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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O DESCONHECIDO CANGACEIRO ANTONIO BRAZ

Por Rostand Medeiros

O Terror do Seridó

No Rio Grande do Norte, quando o assunto é cangaço, a primeira noção que a maioria das pessoas possuem remete ao ataque de Lampião a Mossoró, a resistência do povo mossoroense ao 13 de junho de 1927, o assassinato de Jararaca e a sua metamorfose em santo popular. Na sequência, de forma esporádica, alguns recordam as andanças de Antônio Silvino no inicio do século XX, a ideia que este cangaceiro era um homem de honra e a famosa história que o mesmo mandou um dos seus “cabras” comer um litro de sal, após este ter reclamado da comida que uma mulher preparou para o grupo e esqueceu de pôr este condimento.

Por fim vem à figura do único grande chefe de um bando de cangaceiros potiguar, Jesuíno Brilhante, homem injustiçado em meio a dilacerantes lutas políticas, enviesadas de épicas lutas com acentuados e tradicionais códigos de honra. ( 1 )

De forma geral, os pesquisadores do tema no Rio Grande do Norte produziram bons trabalhos, que muito ajudaram a esclarecer os aspectos que envolvem os mistérios deste gênero de banditismo social. Contudo a história é mais ampla, diversificada e pautada de fatos desconhecidos.

As testemunhas destes episódios a muito descansam no solo sertanejo, restando a tradicional tarefa de buscar a história em carcomidas e amareladas páginas de antigos jornais, em documentos oficiais esquecidos em bolorentos e desaparelhados arquivos e na tradição contada de pai para filhos nos alpendres das antigas fazendas do sertão. A busca é difícil, mas a colheita é normalmente compensadora.

Debruçado sobre a coleção do jornal republicano “O Povo”, editado, encontramos uma série de reportagens que apontam a existência do desconhecido cangaceiro Antônio Braz e do seu diminuto bando, que além de uma extrema valentia, é apontado como sanguinário, arrogante e desaforado com as autoridades.

As notícias sobre a atuação de Antônio Braz estão contidas em várias edições deste jornal, entre os dias 23 de novembro de 1889 a 11 de agosto de 1891. ( 2 )

Tudo indica que Antonio Braz era da Paraíba, onde lhe eram creditados oito mortes em sua vida de tropelias, tendo sido condenado a uma pena de 48 anos de detenção, que cumpria na cadeia pública de Pombal. Entre os anos de 1894 e 1895, este cangaceiro fugiu desta detenção, estando há quase cinco anos vagando pelos sertões da região fronteiriça da Paraíba e Rio Grande do Norte, mais precisamente na área ao longo da bacia do Rio Piranhas. ( 3 ) 

Amedrontava os fazendeiros de Pombal, Catolé do Rocha e Brejo do Cruz, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, Serra Negra do Norte e Caicó, mais especificamente a então vila de Jardim de Piranhas, eram seus pontos de atuação. Antônio Braz era um cangaceiro que as informações da época o classificam como “temível”, pois seu bando fora protagonista de inúmeros assassinatos, roubos, espancamentos e estupros. Andava este bando sempre com um pequeno número de membros, com no máximo quatro a cinco integrantes, entre eles o seu irmão Francisco.
Catolé do Rocha, em foto do escritor Mário de Andrade, em janeiro de 1929
Fonte Rostand Medeiros Tok de História

Até mesmo a sua perseguição gerava a velha ação de abuso de poder por parte da polícia. Em 29 de junho de 1889, as páginas de “O Povo”, divulgaram que um grupo de policiais paraibanos vindos de Catolé do Rocha, invadiu por duas ocasiões o território potiguar em caça de Antonio Braz e seu grupo. Na primeira ocasião os policiais haviam praticado uma série de violências, arbitrariedades e até roubos. Na segunda ocasião, na pequena área urbana de Jardim de Piranhas, que nesta época abrigava uma população de 200 almas, ouve um cerrado tiroteio entre os policiais do estado vizinho e os cangaceiros, sendo os policiais obrigados a recuar devido à reação do bando.

Não há maiores detalhes sobre este tiroteio, mas por este período, os aparatos policiais da Paraíba e do Rio Grande do Norte eram formados por pequenos contingentes de homens mal armados, violentos, corruptos e extremamente despreparados, que pouco diferiam dos cangaceiros e bandidos que deviam perseguir. (4) 

Tudo indica que Braz encontrou na pessoa do coronel Florêncio da Fonseca Cavalcante, chefe da vila de Jardim de Piranhas, o apoio e proteção que necessitava para suas ações na região. O coronel Florêncio exercia nesta época o cargo de primeiro suplente de juiz municipal de Caicó. Esta ligação entre homens de poder e cangaceiros sempre resultava em sangue e em jardim de Piranhas não foi diferente. Ainda no ano de 1889, Antônio Braz matou na comunidade de Timbaubinha, três quilômetros ao norte da vila, o agricultor Manoel de Souza Franco, que mantinha com o coronel Florêncio, uma questão de posse de terras.

O caso se deu da seguinte forma; o pai de Manoel, Roberto Franco, morrera em 1878 e deixara como herança um pequeno sítio na Timbaubinha. Haviam dívidas contraídas pelo falecido, que foram cobradas pelos credores, entre estes estava o coronel Florêncio, que mesmo sendo suplente de juiz, recorreu a “força d’armas”, utilizando Antônio Braz e seu grupo para resolver a questão.

