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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O GADO COMENDO O OSSO DO BARRO E O HOMEM COMENDO O OSSO DO GADO (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

O GADO COMENDO O OSSO DO BARRO E O HOMEM COMENDO O OSSO DO GADO 

Mentira não. Tudo verdade. Os mais velhos afirmam com convicção e lágrima querendo vingar no canto do olho sem brilho: é a maior seca que assola o sertão nos últimos cinquenta anos.

Não é lorota não. Tudo verdade. E de doer nos olhos e nos sentimentos. Desde três anos ou mais que a estiagem desceu num raio de sol e resolveu fincar moradia. E de tanto reconhecer o lugar que é tão seu, parece não querer mais arribar de volta.

Tanque, açude, barragem, riacho, cacimba, olho d’água, tudo vazio, sem uma gota sequer pra matar a sede do homem e do animal. O que estava lamacento virou barro de vez; o barro petrificou. Daí os barreiros parecendo crateras cheias de lanhos profundos.


A mataria - que já era rala devido ao desmatamento desenfreado - foi secando, curvando, morrendo. A catingueira desnuda tenta resistir às dores, aroeira e umburana esmorecem, planta rasteira vira graveto.

O mandacaru, de braços eternamente abertos implorando clemência divina, nem parece mais com a planta sempre verdejante de outros tempos. Está magro, ossudo, cinzento, feio, quase não resistindo. Apenas aqueles espinhos feitos punhais dos vencidos.

Sertão adentro, já desde muito tempo que não se fala mais em bicho de caça. Agora então, que não se encontra mais qualquer pegada por cima da terra seca. O preá, que deveria existir sempre que o sertão continuasse existindo, até ele se tornou difícil encontrar. Caçar o que, comer o que?

Neste terrível cenário de dor e sofrimento, em meio aos gravetos, pedras e espinhos espalhados no chão, o calango reina praticamente sozinho. Mas agora mais assustado, mais amedrontado, parecendo não acreditar naquela devastação. E sai saltitando, correndo apressado em busca de qualquer loca para fugir do braseiro na terra.

Gado pastando é coisa rara de se ver. Tudo esquelético, tropeçando no peso da própria ossada, caindo. Cachorro magro, dois palmos de língua pra fora. Uma sede danada, um calor de torrar pedra. Urubus voejando contentes por todo lugar. Tristeza danada, seu moço!


Não há pasto e o gadinho que resta se deita pelos cantos sem forças nem para ruminar. A lágrima escorre do olho fundo, o mosqueiro zanzando ao redor. Na pele ossuda apenas o resto do resto. Mais adiante se espalham as carcaças, as cabeças ocas e ainda com pontas daqueles que deitaram para a morte.

Panela vazia e pote também; o menino vira a moringa e diz ao pai que tá com sede. O homem só falta endoidar sem ter muito o que fazer. Corre a catar no fundo da lata um resto de água suja. Depois de coada há de enganar a danada. Talvez o carro-pipa só passe amanhã, mas nunca para deixar mais que duas latas d’água.

Dali a pouco o mais novo e também mais buchudinho – acostumado a viver com a boca cheia do barro da parede – vai começar a chorar pedindo comida. Todo dia é esse sofrimento para dar de comer a meninada. Quando tem farinha, vai de farinha seca; quando tem pão, vai o pão seco mesmo; quando tem feijão com ovo então é uma festa. E quando não tem nada, como sempre acontece de nada ter?

Pedir a político não vai mais não. Já sabe bem como tudo acontece. Na hora de pedir voto leva cesta de comida e até água mineral, paga uma continha pequena e promete o mundo e o fundo, mas depois que ganha esquece de todo mundo. Na última vez que foi implorar uma carrada d’água simplesmente ouviu que rezasse pra trovoada cair.

O sol anda batendo tão forte pelas bandas do sertão que até miragem tem causado. Teve um cabra que jurou ter avistado um poço cristalino bem no meio do tempo. O coitado correu e deu um batim com roupa e tudo. Arranhou-se todinho na areia espinhenta e cheia de pedras. Outro se danou a tomar banho de chuva debaixo da fornalha do sol. Endoideceu.


E sentados na pedra grande, com feições queimadas dos dias quentes, dois velhos sertanejos proseavam sobre aquela situação. Foi quando um perguntou ao outro se lembrava do causo do gado comendo o osso do barro e o homem comendo o osso do gado. E outro, parecendo ainda mais entristecido, respondeu que sim. E ajuntou:

“Num é causo não cumpade, é o que nóis tamo passano. Tá tudo aí na frente dos óio, e agorinha mermo pá num deixá mentir. O gado comeno o qui incronta, seje barro de aguada ou fiapo de pau. E o homi comeno o gado que cai morto. Cuma o gado só tem osso, entonce o homi acaba roeno o osso do gado”.
  
(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos eguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Bulamarqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE. 

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

A Literatura de Cordel enquanto veículo de contestação: O caso do cordel “Confusão no Cemitério”


Por José Romero Araújo Cardoso

Marca indelével da cultura nordestina, a literatura de cordel traduz reações diversas, ao nível ficcional, de críticas a situações injustas e desejos internalizados em efetivar mudanças sociais praticamente impossíveis de se concretizarem no plano real.

O preconceito com relação à literatura de cordel impediu que um brilhante cordelista paraibano, radicado no Rio de Janeiro, conhecido por Raimundo Santa Helena, pudesse concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Essa manifestação, com certeza, está ligada às condições materiais e sócio-econômicas da produção desse gênero literário, do qual possui vínculos, primordialmente, com as camadas menos favorecidas, sobretudo no Nordeste brasileiro, riquíssimo celeiro de cordelistas e repentistas, a exemplo de Leandro Gomes de Barros, considerado de fato o verdadeiro “príncipe dos poetas brasileiros”, na expressão simpática de Carlos Drummond de Andrade.

Carlos Drumond de Andrade

A arrogância do refinamento “erudito” impede que a literatura de cordel seja valorizada na forma exata como merece ser, principalmente devido a “má qualidade da impressão, o pouco caso com a “correção” linguística  a presença marcante da oralidade, o fato de ser tradicionalmente vendida em feiras e o tipo de consumidor, em geral pessoas de baixo nível escolar.
No ensejo da resistência cultural empreendida pelos grandes menestréis das feiras e esquinas da maioria das cidades regionais, encontramos o homem e a luta pela afirmação da literatura de cordel personificados em José Ribamar Alves, um dos nobres guerreiros da cultura popular aquartelado em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte.

arievaldocordel | POETA JOSÉ RIBAMAR, DE MOSSORÓ
José Ribamar Alves

José Ribamar Alves nasceu em 16 de março de 1962, no sítio Solidão, município de Caraúbas, Estado do Rio Grande do Norte, embora registrado em Severiano Melo, Estado do Rio Grande do Norte, onde foi criado. É filho de José Alves Sobrinho e Rosa Maria de Carvalho. Casado com Rita de Oliveira Carvalho, reside em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte. Tornou-se repentista profissional a partir de 1983, sendo autor de diversos títulos de cordel, a exemplo de “Armadilhas do Destino”, “Pela Vida do Planeta”, “A Quebra de Silêncio”, “A Crueldade de Osama e A Vingança de Bush” e “Confusão no Cemitério”.

