, tomou rumo por muito tempo ignorado, indo se refugiar em Goiás. Quando estava às vésperas da morte, em 1948, na cidade de Porto nacional, confessou o conluio sinistro perante o padre Luso, o promotor público José Cortez de Lucena, o advogado Oswaldo Leal e o fazendeiro Pedro Pastanheiro. Não foi confissão auricular ao sacerdote, como ainda houve quem insinuasse, mas confissão pública.

Certa vez, quando Delmiro Gouveia chegava a Água Branca, Herculano Vilela saía da cidade com um comboio carregado de mantimentos. Um dos animais abalroou com Delmiro, que se exasperou, indo ao extremo de bater com uma chibata em Herculano. Este tentou revidar, mas, outras pessoas intervieram, evitando a luta que parecia eminente. Herculano jurou vingança. E cumpriu o juramento.

Demorou 66 anos a palavra final da justiça sobre o crime que eliminou figura humana da grandeza de Delmiro. Não teve conseqüências práticas, pois todos os envolvidos já tinham desaparecido do mundo dos vivos. Vale ressaltar o fato pelo que representa como reparação das injustiças perpetradas contra os mais fracos; encerra igualmente desabafo de consciências tripudiadas pela prevalência de injunções subalternas, que por tanto tempo beneficiaram os potentados do dia.

J. C. ALENCAR ARARIPE
Especial para o Cultura
O autor da matéria é jornalista e escritor



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QUEM MATOU DELMIRO GOUVEIA?


SERVIÇO

Livro: Quem Matou Delmiro Gouveia?
Autor: Gilmar Teixeira
Edição do autor
152 págs.
Contato para aquisição
gilmar.ts@hotmail.com
Valor: R$ 30,00 + R$ 5,00 (Frete simples)
Total R$ 35,00

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MAPEARAM AS ANDANÇAS DE LAMPIÃO PELAS TERRAS SERGIPANAS


AMIGOS,

Vê-se claramente do mapa que Lampião andou muito pelas terras sergipanas, e em nenhum outro estado nordestino ele se aproximou tanto do litoral, das fascinantes águas salgadas, em ondas espumantes, profundas e sem fim. Teria Virgulino Lampião, o cangaceiro capitão, por tentação, visitado, disfarçado, é claro, a minha Aracaju, já que tão perto dela sabemos que ele andou? Será que ele mergulhou nas mornas águas da Atalaia? Probabilidades, muitas, além do que a pesquisa, se não disse até agora que sim, também não disse que não. E probabilidade é a argamassa da verdadeira história. 


Portanto, é algo que podemos considerar como plausível, pelo menos. A verdade é que quase nada sabemos de Lampião, e absolutamente nada quando tratamos deste homem sem a sua tradicional indumentária, sem o seu grande chapéu de abas decoradas; e não venham me dizer que ele passou sete mil e trezentos e cinco dias exclusivamente fugindo da polícia, se escondendo, perambulando de um lado pro outro pelas caatingas, cometendo mil estripulias e atos ilícitos. Os livros e o cinema nos levam a imaginá-lo desta forma. Não, não. Eu diria que todas as ditas e não ditas batalhas em que ele fez parte, somadas temos algumas horas de combate, apenas. 

Lampião teve outras vidas, vivenciou outras coisas além das próprias do seu dia a dia, do cangaço: tempos de paz ele teve, de caminhar despreocupado, de contemplar, de refletir as coisas, de gozo e alegria, de interação, de curiosidade, enfim, tempo de conhecer lugares outros além do seu campo de luta; e por que não tempo de conhecer uma capital, de banhar-se no mar, algo que tão perto dele mais não poderia estar. É lógico que este famoso e rico cangaceiro, com tantos contatos e concertos costurados com influentes e poderosos cidadãos, teve, na sua trajetória, embora a pesquisa não tenha alcançado, dias inusitados, diferentes, não tenho dúvida. Até porque quase nada sabemos deste homem, como já disse, e praticamente tudo que sabemos dele é por ouvir dizer. Não esqueçam que Lampião, quando esteve em Sergipe, e não foram por poucos dias, Eronides de Carvalho, o filho do coiteiro Antônio Caixeiro, como sabemos, era simplesmente a maior autoridade do Estado. 

