Por Charles Garrido
Prezados,
saudações.
Antes de
lermos o texto, vamos à analise das imagens, por gentileza.
1 - A foto
colorida mostra uma moradia singela que, supostamente, possa vir a ser um sonho
de consumo para aqueles que sonham em fugir do estresse dos grandes centros.
2 - Podemos
observar Lampião e seu irmão, Antônio Ferreira
3 - E esses
dois, quem seriam?
Senhores, essa
casa velha e esquecida no tempo, foi palco de duas cenas terríveis comandadas
pela fúria do rei do cangaço e seu bando, no ano de mil novecentos e vinte
seis, no interior de Pernambuco.
Relatemos o depoimento do Sr. João, neto do patriarca da família Nogueira (à
época, inimigos mortais dos Ferreira). Cujo qual, agradeço à gentileza em ter
nos recebido de modo tão cordial, na sede da Fazenda Serra Vermelha, município
de Serra Talhada-PE.
Lembramos que
o relato será posto sem nenhum tipo de interferência ou modificação, por parte
desse que vos escreve.
Sigamos:
"Era o
ano de vinte e seis, todo mundo aqui vivia apavorado, ninguém dormia. Era
terrível.
Numa certa
manhã, o meu avô, que se chamava José Nogueira, já velho e doente, acordou cedo
como sempre e foi pro terreiro buscar uns ovos de guiné (galinha da angola, ou
capote) e umas pimentas.
Foi quando Lampião chegou e encontrou uma criança que era filha de um dos
moradores, e perguntou:
- Menina, cadê
Zé Nogueira?
- Tá lá na
roça (Criança)
- Vá chamar e
diga que quem tá aqui é a volante de Nazaré (Lampião).
A menina foi
até meu avô e deu o recado. Ele desconfiado, perguntou:
- Minha filha,
você tem certeza de que é mesmo a volante de Nazaré?Não é Lampião?
A criança
inocente disse que não, afirmando mesmo que era a volante.
Assim meu avô
retornou à casa. Quando ele chegou e avistou Lampião, já não deu mais tempo.
Mas, por
incrível que pareça, Lampião, já sabendo que ele andava muito doente, apenas o
chamou para conversar "tranquilamente", e assim o fizeram.
Entretanto, quando menos esperaram, Antônio Ferreira (irmão de Lampião) por
cima do ombro do rei do cangaço, atirou na cabeça do velho, que morreu na hora.
E o pior, foi tão covarde que ainda roubou as alpercatas e o chapéu dele.
Com meu avô caído ao chão e já morto, Lampião tirou um lenço do bolso e cobriu
o rosto dele. Em seguida, mandou os cangaceiros atearem fogo na casa e nos
pastos ao redor.
Depois desse
acontecido, Lampião chegou em Nazaré, e todos o perguntaram:
- Lampião, por
que você matou Zé Nogueira? Ele era um homem velho e doente, por que fez isso?
- Não fui eu,
e sim meu irmão, que foi tão covarde que ainda roubou o defunto. Mas a casa eu
queimei, e era uma propriedade rica, achei dinheiro até nos buracos da parece e
plantei fogo com manteiga de gado.
Aí pronto, meu
pai que se chamava Luiz, e meu tio, Raimundo, eram os homens da casa, juraram
defender a família até a morte se preciso fosse, pois sabiam que os cangaceiros
poderiam voltar. E eles estavam certos.
Depois de
alguns meses, com a casa reconstruída, num dia qualquer do mesmo ano, por volta
das seis da horas da manhã, o meu pai (Luiz), já estava na roça trabalhando.
Mas, pressentiu que havia alguém o observando. Foi quando correu pra dentro de
casa para pegar as armas. Porém, não deu tempo... os cangaceiros atiraram. Por
sorte, a bala pegou apenas na porta, e ele conseguiu entrar sem ser ferido. Aí
começou o inferno, era chumbo pra todo lado. Dentro da casa estavam: meu pai,
meu tio e mais dois homens, que se chamavam: Zé Paixão e Zé Barros, todos muito
bem armados, cada qual com um fuzil, um rifle, e munição à vontade, todo mundo
aqui, na época, tinha mais bala em casa do que comida na mesa. Pois já sabiam
que a qualquer momento poderia haver "brigada".
O tiroteio
varou a tarde. Ninguém comeu, nem bebeu água, pois não havia tempo pra isso,
era só "papoco" por todo canto. Nessa hora, Zé Paixão levou um tiro
no ombro, da janela onde combatia, e disse:
- Luiz, tô
baleado!
- Não esmoreça
e nem demonstre (Luiz).
Nessa hora,
Antônio Ferreira encostou na janela que meu pai estava, e disse:
Luiz Nogueira,
eu já matei teu pai, e hoje vou fazer você sentir o gosto da "folha"
do meu punhal.
Lampião vendo
que não podia entrar, nem os homens iam se entregar, mandou os cangaceiros
queimarem a casa (pela segunda vez) e assim fizeram, iam ao curral, pegavam as
estacas, derrubavam, jogavam em cima das telhas e ateavam fogo, foi um
desespero só.
Meu pai me
contava que eles estavam num canto, aí o fogo começava. Iam pra outro, as
chamas chegavam, não tinha jeito. Foi quando meu pai chamou os outros três e
disse:
- Nós vamos
morrer lá fora, brigando, aqui dentro, queimados, não.
Raimundo, meu
tio, então sugeriu:
- Luiz, vamos
nos entregar e pedir garantia de vida a Lampião?
- Nem pensar,
eles já mataram nosso pai, e vão nos matar também, (Luiz)
Já eram quatro
da tarde, ninguém aguentava mais pegar nas armas, elas estavam em brasa, os
canos pareciam que iam derreter. Aí meu pai teve uma ideia: combinou com os
outros três que iria jogar, pela janela, umas almofadas grandes que haviam na
sala, para confundir os cangaceiros. Assim, o bando pensaria que eram eles
tentando fugir por um lado, e eles sairiam pelo outro. Resolveram arriscar:
jogaram as almofadas no terreiro, e elas sumiram em questão de segundos, todas
crivadas de balas.
O plano deu
certo, todos os quatro homens saltaram pelo lado oposto. Porém, Zé Paixão, que
já estava baleado, na hora em que pulou por último, os bandidos atiraram e a
bala o atingiu na mão, arrancando quatro dos cinco dedos de só uma vez, mas ele
não esmoreceu e continuou correndo.
Nisso, meu tio
levou um tiro na coxa, mas ainda conseguiu sair. Havia uma cerca perto, se eles
conseguissem saltá-la, sabiam que estariam mais próximos de escapar. Pularam:
pai, meu tio, e Zé Barros. Porém, Zé Paixão quando ia saltando, levou um tiro
de fuzil na nuca, que a bala saiu pela boca. Meu pai voltou pra tentar
socorrer, mas, ele já agonizando, disse:
Luiz, corra,
senão eles lhe matam, eu vou morrer.
E morreu
mesmo, coitado.
Meu pai, meu
tio e Zé Barros, saíram correndo até que viram ter escapado. Fugiram daqui,
morrendo de fome e sede. Era tanta sede que chegaram ao ponto de beber a
própria urina. Mas, graças a Deus, sobreviveram, chegando à vila de Nazaré, às
onze horas da noite".
O dois que
aparecem na foto de número três, são os irmãos Raimundo e Luiz Nogueira.
Caros
leitores, a vocês, o meu carinho e respeito de sempre.
Charles
Garrido.
Pesquisador.
Fortaleza-CE.
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