No cordel “Confusão no Cemitério” (Coleção Queima-bucha de Cordel – nº 10 – Março de 2002 – Mossoró - RN), cuja inovação na arte de capa, em xilogravura, se deve ao não menos renomado poeta popular Antônio Francisco, efetivada pelo artista plástico e poeta Laércio Eugênio, José Ribamar Alves expressa os pormenores do seu IMAGINÁRIO fantástico ao contestar a ordem estabelecida através de confusões na vida após a morte.

Um cemitério do Rio de Janeiro, cidade onde os contrastes são mais acentuados, imperando a violência urbana e a corrupção, as quais andam de mãos dadas em consonância com o recrudescimento das diferenças interclasses, serve de cenário para a narrativa.

As confusões de um coveiro atrapalhado, conhecido por “biriteiro”, são narradas na terceira pessoa do singular, as quais tiveram como veículo as confissões de um personagem que o autor deu o nome de Fernando de Risadinha.

Invocando contatos com o além, José Ribamar Alves traça o perfil da sociedade através da continuidade das relações de poder observadas no mundo dos vivos. O coveiro recebe visita de pessoa morta que vem lhe reclamar do serviço errado que o deixou com as costas viradas no túmulo, de cujo gesto de vingança consistiu em trocar as cruzes do cemitério, invertendo as identificações dos mortos das quais pertenciam.

A cruz de um marginal vai parar no túmulo de um Juiz Federal, enquanto um vigário e um pastor, após as inversões, acabam brigando, suscitando que faleceram desconhecendo o significado da palavra “amor”. Cartola desesperado com a confusão da troca de cruzes demonstra que tem poder, mesmo após a morte, convocando a repressão do aparelho do Estado, da mesma forma quando vivo, fazendo o maior escarcéu na necrópole, invocando ainda os poderes de um pai de santo, também falecido.

Como no mundo dos vivos, apenas pobres e excluídos sofrem com a algazarra das almas penadas, enquanto chefão de drogas, banqueiro de jogo, advogado e político não são molestados.

O desejo de revanche fica explícito quando a alma de um “cabra desassombrado” “Meteu um braço de cruz/ Na nuca dum delegado/ Que ele caiu por cima/ Da caveira dum soldado” (Confusão no Cemitério, estrofe XXII). Isso serviu para “despertar” os marginalizados da letargia em que se encontravam, atentando contra a ordem estabelecida e afirmando, dessa forma, a contestação ao status quo. Rebelam-se mundana, travesti e jogador, além de cego, maneta, perneta, mudo, gari, escritor, jornalista, motorista, prefeito e vereador. Na verdade, desencadeia-se uma revolta em todas as classes, condicionada pela hegemonia que desfrutam àqueles que detém o poder, levando o autor a indagar sobre a repetição, entre os mortos, das mesmas situações de desigualdades terrenas, quando o cordelista destaca que “Também sei que entre as classes/ Há muita desigualdade/ De tudo elas são capazes/ Mas pra falar a verdade/ Eu não sabia que os mortos/ São da mesma qualidade” (Confusão no Cemitério, estrofe XXIX).

A exclusão social, infelizmente, ainda é uma mácula na sociedade brasileira e o cordel, enquanto instrumento de afirmação das classes populares, cumpre o papel de bradar contra as injustiças e em favor das aspirações do povo brasileiro.

Em “Confusão no Cemitério” José Ribamar Alves sintetiza a cosmovisão popular e o seu imaginário quanto ao desejo de buscar a superação das distorções sociais que separam ricos e pobres num fosso indevassável da realidade criada pelas elites que se arvoraram em donas do poder desde nossa formação sócio-econômica.

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto da UERN.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

LIVRO: Fome: Uma (re)leitura de Josué de Castro. Autora: Rosana Magalhães


Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço:
Romero Cardoso

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Opinião - Lampião Analfabeto?!


O pesquisador e confrade Luiz Ruben compartilhou um recorte em que o jornalista e meu conterrâneo Ancelmo Gois em sua coluna do Jornal do Commércio de Recife, edição de 16 de Dezembro de 2012, publicou a seguinte "nota":

Um conceito demasiado. Faltou especificar, completar o adjetivo com o termo "Funcional". Virgulino mesmo limitado sabia ler, "escrever" e contar. E não são as imagens que nos fazem duvidar ou acreditar em tal habilidade. São testemunhos de ex companheiros e até mesmo dos seus oponentes, disponíveis na literatura. Vejamos o que localizei no livro de memórias do tenente João Gomes de Lira, conterrâneo e inimigo de Lampião que tem um capitulo sobre o aludido assunto:

Apesar de sertanejo inculto, vivendo em meio atrasado, José Ferreira procurou dar aos filhos a educação básica. O menino Virgulino Ferreira assim como os seus irmãos Antonio e Livino receberam os primeiros conhecimentos no ano de 1907.  
Residindo no Riacho São Domingos distrito do município de Vila Bella (Serra Talhada), enviou os três filhos mais velhos à casa do senhor Raimundo Gago, em Pitombeira, próxima a cidade de Vila Bella, afim de que os meninos frequentassem a escola pública do professor Auxêncio da Silva Viana... 1.

Os pesquisadores Antonio Amaury e Vera Ferreira em sua obra "De Virgolino a Lampião" ainda indicaram um outro professor chamado Justino de Nenéu 2. Um outro autor bastante consultado, o pernambucano Frederico Bezerra Maciel, também dedicou um capitulo sobre este período. 

Os métodos pedagógicos que fizeram época foram de inegáveis resultados positivos: O sertanejo que se interessou, aprendeu a ler soletrando e cantando as 26 lições da famosa "Carta do ABC" de Landelino Rocha, que continha apenas 16 páginas. E da tabuada cantada ritmicamente em comum pela classe, com palmatória.

O professor Jutino de Nenéu viera ensinar Virgulino e seus irmãos na casa da Fazenda Serra Vermelha, de Manuuel Ferreira de Lima bem perto da fazenda deles, a Ingazeira. 3

Reprodução - Disponivel no www.minharuatemmemoria.ning.com

Voltando as memórias de Gomes de Lira:

Naquela ocasião, tinha Antonio Ferreira, doze anos, Livino, 11 anos e Virgulino, 9 anos de idade. Em 1910, estudaram na "Escola" particular do Professor Domingos Soriano, na Serra Vermelha.

Entenda-se a escola aqui não como um espaço físico. As aulas eram dadas ao ar livre embaixo de Juazeiros e Quixabeiras.

...Os alunos traziam de casa os banquinhos em que se sentavam para assistir às aulas à sombra das árvores. “O esforçado mestre não se furtava aos pedidos de pais residentes em outras fazendas das ribeiras adjacentes, os quais receberiam a rara oportunidade de poder proporcionar instrução aos filhos.
Hoje a escola Municipal de ensino fundamental e médio Domingos Soriano é um dos primeiros prédios públicos avistados pelos visitantes ao chegarem à Vila de Nazaré do Pico, distrito de Floresta em Pernambuco.

A referencial Lampião – Cangaço e Nordeste de Aglae Lima de Oliveira nos acrescenta mais informações.