Pouco tempo depois do tiroteio com a polícia da Paraíba, Braz tentou aniquilar Manoel cercando sua casa e ateando fogo à mesma. Houve reação do agricultor que, ajudado por outros parentes, afugentou os cangaceiros. Como Manuel morava em sua propriedade cercado de familiares, sentia certa segurança, mesmo assim passou a ter muito cuidado em suas saídas. Já Braz e seu grupo, sempre espreitavam perto da propriedade, buscando uma ocasião para desfechar a ação fatal.

No dia 13 de novembro, quando Manoel Franco voltava do roçado, em pleno meio-dia, entrando pela parte traseira da sua casa, foi alvejado com dois tiros e morreu sem reagir. Não satisfeito Braz ainda lhe fez quatro perfurações de punhal. Aparentemente o cangaceiro aproveitou um momento de descuido do agricultor e de sua família para fazer o “serviço”. Após matar Manoel, o assassino ordenou a todos que o corpo deveria ficar estendido no pátio defronte a casa, sem ser enterrado, para “dar o exemplo”.

Os jornais comentavam que a questão entre o coronel e Manoel Franco chegara ao fim e que agora “ninguém se oporá mais ao coronel”, apontando como o mentor do crime. Diante da repercussão do caso, Antônio Braz e seu grupo seguiram para a região de Catolé do Rocha, onde de passagem pelo lugar “Barra”, deram uma formidável surra em uma mulher.

Passou a existir na região um clima de medo muito forte, onde o jornal denunciava a inércia das autoridades, com uma forte critica para o número pequeno de policiais na região. A repercussão do assassinato de Manoel Franco e o medo do povo, fizeram com que as autoridades intensificassem as buscas ao bando. O então comandante da polícia, o capitão Olegário Gonçalves de Medeiros Valle, ordena mais empenho dos seus comandados.

Não demorou muito e os policiais tiveram um encontro com o cangaceiro; ao passarem próximos de uma casa as margens do Rio Piranhas, tiveram a surpresa de estar diante de Antônio Braz. Este se encontrava equipado com suas armas, já montado em seu cavalo, não se intimidou com a tropa e fez fogo contra o grupo, recebendo uma chuva de balas em resposta. O cangaceiro fez o segundo disparo e fugiu a galope.

Na fuga, Braz encontrou um homem na estrada e lhe ordenou que fosse com o cavalo para Jardim de Piranhas, então o cangaceiro desapareceu na caatinga. Sem maiores opções e temendo o pior, este homem fez o que fora ordenado, nisto a força policial seguia no encalço do bandido, quando viram o homem montado em um cavalo idêntico ao de Braz e fizeram fogo. Para a sorte deste cavaleiro, os policiais atiravam muito mal.

Sentindo o cerco apertar, Antônio Braz e seu grupo buscam abandonar a área do Rio Piranhas, sendo noticiada uma incursão a Paraíba, na região de Piancó, onde se informa, sem maiores detalhes, ter o bando assassinado um homem. O grupo será visto novamente no Rio Grande do Norte, em 11 de fevereiro de 1890, no lugar “Riacho Fundo”, onde uma tropa policial se depara com o coito do grupo no meio da mata. Ocorre rápida escaramuça, sem vitimas, tendo o bando fugido do local nos seus cavalos sem as selas, roupas e outros utensílios. A polícia persegue os bandidos por quase seis léguas, o que seria uma média de trinta quilômetros, abandonando a perseguição por ter chegado à noite.

O bando passa a agir principalmente na Paraíba, mas a ação policial neste estado se torna mais forte. Em junho de 1890, Braz e seus homens travam um forte tiroteio contra uma patrulha da polícia paraibana, da cidade de Pombal, tendo o grupo perdido alguns animais de montaria.

Rumam então para a fronteira do Rio grande do Norte, na região da cidade de Serra Negra do Norte. Esta cidade potiguar possuía na época um diminuto destacamento de três praças e estes não proporcionariam alguma resistência ao grupo. Na fazenda Jerusalém, do coronel Antônio Pereira Monteiro, tomaram através de ameaças os cavalos deste proprietário, tendo a malta de celerados seguido novamente em direção a Paraíba. A fazenda Jerusalém está atualmente localizada no município de São João do Sabugi.

Mas as tropelias de Antonio Braz e seu bando não param, em 4 de agosto de 1890, na então vila paraibana de Paulista, pertencente a Pombal, este cangaceiro cria uma situação de escárnio para as autoridades, que chega a ser inusitada. Neste dia, neste lugarejo onde habitavam umas 50 almas, Braz conduz preso o bandido que respondia pela estranha alcunha de “Francisco Veado”. Na vila ele obriga dois paisanos a levarem o prisioneiro para o delegado de Pombal, com uma carta para a autoridade, onde dizia que “não estava disposta a deixar livres tantos cangaceiros, que por ora remetia aquele, e que mais tarde... ele próprio iria”. (5)

Parece uma tanto fantasiosa esta última afirmação do jornal, mas a partir desta data, cessam toda e qualquer nota sobre o cangaceiro Antônio Braz e suas atividades.

Esta última notícia data de agosto de 1890, coincidindo com o retorno de chuvas depois de um período de fortes secas entre os anos de 1888 e 1889. É fácil supor que devido ao risco e periculosidades inerentes a atividade de cangaceiro, esta já não fosse tão interessante e a terra molhada vai dispersando o grupo em busca de outras formas de sobrevivência (6).

Infelizmente, não sei como terminou este episódio, ou mesmo a vida de peripécias deste inusitado cangaceiro e seu bando. Não consegui mais nenhuma informação nos jornais da época e nos arquivos existentes em Natal e Caicó.

