Por Junior
Almeida
*FOTO: ruínas da casa onde no tiroteio morreram os cangaceiros André Tripa, Bala e o soldado volante José Veado.
Que Lampião
foi o maior nome do banditismo rural do país, não resta dúvidas, é consenso.
Mesmo após tantos anos da sua morte em Sergipe, o cangaceiro é uma celebridade.
Foi em vida e como morto mais ainda.
Com aproximadamente vinte anos de atuação
no cangaço, o pernambucano de Vila Bela, hoje Serra Talhada, levou o terror às
cidades nordestinas pelas quais passou com seus cabras. Virgulino é ícone maior
do cangaço. O mais estudado, o brasileiro mais biografado de todos os tempos, o
mais admirado e com toda certeza o mais temido em sua época. Só que o cangaço
no Nordeste brasileiro não se resume a Lampião. Muito pelo contrário.
Sanguinários cangaceiros como Gato, Corisco, Moreno, Moderno, Zé Baiano,
Jararaca e tantos outros ajudaram a escrever essa sangrenta página da História
do Brasil.
Lampião em seu
tempo promoveu uma espécie de terceirização do seu “negócio” através de
subgrupos chefiados por cangaceiros de sua confiança. Poderíamos até dizer que
o “Rei Vesgo” era um franqueador, pois abriu franquias da atividade cangaceira
para vários bandidos. Também o Sertão, sem dúvidas, foi o palco maior dessas
atividades criminosas, mas nem só dessa região e nem só de Virgulino viveu o
violento fenômeno chamado cangaço. Muito antes de Lampião, já eram conhecidos
Cabeleira, Lucas da Feira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino e também o chefe
de Lampião, Sinhô Pereira.
Esses
bandoleiros que agiram antes de Lampião, e também fora da zona sertaneja têm
suas histórias bem conhecidas através da literatura especializada, mas existiu
um sicário chefe de grupo que aterrorizou o Agreste de Pernambuco e Alagoas no
final do século IXX, início do XX, que tem sua biografia pouco conhecida por
pesquisadores: ANDRÉ TRIPA, cangaceiro alagoano de “Mundauh Merim”, atualmente
Santana do Mundaú. O bandido era filho de Joana Fateira, assim chamada por
vender fatos (vísceras) de animais nas feiras de sua cidade e também em
Correntes, Pernambuco.
André Tipa é citado por Frederico Pernambucano em seu “Guerreiros do Sol”, que ao falar sobre a "glamourização" do cangaço diz que:
(...) Também a
literatura de cordel se encarregava dessa celebrização, capaz de atingir, com
um João Calangro, um Jesuíno Brilhante, um Viriato, um Guarabira, um Rio Preto,
um Cassimiro Honório, um ANDRÉ TRIPA, um Vicente do Areal, um Antônio Silvino,
um Sinhô Pereira ou um Lampião, abrangência espacial e intensidade difíceis de
avaliar, tal o volume. A importância do registro ressalta (...).
Outro que
escreveu sobre o cangaceiro alagoano foi o escritor garanhuense Luiz Jardim. No
romance “Maria Perigosa”, de 1938. Jardim incluiu o célebre cangaceiro no conto
“O Castigo”, em que narra os medos de uma criança de sete pra oito anos de
idade, após ouvir várias histórias de “mau assombro”. O romancista conta que o
menino com muito medo, pensava em Jesus descendo do céu e abraçando sua família
e perdoando seus pecados, assim como “todos da terra, mortos, vivos e até ANDRÉ
TRIPA, o célebre cangaceiro que tinha setenta e tantas mortes”.
A MORTE DE
ANDRÉ TRIPA
Em de 5 de agosto 1904 duas forças volantes, de Pedra de Buíque e de Garanhuns, ambas em Pernambuco, se dirigiram até Capoeiras, então distrito de São Bento do Una, no mesmo Estado, para darem combate ao bando de André Tripa. O grupo de sicários vinha de ferrenha perseguição por parte das volantes, desde que no início de junho daquele ano haviam participado do episódio que ficou conhecido como a “Hecatombe de Correntes”, onde foram assassinadas cinco pessoas: major Francisco (Chico) Missano, chefe político de Correntes, capitão e delegado local, Antônio da Costa Monteiro, o advogado Victor de Albuquerque e Melo, Pedro Alexandrino de Albuquerque e Melo e Agostinho Ferreira da Costa, sendo esse último, afilhado de Chico Missano.