Que o tempo de assistência com Domingos Soriano foi de apenas "90 dias". (Periodo em acordo com todos os depoentes).Que a mensalidade deste curso era de "dez tostões", que o cabrinha nunca havia levado os temidos bôlos ao ser testado em conhecimento de Tabuada e de algarismos romanos. E ainda sugere que o primeiro livro do qual Virgulino tenha explorado por completo foi o "Primeiro livro de leitura" de Felisberto de Carvalho. 4

Reprodução - In: www.ler-e-escrever.blogspot.com.br

Pelo método de soletração de Landelino ou de Felisberto é fato que Virgulino aprendeu a ler, mais tarde aplicaria seu conhecimento ao se deleitar com os jornais e revistas que chegaram até ele. Especialmente os que traziam manchetes sobre seus feitos. E, ainda que sem devida concordancia, mas com uma caligrafia regular escreveu cartas. Hoje, documentos históricos preservados em museus e coleções particulares. Reproduções de alguns de seus escritos estão disponíveis em diversos livros e sites.

Como esta carta abaixo, endereçada a um fazendeiro de nome Cantidiano Valgueiro dos Santos Barros, dono da propriedade Tabuleiro Comprido no município de Floresta, PE. Na carta, escrita na peculiar maneira de Lampião se expressar, ele pede a Cantidiano dois contos de réis, de forma extorsiva, a fim de serem evitados “prejuízos”.


Segundo o pesquisador Artur Carvalho, que utilizou os conhecimentos profissionais de um especialista em paleografia , a “tradução” é a seguinte;

“Ilmo. Sr Cantidiano Valgueiro,

Eu (ou “le”) faço esta para “vc” mandar-me dois “conto dereis”, isto sem falta, não tem menos, para “vc” saber se assinar em telegrama contra mim como “vc” se assinou em um com “Gome” Jurubeba. Eu ví e ainda hoje tenho ele. Sem mais, resposte logo para “envitar” muito prejuízo. Sem mais assunto.
Cap. Virgulino ferreira Lampião. [sic]” 5.
O pesquisador e colaborador Ivanildo Silveira teceu comentário em uma discussão anterior sobre este mesmo assunto:

"O Rei Vesgo dominava, a grosso modo, o idioma pátrio, comunicando-se, de forma clara, precisa, apesar dos erros gramaticais que cometia. Inclusive, ás vezes, empregava pronomes de tratamentos de forma correta. A grafia de seus famosos bilhetes, era perfeitamente entendível".
E como vovó já dizia...  
"Estude meu fio, estude pra não ser que nem sua avó, que não sabe nem pegar numa caneta, que dirá assinar o nome, não faço um "O" com um copo".

Fontes: 

[1] Lira. João Gomes de, Lampião, Memórias de um Soldado de Volantes 2006 (vol. 2) Companhia Editora de Pernambuco – CEPE. Recife/PE, 2007. PÁG. 2

[2] Vera Ferreira /Antonio Amaury. De Virgolino a Lampião, 1ª edição, Idéia Visual, São Paulo, 1999. PÁG. 52

[3] Maciel, Frederico Bezerra. - Lampião, seu tempo e seu reinado, | I : As origens : Por que Virgulino se tornou Lampiao?  3ª Ediçao. Petropolis, RJ : Vozes, 1992. PÁG. 90
[4] Oliveira, Aglae Lima de. Lampião – Cangaço e Nordeste. 3ª edição, O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1970. PÁG 22.
[5]  Rostand Medeiros  - Uma carta de Lampião e a história do soldado volante que se tornou ambientalista. Disponivel em: http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/10/12/a-carta-de-lampiao-e-a-historia-do-soldado-volante-que-se-tornou-ambientalista/

Att Kiko Monteiro

http://lampiaoaceso.blogspot.com.br

Chama acesa - Publicado em 1998

POR: MOACIR ASSUNÇÃO

O fogo de uma metralhadora Hot Kiss estrategicamente postada ceifou, em uma madrugada enevoada, a vida de um dos maiores mitos do sertão brasileiro. Na gruta de Angicos, município de Poço Redondo (SE), um labirinto de pedras ao lado do rio São Francisco, morriam, em 28 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, sua companheira Maria Bonita e outros nove cangaceiros. Considerado "enfeitiçado" e imoral pelos sertanejos, Lampião, que já havia escapado de inúmeros combates e tocaias, morreu sem dar um tiro sequer. Sua fama de imortalidade ficou, junto com o corpo retorcido, no chão do riacho seco que cruza Angicos. As 11 cabeças foram levadas pelos algozes para exposição e estudos no Instituto Nina Rodrigues, de Salvador.

Sessenta anos depois de sua morte, que praticamente pôs termo ao cangaço, a figura de Lampião, morto pelo comandante de volante (grupos móveis de policiais que atacavam os cangaceiros na caatinga) João Bezerra, cresceu muito, até atingir a dimensão de mito. Se estivesse vivo, o bandoleiro, nascido em 4 de junho de 1898, estaria comemorando o centenário neste ano

Personalidade contraditória, Lampião não foi, embora tenha sido pintado dessa forma, inclusive pelos prestigiados jornais "The New York Times" e "Paris Soir", um bandido social. Apesar disso, pesquisadores como Antonio Amaury Corrêa de Araújo, autor de seis livros sobre o cangaço, afirmam que ele teve, algumas vezes, atitudes de Robin Hood, ao dividir o produto de seus saques com a população carente. Ao mesmo tempo em que agia assim, o cangaceiro celebrava acordos espúrios com os reacionários coronéis nordestinos.

Capitão do exército e interventor federal em Alagoas, quando Lampião ainda estava vivo, Eronildes de Carvalho, acusado de fornecer armas e munição modernas ao bandoleiro, foi um dos seus mais notórios defensores. Na Paraíba, Lampião contava com o providencial apoio do coronel José Pereira, personagem central da Revolução de 30, com quem posteriormente se indispôs. Em Alagoas, o cangaceiro também podia ficar tranqüilo. Era protegido por membros da família Malta, antepassados da ex-primeira-dama 


Rosane Collor de Mello, que davam excelente cobertura a Lampião. Em troca de tanta "generosidade", os cangaceiros eram usados na política local, protegendo coronéis e suas fazendas e, em alguns casos, eliminando adversários incômodos.

Origens do cangaço

Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, um dos grandes especialistas brasileiros no assunto, o fenômeno do cangaço é resultado da colonização violenta e do isolamento cultural do sertão, região semi-árida que corresponde a 49% do território nordestino. "Os homens que colonizaram o sertão, terra ignota até metade do século passado, foram os rudes soldados que derrotaram o poderoso exército holandês da época, negros vindos das minas do sul e bandeirantes paulistas que mal falavam o português. Ao chegar, defrontaram-se com os índios tapuias, que, ao contrário dos mansos tupis do litoral, eram bravos e sanguinários. O choque desses dois grupos só poderia gerar uma raça habituada ao cheiro de sangue", sustenta o pesquisador, que tem um punhal de prata, com detalhes em ouro, que pertenceu a Lampião.