Sobre o aspecto de atuação territorial, o cangaço de Antônio Braz ocorreu praticamente na mesma área que notabilizou o único potiguar que chefiou um bando de cangaceiros, Jesuíno Brilhante. Já em relação à sua prática como cangaceiro, Antônio Braz era tido como “terrível”, já Jesuíno, segundo os relatos históricos de Henrique Castriciano e Câmara Cascudo (7), era o “gentil homem”, um “homem de valores”, que estava na vida do cangaço pelas injustiças do seu tempo.

Notas

(1) Os livros que melhor tratam sobre o ataque de Lampião a Mossoró são “Lampião em Mossoró”, de Raimundo Nonato, “A Marcha de Lampião”, de Raul Fernandes, “Lampião no RN-A história da grande jornada”, de Sergio Augusto de Souza Dantas. Sobre Antônio Silvino no Rio Grande do Norte, temos “Antônio Silvino no RN” de Raul Fernandes, “Antônio Silvino-O homem, o mito e o cangaceiro”, de Sergio Augusto de Souza Dantas. Já Jesuíno Brilhante serviu de tema para o livro “Jesuíno Brilhante-o cangaceiro romântico”, de Raimundo Nonato. Já Câmara Cascudo, em seu livro “Flor de romances trágicos”, aponta vários aspectos das atuações dos cangaceiros Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Lampião, Jararaca e outros.

(2) Existe uma coleção microfilmada deste jornal no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. 

(3) Esta não seria a primeira notícia sobre fuga de presos da Cadeia Pública de Pombal. Em 18 de fevereiro de 1874, 25 anos antes da fuga de Antônio Braz, Jesuíno Brilhante e seu bando atacaram a guarnição desta cadeia, libertando quarenta e três detidos, entre eles membros do seu bando.

(4) Para se ter uma ideia da situação numérica do efetivo policial, no jornal “A Republica” de 9 de janeiro de 1890, era publicada a “Ordem do dia nº 6”, emitida em 4 de janeiro do mesmo ano, onde o então governador do Rio Grande do Norte, Adolfo Afonso da Silva Gordo, organizava o Corpo de Polícia com 1 capitão comandante, 2 tenentes, 4 alferes, 2 primeiros sargentos, 4 segundo sargentos, 1 sargento ajudante, 2 furriéis, 10 cabos, 120 soldados e 4 corneteiros. Eram apenas 150 policiais para todo o estado. 

(5) A adoção grifada da palavra “cangaceiro”, pela edição deste jornal, chama a atenção, pois neste período os jornais normalmente utilizavam termos como “banditismo”, para designar a ação, “celerados” e “salteadores” para definir os protagonistas, dificilmente nesta época encontramos nos textos jornalísticos, o termo que designariam estes bandidos e assim seriam mitificados. Entretanto, vale ressaltar que o jornal “O Povo” era editado em uma cidade sertaneja, onde os bandidos errantes que carregava suas armas e utensílios, preferencialmente nos ombros, a partir da metade do século XIX, passam ser conhecidos como “aqueles que estão debaixo da canga” “aqueles que estão no cangaço” e daí a “cangaceiro”, não sendo difícil de supor que, por este jornal está inserido no sertão, esta tenha sido a primeira vez na imprensa potiguar que o termo “cangaceiro” tenha sido utilizado. 

(6) Sobre a seca de 1888 e 1889 e outros assuntos a respeito deste fenômeno climatério, ver o pronunciamento do então Senador pelo Rio Grande do Norte, Eloy de Souza, intitulado “Um problema nacional (Projecto e justificação)”, pronunciada na seção de 30 de agosto de 1911 e editado em formato de brochura pela Tipografia do Jornal do Comercio, em 1911. Sobre a teoria do crescimento das ações de grupos cangaceiros nos períodos de estiagem, ver “Guerreiros do sol”, de Frederico Pernambucano de Mello. 

(7) Com relação aos escritos de Henrique Castriciano sobre Jesuíno Brilhante, temos no jornal "A Republica", edição de 25 de julho de 1908, uma interessante crônica deste poeta potiguar sobre este cangaceiro.

*Rostand Medeiros é Pesquisador de Natal, RN


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O FOGO DA CANABRAVA E O DESTINO DE ZULEIDE


Por Manoel Belarmino Belarmino

Naquele dia 15 de agosto de 1932, mesmo ano do Fogo do Maranduba, no Poço Redondo, numa manhã de vento fresco e caatinga ainda verde de fim de inverno, Lampião e seus cangaceiros e cangaceiras achavam-se acoitados na Fazenda Canabrava, nas proximidades da Curituba, hoje território de Canindé de São Francisco.

Não demorou muito para que os soldados da volante comandada por Manuel Neto alcançassem o coito. Muitos tiros disparados pela volante. Dizem os mais velhos da Curituba que os cangaceiros não dispararam nenhum tiro e se retiraram do coito deixando a volante brigando só. Nenhum morto e nenhum ferido de ambos os lados. Lampião não quis brigar naquele dia.

A grande novidade foi quando os estampidos dos tiros dos fuzis dos soldados cessaram um silêncio tomou conta daquela caatinga da Fazenda Canabrava. Nenhuma voz de cangaceiro, nenhum grito se ouviu. Um silêncio. Todos os cangaceiros sumiram. Desapareceram. Não demorou muito para o silêncio ser quebrado com um choro de criança vindo das sombras de uma quixabeira. Estava ali abandonada, sobre um pano estendido no chão, sob a sombra da quixabeira, uma menininha de poucos dias de nascida. Não havia dúvida. Aquela pequenina chorona era filha de algum casal de cangaceiros que estava ali e fugiu abandonando aquele bebê.