Portanto, acho improvável Lampião não ter andado pelas ruas de Aracaju, quem sabe até umas comprinhas no nosso comércio; coisa que sou propenso, sim, a aceitar, muito mais do que tê-las como verdadeiras certas imputações feitas a Lampião. A meu favor apresento o grande Jornalista Joel Silveira, que, certa feita, numa de suas entrevistas, disse que Lampião esteve em Aracaju, e olhem que este famoso repórter, correspondente de guerra, sabia das coisas.

Fonte: facebook

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ANTONIO LOBO, OURIVES QUE FEZ UM ANEL PARA LAMPIÃO.


ANTONIO LOBO, OURIVES QUE FEZ UM ANEL PARA LAMPIÃO.

Devidamente registado no livro "O Cangaço em Itabaiana Grande". Toinho Ourives como era conhecido em Itabaiana sempre contou esta história. Podem anotar que ele não tem a rótula do joelho direito.

Fonte: facebook

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LAMPIÃO NO TIPI

 Por José Cícero Silva

Lampião passou um dia no Tipi onde inclusive se arranchou; pernoitou, no local na época conhecido por "Pedra de Amolar" onde hoje existe um açude e a curva do S da CE-288 a mais ou menos 2 km da sede da fazenda. Em meados de 1925 um ano depois da morte da matriarca Marica Macedo do Tipi. O bandoleiro foi recebido na casa grande pelo filho de D. Marica onde houve uma relação de respeito mútuo.

A Arte de Fredi Ambrogi

Desabastecido em face de uma jornada de perseguições inclusive na Serra da Várzea Grande lampião pediu favores e recebeu comida, água e uma razoável quantia em dinheiro, inclusive adicionada uma "vaquinha' feita junto as lideranças, potentados e comerciantes da cidade. Do Tipi Lampião seguiu para o serrote dos Cantins, e Diamante e de Lá direto para a serra do Mato do cel. Santana em Goianinha atual Jamacaru em Missão Velha em seguida retornara para o seu Pernambuco.



Em Tempo: Um fato engraçado ocorreu nesta visita de Lampião: um menino "frangote" no dizer de alguns tipienses antigos resolveu às escondidas checar no coito de Lampião e pedir que o aceitasse no bando queria ir embora com o grupo. Lampião achou engraçado e, num misto de riso e sisudez diante dos cangaceiros disse o seguinte: - Qual sua idade e qual a graça de seu pai? - Sou filho de seu Virgílio, seu Lampião, amigo de seu Silvino Macedo homem rico do Tipi e das ororas.

Eu tenho 16 anos inteirado e sei atirar bem tenho a munheca boa acerto até tiziu voando. Ao que respondeu Lampião com um gracejo: Então-se vá lá mate seu pai, sua mãe e toda a sua família que a gente lhe aceita no bando né mesmo cambada?!. Segundo dizem a cabroeira caiu na gargalhada. Cabisbaixo e desiludido no seu intento, o rapaz voltou pra casa e só contou esta história tempos depois aos seus temendo uma surra do pai. Nenhuma maldade ou desrespeito de qualquer espécie Virgulino cometera ou permitiu que se cometesse por essas bandas do Tipi.

José Cícero Silva
Conselheiro Cariri Cangaço
Aurora, Ceará
E de 25 a 28 de Julho...
Cariri Cangaço Piranhas 2015 


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terça-feira, 5 de maio de 2015

MINHA LINDA SERTANEJA

Por Rangel Alves da Costa*

Minha sertaneja...

Sim, apenas uma mulher, mas uma mulher sertaneja. E onde se imagina a timidez tristonha se avista a pujança da vida, como a florada fascinantemente bela das craibeiras.

Minha doce sertaneja...

Há uma flor do campo onde esteja, há um lírio do mato aonde vá, há uma catingueira florida na imaginação. E um jardim sertanejo toda vez que passa vestida de chita.

Minha linda sertaneja...

O jambo caiu do pé e de você apossou, e em seu corpo fez moradia morena de matiz perfumado. Daí sua pele trigueira, urucum sertanejo queimado de sol.

Ah minha linda sertaneja...

Araçá no seu lábio, araçá no seu beijo, araçá em tudo. Uma fruta do mato, uma fruta que é mel, um mel que é tão puro quanto a sua beleza.

Linda, linda sertaneja...

Mulher vestida de sol, ornada de lua, perfumada de mato, singela como o amanhecer. E a mulher assim não se encontra em revista, senão no que avista o olhar o sertanejo.

Minha bela sertaneja...