Fé e sangue

Em alguns momentos, a violência da figura do cangaceiro e o poder de persuasão do líder religioso, outro personagem importantíssimo do sertão, se aproximam. Exemplo típico é a Guerra de Canudos, na qual multidões de sertanejos, entre eles temíveis bandidos vindos das lavras de diamante de Lençóis (BA), reuniram-se em torno do beato Antônio Conselheiro. Aproximações semelhantes ocorreram também com Lampião. Em Juazeiro do Norte (CE), em 1926, o líder messiânico padre Cícero, que já enfeixava considerável poder político, ofereceu, para espanto de autoridades e militares, o título de capitão dos Batalhões Patrióticos ao cangaceiro para que ele enfrentasse um inimigo muito mais temido pelos coronéis: a Coluna Prestes, que circulava pela região. O bandoleiro teve apenas algumas escaramuças com patrulhas do Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes.

Em 1927, após ser derrotado em Mossoró (RN), Lampião cruzou o rio São Francisco e internou-se na Bahia, justamente no Raso da Catarina, área onde atuara Antônio Conselheiro. Grandes guerreiros de Canudos, Pajeú e João Abade, sob cujo comando sertanejos derrotaram três expedições militares, usaram em seus combates táticas de guerrilha semelhantes às que viriam a ser usadas pelos cangaceiros de Lampião décadas depois.

Apesar de ser um personagem arcaico, que usava patuás e rezas bravas característicos da religiosidade medieval, Lampião, cuja inteligência e bravura eram reconhecidas até pelos inimigos, utilizou vários ardis para se manter tanto tempo no cangaço. As táticas iam desde o suborno de comandantes de volantes até a conquista da simpatia e apoio da população com boas ações isoladas, como fazem, nos dias de hoje, os traficantes dos morros cariocas. "Conversei com vários ex-chefes de volantes que me confirmaram ter recebido dinheiro de Lampião para fugir ao combate", revela o pesquisador Antonio Amaury. Espremida entre os cangaceiros e a polícia, quase sempre tão brutal quanto os bandidos, a população civil não sabia a quem recorrer.

Lampião se sentia tão seguro do seu poder que, em 1925, chegou a mandar um telegrama ao governador de Pernambuco propondo que esse dominasse o estado até Arcoverde (então Rio Branco), enquanto ele governaria o sertão. Embora o fato tenha sido apenas uma brincadeira do Rei do Cangaço, dá uma ideia da sua certeza de impunidade ao atacar vilas do interior.

Polêmica

As comemorações pelo centenário de Lampião e a proposta, aprovada por unanimidade pela Câmara de Triunfo (PE), de construção de uma estátua em homenagem ao cangaceiro dois metros mais alta que o Cristo Redentor serviram para reacender antigos rancores. Um dos mais tenazes inimigos do bandoleiro, ainda vivo e forte aos 95 anos, Davi Jurubeba passou oito anos perseguindo os cangaceiros na caatinga e se irrita à simples menção da idéia. "Lampião foi um bandido cruel e estuprador. Como podem querer homenagear alguém como ele?", pergunta Jurubeba, que perdeu 17 parentes nas mãos dos cangaceiros. O pernambucano, que garante jamais ter fugido dos bandidos, jura que, se fosse mais jovem, impediria a construção do monumento. Com certeza, obteria sucesso. Quem teria coragem de contrariar o homem que jamais fugiu de Lampião?

Filho de João Bezerra, o comandante da volante que matou o Rei do Cangaço, o administrador de empresas Paulo Brito, de 47 anos, acredita que há uma tentativa de transformar Lampião em um herói. "Reconheço sua valentia, mas ele foi um bandido, que jamais poderia servir de exemplo para ninguém", diz ele, que já hospedou em sua casa, em Recife, Vera Ferreira, neta do bandoleiro. Brito lembra que seu pai, apelidado de Cão Coxo pelos cangaceiros, admirava Lampião, que também o respeitava, apesar da inimizade de ambos.

Cangaceiros ainda vivos, como Ilda Ribeiro de Souza, a Sila, que mora em São Paulo, e Manuel Dantas Loiola, o Candieiro, morador de Buíque (PE), participaram das homenagens, que, na opinião deles, estão corretas. Ambos escaparam da batalha de Angicos. Quando fugia sob cerrado tiroteio, Sila viu a amiga Enedina ser morta com um tiro na cabeça pelos soldados. "Em meus dois anos no cangaço, vi Lampião matar traidores e inimigos em combate, quando as chances são iguais para os dois lados, mas nunca tive notícias de que ele assassinasse inocentes ou desrespeitasse famílias", afirma.

Hoje um pacato comerciante, Candieiro, de 83 anos, que há poucos anos se encontrou, no local do massacre, com o velho inimigo Panta de Godoy, matador de Maria Bonita, lembra que Lampião aparentava estar cansado das lutas no sertão. "Ele dizia que só brigava se estivesse num apuro muito grande e não tivesse outro jeito", revela. Vera Ferreira diz ver o avô famoso como um homem que não podia agir de outra forma diante das circunstâncias que o levaram ao cangaço. O pai, José Ferreira, foi morto pelo delegado Amarílio Vilar, inimigo de Lampião. "Ele não foi herói nem bandido. Foi um homem valente, que, junto com seus cangaceiros, enfrentou a injusta ordem social vigente. Se não fizesse isso, seria um omisso, como tantos da época", afirma. 

Casos do cangaceiro

- O matador de Lampião, João Bezerra, morto em 1970, tinha, curiosamente, uma trajetória muito semelhante à de sua vítima. Acusado de ter sido um dos fornecedores de armas aos cangaceiros, Bezerra, entre outras coincidências, nasceu no mesmo dia e ano de Lampião.

- Apesar de ter vivido tanto tempo no cangaço, em alguns casos exterminando famílias inteiras, como os Gilo e os Quirino, Lampião jamais conseguiu matar Zé Saturnino, seu primeiro grande inimigo, e Zé Lucena, responsável indireto pela morte de seu pai, e pela sua própria, como comandante de João Bezerra.

- Cangaceiros e policiais das volantes usavam uma mesma forma de matar: o sangramento, em que os enormes punhais eram enfiados na fossa clavicular esquerda - conhecida popularmente como saboneteira. Esse procedimento, segundo os pesquisadores, era copiado dos vaqueiros.

- Não há registro de que o bando de Lampião estuprasse mulheres. Três cangaceiros foram mortos pelos companheiros por mexer com moradoras de fazendas de coronéis amigos.

- Extremamente vaidoso, Lampião chegou a ler duas biografias suas, feitas quando ele ainda vivia, e se orgulhava de ser comparado a Robin Hood.

- Algumas testemunhas do massacre dos cangaceiros em Angicos, entre as quais o cangaceiro Zé Sereno, defendiam a teoria de que a bebida levada pelo coiteiro (protetor de cangaceiro) Pedro de Cândida estaria envenenada. Outros negam a versão.

- Depois da morte do cangaceiro, surgiram inúmeras histórias, jamais confirmadas, de que ele teria escapado do massacre. Seus grandes inimigos, os valentes moradores de Nazaré (atual Carqueja), em Pernambuco, entre eles Davi Jurubeba, choraram porque queriam tê-lo matado.

- Se tivesse respondido a todos os processos que foram abertos contra ele, Lampião seria condenado a mais de mil anos de cadeia, segundo pesquisas do juiz Assis Timóteo.