Segundo o pesquisador e historiador Archimedes Marques, no seu livro "Lampião e o Cangaço na Historiografia de Sergipe (volume II), os soldados da volante levaram a menina para o quartel de Canindé de São Francisco. O jornal "Noite Ilustrada" noticiou em agosto de 1938 que uma menina foi encontrada depois de um tiroteio nas proximidades de Curituba e teria sido levada por um chefe de volante de Sergipe para a vila da Pedra de Delmiro em Alagoas. Ali a menina foi criada pelo proprietário do Hotel Central, o senhor Bráulio Alves de Carvalho. A menina, filha do cangaço, recebeu o nome de Zuleide (Zuleide de Carvalho). Foi bem cuidada, bem educada e criada como filha. Naquele ano de 1938, a menina Zuleide estava com 7 anos de idade.

Uma pergunta ainda está sem resposta: Qual cangaceira pariu Zuleide?


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terça-feira, 17 de setembro de 2019

O LIVRO O FOGO DA JUREMA JÁ ESTÁ À VENDA COM O PROFESSOR PEREIRA


Se você está interessado no livro "O FOGO DA JUREMA" é só entrar em contato com o professor Pereira lá da cidade de Cajazeiras, no Estado da Paraíba,  que ele tem e está disponível aos amigos. 

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LAMPIÃO E CHUMBO NA SERRA DOS CAVALOS

Clerisvaldo B. Chagas, 17 de setembro de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.183

O homem, com bermuda jeans e boné parecia elétrico. Mal terminava o diálogo com um, virava-se para outro. Ali naquele aglomerado, indagou se a senhora era de Águas Bela. Ela respondeu que não era, falou em Águas Belas por acaso. Ele puxou conversa e disse que era de Minador do Negrão. “Minador, lá pra dentro tem uma serra bem alta e que logo após a serra, encontra-se Águas Belas”. Notei que ele estava procurando um conhecido para puxar conversa. Fiquei aguardando a sua agitação e veio à lembrança o monte que ele falara. Muitas vezes o sujeito fala demais, porém, não deixa de ser excelente fonte de pesquisa que às vezes coincide com sua procura. Procurei aguardar uma surpresa para o cidadão.

SERRA DOS CAVALOS (FOTO: PINTESTER).
Lembrei-me da “Repensando a Geografia de Alagoas” (uma cinco estrelas engaveta). Também veio à mente, pesquisa exaustiva para o livro “Lampião em Alagoas”; serras de divisas do estado, fugas e combates de Lampião. Virgulino gostava de entrar em Pernambuco por Minador. Imaginamos a perseguição e tiroteios esporádicos do sargento Porfirio e sua aguerrida volante por ali, no início de 1938. Mesmo assim, com Alagoas caçando o bandido por todos os lugares, o chefe do bando desapareceu no vizinho estado do norte. Mas era importante para nós pontuarmos a sequência de serras e riachos da região, desde que acidentes sempre surgissem nas narrativas. Foi na hora em que o homem falou sobre Minador do Negrão que surgiu na mente a serra destaque.
Pensei comigo mesmo dá um susto no camarada rodeado por desconhecidos. Aproximei-me sorrateiramente e fiquei atrás da sua nuca. Vez em quando ele parava e falava, parava e falava, então, que eu disse forte no seu ouvido: “Quer dizer que o senhor é o homem das serra dos Cavalos!”. O indivíduo levou um susto desgraçado, virou-se rapidamente como macaco de mola. Olhou para mim de boca escancarada e indagou: “Como o senhor conhece a serra dos Cavalos?” Gargalhei por dentro com o susto alheio.
Nada eu disse.
Distanciei-me e parti dando adeus.
Também... Nem tava muito querendo conversa na parada.


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A CASA DA POBREZA

*Rangel Alves da Costa

Na noite do último sábado 14 de setembro, em Poço Redondo, sertão sergipano, o amigo Lucas Santana (filho de Nanan) enviou-me uma mensagem relatando um caso lastimável. Disse-me que havia encontrado, nos arredores da saída da cidade em direção a Curralinho, uma situação de moradia que imaginava não existir em Poço Redondo. Falou-me sobre a inexistência de telhado e de portas, sobre a pobreza absoluta naquela casinha, sobre o viver em abandono que aquele morador tinha de suportar. Prontamente informei que logo ao alvorecer do domingo iríamos até lá. E assim aconteceu.
Pouco mais das sete da manhã, eu, Lucas e Belarmino, já estávamos naquela direção. Depois da Praça Frei Damião, seguimos mais adiante e logo avistamos a moradia, como se escondida entre os fundos de outras moradias e outras ruazinhas do outro lado. Quem olha para os fundos da casinha é como se estivesse avistando sua frente. A não ser por uma janela, é quase a mesma coisa. Rodeamos e fomos em direção à sua frente. 3 metros de frente e fundo por 6 de comprimento, eis a sua dimensão. Levantada em bloco, com uma janelinha à frente e duas portas igualmente estreitas, uma na frente e outro ao fundo.
Chegamos, batemos palma, chamamos, mas nada como resposta. A única presença foi a de um cachorro que surgia do pedaço de lona na porta para latir uma valentia inexistente. Sua presença ali tinha razão de ser. Como a casinha não possuía portas, quando o seu dono saía a única proteção ficava por conta daquele cachorro e seu latido rosnento. Mas proteger o que naquela moradia, se o que pode ser encontrado lá dentro faz apenas entristecer e chorar?
Chamamos, chamamos, e nada. Logo fomos informados por dois senhores que estavam pelos arredores que talvez ele tivesse saído muito cedo, tendo ido para a feira de Santa Rosa do Ermírio em busca de qualquer ganha-pão engraxando sapatos, ofício que também exercia pelas ruas e principalmente nos dias de feira na cidade de Poço Redondo, e até em Canindé de São Francisco. E ficamos sabendo do seu nome: André Luiz. E também que é irmão de Mané Veneno.
Sua ausência nos impediu de conhecer mais sobre sua história, suas necessidades, sua real situação. Após o retorno, então escrevi um pequeno texto onde relatei: “Visitando uma casa sem telhado, sem porta na frente e ao fundo, sem móveis, quase sem nada. Fica ali bem ao lado da Estrada Histórica Antônio Conselheiro, no caminho de Curralinho. Apenas um fogo de chão do lado de fora e duas panelas velhas num canto de chão. A cobertura é com pedaço de lona segurada em blocos, como se a moradia estivesse ao relento na noite e no dia, no sol e na chuva. Uma situação de vida em Poço Redondo. Ou de quase viver em Poço Redondo! Mas depois relatarei tal feição de abandono e de extrema pobreza”.
Com efeito, uma extrema feição de abandono e de extrema pobreza. Com o retorno posterior de Lucas ao local e o encontro com o senhor André, as fotografias comprovaram tudo aquilo infelizmente imaginado. Uma cama com colchão desengonçado, uma banquinha com panelas encardidas e o que existe de alimentação, um bacia num canto, roupas no encosto da cama, e apenas isso. Piso de chão, pedaço de lona como telhado, e um cão... E só. E acaso ele esteja deitado e os blocos que prendem a lona se soltarem, pela força do vento ou das chuvas, então o pior poderá acontecer.
Por isso mesmo que André Luiz precisa de ajuda. Quem pode ajudar André Luiz? Você pode, nos podemos. Precisamos de alimentos, de dois sacos de cimento, de cerca de oitocentas telhas, algumas vigas. E também de um velho fogão, vez que seu alimento é preparado em fogo de chão num canto da frente da casa. Talvez também um guarda-roupa ou qualquer coisa que lhe sirva de mobiliário. E que luxo será!