André Tripa
chegou com seus cabras ao Sítio Barra, em Capoeiras, e mandou que a dona da
casa fazer comida e pisar um pinto, pois estava ferido. Os sicários vinham
fugindo das forças com as quais já haviam dado um fogo na localidade Bom
Destino. Enquanto a comida estava sendo preparada, os cabras disseram que queria
beber cachaça, produto que não existia na casa. O dono da casa mandou então que
o seu filho, um garoto com aproximadamente 12 anos, fosse numa bodega buscar a
bebida. Já distante da casa, quando voltava com a cachaça, o menino se topou
com as volantes.
A força de
Garanhuns era comandada pelo alferes Cavalcanti, e a de Pedra de Buíque, do
sargento Joaquim Felix Cavalcante, o Chiquito Vaz. Os homens das volantes
perguntaram ao garoto pra onde ele ia, e esse respondeu que estava indo pra
casa levar bebida que tinha comprado para seu pai. Desconfiados, os militares
perguntaram se em sua casa não tinha chegado uns homens estranhos. O assustado
garoto a princípio negou, mas depois de ser “apertado” pela volante,confessou
que em sua casa havia oito homens e todos muito bem armados. Pronto. A volante
tinha reencontrado o bando de André Tripa.
O FOGO
O alferes Cavalcanti disse ao garoto que ele desse um jeito de avisar aos seus pais que saíssem da casa, pois eles iriam atacar. O menino fez o que lhe foi mandado. Dentro da casa os moradores ficaram tensos com a situação, mas não tinham o que fazer. Foi questão de tempo começar a fuzilaria, pois alguns cangaceiros estavam fora da casa e começaram a atirar assim que avistaram a volante. André Tripa estava dentro da casa sentado à mesa comendo, e quando ouviu os tiros correu para um dos quartos onde ficou atirando pela janela. Em meio ao fogo cruzado, os moradores da casa ficaram atordoados sem saber pra onde correr. Uma mocinha filha do dono da casa usava uma trança, e ao correr foi atingida no chicote do cabelo por um tiro disparado pelo cangaceiro de nome Bala, que atirou para trás enquanto fugia em meio à caatinga.
Dentro da
casa, cercado e debaixo de intenso tiroteio, André Tripa pulou a janela e
tentou fugir pelos fundos da casa onde existia um aprisco cercado de pau a
pique. O sicário tentou pular a cerca quando foi atingido na nuca, voando o
tampo da cabeça, tendo morte imediata. Foi a vitória da força, pois os outros
bandidos já tinham fugido adentrando na caatinga. Em meio às comemorações os
militares notaram um companheiro caído. Era o soldado da volante de Garanhuns
José Pereira da Costa, conhecido por José Veado que estava baleado. O militar
não resistiu aos ferimentos morrendo no local. O sargento Felix Cavalcante
também foi baleado, mas sem muita gravidade.
Ao final da
refrega se contava dois mortos, sendo um deles o célebre André Tripa. Os
militares trataram de recolher os pertences, armas e dinheiro, que segundo
testemunhas era uma considerável quantia. Com a euforia da vitória e com o
dinheiro do cangaceiro morto mais os objetos deixados pelos que fugiram, a
volante foi embora do sítio Barra, nas barrancas do Rio Una, levando os dois
corpos com destino à Garanhuns sem se dar ao trabalho de procurar os outros
bandidos pela redondeza. Já depois de tudo calmo na localidade, moradores
encontraram no meio do mato, cerca de um quilômetro do local do fogo, o corpo
do cangaceiro Bala, que tinha sido atingido durante o tiroteio e fugiu pela
caatinga, vindo a falecer depois. Os moradores da localidade trataram de
enterrar o sicário em um local mais afastado.
De Capoeiras os corpos do célebre bandoleiro André Tripa e do soldado José Veado foram levados a cavalo para Garanhuns, e muitas pessoas se ajuntaram nas ruas da então vila pertencente a São Bento do Una, para ver passar os volantes com o aquele que aterrorizara toda uma região naquele final de século XIX, início do XX.
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