Cabras de Lampião

Cidade serrana vizinha a Serra Talhada, terra natal de Lampião, Triunfo tem algumas peculiaridades na história do cangaceiro: historicamente, os cidadãos mais poderosos do simpático município sempre o protegeram. Nos dias de hoje, a elite cultural e econômica de Triunfo continua defendendo o líder bandoleiro. Uma casa, situada exatamente na divisa entre Pernambuco e Paraíba, de propriedade do juiz Assis Timóteo, ilustra bem a situação: quando volantes da Paraíba cercavam o imóvel, bastava os cangaceiros mudarem de cômodo, que os soldados ficavam sem ação, com medo de invadir o estado vizinho. Os policiais pernambucanos enfrentavam a mesma dificuldade.

Há casos, citados pelo pesquisador Antonio Amaury, em que os grupos ficavam frente a frente sem se hostilizar. O interesse por Lampião na cidade superou até divergências político-partidárias. O juiz aposentado e vereador pelo PSB Ruy Patu compõe, junto com a primeira-dama Lúcia Mello, do PFL, o também juiz Assis Timóteo e a geógrafa Diana Rodrigues, o grupo dos "lampiônicos", que se reúne uma vez por semana, usando roupas típicas, para estudar o cangaço.

Na terra natal do cangaceiro, dominada pelo deputado federal Inocêncio de Oliveira, pesquisa recentemente conduzida pelo Centro Cultural Cabras de Lampião concluiu que 79% da população aprova as homenagens ao filho famoso. Na Fazenda São Miguel, vizinha do antigo sítio Passagem das Pedras, onde nasceu Lampião, o que resta de uma casa, toda esburacada por tiros, atesta a violência dos combates do cangaço.

Preservada por descendentes de Zé Saturnino, primeiro grande inimigo do bandoleiro, a casa (foto), onde brotam, despreocupadamente, facheiros e mandacarus, plantas típicas do sertão, foi palco de uma grande luta entre o bando de Lampião e Saturnino, parentes e empregados. Como não conseguiu liquidar o rival, o bandoleiro matou parte do gado e destruiu cercas e casas, causando-lhe grande prejuízo. Segundo Anildomá Willamés de Souza, presidente da Fundação Cabras de Lampião, uma ONG voltada à divulgação do cangaço, a prefeitura da cidade pretende comprar a área para transformá-la numa espécie de sítio histórico.

O local onde nasceu e viveu o cangaceiro famoso, nos dias de hoje, é uma das mais violentas do país. Com população aproximada de 28 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o semi-árido nordestino detinha, há dois anos, quando foi feito o censo econômico, renda per capita de R$ 2,5 mil, contra R$ 4,7 mil no Brasil como um todo. O índice de analfabetismo na área chega a ser o dobro do nacional. Conhecida como polígono da maconha, a região de Serra Talhada, especificamente, é muito perigosa, e poucos motoristas se aventuram a viajar à noite nas mal policiadas estradas.

Até o banditismo, que nos tempos do cangaceiro ainda mantinha uma certa ética, perdeu totalmente o caráter. Com toda a polêmica sobre sua trajetória, talvez o cangaceiro seja aquilo que afirmava, com seus versos sertanejos, o cantador Ezechias da Rocha, o Zabelê: "Era brabo, era marvado,/ Virgulino, o Lampião,/ mas era, pra que negar,/ nas fibras do coração,/ o mais perfeito retrato/ das caatingas do sertão".

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas_sesc/pb/artigo.cfm?Edicao_Id=29&Artigo_ID=84&IDCategoria=358&reftype=1

domingo, 13 de janeiro de 2013

Matadores de Lampião e seu bando foram promovidos

Tenente João Bezerra à esquerda, Aspirante Ferreira de Melo ao centro e Sargento Aniceto Rodrigues à direita

Os três militares acima, após a invasão a Lampião e seu bando de cangaceiros, na Grota de  Angicos, no Estado de Sergipe, na madrugada de 28 de julho de 1938, foram promovidos ao próximo posto e graduação, como forma de reconhecimento pelo grandioso feito. 

João Bezerra da Silva, na foto nº. 1, passou de 1º. Tenente para Capitão. Francisco Ferreira de Melo: De Aspirante a Oficial à 1º Tenente e Aniceto Rodrigues dos Santos: De 3º. Sargento a Aspirante a Oficial, conforme Boletim Regimental nº 179, de 12/08/1938.

A chacina só aconteceu devido informações dada ao sargento Aniceto Rodrigues por coiteiros,  informando a localização de Lampião e sua malta na fazenda Angico. Imediatamente o sargento Aniceto Rodrigues telegrafa ao Tenente João Bezerra, transmitindo a mensagem de forma ‘cifrada’, a fim de não levantar qualquer suspeita. Naquele fim de manhã, o oficial estaria com sua tropa estacionada em Pedra (hoje Delmiro Gouveia, alto sertão de Alagoas), descansando de uma ‘batida’ policial realizada em possíveis esconderijos de cangaceiros na região de Mata Grande.

Com estas informações as volante se dirigiram em direção ao coito do rei do cangaço, que não teve tempo nem para se defender. Lampião e os 10 cangaceiros, inclusive a sua rainha Maria Bonita, foram alvejados sem usarem as suas armas.

Esquema da emboscada em Angico

A volante da polícia militar de Alagoas fez o cerco e, durante às quatro horas daquela madrugada de quinta-feira, começa a batalha que põe fim a vida de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, o rei do cangaço, sua companheira Maria Bonita e mais nove cangaceiros, deixando ainda o militar 

Adrião Pedro de Souza é o da esquerda - Foto cedida pelo professor, escritor  e pesquisador do cangaço: Antonio Vilela de Sousa

Adrião Pedro de Souza morto, e o Tenente João Bezerra ferido com um tiro que transfixou a mão e um outro na coxa, que ficou alojada no seu quadril.

Após o combate, que durou cerca de 20 minutos, como de costume na época, para provarem o grandioso feito, os cangaceiros tiveram suas 

Exposição das cabeças na escadaria da Prefeitura de Piranhas (Palácio Dom Pedro II)

cabeças decepadas, salgadas e colocadas em latas de querosene, contendo aguardente e cal para conservá-las, para que pudessem ser expostas em várias cidades de Alagoas; sendo levadas em seguida para Salvador/BA e de lá para o Rio de Janeiro, de onde retornou à capital baiana para a realização de estudos científicos, e onde permaneceram no Museu Antropológico do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues por mais de trinta anos, até que seus sepultamentos fossem autorizados pelo governo.

Os corpos mutilados e ensanguentados foram deixados a céu aberto, atraindo urubus, para evitar a disseminação de doenças. Dias depois foi colocada creolina sobre os corpos.

Fonte de pesquisa:
http://www.terceirobpm.com.br/p/ten-joao-bezerra.html

sábado, 12 de janeiro de 2013

[Cangaço na Bahia] Sargento Evaristo Carlos da Costa - Alguns passos de um processo

Por: Rubens Antonio

25 de janeiro de 1930, no “Diario Oficial do Estado da Bahia”:
SECRETARIA DA POLICIA
FORÇA PUBLICA
Conselho de Justiça


Havera amanhã ás 14 horas, reunião deste Conselho, para interrogatorio do 2° Sargento Evaristo Carlos da Costa e soldado João Pereira dos Santos, devendo os mesmos serem apresentados a hora acima mencionada.
(Assignado) – Cel. Amerido de Almeida Pedra. – Commandante.Confere, – Francisco Borges Vergne.Capitão Assistente da Força.