Escritor
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COM O COLÉGIO DIOCESANO SERIDOENSE NA CASA DE MARIA BONITA.. ESCRITOR JOÃO DE SOUSA LIMA DÁ AULA À GAROTADA SOBRE CANGAÇO, CASA DE MARIA BONITA..ETC..

Por Volta Seca











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LUITGARDE CAVALCANTI BARROS por João Tavares Calixto Junior

 Luitgarde Cavalcanti Barros

É Luitgarde Cavalcanti Barros, pesquisadora fantástica a quem tive a honra de conhecer, uma das que melhor se expressam sobre a passagem do cangaceirismo para um outro fenômeno social de violência, evidente, sobretudo, no Nordeste brasileiro: o pistoleirismo. Com este, eu pude conviver, quando da minha juventude em minha terra natal - Aurora (Ceará), nos anos 1990 e passagem para os 2000. Com isto, faço das palavras da pesquisadora em seu "A Derradeira Gesta - Lampião e Nazarenos guerreando no Sertão" (Rio de Janeiro, Maud, 2018), as minhas próprias:

"Nas grotas ensanguentadas das caatingas a covardia dos poderosos impunes plantou a semente da violência mascarada, modernizada, sem honra e sem coragem, fazendo nascer, em oposição ao estardalhaço aterrorizante do cangaço, o mais desumano, subterrâneo e desestruturador sistema de crimes empresariados no silêncio dos conchavos políticos e econômicos - o mundo do pistoleiro"(p.227-8).

João Tavares Calixto Junior
Pesquisador e Escritor, Juazeiro do Norte-CE
Conselheiro Cariri Cangaço
Luitgarde Cavalcanti Barros

É Luitgarde Cavalcanti Barros, pesquisadora fantástica a quem tive a honra de conhecer, uma das que melhor se expressam sobre a passagem do cangaceirismo para um outro fenômeno social de violência, evidente, sobretudo, no Nordeste brasileiro: o pistoleirismo. Com este, eu pude conviver, quando da minha juventude em minha terra natal - Aurora (Ceará), nos anos 1990 e passagem para os 2000. Com isto, faço das palavras da pesquisadora em seu "A Derradeira Gesta - Lampião e Nazarenos guerreando no Sertão" (Rio de Janeiro, Maud, 2018), as minhas próprias:

"Nas grotas ensanguentadas das caatingas a covardia dos poderosos impunes plantou a semente da violência mascarada, modernizada, sem honra e sem coragem, fazendo nascer, em oposição ao estardalhaço aterrorizante do cangaço, o mais desumano, subterrâneo e desestruturador sistema de crimes empresariados no silêncio dos conchavos políticos e econômicos - o mundo do pistoleiro"(p.227-8).

João Tavares Calixto Junior
Pesquisador e Escritor, Juazeiro do Norte-CE
Conselheiro Cariri Cangaço


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VEM AÍ A IV FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO


De 17 à 20 de outubro de 2019. Serão 4 dias de interação, valorização, difusão e troca de conhecimentos de uma das maiores manifestações culturais do Brasil, fazendo da CAIXA Cultural Fortaleza um verdadeiro celeiro de grandes artistas e um imenso acervo com as mais variadas obras do cordel brasileiro.

Faltam apenas 30 dias, marque na sua agenda, convide os amigos, traga a família e embarque com a gente nessa grande viagem ao mundo encantado do CORDEL.

De 17 à 20 de outubro de 2019. Serão 4 dias de interação, valorização, difusão e troca de conhecimentos de uma das maiores manifestações culturais do Brasil, fazendo da CAIXA Cultural Fortaleza um verdadeiro celeiro de grandes artistas e um imenso acervo com as mais variadas obras do cordel brasileiro.

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UM ENTRE TANTOS... ENTERRADO SEM CABEÇA

Por Rangel Alves da Costa

No meio do mato, sempre acompanhado por um cachorro, nas entranhas da Fazenda Coruripe em Poço Redondo, sertão sergipano, apontando o local onde foi enterrado o cangaceiro Canário em 38, morto à traição pelo também cangaceiro Penedinho.