Bela Maria, a bonita. Bela Enedina, a cangaceira. Bela Adília, bela Sila, bela Rosinha, todas tão belas que nem as durezas do mundo tingiram com outra feição a beleza agrestina.

Sempre bela sertaneja...

Mire-se nas mãos e braços nus e rudes do mandacaru. Acredita-se apenas em espinhos. Mas basta se aproximar para sentir e amar, sentir e se apaixonar pela bela flor do mandacaru.

Minha linda sertaneja...


O que seria da manhã sem seu sorriso à janela? O que seria do caminho sem seu passo caminhante? O que seria da noite sem a penumbra enluarada envolvendo a sua face?

Tão linda e bela sertaneja...

Açoita o vento nas tardes sertanejas e teus cabelos esvoaçam como voo passarinho. E como passarinho voa cantando a mais bela canção que meu coração quer ouvir.

Oh minha bela sertaneja...

Recordo cirandando a ciranda nas noites de lua cheia, rodando a roda da infância, e eu passando apressado num cavalo de pau em busca de uma estrela para seus cabelos.

Minha doce mulher sertaneja...

Quando a seca chegou e tudo secou, e você passava com pote na cabeça no caminho do tanque, sabe o que eu avistava? Alguém que logo voltaria para saciar minha sede.

Minha bela sertaneja...

Um dia escrevi seu nome num pé de pau e ainda está lá. Um dia joguei uma semente debaixo de sua janela e a plantinha está lá. Um dia fiz uma promessa e ainda espero o seu beijo.

Minha linda sertaneja...

Que seja sempre a terra, o chão, o sertão. Seja como a terra que frutifica o que há de melhor, como o chão que se firma sem fraquejar, como o seu sertão ornado de lua e de sol.

Por fim, minha sertaneja...

Buscando nas palavras bíblicas, olhai os lírios dos campos, que nem fiam nem tecem, mas nem mesmo Salomão em todo seu esplendor pôde se vestir como eles. E és a flor mais bela que sobre a terra brotou.

E não deixai que as ervas daninhas se arvorem de ferir a mácula e a graciosidade do todo que há na mulher. Na mulher sertaneja.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Se você gosta de ler histórias sobre "Cangaço" clique no link abaixo:

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BENJAMIN ABRAÃO - SECRETÁRIO PARTICULAR DO PADRE CÍCERO


Fotogramas inéditos.....Neles, vê-se os dois passeando nas ruas da cidade do Juazeiro. Abrão sobre tirar proveito comercial de sua amizade com o famoso padre, inclusive, para se aproximar do bando de Lampião, e, poder fotografá-lo e filmá-lo...

Cortesia dos fotogramas : Renato Cassimiro / Daniel Walcker.

Fonte: facebook
Página: Voltaseca Volta


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UM TRISTE EPISÓDIO QUE CHOCOAU O NORDESTE BRASILEIRO


Um dos episódios mais aterrorizantes de todo o ciclo do cangaço foi sem dúvidas a "Chacina da Fazenda Patos". Ao saber da morte de Virgulino Ferreira, Corisco o "Diabo Louro" perpetrou o assassinato a sangue frio de uma família inteira de inocentes: Família de Domingos Ventura. 

A prefeitura municipal de Piranhas através da Secretaria de Turismo e Cultura e a iniciativa privada, juntamente com o Cariri Cangaço, lançam no espetacular Cariri Cangaço Piranhas 2015 a PEDRA FUNDAMENTAL da restauração da Fazenda Patos. Você não pode perder.

Manoel Severo Barbosa. Programação Completa:


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GOMES JURUBEBA E LAMPIÃO


Fazenda Jenipapo, aqui em 1919, Gomes Jurubeba estava com seu sobrinho menor João Jurubeba, colocando as telhas.  

Lampião passou com os cabras no terreiro. Lampião deu a bênção ao velho Gomes. Ele (Gomes) respondeu que não era padrinho de cangaceiro.

Fonte: facebook

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PEGADAS DE UM SERTANEJO

Por Manoel Severo

O estimado amigo José Alves Sobrinho ao lado de Antônio Neto nos trazem mais um grande presente; desta vez como Aderbal Nogueira fala: O outro lado da moeda. José Saturnino e as Pegadas de um Sertanejo. Indicamos e recomendamos. Valeu Zé Alves. 


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CONVITE


Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço José Edilson de Albuquerque Guimarães Segundo

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