11 de fevereiro de 1930, no “Diario Oficial do Estado da Bahia”:
SECRETARIA DA POLICIA
FORÇA PUBLICA
Conselho de Justiça
Amanhã, ás 15 horas, haverá reunião do Conselho de Justiça Militar, para o summario do 2° sargento Evaristo Carlos da Costa e do soldado Augusto Alves Canna Brasil, que devems er apresentados na respectiva auditoria, pelas unidades a que pertencem.
(Assignado) – Cel. Amerido de Almeida Pedra – Commandante
Confere – Francisco Borges Vergne
Capitão Assistente da Força

20 de fevereiro de 1930, no “Diario Oficial do Estado da Bahia”:
SECRETARIA DA POLICIA
FORÇA PUBLICA
Conselho de Justiça
Liberd ão de Sargento
O Conselho de Justiça Militar, em sessão de hoje, resolveu, por unanimidade de votos, mandar pôr em liberdade o 2° Sargento Evaristo Carlos da Costa, afim de que possa solto perante o mesmo Conselho, responder o processo a que está submetido.
(Assignado) – Cel. Amerido de Almeida Pedra – Commandante
Confere – Francisco Borges Vergne
Capitão Assistente da Força

10 de abril de 1930, no “Diario Oficial do Estado da Bahia”:
SECRETARIA DA POLICIA
FORÇA PUBLICA
Conselho de Justiça
Amanhã, ás 15 horas, haverá reunião do Conselho de Justiça Militar para o summario do sargento Oscar Marques de Oliveira, no qual deverão ser ouvidas as testemunhas Oscar Bernardes dos Santos, Antonio Manoel de Souza e Deoclecio Baptista dos Santos, e bem assim, para apresentação dos quesitos de defesa, afim de ser expedida a precatoria, para inquirição das testemunhas do processo a que responde o sargento Evaristo Carlos da Costa.
As unidades a que pertencem os referidos praças, providenciem para que as mesmas sejam apresentadas amanhã, na respectiva Auditoria, ás horas acima indicadas.

19 de junho de 1930, no “Diario Oficial do Estado da Bahia”:
SECRETARIA DA POLICIA
FORÇA PUBLICA
Conselho de Justiça
Depois de amanhã, ás 15 horas, haverá reunião do Conselho de Justiça Militar, para interrogatório do 2° sargento Evaristo Carlos da Costa, summario do soldado Augusto Alves Canne Brasil, inquirição das testemunhas 1° sargento Abdon Placencio de Souza e soldado Petronillo Barbosa, summario dos soldados João Semeão, José Cardozo, José Mathias dos Santos e Pedro Pereira e inquirição das testemunhas soldados José Maximo da Silva, Nestor Pereira Ramos, Linduarte Ramos Pacheco, Manoel Alves da Silva e cabo de esquadra Raul Militão da Silva, que devem ser apresentados, na respectiva Auditoria, pelas unidades a que pertencem.
(Assignado) Coronel Americo de Almeida Pedra, Commandante Confere – Francisco Borges Vergne, Capitão Assistente da Força




Enviado pelo professor, pesquisador do cangaço e  

 administrador do blog: http://cangaconabahia.blogspot.com:
Rubens Antonio

Sinhô Pereira em passagem por Caracol

Por: Marcos Oliveira Damasceno

De acordo com a maioria dos autores sobre o tema, a expressão “cangaço” deriva-se de “canga”, peça de madeira colocada sobre o pescoço dos bois de carga. Os cangaceiros usavam verdadeiras cangas no pescoço para o transporte de utensílios pessoais.

O cangaço ocorreu em vários momentos da história nordestina. Primeiro com o valente José Gomes, de alcunha “Cabeleira”. Este aterrorizava as terras do Estado do Pernambuco, por volta de 1775. Anos depois, o cangaço foi protagonizado por Jesuíno Alves de Melo Calado, apelidado de “Jesuíno Brilhante”. Nasceu em 1844 e faleceu em 1879. Era natural do Estado do Rio Grande do Norte. Este saqueava os comboios do governo, roubava alimentos e distribuía entre a população pobre das redondezas. Depois foi a vez de Antônio Silvino. Nasceu em 1875 e faleceu em 1944. Tinha o apelido de “Rifle de Ouro”. Era pernambucano.



Iniciou-se o cangaço como volante. Em 1914. O mentor e líder era Sebastião Pereira da Silva, conhecido como Sinhô Pereira. Foi o comandante de Lampião. Nasceu em Serra Talhada-PE, a 20 de janeiro de 1896. Apelidado “Demônio do Sertão” pelos populares, por ser um rei nas estratégias de guerrilhas pela caatinga. Por várias vezes foi cercado pela polícia, e conseguia escapar. Era um homem do bem, embora justiceiro popular, pela via da violência. A época era assim, a justiça era feita pelas próprias mãos.

Era sobrinho neto do coronel Andrelino Pereira da Silva, o Barão do Pajeú, primeiro intendente (prefeito) da Vila Bela (Estado do Pernambuco). Também sobrinho do Padre Pereira e filho de Manuel Pereira da Silva. A tradicional família “Pereira”. A entrada do jovem Sebastião para o cangaço teve início em rixas e mortes entre “Os Pereiras” e “Os Carvalhos”. No livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, de autoria de Nertan Macedo, publicado em 1980, a descrição:

- Manoel Pereira da Silva era irmão do Barão do Pajeú, e pai de outro Manoel – Manoel Pereira da Silva Jacobina (Padre Pereira). Manoel (pai) sempre sonhou em ver o filho padre. Mandou-o, como era de uso no tempo, estudar no Seminário de Olinda. Manoel permaneceu algum tempo de batina, derramado sobre o seu latim, mas terminou voltando para o Sertão, sem ser ordenado. Restou a Manoel o apelido de Padre Pereira. Padre Pereira era do bem, mas por assumir a liderança política “dos Pereiras” passou a ser o mais odiado “pelos Carvalhos” (família rival). Aos 72 anos de idade, foi vítima de uma emboscada e atingido por um tiro do jagunço Luís de França, a mando da família rival. Seu filho Luís Pereira da Silva Jacobina, apelidado Luís Padre, tinha 17 anos de idade na ocasião da morte do seu pai. A esposa do Padre Pereira, Dona Chiquinha, exigiu (por questão de honra) a vingança da morte do marido. Luís Padre muito novo, não estava preparado para a missão. Pediu ajuda ao primo Né Pereira (ou Né Dadu), irmão de Sinhô Pereira. Foram escolhidos Joaquim Nogueira de Carvalho e Eustáquio Bernardino de Carvalho para serem assassinados. Assim ocorreu.