 Canário quando posou para Benjamin Abrahão

Do livro "Lampião entre a espada e a Lei", 
de  Sérgio Augusto de Souza Dantas.

Enterrado sem a cabeça, vez que a mesma fora levada como troféu macabro por Zé Rufino, terrível e temido caçador de cangaceiros. É por isso que Totonho Catingueira dizia:

“Vosmicê num pisa no chão de Poço Redondo pra num pisar num rastro de cangaceiro ou de volante. Tomem num anda num lugar pra não sentir um vurto de cabra estirado. A mata aina zune. Aina hoje, eu mermo só entro no mato com medo daquelas aparição, daqueles homens de sangue nos óio e venta sortano fogo. Poço Redondo num era nem pra se chamar Poço redondo, mai Poço do Cangaço. O cangaço inté parece que foi todim aqui.

Ali foi um fogo, acolá foi uma emboscada, mais adiante um acaba-mundo da gota serena. É cuma aina a sombra de Lampião tivesse aqui, tomem de Corisco, de Zé Sereno, de Corisco, de Mané Moreno e tudo mais. É cuma aina a gente ouvisse a bala zunindo e o grito de dor. Menino, foi um escorrimento de sangue de num acabar mais. Eu mermo aina sinto o cheiro suarento do cangaço e o fedor da volante.

Pro todo lugar existe cangaço, e aina como se o medo deixasse o cabelo em pé. Conheci a Véia Gerusa que mermo adespois da morte de Lampião ainda continuava com saco arrumado pra correr a quarqué hora. O maluquim Oreba continua dizeno que toda noite sonha com a cangaceirama e que Lampião virou rei com coroa e tudo, e que seu reinado é pelas banda da Maranduba, debaixo de um daquele sete umbuzeiro. Sei não, viu. Sei não... Eita Poço Redondo das história cangaceira. Mai vou dizê uma coisa, sem medo de errar: se as morte do cangaço fosse todinha marcada em cruz, entonce Poço Redondo todim era um cemitero. Pro todo lugar haveria de ter uma cruz, aqui debaixo dos meus pé, ainda debaixo do seu...”.


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CORISCO E DADÁ TIVERAM VÁRIOS FILHOS

Por Volta Seca

O casal cangaceiro, CORISCO E DADÁ, tiveram vários filhos, dentre eles, Silvio Bulhões (mora em Maceió); Maria do Carmo (mora em Salvador) e Maria Celeste. (que, também, mora nessa última cidade).

Acima, uma foto de Maria Celeste e seu esposo, Sr. Raimundo Gomes.
Foto, gentilmente cedida por : Indaiá Santos (filha de Mª Celeste)...


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POESIA


Por Guilherme Machado

Cada dia creio mais na verdade dita pelo saudoso Mestre Pinto do Monteiro: "Poeta é bicho doido tira de onde não tem, para botar onde não cabe!". Assim, neste dia 08 de outubro de 2017, em que o escravo Lucas Evangelista ( o Lucas da Feira) completa 210 anos de história, esta é a minha homenagem:

Se Lucas foi o Primeiro Cangaceiro,
Nossa Feira é o berço do cangaço
Mote – Zé Francisco e Jânio Rego
Glosa – Nivaldo CruzCredo

Lucas o escravo nascido na Feira,
Como cangaceiro é reconhecido,
Por quem estuda o acontecido,
O tal cangaço, de forma certeira,
Eles garantem dessa maneira,
Que dentro mesmo deste embaraço
Sim foi o Lucas quem tirou o cabaço,
Desse banditismo que é brasileiro,
Se Lucas foi o Primeiro Cangaceiro,
Nossa Feira é o berço do cangaço.

Existem muitos dos pesquisadores
Nessa tese mesmo acreditando,
Eu também estou sim aceitando,
Pois tais senhores não são amadores,
Muitos deles são até bons doutores
Bom de letra, de pesquisa e de traço
E afirmam sem nenhum embaraço
De modo bem direto e certeiro,
Se Lucas foi o Primeiro Cangaceiro,
Nossa Feira é o berço do cangaço.

Nenhum cangaceiro tinha patrão,
O chefe era integrante do bando
Matava, roubava e ia atacando,
Pelas cidades de todo o sertão
Muitos até se dizia ser cristão
Mesmo com crimes na arma e no braço
Bem desposto sem nenhum cansaço
Este é o conceito do tal bandoleiro
Se Lucas foi o Primeiro Cangaceiro,
Nossa Feira é o berço do cangaço.

Este viés dessa nossa história,
Merece ser bem mais discutido,
Pesquisado e mesmo sugerido,
Se puxando pela boa memória,
Para que a verdade tenha vitória,
O cangaço dito sem embaraço,
Criando desconforto e até mormaço,
Para chegar ao início verdadeiro,
Se Lucas foi o Primeiro Cangaceiro,
Nossa Feira é o berço do cangaço.

Lucas da Feira foi bandido de 1828 a 1848. Vinte anos de banditismo. Tempo maior que o de Lampião. Mas existem registros de atividades bandoleiras nos Sertões do século XVIIl. O Cabeleira mesmo, foi enforcado no Forte das Cinco Pontas no Recife, no ano de 1776.

Ilustração - Do Livro de Marcos Franco e ilustrações de Hélcio Rogério. Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira.


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TÚNEL DO TEMPO


Por Deocele Lucena

Waldik Soriano e Dr. Aguinaldo Pereira.
SAUDOSA MEMORIAM.
Deocele L. Barreto.
Mossoró, Rn
16 de setembro de 2019.