Dias depois, Né Pereira foi assassinado “pelos Carvalhos”. Aí entra na história Sinhô Pereira, que se juntou ao primo Luís Padre, no desejo de vingar a morte do seu irmão e do seu tio. Logo os dois jovens (Luís Padre com 24 anos e Sinhô Pereira com 20 anos), mataram Luís de França, assassino de Padre Pereira. E com espírito de guerra, formaram um grupo de jagunços que passou a ser volante, andando com cangas para levar utensílios. Daí o apelido cangaceiros. Guerrearam por muitos anos.

Em 1918, Sinhô Pereira e Luís Padre resolveram recomeçar a vida e deixaram o cangaço. Alguns historiadores afirmam que eles haviam atendido a um pedido de Padre Cícero, enviado numa carta endereçada ao Sinhô Pereira, em que o sacerdote pedia que os primos deixassem a região, que vivia em clima de guerra e de medo. O sacerdote cearense ao receber a resposta favorável, enviou outra carta para Padre Castro, no município de Pedro II (Estado do Piauí), pedindo ao vigário que recebesse os dois jovens e encaminhasse-os para o Maranhão, para as terras do Barão de Santa Filomena (Estado do Piauí) e do Marquês de Paranaguá (Estado do Piauí). Mas os primos escolheram o Estado de Goiás. Do município de José do Belmonte-PE vieram em direção ao Estado do Piauí. Em Simões-PI, a caminho de Pedro II-PI, foram perseguidos e mudaram de rumo. Por questões de estratégia militar se separaram. Montados a cavalos, acompanhados de seis cangaceiros.

Luís Padre ficou com dois cangaceiros e rumou Uruçuí-PI (hoje município). Já Sinhô Pereira ficou com quatro cangaceiros (“Cacheado”, “Coqueiro”, “Raimundo Morais” e “Gato”), rumou Corrente-PI. Passou por São Raimundo Nonato-PI e chegou a Caracol - PI. O próximo destino seria Parnaguá-PI. Mas foi cercado pela polícia do Piauí, em Caracol – PI. Isso em dezembro de 1918. A força policial era comandada pelo tenente Zeca Rubens. Um contingente de 20 soldados, e ainda mais de 40 populares. Sinhô Pereira, tido por alguns como “arquiduque do sertão”, e por outros o rei das guerrilhas na caatinga, mesmo com um grupo de cinco pessoas conseguiu escapar. Suas táticas de guerrilha funcionaram.

Retornou para sua terra (no Pernambuco). Desistiu da viagem para o Estado de Goiás. Alegava que eles teriam um longo trecho pelo Estado do Piauí até chegar o destino final.

Com pouca munição, com alguns dias de fome e de sede, era melhor retornar. Próximo a Remanso - BA encontraram abrigo, água e comida. Seguiu o futuro comandante de Lampião para sua terra. Chegou por lá em março de 1920. Em passagem por Serra Talhada-PE esteve com Lampião e seus irmãos Antônio e Livino. Mais tarde, outro irmão entrou para o cangaço: Ezequiel. Muitas ligações entre Lampião e Sinhô Pereira: eram vizinhos; a mãe de Lampião era afilhada do pai de Sinhô Pereira; o pai de Lampião era afilhado do Padre Pereira, tio de Sinhô Pereira; as famílias eram amigas; e com comuns inimigos: “Os Saturninos” e José Lucena.

Em Gilbués-PI (hoje município), vindo de Uruçuí-PI, Luís Padre soube do ataque ao primo. Mas seguiu pelo cerrado piauiense rumo ao Estado de Goiás. Passou em Santa Filomena-PI (hoje município). Já havia adotado um nome fajuto: José Piauí. Anos depois, já em Goiás, Luís Padre comunicou ao Sinhô Pereira o lugar onde estava. Seguro e sossegado. O cangaço na região Nordeste estava cada vez mais difícil. Sinhô Pereira resolveu ir onde estava seu primo, e comunicou ao grupo. Lampião disse que ficaria. Muitos cangaceiros ficaram com o futuro rei do cangaço, que assumiu o comando do grupo. Ao despedir-se de Lampião, disse-lhe: “Vou deixar umas brasas acesas por aí. Trate de apagá-las”.

Sinhô Pereira deixou o cangaço (definitivamente) a 08 de agosto de 1922, e foi para Minas Gerais. Anos depois se mudou para Goiás. Deu suas justificativas ao Nertan Macedo, autor do livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, que esteve na sua casa em Minas Gerais, em 1975:

- Depois que houve outro combate na fazenda Tabuleiro, de Neco Alves, na Paraíba, fronteira com Pernambuco. De longe avistamos uns homens. Pensamos que fossem nossos companheiros. Lampião ia à frente, com Livino e “Meia Noite” (cangaceiro). Os soldados atiraram. Lampião perdeu o chapéu, ao pular para se livrar das balas. Ao voltar para apanhá-lo tomou dois tiros, um na virilha e outro acima do peito. Na hora ele saiu andando, mas não aguentou e caiu. Livino e “Meia Noite” (cangaceiro) o arrastaram até um lugar seguro. Mandei chamar o Dr. Mota, amigo da minha família, para examinar Lampião. Disse: “Nunca vi tanta sorte. Por um triz a bala pegava a bexiga e a espinha.” Fizemos um rancho, onde ficamos até Lampião poder andar. Depois do combate em que Lampião saiu ferido eu resolvi me retirar daquela vida. Saí mais por causa do reumatismo, que me atacava tanto. Tinha dia que eu não conseguia nem caminhar. Isso por causa das longas noites passadas ao relento, na friagem do sertão.

Décadas depois, Sinhô Pereira foi descoberto em Lagoa Grande, povoado de Presidente Olegário-MG, sendo dono de uma farmácia. Com nome fajuto de Chico Maranhão. O coronel Farnesi Dias Maciel foi quem deu abrigo e proteção ao ex-cangaceiro, naqueles confins de Minas Gerais. Era irmão do falecido Presidente Olegário (ex-governador mineiro), homenageado com o nome do município.

Maura Eustáquia de Oliveira escreve no Jornal “O Globo” sobre Sinhô Pereira, nos anos 70:

- De Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, até Lagoa Grande, no sertão de Minas Gerais, há mais de mil quilômetros de distância. Mas uma distância muito maior separa o cangaceiro Sebastião Pereira, que Serra Talhada temeu em torno de 1916, do farmacêutico Chico Maranhão, que Lagoa Grande respeita e venera desde 1923.

Sebastião Pereira, ou Sinhô Pereira como era conhecido no cangaço, é sobrinho do Barão do Pajeú, um dos mais influentes políticos pernambucanos do início do século. Aderiu ao cangaço para vingar a morte de um irmão na rixa entre as famílias do sertão e “para levar justiça a um povo que só conhecia a lei da força”. Um dia recebeu entre seus homens o jovem Virgulino Ferreira – que mais tarde seria o temido Lampião – a quem ensinou todos os segredos da guerrilha da caatinga e depois fez ele seu lugar-tenente. Quando resolveu abandonar a vida de cangaceiro, convidou seu compadre para sair junto. Mas Lampião preferiu a caatinga.
Ao escritor Nertan Macedo o ex-cangaceiro disse em 1975, ao recebê-lo em sua casa, sobre a vida no cangaço:

- Era um tempo ruim. Não tinha sossego. Era só desgraça, seca e miséria. Raro o dia, na caatinga, que podíamos nos dar ao luxo de uma xícara de café. Tinha vez de nós rompermos até 12 léguas (72 km) num dia. Um estirão danado. Nessas ocasiões, a gente mal parava pra comer e descansar. Travessias fortes, perambulando de um lado para outro. Enfrentava inimigos fortes e poderosos, ainda sofria dias e dias de fome e sede. Eis a vida no cangaço. Quase todos do grupo tinham menos de 25 anos (de idade).