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LIVRO "LAMPIÃO NA PARAÍBA - NOTAS PARA A HISTÓRIA".


Adquira este livro com o professor Francisco Pereira Lima lá de Cajazeiras no Estado da Paraíba através deste e-mail: 

franpelima@bol.com.br

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O PADRE CÍCERO NA VILA DE BELMONTE


 Por Valdir Nogueira

Fazia calor intenso naquela tarde de 12 de setembro de 1898 quando entrou na Vila de São José de Belmonte, seguido por dezenas de acompanhantes o Padre Cícero Romão Batista, do Juazeiro, que seguia viagem para a capital pernambucana com destino à Roma (diziam que atendendo ao chamado do Santo Padre). 


Em Belmonte o Padre Cícero foi recepcionado pelo Prefeito o Coronel José Pereira de Aguiar, o Subprefeito Sr. Antônio Piauhylino Guimarães, e os membros do Conselho Municipal: Isidoro Conrado de Lorena e Sá, Antônio Juvenal Pereira da Silva, Pedro José dos Santos, João Pereira da Silva, Manoel Terto Alves Brasil, Lúcio Pereira da Silva e Luiz Pereira da Silva. 

Durante sua estadia em Belmonte o Padre Cícero ficou hospedado na Casa do Catolezeiro. Esta casa, localizada do lado direito da Matriz de São José, tinha essa denominação porque existia uma árvore dessa espécie na sua frente. Inicialmente, pertenceu a Dona Ana Pereira da Silva, esposa de Conrado José de Lorena e Sá. Nessa casa funcionou primeiramente o Conselho Municipal de Intendência. Também nessa casa faleceu, em 17 de agosto de 1889, o Dr. Arcôncio Pereira da Silva, que foi juiz e promotor da Comarca de Vila Bela. Bem, da Vila de São José de Belmonte, seguiu o Padre Cícero e seus romeiros para Vila Bela (Serra Talhada).

Valdir José Nogueira
Pesquisador e escritor, São José de Belmonte-PE
Conselheiro Cariri Cangaço


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BÁRBARA, TUA PENA NÃO FOI A PRISÃO

Por Heitor Feitosa
Imagem de Bárbara de Alencar

Teus filhos morreram lutando. Padre Carlos, em fuga, enquanto saciava a fome com mel de abelha, foi assassinado na Serra do Beijú por um cabra do cruel Pinto Madeira. Tristão, carregado de ouro e perseguido pelos Cunha Pereira, verteu todo o sangue às margens do Jaguaribe, ficando tempos e tempos sem sepultura. O padre Alencar, por sorte, escapou das balas já chegando ao Rio de São Francisco, no mesmo instante em que teu netinho, menino de 13 anos, tombou alvejado pelos cabras. E a mãe da criança, tua filha, não deve estar em prantos? E teu irmão, Leonel, e o filho dele, Raimundo, pagaram caro por essa aventura, mortos lá em Jardim, obrigando tua cunhada, esposa deste infeliz, a dar a luz no breu da mata da Serra do Araripe, fugindo dos mesmos algozes.

Não te esqueças do teu pobre cunhado, Ignácio Tavares Benevides, que, depois de ser preso em cordas pelos perversos cabras, foi posto em uma roda de pau, apanhando com bodurnas de jucá, e, ao fim, queimado vivo em enormes chamas, enquanto seus gritos serviam de pasto para as gargalhadas dos assassinos. Preste atenção! Teu avô, Leonel, se vivo fosse, te diria que as brigas no sertão eram por terra e poder, que os índios e as onças eram quase sempre os inimigos mais implacáveis, mas nunca o Rei, perpétuo e absoluto. Teu compadre e protetor, o gigante Filgueiras, já partiu para as cadeias na Corte, e dizem ter morrido em Minas. E teu marido, cadê? Graças a Deus, já sendo ele um homem muito mais velho que você, desencarnou antes mesmo de ocorrer todo esse reboliço! 

Agora te dão um amante, o vigário do Crato, irmão de dois dos teus cunhados, padrinho de crisma de teu filho caçula, além do agravante de ele também ser teu vizinho, teu mentor espiritual e patrocinador das ideias "subversivas" de Tristão e Martiniano. O que diz teu filho mais velho, João, homem pacato que nunca se envolveu nessas brigas? Vive lá no Pau Seco, moendo canas no velho engenho de pau, tentando saldar as contas dos empréstimos tomados ao próprio irmão, a juros compostos. Tua fortuna já não é mais a mesma, tomaram teu Sítio Pontal, de onde o novo dono, o padre Francisco Gonçalves Martins, te difama como teúda e manteúda do padre Miguel.

Onde estão os teus tesouros? Sei que, hoje, não passam de botijas enterradas no chão do esquecimento! Que dizer de uma mulher branca e rica que passou mais de ano nas prisões da Fortaleza e Bahia? E o orgulho da tua poderosa família? Como vingar mais de 25 parentes mortos em menos de 10 anos? Como limpar tua honra? Abra do olho, porque o coronel Pinto Madeira ainda cavalga pelo Cariri com seu exército de cabras, índios e mestiços, lembrados dos ancestrais Ançus, Calabaças, Xocós, Cariris e outros milhares de "tapuias bárbaros" que viviam refugiados na terra prometida, terra sem males, na Vapabuçú, na Serra do Varipe, no Araripe, no oco do mundo, invadida pelos brancos sesmeiros, teus ascendentes. 

A culpa não é tua, é das imbuanças desses tais filósofos da Europa, os iluministas, que, juntos com os pernambucanos fiotas do Recife e Olinda, encheram tua cabeça e os corações dos teus meninos. Mas tu vai pagar a maior das penas. Vai sair do Crato enxotada por Pinto Madeira, e, com a ajuda do coronel Manuel de Barros Cavalcante, lá de Santana do Cariri, vai palmilhar o sertão seco, até tuas fazendas no Piauí, na divisa com o Ceará. Nesse lugar, já sendo uma mulher velha e doente, encontrará tua mortalha. Por algumas léguas dali, teu corpo será transportado em uma rede e, numa pequena capela, no Poço da Pedra, próximo à Varzea da Vaca, tua face será esquecida e tua história permanecerá mal contada.

Ao atravessar o século, um dos teus adoradores, tentando reparar tua honra como heroína, colocará uma placa acima do teu jazigo, indicando teu fim, o que sobrou da tua matéria. Porém, tuas dores e tuas alegrias jamais terão uma imagem que retrate o gosto do amor proibido, as lutas ideológicas, a perda dos filhos queridos, a independência política, a emancipação da mulher, o Direito de ser vista por todos como símbolo de resistência. E, assim, essa será a tua mais bárbara pena, Bárbara.

Heitor Feitosa Macêdo
Pesquisador e escritor- Crato, CE
Setembro de 2019, Presidente do ICC


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OPINIÃO - GESTA NORDESTINA

Por Wilson Martins

"Lampião é também um mito mental, a julgar por haver dominado a imaginação brasileira mesmo fora do seu território nativo, mas também por haver inspirado obras de literatura e de grande literatura como muitas das que se encontram neste volume e que dão ao personagem as dimensões míticas dos heróis.”"

"Assim como Roland é o herói paradigmático das canções de gesta medievais, Lampião é a sua figura simétrica e correspondente na gesta nordestina do cangaço. Se o paralelo parecer incongruente ou arbitrário, lembremos o que diz Santa Rita Durão nos versos do Caramuru, isto é, que o "valente Ro­­mano" e o "sábio Argivo" em na­­­­da foram melhores que o "rude Americano" das florestas: "Nós que zombamos desse Povo insano / Se bem cavarmos no solar nativo / Dos antigos Heróis dentro ás imagens, / não acharemos mais, que outros Selvagens".

No caso, a passagem do tempo idealizou as figuras, acrescentando-lhes as lendas e fantasias indispensáveis para torná-las super-humanas: entre Lampião e Napoleão há apenas uma diferença de escala. Acrescente-se a intromissão das ideologias: co­­mo cangaceiro, Lampião era um re­­volucionário de esquerda, mi­­litando contra uma sociedade de direita, até que as coisas se tornaram tão claras que até a esquerda institucionalizada percebesse o partido que podia tirar da situação, ajudada pelas circunstâncias: "A palavra ‘cangaço’ só aparece uma única vez ao longo de todo o romance O Cabeleira, de Franklin Távora [...] significando, ‘como o próprio autor afirma na nota ao fim do livro, "complexo de armas que costumam trazer os malfeitores", conceito que, ao tempo de Lampião, já de­­signava o bando e as atividades dos bandidos.

Vieram em seguida as interpretações que Carlos Newton Júnior qualifica de "mais à esquerda": "A visão de Carlos Dias Fernandez e, principalmente, a de Rubem Braga [...] antecipam, portanto, uma interpretação do cangaço mais à esquerda, que começam a proliferar na segunda metade da década de 1940 para se tornar voz corrente a partir da década de 1960, com os estudos ligados ao novo marxismo; estes, por sua vez, funcionaram como contrapeso necessário para o surgimento, nos anos de 1980, de estudos mais abrangentes e mais imparciais, não dogmáticos, mais ricos e cheios de sugestões, mais abertos às múltiplas interpretações da realidade social – estudos dentre os quais se destaca, de modo inegável, a obra do historiador e ensaísta pernambucano Frederico Pernambucano de Mello.

Lampião é também um mito mental, a julgar por haver dominado a imaginação brasileira mesmo fora do seu território nativo, mas também por haver inspirado obras de literatura e de grande literatura como muitas das que se encontram neste volume e que dão ao personagem as dimensões míticas dos heróis. O leitor encontra aqui, diz o autor, "desde poemas escritos por contemporâneos de Virgulino Ferreira da Silva até poemas de uma geração para quem Lampião é um personagem tão histórico quanto Napoleão ou Alexandre, o Grande.

No caso de poetas rigorosamente contemporâneos de Lampião, homens da mesma geração do cangaceiro, podemos imaginar que não era tão simples fechar os olhos para aquilo que se mostrava com tanta evidência, ou seja, a imensa crueldade do facínora, os atos de barbárie perpretados por ele próprio ou seus comandados, tudo aquilo que fez com que Lampião, mesmo na poesia popular, quase sempre figurasse como um cangaceiro mais temido do que propriamente admirado, de modo distinto do que vai ocorrer com outros cangaceiros famosos, a exemplo de um Jesuíno Brilhante ou um Antônio Silvino.

Justificam-se assim poemas como "O rei do cangaço", do pernambucano Jayme Griz, e principalmente "Nordeste de Lampião", do cearense Jáder de Carvalho, poema que narra um ataque de cangaceiros a uma casa de pessoas simples, durante uma festa de casamento, sob o comando de um dos tenentes de Lampião".

Numa introdução por todos os títulos admirável, Carlos Newton Júnior acrescenta o capítulo que faltava na história de literatura brasileira e da nossa crítica. Lampião não morreu, mas vive agora como testemunho de um ciclo civilizatório.

(O Cangaço na Poesia Brasileira. Uma antologia. Sel. e pref. de Carlos Newton Júnior. São Paulo: Escrituras, 2009)."

Pescado em Gazeta do Povo


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