Em 1920, mês de junho, Virgulino Ferreira, vulgo Lampião, entra para o cangaço a convite de Sinhô Pereira. Foi seu comandante. Segundo ele próprio, sua entrada foi motivada pelo desejo de vingar a morte do seu pai. O líder Sinhô Pereira admirava-o pela sua valentia e por suas técnicas de guerras (era bom nisso). E Lampião, sempre que necessário, demonstrava idolatria ao comandante e até depois de sua saída fez tributo ao seu mestre, dizendo da sua admiração por ele. O mestre-comandante de Lampião, conta sua vida no livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, de autoria de Nertan Macedo:

- Lampião era de uma família humilde. Ele nasceu a umas três léguas (18 km) de São Francisco, onde eu morava e seu pai fazia a feira e batizava os filhos. Conheci Lampião desde menino. Ele e seus irmãos eram independentes e muito trabalhadores. A questão dele foi de terra. Saturnino, pai de Zé Saturnino, queria tomar um pedaço de terra da fazenda Serra Vermelha, de Zé Ferreira, pai de Lampião. Houve uns tiros entre eles. Morreu um dos jagunços de Zé Saturnino, e Zé Ferreira saiu ferido. Aí “Os Ferreiras” se retiraram para Matinha de Água Branca, em Alagoas, onde ficaram sob a proteção do coronel Ulisses Lunas, em 1917. Eles estavam até destituídos de questão, quietos, trabalhando, quando em 1920 foram procurados por Antônio Matilde, casado com uma parenta deles, para juntos perseguirem Zé Saturnino. Antônio Matilde tinha um grupo de homens. Houve algumas lutas, morreu um sobrinho de Antônio Matilde e Casimiro Honório, tio de Zé Saturnino. Depois disso, Antônio Matilde desapareceu, deixando “Os Ferreiras” encrencados também com a polícia. Essa encrenca foi que provocou a morte de Zé Ferreira, pai de Lampião.

- Depois da morte de Casimiro Honório, o tenente José Lucena saiu em perseguição a Antônio Matilde. Soube que Zé Ferreira estava na casa de um “Fragoso”, foi lá e matou o velho. Antes havia matado Luís Fragoso, filho do dono da casa. Dona Maria José, mãe de Lampião, morreu 19 dias depois de desgosto. Depois da morte de Zé Ferreira, Lampião e irmãos juntaram-se com os irmãos Porcino, Antônio, Manuel e Pedro. Mas foi por poucos dias. Então, saíram atrás de José Lucena. Tiveram um encontro com um policial num lugar por nome Espírito Santo, fronteira de Pernambuco com Alagoas. Morreu gente de parte a parte. O cabo (policial) foi confundido com José Lucena e recebeu 12 tiros. A força (policial) era muito grande. Eles não eram nem a metade. Aí eles fugiram, achando que tinham matado José Lucena.

Pegando o gancho, farei aqui uma leitura do cangaço; numa visão social. Lampião fez história no cangaço tornando-se numa lenda. Seu nome está memorizado na memória coletiva e no panteão da imortalidade.

Segundo fontes bibliográficas, os três brasileiros mais biografados – todos com mais de 3000 livros escritos sobre eles - são: Padre Cícero, Lampião e Luiz Gonzaga. Todos nordestinos. Lampião, no caso aqui, foi a referência de mobilização para todos esses grandes líderes existentes da arena da justiça social. Certa vez, o então deputado federal Francisco Julião, representante das Ligas Camponesas e militante político pela reforma agrária, declarou: “Lampião foi o primeiro homem do Nordeste a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade”. Assim como muitos outros personagens da História, foi injustiçado pela visão elitista. Os fatos históricos perderam lugar para as lendas.
O fato, é que Lampião era um jovem normal e tranquilo que trabalhava para Delmiro Gouveia, grande empresário da época. Sua revolta deu início a partir do dia em que seu pai (José Ferreira) foi assassinado (em 1920) pelo sargento de polícia José Lucena, por causa de um litígio com o vizinho José Saturnino. Naquela época a honra andava lado a lado com a vingança. Recorrer a quem? À justiça dos homens, muitas vezes manipulada pelo próprio coronelismo político? Não existia democracia. Nem diplomacia. Agir pela via da violência não era um erro de causa, era o meio mais sensato para o fim da dignidade moral.

Lampião foi um idealista, um revolucionário primitivo, insurgente contra a opressão do latifúndio e a injustiça do sertão nordestino. Um “Robin Hood”. Um justiceiro popular. Ele sempre foi um homem justo, que comungava de valores de respeito e de relacionamento social. Seu problema não era com o povo, nunca o perseguiu. E sim, com os coronéis rurais (posseiros das terras), líderes políticos e comerciantes que exploravam o povo com a carestia. Protestou contra todas as mazelas sociais existentes na região Nordeste. Ensinou o povo a se indignar, a mobilizar-se; ensinou-nos a importância da luta.

Sua imagem revolucionária começou a se desenhar em 1935, ainda vivo, quando a Aliança Nacional Libertadora – ANL citou-o como um de seus inspiradores políticos. Já nos anos 20 era a referência para essa linha de atuação pela justiça social. E provavelmente nos anos 10 o cangaço já representava o principal exemplo de mobilização social. Existiram erros de causa por parte do cangaço. Isso é inegável. Mas diante da grande obra da causa cívica e do mérito da história desses brasileiros cangaceiros, são insignificantes.

Sobre a referência social de Lampião, o historiador norte-americano Billy Jayner Chandler escreveu:
- Os ingleses vibram com os feitos de Robin Hood. Os norte-americanos contam as aventuras de Jesse James. Os mexicanos, as façanhas de Pancho Villa. E os brasileiros, as de Lampião.

O cangaço foi importante e notório na luta pela liberdade e dignidade do povo sertanejo do Brasil. Deu significativa contribuição para um país mais desenvolvido e menos desigual socialmente. Vamos nos situar na região.
Imagine a população sem renda que lhe oferecesse as mínimas condições de sobrevivência... Um povo que fazia parte apenas da estatística nacional brasileira como integrante da população. A exclusão social era total. Esses atores sociais foram ardentes defensores da causa da justiça, e os principais intérpretes das aspirações das massas. Foram líderes sociais. Heróis do povo brasileiro.

Marcos Oliveira Damasceno, 30 anos, escritor. Natural de Dom Inocêncio – PI. Doutorado em Filosofia Política. Diretor-Presidente da Produtora Sertão.

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Sebo Virtual


Raridades e novidades" do professor Pereira

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MEXENDO O PIRÃO


Autor: Adriano Marcena

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importância sociocultural da farinha de mandioca no Brasil holandês (1637-1646)
Tema: História da alimentação
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